Barista

“Esse título representa a conclusão de um objetivo”, diz Fábio Milan, novo campeão brasileiro de Torra

“Quando cheguei ao Campeonato Brasileiro, eu tinha um objetivo muito claro: conquistar o título”. E com esse pensamento, Fábio Milan, da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), foi o vencedor do Campeonato Brasileiro de Torra 2026, competição que aconteceu de 6 a 8 de maio no Centro do Comércio de Café do Estado de Minas Gerais (CCCMG), em Varginha (MG).

O pódio foi composto por Tiago de Mello, da cafeteria e torrefação Pato Rei, de São Paulo (SP), em segundo lugar, e por Reginaldo Gonçalves Gomes, da Lenêz Cafés de Especialidade, de Uberaba (MG), que terminou a disputa em terceiro. 

Agora, a preparação é para o mundial da categoria. A competição será realizada nos dias 25 a 27 de junho, na World of Coffee em Bruxelas, na Bélgica. 

Confira a entrevista exclusiva de Milan para a Espresso:

E: Como tem sido sua trajetória profissional relacionada ao café até o momento? Conte um pouco das suas experiências, conquistas e desafios ao longo do caminho.

FM: Minha trajetória profissional começou no final de 2022, quando me formei como técnico em agropecuária pelo IFSULDEMINAS. No início de 2023, fui contratado pelo campo experimental da Epamig, em Machado, para atuar como mestre de torras. O meu principal desafio naquele momento era colocar a torrefação em pleno funcionamento. Durante esse processo, enfrentei diversas dificuldades, desde problemas com equipamentos até limitações de recursos para desenvolver o trabalho da melhor forma possível. Durante esses dois anos de atuação, conseguimos alcançar um crescimento significativo tanto na produção quanto nas vendas de cafés da torrefação, consolidando um trabalho focado em qualidade e melhoria contínua.

Em 2025, decidi voltar a estudar, iniciando o bacharelado em Agronomia, enquanto seguia atuando profissionalmente e aprofundando meus conhecimentos, especialmente no desenvolvimento de atividades nas áreas de torra, análise sensorial e controle de qualidade de cafés especiais. Paralelamente, comecei a direcionar meus estudos para os campeonatos de torra, me dedicando intensamente ao aperfeiçoamento técnico, à análise sensorial e ao entendimento cada vez mais profundo do café. Esse processo culminou em uma grande conquista em 2026, quando tive a honra de me consagrar campeão brasileiro, um marco muito importante na minha trajetória e que reforça meu compromisso com a excelência e a evolução dentro do universo dos cafés especiais.

E: Como foi ganhar o título de campeão brasileiro de Torra e o que isso significa pra você?

FM: Ganhar o título de campeão brasileiro de Torra foi uma experiência indescritível e uma alegria muito grande, não só para mim, mas também para a minha família, meus amigos e todas as pessoas que acompanham o meu trabalho. Foi um momento de muita emoção e, principalmente, de realização pessoal e profissional.

Esse título representa a conclusão de um objetivo muito importante na minha trajetória. Desde que comecei a trabalhar, sempre enfrentei uma rotina intensa e desafiadora, mas nunca deixei de me dedicar e buscar entregar o melhor trabalho possível. Ao longo da caminhada, fui aprendendo, evoluindo e me aperfeiçoando tecnicamente todos os dias.

Quando cheguei ao Campeonato Brasileiro, eu tinha um objetivo muito claro: conquistar o título. E conseguir alcançar isso foi a confirmação de que todo o esforço, dedicação e estudo valeram a pena. Foi uma forma de mostrar para mim mesmo que tenho capacidade, conhecimento técnico e que estou no caminho certo dentro do universo dos cafés especiais.

E: De que maneira ganhar este campeonato impacta na sua vida profissional?  

FM: O campeonato traz mais visibilidade, abre novas oportunidades, aproxima novas pessoas, parceiros e profissionais do setor, além de proporcionar ainda mais aprendizado e experiência.

Como sou jovem e ainda estou no início da minha trajetória profissional, ter esse reconhecimento tão cedo é algo extremamente importante e motivador. Acredito que essa vitória representa não apenas uma conquista individual, mas também o início de uma caminhada ainda maior dentro da cafeicultura e do mercado de cafés especiais, onde pretendo continuar evoluindo, aprendendo e construindo uma carreira sólida e bem-sucedida.

E: Como você pretende se preparar para o Campeonato Mundial de ​T​orra e quais são as suas expectativas em relação a essa disputa?

FM: Minha preparação começa pela busca e adaptação ao mesmo modelo de torrador que será utilizado na competição. Aqui no Brasil, já estou em contato com uma empresa parceira para realizar treinamentos específicos, o que será fundamental para ganhar ainda mais familiaridade e segurança no equipamento.

Pretendo chegar alguns dias antes à Bélgica para me ambientar melhor ao país, à cultura local, ao idioma e, principalmente, ao torrador que será utilizado no campeonato. Acredito que essa adaptação prévia será muito importante para chegar mais preparado e confiante no momento da competição.

Minhas expectativas para o Mundial são bastante semelhantes às que tive durante o Campeonato Brasileiro. Quero aproveitar ao máximo essa experiência, conhecer novas pessoas, trocar aprendizados e me dedicar intensamente para alcançar um bom resultado. Tenho consciência de que o nível da disputa mundial é extremamente alto e ainda mais competitivo, mas quero colocar em prática todo o meu planejamento, os estudos realizados e as técnicas que venho desenvolvendo ao longo da minha trajetória.

E: E quais os planos para o futuro? Pretende competir novamente?

FM: Neste momento, meu foco está totalmente voltado para o Campeonato Mundial. Ainda não defini se pretendo participar de outras competições no futuro, porque agora quero direcionar toda a minha energia e preparação para representar da melhor forma possível a cultura cafeeira brasileira, o nosso país e, principalmente, todos os produtores que trabalham diariamente e confiam no nosso trabalho.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Fermentados: o novo capítulo dos cafés especiais brasileiros

Foto: Agência Ophelia

Por Marcos Kim

Durante décadas, o Brasil construiu sua reputação global com base na consistência: cafés doces, encorpados e limpos, resultado de processos como o natural e o cereja descascado. Mas, nos últimos anos, uma nova camada de complexidade começou a emergir não por acaso, mas por escolha.

A fermentação, antes vista como um fenômeno natural e pouco controlado, passou a ser tratada como uma ferramenta técnica e criativa – e, com isso, abriu-se um novo vocabulário sensorial para o café brasileiro.

Hoje falamos de notas que vão além do tradicional: frutas tropicais maduras, frutas vermelhas intensas, perfis vínicos, licorosos e especiarias. Perfis que, há dez anos, seriam raros ou até considerados defeitos, e que hoje são desejados, estudados e reproduzidos com precisão.

Da inspiração internacional à identidade brasileira

É importante lembrar que o Brasil não iniciou esse movimento isoladamente. Origens como Colômbia e países da América Central sempre apresentaram maior incidência de fermentação natural durante o pós-colheita, principalmente devido à alta umidade relativa do ar no período de colheita. Essa condição favorece a atividade microbiana espontânea, impactando diretamente o perfil sensorial dos cafés.

Ao observar esses resultados, o Brasil passou a olhar para a fermentação não como um risco, mas como uma oportunidade. A diferença é que, ao invés de depender do acaso, começamos a construir processos.

A curva de aprendizado: erro, ajuste e controle

Nos primeiros anos, o cenário era experimental. Faltavam parâmetros, referências e estudos aplicados à realidade brasileira. Muitos processos resultaram em inconsistência e perdas. Mas foi justamente esse período que construiu a base do que temos hoje.

Atualmente, a fermentação no café brasileiro evoluiu para um nível técnico elevado, com controle de variáveis essenciais como: temperatura ambiente, umidade relativa do ar, temperatura da massa de café, pH, tempo de fermentação e presença e tipo de microrganismos. 

Esse avanço permitiu algo fundamental para o mercado: consistência e previsibilidade. Mais do que isso, permitiu repetibilidade. Hoje, produtores conseguem direcionar perfis sensoriais de acordo com o objetivo final. Não se trata apenas de fermentar, mas de desenhar o resultado na xícara.

Fermentação não corrige erros

Apesar de toda a inovação, existe um princípio que permanece inegociável: qualidade se constrói na base. Fermentação não é solução para café de baixa qualidade, pelo contrário: ela amplifica o que já existe.

Por isso, antes de avançar para processos fermentativos mais complexos, é essencial que o produtor tenha domínio sobre: planejamento de pós-colheita, colheita seletiva, higienização rigorosa de equipamentos, organização operacional e rastreabilidade dos lotes. A fermentação deve ser vista como uma etapa de refinamento, não de correção.

De tendência a categoria consolidada

O que antes era nicho, hoje se consolidou como categoria. Os cafés fermentados já ocupam espaço relevante em cardápios de cafeterias especializadas, competições nacionais e internacionais, e leilões e mercados premium.

Além disso, novas abordagens vêm ganhando força, como co-fermentações (com frutas ou outros insumos), uso de leveduras selecionadas e fermentações induzidas com objetivos sensoriais específicos.

Esse movimento aproxima o café de outras bebidas complexas, como vinho e cerveja artesanal, ampliando o repertório do consumidor.

O consumidor e a busca por experiência

O crescimento dos cafés fermentados também está diretamente ligado à transformação do consumidor. Hoje, há uma demanda crescente por produtos com identidade, rastreabilidade, narrativa (storytelling) e experiências sensoriais diferenciadas. É um público mais jovem, explorador e aberto ao novo, que não busca apenas qualidade, ele busca descoberta.

Um fenômeno global

O avanço dos cafés fermentados não é exclusivo do Brasil. Mercados como Ásia e Europa têm demonstrado forte crescimento no consumo desse perfil de café. Países como Coreia do Sul, Japão, China, Indonésia e Tailândia, além de mercados europeus e regiões com restrições ao consumo de álcool, vêm adotando esses cafés com entusiasmo.

Em muitos casos, os perfis sensoriais fermentados que remetem a vinho, licor ou frutas maduras oferecem uma experiência complexa sem qualquer teor alcoólico, ampliando ainda mais seu alcance cultural.

Entre a inovação e o debate

Como toda inovação, a fermentação no café também gera discussões. Há questionamentos sobre limites de intervenção, identidade de origem e até sobre o impacto das co-fermentações na definição do que é, de fato, café.

E esses debates são necessários. Eles ajudam a estabelecer critérios, preservar identidade e garantir transparência ao consumidor. Mas, independentemente das discussões, há um consenso crescente: a fermentação ampliou o potencial do café brasileiro.

O futuro já começou

Se olharmos para os últimos dez anos, a evolução foi significativa. Mas, olhando para frente, é possível afirmar com segurança: ainda estamos no início. Novas tecnologias, novos estudos microbiológicos e novas abordagens sensoriais devem continuar transformando o cenário.

O Brasil, historicamente reconhecido por volume e consistência, passa agora a ocupar também um espaço de protagonismo na inovação – e talvez essa seja a maior transformação de todas.

Não estamos apenas melhorando processos. Estamos expandindo os limites do que o café pode ser.

Marcos Kim (@marcoskim_coffee) é Q-Grader e especialista em pós-colheita e fermentação de cafés especiais. Atuou em grandes fazendas e cooperativas do Brasil, implementando processos, rastreabilidade e controle de qualidade.

TEXTO Marcos Kim • FOTO Agência Ophelia

Barista

Rituais 3corações capacita jovens indígenas no preparo de cafés

1ª edição da Copa Tribos reuniu 25 jovens ligados ao Projeto Tribos em uma competição de cafés filtrados

Por Gabriela Kaneto

Os jovens indígenas Gleyson Suruí e Natielly Aruá desembarcaram na cidade de São Paulo para uma semana de conhecimentos teóricos e práticos sobre barismo com a equipe técnica da Rituais 3corações. 

A iniciativa faz parte da premiação da 1ª Copa Tribos, competição realizada no final de 2025, em Cacoal (RO). Na ocasião, 25 jovens indígenas ligados ao Projeto Tribos, da 3corações, foram instruídos por profissionais da marca e testaram suas habilidades no preparo de cafés filtrados. 

Nesta 1ª edição, Gleyson e Natielly ficaram em primeiro e segundo lugares, respectivamente. Além de prêmio em dinheiro, os jovens ganharam uma viagem para São Paulo, com o objetivo de darem continuidade aos seus aprendizados na profissão e conhecerem a gastronomia e o turismo da capital paulista. A Espresso foi convidada para acompanhar a primeira manhã dos jovens na sede da 3corações.

“Também sou cafeicultor, mas não tinha base para dar notas e aromas para o meu café. Por isso me interessei em fazer o curso de barismo. Agora estou aprendendo muito com os melhores baristas da Rituais 3corações”, comemora Gleyson. “Quero agradecer à Rituais 3corações por estar proporcionando este momento incrível. Estar passando essa semana aqui em São Paulo está sendo uma grande experiência. Pra mim é muito gratificante”, agradece Natielly.

Gleyson Suruí e Natielly Aruá em cerimônia de premiação da 1ª Copa Tribos

Para a Rituais 3corações, a iniciativa visa gerar valor agregado às comunidades indígenas produtoras de café, aproximando os jovens do cultivo de seus familiares e apresentando todo o universo do grão até a xícara. “Trazemos a juventude e a nova geração para perto do café, mostrando outras possibilidades além da produção”, comenta Carol Barreto, responsável pelos treinamentos e operações da marca. “Nessa 1ª Copa Tribos, ficamos muito orgulhosos de ver a qualidade dos cafés servidos e o profissionalismo no preparo”, destaca.

“Queremos mostrar para esses jovens que o café é um universo, é uma gama de profissões que podem ser seguidas além do cultivo”, destaca Poliana Perrut, engenheira agrônoma, especialista em cafeicultura e parceira do Projeto Tribus desde 2019. Ela pontua que a ideia foi passada para as lideranças, que abraçaram a iniciativa e a enxergaram como uma maneira de manter esses jovens dentro do território ao mesmo tempo que ligados às novidades globais. 

“Isso é importante demais para a cadeia do café como um todo e, principalmente, para os territórios indígenas. Precisamos oferecer possibilidades para que os filhos dos cafeicultores indígenas tenham melhores oportunidades, não deixando a cultura, mas sim fazendo a comunicação dela para o mundo. E eles encontraram isso através do café”, alegra-se.

TEXTO Gabriela Kaneto • FOTO Divulgação

Mercado

Andrea Illy diz que agricultura regenerativa virou prática geral em Minas Gerais

Durante as comemorações dos 35 anos do Prêmio Ernesto Illy no Brasil, o empresário italiano destacou a expansão da agricultura regenerativa, o avanço de novas áreas cafeeiras e a capacidade do país de enfrentar a crise climática, embora veja um cenário global ainda cercado de incertezas

Andrea Illy

Por Cristiana Couto

Horas antes de conduzir a tradicional premiação anual dos melhores grãos brasileiros que compõem os produtos da illycaffè, Andrea Illy, presidente da torrefadora italiana, comemorou durante coletiva de imprensa realizada em São Paulo, na quinta-feira (7): “A agricultura regenerativa, em menos de 10 anos, se tornou universal, pelo menos em Minas”.

A reflexão do empresário sobre a cafeicultura brasileira – a partir de Minas Gerais e de São Paulo, de onde sai boa parte do café verde nacional usado pela marca –, provocada pela reportagem da Espresso no encontro com os jornalistas, foi feita na esteira do aniversário do Prêmio Illy de Qualidade Sustentável do Café para Espresso, que teve sua 35ª edição no país em que foi criado (e que hoje também acontece em mais nove países). 

A Minas Gerais a que ele se referiu é, precisamente, regiões do Sul de Minas, Cerrado Mineiro e Matas de Minas. Segundo Illy, a agricultura regenerativa trouxe benefícios aos produtores de todas as ordens — qualidade, lucro e produtividade —, além da resiliência à crise climática, tema que percorreu sua fala, entre perguntas de cunho econômico e geopolítico. 

O empresário também destacou a crescente adoção da compostagem de resíduos e da produção de biocompostos, referidos por ele em português como “compostos”: “A produção de compostos agora, é uma prática quase geral, pelo menos em Minas, o que permite baixar muito o custo de insumos”.

“O futuro do café depende diretamente da saúde do solo e da capacidade de tornar os sistemas produtivos mais resilientes”, ensina ele, que desde os anos 2000 investe em sustentabilidade.

Quanto ao cenário global, Andrea Illy é enfático ao alertar para um “risco climático estrutural”, que, ao lado dos preços elevados, gera um cenário “delicado” e sujeito a crises de preços. 

Considerado por ele um modelo global de produção de café, o Brasil tem vantagens e desafios. “A vantagem estratégica do Brasil é que há produção de café em diferentes estados, com diferentes climas, e um pode compensar o outro. O desafio é a consistência [de qualidade] ao longo do tempo”, acredita. 

Mas os cafés menos atingidos pelas mudanças do clima são, para ele, os de qualidade – que perfazem apenas 2% do mercado mundial. “Muitas vezes, as áreas produtivas para os cafés de alta qualidade, com maior altitude, são as mais protegidas. Consequentemente, o risco é menor”, avalia Illy.

Ainda sobre o desenvolvimento das regiões brasileiras de café que visita anualmente há mais de 30 anos, o empresário afirmou ter observado investimentos em novas variedades e visitado novas áreas produtoras no interior do estado mineiro. “Nós observamos o maior número de sequências de preços mais altos e mais atrativos para crescer a produção. Tem mais gente investindo, cultivando novas plantas”, comenta. “No interior de Minas Gerais, tem novas áreas que estão crescendo de maneira dinâmica, como o triângulo [Mineiro], que visitamos agora também”, completa ele.

Illy também concordou com o comentário de Anna Illy, presidente da Fundação Ernesto Illy e membro do Conselho Administrativo da illycaffè, que participou da coletiva, sobre o aumento da permanência de jovens nas fazendas de café.

Em meio aos preços historicamente elevados do café e à instabilidade climática global, Andrea Illy afirmou que o setor ainda convive com incertezas capazes de sustentar a volatilidade do mercado, mesmo diante da expectativa de uma safra maior. Segundo ele, há mais de 90% de probabilidade de formação de um “super El Niño” no segundo semestre. “Ninguém pode prever os efeitos”, disse. “Esses elementos representam pontos de interrogação para a produção futura e para o mercado”, ressaltou. O executivo ponderou, porém, que episódios anteriores do fenômeno climático não impediram uma boa produção brasileira.

Ainda assim, Illy avalia que “o custo do café este ano será maior do que a média do ano passado, mas a rentabilidade [da illycaffè] deve ser normalizada”.

Os vencedores do prêmio da illycaffè

Nesta edição, Minas Gerais destacou-se mais uma vez ao conquistar os três primeiros lugares entre os 40 finalistas selecionados pela comissão julgadora, formada por especialistas nacionais e internacionais da illycaffè. 

Vencedores do 35º Prêmio Ernesto Illy de Qualidade Sustentável do Café para Espresso e executivos da illycaffè

Agro Fonte Alta (Sul de Minas), Raimundo Dimas Santana Filho (Matas de Minas) e São Mateus Agropecuária (Cerrado Mineiro) receberam prêmios de R$ 10 mil cada e garantiram vaga na disputa do 11º Prêmio Internacional de Café Ernesto Illy, que será realizado no segundo semestre, ainda sem local definido.

A classificação final entre primeiro, segundo e terceiro lugares será anunciada durante a premiação internacional.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Divulgação

Identidade gera valor

Por Caio Alonso Fontes

Conheci o cantor Bad Bunny assistindo ao Super Bowl, evento esportivo que, em seu tradicional show de intervalo, se tornou um dos maiores palcos da cultura pop contemporânea. Naquele momento, não entendi por completo o tamanho do sucesso dele. Só depois, tentando entender o que estava por trás do fenômeno, compreendi: não era apenas música — havia, ali, uma estratégia.

Hoje, ele é um dos artistas mais ouvidos no mundo. Mas a música latina sempre teve alcance global. A diferença, agora, é a forma deliberada como a questão da identidade passa a orientar as decisões. Idioma, estética, território e posicionamento não são mais, simplesmente, contexto, mas, sim, um modelo de negócio.

Seu álbum recente, Debí Tirar Más Fotos, concentra-se em memória, cotidiano latino e pertencimento, mas reforça que não é preciso adaptar-se para ganhar validação externa. Pelo contrário, a mensagem principal é a importância da identidade. Isso gera identificação no público, inclusive entre o do Brasil, considerado historicamente ambíguo quanto ao seu lugar na América Latina. Aliás, aproveito para citar o jornalista e escritor Ruy Castro, que, em coluna recente na Folha de S.Paulo, lembrou-nos que “dos anos 1920 a 1970, a América Latina fazia parte da cultura brasileira. Só não era chamada por esse nome”.

Bad Bunny não inventa a música latina. Ele opera com identidade. Um bom exemplo é a temporada fixa de 30 shows em Porto Rico, onde nasceu. Para além de uma agenda artística, houve uma “estratégia territorial” na decisão de concentrar suas apresentações na ilha, ou seja, a de acrescentar uma experiência cultural a uma camada política e simbólica.

Estima-se que o evento movimentou entre US$ 200 milhões e US$ 400 milhões na economia local, um efeito de 0,15% a 0,3% no PIB, respectivamente. Depois do show no Super Bowl, a procura por voos para Porto Rico aumentou 245%; o Airbnb registrou crescimento de mais de 1000% nas reservas, enquanto a ocupação hoteleira subiu 70% em relação ao ano anterior. Soft power com consequência econômica direta.

Mas esse movimento revela algo maior: a revalorização simbólica da América Latina. Ser latino deixou de ser um RG periférico para tornar-se agente com valor cultural, estético e econômico.

Quanto ao Brasil, sempre particular nas questões em torno da América Latina, sua importância econômica parece até afastá-lo, simbolicamente, dessa integração. Algo que pode mudar, pois reconhecer pertencimento ao grupo é um passo, no mínimo, decisivo.

O café ajuda a esclarecer esse ponto de vista. A agenda de origem não é uma tática brasileira nova. O setor já estruturou regiões, denominações, rastreabilidade e narrativa. Origem, portanto, é a base dessa construção, e não um diferencial.

Usar a identidade para gerar valor econômico implica, assim, tomadas de decisão práticas. Por exemplo, criar experiências que levem pessoas a conhecer o território de produção do café, e não apenas levar o café até o consumidor. Não é à toa que, no Brasil, crescem iniciativas que estruturam o turismo como vetor de desenvolvimento regional, integrando hospitalidade, gastronomia e experiências à produção do café — tudo amarrado por uma narrativa coesa. Nesse caminho, a origem deixa de funcionar apenas como procedência técnica e transforma-se no destino.

Integrar o café a outras expressões culturais de uma região, como comida, paisagem, arte e história, amplia o tempo de permanência de um visitante, bem como seus gastos no local.

Em um momento em que a América Latina volta a afirmar seu valor cultural e econômico, reconhecer o café brasileiro como parte dessa narrativa amplia o protagonismo brasileiro. Quando Bad Bunny sugere que deveríamos tirar mais fotos, a mensagem tinha o intuito de ultrapassar a ideia de registro como memória. Era um aviso sobre a importância de transformar identidade em valor.

O café brasileiro já está pronto. Falta a nós tomar decisões para conduzi-lo mais dessa forma.

Texto originalmente publicado na edição #91 (março, abril e maio de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Caio Alonso Fontes • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

O império contra-ataca

Por Celso Vegro

Em parte, por responsabilidade da mídia especializada em economia, o debate brasileiro se restringe à trajetória das contas públicas sob permanente ameaça de compressão do espaço fiscal.

Sim, é uma problemática que todos devemos entender e buscar soluções (embora não exista o menor interesse do Congresso Nacional em produzir qualquer solução para a temática), ainda que, na macroeconomia, o endividamento de nações não seja o motor para crises, mas, como bem ensinou John Maynard Keynes, uma ferramenta macroeconômica anticíclica (investimento público como estabilizador da economia). Mas deixo essa controvérsia para os mais bem capacitados.

A imposição de tarifas aos produtos brasileiros, impetrada arbitrariamente pelo mandatário estadunidense (que ainda permanece sobre o café solúvel destinado àquele país), demonstra nitidamente que política internacional é política econômica.

A tentativa de retomada do Canal do Panamá; as ameaças ao México visando o endurecimento no combate ao narcotráfico e às imigrações; o explícito apoio à eleição de um ex-condenado por tráfico à presidência de Honduras; a produção de escassez energética, ruína econômica e crise humanitária em Cuba; o sequestro do presidente venezuelano e de sua esposa com retomada dos investimentos das companhias petrolíferas estadunidenses; as ameaças tarifárias contra a Colômbia;  a instalação de base militar estadunidense no Paraguai; os ataques à ferramenta brasileira de pagamentos instantâneos e o domínio sobre lavras de minerais estratégicos do subcontinente (lítio, nióbio, cobalto, manganês e as argilas iônicas) são posicionamentos que ensaiam uma imposição definitiva da Doutrina Donroe [um amálgama de Donald Trump e Doutrina Monroe] – implementada por Trump a partir de perspectivas da ultradireita que politicamente o sustenta –, que estabelece a Iberoamérica como espaço da influência direta e controle do território.

O momento histórico atual denota a condição particular do sistema internacional. Diante de uma crescente contestação chinesa, vivencia-se o estertor — ou a agonia — da hegemonia estadunidense, caracterizada pela supremacia militar, pelo domínio da fronteira tecnológica e pela hegemonia monetária, hoje sob intensa contestação de outros países, com a criação de sistemas de pagamento que não incluem o dólar.

Nesse contexto, desencadeou-se a perda de protagonismo das organizações multilaterais e do arranjo de regras de funcionamento global construído pelos EUA no pós-guerra. A fragmentação ganha força nas relações entre as nações, exigindo reposicionamentos em que a revalorização dos territórios é crucial.

Forçar alinhamentos político-econômicos dos países iberoamericanos aos interesses estadunidenses reflete o esforço de neutralizar a influência chinesa no subcontinente – aqui, sem juízo de valor sobre se é melhor estar sob influência do dragão ou da águia careca – não existe altruísmo entre as nações mas, apenas, interesses.

Diante dessa constatação, ganha relevância a política econômica pautada por posicionamentos que fortaleçam a soberania nacional vinculados a um projeto hegemônico de desenvolvimento nacional, pois a condição de território colonial não trouxe qualquer benefício a nenhum dos países do chamado sul global.

Retomando o início do artigo, o chamado tarifaço foi revogado pela suprema corte do país em fevereiro de 2026, impondo não apenas uma fragorosa derrota ao governo Trump como, ainda, chancelando a possibilidade de estorno dos montantes pagos às empresas tarifadas. Todavia, esse é um governo que não sabe perder, e outros mecanismos estão em gestação visando driblar a suprema corte e manter as barreiras fiscais revogadas. As alternativas se apoiam nas seções 122, 201, 301 da lei de comércio dos Estados Unidos de 1974.

A seção 122 da referida lei estabelece tarifa de 10%, de forma cumulativa, sobre as atualmente praticadas. A seção permite que a tarifa alcance 15% por 150 dias, sob o argumento de correção dos desequilíbrios da balança de pagamentos. A partir dessa seção, substituiu-se o tarifaço revogado pela suprema corte dos EUA, porém, com limites de vigência e percentual.

A seção 201 prevê a imposição de cotas temporárias de importação. Já a seção 301 trata de um mecanismo para investigar possíveis práticas comerciais desleais de países estrangeiros que afetem o comércio dos EUA. A apuração é conduzida pelo Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) e pode abranger, por exemplo, práticas análogas à escravidão e a ausência de rastreabilidade de produtos importados.

A seção 232, de 1962, permite a imposição de tarifas para produtos que ameacem a segurança nacional e faz parte da legislação de extensão comercial, enquanto a seção 338 pertence à lei tarifária de 1930, que impõe tarifas de até 50% a países que discriminem produtos estadunidenses. Esta última nunca foi aplicada, mas o dedo trumpista está no gatilho.

Adicionalmente, há, ainda, a possibilidade de retaliação aos países que transacionam com o Irã (25% de tarifa adicional), embora exista o consenso de que o principal perdedor da deflagração da “Fúria Épica” sejam os Estados Unidos. O governo continua sob os preceitos da teocracia, enquanto o mundo voltou-se contra o ataque, pois os EUA levaram ao colapso a oferta de energia/vida (petróleo, gás, enxofre e fertilizantes), atendendo mais ao intuito de construção da hegemonia israelense na região e prescindindo da preocupação do avanço do enriquecimento de urânio no Irã.

Como se não bastassem todas essas possibilidades de, novamente, levantarem-se barreiras ao café brasileiro, a possibilidade do governo dos EUA caracterizar como terroristas os grupamentos criminosos PCC e o CV concederá ao país a licença para impor taxas a produtos brasileiros amparados.

Ao longo de cerca de cem dias de vigência do tarifaço, houve perda de US$ 400 milhões exclusivamente nas exportações do agronegócio cafeeiro brasileiro para os EUA1. Apesar da revogação do tarifaço, os 50% atribuídos ao solúvel persistem, retirando, por completo, qualquer possibilidade do produto concorrer no mercado estadunidense.

Em alguma medida, as 23 indicações geográficas de café do Brasil permitem plena rastreabilidade dos produtos procedentes desses territórios. Os cafés dessas procedências têm relativa proteção contra o levantamento de barreiras tarifárias decorrente da alegada impossibilidade de rastreamento. Todavia, outras questões capazes de impedir as transações do café brasileiro no mercado estadunidense podem ser levantadas. Cabe às entidades representativas do segmento apresentarem informações sobre a estrutura produtiva da lavoura cafeeira, considerando, especialmente, tanto as relações sociais quanto os reflexos ambientais de produção.

O encontro programado entre os mandatários do Brasil e seu congênere estadunidense foi antecipadamente pautado por empresários brasileiros com acesso à cúpula do governo Trump. Acertos quanto a taxação sobre o aço e o alumínio concentram o maior interesse do lado brasileiro, enquanto, do lado de lá, são  minerais críticos. Porém, há ainda o problema dos embarques do café solúvel (onerado em 50%), que demanda um equacionamento favorável ao agronegócio Cafés do Brasil. O mais provável é que continue como está, mantendo as mercadorias brasileiras ameaçadas pelos interesses do “império”.

1 SIMÕES, K. Tensão geopolítica e tarifas redesenham ação no exterior. Valor Econômico, Caderno Especial Pequenas Empresas, 21 e 22 abr. 2026, p. F3. 

Celso Vegro (@celsovegro) é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

TEXTO Celso Luis Rodrigues Vegro é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

Cafeteria & Afins

Coar Cafeteria – Foz do Iguaçu (PR)

Não é só a beleza natural que atrai turistas do mundo inteiro à Foz do Iguaçu. A cidade, que abriga um dos 23 patrimônios naturais da humanidade no Brasil – o Parque Nacional do Iguaçu e suas belas Cataratas – também é casa para uma grande comunidade árabe e muçulmana, somando mais de 20 mil pessoas. O local conta com uma das maiores mesquitas da América Latina, a Omar Ibn Al-Khattab, que é marco da comunidade na tríplice fronteira.

Majida Rahall é muçulmana e proprietária da Coar Cafeteria, lugar em que escolhemos fazer uma visita durante breve passagem pela cidade. Localizada na região central, a cafeteria possui fachada simples, rústica e convidativa, com tijolinhos à vista e pintura branca com detalhes em verde.

Do lado de dentro, possui salão amplo com decoração mínima: piso e móveis de madeira, algumas fotografias na parede e uma grande oferta de mesas, que traz um tom acolhedor, principalmente para quem trabalha de maneira remota e prefere o conforto de uma cafeteria para se estabelecer durante o dia. O balcão de pedidos e pagamento, localizado à esquerda de quem entra, também é vitrine para os doces e salgados feitos artesanalmente na casa, que chamam muita atenção. Ali também são preparados os cafés e finalizados os pratos. 

Ao escolhermos uma mesa, um atendente simpático e solícito já nos entregou os cardápios para fazermos a escolha dos itens. As opções de bebidas vão de cafés e chás quentes a cafés gelados, sucos e refrigerantes. As comidas são um show à parte, com sanduíches e toasts com pão feito na casa, além das tortas, bolos e cookies. 

No cardápio, não há clareza na comunicação dos cafés, sem indicação da origem, torra, produtor e outras informações. Para quem aprecia o universo dos cafés especiais, certamente é algo que faz muita falta. Optamos, então, por um coado na V60, que já chega pronto à mesa e entrega um dulçor acentuado com notas de caramelo, acidez baixa e corpo médio, fácil de beber. Experimentamos também o cappuccino tradicional, que estava cremoso e muito bem vaporizado. 

A pedida para acompanhar os cafés foi uma toast de cogumelos com cream cheese e zaatar, uma fatia de torta de maçã e uma de torta de pistache, mascarpone e chocolate, ambas indicações da atendente. 

A toast, servida num pão de campanha feito na casa, estava muito bem equilibrada, com os cogumelos caramelizados e o toque herbal do zaatar unidos pela cremosidade do cream cheese. O pão era crocante e macio ao mesmo tempo. A torta de maçã surpreendeu pela quantidade abundante da fruta em sua preparação, mas a massa era um pouco pálida e macia demais – sentimos falta de uma crocância para contrastar com o recheio. Já a torta de pistache e mascarpone entregou não só visual, mas muito sabor. O chocolate não roubou a cena, e você conseguia apreciar cada um dos três sabores, mesmo sendo todos marcantes. Não era muito doce e foi uma grata surpresa, combinando perfeitamente com o café coado. 

Torta de maçã e torta de pistache

As porções servidas no local são para lá de generosas, sendo possível compartilhar com uma ou mais pessoas. Aliás, a cafeteria é o lugar perfeito para pedir três ou quatro opções e dividir com uma mesa cheia de amigos. A casa também oferece brunch árabe aos sábados e domingos – mas esse ficará para uma próxima visita.

A Coar Cafeteria é um destino bacana para quem busca bons cafés para além do rigor técnico. Aqui, a experiência é construída ao redor da mesa, com acolhimento e identidade. O espaço encontra sua força no conjunto – boa comida, café que agrada com facilidade e um ambiente genuinamente hospitaleiro. No centro de Foz do Iguaçu, o endereço encontra seu lugar naquilo que entrega de forma simples e honesta: o prazer de estar à mesa. 

Nossa conta: R$ 102 (com taxa de serviço)
Café coado – R$ 15
Cappuccino – R$ 14
Toast de cogumelos – R$ 26
Torta de maçã – R$ 18
Torta de pistache e mascarpone – R$ 20

A Espresso visitou a casa anonimamente e pagou a conta.

Informações sobre a Cafeteria

TEXTO Equipe Espresso • FOTO Equipe Espresso

Barista

Juliana Morgado defende o Brasil no mundial de filtrado: “Vão ver como é o nosso café e a força das mulheres”

Única mulher entre os seis finalistas da competição nacional, a barista de Brasília se prepara para o mundial da categoria na Bélgica

“Acordo todo dia de manhã e vou olhar minha prateleira pra ver se é verdade”, conta Juliana Morgado à Espresso sobre sua vitória no Campeonato Brasileiro de Brewers no último dia 26.

Única mulher entre os seis finalistas, a barista de Brasília segue em ritmo de treinamento para representar o Brasil no mundial, que acontece de 25 a 27 de junho em Bruxelas, na Bélgica. 

Em entrevista exclusiva, Juliana relembra sua trajetória no café, reflete sobre os desafios da profissão e comenta os planos para o futuro e as expectativas para o mundial. “Quero mostrar que o café brasileiro é mais do que castanha, caramelo, chocolate e torra escura para espresso”. 

Espresso: Conte um pouco sobre sua trajetória no café – experiências, conquistas e desafios.

Juliana: Faz oito anos que estou no café, comecei como barista. Antes, trabalhei sete anos como assessora de imprensa. Saí de um trabalho que estava me fazendo mal, e, como tinha um curso de barista, comecei a trabalhar com isso e me apaixonei. Igual à Alice, caí no buraco do coelho, no mundo do café especial, e a curiosidade foi me levando. Como sempre fui estudiosa, acho natural querer ampliar conhecimento. Acho que foi isso o que fez minha carreira deslanchar e é o que eu digo a todos os baristas com quem convivo: se você estuda, se dedica com compromisso e consistência, consegue melhorar a vida de ser barista. Meu grande desafio é o de todo mundo – ser barista e ter perspectiva de crescimento, não apenas ficar na cafeteria fazendo café. 

Trabalhei em cafeterias em Brasília. O café que usei no campeonato foi selecionado e torrado pelo Rodrigo, da Studio Grão, onde trabalhei quatro anos. Íamos atrás de lotes incríveis de produtores muito pequenos, ou, às vezes, um pouco maiores, mas com alguma saca maravilhosa difícil de vender  – ninguém quer pagar frete de uma saca só. Mas a gente ia lá, para mostrar que o Brasil tem jóias a serem lapidadas.

E: O que significa ganhar o título de Campeã Brasileira de Brewers?

J: Foi incrível. Acordo toda manhã e vou olhar minha prateleira pra ver se é verdade. Bato no troféu e sigo o dia. Eu sabia que eu iria bem porque estava me esforçando muito e tinha um café realmente muito bom. Já fui com o pensamento de que iria ganhar, porque é competição e você tem que dar o seu melhor. Quando anunciaram meu nome, caí de joelhos, porque é a chancela de todo o meu esforço, de oito anos de barismo, de anos ensinando. Sou instrutora, consultora, ajudo a abrir cafeterias. Trabalho como barista parceira da 3corações visitando lugares com cafés de todos os tipos. Amo não só cafés especiais, por isso fiquei em êxtase. Acredito que consegui representá-lo e, principalmente, as mulheres do café, uma área muito dominada por homens e onde precisamos ganhar espaço. E o mundial é o nosso espaço, o do Brasil, para dizermos que temos cafés incríveis também.

E: De que maneira ganhar este campeonato impacta sua vida profissional?  

J: Agora ela virou de cabeça pra baixo. Com essa visibilidade, consigo colocar meus projetos pra frente. Sempre quis fazer cursos filantrópicos para mulheres e trans em situação de risco. Tem muita gente querendo me ajudar. Mas, antes, quero levar o café brasileiro pra fora e mostrar que somos mais do que castanha, caramelo, chocolate e torra escura para espresso. Porque nas cafeterias lá fora, o Brasil está sempre nessa média. Temos cafés incríveis, florais, frutados, delicados, feitos com esforço e por mãos que querem oferecer uma xícara incrível, uma experiência. É isso quero mostrar. 

E: Como você pretende se preparar para o Mundial e quais são as expectativas em relação a essa disputa?

J: Estou em fase de treinamento, fechando meu discurso em inglês, decidindo se o café vai ser o mesmo ou não. Estamos buscando patrocínio, porque só tenho a minha ida garantida, mas preciso dos meus coachs, de equipamentos e utensílios para treinar e me apresentar. Só o filtro de papel que uso custa R$ 10. Nos denominamos uma seleção brasileira de barismo, pois não vou representar uma marca, mas o Brasil. Então, aceitamos ajuda de que quem tiver interesse em ajudar a marca Brasil. Minha expectativa é de que vamos ganhar, e vocês vão ver como é o café do Brasil e a força das mulheres.

E: Quais os planos para o futuro? Pretende competir novamente?

J: Claro. Esse ano vou ao Campeonato Brasileiro de Barista e, ano que vem, ao de brewers de novo. E de barista de novo. E mundial de novo – se der. Gosto disso.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Barista

Campeonatos de café movimentam a semana no Brasil e na Tailândia

Disputas de torra, em Varginha (MG), e de degustação, em Bangcoc, reúnem profissionais; mineiro Jacques Carneiro representa o país no mundial de cupping

*Post atualizado em 7 de maio, às 17h30.

A cena do café especial entra em ebulição nesta semana com dois campeonatos de peso — um no Brasil, outro no circuito internacional. De um lado, o Campeonato Brasileiro de Torra, que começa nesta quarta-feira (6) e segue até sexta (8), em Varginha (MG). De outro, o World Cup Tasters Championship, que reúne degustadores de 44 países entre quinta (7) e sábado (9), em Bangcoc, na Tailândia.

O Brasil será representado pelo mineiro Jacques Carneiro na disputa internacional, realizada durante o World of Coffee Bangkok 2026. Cofundador e diretor de Inovação e Qualidade da Unique Cafés Especiais, atua há mais de 20 anos no setor. Participa do mundial pela segunda vez — em 2007, foi 3º colocado em competição internacional de degustação.

Sobre a preparação para o mundial, Carneiro conta à Espresso que treinou diariamente no laboratório da Unique, testando tipos de triangulações e variando granulometrias. “A estratégia é sempre acertar mais em menos tempo, mas vou observar na primeiro rodada como está o nível de acerto e tempo dos competidores antes de mim, e se os acertos forem muito altos, vou precisar acelerar mesmo correndo o risco do erro, mas como estratégia pra tentar passar pra próxima. Agora, se o nível de acerto for médio, vou na paciência e esqueço o tempo para tentar o máximo de acerto para passar para próxima”, comenta.

Jacques Carneiro no Campeonato Brasileiro de Cup Tasters 2026

O mundial de cup tasters premia o degustador que demonstra maior precisão, velocidade e consistência na identificação de diferenças sensoriais em cafés especiais. Na prova, os competidores enfrentam séries de triangulações — três xícaras servidas, sendo duas com cafés idênticos e uma diferente. Cada rodada reúne oito triangulações, e o objetivo é apontar corretamente a xícara distinta no menor tempo possível, usando olfato, paladar e memória sensorial.

A edição deste ano reflete uma mudança mais ampla no circuito internacional do café. Ao levar o campeonato para a Ásia, a Specialty Coffee Association reforça a descentralização do setor e acompanha o crescimento da região como polo consumidor e produtor. Além da disputa em si, o Cup Tasters tem sido, na opinião de especialistas, cada vez mais usado como referência de calibração sensorial na indústria, influenciando desde o treinamento de equipes até processos de compra e controle de qualidade de cafés.

No Brasil, o Campeonato Brasileiro de Torra abre a programação nesta quarta (6), no Centro do Comércio de Café do Estado de Minas Gerais (CCCMG), em Varginha. O vencedor será conhecido na sexta (8) e garantirá vaga no World Coffee Roasting Championship, que acontece entre 25 e 27 de junho, em Bruxelas, na Bélgica.

Ao todo, 14 competidores de 13 cidades participam da disputa nacional. O campeonato avalia o desempenho com base no perfil sensorial do café apresentado, premiando quem melhor reproduz, na xícara, o plano de torra previamente submetido ao júri. O café oficial é da cooperativa Minasul, e os torradores utilizados são da marca Kaleido.

Competidores do Campeonato Brasileiro de Torra

Breno Azevedo de Oliveira – Rio de Janeiro (RJ)
Fabio Milan Pereira – Machado (MG)
Flavio Camargos Lopes da Silva – Salvador (BA)
Franciele Cristina da Silva Moreira – Varginha (MG)
Gabriel Carvalhaes Heinerici – Rio de Janeiro (RJ)
Ivan Carlos de Santana – Cabo Verde (MG)
João Santarosa Esmanhoto – Florianópolis (SC)
Johann Schelck Emmerich – Belo Horizonte (MG)
Nicholas Eloy Delfino Lara – Curitiba (PR)
Pedro Henrique Figueiredo dos Anjos – Brasília (DF)
Reginaldo Gonçalves Gomes – Uberaba (MG)
Rhuan Simil Fernandes – Patrocínio (MG)
Robson Rodrigues Ribeiro – Carmo de Minas (MG)
Tiago de Mello – São Paulo (SP)

World Cup Tasters Championship
Onde: Bangkok International Trade & Exhibition Centre
Quando: 7/5 (11h–17h, primeira rodada); 8/5 (10h30–15h, quartas de final e semifinais); 9/5 (12h30–14h, final)

Campeonato Brasileiro de Torra
Onde: Centro do Comércio de Café do Estado de Minas Gerais (CCCMG) – Varginha (MG)
Quando: 6/5 (10h–15h10); 7/5 (8h–15h15); 8/5 (9h–16h30)

TEXTO Redação

Mercado

Nestlé confirma venda da Blue Bottle para acionária da Luckin Coffee

Estratégia faz parte de de reposicionamento da empresa em negócios escaláveis e café, com redução do portfólio e corte de empregos

A Nestlé confirmou a venda da Blue Bottle Coffee para a Centurium Capital Partners, empresa de private equity chinesa e maior acionista da Luckin Coffee. O valor da venda não foi divulgado, e o negócio está previsto para ser concluído neste primeiro semestre, conforme anúncio da multinacional divulgado em seu relatório de vendas trimestrais no fim de abril.

A Nestlé adquiriu participação majoritária na Blue Bottle Coffee em 2017 por cerca de US$ 425 milhões, mas a expectativa do mercado é de que o valor desta próxima venda seja bem menor do que os US$ 700 milhões que a Blue Bottle vale atualmente – especialistas arriscam US$ 400 milhões. 

Notícias recentes informam que a transação inclui os cafés da Blue Bottle e a maior parte de seu negócio em bens de consumo, enquanto a Nestlé manterá direitos sobre as cápsulas da marca.

A venda da Blue Bottle Coffee, com mais de 100 lojas nos EUA e na Ásia, é parte da estratégia de reestruturação da Nestlé, que inclui a redução do portfólio e o foco em marcas globais de maior alcance, particularmente no setor de café, onde Nescafé e Nespresso impulsionam seu crescimento. 

No ano passado, o conglomerado suíço revisou, por exemplo, suas marcas de vitaminas, como a Puritan’s Pride, e, em fevereiro, anunciou sua saída do mercado de sorvetes, e, parcialmente, do negócio de água engarrafada – são dela as marcas Perrier e San Pellegrino, cujo acordo de vendas gira em torno de US$ 5,75 bilhões, segundo informou a Reuters.

A maior empresa de alimentos do mundo também planeja reduzir custos. Em outubro de 2025, o CEO da Nestlé, Philipp Navratil, anunciou o corte de 16 mil empregos como parte de um plano para reestruturá-la. Dias atrás, o sindicato britânico GMB afirmou o corte de 450 empregos no Reino Unido.

O café, porém, continua sendo uma área importante para a Nestlé. Mesmo com queda de 5,7% nas vendas no primeiro trimestre do ano em relação a 2025, a categoria registrou vendas de US$ 7,6 bilhões no período, um valor considerado estável em comparação ao mesmo período do ano anterior, e cresceu 9,3%, superando os demais segmentos. 

O plano de reestruturação concentra-se em quatro pilares principais — café, cuidados com animais de estimação, nutrição e alimentos e snacks. 

Expansão nos EUA

Criada em 2017, a Luckin acaba de abrir, em fevereiro, sua loja número 30 mil, em Shenzen, na China, onde está presente em mais de 300 cidades, além de ter unidades em Singapura, Malásia, Hong Kong e Estados Unidos.  

A transação, portanto, reforça a presença da Centurium na América do Norte, onde existem mais de 70 unidades da Blue Bottle. A aceleração de crescimento da Luckin é atribuída à entrada da Centurium no negócio, em 2022. Uma das novidades recentes é a abertura de um centro de torrefação da rede na cidade chinesa de Qingdao, considerado o maior do país.

TEXTO Fontes: CNN, Reuters, Perfect Daily Grind, Daily Coffee News, Los Angeles Times, FoodNavigator.
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