Personagens do Café

Quantas histórias podem ser contadas em 18 anos? Em comemoração ao aniversário da Espresso, a matéria de capa da edição #72 destaca alguns personagens que, assim como nós, tiveram suas trajetórias de vida marcadas pelo café. Mas os relatos vão muito além das páginas impressas. Por isso, dedicamos este espaço para contar outros depoimentos de pessoas que vivem pelo e para o café. Produtores, torrefadores, pesquisadores, consumidores… Se você também tem uma história marcada por este fruto que nos conecta, conte pra gente!

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Personagens

Luiz Melo: “Tive a certeza que iria viver do café pro resto da minha vida”

Sou conhecido por alguns amigos gringos como o brasileiro que foi descobrir o café na África. Calma, eu explico. Obviamente, como todo brasileiro, tive contato com a bebida café desde criança e também com as histórias que meu pai contava sobre minha mãe nas lavouras de café ajudando meu avô, que trabalhava em fazendas no noroeste do Paraná. Porém, meu conhecimento do café e sua origem foi esse durante muito tempo. Até que, a faculdade de Direito na UFPR, lá em 2003, me levou a frequentar uma das primeiras cafeterias de café especial de Curitiba, a Exprèx Caffè, da Simone Yamaguchi, localizada em frente ao campus, e, logo depois, a Lucca Cafés Especiais, conhecida de todos. Foi onde de fato virou a primeira chave da minha relação com o café. Passei a apreciar a bebida que era só mais um produto qualquer da minha casa até então. Mas ainda faltava virar a maior chave de todas: a origem.

Tudo mudou quando, em 2014, surgiu um convite pra fazer um estudo de viabilidade de um projeto para instalação de uma torrefação na Tanzânia, leste africano. Depois de 11 anos cuidando dos negócios da minha família, que foram vendidos para uma multinacional no mesmo ano, estava aí a minha oportunidade de recomeçar minha carreira trabalhando em algo que eu realmente amava. A primeira viagem pra valer foi para o Quênia e foi nessa ocasião em que tive a certeza que iria viver do café pro resto da minha vida. Estava no carro, indo pela primeira vez conhecer uma fazenda de café e não conseguia esconder a minha euforia. No caminho fiquei admirando a savana africana e algo divino falava muito forte ao meu coração que eu tinha encontrado aquilo que estava buscando. Senti paz. No final do dia longo, já no hotel em Nairóbi, entendi o motivo que me fazia querer me jogar de cabeça nesse universo incrível do café: as pessoas. Todos que tivessem (ou que ainda viriam a ter) alguma relação com o café, seriam o foco do meu trabalho dali pra frente.

Como o projeto na Tanzânia não andava, decidi convidar um dos meus melhores amigos e grande publicitário brasileiro para ser meu sócio no negócio, que seria responsável por algumas pequenas revoluções no mercado brasileiro de cafés especiais. Numa conversa em uma pizzaria, fomos rabiscando tudo que a gente idealizava em uma empresa que surgiria para causar impacto na vida de todos envolvidos de alguma forma com o café, desde o produtor até o consumidor final. Assim surgiu a Supernova Coffee Roasters, que tem seu nome inspirado nas estrelas que implodem para dar origem a outras estrelas. Este seria sempre o nosso principal fundamento, a empresa nunca seria maior que as pessoas, ela teria que criar novas estrelas do café, sempre. Essa inspiração, inclusive, se tornou filme, um documentário que mostra as histórias das pessoas que estão por trás de uma xícara de café.

Embora o projeto na Tanzânia tenha iniciado em 2014, um ano antes eu já vinha estudando sobre torra de café, que foi e ainda é a minha principal atividade como profissional e a que mais me fascina. Em 2015 e 2016 fiz minha certificação em Roasting e Sensory da SCA, em 2017 a de instrutor AST e, finalmente, em 2019, a de Q- Grader. Hoje, sigo a frente do Supernova, mantendo os mesmos princípios que norteiam seus ideais, dentre eles a inovação e criatividade constantes, tanto que permanece a busca incessante pela vanguarda nas várias áreas do café.

Luiz Eduardo Melo, torrefação e cafeteria na Supernova Coffee Roasters – Curitiba (PR) @luizsup

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Maria José Bernardes: “A semente meu pai deixou bem plantada dentro de nós”

Nasci numa fazenda de café. Meu pai sempre nos levava a cavalo para acompanhá-lo na administração das lavouras, que eram sua paixão. Ele nos explicava o serviço e nos mostrava a magia que se escondia por trás de cada pé, de cada xícara que bebíamos com gosto e orgulho de produzir algo tão especial. Nossa fazenda está na mesma família desde 1780. Ele se foi e nos deixou ainda adolescentes, mas a semente deixou bem plantada dentro de nós.

Depois de muitos anos de fazenda sob a administração de meu irmão, segui meu caminho, procurando adquirir conhecimento através de cursos, palestras, dias de campo. As inovações não param, a tecnologia voa, e sempre tentando acompanhar. Até que há 13 anos fizemos um curso de “Gestão com Qualidade no Campo” e meu marido também se interessou. Nosso foco passou a ser qualidade.

Em pouco tempo os resultados apareceram. Fomos campeões e finalistas em inúmeros concursos de Qualidade do Café. Isso nos motivou a querer melhorar a cada safra. Partimos então para torrar nosso próprio café, e há cinco anos nossa marca está no mercado. Reservamos os lotes com maiores pontuações para nossos consumidores.

Tudo é feito na própria fazenda, onde temos também uma cafeteria e restaurante. Nosso café Fazenda dos Tachos é feito com todo carinho e dedicação. Contamos com nossos filhos na administração da fazenda, sendo que um deles se dedica totalmente à torra e à comercialização.

Maria José Vilela Rezende Bernardes, produção e torrefação na Fazenda dos Tachos – Varginha (MG) @fazendadostachos

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Karla Cardoso: “O café traduz na xícara o amor de todos os elos da cadeia”

Minha história com café vem desde criança, quando passava minhas férias na casa dos meus avós no interior do município de Domingos Martins, na região das Montanhas Capixabas. Depois da faculdade, iniciei minha carreira no Sebrae ES, onde atuo até hoje!

Dentre as várias funções desempenhadas, a que mais foi ao encontro de minhas raízes: gestora de projetos do agronegócio. Foram criados projetos por segmento e o café foi um dos que tive a honra de ser gestora.

De 2013 a 2018 foi o grande marco para nossa cafeicultura capixaba, onde passamos de estado conhecido como produtores de commodities e de cafés de baixa qualidade para um estado produtor de cafés especiais!

Os trabalhos de organização de produtores e parceiros para as Indicações Geográficas dos Cafés do Espírito Santo também foram fruto deste projeto. A soma dos esforços de todas entidades, parceiros e, sem dúvida, do nosso produtor que faz a diferença! O café conecta pessoas, cria novos laços de amizade, traduz na xícara o amor de todos os elos da cadeia, nos dá abertura para criação de novos laços de amizade por este Brasil e mundo afora!

Karla Fernanda Cardoso, analista de projeto no Sebrae ES – Vila Velha (ES) @karla_fernanda_cardoso

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Ingrid Macieira: “Celebração da força e união feminina”

Para celebrar as mulheres do café que trabalham todos os dias nos diversos segmentos deste mundo mágico, eu e Josiane Cotrim, criamos a marca de lenços de seda com estampas inspiradas em café. A união entre a paixão pelo café e a moda deu certo! Cada estampa é inspirada na história de uma dessas mulheres e os lenços ganharam seus nomes.

A JCM Scarves é uma grande celebração da força e união feminina. Das produtoras, agrônomas, baristas, jornalistas, mestres de torra, empresárias e tantas mulheres que, desde a lavoura até a xícara, trabalham com este fruto! Desenho com muita alegria, com a missão de traduzir esta paixão em estampas.

Ingrid Mello Helmold Macieira, sócia na JCM Scarves – Niterói (RJ) @jcmscarves

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Silvia Oigman: “Como neurocientista, mergulhei no mundo lúdico do café”

Sou pesquisadora da Unidade Café e Cérebro no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Minha história profissional e afetiva com café começou durante o pós-doutorado, que teve como objetivo avaliar os efeitos do aroma do café no cérebro humano. Além de construir com a equipe o olfatômetro, dispositivo usado para levar os aromas até os voluntários dentro da ressonância magnética, e desenvolver o protocolo da pesquisa, fiquei responsável por escolher o café que seria usado nos experimentos. 

Nesse período mergulhei no mundo lúdico do café, fazendo visitas às fazendas, ganhando experiência na seleção dos grãos, em torra e métodos de preparo, aliando a ciência, a prática e meu cromatógrafo gasoso (olfato), que me ajuda muito no meu dia a dia do trabalho.

Desde 2015 me tornei a primeira empreendedora científica do IDOR, onde faço pesquisas aplicadas que buscam encontrar soluções inovadoras na área de saúde, contribuindo diretamente na qualidade de vida das pessoas, o que para mim é extremamente gratificante.

Silvia Oigman, neurociência no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) – Rio de Janeiro (RJ) @silvia_oigman

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Iandra Vilela: “Esse grão mudou radicalmente a minha vida profissional e faz eu me sentir plenamente realizada”

Sou natural de Ilicinea, no Sul de Minas, e sou formada em nutrição, área que atuei durante 10 anos. O meu envolvimento com o café foi através do meu esposo André. Depois que nos casamos, percebi que precisava de mais sentido na minha profissão. Parecia que estava estagnada. Foi quando meu esposo me fez a proposta de nos mudarmos para Três Pontas, sua terra natal, e ajudá-lo a gerenciar a pequena propriedade da família.

Me senti extremamente confusa, pensando em carreira já consolidada na nutrição e um novo desafio, mas quis arriscar para ver o que dava. Inicialmente, a ideia seria para atuar na parte administrativa, já que a propriedade estava um pouco abandonada, pois ele viajava muito a trabalho e sua irmã mora no exterior. Porém, antes de iniciar esse processo, fui atrás de informações sobre o café, afinal de contas, era um mundo totalmente novo pra mim.

Não sou de família de cafeicultores, mas tenho na lembrança que odiava tomar café na casa da minha tia. Então fui atrás de conhecimento. Fiz muitos cursos de classificação e degustação de café, mas quando fiz o curso de pós colheita, eu me encontrei. Comecei a observar os processos de pós colheita das fazendas e não entendia muito bem quando o café era descarregado no terreiro, as pessoas pisavam em cima dos grãos, tinha cachorro andando em cima dos lotes, etc. Estranhava aquilo tudo, pois o meu olhar era de nutricionista, eu sempre enxerguei o café como um alimento. Todo alimento deve ser processado dentro das normas básicas de higiene e segurança alimentar.

Foi então que tive a certeza que meu lugar era no terreiro. Precisava mudar algumas coisas para mudar a qualidade daquele café. Continuei a minha busca por mais informações e conhecimentos na área. Em 2017, tive a oportunidade de começar a trabalhar no departamento de cafés especiais e exportação da Cocatrel, onde, desde então, atuo no suporte de pós colheita e qualidade para os cooperados. Já em 2018, fiz o curso de Q-processing do CQI, onde tive uma visão ampliada dos processos de pós colheita.

Além do trabalho na cooperativa, continuo responsável pelo pós-colheita na nossa propriedade e em tudo que envolve o café. Sou extremamente apaixonada por esse mundo! Esse grão que mudou radicalmente a minha vida profissional e faz eu me sentir plenamente realizada. O café me trouxe muitos benefícios, mas sem dúvidas as experiências e as novas amizades que me proporcionou e me proporciona a cada dia é imensurável.

Iandra Mendes Vilela, pós colheita e qualidade na Cocatrel – Três Pontas (MG) @iandracoffee

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Abel Martins: “Como todo início difícil, este também foi meu caso”

Depois de nove anos na área de restaurante como ajudante de garçom, chegando até chefe de restaurante, resolvi parar tudo e recomeçar. Foi aí, então, que comecei a fazer um curso de técnico em eletrônica e, para fazer o estágio, fui parar na antiga empresa Libermac, antes na Paula Souza, em São Paulo, e, hoje, Pasquali Máquinas. Aprendi a trabalhar de técnico em máquinas de café espresso com meus amigos Rafael, Fernando e André da Nostro Café. E é isso que faço até hoje.

Em 2011 resolvi verificar se havia alguma chance de abrir meu próprio negócio. O início foi em minha casa, morava em São Mateus, Jardim Colonial, onde na laje de casa, com dois cavaletes e uma tábua de obra, colocava as máquinas em cima delas e ali fazia as manutenções. Iniciamos com dois equipamentos do modelo Jura Ena 3. Hoje temos cerca de 500 máquinas de diversos modelos e marcas.

Como todo início difícil, este também foi meu caso. Depois de dois anos nosso negócio deu um boom e começamos a alugar máquinas para os melhores cafés de São Paulo. Maravilha, estávamos no meio das pessoas mais conceituadas do café. Neste percurso passamos pelos bairros da Vila Formosa, Vila Matilde, Itaquera e hoje nos encontramos na região da Mooca.

As amizades são muitas, não tem como contar. Este ano, depois de completar 10 anos, mudamos nossa identidade visual que fora feita pelas mãos da minha esposa Márcia, companheira, ajudante e minha primeira técnica. Somos a Swiss Coffee Excelência em Cafés. Teria muito mais pra falar, mas vem tomar um café conosco que te conto.

Abel Martins, máquinas de café na Swiss Coffee Brasil – São Paulo (SP) @swisscoffeebrasil

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Daniele Alkmin: “Entendi a dor do produtor de ter um café de excelente qualidade e não ter acesso ao mercado”

Sou a quinta geração trabalhando com cafés. Formei em administração de empresas, fiz pós-graduação na FGV-SP e intercâmbio em Brighton (Reino Unido). Assim que me formei, trabalhei no aeroporto de Viracopos, em Campinas, e na sequência trabalhei por 10 anos na construção civil.

Em 2015 meu pai, Carlos Henrique Moreira Carvalho, me convidou para trabalhar com ele uma vez por semana para entender os negócios da nossa família. Foram dias maravilhosos ao lado dele indo para a fazenda de café.

Em 2016 fomos à feira SCA em Atlanta, nos Estados Unidos. Nessa feira conheci o universo dos cafés especiais e me apaixonei. Voltando, entendi a dor do produtor de ter um café de excelente qualidade e não ter acesso ao mercado que pague bem por esse produto. Percebi também a necessidade de me especializar.

Fiz Q-Grader na BSCA para saber o que produzimos e como direcionar os nossos lotes no mercado. Virei coffee lover, fiz diversos cursos. Em 2016 iniciamos os trabalhos de exportação e enviamos microlotes para o Canadá. Um ano depois, exportamos para os Estados Unidos e, em 2018, para a Austrália.

Em 2019 criamos a Agrorigem – The Coffee ID – uma startup incubada no Inatel com o objetivo de trazer inovação na comercialização de café especial. Atualmente sou CEO e co-fundadora desta plataforma digital multilateral com novas oportunidades de venda de café especial para o produtor. Faço parte de um grupo maravilhoso de Mulheres Empreendedoras do Café aqui em Santa Rita do Sapucaí. Somos unidas, nos impulsionamos e estamos animadíssimas na organização do nosso evento para a edição 2022.

Daniele Alkmin Carvalho Mohallem, produtora e exportadora – Santa Rita do Sapucaí (MG) @dani_alkmin @agrorigem

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Ali El-Khatib: “Aprendi com meus pais a moer para fazer o café à moda árabe das aldeias”

Minha origem no café vem desde 1960 na Fazenda Santa Luzia em Kaloré, Norte do Paraná. Lá, plantava, capinava, derriçava, colhia, secava no terreiro, recolhia na tulha e tudo mais. Em casa, em Jandaia do Sul, ajudava cortando lenha, acendendo fogo para torrar o café no roteador de bola. Aprendi com meus pais a moer para fazer o café à moda árabe das aldeias. Depois, a partir de 1966, já em Campinas, visitava com meu pai outro apaixonado pelo café, a Fazenda Santa Elisa, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). É claro que como de origem árabe, o café está em nosso DNA.

Sempre visitava eventos sobre café e foi em um encontro de produtores na cidade de Botelhos (MG) que apresentei a ideia de realizar um evento completo para divulgar o café da pesquisa até o consumo de uma saborosa xícara. O pesquisador científico do IAC, Dr. Sérgio Parreiras Pereira, aceitou a ideia e a partir das foram sendo construídas parcerias.

O primeiro evento do Campinas Café Festival ocorreu em 2008, na Estação Guanabara. A partir dessa data foram realizados 47 eventos como: seminários, cursos de baristas, certificação de baristas e degustações de cafés em universidades e praças públicas. O grande evento de repercussão nacional é a Corrida e Caminhada do Café e a Corrida Kids do Café.

Ali El-Khatib, promoção e inovação de eventos da cadeia produtiva e de consumo do café – Campinas (SP) @corridadocafe

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Mariselma Sabbag: “Ter atitude e não perder nenhuma oportunidade”

Moro em São Paulo com o pé em Minas. Meu pai era produtor de café, então desde criança tive contato com a cafeicultura. Após me casar, há 24 anos, adquirimos a nossa primeira propriedade na qual passamos a produzir café.

Em 2012, conheci e me tornei associada da IWCA-Brasil. Foi quando comecei a entender o meu valor na produção do nosso café. Ao ver tantas mulheres juntas, unidas com o mesmo propósito, que é capacitar, dar visibilidade e gerar negócios, a mim cabia ter atitude e não perder nenhuma oportunidade. Fiz curso de degustação e classificação de café para conhecer o produto que tenho em minhas mãos. Atualmente, estudo os processos de pós-colheita e de torra.

Após conhecer novas tecnologias, adquiri dois secadores estáticos e, em 2019, construí o primeiro terreiro suspenso com a expectativa de melhorar ainda mais a qualidade do café.

Em 2017, criei a marca de café torrado, o Café Renovo, com o intuito de levar para o consumidor um café de qualidade com preço acessível. Investimos em tecnologia e cuidados no pós colheita para ter cada vez mais um café de melhor qualidade.

Mariselma Sabbag, produção e industrialização no Café Renovo – Conceição da Aparecida (MG). @mari_sabbag