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Coluna Barística por Mariana Proença

Experiências com café e sobre a profissão barista

Sorri quando a dor te procurar

Clareou. Abri os olhos. Silêncio absoluto. Se eu não quisesse levantar, tudo bem. O mundo lá fora está dormente. Mas eu preciso sair da cama. O que eu tenho que fazer hoje mesmo? Ah, não posso sair de casa. Não devo. Lembro imediatamente. A mente demora todos os dias alguns minutos para me avisar e alertar. Bate uma tristeza.

Penso em alguém que encontraria dali a alguns dias no trabalho. Meu calendário do celular ainda está com os eventos agendados, aqueles que aconteceriam. Ainda marca meus dias de Pilates, que faço há onze anos depois de um acidente, lembrete do meu rodízio semanal do carro e das idas à casa da minha tia e da minha mãe, e das contas a pagar. Estas ainda continuam firmes e fortes. Daí eu me levanto. Afinal, preciso fazer algo por mim e pelos outros.

Começo a fazer o meu café. Escolho o método, esquento a água, ou melhor, fervo a água. Vou moer o café, daí alguém manda uma mensagem. Entre uma notícia falsa e outra nos grupos digitais, vem uma mensagem linda daquela amiga que você ama e que não viu mesmo antes da pandemia, mas que agora ficou mais longe de ver. Daí o coração parece que aperta mais. Vem o áudio da minha mãe incluindo alguns itens na lista do supermercado. O café não fica tão bom como no dia anterior. Acho que demorei para jogar a água, não mexi e talvez tenha esquecido alguma etapa. Mas tá bom. Aliás, está ótimo.

Resgatei meu caderno de anotações. Foi importante. Jornalista tem muito bloquinho. Mas agora este é de casa, para assuntos residenciais e não profissionais. Tem a lista do supermercado, da feira em frente de casa e dos cafés que ganhei dos amigos ou que preciso comprar. Tem também algumas frases e ideias de trabalho. Opa, mas não eram só anotações de casa? Poxa, mas não estou conseguindo separar. Tudo bem. Nunca consegui.

Desenho uma ampulheta no caderno. Sou bem ruim de desenho. Na infância era daquelas que escondia o rabisco da professora. Mas tento representar o tempo. No momento em que escrevo, estou há 58 dias em casa. Saí, é verdade, algumas vezes, para ir à farmácia, para levar algo para a minha mãe, e só. Antes não tivesse precisado sair. Andar em São Paulo neste momento é estranho. leia mais…

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Mercado de bilhões

“Mas você foi para a Coreia do Sul?” Essa foi a pergunta que eu mais ouvi nos últimos meses. Um país tão distante para nós. Acho normal a reação das pessoas em um primeiro momento. “Você foi fazer o quê?” A segunda pergunta, natural na sequência: “Tem café lá?”. Pessoal, tem muito café! Não fui a nenhuma plantação, até porque na Coreia não tem clima para isso. Porém, tem muita cafeteria, torrefação e tudo o que você possa imaginar sobre lugares relacionados à bebida. É uma loucura, mesmo! Para se ter uma ideia, em levantamento de 2016, foi identificado só em Seul, a capital sul-coreana, o impressionante número de 18.316 cafeterias, de acordo com o The Korea Economic Daily.

O município tem 10 milhões de habitantes, número semelhante ao da população da cidade de São Paulo, porém, um território quase três vezes menor. Numa quadra encontram-se várias cafeterias, o que levou o poder público a estabelecer que os empreendimentos precisam estar a uma distância de 3 metros um do outro (o que não resolve muito, cá entre nós). O consumo principal da bebida está entre os jovens, mas tem crescido em todo o país a taxas de dois dígitos, chegando a 25 bilhões de xícaras em 2016, uma média de quase duas xícaras por dia para cada pessoa.

Conhecendo todos esses dados de Seul – a segunda aglomeração urbana mais populosa do mundo – e da Coreia do Sul em geral, muitas empresas internacionais passaram a investir no país, como a Starbucks, que tem mais de mil lojas. Mas o que mais cresce são as marcas próprias e independentes, focadas em cafés especiais. Além delas, há grandes grupos locais, como a Ediya Coffee, a maior, com mais de 2 mil lojas. As cafeterias são cheias e são espaços para ir a qualquer hora do dia, menos de manhã cedo. Diferentemente de alguns lugares do mundo, na Coreia os estabelecimentos focados em cafés especiais, na sua maioria, abrem após as 10 horas e fecham bem tarde. À noite as cafeterias são os melhores ambientes em Seul para conversar e encontrar amigos.

É natural fazer um paralelo com o Brasil, que recentemente recebeu uma pesquisa da Euromonitor International para poder começar a mapear esse mercado de café especial no País. Encomendado pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), o levantamento listou 13.095 cafeterias no País. Na Coreia do Sul são mais de 60 mil. Em um território 84 vezes menor. Isso demonstra o potencial coreano, ao mesmo tempo em que nos mostra a nossa realidade econômica. leia mais…

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Alguma coisa acontece no meu coração

Alguma coisa acontece no meu coração… Certamente você já ouviu essa homenagem à São Paulo.

A música Sampa* fala de paulistanos. De muitos que aqui nasceram, como nós da Revista Espresso, mas muitos que aqui chegaram por diferentes razões e em busca de sonhos.

O parque e o trânsito, a dor e o amor, o calor e a garoa, os prédios embrenhados entre as casas, a árvore torta que luta no concreto, a padaria que não fecha, a cafeteria para quem quer conversa.

Em meio a muitas desigualdades, centenas de origens, vivemos correndo, aguardando o farol abrir, o busão passar, a chuva parar. Ao pisar na rua temos a certeza de que estamos vivos!

Às vezes até dá tempo de tomar um pingado, se tiver apressado, pede um espresso, se tiver com fome, manda um pão na chapa. Meu, que delícia!

Ah, São Paulo, como este janeiro está sendo um difícil começo, de quem vem de outros sonhos felizes dessa mesma cidade. Que aprendemos depressa de chamar de nossa realidade. Feliz 467 anos, São Paulo!

Ahhh, já ia me esquecendo, tome café na sua cafeteria paulistana preferida e conta pra gente o que é pra você a sua Ipiranga com a São João que aquece o seu coração!

*Música de Caetano Veloso, composta em 1978.

TEXTO Mariana Proença • FOTO Giulianna Iannaco

O que é lenda e o que é onda?

Vocês sabem que nós brasileiros temos uma enorme oportunidade? O café – a bebida – levou centenas de anos para chegar ao que consumimos hoje. Em meio a tantas outras plantas foi descoberta uma cujo frutinho doce, quando colhido maduro, levado ao terreiro, descascado e beneficiado resulta em um grão cru. Esse mesmo grão, já seco e torrado, depois moído, em contato com a água quente vira uma bebida saborosa e energética. Ufa! Imagina quanto tempo, conhecimento e testes foram necessários? São muitas lendas e histórias que passam pela África, Arábia, Europa e, é claro, pelo Brasil, quando ele chegou aqui, em 1727.

Ao longo do tempo, principalmente nos pós-guerras, já no século XX, os consumidores se distanciaram muito da origem da bebida por conta da industrialização. O café embalado, em pó ou solúvel, é vendido no mundo inteiro. Muitas pessoas não sabem que ele é grão e, muito menos, fruto. O acesso fácil ao produto, em quantidade, fez com que seu consumo crescesse ano após ano. Hoje o mundo produz anualmente 168 milhões de sacas e consome 161 milhões. O café vem trilhando o caminho de produto premium de forma rápida, e grandes marcas investem em varejo, cafeterias e novos equipamentos para extração. O consumo mundialcresce, em média, 2% ao ano. Vivemos no Brasil a terceira onda do café – o preparo artesanal e a diferenciação por atributos, como origem, torra e comercialização.

Nesse novo hábito de consumo do café especial, que conquista cada vez mais pessoas e, sobretudo, jovens, a história da origem foi fortemente retomada. Principalmente o “como fazer”. Com a leia mais…

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Conectados e com propósito

Um dos grandes desafios de fazer conteúdo de café e de outros temas amplos é conseguir ser relevante ao mostrar diferentes temas do Brasil e do mundo no dia a dia. Produzir uma revista requer muita pesquisa, referência, conversas e, é claro, viagens. A minha vontade era sair por aí atrás das pautas, conseguindo visitar cada fazenda e cada cafeteria para que sou convidada. Confesso que isso me aflige um pouco. Pensar que, em catorze anos trabalhando na área editorial de café, ainda não tenha ido a alguns lugares que fazem trabalhos de referência. Fora aqueles com os quais não tive contato. Resumo: há muito sobre o que falar.

Esse sentimento de incompletude surge sempre na minha cabeça. Nós nos cobramos o tempo todo pelo que não fizemos ainda. Há tanto a fazer. Mas, e se mudarmos a pergunta para: e o tanto que já fizemos?

Numa realidade do dia a dia em que estamos o tempo todo plugados, produzindo conteúdo de fotos, vídeos e anotando as informações, esquecemos de viver o momento, o aroma daquele café, de olhar o detalhe da xícara, de vivenciar o ritual daquele instante e até de celebrar as nossas pequenas conquistas.

Acreditem, caros amigos e amigas do café, há muito que fazer nesse mercado. Há muitas ideias a realizar, reportagens a apurar, histórias de vida a conhecer. Mas, tenham calma. Os propósitos leia mais…

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Orquestra afinada

No jornalismo, a pauta nos guia em busca da melhor matéria. Estamos constantemente de olho naquilo que é novidade, em histórias interessantes e em contar experiências pouco conhecidas do público para que mais pessoas possam ser alcançadas. A minha escolha foi pelo bom jornalismo e pela pauta positiva. Na minha carreira, comecei em uma revista sobre cultura brasileira e, por obra do acaso, acabei entrando no setor de café. E já se foram treze anos. Não saberia trabalhar com tragédias ou cobrindo histórias negativas. Por isso e por outros motivos, eu me encontrei tanto no mercado de café e no projeto da Espresso. É um misto de novidades com histórias de empreendedorismo. Sempre há o que pesquisar e estamos o tempo todo aprendendo. Este é um mercado em constante mudança e crescimento.

Além desse brilho nos olhos que caminha comigo nesses últimos anos, no mesmo período comecei a organizar eventos na Café Editora. O primeiro deles, o Espaço Café, em São Paulo, foi a semente, em 2006, para o que hoje é o maior evento do grão no Brasil: a Semana Internacional do Café, a nossa SIC. Digo nossa porque ela realmente se tornou um projeto de todos os que trabalham no setor. Isso só foi possível porque construímos no Brasil uma comunidade do café.

De norte a sul do País, há profissionais trabalhando com o produto, dedicados a cuidar dos grãos nacionais para que eles possam ter o melhor resultado na xícara. O desafio de 2018 era grande, enorme, parecia maior do que poderíamos abraçar, mas só foi possível sair dessa missão vitoriosos porque cada um na sua função fez a sua parte. Quantos estandes bem elaborados, investimento das marcas, lançamentos, cafés selecionados cuidadosamente após a colheita, torras bem executadas, acessórios e utensílios caprichados, enfim, uma orquestra bem regida por todos.

Quão emocionante é ouvir da provadora Freda Yuan, da Caravan Coffee Roasters, de Londres, que ela degustou cafés maravilhosos do Brasil, e que não tinha ideia da diversidade que há no nosso país. Ouvir da organização da World Coffee Events que eles estavam impressionados com o profissionalismo do evento, e que fizemos mais barulho nas redes do que eventos anteriores, leia mais…

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Alguém falou café?

Hábito. Maneira usual de ser, fazer, sentir, individual ou coletivamente. Costume, regra, modo ou mania. O café é habitual: costumeiro, rotineiro, constante, frequente, comum e usual. Pense desde quando na sua vida isso virou uma habitualidade.

Às vezes nós mesmos preparamos, às vezes preparam para a gente. E nunca fica igual, e é sempre um momento diferente. Quem inventou a definição de rotina não conhecia o café ao raiar do dia.

Ao longo da história virou um companheiro inseparável. Mas faz algum tempo que esse mesmo café ficou inquieto, queria mudar de visual, queria ser mais completo. Infeliz que estava com a sua forma de se apresentar no dia a dia ele pensou que poderia ser melhor. Ficou mais maduro, vestiu suas melhores características, buscou ser mais doce e menos seco, deixou o amargor de lado e deu uma pitada de acidez, dedicou-se a melhorar seus defeitos.

Estava mais experiente e queria estar por inteiro, e não mais reduzido a pó. Assim era possível ver suas formas, tamanho e sua real capacidade de dar um belo bom-dia. A energia permanecia a mesma. Ora com mais presença, ora com mais doçura, ora com mais leveza. Um dia após o outro.

De repente veio uma onda, bem grande, e levou o café bom para a beira do mar. Ele ficou mais acessível para todos, saiu das profundezas do oceano e estava exposto. Todo mundo queria. Mas eram muitas opções. Como escolher? leia mais…

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Vem fazer café

Sempre recebi o exemplo de meus avôs e meus pais da importância em trocar nossos conhecimentos para que outras pessoas tivessem acesso às informações e pudéssemos construir, juntos, uma comunidade melhor. Fiz trabalhos voluntários durante anos de minha adolescência e, depois de “gente grande”, não me engajei mais em nenhuma atividade constante.

Apesar de saber que precisava retomar esse trabalho, deixei o tempo passar. Acredito que essas ações realmente funcionam. Eis que, para reforçar ainda mais essa minha opinião, chega para uma reunião na revista Espresso o Diego Gonzalez, engenheiro florestal, e proprietário do Sofá Café, acolhedora cafeteria nascida em São Paulo. Diego trazia na “mala” um projeto tentador: criar uma escola de baristas para formar jovens de baixa renda.

O ponto de partida havia sido uma viagem, em 2013, onde Diego conheceu a iniciativa da Toms, marca de alpargatas criada pelo americano Blake Mycoskie, que tem como objetivo doar um par de sapatos igual a cada vendido. A empresa, nascida em 2006, tem o impressionante número de 10 milhões de pares doados, em mais de 60 países.

O projeto norte-americano deu um estalo para que Diego desenvolvesse a ideia. Surgiu assim o Fazedores de Café. A missão é simples, porém a execução é complexa: formar jovens baristas em um curso completo de dois meses, aulas diárias pela manhã, para que, depois, por mais um mês, esse profissional faça estágio em cafeterias parceiras e seja inserido no mercado de trabalho.

Para colocar a ideia em prática, Diego encontrou uma turma engajada no Sofá Café. Com a entrada da barista Regina Machado para ministrar o curso, eles foram costurando as parcerias de equipamentos, insumos, cafeterias, divulgação e conhecimento. Tudo muito leve, feito de forma voluntária. Uniram-se a ideia mais de 30 parceiros. Nós, da Espresso, topamos de cara.

Há muita vontade, energia e a certeza de conteúdo muito completo, que passa por ensinamentos de ética, comportamento, serviço de café, elaboração de drinques, prática de extração, até cafeicultura, business de cafeteria, gerenciamento de negócio, técnica de equipamentos. O projeto começou a criar braços, com a força de muitos envolvidos.

Faltava o mais importante, os alunos. A primeira turma do curso se concretizou e teve início em abril, com quatro jovens, vindos de duas instituições paulistanas, Casa do Zezinho, no Parque Santo Antonio, e Centro de Arte e Promoção Social do Grajaú (Caps), ambos na zona sul da cidade. Caíque, Paulo, Luis Guilherme e Ana Carolina estão em aprendizado. Muitas perguntas, desafios e novidades para jovens que nunca tiveram esse contato mais técnico com o café.

Ao voltar para casa, as experiências deles são compartilhadas com as famílias, que querem saber mais sobre o grão e até ler as apostilas. Em maio, o Sofá Café e os parceiros do projeto apresentaram oficialmente o Fazedores de Café em um encontro. Todos os presentes ficaram encantados com a proposta, que é uma semente produtiva nesse mercado tão carente de baristas e de valorização desse importante profissional.

Volto então ao Toms. Como que num passe de mágica, àquela marca de alpargatas sentiu o aroma do café do projeto brasileiro. A empresa norte-americana, nesse ano, ampliou o leque de doações e deu início ao Tom Roasting, onde para cada embalagem de café vendida eles doam uma semana de água potável para uma pessoa que precisa no mundo, através do programa Water For People. São quatro tipos de café, de diferentes regiões, que proporcionam 140 litros de água para alguém em algum ponto da Terra. Hoje são 780 milhões de habitantes que não tem acesso à água limpa. Imagina isso?

O aroma do café abraçou ambos os projetos sociais e mostrou que há imensas possiblidades – em maior ou menor escala – de fazer a nossa parte. Se você se interessou pelos Fazedores de Café, entre em contato com o Sofá Café (contato@sofacafe.com.br) e participe da maneira que puder. Esse não é um projeto somente da cafeteria, mas importante iniciativa para todo o mercado.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso referente aos meses junho, julho e agosto de 2014 – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

“O melhor café da minha vida”

A profissão de barista no Brasil é ainda muito nova. Tem pouco mais de 10 anos. Mas em muitos países da América do Sul e Central é ainda mais recente. Estive no Peru em 2010, momento em que efervescia o café especial. Na época, produtores começavam a ver valor em seus grãos e surgiam jovens, muito jovens, dispostos a aprender essa nova profissão, assim como empreendedores que abriam cafeterias muito bacanas em Lima. Um movimento que dava gosto de ver e sentir o delicioso aroma. Lá os cafés, em geral, têm sabores muito exóticos e acidez bem pronunciada. Lembro-me de ter provado alguns bem incríveis.

Um dos entusiastas dessa nova etapa foi o barista Harrysson Neira, na época com 20 anos, que provava os cafés com dedicação, perguntava muito e tinha sede de aprender. Harry (Rare, para os peruanos), como é conhecido, abraçou a profissão de barista e, desde então, vem sendo um dos porta-vozes desse mercado no país. Junto com os baristas Karen Pisconte, da Café Verde, e Roberto Pablo, o Tito, da Arabica Espresso Bar, campeões nos anos de 2010 e 2012, eles são a primeira geração de baristas do país.

Logo que terminou a escola, Harry fez um curso na área de cozinha e trabalhou em alguns restaurantes de sua cidade-natal, Lima. “Não me encontrava ali, sentia que a cozinha não era minha vocação. Procurei outro trabalho e cheguei até uma cafeteria, onde comecei a descobrir algo totalmente novo.”

Em novembro de 2013, recebi de Harry a notícia de que ele havia vencido o campeonato nacional de barista, depois de dois anos em segundo lugar. Ele é autônomo e, desde 2011, criou a sua própria marca El Café de Harry. Ele seleciona, torra e ajuda a promover o consumo de cafés especiais em restaurantes e cafeterias: “Parte da missão desse café é fazer com que nos restaurantes ele seja um real protagonista e que deixe de ser um simples complemento da refeição”, ele diz. E está dando certo, pois há muitos estabelecimentos que vêm investindo no café: “com o auge gastronômico que vive hoje Lima, há diversos chefs respeitando o café e colocando no cardápio grãos especiais preparados por baristas muito bem treinados”.

A dedicação de Harry representa muito essa gana do povo peruano. Apesar de eles não serem ainda grandes consumidores de café, com pouco mais de 1 quilo por pessoa/ano, a relação deles com o fruto é muito forte, principalmente os que vivem no campo.

É o caso de Harry: “meus avós tinham plantações de café, em Piura, ao norte do Peru, e nas minhas férias eu os via colhendo café e assistia a todo o processo. Eles faziam café natural, secavam no teto da casa e logo tostavam e preparavam o café filtrado. Chamavam toda a família. Recordo-me com muita saudades desse café, super aromático, delicioso, especial. Até hoje é, com certeza, o melhor café que provei em minha vida.”

Junto com essa paixão de Harry vem o crescimento nacional de cafeterias especializadas, com ofertas de cafés de origem. “Já podemos dizer que há um novo tipo de cliente, que começa a conhecer o café, que tem habilidade para diferenciar as qualidades e transmite isso aos amigos e gera um efeito multiplicador.”

Esse movimento de voltar a atenção para o campo e valorizar produtos frescos já não é de agora, mas, no café, produto de cadeia complexa e cheia de etapas, ainda é algo muito distante do consumidor. “Quando um cliente prova um café que conhecemos muito bem o produtor, que a torra tem alguns dias e que finalmente é servido contando a ele todos os detalhes por trás da xícara, não há nada melhor do que o ver desfrutando contente tudo de especial que tem ali.”

Neste ano, a maior feira de café do mundo, a SCAA (Associação Americana de Cafés Especiais), terá o Peru como país homenageado. O país dobrou, em 11 anos, a produção, de 2,4 milhões de sacas para 4,7 milhões. O cafeicultor vem acreditando no café especial de lá, e os jovens abraçaram essa causa. Sorte nossa!

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso referente aos meses março, abril e maio de 2014 – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

O bebedor infiel

Qual é o melhor café do mundo? Quem trabalha no setor é sempre, sempre mesmo, questionado com esta pergunta. O hábito de conversar sobre café é coisa muito nossa. O interesse em saber mais sobre a bebida mostra que há um amadurecimento do atual consumidor.

De uns anos para cá esse interesse do público geral cresceu muito. É bem perceptível a forma como as pessoas abordam baristas e outros profissionais da área para falar de café. Antes essas mesmas pessoas não tinham ideia de que a bebida guardava diferentes sabores e variedades. Hoje, além de entenderem um pouco mais, surge o que considero importante: as dúvidas.

Algumas são perigosas e é necessário estar preparado para respondê-las. Uma delas: “nossa, café hoje é algo chique, né?” Acredito que esta pergunta acende um alerta muito grande. Será que a mensagem de incentivo ao consumo do café de qualidade parece ser algo muito inacessível para o público comum apreciador de café? A imagem de algo chique elitiza um produto tão acessível a nós. Por isso que adoro o modo como baristas de algumas cafeterias e cursos apresentam a diferença entre um café tradicional e um de qualidade. Eles trazem à mesa os dois juntos, para que o consumidor faça um comparativo entre as xícaras. Conclui-se então que: não é chique, é melhor mesmo.

Dentre a série de perguntas, normais, afinal é um mercado muito novo, tem também aquela clássica: “não pode colocar açúcar nesses cafés, né?” Essa resposta é uma grande discussão que levaria dias. A ditadura do sem açúcar é muito ruim, primeiro porque afasta o novo apreciador, segundo porque cria regras desnecessárias neste momento de ganhar consumidores.

Mas mesmo estas perguntas secundárias não vencem aquela campeã de audiência: “em sua opinião qual é o melhor café?” Sempre que início a resposta tenho a impressão de que as pessoas esperam uma rápida definição, com dois ou três nomes de cafés que são encontrados nas gôndolas dos supermercados e pronto. Daí a minha resposta é oposta. Sempre vem acompanhada de um “veja bem, não existe o melhor café do mundo…” a pessoa se assusta, claro, porque afinal a resposta deveria ser tão simples quanto a pergunta. Mas não é. Isso porque café é um alimento – sempre dizemos isso por aqui nessas páginas – que sofre muitas alterações até chegar à xícara. E, além de tudo, a cada safra e, portanto, a cada ano há regiões, marcas, fazendas e cafeterias investindo em grãos de qualidade para esse novo consumidor.

Essa pergunta, acredito, também está acompanhada de uma vontade do apreciador de café de optar por uma única marca “muito boa” e permanecer fiel a ela por anos. É um misto de nova cabeça para provar o diferente, mesclada com a atitude tradicional de escolher um café para chamar de seu. Quando não tínhamos muitas opções, vá lá, mas hoje não podemos validar essa atitude.

Esses dias fui abordada mais uma vez com a tal pergunta. Expliquei à pessoa que existem ótimos cafés e não apenas um. “Mas me fala um pelo menos…” Daí citei uns dez nomes e a pessoa ficou me olhando, ainda em dúvida. Alguém interrompeu a conversa e continuamos falando de outros assuntos. Na hora de ir embora, a pessoa comentou: “você pode até trabalhar com café e entender, mas você não compartilha informação”. Olhei assustada: “é, você não fala qual é o melhor café”. Dei risada e disse: “mas não existe o melhor café, existem vários ótimos cafés”.

Desde então decidi: vou aconselhar as pessoas a serem infiéis. Esta história de monogamia faz mal. E mais, comecei imediatamente a presentear amigos com diferentes cafés. E ouvi de um deles dia desses: “sabe este café que você me trouxe? Estou apaixonado por ele”. Fiquei contente, claro. Mas antes que ele se apegue, certamente, vou apresentar outras opções. Hoje o café bom também fica no Brasil e precisamos incentivar cada vez mais esta cadeia sustentável. E viva os bebedores infiéis em busca da diversidade! Viva!

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso referente aos dezembro, janeiro e fevereiro de 2014 – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes