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O novo ritual do café no Japão
Impulsionado por consumidores curiosos e estabelecimentos independentes, o país asiático vive uma transformação no café especial, marcada por rastreabilidade, experiência e valorização da delicadeza na xícara
Por Gabriela Kaneto
Por décadas, o Japão esteve associado ao consumo de café de torra escura e aos kissatens silenciosos. Mas o cenário mudou, com consumidores mais jovens e profissionais ligados às tendências globais redesenhando essa relação por meio de cafés mais claros, mais ácidos e mais complexos, apresentando ao restante da nação um novo leque sensorial da bebida.
Hoje, o país é o quarto maior importador de café do mundo. Segundo dados da All Japan Coffee Association (AJCA), em 2025 foram importadas 359 mil toneladas de café verde (cerca de 5,98 milhões de sacas) de diversas origens, incluindo Brasil, Vietnã e Colômbia. Parte desses grãos vão para cafeterias e torrefações independentes, que, para além de pontos de consumo, veem seu negócio como um espaço de identidade, estilo e, principalmente, experiência.
Para o barista brasileiro Boram Um, campeão mundial e fundador da torrefação ULT Coffee Roasters, em Osaka, o Japão ocupa hoje uma posição central na cultura global dos cafés especiais. “O país é líder em termos de tendência em consumo de café especial, na Ásia e no mundo”, acredita. “Países como Coreia do Sul, China e Taiwan olham muito para o Japão como referência de experiência, design e cafés”, detalha.
Transformação do paladar japonês
Considerado um mercado sofisticado, o Japão tem recebido a inovação com menos cautela e mais curiosidade. “O perfil de compra das torrefações japonesas é bastante criterioso e orientado por consistência, qualidade e previsibilidade”, aponta Anderson Kagawa, fundador e head de operações da Eldorado Japan, parceira oficial da produtora e exportadora mineira Eldorado Specialty Coffees.
Há seis anos no Japão e cinco no café, o brasileiro observa que o mercado japonês valoriza cafés capazes de entregar estabilidade ao longo do tempo, tanto em perfil sensorial quanto em regularidade de fornecimento. “Isso é especialmente importante para operações voltadas ao consumo diário, em que o público espera encontrar sempre o mesmo padrão na xícara.”
Nesse contexto, cafés de perfil mais clássico – com notas de chocolate e caramelo, boa doçura e corpo elevado – seguem com demanda sólida. “São amplamente utilizados como base para espressos e blends”, explica.
Mas as coisas estão mudando. Segundo Kagawa, há um interesse crescente por cafés sensorialmente mais complexos, geralmente microlotes ou ofertas sazonais. “As torrefações buscam diferenciação por meio de origens específicas, variedades e processos pós-colheita inovadores, capazes de proporcionar perfis mais expressivos”, analisa.
Nesse movimento, ele destaca a rastreabilidade como fator importante no momento da compra. “Informações claras sobre origem, produtor, variedade e processo são cada vez mais valorizadas, não apenas como diferencial, mas como parte da proposta de valor.”
A nova geração e a curiosidade sensorial
Na tradição japonesa baseada nos kissatens – cafeterias com atmosfera retrô, mesas e decoração em madeira, porcelanas vintage e menu clássico –, torras escuras do grão sempre predominaram. Por isso, características como amargor e corpo podem ser familiares e reconfortantes para muitas pessoas. Mas, nos últimos anos, o perfil transformou-se. “Mais clientes estão dispostos a experimentar cafés de processo natural, com torras mais claras, ou espressos de origem única – coisas que até recentemente eram nicho”, observa Keita Nakamura, mestre de torra e COO da LiLo Coffee Roasters, em Osaka.
Em mais de uma década no setor, Nakamura vê que este é um movimento puxado por jovens entre 20 e 30 anos, que conhecem métodos de processamento e origens específicas. “As redes sociais tiveram um papel importante, mas o crescimento da cultura gastronômica e das bebidas artesanais elevou o nível de exigência sobre o que se espera de uma xícara de café”, comenta. Já clientes mais velhos tendem a ser fiéis a sabores familiares, e mais céticos em relação a torras claras. “Quando os mais velhos passam a consumir café especial, se tornam profundamente engajados. O ponto de entrada só precisa ser mais suave”, destaca.
Ainda assim, o COO da LiLo Coffee Roasters não acha que torras escuras vão desaparecer. “Elas fazem parte do DNA do café japonês. O que vejo é uma ampliação de repertório”, opina. Para Nakamura, seus clientes querem poder escolher o que beber em diferentes momentos. “Um filtrado etíope leve pela manhã e um espresso intenso e escuro à tarde, por exemplo. Não é substituição, é adição”, comenta.
A preferência por perfis clássicos ainda é forte, sobretudo em espressos, blends e cafés voltados ao consumo diário. Em paralelo, porém, Kagawa observa um interesse maior das torrefações especialmente para métodos filtrados e por cafés mais complexos, com acidez mais pronunciada e notas frutadas e florais. “A diversidade sensorial tem crescido de forma expressiva no Japão, com a presença cada vez mais frequente de origens já reconhecidas por esses perfis, como Etiópia, Quênia, Colômbia e Panamá”, analisa.
Para Boram Um, o Japão vive hoje um encontro entre tradição e novo repertório sensorial. “O consumidor japonês, de modo geral, ainda está acostumado a cafés com baixa acidez e prefere torras mais escuras”, afirma. “Mas a tendência de torras mais claras é hoje muito forte, principalmente sob influência das torrefações nórdicas.”
Em Hyogo, na região de Kansai, no centro-oeste do Japão, Keita Mori, proprietário e mestre de torra da Cinema Coffee Roasters, compartilha a mesma percepção: “Há uma tendência crescente em explorar diferentes sabores e estilos, sem se prender a expectativas tradicionais”. Para ele, a expansão do café especial trouxe diversidade de sabores disponíveis e, por sua vez, o interesse e a curiosidade por perfis mais leves e frutados. “Em nossas lojas, clientes que antes preferiam torras escuras descobrem o valor das torras mais claras”, destaca. Ainda assim, Mori afirma que as torras escuras não vão desaparecer. “Elas têm seu próprio valor, e ambos os estilos continuarão coexistindo”.
Hoje em dia, grande parte do público da Cinema Coffee Roasters deixou de valorizar apenas o sabor e passou a observar também as informações por trás dos cafés que escolhem. “Mais pessoas prestam atenção à origem, variedade, processamento e às histórias dos produtores. Para clientes mais engajados, a rastreabilidade é um fator muito importante e frequentemente influencia a decisão de compra”, reforça.
Para aqueles que ainda não estão familiarizados com os cafés especiais, este nível de detalhamento pode parecer um pouco intimidador. Para quebrar essa barreira, Mori adaptou sua comunicação a uma linguagem mais natural e faz eventos que oferecem trocas de experiências entre consumidores e pessoas do mercado. “Organizamos o Coffee Omnibus, onde convidamos torrefadores de diferentes regiões e oferecemos aos clientes a oportunidade de provar e comparar uma ampla variedade de cafés”. Ao experimentarem diferentes torrefações em um só lugar, diz ele, as pessoas descobrem suas preferências e entram em contato com novas perspectivas. “Essas vivências frequentemente mudam a percepção das pessoas e isso vem expandindo gradualmente a cultura do café no Japão”.
O café como experiência
Omakase e omotenashi são conceitos fortes na cultura japonesa. O primeiro, traduzido para algo como “confio no chef ”, é um estilo de menu-degustação em que o cliente entrega ao profissional a responsabilidade de escolher e preparar os melhores pratos do dia. Já o segundo reflete a filosofia de hospitalidade genuína, caracterizada por antecipar as necessidades do outro com atenção aos detalhes. Os conceitos se cruzam quando o assunto é a experiência do cliente, cujo objetivo é proporcionar uma vivência personalizada, memorável e acolhedora.
Em muitas cafeterias do país, a descoberta de novos perfis sensoriais surge por meio das conversas, da hospitalidade e da confiança construída entre cliente e barista. “Quando o cliente opta por deixar a decisão conosco, buscamos, a partir do nosso conhecimento especializado e dos gostos deles, oferecer a xícara perfeita – ou até uma nova experiência com café”, contam Naoya e Yukino Okajima, torrefadores e proprietários da Koloro Coffee, em Nagano, na principal ilha do arquipélago japonês, Honshu, na região de Chubu. “Por isso, sempre damos importância ao diálogo”, esclarece o casal, que atua no café há dez anos.
Ler o ambiente, ajustar o ritmo e criar um espaço onde as pessoas se sintam cuidadas são elementos centrais da forma como Nakamura pratica o omotenashi na LiLo. “Já o omakase entra em cena quando recomendamos cafés com base em uma breve conversa, entendendo se a pessoa prefere algo mais brilhante e frutado, ou algo mais encorpado e doce”, destaca o mestre de torra. “Não impomos um menu fixo. Primeiro ouvimos. Assim o café se torna um diálogo”.
Embora o consumidor japonês seja altamente técnico quando se interessa por algum assunto, a experiência ainda ocupa o centro da relação com o café. “As pessoas estão buscando o que é fresco, o que é novidade, e procuram baristas que possam contar a história do grão, do produtor e da região”, observa Boram Um. “O perfil sensorial acaba sendo um acessório da experiência”.
Já na Cinema Coffee Roasters, Mori valoriza sugerir cafés com base nas preferências, no humor e na forma como cada cliente deseja aproveitar o seu tempo. “Presto atenção não apenas ao sabor da bebida, mas também à atmosfera, à conversa e à experiência como um todo, para que cada cliente desfrute de um momento confortável e significativo”, explica. “Esses pequenos momentos transformam uma simples xícara de café em uma experiência memorável”.
O futuro é agora
Em vez de abandonar tradições, o mercado japonês tem expandido possibilidades sensoriais. Torras escuras seguem como parte importante da cultura local, enquanto cafés mais claros, frutados e complexos, de diferentes origens e processamentos, ganham espaço entre consumidores cada vez mais curiosos e informados. “O mercado tem ampliado o portfólio, mantendo uma base estável enquanto incorpora novas expressões sensoriais de forma gradual”, resume Kagawa, que destaca o aumento da exigência por rastreabilidade e sustentabilidade, com consumidores buscando mais transparência sobre origem e produção. “Neste cenário, o café brasileiro está bem posicionado, principalmente pela consistência. Além disso, o Brasil tem ampliado sua presença em segmentos de maior valor agregado, com cafés rastreáveis, microlotes e perfis mais complexos, o que permite atender tanto ao mercado tradicional quanto às novas demandas”, declara.
Para as torrefações, a convivência de estilos é, justamente, o que tem tornado esse momento do café especial japonês tão singular. Yukino Okajima considera que a principal mudança não está somente na torra, mas em como o café é percebido. “O café está deixando de ser uma bebida cotidiana automática para se tornar um produto de apreciação”, afirma ele. Nesse cenário, os cafés são escolhidos como um vinho ou outras bebidas artesanais: pela origem, pelo processamento, pela narrativa e pela experiência na xícara.
Para Mori, o futuro do mercado dos cafés especiais no Japão é de expansão, profundidade e sofisticação. “Não apenas qualidade, mas também histórias e experiências ganham cada vez mais importância”, afirma. “O papel das torrefações e cafeterias também vai evoluir do serviço do café à criação de espaços de conexão e surgimento de novos valores”, antecipa.
Nakamura acredita que o Japão se tornará uma referência cada vez mais importante para o café especial no mundo, não apenas como mercado consumidor, mas também como fonte de técnica e filosofia. Para ele, cresce o número de torrefadores e baristas desenvolvendo abordagens próprias. Na LiLo Coffee Roasters, por exemplo, ele busca aplicar isso por meio de uma marca que expresse o melhor do café japonês. “Os próximos anos trarão mais concorrência, consumidores mais informados e cafés ainda mais interessantes. Estou animado com isso.”
Texto originalmente publicado na edição #92 (junho, julho e agosto de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.































