Cafezal •
Plantando além do cinturão do café
Nas colinas subtropicais da Austrália e nas fazendas ensolaradas da Califórnia, o café agora está sendo cultivado em áreas antes consideradas inadequadas para a produção comercial
Por Deniz Karaman (5thWave)
Nesta reportagem, Deniz Karaman, da 5thWave, investiga se essas novas origens estão se tornando indústrias escaláveis ou se continuarão como nichos de mercado que atendem a pequenas produções de culturas especiais de alta qualidade.
Em dezembro de 2023, a plataforma World Coffee Portal revelou que a China tinha ultrapassado os Estados Unidos como o maior mercado de rede de cafeterias do planeta, depois de crescer impressionantes 58% naquele ano e alcançar 49,7 mil pontos de venda.
A maior parte do café que consumimos é cultivada no chamado cinturão do café, uma região equatorial entre 25o ao norte do Equador e 30o ao sul, onde climas tropicais fornecem as condições ideais para o cultivo. No entanto, mudanças climáticas, inovação agrícola e a crescente demanda global levaram agricultores a explorarem novas fronteiras para a produção de café.
Na Europa, houve esforços em pequena escala para cultivar café na Sicília, enquanto a Delta Cafés de Portugal tem experimentado o cultivo de café nos Açores. Porém, nas regiões subtropicais do leste da Austrália e nas terras férteis da Califórnia, nos Estados Unidos, surgiram pequenas indústrias comerciais de cultivo de café.
Austrália: paraíso subtropical
O café é um grande negócio na Austrália, país conhecido por torrar e preparar alguns dos grãos de mais alta qualidade do mundo. Em meados de 1800, diversas foram as tentativas de cultivo da planta em escala comercial por lá. Embora esses esforços não tenham sido bem-sucedidos, a Austrália tem sido o lar de uma indústria de cultivo de café em pequena escala desde a década de 1980.
De acordo com Rebecca Zentfeld, presidente da Australian Grown Coffee Association, o clima único do país e a ausência de pragas e doenças significam que uma indústria doméstica de cultivo de café está cada vez mais viável. “Não temos a broca e nem a ferrugem. Isso significa que podemos cultivar nossos grãos naturalmente sem pesticidas, o que é notável para terras de cultivo de café. Isso tem sido uma inspiração real para novos produtores entrarem nesse barco”, diz Rebecca, que em 1993 fundou a Zentfeld’s, uma das primeiras fazendas e torrefações de café verticalmente integradas da Austrália.
Além do ambiente livre de pragas, o clima do país também influencia a maturação do café e um perfil de sabor único, diferenciando-a de outras regiões produtoras. As fazendas de café da Austrália estão localizadas em áreas subtropicais, como Nova Gales do Sul, Sudeste e Norte de Queensland, que têm um clima mais frio e altitudes mais baixas do que a maioria das fazendas nos trópicos. As fazendas australianas não dependem de grandes altitudes para o desenvolvimento dos sabores do café. Em vez disso, o clima naturalmente mais frio estende o período de maturação do grão, levando a um perfil de xícara mais complexo e doce.
“O clima mais frio nos permite cultivar café de altíssima qualidade. Nosso terroir traz uma doçura natural à bebida, algo que realmente buscamos em termos de qualidade”, conta Rebecca. Embora essas vantagens climáticas contribuam para a qualidade do café e perfis de sabor aprimorados, elas também moldam o cenário de negócios para os produtores australianos em termos de produção e posicionamento de mercado.
Atualmente, a Austrália tem cerca de 50 produtores de café, com tamanhos de fazenda variando de 15 a 300 hectares. Devido aos altos custos de terra e mão de obra, a produção em larga escala continua sendo um desafio. Como resultado, o café australiano atende principalmente ao mercado doméstico de especialidade, com um forte foco em vendas diretas ao consumidor por meio de plataformas online e agroturismo.
Ao contrário das regiões tradicionais de cultivo ao longo do cinturão do café, onde os custos mais baixos de terra e de mão de obra tornam a produção em larga escala viável, os altos custos da Austrália exigem que os agricultores adotem modelos de receita inovadores, como o agroturismo. “Os negócios de café australianos são comercialmente viáveis? A resposta é sim. Os impulsionadores do sucesso para os produtores menores no norte de Nova Gales do Sul e, particularmente, na região subtropical do sudeste de Queensland é que eles estão baseados em uma área de agroturismo atrás de Byron Bay, Noosa e Brisbane”, explica ela. “O agroturismo está nos ajudando a ser comercialmente mais viáveis e a vender café diretamente aos consumidores”, completa. No entanto, os altos custos da terra significam que a maioria das fazendas de café australianas continua pequena, geralmente cobrindo de 15 a 30 hectares.
Altos custos de mão de obra são outro desafio. Rebecca afirma que os produtores mais bem-sucedidos estão, agora, usando colheitadeiras mecânicas. Também seria extremamente benéfico para a incipiente indústria de cultivo de café da Austrália o maior acesso a novas variedades de café, que podem se mostrar mais resilientes às mudanças climáticas e produzir maiores rendimentos.
O país atualmente cultiva apenas duas variedades principais de arábica – o estoque original k7 queniano da década de 1980 e um catuaí. “Finalmente concluímos a pesquisa para garantir novas variedades para o país”, alegra-se Rebecca. “Por exemplo, a masalisa, uma variedade de propriedade francesa, a IPR 104 e a pareto, que são brasileiras, e há a parainema hondurenha chegando também. Estamos ansiosos para poder cultivar essas novas variedades em todas as novas áreas e produtores existentes na Austrália”, diz ela.
Enquanto alguns produtores maiores estão exportando seu café internacionalmente, a maioria dos cafeicultores australianos pretende atingir o mercado doméstico de café, calculado em US$ 12 bilhões. “A maioria dos produtores está buscando substituir as importações no mercado doméstico australiano. Dito isso, também há muito espaço para crescimento nos principais mercados especializados do norte da Europa e da Ásia. No futuro, é aí que planejamos aumentar as vendas de café australiano”, explica a especialista.
Califórnia: potência em especiais nos EUA?
Assim como o café australiano, a indústria do grão na Califórnia ainda está em sua infância e enfrenta desafios semelhantes em escalabilidade e adaptação climática.
A Frinj Coffee, uma das pioneiras no estado, é movida pelo desejo de fornecer aos agricultores safras de alta qualidade e desempenhou um papel crucial ao provar que o café especial pode ser cultivado lá com sucesso. “A Frinj está produzindo café por dois motivos: porque queremos fornecer aos agricultores californianos um cultivo alternativo de alto valor e porque achamos que o ambiente de cultivo único, aqui, produz alguns dos melhores cafés do mundo”, diz Jay Rusky, CEO e cofundador da Frinj.
Atualmente, há mais de 60 fazendas apoiadas pela Frinj cultivando café na Califórnia, cobrindo mais de 40 hectares. “Nossas principais cultivares são gesha, laurina, caturra, catuaí vermelho e pacamara. Também estamos trabalhando em algumas outras cultivares e híbridos, e, às vezes, lançamos variedades raras limitadas”, diz Rusky. Indicativo da posição de mercado premium da Frinj, os preços começam em torno de US$ 70 para um pacote de cinco onças (141 g).
Os produtores de café da Califórnia também estão encontrando novas maneiras de se adaptar ao clima local, com o café frequentemente cultivado ao lado de pés de abacate, que fornecem sombra e proteção contra ventos fortes.
“Hoje, demos um passo adiante ao nos inspirarmos em produtores locais de frutas vermelhas, que usam sistemas agrícolas protegidos para cultivar em terras marginais”, explica Rusky. “Agora, estamos usando com sucesso telhados de plástico transparente para ter mais controle ambiental e proteção contra o clima turbulento, como as ventanias que, recentemente, foram manchetes em todo o mundo”, completa ele.
Embora essas inovações ajudem os cafeicultores a gerenciar as condições locais, os padrões climáticos da Califórnia representam uma ameaça ao cultivo de longo prazo. O clima do estado é conhecido por ser propenso a flutuações extremas, variando de chuvas pesadas e inundações repentinas a ondas de calor e incêndios florestais, resultando em condições agrícolas difíceis. Rusky reconhece essa ameaça e a descreve como um desafio futuro fundamental. “Uma atmosfera mais quente leva a condições mais extremas. Na Califórnia é mais quente, mais frio e mais ventoso com mais frequência. Navegar por essas flutuações climáticas extremas será o desafio para a próxima geração de agricultores.”
Apesar dos desafios relacionados ao clima, Rusky acredita que o futuro do café californiano é comercialmente viável. Ele traça um paralelo entre a emergente indústria de café do estado e sua agora próspera indústria de vinhos, sugerindo que o café especial pode seguir trajetória semelhante. Ao reconhecer a natureza de longo prazo do cultivo de café, ele enfatiza que paciência e melhoras graduais são a chave para o sucesso. “Gostamos de pensar em nós mesmos como seguindo o caminho da indústria de vinhos da Califórnia nas décadas de 1970 e 1980”, diz ele. “Primeiro, as pequenas fazendas se tornam boas nisso, e então nós escalamos. O café é uma fruta de crescimento lento e leva de quatro a cinco anos para obter uma colheita. A Frinj plantou mais de 100 mil pés na Califórnia, então é apenas uma questão de tempo até que você veja mais dos nossos cafés em cafeterias de alto padrão”, acredita.
Rusky acrescenta que a vastidão das terras e uma base grande de consumidores norte-americanos também tornam o cultivo de café no estado um empreendimento que vale a pena, com um futuro comercialmente viável. “O Havaí tem sido muito bem-sucedido na produção de café e na criação de uma indústria próspera em torno dele. Acho que o sul da Califórnia está em uma situação semelhante. A diferença é que na Califórnia temos uma base de consumidores locais maior e muito mais terras, o que nos torna comercialmente mais viáveis”, diz ele, que acredita que há, também, potencial para cultivar café em regiões semelhantes, com climas mediterrâneos e boas fontes de água.
No entanto, um dos maiores desafios para a indústria do grão na Califórnia é o tempo: os pés de café levam anos para amadurecer, o que os torna um investimento de longo prazo. A adesão dos agricultores também tem sido lenta, mas, à medida que os métodos de produção melhoram e a indústria ganha força, mais produtores estão demonstrando interesse. “O tempo é nossa principal barreira”, diz ele. “A produção de novas safras em qualquer área leva bastante tempo e paciência. Os agricultores também precisam de algum convencimento, mas isso está se tornando mais fácil à medida que continuamos a desenvolver sistemas para produção de cafés de alta qualidade”, completa.
Rusky observa que a Frinj tem planos de crescimento futuro e pretende expandir e continuar a nutrir novos empreendimentos comerciais e parcerias com fazendeiros e instituições de pesquisa. “Meu trabalho com café começou como um teste com o serviço de extensão agrícola da Universidade da Califórnia há mais de 20 anos. Hoje, a UC Davis estabeleceu um centro de pesquisa de café promovendo a ciência e a pesquisa do grão. Este é um dos relacionamentos mais importantes que queremos continuar a promover para a Frinj e para a indústria como um todo”, detalha ele.
Apesar do crescimento promissor, a Frinj enfrentou obstáculos significativos no ambiente de negócios de alto custo da Califórnia e, até mesmo, entrou com pedido de falência em 2024. No entanto, desde então, a empresa garantiu novo financiamento e agora está olhando firmemente para o futuro. “Tenho o prazer de anunciar que a empresa fechou uma rodada de financiamento da Série A. Este novo capital permitirá que a Frinj expanda suas operações na Califórnia”, garante o CEO.
O foco do crescimento da Frinj é dar suporte à rede de produtores, fornecendo equipamentos de última geração necessários para processar o grão e impulsionando o marketing para abrir canais de vendas para o café dos produtores californianos. “Hoje, você pode comprar café em nosso site e ficar de olho no nosso café colhido em 2024, sendo apresentado por alguns torrefadores americanos bem conhecidos”, diz Rusky.
Os novos mundos aguardam
À medida que as mudanças climáticas ameaçam as regiões tradicionais de cultivo do grão com temperaturas crescentes, padrões climáticos erráticos e maior vulnerabilidade a doenças, a urgência em encontrar paisagens alternativas para o plantio de café tem sido cada vez maior.
Austrália e Califórnia surgiram como novas origens promissoras de café, aproveitando climas únicos para produzir especiais de alta qualidade. Embora essas novas fronteiras nunca substituam as potências cafeeiras tradicionais, principalmente quando se trata de produção comercial em massa, elas estão provando que o café especial de qualidade pode prosperar além do cinturão equatorial. Com pesquisa contínua, inovação e adaptação ao mercado, Austrália e Califórnia podem redefinir o cenário global do café, oferecendo resiliência e diversificação a uma indústria em fluxo.
Texto originalmente publicado na edição #88 (junho, julho, agosto de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

































