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Coluna Barística por Mariana Proença

Experiências com café e sobre a profissão barista

O que é lenda e o que é onda?

Vocês sabem que nós brasileiros temos uma enorme oportunidade? O café – a bebida – levou centenas de anos para chegar ao que consumimos hoje. Em meio a tantas outras plantas foi descoberta uma cujo frutinho doce, quando colhido maduro, levado ao terreiro, descascado e beneficiado resulta em um grão cru. Esse mesmo grão, já seco e torrado, depois moído, em contato com a água quente vira uma bebida saborosa e energética. Ufa! Imagina quanto tempo, conhecimento e testes foram necessários? São muitas lendas e histórias que passam pela África, Arábia, Europa e, é claro, pelo Brasil, quando ele chegou aqui, em 1727.

Ao longo do tempo, principalmente nos pós-guerras, já no século XX, os consumidores se distanciaram muito da origem da bebida por conta da industrialização. O café embalado, em pó ou solúvel, é vendido no mundo inteiro. Muitas pessoas não sabem que ele é grão e, muito menos, fruto. O acesso fácil ao produto, em quantidade, fez com que seu consumo crescesse ano após ano. Hoje o mundo produz anualmente 168 milhões de sacas e consome 161 milhões. O café vem trilhando o caminho de produto premium de forma rápida, e grandes marcas investem em varejo, cafeterias e novos equipamentos para extração. O consumo mundialcresce, em média, 2% ao ano. Vivemos no Brasil a terceira onda do café – o preparo artesanal e a diferenciação por atributos, como origem, torra e comercialização.

Nesse novo hábito de consumo do café especial, que conquista cada vez mais pessoas e, sobretudo, jovens, a história da origem foi fortemente retomada. Principalmente o “como fazer”. Com a leia mais…

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Conectados e com propósito

Um dos grandes desafios de fazer conteúdo de café e de outros temas amplos é conseguir ser relevante ao mostrar diferentes temas do Brasil e do mundo no dia a dia. Produzir uma revista requer muita pesquisa, referência, conversas e, é claro, viagens. A minha vontade era sair por aí atrás das pautas, conseguindo visitar cada fazenda e cada cafeteria para que sou convidada. Confesso que isso me aflige um pouco. Pensar que, em catorze anos trabalhando na área editorial de café, ainda não tenha ido a alguns lugares que fazem trabalhos de referência. Fora aqueles com os quais não tive contato. Resumo: há muito sobre o que falar.

Esse sentimento de incompletude surge sempre na minha cabeça. Nós nos cobramos o tempo todo pelo que não fizemos ainda. Há tanto a fazer. Mas, e se mudarmos a pergunta para: e o tanto que já fizemos?

Numa realidade do dia a dia em que estamos o tempo todo plugados, produzindo conteúdo de fotos, vídeos e anotando as informações, esquecemos de viver o momento, o aroma daquele café, de olhar o detalhe da xícara, de vivenciar o ritual daquele instante e até de celebrar as nossas pequenas conquistas.

Acreditem, caros amigos e amigas do café, há muito que fazer nesse mercado. Há muitas ideias a realizar, reportagens a apurar, histórias de vida a conhecer. Mas, tenham calma. Os propósitos leia mais…

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Orquestra afinada

No jornalismo, a pauta nos guia em busca da melhor matéria. Estamos constantemente de olho naquilo que é novidade, em histórias interessantes e em contar experiências pouco conhecidas do público para que mais pessoas possam ser alcançadas. A minha escolha foi pelo bom jornalismo e pela pauta positiva. Na minha carreira, comecei em uma revista sobre cultura brasileira e, por obra do acaso, acabei entrando no setor de café. E já se foram treze anos. Não saberia trabalhar com tragédias ou cobrindo histórias negativas. Por isso e por outros motivos, eu me encontrei tanto no mercado de café e no projeto da Espresso. É um misto de novidades com histórias de empreendedorismo. Sempre há o que pesquisar e estamos o tempo todo aprendendo. Este é um mercado em constante mudança e crescimento.

Além desse brilho nos olhos que caminha comigo nesses últimos anos, no mesmo período comecei a organizar eventos na Café Editora. O primeiro deles, o Espaço Café, em São Paulo, foi a semente, em 2006, para o que hoje é o maior evento do grão no Brasil: a Semana Internacional do Café, a nossa SIC. Digo nossa porque ela realmente se tornou um projeto de todos os que trabalham no setor. Isso só foi possível porque construímos no Brasil uma comunidade do café.

De norte a sul do País, há profissionais trabalhando com o produto, dedicados a cuidar dos grãos nacionais para que eles possam ter o melhor resultado na xícara. O desafio de 2018 era grande, enorme, parecia maior do que poderíamos abraçar, mas só foi possível sair dessa missão vitoriosos porque cada um na sua função fez a sua parte. Quantos estandes bem elaborados, investimento das marcas, lançamentos, cafés selecionados cuidadosamente após a colheita, torras bem executadas, acessórios e utensílios caprichados, enfim, uma orquestra bem regida por todos.

Quão emocionante é ouvir da provadora Freda Yuan, da Caravan Coffee Roasters, de Londres, que ela degustou cafés maravilhosos do Brasil, e que não tinha ideia da diversidade que há no nosso país. Ouvir da organização da World Coffee Events que eles estavam impressionados com o profissionalismo do evento, e que fizemos mais barulho nas redes do que eventos anteriores, leia mais…

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Alguém falou café?

Hábito. Maneira usual de ser, fazer, sentir, individual ou coletivamente. Costume, regra, modo ou mania. O café é habitual: costumeiro, rotineiro, constante, frequente, comum e usual. Pense desde quando na sua vida isso virou uma habitualidade.

Às vezes nós mesmos preparamos, às vezes preparam para a gente. E nunca fica igual, e é sempre um momento diferente. Quem inventou a definição de rotina não conhecia o café ao raiar do dia.

Ao longo da história virou um companheiro inseparável. Mas faz algum tempo que esse mesmo café ficou inquieto, queria mudar de visual, queria ser mais completo. Infeliz que estava com a sua forma de se apresentar no dia a dia ele pensou que poderia ser melhor. Ficou mais maduro, vestiu suas melhores características, buscou ser mais doce e menos seco, deixou o amargor de lado e deu uma pitada de acidez, dedicou-se a melhorar seus defeitos.

Estava mais experiente e queria estar por inteiro, e não mais reduzido a pó. Assim era possível ver suas formas, tamanho e sua real capacidade de dar um belo bom-dia. A energia permanecia a mesma. Ora com mais presença, ora com mais doçura, ora com mais leveza. Um dia após o outro.

De repente veio uma onda, bem grande, e levou o café bom para a beira do mar. Ele ficou mais acessível para todos, saiu das profundezas do oceano e estava exposto. Todo mundo queria. Mas eram muitas opções. Como escolher? leia mais…

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Vem fazer café

Sempre recebi o exemplo de meus avôs e meus pais da importância em trocar nossos conhecimentos para que outras pessoas tivessem acesso às informações e pudéssemos construir, juntos, uma comunidade melhor. Fiz trabalhos voluntários durante anos de minha adolescência e, depois de “gente grande”, não me engajei mais em nenhuma atividade constante.

Apesar de saber que precisava retomar esse trabalho, deixei o tempo passar. Acredito que essas ações realmente funcionam. Eis que, para reforçar ainda mais essa minha opinião, chega para uma reunião na revista Espresso o Diego Gonzalez, engenheiro florestal, e proprietário do Sofá Café, acolhedora cafeteria nascida em São Paulo. Diego trazia na “mala” um projeto tentador: criar uma escola de baristas para formar jovens de baixa renda.

O ponto de partida havia sido uma viagem, em 2013, onde Diego conheceu a iniciativa da Toms, marca de alpargatas criada pelo americano Blake Mycoskie, que tem como objetivo doar um par de sapatos igual a cada vendido. A empresa, nascida em 2006, tem o impressionante número de 10 milhões de pares doados, em mais de 60 países.

O projeto norte-americano deu um estalo para que Diego desenvolvesse a ideia. Surgiu assim o Fazedores de Café. A missão é simples, porém a execução é complexa: formar jovens baristas em um curso completo de dois meses, aulas diárias pela manhã, para que, depois, por mais um mês, esse profissional faça estágio em cafeterias parceiras e seja inserido no mercado de trabalho.

Para colocar a ideia em prática, Diego encontrou uma turma engajada no Sofá Café. Com a entrada da barista Regina Machado para ministrar o curso, eles foram costurando as parcerias de equipamentos, insumos, cafeterias, divulgação e conhecimento. Tudo muito leve, feito de forma voluntária. Uniram-se a ideia mais de 30 parceiros. Nós, da Espresso, topamos de cara.

Há muita vontade, energia e a certeza de conteúdo muito completo, que passa por ensinamentos de ética, comportamento, serviço de café, elaboração de drinques, prática de extração, até cafeicultura, business de cafeteria, gerenciamento de negócio, técnica de equipamentos. O projeto começou a criar braços, com a força de muitos envolvidos.

Faltava o mais importante, os alunos. A primeira turma do curso se concretizou e teve início em abril, com quatro jovens, vindos de duas instituições paulistanas, Casa do Zezinho, no Parque Santo Antonio, e Centro de Arte e Promoção Social do Grajaú (Caps), ambos na zona sul da cidade. Caíque, Paulo, Luis Guilherme e Ana Carolina estão em aprendizado. Muitas perguntas, desafios e novidades para jovens que nunca tiveram esse contato mais técnico com o café.

Ao voltar para casa, as experiências deles são compartilhadas com as famílias, que querem saber mais sobre o grão e até ler as apostilas. Em maio, o Sofá Café e os parceiros do projeto apresentaram oficialmente o Fazedores de Café em um encontro. Todos os presentes ficaram encantados com a proposta, que é uma semente produtiva nesse mercado tão carente de baristas e de valorização desse importante profissional.

Volto então ao Toms. Como que num passe de mágica, àquela marca de alpargatas sentiu o aroma do café do projeto brasileiro. A empresa norte-americana, nesse ano, ampliou o leque de doações e deu início ao Tom Roasting, onde para cada embalagem de café vendida eles doam uma semana de água potável para uma pessoa que precisa no mundo, através do programa Water For People. São quatro tipos de café, de diferentes regiões, que proporcionam 140 litros de água para alguém em algum ponto da Terra. Hoje são 780 milhões de habitantes que não tem acesso à água limpa. Imagina isso?

O aroma do café abraçou ambos os projetos sociais e mostrou que há imensas possiblidades – em maior ou menor escala – de fazer a nossa parte. Se você se interessou pelos Fazedores de Café, entre em contato com o Sofá Café (contato@sofacafe.com.br) e participe da maneira que puder. Esse não é um projeto somente da cafeteria, mas importante iniciativa para todo o mercado.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso referente aos meses junho, julho e agosto de 2014 – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

“O melhor café da minha vida”

A profissão de barista no Brasil é ainda muito nova. Tem pouco mais de 10 anos. Mas em muitos países da América do Sul e Central é ainda mais recente. Estive no Peru em 2010, momento em que efervescia o café especial. Na época, produtores começavam a ver valor em seus grãos e surgiam jovens, muito jovens, dispostos a aprender essa nova profissão, assim como empreendedores que abriam cafeterias muito bacanas em Lima. Um movimento que dava gosto de ver e sentir o delicioso aroma. Lá os cafés, em geral, têm sabores muito exóticos e acidez bem pronunciada. Lembro-me de ter provado alguns bem incríveis.

Um dos entusiastas dessa nova etapa foi o barista Harrysson Neira, na época com 20 anos, que provava os cafés com dedicação, perguntava muito e tinha sede de aprender. Harry (Rare, para os peruanos), como é conhecido, abraçou a profissão de barista e, desde então, vem sendo um dos porta-vozes desse mercado no país. Junto com os baristas Karen Pisconte, da Café Verde, e Roberto Pablo, o Tito, da Arabica Espresso Bar, campeões nos anos de 2010 e 2012, eles são a primeira geração de baristas do país.

Logo que terminou a escola, Harry fez um curso na área de cozinha e trabalhou em alguns restaurantes de sua cidade-natal, Lima. “Não me encontrava ali, sentia que a cozinha não era minha vocação. Procurei outro trabalho e cheguei até uma cafeteria, onde comecei a descobrir algo totalmente novo.”

Em novembro de 2013, recebi de Harry a notícia de que ele havia vencido o campeonato nacional de barista, depois de dois anos em segundo lugar. Ele é autônomo e, desde 2011, criou a sua própria marca El Café de Harry. Ele seleciona, torra e ajuda a promover o consumo de cafés especiais em restaurantes e cafeterias: “Parte da missão desse café é fazer com que nos restaurantes ele seja um real protagonista e que deixe de ser um simples complemento da refeição”, ele diz. E está dando certo, pois há muitos estabelecimentos que vêm investindo no café: “com o auge gastronômico que vive hoje Lima, há diversos chefs respeitando o café e colocando no cardápio grãos especiais preparados por baristas muito bem treinados”.

A dedicação de Harry representa muito essa gana do povo peruano. Apesar de eles não serem ainda grandes consumidores de café, com pouco mais de 1 quilo por pessoa/ano, a relação deles com o fruto é muito forte, principalmente os que vivem no campo.

É o caso de Harry: “meus avós tinham plantações de café, em Piura, ao norte do Peru, e nas minhas férias eu os via colhendo café e assistia a todo o processo. Eles faziam café natural, secavam no teto da casa e logo tostavam e preparavam o café filtrado. Chamavam toda a família. Recordo-me com muita saudades desse café, super aromático, delicioso, especial. Até hoje é, com certeza, o melhor café que provei em minha vida.”

Junto com essa paixão de Harry vem o crescimento nacional de cafeterias especializadas, com ofertas de cafés de origem. “Já podemos dizer que há um novo tipo de cliente, que começa a conhecer o café, que tem habilidade para diferenciar as qualidades e transmite isso aos amigos e gera um efeito multiplicador.”

Esse movimento de voltar a atenção para o campo e valorizar produtos frescos já não é de agora, mas, no café, produto de cadeia complexa e cheia de etapas, ainda é algo muito distante do consumidor. “Quando um cliente prova um café que conhecemos muito bem o produtor, que a torra tem alguns dias e que finalmente é servido contando a ele todos os detalhes por trás da xícara, não há nada melhor do que o ver desfrutando contente tudo de especial que tem ali.”

Neste ano, a maior feira de café do mundo, a SCAA (Associação Americana de Cafés Especiais), terá o Peru como país homenageado. O país dobrou, em 11 anos, a produção, de 2,4 milhões de sacas para 4,7 milhões. O cafeicultor vem acreditando no café especial de lá, e os jovens abraçaram essa causa. Sorte nossa!

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso referente aos meses março, abril e maio de 2014 – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

O bebedor infiel

Qual é o melhor café do mundo? Quem trabalha no setor é sempre, sempre mesmo, questionado com esta pergunta. O hábito de conversar sobre café é coisa muito nossa. O interesse em saber mais sobre a bebida mostra que há um amadurecimento do atual consumidor.

De uns anos para cá esse interesse do público geral cresceu muito. É bem perceptível a forma como as pessoas abordam baristas e outros profissionais da área para falar de café. Antes essas mesmas pessoas não tinham ideia de que a bebida guardava diferentes sabores e variedades. Hoje, além de entenderem um pouco mais, surge o que considero importante: as dúvidas.

Algumas são perigosas e é necessário estar preparado para respondê-las. Uma delas: “nossa, café hoje é algo chique, né?” Acredito que esta pergunta acende um alerta muito grande. Será que a mensagem de incentivo ao consumo do café de qualidade parece ser algo muito inacessível para o público comum apreciador de café? A imagem de algo chique elitiza um produto tão acessível a nós. Por isso que adoro o modo como baristas de algumas cafeterias e cursos apresentam a diferença entre um café tradicional e um de qualidade. Eles trazem à mesa os dois juntos, para que o consumidor faça um comparativo entre as xícaras. Conclui-se então que: não é chique, é melhor mesmo.

Dentre a série de perguntas, normais, afinal é um mercado muito novo, tem também aquela clássica: “não pode colocar açúcar nesses cafés, né?” Essa resposta é uma grande discussão que levaria dias. A ditadura do sem açúcar é muito ruim, primeiro porque afasta o novo apreciador, segundo porque cria regras desnecessárias neste momento de ganhar consumidores.

Mas mesmo estas perguntas secundárias não vencem aquela campeã de audiência: “em sua opinião qual é o melhor café?” Sempre que início a resposta tenho a impressão de que as pessoas esperam uma rápida definição, com dois ou três nomes de cafés que são encontrados nas gôndolas dos supermercados e pronto. Daí a minha resposta é oposta. Sempre vem acompanhada de um “veja bem, não existe o melhor café do mundo…” a pessoa se assusta, claro, porque afinal a resposta deveria ser tão simples quanto a pergunta. Mas não é. Isso porque café é um alimento – sempre dizemos isso por aqui nessas páginas – que sofre muitas alterações até chegar à xícara. E, além de tudo, a cada safra e, portanto, a cada ano há regiões, marcas, fazendas e cafeterias investindo em grãos de qualidade para esse novo consumidor.

Essa pergunta, acredito, também está acompanhada de uma vontade do apreciador de café de optar por uma única marca “muito boa” e permanecer fiel a ela por anos. É um misto de nova cabeça para provar o diferente, mesclada com a atitude tradicional de escolher um café para chamar de seu. Quando não tínhamos muitas opções, vá lá, mas hoje não podemos validar essa atitude.

Esses dias fui abordada mais uma vez com a tal pergunta. Expliquei à pessoa que existem ótimos cafés e não apenas um. “Mas me fala um pelo menos…” Daí citei uns dez nomes e a pessoa ficou me olhando, ainda em dúvida. Alguém interrompeu a conversa e continuamos falando de outros assuntos. Na hora de ir embora, a pessoa comentou: “você pode até trabalhar com café e entender, mas você não compartilha informação”. Olhei assustada: “é, você não fala qual é o melhor café”. Dei risada e disse: “mas não existe o melhor café, existem vários ótimos cafés”.

Desde então decidi: vou aconselhar as pessoas a serem infiéis. Esta história de monogamia faz mal. E mais, comecei imediatamente a presentear amigos com diferentes cafés. E ouvi de um deles dia desses: “sabe este café que você me trouxe? Estou apaixonado por ele”. Fiquei contente, claro. Mas antes que ele se apegue, certamente, vou apresentar outras opções. Hoje o café bom também fica no Brasil e precisamos incentivar cada vez mais esta cadeia sustentável. E viva os bebedores infiéis em busca da diversidade! Viva!

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso referente aos dezembro, janeiro e fevereiro de 2014 – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Opinião formada

Brasil, país de dimensões continentais. Variedades e mais de vinte regiões produtoras de café. Corta para Seattle, nos Estados Unidos, início de 2018. Estava eu visitando a feira da Specialty Coffee Association (SCA) quando chego ao estande da Saint Anthony Industries – uma empresa norte-americana que desenvolve produtos artesanais de madeira e vidro para fazer café. Equipamentos muito bem-acabados e de bom gosto. A barista Irina Blank fazia um café. Começamos a conversar. Ela, da Rússia, da Double B Coffee & Tea, uma torrefação de Moscou. Irina preparava um café do Brasil. Sem conhecer o grão, ela apenas mostrou o pacote: Fazendas Klem. O café ficou pronto e tomamos todos juntos. Irina adorou o café, elogiou e finalizou com a frase: “Foi o melhor café do Brasil que já tomei na vida. Mas ele definitivamente não parece um café brasileiro”. Parei. Parece que meu coração paralisou naquele momento. Agradeci o café e saí dali feliz, mas inconformada. Como uma jovem de 25 anos já tem um padrão de café brasileiro formado? Como os nossos grãos chegam a esta nova geração e o que é passado para eles nos cursos e cafeterias? É claro que nosso mercado brasileiro de cafés especiais é muito novo e todo um trabalho vem sendo realizado. Mas juro que imaginava que talvez os mais jovens, abaixo de 25 anos, já pudessem estar com outra cabeça em relação ao nosso produto.

Antes que alguém ache que quero crucificar a russa, sei que Irina não tem culpa, é óbvio. Mas, sim, isso nos abre uma discussão de como é de responsabilidade de todos nós mostrar um padrão de café brasileiro diferente do que ela está acostumada e sobre o qual foi educada ao entrar no setor. E ainda saber e desvendar como é formado esse paladar e padrão pelo mundo. Tenho uma suspeita de como podemos dar um tiro certeiro.

Neste ano, em novembro, receberemos quase todos os mundiais de barista no Brasil. Sim! A notícia é muito boa. Teremos quatro modalidades internacionais com mais de quarenta países e mais de cem competidores presentes em Belo Horizonte (MG), e que, depois, ou antes, estarão circulando pelas nossas regiões produtoras para conhecer nossos cafés. Temos uma enorme, enorme mesmo, oportunidade de mostrar para esse potencial público, na sua maioria jovens, provadores, baristas, torrefadores, o que estamos fazendo no Brasil. Nossa qualidade. Nossa nova cara. Aos que chegarem com a opinião formada, teremos muito a acrescentar e informar. Preparem-se. Estudem muito sobre o que querem fazer. O que precisam mostrar. Não podemos perder a chance de transformar o pensamento de muitas Irinas que estarão por aqui. E isso dá muito certo. Em 2017, recebemos mais de quarenta compradores internacionais na Semana Internacional do Café (SIC); a maioria nunca tinha vindo ao Brasil. Saíram daqui extasiados com o que viram. Mandaram retornos primorosos sobre o que tinham de imagem do café brasileiro e como voltaram para os seus países com outra cabeça. Compraram contêineres de café, viraram clientes, espalharam a experiência. Novembro está aí e precisamos ter essa consciência e saber nos preparar. Mãos à obra! Nós nos vemos na SIC 2018.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso referente aos meses junho, julho e agosto de 2018 – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Mundo paralelo

 

Para aqueles que estão atrás do balcão ou que trabalham na área do café, a primeira pergunta, a mais comum, dos conhecidos é: “Qual é o melhor café do mundo?” A segunda pergunta é: “Já tomou o café daquele gato selvagem?”. E o do pássaro? É bom?”. Essas são algumas dúvidas que ouvimos quase que diariamente quando somos abordados por apreciadores de café. Perguntas que mudam ao longo dos anos, mas que se baseiam muito na curiosidade do que já experimentamos, do que mais gostamos, acompanhada também da frase: “Nossa! Deve ser muito bom trabalhar com café”. Realmente esse fruto que vira grão, depois pó e líquido é encantador. Trabalhar com ele dá um enorme prazer. Porém, costumo dizer que “café é um mundo paralelo”. Desde que comecei nesta área, foram tantos aprendizados, termos novos, sabores diferentes, entendimentos sobre o funcionamento de todo o setor, que acredito mesmo que essa especificidade possa ser comparada a um mundo à parte.

Aos apreciadores comuns, explicarei que, como em qualquer área em que nos especializamos, passamos a falar uma língua própria, a usar um vocabulário específico, a conviver com pessoas do meio e a entrar cada vez mais profundo nela. De repente o buraco fica tão lá embaixo que é preciso rever. Eu me peguei dia desses pensando nisso após analisar os resultados de pesquisas recentes que mostram mais consumidores interessados no mundo do café de qualidade, das origens, das variedades, dos métodos de preparo, do moedor, do café bom.

Daí o grande desafio – a linguagem. Será que estamos sabendo atrair esses consumidores? Que vocabulário precisamos usar para educar mais gente? Quais experiências trazem mais apreciadores para tomar novos cafés?

Esse é o grande desafio! Cada vez surgem mais cursos para leigos que estão criando maneiras diversas de atrair o público. O objetivo é que a pessoa aprenda, mas que não só ela guarde o certificado no armário e continue com seu antigo hábito, mas também, que a partir deste aprendizado inicial, possa começar uma mudança no consumo do café. Vejam que responsabilidade!

Cada um encontra dentro da sua rotina aquilo que mais lhe convém, mas percebe-se — pelos dados de crescimento do nosso mercado — que mais pessoas vêm alterando a forma de se relacionar com o café. O prazer está suplantando cada vez mais o mero “tomar para acordar”.

Por isso a grande responsabilidade dos educadores na área de café pelo Brasil. Somos responsáveis por pulverizar a informação, por cativar as pessoas para o “nosso mundo” para que ele se torne real para todos. Sabemos das barreiras de preço para a maior parte da população, sabemos também ainda da falta de conhecimento sobre os produtos, mas também sabemos do grande potencial que temos em nosso país. Não mudaremos o hábito de todos, não precisamos impor nada, mas, sim, cativar pelo aroma, pelo sabor, pela experiência, pela história, por aquilo que tocar mais cada pessoa.

Não existem regras, não existe ninguém igual ao outro, mas existe muita curiosidade. Pode ser muito clichê, mas é a pura verdade. Aproveite cada pontinho de dúvida de um amigo, de um conhecido, para explicar mais sobre café. Pode ser “bobo” ou muito carregado de conceitos equivocados, mas tente usar palavras fáceis, começar pelo mais simples e evitar impor regras do nosso mundo paralelo. Aos poucos ele vai entender. Ele vai provar, vai dizer que está fraco, vai fazer muitos questionamentos, mas isso é o mais interessante: há muita gente ávida por informação. Vamos aproveitar esse momento. Sair do nosso mundo paralelo e pensar que ainda há muito para conquistar. Esse crescimento só vai ajudar toda a nossa cadeia, do produtor ao barista.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso referente aos meses março, abril e maio de 2018 – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

A doçura dos nossos momentos

Todo bom amante de café, apaixonado, coffee lover, etc. é também um colecionador (mesmo que inconsciente) de…xícaras! Noutro dia fui contar quantas tenho e quase cai pra trás. São dezenas, de diferentes formatos, tipos, materiais, tamanhos. Prefiro as grandes para tomar aquele café coado. Mas as menores são tão delicadas que abraçam nossos dedos ao menor toque. E muitas foram trazidas de viagens por aí ou foram presentes tão gostosos de lembrar. A vida é feita de momentos e muitos deles deixam recordações lindas, não é mesmo?

Noutro dia fiquei pensando na existência do café sem as xícaras e tentei dissociar o objeto dos momentos em que tomei café: meu, quase impossível. Tem também as canecas maiores, as mugs; algumas homenageiam eventos em que estive e – mesmo um pouco retrôs – ainda fazem parte da história. Enfim, há uma infinidade de possibilidades.

É por isso que nesta edição — você que navegou até essas últimas derradeiras páginas das nossas matérias — temos na capa as xícaras. Elas representam a conexão de tantas etapas da cadeia do café. Vivem para nos servir, servem para nos unir, ajudam a esquentar. São gestos tão bacanas de observar, até mesmo o jeito como alguém pega na xícara. Se a pessoa usa um dedo, se a envolve com toda a mão, se usa as duas para não correr o risco de derrubá-la (ou seria para novamente acalentar?).

Também podemos falar da transparência. Se o café é suave, ou fraco, logo se nota. Talvez tenha até uma boa nota, mas a cabeça dos mais desavisados já vai pronta para dizer: “chafé”. Se a xícara é colorida, logo desperta outros sentimentos, e até a percepção de sabor muda. Hoje há modelos lindos de cerâmica, como os que usamos nesta edição (algumas páginas atrás) para degustar os cafés, feitos com muito esmero pelo dono do lugar, veja só, o Rafael Rodrigues, que me contou que vendeu quase todas as xícaras e percebeu que, por pouco, não teria mais como servir o café. O sucesso das xícaras dele é que cada uma sai de uma forma, uma cor e um jeito. Talvez seja isso que buscamos, não é mesmo? O diferente. Eu pelo menos procuro ter várias, sem par mesmo. Há quem goste do jogo, todas iguais e, vixe!, se quebrar… Nossa. Eu me lembro de uma do jogo de casamento dos meus pais, todo laranja, com detalhe em dourado, com flores pintadas. Um exagero. Mas é um aconchego tão grande. Lembrança de infância.

Tem também a mesa do trabalho, que fica com uma pilha delas até o fim do dia. Às vezes, acho que rola até uma disputa pra ver quem toma mais café e as xícaras entregam a gente mesmo. Não tem como. O recorde a equipe bate (e acho que todos que visitam a Semana Internacional do Café) em outubro. Serão mais de 30 mil cafés servidos! É muito. Mas as xícaras ali perdem a vez. Viram copinhos. Mas tomamos do mesmo jeito. Não tem a mesma graça, admito, mas o café é sempre muito bom e vale cada gole.

Este tema me fez lembrar de 2006, quando a Starbucks chegou com sua primeira loja ao Brasil. Fui conversar com a empresária Maria Luisa Rodenbeck – responsável pela entrada da rede no País, depois de quase uma década de negociações. Entre as novidades, ela dizia, orgulhosa: “Há duas coisas que tivemos que mudar para adaptar ao Brasil: servir o café na xícara de porcelana e assar um pão de queijo”. Demos risada na época. Como era imprescindível realmente um espresso na xícara.E o melhor, e aqui vale um segredo, é deixar um fundinho de café nela e esperar uns minutos. Entre uma conversa e outra não deixe o barista levar o utensílio da mesa. Pode até ser um ritual, ou uma mania. O que você quiser. Cada um tem a sua mania. Pegue essa xícara e sinta o aroma doce do café. Enquanto eu não souber ler a borra, essa é a maneira de voltar um pouco no tempo e rememorar aquele ótimo café que acabei de tomar. Aos fundos doces das xícaras, fica aqui a minha homenagem. Que sempre possamos encontrar neles a referência dos nossos momentos vividos.

*Mariana Proença é jornalista. Em 2006 assumiu a direção de conteúdo da Espresso e, meses depois, o café já tinha virado uma paixão, que dura até hoje. Nesta coluna ela aborda diversos assuntos e experiências sobre o tema. Fale com a colunista: mariana.proenca@cafeeditora.com.br

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso, referente aos meses setembro, outubro e novembro de 2017 – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Mariana Proença • FOTO Eduardo Nunes