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Dinâmicas sociais no consumo doméstico de café
Por Pietro Amorim
O cafezinho faz parte da rotina do brasileiro. Mais do que uma bebida, é um vetor de sociabilidades – oferecê-la é um gesto de hospitalidade. Mas quando e como incorporamos esse hábito?
No início do século XIX, nas grandes cidades, o café era encontrado timidamente em botequins e casas de pasto. Relatos de viajantes, como os do inglês John Mawe e do francês Jean-Baptiste Debret, registram seu consumo por famílias abastadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, em refeições e festividades.
Utensílios de preparo e serviço de café em inventários de pessoas de posses também indicam a presença da bebida, ainda que como artigo de luxo. É o que mostra a tese de Rafaela Basso, Entre tabuleiros, balcões e fogões: Um estudo sobre a alimentação de rua na cidade de São Paulo e o livro Fazendas do café do Vale do Paraíba – o que os inventários revelam, organizado por Carlos Eugênio Marcondes de Moura.
A chegada da família real portuguesa e parte de sua administração ao Rio de Janeiro em 1808 demandou produtos e hábitos pouco familiares aos moradores, e a abertura dos portos, ao lado do estabelecimento da corte, contribuiu para o aumento do consumo de café.
Com a produção de café concentrada na província fluminense e já como principal produto de exportação, o Rio de Janeiro logo cresceu, dando origem a uma rica classe comercial urbana e a um contingente de pequenos proprietários, sobretudo imigrantes.
Ao longo do século XIX, referências ao café no mercado interno tornaram-se mais frequentes nos periódicos. Vendido inicialmente em moinhos e nas ruas por pessoas escravizadas, o grão ganhou destaque na segunda metade dos oitocentos com o surgimento das “fábricas de café torrado” e “fábricas de café moído”, que abasteciam cafés, hotéis, hospitais e residências.
Lojas com utensílios para café abriram. Em 1859, a loja Ao Bule Monstro anunciava “aparelhos de metal do príncipe para café e chá, inclusive xícaras e pires”, citando vários materiais de que eram feitos.
O naturalista suíço Johann Von Tschudi, em viagem ao Brasil nas décadas de 1850 e 1860, relatou que “o consumo dentro do próprio país é considerável, pois todo mundo saboreia várias vezes por dia essa bebida nacional, seja rico ou seja pobre, moço ou velho, patrão ou empregado”.
O café já não se restringia às elites. Mas todos o bebiam do mesmo jeito? Se fora de casa havia estabelecimentos voltados a públicos distintos, é razoável supor diferenças também nos lares, onde as elites preservavam formas de distinção para consumi-lo, como a etiqueta social.
A ascensão da burguesia europeia entre XVII e XVIII levou a aristocracia a adotar novas formas de diferenciação. Não bastava possuir certos objetos, mas apropriar-se deles e usá-los de modo específico. Esses códigos de distinção chegaram ao Brasil.
A ritualização do cotidiano foi mais expressiva em encontros sociais em torno da alimentação, especialmente o jantar, que se tornou demonstração de prestígio e seguiu protocolos rígidos. Esses códigos foram registrados em manuais de etiqueta e economia doméstica, livros de culinária e periódicos voltados às mulheres e à família. As publicações descreviam ambientes, refeições, utensílios e o papel de cada membro da família, orientando-os para modos “mais refinados”.
Assim, o café era servido após o jantar e a sobremesa, marcando a transição entre refeição e sociabilidade. Em O lar doméstico, de 1902, Vera Cleser descreve: “o café e os licores são levados à sala; a dona da casa, auxiliada pelas filhas, ou moças e moços de sua intimidade, serve a infusão aromática, que deve ser muito quente. O dono da casa serve os licores”.
A divisão de tarefas entre os anfitriões é clara. Como disse o gastrônomo francês Jean Anthelme Brillat-Savarin em A fisiologia do
gosto, de 1825, “a dona de casa deve sempre ter certeza que seu café é excelente, e o dono, que os licores são de primeira qualidade”.
Essa participação feminina se alinhava à construção de um ideal de mulher como boa esposa, mãe e dona de casa. O zelo cotidiano pelo lar envolvia tarefas leves, como no café da manhã. “Enquanto a criada for preparando o café, a dona da casa ou sua filha arrume as xícaras, o açucareiro, a cestinha de pão e dê tudo uma disposição agradável à vista”, ensina Vera.
A limpeza, a decoração da casa e o asseio das mesas de refeição eram fundamentais para a harmonia familiar. A casa burguesa tornou-se uma expressão de êxito econômico, profissional e familiar, como mostra Maria Homem em O palacete paulistano. Arquitetura e decoração deveriam transmitir riqueza, bom gosto e cosmopolitismo, especialmente nos ambientes onde havia tais rituais. A sala de jantar tinha étagères, cristaleiras e móveis que armazenavam e exibiam pratarias e porcelanas.
Aparelhos de chá e café tinham duas funções: a prática, ligada ao serviço da bebida; e a simbólica, como marca de distinção social e elemento decorativo. Diferentemente do “metal do príncipe” – liga de cobre e zinco citada no citado anúncio –, os materiais preferidos eram prata, porcelana e faianças.
A dona da casa também supervisionava os criados – termo genérico para trabalhadores domésticos. A crescente complexidade da cozinha e dos ritos sociais exigia vários deles, cada vez mais especializados. Em 1872, a cidade de São Paulo contabilizava 3,5 mil criados livres e 1,3 mil escravizados nessa categoria, indicando a preferência por pessoas habituadas a esses costumes, especialmente imigrantes.
Em Senhoras e criadas no espaço doméstico, Simone Andriani dos Santos investiga essa relação conflituosa. Mesmo sem integrar o núcleo familiar, os criados eram vistos com desconfiança. Os manuais recomendavam instrução e vigilância. Em O cozinheiro imperial, Constança Oliva de Lima dedicou uma seção a ensiná-los, entre outras funções, a preparar e servir café.
O serviço à americana, popular a partir do início do século XX, simplificou a dinâmica das refeições, reduzindo o número de criados. Em 1919, o Jornal das Moças instruía o copeiro a servir sopa e levar os pratos à mesa, enquanto anfitriões e convidados se serviam. Café e licores encerravam a refeição na sala de visitas.
As dinâmicas que envolviam o serviço do café variaram conforme a época, o lugar e as classes sociais. Porém, alguns elementos permanecem até hoje, como servir o café como expressão de hospitalidade e a marcante presença feminina em torno da bebida no ambiente doméstico, desde torra e moagem do grão até o preparo da bebida e a execução do serviço.
Pietro Amorim é especialista em história, sociedade e cultura pela PUC-SP e pesquisador do Museu do Café (SP).
Texto originalmente publicado na edição #92 (junho, julho e agosto de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.
























