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LAP Coffee, de Berlim, é exemplo de polarização na Alemanha
Com cappuccinos a € 2,50 e modelo baseado em retirada rápida, rede desperta críticas e protestos em meio à piora do cenário econômico alemão
Reuters, de Berlim
Há três anos, quando Ralph Hage lançou a LAP Coffee em Berlim com a missão de levar cafés baratos à capital da Alemanha, ele mal imaginava a reação negativa que seus cappuccinos de € 2,50 (US$ 2,91) provocariam.
Embora a startup esteja conquistando consumidores preocupados com os gastos, ela também dividiu os berlinenses, gerando uma campanha online chamada “LapCoffeeScheisse” (“Lap Coffee é uma porcaria”, em tradução livre) e uma onda de vandalismo que, em outubro passado, deixou muitas das lojas de retirada rápida, originalmente pintadas de azul e branco, cobertas de tinta vermelha e pichações com a frase “Boicote à Lap”.
Porém, ignorando os críticos, a LAP – que opera 30 lojas em Berlim, Munique e Hamburgo –, avança pelas maiores cidades da Alemanha, com planos de abrir mais 20 unidades neste ano, mirando Colônia, Düsseldorf e Frankfurt, disse Hage à Reuters.
“Há uma bipolarização de tudo, não apenas do café”, disse Hage, que se mudou de Nova York para Berlim há sete anos. “Isso é apenas uma representação do que a Alemanha está atravessando neste momento enquanto economia, sociedade e país.”
A maior economia da Europa ainda lutava para recuperar o ritmo pré-pandemia quando a guerra com o Irã elevou os preços, adiando mais uma vez uma recuperação há muito esperada. Conhecidos por serem econômicos, os alemães passaram a vigiar seus gastos ainda mais de perto.
Em meio a essa ansiedade econômica, a LAP — sigla para Life Among People (Vida Entre Pessoas) — apresenta-se como um espaço de previsibilidade de preços em tempos incertos.
“Os contratos futuros do café caíram 8,3%, a inflação subiu 2,3%. Os mercados mudam, nossos preços não”, diz um painel, semelhante aos do mercado financeiro, situado na homepage da empresa.
Mas o modelo de negócios da LAP e sua rápida expansão, apoiada por fundos de investimento privados, deixam muitos alemães divididos, afirmou à Reuters Michael Burda, professor de economia da Universidade Humboldt, de Berlim. “É compreensível que as pessoas tentam economizar em todos os lugares”, disse ele. “Acho que elas são mais contrárias ao aspecto corporativo que isso representa (…). É como uma ‘McDonaldização’ do negócio de cafeterias.”
“Café com bolo” X retirada rápida
As tradicionais cafeterias de café e bolo de Berlim evoluíram nos últimos anos para ambientes descontraídos e modernos, onde os clientes podem permanecer por horas tomando bebidas especiais preparadas habilmente pelo grande contingente de baristas da cidade.
Mas essa cultura tem um preço. A torrefação berlinense 19grams, que opera diversas cafeterias pela cidade, cobra € 4,20 (US$ 4,89) por um cappuccino pequeno e € 5,20 (US$ 6,06) por um grande. A 19grams também fornece grãos para a LAP.
“Nas minhas lojas, uma bebida semelhante custa significativamente mais — não por causa do café em si, mas porque tudo ao redor é consideravelmente mais caro”, disse o proprietário Gerrit Peters, da 19grams. Dois fatores compõem grande parte desses custos adicionais: serviço e aluguel.
A estratégia da LAP é o que Hage chama de modelo de microvarejo: lojas pequenas, equipe reduzida e café para viagem em áreas de grande circulação. Ao reduzir os custos por xícara e depender de alta rotatividade em espaços pequenos, a LAP aposta que conveniência e volume podem superar a fórmula tradicional das cafeterias, baseada em longas permanências e tíquete médio maior.
Sentado em uma cafeteria no bairro de Prenzlauer Berg, no leste de Berlim, Ben Jones, professor de inglês natural de Carlisle, Inglaterra, disse que a LAP jamais substituirá seu café dominical com amigos. “Mas, em um momento em que os preços parecem só aumentar em todas as áreas, os preços acessíveis da LAP são uma bênção para minha conta bancária”, disse ele.
Dividindo os berlinenses
Ainda assim, alguns moradores de Berlim veem o modelo de retirada rápida da LAP como uma ameaça à cultura do café da cidade, com críticos alertando que cafeterias tradicionais não conseguem competir em preço.
No descolado bairro de Kreuzberg, Nikita Jung e uma amiga saíram de uma unidade da LAP Coffee sem comprar nada depois de um súbito sentimento de culpa. “Nós pensamos nisso. Vale mesmo a pena tomar um café barato se isso significar que pequenos cafés podem deixar de existir por causa disso?”, disse ela à Reuters.
Os críticos também argumentam que o apoio de capital de risco significa que a LAP não sofre pressão para gerar lucro no curto prazo, permitindo que ganhe participação no mercado por meio de uma rápida expansão.
A LAP concluiu, de fato, duas rodadas de investimento. Mas isso, segundo Hage, aconteceu somente depois que bancos alemães rejeitaram sua ideia, levando-o inicialmente a recorrer a familiares e amigos em busca de capital.
“O fracasso dos mercados de capital alemães não é que o capital de risco seja excessivamente dominante; é que os bancos locais são extremamente conservadores”, afirmou Burda, da Universidade Humboldt.
Conforme avança com seu plano de expandir a LAP Coffee pela Alemanha, Hage acha graça quando ouve falar do medo de que ele possa dominar o mercado, e refere-se às cerca de 11 mil cafeterias existentes no país. “Se abrirmos duas lojas por mês, levaríamos 450 anos para monopolizar o café na Alemanha.”























