Mercado

União para um café do futuro: o impacto da 12ª edição da SIC

Com o tema em torno de clima, ciência e novos consumidores, a 12ª edição da SIC, que teve recorde de público e negócios, debate a necessidade de conectar todo o mercado cafeeiro

Trabalho conjunto. Um conceito consolidado na cafeicultura atual, a união – seja ela de toda a cadeia ou da integração de olhares de sustentabilidade, transparência e valor dos grãos – foi a demanda que marcou debates, palestras e workshops durante os três dias da 12ª edição da Semana Internacional do Café, um dos mais importantes evento de café do mundo. O evento, que aconteceu entre 20 e 22 de novembro no Expominas, em Belo Horizonte, teve como tema “Como o clima, a ciência e os novos consumidores estão moldando o futuro do café”, e atraiu mais de 25 mil pessoas e motivou a geração de cerca de 80 milhões de reais em negócios iniciados – ambos, números recordes.

Clima e sustentabilidade

As questões sobre clima e sustentabilidade foram as mais discutidas no evento – um reflexo de sua relevância nos cenários nacional e global nos últimos tempos. “O Brasil não está conseguindo produzir café suficiente para atender a demanda, mesmo batendo recordes”, alerta o especialista Haroldo Bonfá, da Pharos Consultoria. Há 40 anos no ramo do café, Bonfá abriu o seminário DNA Café – que traz as principais tendências de mercado – na tarde do primeiro dia, com a palestra “Cenários e perspectivas do cenário de cafés”.

A afirmação de Bonfá diz respeito à conjunção desordenada de seca, geada e chuva tardias, tanto no Brasil como em âmbito global. “Acidentes climáticos vão continuar”, continuou Márcio Ferreira, CEO da Tristão, durante o painel “Visão Global: executivos discutem os atuais desafios e oportunidades do setor”. “E medidas isoladas não são a solução”, emenda Marco Valério Brito, presidente da cooperativa Coccamig (MG). Mas, além dos desafios enfrentados pela cadeia cafeeira, foram apontadas possíveis soluções.

Nunca o setor esteve tão unido, relataram vários palestrantes. Exemplo disso é o compartilhamento de
sementes de uma nova variedade de arábica – a star 4 (com período menor de crescimento e alta tolerância à ferrugem) recém-lançada pela Nestlé depois de mais de dez anos de pesquisas – com a cadeia produtiva. “Se antes praticávamos uma agricultura sustentável, hoje incentivamos uma agricultura regenerativa”, diz Valéria Pardal, CEO de cafés da Nestlé Brasil, que participou do mesmo painel, referindo-se aos cuidados com o solo e com a água e à preservação da biodiversidade.

Geografia de consumo

A geografia de consumo também vai mudar – e o Brasil produtor pode ganhar muito com isso. “Essa
mudança será rápida e drástica”, acredita Ferreira, fazendo menção aos mercados emergentes. “E essa geografia vai demandar mais e mais produção, precisão de tecnologia, ciência e bom preço”, conclui ele.

“Temos um potencial tremendo, pois somos competitivos em preço e em qualidade, e temos que valorizar isso nos mercados lá fora”, incentiva Bonfá. O especialista refere-se tanto às oportunidades, como são os mercados emergentes China e Índia (países populosos e que ainda bebem pouco café), quanto à necessidade de manutenção dos países já conquistados. Para se ter uma ideia, a China, por exemplo, bebe 300 g de café per capita ao ano e a Índia, 60 g. Mas o trabalho, frisou ele, é longo. “Temos todo o espectro de café necessário”, anima-se o especialista.

O futuro será gelado

Outro desafio – essencial para o sucesso do setor – é conquistar, também, as novas gerações. “O futuro do café é gelado”, prevê Valéria, referindo-se ao crescente mercado de bebidas geladas. Segundo ela,
para as novas gerações de consumidores brasileiros, os cafés gelados funcionam como fonte de energia e
momento de “indulgência”.

O perfil dos novos consumidores voltou à cena no painel “O impacto das megatendências no consumo de café”, que destacou diversidade de sabores, inovação e qualidade, além da sustentabilidade como grandes termômetros no mercado cafeeiro. “As pessoas hoje em dia buscam saúde, e estão abertas a novas experiências”, acrescenta Celírio Inácio da Silva, CEO da Abic. “Hoje em dia, são pequenas sutilezas que o consumidor busca na origem”, emenda Brito.

Trabalho somado. É essencial compreender o consumidor, que busca conhecimento, novas experiências e, acima de tudo, um café alinhado aos princípios ESG. Rastreabilidade, portanto, também está no centro das discussões atuais.

Mas sustentar o crescimento do mercado e enfrentar a emergência climática requer ações integradas. “A agricultura regenerativa é sistêmica”, afirma Felipe Salomão, gerente-sênior de assuntos públicos da Nestlé Brasil, durante o painel “COP 30: e eu com isso?”. Salomão destaca, também, a importância da gestão: “De caixa, de sucessão, de financiamento – é preciso equilíbrio”. “Não existe revolução verde no vermelho”, lembra ele.

O valor da economia verde

Essa visão balanceada é compartilhada por José Donizeti Alves, professor titular da UFLA, que abordou os impactos climáticos no café sob os aspectos produtivos e sustentáveis no painel “Desafio climático: seus impactos e soluções verdes para uma nova era sustentável”. “A cafeicultura sustentável exige um equilíbrio delicado entre produção e sustentabilidade”, resume o especialista, trazendo à tona o desafio central para o setor.

Integração. Como converter, por exemplo, economia verde em valor? A pergunta motivou a contribuição de Daniel Vargas, professor da FGV RJ e coordenador do Observatório de Bioeconomia da FGV, durante o mesmo painel. Vargas enfatizou a importância de integrar recursos e serviços naturais à economia, atribuindo a eles valor econômico e tornando-os visíveis e precificáveis. Segundo ele, a bioeconomia (como os créditos de carbono) pode ser uma oportunidade econômica para o Brasil – desde que consideradas as particularidades das economias tropicais.

“O futuro é a integração entre saúde e bem estar, sustentabilidade e sabor”, resume Stefan Dierks, diretor de estratégia de sustentabilidade do grupo Melitta da Alemanha, no painel sobre o impacto das megatendências no consumo de café. “E a única forma de alcançarmos isso é trabalhando juntos”.

Dierks em fala durante “O impacto das megatendências no consumo de café”

A ciência dos cafés

A ciência é a grande aliada da sustentabilidade na cafeicultura, e deu o tom do segundo dia de SIC, especialmente nos encontros do Fórum de Agricultura Sustentável, que está em sua 11ª edição. O trabalho conjunto dos agentes da cadeia, a multidisciplinaridade do conhecimento científico e as práticas regenerativas no campo surgiram como aspectos fundamentais para vencer os desafios das mudanças climáticas.

“A ciência tem um poder de transformação gigantesco”, diz Enrique Alves, pesquisador da Embrapa Rondônia e especialista em qualidade dos Robustas Amazônicos, em depoimento à Espresso depois de mediar o painel “A força da ciência nas questões de clima, solo, variedades e consumo”. “Ela envolve tudo que é importante para a produção de cafés, desde commodities até especiais. Envolve questões de solo, de ambiente e de genética, e o domínio desses conhecimentos é importante para extrair o máximo para ter produtividade, qualidade e segurança alimentar”, explica ele.

Regenerar é construir

A tecnologia e a ciência voltadas para o campo como potenciais da cafeicultura brasileira foram debatidos, de fato, ao longo do dia. O destaque do painel “Revolução verde: exemplos da nova economia sustentável”, foram cases de sucesso na redução da pegada de carbono na cafeicultura, como um estudo da potencialidade das práticas regenerativas (em comparação com a agricultura tradicional) em relação ao sequestro de carbono em conilons do Espírito Santo e o desenvolvimento de um fertilizante verde pela empresa Yara, em parceria com a cooperativa Cooxupé (em Guaxupé, Sul de Minas). “A potencialidade da agricultura brasileira, o modo como ela é feita hoje, é uma grande solução nas mudanças climáticas”,
diz Natália Amoedo, fundadora da Pipah e mediadora do painel. “O Brasil tem a oportunidade de dar novos passos, pensando em tecnologia e, principalmente, testando novos modelos de negócios, como os colaborativos”, completa.

“Regenerar significa reconstruir”, ensina Eduardo Sampaio, consultor sênior da Plataforma Global do Café (CGP), que recorreu à história da agricultura para tratar do tema no painel “ABC do Regenerativo: fundamentos e retornos econômicos para o produtor”, em que atuou como mediador. Sampaio destacou, ainda, a necessidade de um pensamento sistêmico e multidisciplinar para encarar os desafios atuais na cafeicultura. “Não há como mudar as mudanças, mas há como minimizar seus impactos através da agricultura regenerativa acoplada à ciência”, completou Alessandro Hervaz, vice-presidente da cooperativa mineira Coopervass, que há um ano criou o projeto Greencoffee, de práticas de cultivo
responsável e que envolve cerca de 30 produtores de café.

“As práticas regenerativas são um caminho sem volta”, pontuou Adriano Ribeiro, coordenador de sustentabilidade da NKG Stockler, no mesmo painel. E “sua reconexão com a academia é um alicerce maior para as mudanças em vigor”.

A agricultura regenerativa não é uma moda passageira. Diversas falas dos palestrantes ao longo dos três dias de evento foram alimentadas por dados científicos, que embasaram os avanços na produção de grãos de cafeicultores que adotam a agricultura regenerativa quando o assunto são os desafios climáticos.

Apesar disso, ainda existem barreiras que precisam ser quebradas, e um dos caminhos é a informação correta, como destacou Sampaio. Além disso, a AR ainda carece de valoração específica, uma demanda dos produtores que há muito a praticam. Isso será compensado em 2025, quando a Rainforest Alliance pretende lançar uma certificação para ela. “Teremos um módulo específico para AR”, promete Yuri Feres, diretor da Rainforest Alliance Brasil. “Não há dúvidas científicas da resiliência dos cafés que têm práticas regenerativas”, reforça Ribeiro.

Outra ferramenta fundamental para enfrentar os desafios climáticos é a genética. É o que apresentaram pesquisadores no painel “Tecnologias genômicas e a transformação da produção de café”, que aconteceu em sala paralela à do fórum.

Segundo eles, desde 2002 projetos vêm estudando o genoma das duas espécies de café de valor econômico. Em 2014, com colaboração internacional, foi desvendado o genoma completo do canéfora. Em 2024, o genoma da espécie arábica foi concluído. A importância disso? Acelerar o trabalho dos melhoristas do café no desenvolvimento de novas variedades com demandas atuais, como tolerância à seca e a doenças e que tenham qualidade sensorial, a partir do uso de marcadores que auxiliam na “construção” de novas variedades. “A pesquisa científica está sempre antenada, e com muita antecedência”, lembra Luiz Filipe Pereira, da Embrapa Café.

“Qualquer variedade pode entregar bebidas acima de 90 pontos”, garante o pesquisador de cafés especiais do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) Gerson Giomo, referindo-se às qualidades intrínsecas dos cafés. “Elas só precisam estar em ambientes favoráveis para expressarem seu potencial genético”, ensina o especialista, no já citado painel sobre ciência, clima e solo.

A ciência do solo também está na ordem do dia. Estudos recentes mostram que ele tem características “invisíveis” (referindo-se aos minerais que compõem a argila do solo), identificadas a partir de procedimentos magnéticos e que “impactam na capacidade das plantas em produzir cafés de qualidade”, diz o especialista em solos Diego Siqueira, CEO da Quanticum.

Mercado sustentável

Outro tema que não pode ficar de fora foi a lei antidesmatamento europeia. As discussões sobre os recentes desdobramentos da EUDR, feitas durante o painel “Brasil e as novas regulamentações da UE: ameaça ou oportunidade?”, apontaram que, apesar dos desafios impostos, o Brasil possui condições favoráveis para consolidar e expandir sua presença no mercado europeu de café, aproveitando a crescente demanda por produtos sustentáveis.“De janeiro a outubro, as empresas já se programaram para as novas regras”, explica Marcos Matos, diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), referindo-se, ainda, ao aumento de 54,5% de exportação de café para União Europeia.

Segundo ele, também, a Alemanha ultrapassou os Estados Unidos como principal importador de cafés brasileiros nesse período. “Para nós, a EUDR tem se mostrado um aspecto positivo, uma oportunidade para mostrarmos, com promoção da imagem, a nossa real sustentabilidade”, completa, não sem destacar a realidade difícil de outros países produtores nesse contexto.

O segundo dia do evento ainda fechou com o lançamento da plataforma de rastreabilidade das Indicações Geográficas (IGs) de café e do livro A Revolução do Café Brasileiro – Regiões com Indicação Geográfica.

A Plataforma de Rastreabilidade das Indicações Geográficas (IGs) de Café, denominada Origem Controlada Café, é uma iniciativa conjunta do Sebrae, da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e do Instituto CNA, e busca fortalecer o controle e a rastreabilidade dos grãos brasileiros com IG no Brasil a partir da reunião e monitoramento de dados das 15 IGs brasileiras de café. Com tecnologias como blockchain e geolocalização, a ferramenta abrange mais de 100 mil produtores em 424 municípios. Por meio dela, é possível acessar informações sobre os produtores, locais de cultivo, qualidade e características sensoriais dos cafés, atendendo às exigências do mercado por transparência e garantia de origem.

A SIC é uma realização de Sistema Faemg, Espresso&CO., Sebrae e Governo de Minas Gerais. Tem o apoio institucional do Sistema OCEMG e patrocínio da CODEMGE, 3corações, Nescafé, Nespresso, SICOOB, Yara, Melitta e Senar.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO NITRO/Semana Internacional do Café

Cafezal

Carvão biológico: entenda o que é biochar e por que ele é tão importante

Feito, entre outros materiais, das cascas do café, o biocarvão ajuda a cafeicultura a ser mais resiliente e a mitigar mudanças climáticas

O biocarvão, ferramenta promissora para a agricultura eficiente e de baixo impacto ambiental, tem mobilizado cientistas e empresas no Brasil – especialmente o que é feito de resíduos do café. Sua produção em larga escala no país vem sendo protagonizada pela NetZero, e a JDE Peet’s Brasil, recentemente, comunicou investimentos na sua utilização.

Estudos científicos sobre biocarvão ganharam força na última década, mas ainda são poucos os trabalhos sobre os que são feitos da casca do grão, especialmente em condições de campo. Pesquisadores e empresários ouvidos para esta reportagem garantem, porém, que sua aplicação é a alternativa mais efetiva para melhorar a qualidade do solo e para o sequestro de carbono na cadeia do café.

A natureza do biocarvão

Biocarvão (ou biochar, em inglês) é o termo usado para o carvão vegetal feito a partir de qualquer matéria-prima orgânica, em altas temperaturas, na ausência ou com pouco oxigênio disponível e aplicado no solo, com o qual interage profundamente.

Os benefícios são inúmeros. “O biocarvão melhora as composições química, física e biológica do solo”, resume o engenheiro agrônomo Cristiano Andrade, doutor em solos e nutrição de plantas e especialista em matéria orgânica do solo da Embrapa Meio Ambiente. “Ele permite que o solo possa reter mais água e mais nutrientes”, ensina Leônidas Carrijo de Melo, doutor em ciências do solo da Escola de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e especialista em biocarvão.

Em termos físicos, o biocarvão aumenta a porosidade da terra, aprimorando sua aeração. “Isso melhora o ambiente para o desenvolvimento das raízes”, explica Andrade, que trabalha há mais de dez anos com biocarvões.

O melhor desenvolvimento das raízes, por sua vez, aprimora a absorção de nutrientes na terra, ao mesmo tempo em que o próprio biocarvão atua como fonte nutritiva. Segundo Andrade, alguns tipos de biocarvão são materiais ricos em fósforo, potássio, cálcio e magnésio, alimentos importantes para a planta. Seu uso diminui ou, até, dispensa alguns fertilizantes.

Sequestrando carbono

Responsáveis por potencializar a produção dos cultivos desde o fim do século XIX, os fertilizantes usam combustíveis fósseis para sua produção e têm o nitrogênio (N) como um de seus ingredientes-base. Mas, na forma de óxido nitroso (N2O) – resultante da transformação microbiológica no solo (desnitrificação) e que é liberado na atmosfera –, ele se torna quase 300 vezes mais poluente do que o carbono na forma de CO2.

Num país que figura como o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo e sendo a agropecuária a maior emissora de gases do efeito estufa (greenhouse gases, em inglês, ou GHG), o uso de biocarvão é, de fato, um recurso significativo.

Mas o biocarvão tem sido valorizado, principalmente, por sua capacidade de sequestrar, ou seja, de reter o carbono no solo por um longo tempo. O relatório do IPCC de 2018 já alertava para o fato de que a redução nas emissões dos GHG não é suficiente para limitar o aquecimento global em 1,5ºC, e listou o biocarvão entre as tecnologias capazes de sequestrar carbono de maneira importante para mitigar as mudanças climáticas.

O principal componente químico do biocarvão é o carbono. Termicamente alterado pelo processo de pirólise (veja ao final da reportagem, no texto “A química do carvão”), o biocarvão pode durar dezenas de anos no solo, o que cria na terra um grande estoque de carbono. “Se o carbono fica no solo, ajuda a reduzir os gases do efeito estufa”, lembra Andrade. “O biocarvão interfere diretamente no ciclo de carbono da natureza”, resume Melo, da UFLA.

A UFLA é parceira da JDE Peet’s Brasil – empresa líder mundial na produção de cafés e chás que agrupa várias marcas, como Café Pilão e Café do Ponto – na investigação dos benefícios do biocarvão na cafeicultura. O estudo, que está sendo realizado numa fazenda da NKG Fazendas Brasileiras, em Santo Antônio do Amparo (MG), e é conduzido pelo grupo de pesquisas coordenado por Melo, busca avaliar o efeito do biochar da casca de café na produtividade da cafeicultura, definir suas dosagens e verificar seu impacto na qualidade sensorial da bebida.

“Precisamos de inovações e tecnologias escaláveis para que os produtores possam produzir cafés com pegada de carbono zero”, explica Bruno Ribeiro, coordenador de compras responsáveis da companhia. Por isso, a JDE Peet’s comunicou, em julho, que está incentivando o uso do biocarvão de casca de café entre cafeicultores brasileiros, o que ajuda a promover a economia circular ao utilizar os resíduos de café na cadeia que os produz. “Esse estudo pode ser uma solução para aumentarmos o conhecimento sobre biochar na cafeicultura, já que há pouca informação sobre essa tecnologia”, analisa.

Não é adubo

O uso de sobras do café na lavoura não é novidade. Muitas fazendas utilizam as cascas secas como adubo há décadas. Mas biocarvão não é adubo, mas um condicionador de solo – que contribui para melhorar suas propriedades. Depois de uma complexa teia de processos químicos, o produto pode aumentar a eficiência dos fertilizantes. “Queremos que o biocarvão melhore a interação do solo com o adubo, man-
tendo o nitrogênio disponível para a planta por mais tempo, o que resulta em maior eficiência do adubo e seu uso em menor quantidade”, explica Melo, referindo-se à perda de quase metade da quantidade de fertilizante aplicado no solo por lixiviação, volatilização e desnitrificação (outro objetivo da pesquisa que ele coordena é, justamente, avaliar a possibilidade de redução da adubação nitrogenada).

A redução do uso de fertilizantes nas lavouras de café varia com as práticas locais e o tipo de solo. “Mas ela pode ser significativa, da mesma ordem de grandeza do aumento da produtividade”, afirma Olivier Reinaud, cofundador e diretor geral da greentech francesa NetZero, primeira empresa a produzir biocarvão no Brasil e única no mundo a fazê-lo das cascas do café.

Segundo Reinaud, além de fazer a lavoura produzir mais e de reduzir os custos do produtor com o uso de adubos, o biocarvão também agrega valor às culturas. “Já estamos vendo grandes empresas comprando culturas produzidas com biochar com um prêmio de preço para reconhecer sua maior sustentabilidade”, comenta. “Essa é uma grande oportunidade para os agricultores”.

Até 2020, não era possível certificar créditos de remoção de carbono de indústrias de biocarvão. Assim, os projetos tinham como única fonte de receita a venda do produto aos agricultores. As grandes empresas que compram esses créditos só desembolsam dinheiro para adquirir os que são certificados. A NetZero tem rastreabilidade na produção de seu biocarvão, e conseguiu certificação para emitir os créditos. “Para ter seus créditos comercializados, o biocarvão deve ser produzido com especificações, como temperatura adequada, por exemplo, para que se tenha a garantia de que ele é estável e que volta para o solo”, explica Melo. O dinheiro da compra dos créditos viabiliza o negócio, que, ao final, traz retorno econômico para os produtores de café.

Escala industrial

Pioneira na produção industrial de biocarvão de cascas de café, a NetZero conta com uma fábrica em Camarões e duas no Brasil, em Lajinha (MG) e em Brejetuba (ES) – esta, inaugurada em junho. Criada em 2021 e sediada em Paris, a NetZero é quem vende o bio carvão que a JDE Peet’s Brasil usa em seus estudos.

As duas fábricas da NetZero ficam próximas da Coocafé (Cooperativa dos Cafeicultores da Região de Lajinha), que conta com mais de dez mil cooperados. Isso porque o modelo de negócio da empresa francesa é formar parcerias: os custos da produção e do transporte da biomassa e do biocarvão são divididos entre os cooperados e a empresa. Cerca de 800 produtores associados fornecem a biomassa para as duas usinas. Em contrapartida, dispõem, sem custo, de parte do biocarvão, e compram outro tanto com desconto. “Produzir biocarvão com cooperativas é um modelo excelente”, acredita Andrade.

A implantação de uma fábrica em área próxima à fonte que fornece o resíduo e faz, posteriormente, uso do biocarvão reduz os custos de transporte e simplifica a logística. O engenheiro agrônomo Jefferson Carneiro, especialista em biocarvão e que trabalha com a startup francesa para produzir dados científicos que ajudem na compreensão do biocarvão de café, destaca a importância do modelo. “A parceria entre indústria, instituições de pesquisa e produtores é necessária para o avanço na cafeicultura e no desenvolvimento desses produtos”, afirma.

“O biochar é uma solução altamente estratégica para uma potência agrícola como o Brasil, pois o produto atende à maioria dos desafios atuais da agricultura”, comenta Reinaud. Um deles é o custo: biocarvão é um produto caro para ser feito em larga escala. Embora sua produção artesanal seja relativamente fácil, diz ele, sua elaboração em escala industrial com segurança e qualidade é bem mais complexa.

A maior parte da produção de biocarvão está na América do Norte, na Europa e na China. “São empresas que geralmente produzem quantidades menores de biocarvão, a um custo bem mais elevado, utilizando resíduos de madeira em vez de resíduos agrícolas como matéria-prima e sem usar um modelo de economia circular”, pontua.

É difícil avaliar a quantidade de biocarvão fabricada no mundo, pois a produção industrial existe há pouco tempo. “Por enquanto, os volumes são bem pequenos, mas estão crescendo rapidamente, com o surgimento de muitos projetos em todo o mundo agora que o biocarvão foi totalmente reconhecido cientificamente e que modelos como o da NetZero estão tornando a produção em grande escala mais acessível”, analisa o diretor geral. Nas duas fábricas, a empresa planeja produzir 8,5 mil toneladas de biocarvão por ano.

Por dentro do biocarvão

A maioria dos estudos sobre biocarvão ainda são feitos fora do país. Na Colômbia, dados de um experimento com o produto na cafeicultura animam Carneiro.

“Após um ano de aplicação, a produtividade dos cafezais aumentou 33%. Esse aumento se manteve nos dois anos seguintes do experimento”, detalha ele, que é doutor em ciências do solo na área de fertilidade e nutrição de plantas e conduz os experimentos de biocarvão de café da NetZero na Fazenda Recanto, em Machado, no Sul de Minas.

É em Machado, aliás, que a empresa francesa planeja, ao lado da Eisa Interagrícola (uma das maiores tradings de café e algodão do país e subsidiária do grupo suíço ECOM), construir sua terceira fábrica brasileira.

Os experimentos na Fazenda Recanto ainda estão em fase inicial, mas a NetZero também conduz pesquisas em outras propriedades. Um exemplo são os testes feitos em Afonso Cláudio (MG). O produtor Carlos Tristão de Souza, da Fazenda Bom Jardim, comemora os primeiros resultados: um aumento de até 70% na produção de frutos maduros em 400 pés de café arábica plantados a 320 m de altitude e nos quais utilizou o biocarvão. Isso resultou em 40 sacas a mais por hectare, segundo divulgou a NetZero em seu Instagram.

Reportagem de 2023 da revista Pesquisa Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) informa que, em estudos controlados feitos na última década, o uso de biocarvão aumentou a produtividade agrícola em até 50%, o crescimento das raízes em 30% e reduziu em cerca de 20% o uso de fertilizantes. Andrade cita outros deles: “Estudos de meta-análise [que analisam estatisticamente vários estudos independentes sobre o mesmo tema para integrar e sintetizar seus resultados] indicam que o biocarvão foi responsável por uma redução média de 50% na emissão de N2O do solo”, conta.

Já o IAC (Instituto Agronômico de Campinas) e a Embrapa Meio Ambiente ampliaram os estudos com biocarvão de café ao aproveitar a borra, gerada na produção de café solúvel, e o pergaminho, que sobra do despolpamento. Incorporados ao solo, ambos foram eficientes na redução de contaminação por metais pesados e melhoraram a qualidade da terra.

Outra vantagem do produto é a ausência da emissão de metano, que ocorre durante a decomposição da palha (como também é chamada a casca residual) do café como adubo convencional. Por fim, há a praticidade – apenas uma aplicação na lavoura pode ter efeito por vários anos (por causa da estabilidade do material no solo).

Porém, utilizar biocarvão não é tão simples, pois varia de acordo com suas propriedades, definidas em função do tipo de matéria-prima e de parâmetros como tempo e temperatura da queima. Há, também, obstáculos a ultrapassar, como o desconhecimento do produto.

“Precisamos apresentar o produto aos agricultores, e eles precisam ser convencidos”, diz Reinaud. “Quanto mais informação técnica e estudos com maior embasamento e conhecimento científico, mais segurança para os produtores testarem uma nova tecnologia”, concorda Ribeiro. Reinaud, porém, garante que a adoção do biocarvão está aumentando rapidamente. “Todos os resultados que estamos obtendo são muito consistentes com a literatura [científica]”, alegra-se.

Outra questão é seu registro. “Não há uma legislação específica para biocarvão no MAPA”, explica Melo. O produto da NetZero conseguiu ser registrado em 2023 como biochar de casca de café, mas seguindo a legislação de condicionador de solo. Se ela ou alguma empresa quiser produzir biocarvão a partir do pergaminho, por exemplo, terá que começar o registro, literalmente, do zero. “Há um movimento de pesquisadores que enviaram manifestações sobre isso ao ministério”, adianta Andrade.

Mas os benefícios do biocarvão ultrapassam, e muito, essas dificuldades transitórias. Ao oferecer uma abordagem viável e inovadora para a captura de carbono, a melhora da qualidade do solo e a promoção da economia circular, o biocarvão já é uma ferramenta do presente para enfrentar os desafios climáticos – especialmente no Brasil, abundante em resíduos agrícolas e em potencial de pesquisa e de produção industrial.

Para saber mais: A química do carvão

A pirólise (do latim, quebra pelo calor, ou seja, decomposição térmica) de resíduos orgânicos resulta em um composto definido como biocarvão. Em altas temperaturas e baixa concentração de oxigênio (ou total ausência dele), a pirólise produz um biocarvão altamente estável e rico em carbono. “Entre 550 e 600°C, o carbono da biomassa da casca de café se transforma e permanece no solo”, explica Melo. Essa estabilidade a que Melo se refere resulta de sua composição química – as chamadas estruturas aromáticas.

Estruturas aromáticas são anéis hexagonais (a representação química é semelhante a uma colmeia de
abelhas) formados por uma cadeia fechada de carbonos denominados estruturais, pois, sendo difíceis de quebrar (e, portanto, estáveis), não ficam disponíveis para serem degradados por microorganismos, permanecendo “trancados” no solo por centenas de anos.

Durante a pirólise – que acontece em fornos/pirolisadores em cerca de 20 minutos –, fatores como
o pH, a concentração de macronutrientes (potássio, fósforo, cálcio e magnésio) e o acúmulo de carbono
em sua composição mudam. Os resultados do uso da formulação também variam, dependendo das
características da matéria-prima, da temperatura de pirólise e sua duração, além da relação entre ela e o ambiente em que foi aplicado.

Já se sabe, por exemplo, que em biocarvões derivados de madeira, o alto teor de carbono estável aumenta a quantidade deste elemento químico no solo. Já, os derivados de esterco servem como fonte
de nutrientes. Biocarvões de resíduos de culturas agrícolas, como o café, têm potencial para cumprir
as duas funções.

Como não se pode medir diretamente (ou de maneira simples) a qualidade de um solo – leia-se seu funcionamento, como, por exemplo, a capacidade de reter ou não a água –, os agrônomos utilizam indicadores para avaliá-lo. Um deles é a quantidade de carbono ou de matéria orgânica contida nele.

Texto originalmente publicado na edição #85 (setembro, outubro e novembro de 2024) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Cristiana Couto (com colaboração de Gustavo Paiva) • FOTO Divulgação • ILUSTRAÇÃO Pamella Moreno

Mercado

Café POR ELAS chega em espresso e coado à Le Jazz Boulangerie (SP)

A padaria franco-paulistana também vende quatro opções em pacote

A torrefação Café POR ELAS acaba de estrear na Le Jazz Boulangerie. A padaria franco-paulistana do Grupo Le Jazz agora serve café nos métodos espresso e coado desenvolvidos pelas irmãs Nadia e Julia Nasr, que torram cafés de mais de 20 produtoras. Outras opções são vendidas no pequeno empório da boulangerie. 

“Escolhemos um café bem doce e encorpado. A ideia é que as casas tenham um espresso redondo e consigam manter a consistência, por isso escolhemos máquina e moinhos de excelente qualidade e estamos investindo em capacitação para a equipe”, diz Nadia.

O espresso, que também é comercializado nas quatro unidades do Le Jazz, a brasserie do grupo, e o coado são da variedade catuaí vermelho da produtora Priscila Mazzarini Cezar do Couto, de Ibitiúra de Minas (MG). No fim de semana e feriados, a unidade do Le Jazz Brasserie no Pátio Higienópolis também serve o mesmo café no método coado ao longo do serviço de brunch. 

Para quem quiser levar os grãos pra casa em pacotes de 250 g, as opções vendidas na boulangerie – todas varietais – são os catucaís vermelhos Ajuda quem cedo madruga (R$ 36) e Bonito por natureza (R$ 51), o catuaí vermelho Pausa pro café (R$ 48) e a variedade arara Se faz feliz, faz café (R$ 52). 

Endereços:
Le Jazz Boulangerie
(R. Joaquim Antunes, 501 – Pinheiros – São Paulo – SP – tel. 11/3085-0576)
Le Jazz Higienópolis (Av. Higienópolis, 618 – Piso Pacaembu – Higienópolis, São Paulo – SP – tel. 11/3823-2684) 

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Barista

Juan Gomes, da Abigail Coffee Company, vence 1ª edição da Origami Cup Brasil

Pódio campeão: Priscila Gusmão, Juan Gomes (ao centro) e Kaio Henrique Dias

A noite de sexta (13) foi de muita agitação e boa música na Café Store, em São Paulo (SP), com a realização da 1ª edição da Origami Cup Brasil. Com uma plateia repleta de coffee lovers e profissionais do mercado, a competição reuniu 27 competidores de diferentes regiões do país. O objetivo era apenas um: a busca pelo título de melhor extração no método japonês Origami. Quem levou o primeiro lugar foi o barista Juan Gomes, da Abigail Coffee Company, de Campinas (SP).

Após disputas de chaves de três, Gomes dividiu a grande final com a autônoma Priscila Gusmão, de Indaiatuba (SP), e Kaio Henrique Dias, da Casa 44, de São Vicente (SP). Na xícara que o consagrou vencedor, escolhida às cegas pela banca avaliadora da vez – Garam Um (Um Coffee-SP), Guilherme Duarte (Empírico Café-SP) e Angélica Luizz (Joana Cafés-SP) – Gomes preparou a bebida utilizando a receita: 17,8 g de café para 250 ml de água, com a extração dividida em três ataques, totalizando até 2 minutos e 20 segundos. 

O primeiro ataque foi de 50 ml de água até 30 segundos, depois o barista completou até 180 ml e, quando o tempo de preparo alcançou 1 minuto e meio, adicionou os últimos 70 ml, com este ataque sendo bem agressivo para que a extração fosse rápida e terminasse em 2 minutos e 20 segundos. 

Disputa da final

“Ganhar a Origami Cup é uma resposta divina, porque há poucos meses eu estava em dúvida se fazia faculdade ou seguia carreira como barista. Cheguei na minha barista líder e perguntei se o café dava futuro, porque se desse eu iria me dedicar. Isso é uma resposta de que se você se esforçar, você consegue fazer o que quiser”, conta o campeão,  que começou a trabalhar com café em 2023, está na Abigail há sete meses, e hoje já comemora a primeira colocação em sua primeira competição.

Para os três primeiros lugares, a Origami trouxe, diretamente do Japão, troféus em formato do método nas cores ouro, prata e bronze. Os finalistas também receberam prêmios em dinheiro.

Troféu personalizado para a Origami Cup Brasil 2024

“A Origami Cup busca unir toda a comunidade e proporcionar um ambiente onde as pessoas possam se arriscar, experimentar e treinar com cafés, métodos e equipamentos novos”, comenta Melissa Hsu, diretora-executiva da Origami Brasil, sobre a primeira edição brasileira da competição, que começou em 2019 na Indonésia e hoje acontece em mais de 14 países. “É um método que traz muita versatilidade e possibilita que o competidor arrisque várias receitas”, completa.

A 1ª edição da Origami Cup no Brasil teve patrocínio da Atilla Torradores e da Cropster. O café oficial foi cultivado pela Capadócia Coffees, de São Gonçalo do Sapucaí, Mantiqueira de Minas, e torrado pela 15 Coffee Company, de Sorocaba (SP).

TEXTO Gabriela Kaneto • FOTO Gabriela Kaneto

Mercado

Café torrado vai aumentar até 30% em 2025

Aumento é reflexo dos preços altos do café verde e de estimativas da produção brasileira; para especialista, consumo não cairá no âmbito doméstico 

Com o preço do café verde nas alturas e as expectativas de quebra de produção para a próxima safra causada pelos desafios do clima, empresas como Melitta, 3corações, e JDE Peet’s (fabricante de marcas como a L’Or) decidiram repassar os preços aos consumidores, informa a Reuters

O aumento de preços para o ano que vem alcança 30%, segundo fontes consultadas pela Reuters na quinta (12). De acordo com a agência de notícias, a Melitta já aumentou os preços de seus cafés em 25% em dezembro e a 3corações, em 10%. 

“A aquisição da matéria prima compõe de 40% a 60% do custo de produção das torrefadoras. Devido à sua magnitude, é praticamente impossível postergar repasses”, explica o especialista Celso Vegro, pesquisador científico do Instituto de Economia Agrícola (IEA). “Entretanto, pode-se incrementar o blend com conilon para tentar adiar esse repasse”, sugere ele. “Outra questão é a competição impressa pelas marcas de combate que não tem na qualidade o atributo que mais se destaca”, completa (confira a análise global dos preços do café pelo colunista do CaféPoint aqui).

Na terça-feira (10), o mercado futuro do arábica alcançou o maior valor desde 1977 (consequência da geada negra no norte do Paraná em 1975, então o maior produtor brasileiro de café), rompendo a barreira de US$ 3 a libra peso, num cenário de valorização do grão em torno de 80% este ano. 

Em palestra de abertura da Semana Internacional do Café (SIC), no fim de novembro em Belo Horizonte, Haroldo Bonfá, da Pharos Consultoria e há 47 anos no mercado de café, já alertava: “O Brasil não está conseguindo produzir café suficiente para atender a demanda, mesmo batendo recordes”.

Relatórios recém-divulgados por duas das principais traders de café do mundo refletem o cenário preocupante da oferta de grãos brasileira: a Volcafe previu um déficit global de até 8,5 milhões de sacas em 2025/26 – o quinto déficit consecutivo –, enquanto a alemã Neumann Gruppe GmbH, menos pessimista, projetou o déficit em 2 milhões. A causa apontada foi o pegamento abaixo do ideal das cerejas. 

O relatório da Neumann também destaca uma demanda global de café estanque, semelhante à 2023/24 (que esteve abaixo de 170 milhões de sacas em 2024/25), por conta dos altos custos do café verde, que impactam os preços. No relatório também, a projeção da próxima safra brasileira gira em torno de 40 milhões de sacas de arábica, contra 34,4 milhões projetada pela Volcafe

Estimativas assim divergentes refletem as incertezas atuais no mercado de café, influenciadas pelas condições climáticas do Brasil e pelas flutuações na demanda global pelo grão. Mas há falta de café no mercado? “Criou-se um sentimento de que vai faltar café”, analisa Vegro. “Esse sentimento cresceu e se transformou em pânico. Com minha experiência de várias décadas acompanhando esse mercado, a indução dos preços faz aparecer produto”, continua o especialista. Mas também não posso negar que teremos um 2025 com alguma dificuldade de abastecimento”. 

Nesta semana, também, dados sobre a safra 2024/25 de robusta do Vietnã (entre 26,67 e 28,33 milhões de sacas), divulgados pela Vicofa (Associação de Café e Cacau do Vietnã), indicam um volume abaixo da média prevista por analistas independentes (28,5 milhões de sacas), embora tenha havido, em 2024, um aumento tanto nas exportações, de 9% (23 milhões de sacas), quanto no consumo interno (entre 4,5 e 5 milhões de sacas).

É um momento de oportunidade para os canéforas brasileiros, já que o recorde de exportações de cafés canéfora alcançados este ano, explica o especialista, é um reflexo da incapacidade do Vietnã em honrar seus compromissos de venda de robusta por causa da estiagem severa pela qual passou. “Os importadores voltaram para o Brasil em busca de suprimentos”, diz Vegro. 

“O Brasil vive um momento ímpar de crescimento da economia, com baixo desemprego e alta dos salários”, contextualiza o especialista que acrescenta que, embora a alta dos preços do café possa afetar negativamente o consumo fora do lar, haverá um reforço nas preparações domésticas. “Assim, com mais conilon e preços dentro das margens de possibilidades dos consumidores, passaremos por essa crise sem mortos e feridos”.

TEXTO Cristiana Couto (Fontes: Reuters, Comunicaffe International, Bloomberg)

Barista

Saiba o que é coffee omakase

Serviço de degustação de cafés que é tendência no Japão, chega a São Paulo

Imagine sentar-se no balcão de uma cafeteria e receber uma série de cafés diferentes, feitos a partir de grãos raros, cuja curadoria foi pensada especialmente para mexer com os sentidos. O cliente não escolhe nada – nem o método de preparo –, apenas recebe as xícaras e comidas que harmonizam com as bebidas.

A tendência, que invadiu as cafeterias no Japão e começa a se espalhar por outros países, também aterrissou em São Paulo nas cafeterias Pato Rei, em Pinheiros, e Catarina Coffee and Love, na Vila Mariana.

Sem tradução para o português, o coffee omakase é um serviço em que o consumidor tem a experiência única, e em etapas, de provar diversos cafés pelas mãos de baristas altamente qualificados.

Criado no Japão e inspirado no tradicional oma kase – em que os clientes de um restaurante que serve sushis confiam na escolha do chef e experimentam pratos sazonais, feitos com ingredientes disponíveis no dia (confira o texto “Nas mãos do sushiman”, ao final da reportagem) –, a experiência com café surgiu durante a pandemia da Covid-19, como estratégia das torrefações em servir cafés exclusivos e de pequenos lotes.

Em Tóquio, um dos primeiros a oferecer a experiência foi o Koffee Mameya Kakeru, aberto em 2011 num antigo armazém de livros, no distrito de Kiyosumi-Shirakawa. “Começamos o omakase em 2021, após anos construindo um relacionamento com nossos clientes, fornecedores e torradores’’, garante o proprietário Eiichi Kunitomo, em entrevista à Espresso. “Da mesma forma que o consumidor escolhe ir a um fine dining, a indústria do café precisa deste serviço nos coffee shops’’, acredita.

O omakase, transferido para uma cafeteria japonesa, é oferecido de diversas maneiras. Há estabelecimentos que exploram as diferentes partes da planta do café – como infusão das folhas ou desidratação de frutos, que se tornam ingrediente de drinques acompanhados de snacks – e os que escolhem garimpar lotes exclusivos, em pequenas quantidades, de origens produtoras premiadas, como Panamá, Etiópia, Brasil, Guatemala, Peru e Java, para servir cafés com perfis sensoriais diversos e raros.

Nem todas as cafeterias torram seus grãos, mas todos que se acomodam nos balcões à espera deste atendimento buscam ser surpreendidos. Os baristas no Japão costumam perguntar ao cliente se tem algum tipo de alergia – no máximo. Essa experiência singular exige criatividade para a elaboração de cafés e drinques que vão mexer com os sentidos do consumidor (as bebidas podem ser harmonizadas com receitas que privilegiam ingredientes locais sazonais).

O Mameya Kakeru não torra os próprios cafés, mas faz uma curadoria minuciosa de lotes de todo o mundo. “Queremos que nossos baristas se concentrem em exercer seus papéis como contadores de histórias e exímios preparadores de café”, explica ele. “Assim, conectamos consumidores com produtores e mestres de torra’’, continua.

Um dos pilares do Mameya Kakeru é valorizar seus colaboradores (Kakeru, aliás, significa multiplicar). O espaço apoia-os para que apresentem seus cafés como se estivessem em um palco. “Mas, no lugar dos juízes, estão os clientes, que podem pagar ao barista o quanto desejarem”, explica o proprietário, referindo-se à premiação pela excelência do serviço (e uma ótima maneira de complementar o salário).

O menu traz três versões de coffee omakase, e é preciso reservar para prová-los – este, um ponto em comum nas cafeterias do país. No dia a dia, as opções variam, com duas dezenas delas que vão de nanolotes dignos de competição a cold e milk brews (semelhantes ao cold brew, mas com leite no lugar da água). “Nosso objetivo em contribuir para o café especial é por meio da experiência que os baristas promovem aos clientes”, completa.

Mas, se em Tóquio vários coffee shops já alçaram a maneira de tomar café ao patamar de fine dining, em outros países o coffee omakase está apenas começando. Termômetro de novidades estrangeiras na gastronomia, a capital paulista não podia ficar de fora.

É focado no café da variedade gesha, da Etiópia, que o barista Tiago de Mello, sócio-proprietário da cafeteria Pato Rei, oferece diariamente o seu coffee omakase – que ele renomeou de omakafé (e cujas fotos ilustram a reportagem) – além do já menu regular da casa, de influência asiática. “Nosso espaço é um lugar de experimentação, onde fazemos nossa arte’’, explica Mello, que também é mestre de torra e músico.

São quatro bebidas à base do raro grão – consagrado por suas características florais e sabor delicado –, produzido por Luiz Paulo Pereira, da CarmoCoffees, na Fazenda Santuário Sul, Mantiqueira de Minas, e torrado por Mello. “O omakafé serve para criarmos bebidas e receitas com ingredientes diferenciados’’, diz ele. Entre os destaques do menu estão o leite destilado com espresso e o milk brew, tendência na Ásia (confira a experiência completa feita pela Espresso ao final da reportagem).

Confio em você

Os coffee omakase japoneses geralmente funcionam com reserva. Existem cafeterias que oferecem o serviço para poucas pessoas por dia, e outras funcionam como um clube privado, cujo endereço permanece em segredo até a finalização da reserva.

Em coffee shops excêntricos como estes, todo detalhe importa. A mobília é pensada para ser elegante, moderna e, ao mesmo tempo, funcional. As roupas dos baristas lembram, a depender do lugar, a de professores de química, com seus jalecos e macacões confortáveis, mas muito discretos – aqui, o foco são sempre os cafés.

Um bom exemplo dessas cafeterias exclusivas é a Cokuun, no bairro de Omotesando, também em Tóquio. Para participar do coffee omakase, é necessário reservar pelo site e pagar antecipadamente.

O menu, com drinques de cafés servidos em quatro tempos, incorpora ingredientes sazonais e harmonizados com itens de confeitaria e é guiado pelo proprietário Hidenori Izaki – barista campeão mundial em 2014 e dono da microtorrefação Honey Coffee (na cidade de Fukuoka). Ele é auxiliado pela barista Miki Suzuki, três vezes campeã japonesa e finalista do mundial de 2017. “A Cokuun reposicionou o café como ingrediente”, explora o site do estabelecimento, que aceita apenas quatro convidados por noite para a experiência.

O espaço reproduz um domo geodésico, tipo de abrigo antigo e famoso por sua resistência e leveza arquitetônica (mas que pode lembrar uma enorme chaleira de chá), criado pelo designer japonês Koki Akiyoshi, da empresa Vuild Architects. “Quis criar algo que pudesse ser vivenciado apenas no Japão’’, disse Izaki, em entrevista ao Los Angeles Times, em maio de 2023.

A microtorrefação Catarina Coffee and Love também restringe o serviço de cafés diferentes – eles são servidos apenas nos fins de semana –, mas está longe de preocupar-se com uma arquitetura espantosa. É num ambiente informal e com cadeiras baixas, dispostas na calçada nos dias sem chuva, que o barista Henrique Ortiz apresenta as bebidas dos seus menu secreto e menu degustação. O primeiro é mais dinâmico, tanto em termos de execução (mais rápida) quanto de permanência no cardápio, já que depende de parâmetros como rendimento. Pode, também, reeditar hits da casa.

Já o menu degustação aproxima-se mais da experiência do omakase, ao buscar referências na alta gastronomia. “Sempre experimentamos muito, por meio de muito estudo e pesquisa”, conta Ortiz, que se inspira, ainda, nas tendências de campeonatos mundiais. “Assim, o que é mais comercial vai para o menu fixo da cafeteria, e o que é mais específico e incomum, para o cardápio de degustação”, explica.

O menu degustação, também, tem sempre um tema. “Ele varia de acordo com a sazonalidade e o assunto pelo qual estamos obcecados no momento’’, diz ele, referindo-se às ofertas com ingredientes – o tema atual é o cerrado mineiro – e combinações criativas. Por exemplo, o la cabra, à base de espresso, leva xarope de baunilha do cerrado e leite de cabra. Já o cold brew XO, oferta do menu degustação, inclui
chips de carvalho, nibs de cacau e tem sua elaboração conduzida por um equipamento vindo de um laboratório de química.

Cruzando o pacífico

A tendência asiática está rompendo outras fronteiras. Em Miami Beach, nos Estados Unidos, Nathan Coffey, barista, mixologista e antropólogo, oferece aos clientes do Café Mezzanotte o que afirma ser o único coffee omakase da cidade. “As pessoas me dizem que pensaram em fazer o serviço, mas nunca seguiram em frente’’, justifica Coffey.

Segundo ele, as primeiras degustações que fez no Mezzanotte privilegiavam drinques de países diferentes, de clássicos a releituras. Influenciado por um amigo de Osaka, interessou-se pelo coffee omakase e decidiu aplicá-lo localmente. “O serviço exige muita pesquisa, tempo de estudo e disponibilidade para criar novas receitas”, explica.

Um dos drinques oferecidos no omakase do Café Mezzanotte – Foto: Divulgação

Neste universo de possibilidades, Coffey percebeu que sabores e técnicas poderiam ser abordados em detalhes, numa experiência mais próxima do consumidor, diferentemente do serviço rápido que se encontra nas cafeterias da sua região. “A intimidade com o cliente é o espírito do omakase”, acredita o barista norte-americano.

A curadoria dos produtos segue regras. A primeira é que os grãos escolhidos sejam de torrefações de Miami, para fomentar o comércio local. A segunda é usar sempre grãos de origem única. “O coffee omakase é uma oportunidade de o barista pensar fora da caixinha e criar bebidas que não são comuns”, diz Coffey. Para ele, também, reunir estranhos em torno da mesa e fazer com que interajam é um exercício que pode ser diferente em tempos modernos. “A curadoria de uma experiência dessas explora as raízes do café, e encoraja as pessoas a se conectarem’’, analisa.

Nas mãos do Sushiman

Tradicional na cultura japonesa, omakase (que significa “confio em você”) é um jantar japonês em que os convidados se colocam nas mãos do sushiman e experimentam receitas sazonais, feitas com os melhores
ingredientes disponíveis naquele dia. O rito é o que há de mais sofisticado quando se trata de consumir sushis: ao se sentarem no balcão, os clientes querem ser surpreendidos, o que exclui, inclusive, a necessidade de um menu. A ausência deste, aliás, remete à época em que os restaurantes clássicos japoneses nem sequer tinham cardápios.

A experiência do Omakafé

O omakafé do Pato Rei começa com o espresso supersayadeuso (alô, fãs da série Dragon Ball), que tem notas de flores brancas, acidez cítrica que remete a laranja-bahia e doçura de mamão formosa. Todas as bebidas do menu são curtas (em torno de 60 ml), para não gerar desconforto aos participantes por conta do excesso de cafeína.

Segue-se um dirty espresso, montado com leite destilado – congelado para separar a gordura da água do leite, tornando-o mais concentrado (veja imagem abaixo) – e uma dose de espresso gesha quente por cima. De origem incerta, a bebida foi provada por Mello no Japão, e incorporada ao seu omakafé. A sugestão dos anfitriões é dar um gole sem misturá-lo – o que oferece uma deliciosa surpresa na boca. O leite, de textura aveludada e amanteigada, é abraçado pelo espresso quente, ácido e frutado. É de beber de baldes, como dizem os baristas.

Processo de criação do leite destilado, que é congelado para separar a gordura da água do leite, tornando-o mais concentrado

E que tal experimentar um cold brew de gesha? A terceira bebida, refrescante e intensa, tem como diferencial seu preparo – o café, extraído por quatro horas, tem parte da receita feita com água quente.

Para fechar o menu, uma bebida que é tendência na Ásia: o milk brew (técnica de extração a frio igual ao cold brew, mas que substitui a água por leite ou bebida vegetal). Aqui, os grãos do gesha são infusionados em leite de aveia por 18 horas. Na boca, a bebida lembra achocolatado gelado, é cremosa e delicada. Perfeita para dias quentes.

As criações do Catarina

O menu secreto do Catarina, mais dinâmico, incluiu no dia da visita da Espresso duas bebidas. A primeira é o la cabra, um café com leite (quente) que lembra o clássico cortado mas que, aqui, recebe leite de cabra, xarope de baunilha do cerrado e sal defumado para enriquecer a experiência. O leite de cabra é intenso e, em contato com o espresso, traz um macio equilíbrio entre gordura e acidez. Complete com o sal e o xarope e a sensação é a de beber uma bolacha amanteigada. É crime pedir um só. A segunda bebida (fria), contemporânea, é o motchango, e não leva café, mas matcha, leite vegetal, pérolas de tapioca e xarope de morango. É refrescante e divertida.

Feito com ingredientes do cerrado, o menu degustação inclui duas bebidas e uma sobremesa com o grão, em etapas. Começa com o cold brew XO feito com chips de carvalho, nibs de cacau e raiz de priprioca. Para concebê-lo, os baristas pensaram em como seria envelhecer um cold brew (feito de 70% canéfora e 30% arábica) em barris de carvalho – sem o risco de perder a matéria-prima pela ação do tempo e de microorganismos.

A solução foi acelerar a fabricação em um equipamento de vibração supersônica, utilizado em laboratórios de química. Na taça, a sensação é a de tomar um café gelado com sabor intenso de especiarias e retrogosto de um bom charuto.

Na sequência, o coado fat washed é elaborado com infusão de óleo de semente de abóbora e coado duas vezes. O contato do café com a gordura altera sua textura, deixando-a mais encorpada e aromática.

Para finalizar, a sobremesa chamada não é cartola: doce de buriti com um leve creme azedo de castanhas, calda de café e puxuri. É doce na medida certa, pegajoso e azedo. Dá pra comer sem enjoar.

Grãos latinos raros

Opções diferentes de omakase são a aposta, também, do Lonich. “Not an ordinary coffee shop’’ (“não é uma cafeteria comum’’, em português) é como se autodefine o espaço, no bairro de Kuramae, e que vem chamando atenção dos coffee lovers de Tóquio e de turistas do mundo todo. Desde 2022, o local oferece curadoria com cafés de países como Iêmen, Colômbia, Panamá, Guatemala e Peru.

Opções de grãos disponíveis no Lonich – Foto: Divulgação

Além de uma carta de cafés extensa e um clube de assinatura, a cafeteria tem três tipos do serviço: o seasonal omakase, que entrega uma seleção de cafés com uma pequena curadoria de doces feitos de acordo com ingredientes da estação, o japanese-chinese ingredient fusion, combinação entre chá e café com ingredientes de ambas as culturas, e o gesha collective, uma experiência com grãos raros de países da América Latina.

Texto originalmente publicado na edição #85 (setembro, outubro e novembro de 2024) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Letícia Souza • FOTO Agência Ophelia

Mercado

“Premiunização do café deve ser democrática”, diz executiva da Nestlé

Em conversa com a Espresso, a diretora-executiva de cafés da Nestlé Brasil, Valéria Pardal, detalha as ações de sustentabilidade da companhia e as novas tendências de consumo de cafés

Valéria Pardal, diretora-executiva de cafés Nestlé Brasil – Foto: Acervo pessoal

Formada em administração de empresas, a argentina Valéria Pardal encontrou cedo sua vocação. Interessada nas estratégias psíquicas profundas que levam as pessoas a consumir, buscou aprender com grandes players de mercado. Na Nestlé há vinte anos e, desde agosto de 2023, diretora-executiva de cafés Nestlé Brasil, Valéria é reconhecida pelos investimentos em sustentabilidade. “A sustentabilidade é um critério importante de decisão para a geração Z”, garante ela. Nesta entrevista, concedida por email, Valéria comenta amplamente sobre o tema, sobre as novas tendências de consumo em cafés e as inovações da Nestlé, como o desenvolvimento de novas variedades.

Espresso: Valéria, atualmente você é diretora-executiva de cafés Nestlé Brasil. Como começou sua carreira profissional?

Valéria Pardal: Comecei ainda na universidade. Sou formada em administração de empresas e sempre tive interesse e curiosidade especiais sobre psicologia das pessoas quando se trata de consumir ou comprar marcas e produtos. Sempre quis entender como elas pensam, quais necessidades estão satisfazendo e o que realmente motiva suas decisões de compra.

Comecei na área financeira e comercial da Visa e, depois, trabalhando com empreendedores na construção de seus planos de negócios em uma empresa de consultoria para pequenas e médias empresas. Nesse caminho, entendi que minha paixão era ser capaz de criar, desenvolver e promover marcas de consumo. A partir daí, comecei a buscar um caminho em empresas reconhecidas e líderes de mercado. Foi assim que cheguei à Nestlé Argentina, há 20 anos.

Como você iniciou sua jornada profissional na Nestlé e quais seus principais objetivos?

Meus primeiros passos na Nestlé Argentina foram como Jovem Profissional (Programa de Trainee). Desde o primeiro momento, tive oportunidades e desafios constantes nas áreas de vendas, trade e, depois, em marketing de diferentes negócios.

No Brasil, meu principal objetivo é continuar a desenvolver o mercado de café, promovendo a democratização do café premium e de origem sustentável.

Como gestora, você destaca a importância da sustentabilidade na divisão de cafés da Nestlé. A Nescafé estabeleceu a meta de tornar 100% de seu café sustentável até 2025. Quais são os desafios para alcançar esse objetivo e como a empresa garante a eficácia dos programas de certificação envolvidos?

A Nestlé é a maior compradora de cafés no mundo – são mais de 850 mil toneladas de café verde por ano, o equivalente a mais de 14 milhões de sacas, de mais de 20 países –, e a área é uma das prioritárias para a companhia.

Seguimos investindo em inovação e tecnologia para oferecer um café sustentável e de qualidade, com iniciativas em toda a cadeia produtiva. No Brasil, 100% do nosso café já é de origem sustentável e certificado, e mais de 90% das fazendas estão em transição para a agricultura regenerativa.

Enquanto a demanda global pela bebida continua aumentando, eventos climáticos recentes sugerem que a área adequada para cultivar café arábica pode ser reduzida em mais de 50% até 2050. O projeto star 4, nova variedade de arábica desenvolvida pela Nestlé Brasil, visa mitigar o impacto dessas mudanças na cadeia de suprimento de café, por ser uma espécie mais resistente, de alto rendimento e com menor emissão de gases do efeito estufa.

A companhia atua há mais de 13 anos na cadeia por meio do programa global Nescafé Plan, o maior do segmento no Brasil e batizado localmente de Cultivado com Respeito. Além de práticas sustentáveis, ele contempla iniciativas que promovem condições justas e seguras de trabalho e impacta 1,5 mil propriedades. Também garante que 100% dos grãos comprados por nós no país são certificados e que todas as fazendas fornecedoras têm, ao menos, uma prática de agricultura regenerativa.

Além disso, as fazendas credenciadas são auditadas por empresas parceiras e especializadas – uma delas é a certificação 4C (Código Comum para a Comunidade Cafeeira), conjunto de critérios que orientam a produção da cadeia do café, composto por 106 rigorosos itens, divididos em dimensões econômica, social e ambiental.

Há um movimento crescente de práticas de agricultura regenerativa no mundo, embora falte um consenso global quanto ao seu conceito. O que você entende por agricultura regenerativa e quais as estratégias do setor de cafés da Nestlé relacionadas a esse tema?

Agricultura regenerativa significa uma produção mais sustentável, que entrega mais para a natureza do que retira dela, e que inclui práticas que recuperam o solo, os recursos hídricos, a biodiversidade e, ainda, contribuem para a redução da pegada de carbono.

Nós operamos cada vez mais em nossas fábricas para evitar desperdícios de água e de energia, e procuramos desenvolver a conscientização sobre desperdícios e orientar sobre o destino correto de resíduos.

O Cultivado com Respeito promove a agricultura regenerativa por meio de diversas práticas positivas, e cujos pilares são natureza, gente e conhecimento. Ele garante que 100% dos grãos comprados são certificados e que todas as fazendas fornecedoras têm, ao menos, uma prática de agricultura regenerativa.

Ele também possibilita que os produtores tenham uma melhor qualidade de vida por meio do estímulo à capacitação, da aplicação de preços diferenciados e da bonificação por uma matéria-prima mais sustentável e com mais qualidade.

Um exemplo de impulsionamento da agricultura regenerativa é a linha de Nescafé Origens do Brasil, que foi lançada em 2019 e que é destaque em sustentabilidade, pois as práticas no campo dos produtores parceiros são voltadas ao desenvolvimento da agricultura regenerativa.

Além dos benefícios ao meio ambiente, a iniciativa traz mais rentabilidade à produção cafeeira, já que diminui o custo de produção ao mesmo tempo em que aumenta a produtividade por pé de café. A meta é obter, até 2025, 30% das principais matérias-primas, café, cacau e leite, por meio de propriedades que aplicam práticas regenerativas e sustentáveis.

Com o compromisso de atingir a neutralidade de carbono até 2050, como a Nestlé aborda a redução das emissões associadas à produção e ao transporte de café?

Atualmente, 70% das nossas emissões de carbono têm origem na agricultura. Em relação à natureza, por meio do empenho contínuo rumo ao impacto ambiental neutro, a Nestlé trabalha para assegurar recursos para as futuras gerações, além de apostar na agricultura regenerativa como premissa de transformação profunda.

O programa Cultivado com Respeito, que já citei e que é o maior do mundo no segmento de café, promove ações para reduzir a pegada de carbono nas fazendas produtoras.

A linha Origens do Brasil é a primeira a conquistar certificação de produto carbono neutro, de acordo com o The Carbon Neutral Protocol, principal framework global de neutralidade de carbono. A linha, além de representar uma quebra de paradigma importante, ao apresentar um café especial, torrado e moído, busca transformar e ressignificar a cafeicultura brasileira, trazendo o balanço perfeito entre um café de qualidade e de impacto positivo no planeta.

Além das práticas regenerativas que englobam o uso de energia solar, a agrofloresta, o menor uso de agrotóxicos e a preservação das abelhas, também estão a recuperação de áreas florestais desmatadas. Nescafé e a ONG SOS Mata Atlântica se uniram para plantar 1,5 milhões de árvores nativas e regenerar um dos principais biomas brasileiros.

Recentemente, também, fizemos um extenso trabalho de cálculo de carbono em 100% das fazendas de café fornecedoras, a maioria delas no Espírito Santo, mudando a forma de relacionamento com o produtor. Esse é um dos grandes diferenciais da companhia, já que não há no mercado um banco de dados tão extenso e com tanta profundidade.

Quanto à logística, temos um centro de distribuição 100% dedicado ao e-commerce de cafés que utiliza energia otimizada: luz natural, lâmpadas inteligentes e certificação Leed Gold Sustentável. Já os pedidos enviados vão com uma sacolinha para facilitar a reciclagem de cápsulas. Repensamos a nossa frota e implementamos a “entrega verde”: usamos carros e caminhões elétricos, ou a biometano em algumas de nossas rotas.

Como a empresa está implementando a gestão hídrica nas áreas de cultivo e quais resultados já foram observados?

Já trabalhamos com redução e reuso de recursos hídricos nas operações próprias e das cadeias de suprimentos. Esse cuidado com recursos hídricos é um dos principais pilares dos nossos programas de sustentabilidade. Hoje em dia, no Brasil, cerca de 10 mil propriedades rurais de leite, café e cacau trabalham com práticas cuidadosas quanto a isso. Essas propriedades são verificadas pelo menos uma vez por ano, e recebem assistência técnica nossa para operar de maneira sustentável.

Um bom exemplo é a fábrica de Nescafé Dolce Gusto, na cidade mineira de Montes Claros. Ela é a primeira da companhia a receber a certificação Triplo Zero – que não utiliza água extraída da natureza, não envia resíduos para aterros e tem 100% das emissões de gases do efeito estufa neutralizados.

Ela foi estrategicamente construída ao lado da unidade de Leite Moça, que fornece 100% da água utilizada na fábrica do Nescafé Dolce Gusto. Isso evita o uso de água potável vinda da natureza.

Quanto aos resíduos gerados, 100% deles seguem para reciclagem, reaproveitamento e compostagem. A unidade também neutraliza 100% das emissões de gases de efeito estufa por meio de compensações.

A EUDR entra em vigor em 30 de dezembro deste ano. Mas há um debate sobre o tema em torno de seus impactos, especialmente para pequenos produtores, que muitas vezes carecem dos recursos para cumprir as exigências de rastreabilidade por elas imposta. Como a Nestlé vê os impactos da EUDR e se posiciona perante eles, já que trabalha com produtores de todo o planeta?

De forma global, estamos quase atingindo o objetivo de 100% de abastecimento de cafés de compra responsável – com rastreabilidade de produtores que participam de programas de sustentabilidade –, e consideramos estar bem-posicionados para que as ações complementares sejam implementadas e, assim, cumprir com a EUDR.

Recentemente, vocês lançaram a variedade de arábica star 4. Há mais pesquisas desse tipo em andamento em outros países produtores? De que maneira essas novas varietais entram no portfólio da empresa?

Um projeto de desenvolvimento de uma nova espécie demanda, além de alto investimento, muito tempo de dedicação, pesquisas e estudos. A star 4, por exemplo, já tem mais de dez anos, e a expectativa é que sua produção ocorra em 2028.

Essa nova variedade de arábica tem um período menor de crescimento e alta tolerância à ferrugem, uma das principais doenças que atingem o café brasileiro, além de menor emissão de carbono. O projeto foi desenvolvido em São Paulo e em Minas Gerais utilizando métodos tradicionais de melhoramento genético. A variedade foi selecionada no Brasil por sua resiliência, qualidade, produtividade e por ter o sabor característico do café brasileiro.

Esse é nosso primeiro projeto de desenvolvimento de uma nova espécie de arábica no país, e os resultados têm sido satisfatórios. Nossos testes de campo demonstraram que, utilizando insumos semelhantes, os rendimentos da star 4 são substancialmente maiores do que os de duas variedades brasileiras bastante utilizadas, que são a catuaí e a bourbon.

Queremos engajar os agricultores para cultivar a variedade, com um plano de distribuição de mudas que será construído em conjunto com os interessados. Além disso, a companhia não tem o objetivo de tornar essa variedade exclusiva, pois acredita que pesquisa e tecnologia devem ser compartilhadas e o desenvolvimento de uma cafeicultura mais produtiva e sustentável é uma agenda pré-competitiva.

Mas, antes da star 4, desenvolvemos duas variedades de robusta, roubi 1 e roubi 2, ambas produzidas no México e que estão sendo lançadas agora.

Com a consolidação da qualidade dos canéforas produzidos no Brasil, como você vê a participação futura da espécie nos blends produzidos pela Nestlé?

Desde que a Nescafé estreou no segmento de cafés premium, em 2019, apostamos nos canéforas. A segunda edição limitada do Nescafé Origens do Brasil, lançada recentemente, é nosso segundo café especial da espécie canéfora, resultado de um projeto que levou abelhas para as Montanhas Capixabas para favorecer a polinização do cafezal, o que aumenta a produtividade e a qualidade dos grãos.

Em tempos de aquecimento global, a variedade robusta é uma das maiores apostas sustentáveis para o futuro do café. Se, antes, essa variedade era tida como o patinho feio, agora ela vive um boom: a produção de robusta de alta qualidade impulsiona torras mais complexas que dão origem a ótimos cafés especiais. Por isso, temos direcionado investimentos em inovação para os canéforas especiais, desassociando-os da imagem de café de baixa qualidade.

Hoje já existem muitos produtores no Espírito Santo e na Bahia que têm conhecimento na produção de cafés especiais da variedade conilon. Então, há cinco anos contribuímos para capacitar produtores na produção de conilon especial, e o resultado desse trabalho está nesses cafés que lançamos, o Pontões de Capixaba, em 2019, e Montanhas Capixabas, neste ano.

Quais tendências emergentes no setor de café você acredita que terão o maior impacto nos próximos anos e por quê?

Acredito que as principais tendências no mercado de café estão relacionadas às mudanças de comportamento e estilo de vida. Eu destaco a premiunização, o café gelado e a sustentabilidade.

O aumento no interesse pelos cafés especiais está relacionado tanto ao produto em si, como edições limitadas, diferentes terroirs e novos blends, quanto a inovações no setor, como o uso de novos materiais, mais sustentáveis. A tendência é que essa procura pela qualidade seja crescente, afinal, o paladar não retrocede.

Em relação ao café gelado, as tendências começam fora do lar e se replicam em casa. Há um aumento no número de perfis nas redes sociais que ensinam receitas de bebidas com café como ingrediente principal.

O consumidor também está cada vez mais focado em conhecer a procedência do seu alimento e o mesmo acontece com o café. Eu acredito que esse interesse vai desde a origem do grão até a embalagem no ponto de venda. Segundo pesquisas, a sustentabilidade é um critério importante de decisão para a Geração Z. Mais de 70% dos consumidores desta geração estão dispostos a pagar até 10% a mais por produtos sustentáveis.

Visando aumentar a conexão com esse público e destacar os diferenciais da Nestlé em sustentabilidade, recentemente alteramos o rótulo da linha Nescafé, trazendo informações sobre o projeto Cultivado com Respeito.

Como percorremos o caminho da premiunização nestes últimos cinco anos, e em que etapa desse processo você acredita que estão os mercados brasileiro e internacional?

O movimento de valorização da bebida, unido à educação de novos consumidores, têm direcionado a Nestlé nessa premiunização. A categoria tem crescido consideravelmente, e representa, atualmente, 70% do negócio. Há dez anos, essa taxa era de 15%. Estamos em momento de expansão do consumo de café premium, de maior valor agregado, e isso está sofisticando o consumo de café no Brasil. Trabalhamos com a marca Nescafé de consumo massivo para que essa premiunização seja democrática. Os brasileiros consomem entre quatro e seis xícaras de café por dia e a missão da Nestlé é que essa xícara seja de melhor qualidade.

Atualmente, nosso portfólio premium é formado pela linha Nescafé Gold, com opções de café solúvel e, para coar, a linha Nescafé Origens do Brasil.

Nos primeiros seis meses de 2024, o café foi o item da Nestlé que mais cresceu em receita. Como as gerações mais jovens estão consumindo café no Brasil?

Os jovens da Geração Z estão mais dispostos a experimentar novas receitas e procuram por bebidas indulgentes, que geram publicidade orgânica e se encaixam no conceito de comfort food. Para esse público, o café gelado é o grande destaque, como citei, e seu consumo tem aumentado bastante nos últimos anos.

Como comentei, o consumidor aprende a tomar cafés de melhor qualidade, com sabores e métodos de preparação diferentes, e passa a replicar o hábito no âmbito doméstico. Essa tendência foi acelerada pelo aumento das cafeterias no Brasil, que oferecem diversas receitas de café gelado que atraem essa nova geração. Acreditamos no segmento e queremos ser protagonistas na transformação da xícara de café do brasileiro, com o lançamento de produtos e campanhas que potencializam as mensagens focadas na Geração Z. Recentemente, lançamos novos sabores da linha Nescafé Pronto para Beber, para consumo gelado.

A Nestlé Professional, área de food service da companhia, também segue desenvolvendo projetos focados nesse modelo de consumo, por meio de parcerias com lojas de conveniência e cafeterias, com clientes como AmPm, por exemplo.

No Brasil, a estratégia de investimento também mira o mercado de café fora de casa, através de soluções B2B. Quais são os planos para alavancar este mercado?

Recentemente anunciamos, no Brasil, o investimento de um bilhão na área de cafés Nestlé até 2026. Esse montante está voltado, principalmente, para a fábrica localizada em Araras (SP), e para a ampliação do parque de máquinas de Nestlé Professional, atualmente com 22 mil unidades, visando o aumento de 50% no biênio e a liderança no mercado OOH, com novos modelos de negócios e investimentos em equipamentos e tecnologia.

A área vive um momento importante pós-pandemia, com a volta ao trabalho presencial, por conta da alta demanda do mercado corporativo, já que boa parte das ocasiões de consumo fora de casa acontecem no trabalho.

Só no ano passado, foram investidos R$ 60 milhões e, atualmente, vendemos 700 mil xícaras por dia nos canais fora do lar. Estimativas internas da companhia preveem que, em 2024, mais de 250 milhões de xícaras Nescafé serão servidas em todo o país.

Os recursos serão aplicados, principalmente, em novas tecnologias, como curvas de torras, flexibilização das linhas de produção para fazer qualquer tipo de produto, novos sabores. Com isso, a companhia tem o objetivo de acelerar sua jornada de transformação digital, pelo aprimoramento de tecnologias para o desenvolvimento sustentável de produtos inovadores.

Valéria, um consumo interno de café ainda maior vai afetar os preços do café no Brasil? Qual será o impacto no mercado global de café, na sua opinião?

Como em qualquer outra mercadoria, os preços do café estão sujeitos à oferta e demanda e são definidos no mercado aberto. Nesse segmento, o preço não é uma variável que a Nestlé possa determinar ou controlar. A empresa compra o café e adapta seu preço de acordo com as variações do mercado, para garantir que os agricultores recebam um preço competitivo por sua safra.

Temos um compromisso genuíno com a sustentabilidade em toda a cadeia do café no mundo e queremos, até 2025, obter 100% de café rastreável e de origem responsável. Em 2023, esse índice foi de 92,5%, tornando a companhia a maior compradora de café de origem responsável por volume.

A maior parte do café é adquirido indiretamente, por meio de grupos de agricultores, cooperativas e traders. Essa é uma prática comum no setor cafeeiro, devido às exigências locais para a venda de café moído e preparado.

Que conselhos você daria para profissionais que estão começando suas carreiras no mercado de café?

Para qualquer profissional, acho que o primeiro conselho é amar o que faz. Pessoalmente, sinto-me muito grata por ter a oportunidade de trabalhar numa categoria tão empolgante como o café. Seja curioso e adote uma atitude de “aprendiz em série”, cercando-se de profissionais e pessoas experientes para enriquecer seu olhar. O Brasil é o mercado número 1 do mundo! Aqui há muito conhecimento de todas as partes da cadeia de valor e muita ambição em aprender também.

Para fechar essa conversa, como as experiências pessoais e profissionais moldaram sua abordagem para liderar a divisão de cafés da Nestlé?

Compartilho os valores que acredito serem fundamentais para uma liderança inspiradora e o desenvolvimento de negócios. Um deles é a colaboração, o trabalho em equipe: acredito realmente na diversidade de opiniões e em proporcionar autonomia para minha equipe se desenvolver.

Outro valor é a responsabilidade, é atuar como dono. Isso quer dizer não apenas fazer o trabalho, mas transformar o trabalho, agregando valor e inovando. Acredito também no “aprendiz serial”, que tem curiosidade, abertura para dizer “não sei”, que busca investigar e que não acredita que temos que ter todas as respostas. E respeito, o tempo todo.

Texto originalmente publicado na edição #85 (setembro, outubro e novembro de 2024) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Caio Alonso e Cristiana Couto

Cafezal

Café com Origem: a Chapada de Minas na rota da Indicação Geográfica

Entre as regiões produtoras de café visitadas pela Espresso este ano, um dos destaques foi a Chapada de Minas, que conhecemos em novembro. A convite do Sebrae, decolamos em São Paulo e pousamos em Belo Horizonte, seguindo por mais cinco horas de estrada até o nosso destino final: a cidade de Capelinha, no Vale do Jequitinhonha, Nordeste de Minas Gerais.

A região

A Chapada de Minas é composta por 22 municípios e conta com 40 anos de atividade cafeeira, desenvolvida principalmente por conta da migração de produtores vindos do Paraná após a “geada negra” de 1975, responsável por castigar boa parte dos cafezais do estado.

Até pouco mais de dez anos, não havia organizações sindicais na região. É o que conta Julian Rodrigues, analista de negócios do Sebrae MG, responsável pela Região da Chapada de Minas, um dos guias do nosso roteiro. Ele explica que, em meados de 2012, a cooperativa regional quebrou e deixou um dano de mais de 20 milhões, o que prejudicou muitos produtores.

Julian Rodrigues, analista de negócios do Sebrae MG, responsável pela Região da Chapada de Minas

Anos depois, em 2019, surgiu o Instituto Café da Chapada de Minas, pontapé inicial para a elaboração da estratégia da marca coletiva atual. De acordo com Rodrigues, o próximo passo é obter a Indicação Geográfica na modalidade Indicação de Procedência, que garante o reconhecimento e a valorização da produção local, e fortalece a identidade no mercado. Para isso, o Sebrae, juntamente com representantes da região, estão estruturando as informações necessárias para protocolar o pedido no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial).

“O Sebrae atua na cadeia do café da região da Chapada de Minas há mais de uma década”, menciona o analista. “Nosso trabalho tem como objetivo trazer inteligência para o território e desenvolver as governanças locais, organizando os grupos para que tenham representatividade e senso de pertencimento, e, ao mesmo tempo, proporcionar a eles acessos a mercados de origem controlada”, detalha.

Hoje em dia, a Chapada de Minas é responsável por uma produção que varia de 400 a 900 mil sacas anuais, composta majoritariamente por produtores familiares – apesar de boa parte da área total em produção pertencer a grandes produtores, que também plantam eucalipto. Segundo Rodrigues, a maioria do café produzido ainda é commodity, mas aos poucos o cenário está mudando, e isso pode ser visto nos concursos de qualidade.

“O terroir daqui é diferenciado”

Uma de nossas paradas foi em Aricanduva (MG), na Fazenda Alvorada, bom exemplo de produção focada em qualidade. Este ano, além de conquistar a terceira colocação na categoria natural do 3º Prêmio Chapada de Minas, a propriedade também teve grande destaque em uma das principais premiações nacionais de qualidade, o Prêmio Coffee of the Year, onde alcançou a 5ª melhor posição na categoria arábica.

Fazenda Alvorada, em Aricanduva (MG)

Em nossa visita fomos recebidos pelo produtor Sergio Meirelles, sua filha Raquel e seu genro Orlando, que contaram um pouco sobre a relação da família com o café. “Quem não é otimista, não planta. Agricultura é pra quem tem paixão, pra quem gosta”, comenta Meirelles. Ele, que também é engenheiro agrônomo, comprou a fazenda em 1981. “Só tinha mato”, conta. Atualmente, a fazenda tem 233 hectares, sendo 93 destinados à produção de café e o restante à reserva legal, pasto e plantação de eucalipto.

“Quando viemos pra cá, ninguém sabia o que plantar”, explica Meirelles, dizendo que costumava pegar referências da cafeicultura em Manhuaçu. Porém, as Matas de Minas tinha um clima diferente da Chapada. Foi então que a Epamig ofereceu a ele que fizesse um campo experimental com 15 variedades. De todas essas, duas apresentaram bons resultados: a catiguar MG2 e a MGS aranãs. De lá para cá, já foram quatro experimentos e mais de 100 variedades plantadas. Os resultados ajudaram os cafeicultores a entender melhor quais plantas eram as melhores opções para a região.

Sergio e Raquel Meirelles, da Fazenda Alvorada

Este ano foram 4.200 sacas de café produzidas, mas com o investimento em irrigação (agora são 58 hectares irrigados), a expectativa para o novo ciclo é de crescimento. “O nosso diferencial são as variedades que temos para oferecer. Hoje temos diversidade de processos, o que permite que a gente entregue diferentes características sensoriais aos nossos clientes”, destaca Raquel, que largou a vida em São Paulo e o trabalho na multinacional Nestlé para se dedicar ao cultivo do fruto na propriedade da família.

Com a criação da marca Chapada de Minas, os negócios melhoraram. “Ganhamos identidade, preço e visibilidade. Pudemos explicar melhor onde estamos e o potencial que temos. Isso abriu muitas portas”, comemora Meirelles, que agora exporta café para os Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão, Israel e países da Europa. “O terroir daqui é diferenciado. A partir do momento que as pessoas entenderem que o café daqui tem um perfil único, temos muito a despontar”, projeta Orlando.

“É muito gratificante ver que a nossa produção está sendo reconhecida”

A uma hora de distância,  paramos na grande Fazenda Sequóia, no município de Angelândia (MG), onde fomos recepcionados por Rodrigo Crimaldo, que atua na propriedade desde 1999 e hoje ocupa o cargo de gerente. Enquanto tomavamos uma xícara de café cultivado na própria lavoura, Crimaldo contou sobre a produção local.

Rodrigo Crimaldo, gerente da Fazenda Sequóia, em nossa visita

A história da Sequóia começou em 1975, quando sua área total era de 474 hectares. As primeiras mudas plantadas ali foram de catuaí 62 e catuaí 99. De lá para cá o avanço foi tanto que, hoje, a propriedade conta com 3.906 hectares de área total (sendo 750 destinados ao café) e 13 variedades – do tradicional catuaí ao saboroso gesha.

Com 23 mil sacas produzidas neste ano, a colheita na fazenda, que costuma ser tardia, de junho a julho, foi antecipada para maio devido ao aparecimento de quatro floradas. “O café é muito responsivo ao clima e, nos últimos dois anos, o clima teve uma mudança brusca. Então imagino que, ano que vem, nossa colheita também será complexa”, comenta. Ele projeta que a produção de 2025 fique em torno de 14 mil sacas, devido ao clima e às podas feitas recentemente.

Além da reestruturação nos pés de café, a Sequóia também renovou os processos de pós-colheita nos últimos dois anos. “Aqui chove bastante”, conta Crimaldo. A alta umidade atrapalha a secagem dos grãos no terreiro. Como solução, a fazenda investiu R$ 12 milhões em um maquinário colombiano de processamento “in door”.

A estrutura de alvenaria possui compartimentos que se assemelham a caixas, onde os grãos são alocados. Neste processo de secagem, o ar sai por baixo e, a cada período de tempo programado, uma portinha se abre na parte inferior da caixa, fazendo com que os grãos caiam e sejam posicionados na caixa ao lado, onde ficarão por mais um período desejado, podendo variar de 18 a 36 horas, diminuindo a cada troca de caixa.

Sistema de secagem em caixas da Fazenda Sequóia

Segundo Crimaldo, este sistema resulta em uma secagem uniforme, pois, o café que está menos seco, localizado na superfície, é o que ficará por baixo na próxima caixa. A finalização da secagem é feita em um secador rotativo e, dali, o café segue para as tulhas. Um processo inteiro mecanizado.

Além de resolver o problema das chuvas, o maquinário também diminuiu a porcentagem de café quebrado, de 13% para 3%, uma vez que não passa mais veículos ou pessoas em cima dos grãos no terreiro. “Tenho um produto que passa por menos contaminação e menos risco de fermentação indesejada”, explica. Hoje, os cafés da Sequóia são exportados para mercados como os da Bélgica, Países Baixos, Polônia, Eslovênia e República Tcheca.  No 3º Prêmio Chapada de Minas, a fazenda conquistou o primeiro lugar na categoria natural e o segundo na categoria cereja descascado.

Prêmios acumulados pela Fazenda Sequóia

Mesmo para uma fazenda grande como a Sequóia, o desenvolvimento da marca Chapada de Minas foi algo positivo. “Eu acho que o principal ganho é a visibilidade”, relata o gerente. “Quando se falava em Chapada de Minas, nosso café era confundido com o Cerrado Mineiro ou as Montanhas de Minas. Nós não tínhamos um reconhecimento como produtores de café. É muito gratificante ver que a nossa produção está sendo reconhecida”, comemora.

Paralelamente ao desenvolvimento de marca para a obtenção do selo de Indicação de Procedência, o Sebrae também busca desenvolver tecnicamente os produtores, por meio de treinamentos, capacitações, dias de campo e do programa de assistência técnica e gerencial do Sebrae, o Educampo. “Queremos que esses grupos tenham acesso a outras regiões para entender o que o mercado está fazendo e como isso pode ser ajustado à realidade de cada um”, informa Rodrigues.

TEXTO Gabriela Kaneto

Café & Preparos

Museu do Recife recebe exposição de obras com café

O Museu da Cidade do Recife lançou, no último sábado (7), a exposição “O café que nos une: de Pernambuco para o mundo”. Com o objetivo de destacar o potencial da bebida para além do consumo, utilizando-a também como elemento de expressão artística, a mostra, gratuita, fica aberta ao público até 2 de fevereiro de 2025.

A exposição reúne 50 pinturas e foi idealizada pelo artista plástico Abraão Figueiredo. “O café é mais que uma bebida, é memória, cultura e conexão. A arte com café é uma forma de contar histórias e celebrar a união entre povos”, destaca ele, em entrevista ao Jornal do Commercio de Pernambuco.

As obras foram feitas por 28 artistas de 17 países, entre eles Brasil, México, Noruega, Malásia, Alemanha, França, Iraque e Indonésia. 

Produzidas com café solúvel, espresso, filtrados, cold brew e até mesmo resíduos do grão, as pinturas exploram as nuances de tonalidades e texturas que cada tipo de café oferece, resultando em artes abstratas, retratos e paisagens. 

Durante a exposição, estão previstas palestras sobre cafés especiais e o método de extração Koar, de criação pernambucana. 

Serviço
Exposição “O café que nos une: de Pernambuco para o mundo”
Quando: de 7 de dezembro a 2 de fevereiro de 2025
Horário: de quarta a sexta, das 10h às 17h; aos sábados e domingos, das 10h às 16h
Onde: Museu da Cidade do Recife – Praça das Cinco Pontas, s/n – São José – Recife (PE)
Mais informações: www.museudacidadedorecife.org
Entrada gratuita

TEXTO Redação / Fonte: JCPE • FOTO Museu da Cidade do Recife

Mercado

Brasil sediará encontro global sobre sustentabilidade na cadeia do cacau em 2025

O Brasil será palco do Partnership Meeting 2025, evento promovido pela Fundação Mundial do Cacau (WCF) e que reúne líderes globais, grandes players do mercado, especialistas, representantes de governos de países produtores de cacau, investidores e organizações da sociedade civil. Com o tema “Nosso Futuro: Resiliência por meio da Sustentabilidade”, o encontro acontece nos dias 19 e 20 de março, no hotel Tivoli Mofarrej, em São Paulo, e está com inscrições abertas.

A expectativa é receber 450 participantes de 40 países, incluindo representantes de tradicionais produtores africanos, como Costa do Marfim e Gana, além de palestrantes da América Latina, da Europa e dos Estados Unidos. O evento destaca o Sul Global, com discussões sobre as cadeias produtivas da América Latina (Equador, Colômbia e Brasil), da África (Nigéria, Camarões) e da Ásia (Indonésia), além de promover troca de conhecimento com especialistas em outras commodities, como o café.

Entre os palestrantes brasileiros confirmados estão Anna Paula Losi, presidente-executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC); Deborah Faria, professora da UESC e especialista em ecologia e biodiversidade; Jaime Recena, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (ABICAB); Silvino Kruschewsky, engenheiro agrônomo e consultor em cacaicultura; e Vinícius Ahmar, gerente de bioeconomia do Instituto Arapyaú.

Sustentabilidade em foco

Para o Brasil, o evento será uma vitrine da transformação sustentável pela qual passa a cacaicultura nacional, além de um espaço para debater oportunidades e novos planos de fomento ao setor. A programação incluirá também visitas de campo à Bahia, destinadas aos participantes estrangeiros interessados em conhecer de perto a produção brasileira.

O Partnership Meeting 2025, organizado pela Fundação Mundial do Cacau (WCF), tem o apoio do CocoaAction Brasil, uma iniciativa precompetitiva que desde 2018 fomenta o desenvolvimento sustentável na cadeia cacaueira nacional. Entre seus membros financiadores estão grandes nomes da indústria como Barry Callebaut, Cargill, Dengo, Harald, Mars, Mondelēz International, Nestlé e ofi.

Com o objetivo de alinhar ações coletivas e impulsionar práticas sustentáveis, o evento promete ser um marco na consolidação do Brasil como líder na agenda global de sustentabilidade do cacau.

TEXTO Redação
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