Cafezal

Plantando além do cinturão do café

Nas colinas subtropicais da Austrália e nas fazendas ensolaradas da Califórnia, o café agora está sendo cultivado em áreas antes consideradas inadequadas para a produção comercial

Por Deniz Karaman (5thWave)

Nesta reportagem, Deniz Karaman, da 5thWave, investiga se essas novas origens estão se tornando indústrias escaláveis ou se continuarão como nichos de mercado que atendem a pequenas produções de culturas especiais de alta qualidade.

Fazenda de café na Austrália

Em dezembro de 2023, a plataforma World Coffee Portal revelou que a China tinha ultrapassado os Estados Unidos como o maior mercado de rede de cafeterias do planeta, depois de crescer impressionantes 58% naquele ano e alcançar 49,7 mil pontos de venda.

A maior parte do café que consumimos é cultivada no chamado cinturão do café, uma região equatorial entre 25o ao norte do Equador e 30o ao sul, onde climas tropicais fornecem as condições ideais para o cultivo. No entanto, mudanças climáticas, inovação agrícola e a crescente demanda global levaram agricultores a explorarem novas fronteiras para a produção de café.

Na Europa, houve esforços em pequena escala para cultivar café na Sicília, enquanto a Delta Cafés de Portugal tem experimentado o cultivo de café nos Açores. Porém, nas regiões subtropicais do leste da Austrália e nas terras férteis da Califórnia, nos Estados Unidos, surgiram pequenas indústrias comerciais de cultivo de café.

Austrália: paraíso subtropical

O café é um grande negócio na Austrália, país conhecido por torrar e preparar alguns dos grãos de mais alta qualidade do mundo. Em meados de 1800, diversas foram as tentativas de cultivo da planta em escala comercial por lá. Embora esses esforços não tenham sido bem-sucedidos, a Austrália tem sido o lar de uma indústria de cultivo de café em pequena escala desde a década de 1980.

De acordo com Rebecca Zentfeld, presidente da Australian Grown Coffee Association, o clima único do país e a ausência de pragas e doenças significam que uma indústria doméstica de cultivo de café está cada vez mais viável. “Não temos a broca e nem a ferrugem. Isso significa que podemos cultivar nossos grãos naturalmente sem pesticidas, o que é notável para terras de cultivo de café. Isso tem sido uma inspiração real para novos produtores entrarem nesse barco”, diz Rebecca, que em 1993 fundou a Zentfeld’s, uma das primeiras fazendas e torrefações de café verticalmente integradas da Austrália.

Rebecca Zentfeld em sua torrefação

Além do ambiente livre de pragas, o clima do país também influencia a maturação do café e um perfil de sabor único, diferenciando-a de outras regiões produtoras. As fazendas de café da Austrália estão localizadas em áreas subtropicais, como Nova Gales do Sul, Sudeste e Norte de Queensland, que têm um clima mais frio e altitudes mais baixas do que a maioria das fazendas nos trópicos. As fazendas australianas não dependem de grandes altitudes para o desenvolvimento dos sabores do café. Em vez disso, o clima naturalmente mais frio estende o período de maturação do grão, levando a um perfil de xícara mais complexo e doce.

“O clima mais frio nos permite cultivar café de altíssima qualidade. Nosso terroir traz uma doçura natural à bebida, algo que realmente buscamos em termos de qualidade”, conta Rebecca. Embora essas vantagens climáticas contribuam para a qualidade do café e perfis de sabor aprimorados, elas também moldam o cenário de negócios para os produtores australianos em termos de produção e posicionamento de mercado.

Atualmente, a Austrália tem cerca de 50 produtores de café, com tamanhos de fazenda variando de 15 a 300 hectares. Devido aos altos custos de terra e mão de obra, a produção em larga escala continua sendo um desafio. Como resultado, o café australiano atende principalmente ao mercado doméstico de especialidade, com um forte foco em vendas diretas ao consumidor por meio de plataformas online e agroturismo.

Ao contrário das regiões tradicionais de cultivo ao longo do cinturão do café, onde os custos mais baixos de terra e de mão de obra tornam a produção em larga escala viável, os altos custos da Austrália exigem que os agricultores adotem modelos de receita inovadores, como o agroturismo. “Os negócios de café australianos são comercialmente viáveis? A resposta é sim. Os impulsionadores do sucesso para os produtores menores no norte de Nova Gales do Sul e, particularmente, na região subtropical do sudeste de Queensland é que eles estão baseados em uma área de agroturismo atrás de Byron Bay, Noosa e Brisbane”, explica ela. “O agroturismo está nos ajudando a ser comercialmente mais viáveis ​​e a vender café diretamente aos consumidores”, completa. No entanto, os altos custos da terra significam que a maioria das fazendas de café australianas continua pequena, geralmente cobrindo de 15 a 30 hectares.

Fazenda de café na Austrália

Altos custos de mão de obra são outro desafio. Rebecca afirma que os produtores mais bem-sucedidos estão, agora, usando colheitadeiras mecânicas. Também seria extremamente benéfico para a incipiente indústria de cultivo de café da Austrália o maior acesso a novas variedades de café, que podem se mostrar mais resilientes às mudanças climáticas e produzir maiores rendimentos.

O país atualmente cultiva apenas duas variedades principais de arábica – o estoque original k7 queniano da década de 1980 e um catuaí. “Finalmente concluímos a pesquisa para garantir novas variedades para o país”, alegra-se Rebecca. “Por exemplo, a masalisa, uma variedade de propriedade francesa, a IPR 104 e a pareto, que são brasileiras, e há a parainema hondurenha chegando também. Estamos ansiosos para poder cultivar essas novas variedades em todas as novas áreas e produtores existentes na Austrália”, diz ela.

Enquanto alguns produtores maiores estão exportando seu café internacionalmente, a maioria dos cafeicultores australianos pretende atingir o mercado doméstico de café, calculado em US$ 12 bilhões. “A maioria dos produtores está buscando substituir as importações no mercado doméstico australiano. Dito isso, também há muito espaço para crescimento nos principais mercados especializados do norte da Europa e da Ásia. No futuro, é aí que planejamos aumentar as vendas de café australiano”, explica a especialista.

Califórnia: potência em especiais nos EUA?

Assim como o café australiano, a indústria do grão na Califórnia ainda está em sua infância e enfrenta desafios semelhantes em escalabilidade e adaptação climática.

A Frinj Coffee, uma das pioneiras no estado, é movida pelo desejo de fornecer aos agricultores safras de alta qualidade e desempenhou um papel crucial ao provar que o café especial pode ser cultivado lá com sucesso. “A Frinj está produzindo café por dois motivos: porque queremos fornecer aos agricultores californianos um cultivo alternativo de alto valor e porque achamos que o ambiente de cultivo único, aqui, produz alguns dos melhores cafés do mundo”, diz Jay Rusky, CEO e cofundador da Frinj.

Atualmente, há mais de 60 fazendas apoiadas pela Frinj cultivando café na Califórnia, cobrindo mais de 40 hectares. “Nossas principais cultivares são gesha, laurina, caturra, catuaí vermelho e pacamara. Também estamos trabalhando em algumas outras cultivares e híbridos, e, às vezes, lançamos variedades raras limitadas”, diz Rusky. Indicativo da posição de mercado premium da Frinj, os preços começam em torno de US$ 70 para um pacote de cinco onças (141 g).

Os produtores de café da Califórnia também estão encontrando novas maneiras de se adaptar ao clima local, com o café frequentemente cultivado ao lado de pés de abacate, que fornecem sombra e proteção contra ventos fortes.

Processamento na Frinj

“Hoje, demos um passo adiante ao nos inspirarmos em produtores locais de frutas vermelhas, que usam sistemas agrícolas protegidos para cultivar em terras marginais”, explica Rusky. “Agora, estamos usando com sucesso telhados de plástico transparente para ter mais controle ambiental e proteção contra o clima turbulento, como as ventanias que, recentemente, foram manchetes em todo o mundo”, completa ele.

Embora essas inovações ajudem os cafeicultores a gerenciar as condições locais, os padrões climáticos da Califórnia representam uma ameaça ao cultivo de longo prazo. O clima do estado é conhecido por ser propenso a flutuações extremas, variando de chuvas pesadas e inundações repentinas a ondas de calor e incêndios florestais, resultando em condições agrícolas difíceis. Rusky reconhece essa ameaça e a descreve como um desafio futuro fundamental. “Uma atmosfera mais quente leva a condições mais extremas. Na Califórnia é mais quente, mais frio e mais ventoso com mais frequência. Navegar por essas flutuações climáticas extremas será o desafio para a próxima geração de agricultores.”

Apesar dos desafios relacionados ao clima, Rusky acredita que o futuro do café californiano é comercialmente viável. Ele traça um paralelo entre a emergente indústria de café do estado e sua agora próspera indústria de vinhos, sugerindo que o café especial pode seguir trajetória semelhante. Ao reconhecer a natureza de longo prazo do cultivo de café, ele enfatiza que paciência e melhoras graduais são a chave para o sucesso. “Gostamos de pensar em nós mesmos como seguindo o caminho da indústria de vinhos da Califórnia nas décadas de 1970 e 1980”, diz ele. “Primeiro, as pequenas fazendas se tornam boas nisso, e então nós escalamos. O café é uma fruta de crescimento lento e leva de quatro a cinco anos para obter uma colheita. A Frinj plantou mais de 100 mil pés na Califórnia, então é apenas uma questão de tempo até que você veja mais dos nossos cafés em cafeterias de alto padrão”, acredita.

Rusky acrescenta que a vastidão das terras e uma base grande de consumidores norte-americanos também tornam o cultivo de café no estado um empreendimento que vale a pena, com um futuro comercialmente viável. “O Havaí tem sido muito bem-sucedido na produção de café e na criação de uma indústria próspera em torno dele. Acho que o sul da Califórnia está em uma situação semelhante. A diferença é que na Califórnia temos uma base de consumidores locais maior e muito mais terras, o que nos torna comercialmente mais viáveis”, diz ele, que acredita que há, também, potencial para cultivar café em regiões semelhantes, com climas mediterrâneos e boas fontes de água.

No entanto, um dos maiores desafios para a indústria do grão na Califórnia é o tempo: os pés de café levam anos para amadurecer, o que os torna um investimento de longo prazo. A adesão dos agricultores também tem sido lenta, mas, à medida que os métodos de produção melhoram e a indústria ganha força, mais produtores estão demonstrando interesse. “O tempo é nossa principal barreira”, diz ele. “A produção de novas safras em qualquer área leva bastante tempo e paciência. Os agricultores também precisam de algum convencimento, mas isso está se tornando mais fácil à medida que continuamos a desenvolver sistemas para produção de cafés de alta qualidade”, completa.

Fazenda Good Land Organics na Califórnia

Rusky observa que a Frinj tem planos de crescimento futuro e pretende expandir e continuar a nutrir novos empreendimentos comerciais e parcerias com fazendeiros e instituições de pesquisa. “Meu trabalho com café começou como um teste com o serviço de extensão agrícola da Universidade da Califórnia há mais de 20 anos. Hoje, a UC Davis estabeleceu um centro de pesquisa de café promovendo a ciência e a pesquisa do grão. Este é um dos relacionamentos mais importantes que queremos continuar a promover para a Frinj e para a indústria como um todo”, detalha ele.

Apesar do crescimento promissor, a Frinj enfrentou obstáculos significativos no ambiente de negócios de alto custo da Califórnia e, até mesmo, entrou com pedido de falência em 2024. No entanto, desde então, a empresa garantiu novo financiamento e agora está olhando firmemente para o futuro. “Tenho o prazer de anunciar que a empresa fechou uma rodada de financiamento da Série A. Este novo capital permitirá que a Frinj expanda suas operações na Califórnia”, garante o CEO.

O foco do crescimento da Frinj é dar suporte à rede de produtores, fornecendo equipamentos de última geração necessários para processar o grão e impulsionando o marketing para abrir canais de vendas para o café dos produtores californianos. “Hoje, você pode comprar café em nosso site e ficar de olho no nosso café colhido em 2024, sendo apresentado por alguns torrefadores americanos bem conhecidos”, diz Rusky.

Gesha da Frinj vendido na Blue Bottle

Os novos mundos aguardam

À medida que as mudanças climáticas ameaçam as regiões tradicionais de cultivo do grão com temperaturas crescentes, padrões climáticos erráticos e maior vulnerabilidade a doenças, a urgência em encontrar paisagens alternativas para o plantio de café tem sido cada vez maior.

Austrália e Califórnia surgiram como novas origens promissoras de café, aproveitando climas únicos para produzir especiais de alta qualidade. Embora essas novas fronteiras nunca substituam as potências cafeeiras tradicionais, principalmente quando se trata de produção comercial em massa, elas estão provando que o café especial de qualidade pode prosperar além do cinturão equatorial. Com pesquisa contínua, inovação e adaptação ao mercado, Austrália e Califórnia podem redefinir o cenário global do café, oferecendo resiliência e diversificação a uma indústria em fluxo.

Texto originalmente publicado na edição #88 (junho, julho, agosto de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Deniz Karaman (5thWave)

O aquecimento global e os cafés do Himalaia

Por Gustavo Paiva

O aumento das temperaturas no planeta Terra tem provocado desastres ambientais, de diversas formas e em todas as regiões do globo. Recentemente, fotos de flores na Antártida viralizaram, e até mesmo a outrora esquecida Groenlândia passa a ocupar as capas dos jornais, já que o gelo do Ártico está derretendo e novas rotas marítimas vêm sendo abertas. 

O café, tradicionalmente cultivado nos trópicos, corre risco de sobrevivência, especialmente aqueles cultivados em altas altitudes e debaixo de sombra, onde há pouca ou nenhuma margem de manobra para mitigar os efeitos das mudanças climáticas na produção. Algumas previsões, antes consideradas pessimistas, já são realistas.

Entre as medidas de mitigação estão o desenvolvimento de novas variedades, o manejo racional da irrigação e o manejo sustentável do solo e dos recursos hídricos. Mas, além de custosas, leva muito tempo para que mudanças tão radicais sejam implementadas e gerem resultados. 

Diante do contexto climático, aqueles que se situam em montanhas próximas ao Equador acabam ficando com poucas alternativas, como é o caso dos países produtores da América Central e da África. Sem outras áreas de plantio de café no país, nem alternativas de cultivo ou crédito disponíveis para financiar mudanças, ficam ainda mais vulneráveis. Resta, portanto, a migração de pessoas para outros lugares ou a substituição da cultura na mesma terra agrícola.

O Nepal, país encravado entre a China e a Índia e com diversos picos entre os mais altos do mundo – que ultrapassam oito mil metros –, associou-se como membro produtor à Organização Internacional do Café. 

Por um lado, isso não deixa de ser uma boa notícia para a população, que tem um consumo de café surpreendentemente maduro e consistente. É, também, um avanço positivo para os poucos produtores locais, já que o Nepal tende a deixar de ser uma origem exótica e a aumentar a sua produção.

Porém, a novidade pode ser preocupante para a maioria dos produtores ao redor do mundo. Menos pela concorrência e muito mais pelo alerta sobre a mudança climática, já que, até pouco tempo atrás, seria impensável que um país de latitudes e altitudes tão elevadas almejasse aumentar a própria produção cafeeira.

Por ser um país economicamente pobre, com relevo extremamente acidentado e logística difícil, é extremamente improvável que o Nepal possa produzir café em larga escala e se torne um concorrente de peso para os atuais produtores. Além disso, parte considerável da mão de obra jovem e rural do país migra para a vizinha Índia e, até mesmo, para os países do Golfo Pérsico, onde acaba caindo em trabalhos precários, principalmente na construção civil. 

Algumas áreas do oeste do Nepal, principalmente na região onde nasceu Siddhartha Gautama, o Buda, são relativamente baixas e têm vegetação e animais tropicais. Inclusive, o rinoceronte é um dos símbolos do país e mascote da seleção nacional de críquete, o esporte mais popular no local. 

Porém, o aumento da temperatura e o consequente derretimento das geleiras podem gerar novas terras agricultáveis e obrigar a população a fugir dos vales, que serão frequentemente inundados. O principal cultivo do país é o arroz, mas outros, como pimenta, milho, trigo e cevada, também são relevantes para a agricultura local.

Outro vizinho, o Butão, tem um contexto econômico, social e geográfico semelhante e poderia seguir o mesmo caminho. Ali, também, a maioria da população e das terras está em altitudes elevadas, encravada entre Índia e China, no meio da cordilheira do Himalaia, e sujeita a um clima hostil.

Na mesma região, China e Índia já produzem café, mas em áreas distantes das fronteiras nepalesas. Estes sim são gigantes econômicos, populacionais e geográficos, com alto poder de investimento e mão de obra abundante, e podem vir a representar uma concorrência considerável aos países produtores consolidados. 

Portanto, fica cada vez mais claro que as mudanças climáticas são reais e consequência da ação humana. Mesmo que a produção de café esteja ameaçada em alguns lugares, ela encontrará alternativas e continuará em outros. Ao contrário dos seres humanos, o café está neste planeta há quase um milhão de anos, adaptou-se e sobreviveu a períodos bem mais hostis. O mesmo, talvez, não possa ser dito da nossa espécie.

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

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Plataforma digital orienta replantio de café diante da crise climática

A plataforma gratuita CafeClima, lançada em 11 de fevereiro, foi desenvolvida para apoiar produtores, investidores e governos na renovação de lavouras envelhecidas diante do avanço das mudanças climáticas.

Criada pela World Coffee Research em parceria com a Bioversity International e o International Center for Tropical Agriculture (CIAT), a ferramenta cruza projeções climáticas com dados técnicos globais sobre o desempenho de 26 variedades estratégicas de café. As informações resultam de mais de uma década de pesquisas conduzidas pela WCR em colaboração com 18 países produtores. O objetivo é orientar a escolha de cultivares com maior probabilidade de adaptação a cenários climáticos futuros.

Disponível em inglês e espanhol, a iniciativa mira milhões de cafeeiros que já ultrapassaram a idade produtiva e precisam ser substituídos para garantir a sustentabilidade da produção.

Nos últimos 20 anos, cerca de US$ 1,2 bilhão foram investidos globalmente em programas de replantio, alcançando apenas 5% dos 11,5 milhões de pequenos produtores de café no mundo, segundo a WCR. De acordo com estimativas da TechnoServe — que apoiou o desenvolvimento do CafeClima com financiamento do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), além de outros aportes privados de empresas associadas à WCR — seriam necessários cerca de US$ 4 bilhões em sete anos para viabilizar uma transição ampla para sistemas produtivos resilientes ao clima.

TEXTO Redação • FOTO Agência Ophelia

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Uganda lidera exportações de café da África

Com aumento de volume embarcado e receita em 2025, país quer produzir 20 milhões de sacas anuais até 2030

Por Gabriela Kaneto

Em 2025, a Uganda se consolidou como maior exportador de café da África, superando a Etiópia em volume. De acordo com a Uganda Coffee Development Authority (UCDA), o país registrou crescimentos expressivos em relação a 2024: foram 8,7 milhões de sacas (60 kg) embarcadas (+48%) e US$ 2,5 bilhões em receita (+71%). 

Crescimento na cafeicultura

Apesar de cultivar as duas espécies, a nação tem como carro-chefe o canéfora (robusta), que representa 85% da produção total do país – e cujo preço aumentou cerca de 33% no último ciclo – os 15% restantes são arábicas produzidos em regiões de altas altitudes. Ainda que de produção pequena, as exportações deste grão mais que dobraram em 2025, com o embarque de 1,15 milhão de sacas. O principal motivo foram problemas climáticos enfrentados por outras origens produtoras.

O governo de Uganda pretende elevar a produção para 20 milhões de sacas anuais até 2030. A meta integra o Uganda Coffee Roadmap 2030, lançado em 2017 e coordenado pela UCDA, que prevê a distribuição de mudas de alta produtividade e a agregação de valor no país, com estímulo ao café torrado e solúvel.

De olho em novas fronteiras

Hoje, Uganda exporta café para diversos mercados, com destaque para Europa, Oriente Médio e Ásia — região com a qual busca ampliar relações comerciais. No fim do ano passado, o país firmou parceria com a Cotti Coffee, rede chinesa em rápida expansão. O acordo foi apresentado pelas autoridades como o início de “uma fase transformadora para o setor cafeeiro”.

Segundo a publicação Food Business Middle East & Africa, Uganda registrou forte avanço nas exportações para a China, com crescimento de 190% em 2025, impulsionado pela maior adoção do café ugandense por redes de cafeterias, torrefações e consumidores chineses. Para a Cotti Coffee, o país é parceiro “estratégico” de longo prazo, citando a consistência dos grãos, a diversidade e iniciativas de sustentabilidade na cadeia produtiva.

Ainda na Ásia, Uganda busca ampliar as exportações para o Japão, mercado com consumo crescente de café. Em setembro, o país participou da SCAJ, principal feira do setor na região, onde apresentou seus grãos a mais de 75 mil visitantes. “O Japão valoriza qualidade, rastreabilidade, sustentabilidade e autenticidade. Uganda oferece os quatro — e com volumes capazes de sustentar parcerias de longo prazo”, afirmou Tophace Kaahwa, embaixadora de Uganda no Japão, na abertura do evento, conforme vinculou o portal SoftPower News.

Uganda x Etiópia

No exercício fiscal 2024/25 (de 8 de julho a 7 de julho do ano seguinte), a Etiópia exportou 7,8 milhões de sacas de 60 kg, segundo a Ethiopian Coffee and Tea Authority (ECTA). O volume gerou US$ 2,6 bilhões em receita, acima do registrado por Uganda. A diferença se explica, em parte, pelo perfil da pauta: a Etiópia exporta majoritariamente café arábica, cujo valor por saca costuma superar o do robusta.

Apesar do avanço nas exportações, Uganda ainda produz menos que a Etiópia. No ciclo 2024/25, a produção ugandense é estimada em 6,9 milhões de sacas, segundo o relatório anual do United States Department of Agriculture (USDA). Para o mesmo período, projeções de mercado apontam a safra etíope em cerca de 8,5 milhões de sacas de 60 kg.

Considerada o berço do café, a Etiópia mantém forte cultura de consumo interno: cerca de 50% da produção é absorvida pelo mercado doméstico, de acordo com o USDA, que projeta consumo de 4,1 milhões de sacas. Em Uganda, o mercado interno representa menos de 5% da produção, o que faz com que quase toda a colheita seja destinada à exportação.

TEXTO Gabriela Kaneto

Cafezal

Em busca de sabores raros na xícara

Produtores e cientistas pelo mundo investem em cafés difíceis de encontrar, seja para oferecer experiências sensoriais únicas, seja para enfrentar desafios ambientais atuais

Frutos da variedade laurina, em Santuário Sul (MG)

Por Cristiana Couto

Em um mercado onde a novidade é cada vez mais valorizada, variedades ou espécies pouco conhecidas, sabores fora do padrão e histórias de origem únicas alimentam a busca por experiências diferentes na xícara.

Segundo relatório de 2024 da National Coffee Association (NCA), o maior consumo de cafés especiais do que tradicionais nos Estados Unidos foi impulsionado, principalmente, por consumidores entre 25 e 39 anos, que buscam novas experiências sensoriais.

No Brasil, a demanda por novidades vem levando produtores e torrefadores a usarem termos como “raros” e “exóticos” para distinguir cafés diferenciados e difíceis de encontrar dos especiais “comuns”. O sentido é o mesmo: proporcionar uma experiência única, onde o sabor tem papel fundamental.

Fila de espera

Luiz Paulo Dias Pereira Filho é um dos que busca por cafés raros. Na fazenda Santuário Sul, em Carmo de Minas (MG), ele e os três sócios mantêm 32 variedades e espécies, vindas de países da África e da América Central.

Em sua loja online, gesha, pacamara e sudan rume são bem requisitados, mas raros, mesmo, são outros grãos, adquiridos só sob encomenda. Entre eles, o café eugenioides (Coffea eugenioides), que adquiriu na Colômbia em 2017, e a laurina, variedade de arábica com baixo teor de cafeína, obtida no mesmo ano.

A variedade goiaba

Do eugenioides, Pereira espera colher, nesta safra, três sacas dos 12 mil pés que cultiva – cada pé oferece 200 g do grão. “É difícil conseguir sementes e ele não é nada produtivo”, comenta ele, que também é sócio da empresa de exportação de grãos CarmoCoffees. A bebida que o café entrega, porém, colocou na fila de espera o barista campeão mundial Sasa Sestic, da Austrália, que a provou na fazenda e concedeu a ela 90 pontos SCA. “É um café com muita doçura, de corpo aveludado, cítrico e floral acima da média”, descreve Pereira. Segundo seus cálculos, só cinco fazendas no mundo cultivam eugenioides, cuja saca, atualmente, vale cerca de 60 mil reais.

De alta doçura e sabor cítrico, a laurina também é bastante requisitada. “Ela tem produção, mas não grande o suficiente para atender à demanda”, diz ele, que vai conseguir este ano dez sacas dos 40 mil pés plantados.

Qualidade em leilão

Investir em cafés desconhecidos, que precisam passar por testes agronômicos e sensoriais e que, muitas vezes, têm baixa produtividade, é um desafio que só vale se houver procura. “O consumidor de café especial busca sempre novidade, diferenciação”, diz Gabriel Agrelli, diretor de produto na Daterra Coffee. “E a qualidade sempre foi um veículo importante para a gente construir a visão de que é possível fazer um produto viável economicamente e que cuide do meio ambiente”, explica ele, com relação ao propósito da Daterra, reconhecida pela sustentabilidade, inovação e qualidade dos grãos.

Para alcançar a qualidade, a fazenda de Patrocínio, no Cerrado Mineiro, buscou há mais de três décadas parceria com instituições de pesquisa. Dos seus 2.800 hectares de café, 200 deles são dedicados à investigação de novas genéticas do grão. “Recentemente, estamos focando muito em resiliência climática”, acrescenta Agrelli. O café resultante dessas pesquisas vai para venda. Se a qualidade sensorial for ímpar (acima de 88 pontos), passa a compor a marca Masterpieces by Daterra e é vendido em leilão anual online para o mundo inteiro. “São microlotes com histórias únicas”, explica ele.

Muitas das áreas experimentais produzem bem pouco. É o caso do café etíope Mako, que rendeu uma saca e meia e foi vendido a R$ 50 mil a saca. O nome, dedicado à melhorista genética do IAC (Instituto Agronômico de Campinas), Masako Braguini, é uma homenagem do leilão deste ano à pesquisa brasileira em café.

Frutos maduros da espécie kapakata, do IAC

Aliás, a nova investida da Daterra em pesquisa – uma parceria público-privada (PPP) com o IAC – foca na qualidade da bebida de cultivares exóticas de diversos países africanos. “Inauguramos um campo com cerca de 40 genéticas distintas. Temos uma expectativa gigantesca de que isso possa se tornar um produto em breve”, confia Agrelli.

Mas a Daterra tem cafés raros já adaptados às condições locais, em áreas maiores. Um deles é a laurina, cujas pesquisas demoraram 14 anos para tornar a variedade estável e com “excelente” bebida, explica Agrelli. Outro exemplo são as diversas linhagens do aramosa – híbrido de arábica com a espécie racemosa, de baixo teor de cafeína. “Ele tem uma bebida maravilhosa, que remete a uva, jasmim, e com retrogosto e doçura que lembram mel”, descreve o profissional.

Laurina, aramosa e guesha da Daterra são vendidos todos os anos, em lotes que não ultrapassam 150 sacas anuais. Torrefadoras como Abigail Coffee Company, em Campinas, e Silvia Magalhães, em São Paulo, estão entre os compradores desses raros grãos.

Mercado externo

Da quinta geração de cafeicultores, Diogo Dias Teixeira de Macedo, da Fazenda Recreio, em São Sebastião da Grama (SP), também investe em cafés raros. Além dos convencionais, Teixeira cultiva gesha, laurina, maragogipe e SL-34 – uma variedade selecionada no Quênia. Produtiva, a SL 34, plantada em 2018, tem dado seis sacas em média por ano. Os 0,2 hectares iniciais transformaram-se em 2,7 ha. De sabor muito doce e floral, a variedade tem fruto maior e, consequentemente, peneira também maior, o que facilita sua venda. “O que manda mesmo é ter qualidade na xícara e uma boa história”, diz ele.

Fazenda Recreio

Teixeira também aposta em pesquisa para o desenvolvimento de cafés de rara qualidade. Em PPP com o IAC, Teixeira planta 35 materiais genéticos, com poucas árvores cada. “A ideia é, de alguma forma, contribuir para o projeto de cafés especiais da instituição”, explica.

Mas, para o empresário, trabalhar cafés raros no mercado interno não é fácil. “É difícil o pessoal aqui valorizar como valorizam lá fora”, analisa ele, que consegue vendê-los no exterior pelo dobro do preço de uma safra de arábica de qualidade. A maioria dos cafés laurina e maragogipe vai para o exterior. “O laurina é vendido num tipo de clube de assinatura. É um grupo bem restrito de compra, de gente que torra e vende a alguns clientes”, explica. Já o SL-34 vai só para o mercado externo. “Mas estou pensando em ter microlotes no site para testar o mercado”, promete.

Uma enorme riqueza nas mãos

A sustentabilidade a longo prazo também está na ordem do dia, numa época de mudanças climáticas aceleradas e previsões de rearranjo, em escala global, de áreas cafeeiras. Na busca por soluções estão os cientistas, que reviram bancos de germoplasma atrás de variedades esquecidas ou adentram florestas em busca de espécies silvestres ou pouco exploradas. Mas o interesse renovado por cultivares, híbridos, espécies ou variedades subutilizadas, capazes de suportar condições climáticas adversas, passa por investigações sensoriais. Afinal, nenhum novo café, por mais resiliente que seja, sustenta a indústria se não agradar os consumidores.

Especialista em tecnologia de processamento pós-colheita e qualidade do café do IAC, Gerson Silva Giomo investiga, desde 2009, o potencial de qualidade sensorial de variedades raras do banco de germoplasma da instituição – um dos mais importantes do mundo.

Desde então, cresce a confiança do pesquisador de que o potencial de sabor dessas plantas – cerca de 50 variedades de arábica de origens como Etiópia, Quênia, Sudão, Tanzânia, Índia e países da América Central, plantadas em campos experimentais – são intrínsecas à sua genética.

Grãos da espécie ambongo, de Madagascar

Segundo ele, provadores profissionais perceberam nesses cafés características sensoriais – notas de especiarias, ervas silvestres, madeira e flores – que remetem a grãos de outros países, mesmo sendo essas as amostras cultivadas, até então, em Campinas, cujo ambiente não é tão bom para qualidade. “A genética de espécie ou variedade tem alguma característica sensorial diferente das nossas variedades comerciais, essa força de imprimir a planta na xícara”, resume ele. “Sempre que há melhoramento genético para aumentar a produtividade de um café, interferimos na qualidade”, completa.

Um dos passos para comprovar sua hipótese foi plantar o mesmo material em diversas regiões em São Paulo e Minas Gerais para descobrir a interação entre o genótipo e diferentes ambientes. Assim, quando as pesquisas terminarem, será possível indicar, para cada região, os materiais que melhor expressem ali sua qualidade. “Se houver a manutenção da qualidade nas diferentes safras desses cafés significa, de fato, que aquela planta tem uma característica genética que faz com que ela expresse algo diferente naquele lugar”, detalha.

Afinal, o objetivo da pesquisa é obter novas variedades que atendam o mercado de cafés especiais, que busca por qualidade sensorial diferenciada. “Essa pesquisa tem capacidade de penetração nas regiões muito grande. Então, a gente acaba cumprindo nosso papel científico, tecnológico e talvez social, que é trabalhar em prol de uma cafeicultura brasileira”, destaca Giomo. “Estamos trazendo o produtor para participar desse processo, dar a opinião dele”, ressalta o pesquisador, ao se referir à PPP com empresas como a Daterra e a Recreio.

Uma parceria assim permite, por exemplo, encurtar o tempo de experimentos científicos para o desenvolvimento de novas variedades. “O produtor está conosco desde o começo, e seu olhar é importante porque ele sabe pra quem vende e o quanto pode produzir, porque domina as técnicas de produção e tem seus objetivos”, analisa. “Existe uma riqueza enorme nas nossas mãos. Precisamos estar associados com quem quer andar pelo mesmo caminho”, acredita o especialista. “Temos plantas com boas características de sobrevivência e que, naturalmente, têm um perfil sensorial que o mercado deseja e uma produtividade suficiente para ser sustentável economicamente”, garante ele.

Giomo ressalta a importância das regras na produção de novidades. “É importante oferecer cafés diferenciados, mas vale lembrar que o uso de variedades importadas é regulado pelo Ministério da Agricultura, pelo risco de pragas e doenças. Ignorar essas regras pode tornar ilegal a comercialização dessas plantas no futuro”.

Plantas de eugenioides na Santuário Sul

Investigando novas espécies

Defensor da biodiversidade e preocupado com o clima, o botânico inglês Aaron Davis, do Jardim Botânico de Kew, na Inglaterra, e um dos maiores especialistas em café do mundo, desconfia que arábicas e canéforas não serão suficientemente resilientes às mudanças climáticas. Ele afirma, em um de seus artigos científicos, que substituir lavouras por outras espécies é mais vantajoso do que por cultivares melhoradas de arábica ou de canéfora. Assim, sua aposta recai nas espécies silvestres, cujas investigações até o momento indicam alta tolerância ao calor e à seca.

Em um de seus estudos, Davis alerta que 60% das espécies silvestres de café estão ameaçadas de extinção. Por isso, o cientista busca não só descobri-las (Davis já identificou mais de 20 novas espécies) como multiplicá-las e testá-las sensorialmente. “Algumas espécies raras podem ser usadas tanto para substituir parcialmente cafezais em áreas que estão se tornando muito quentes quanto para o cruzamento com outras plantas mais resistentes”, escreveu o cientista.

Depois de sair de cena na virada do século XX com a ascensão da produtiva espécie canéfora, o café excelsa – que, ao lado do liberica, compõe cerca de 1% do comércio global de cafés – pode, segundo Davis, ressurgir como cultivo importante. As raízes profundas, folhas grossas e tronco robusto permitem que o excelsa prospere em condições extremas. Mas, para o botânico, seu maior atrativo é o sabor semelhante ao arábica. “A maioria das espécies selvagens têm baixa produtividade e produz cafés que não seriam aceitos pela maioria dos consumidores”, explicou em entrevista recente à Espresso. “Mas com processamento cuidadoso, os excelsa podem alcançar mais de 85 pontos”, garante.

A jornalista Sam Mednick, da Associated Press, relatou em março os investimentos em excelsa no Sudão do Sul, um de seus locais de origem. Índia, Indonésia, Tailândia e Vietnã também o cultivam, e Davis constata uma expansão “considerável” de seu plantio em Uganda, onde ajuda agricultores a cultivá-lo.

“Cafés excelsa e liberica estão começando a se expandir na Indonésia com a demanda de mercado”, diz a cientista indonésia Nuri Andarwulan. “São cafés usados em cafeterias e restaurantes na elaboração de bebidas, misturados ao arábica, para se obter características sensoriais únicas e diferentes”, detalha.

Pesquisas que investigam a qualidade sensorial de espécies raras ou variedades esquecidas vem crescendo nos últimos anos, e podem incentivar sua comercialização. Em 2022, Nuri e cientistas da Indonésia buscaram entender como o pós-colheita interferia na composição química do grão. Todas as amostras pontuaram acima de 80. “As características sensoriais do excelsa preparado apresentam atributos amadeirados mais intensos”, ensina.

“A qualidade sensorial dele não é tão rica quanto a do arábica, mas pode atingir qualidade de café especial com base em sua pontuação de cupping”, acrescenta ela, que está desenvolvendo em equipe um léxico sensorial para o excelsa – que pode revelar notas de nibs de cacau, manteiga de amendoim e frutas secas, segundo Davis – e estudando atributos sensoriais e composição química de variedades do libérica.

Já nas gôndolas

A comercialização do excelsa, inclusive, já está em curso. A Excelsa Coffee Company, de San Diego, na Califórnia, é a primeira torrefação e cafeteria dedicada a esse grão dos Estados Unidos. “Percebemos que o excelsa poderia desempenhar um papel impactante em muitas das questões macroeconômicas que a indústria do café enfrentava, e provar o grão nos fez acreditar que havia uma lacuna enorme no mercado para sabores de café que poderiam adicionar nuances e variedade à bebida”, diz o co-fundador Olin Patterson.

Exclusivamente dedicada ao grão, a companhia, além de torrar e vender o grão que compra de fazendas na Ásia e na África, cultiva a espécie em uma fazenda na Nicarágua. A empresa também criou a International Excelsa Coffee Organization (IECO), organização sem fins lucrativos para informações, pesquisas e apoio ao crescimento da indústria de excelsa. “Aumentar a conscientização sobre esse café pode gerar demanda, o que permite um preço mais justo aos produtores”, acredita Patterson, que tem planos de expandir a cultura a outros países.

Originária do sudeste da África, a espécie C. racemosa foi estudada em trabalhos clássicos sobre café, mas o tamanho de sua semente (cerca de 3 a 5 vezes menor do que a do arábica) parece ter desanimado pesquisas visando sua produção nos anos 1990.

Tolerante ao calor e à seca, com baixa necessidade de chuvas e rápido desenvolvimento dos frutos, o racemosa volta a ser interesse de estudos. O brasileiro Marcos Valério Vieira Lyrio, pesquisador em química da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) no laboratório LabCoffee, investigou seu perfil químico.

“Estudar a composição química de espécies como esta nos ajuda tanto a entender melhor as propriedades sensoriais como as propriedades bioativas do café e seu potencial agronômico. Cada composto confere um atributo sensorial diferente, mas a combinação de compostos gera outros tipos de atributos”, explica ele.

O estudo de Lyrio, que originou um artigo com colaboradores publicado este ano na Food Chemistry, indicou que o café racemosa tem perfil químico mais próximo ao do arábica, como alto nível de trigonelina e aminoácidos, compostos relacionados à qualidade sensorial. “O racemosa tem muito potencial para cafés de alta qualidade”, acredita Lyrio, que espera com seu trabalho estimular outros pesquisadores. “Ele entra bem no ramo de cafés que têm sabores positivos e diferentes dos convencionais – é uma bebida delicada, com bastante notas florais e acidez acentuada –, de alto valor agregado. É um café que produz pouco, mas que pode ser vendido muito caro”.

Texto originalmente publicado na edição #88 (junho, julho, agosto de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Cristiana Couto

Café & Preparos

Método feito em titânio promete versatilidade na xícara

O Tinto é um novo sistema de café filtrado em titânio que aposta na versatilidade como principal diferencial. Lançado na plataforma Kickstarter a US$ 199 — valor do kit que inclui dripper, discos, bandeja de serviço e haste para mexer a xícara, todos em titânio —, o modelo ultraleve é fabricado com 99,9% de titânio de grau aeroespacial e adota um sistema de discos intercambiáveis na base, com furos de 0,2 mm, 0,5 mm e 0,8 mm, que permitem controlar a vazão da água de acordo com o perfil de torra e o resultado desejado na xícara.

De design modular, o Tinto também pode ser usado sem filtro de papel, o que favorece maior passagem de óleos e uma bebida mais encorpada, próxima ao estilo da prensa francesa. A campanha já superou em mais de cinco vezes a meta inicial, e as entregas estão previstas para abril deste ano, sinalizando o interesse do mercado por métodos de preparo que combinam controle técnico, leveza e design.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Cafezal

Safra brasileira de café deve bater recorde em 2026/27, com 66,2 milhões de sacas

Estimativa da Conab aponta alta de 17,1% sobre 2025/26, impulsionada pela bienalidade positiva, aumento de área, maior tecnificação e clima mais favorável

A safra brasileira de café 2026/27 está estimada em 66,2 milhões de sacas, segundo o primeiro levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgado nesta quinta-feira (5). Se confirmada, a produção será superior à safra recorde de 2020 (63,08 milhões de sacas), e representará um crescimento de 17,1% em relação à colheita 2025/26, bem como um avanço de 22,1% na comparação com 2024/25, quando foram colhidas 54,2 milhões de sacas.

Além do ciclo de bienalidade positiva, o desempenho projetado reflete a expansão da área cultivada, o maior uso de tecnologia e insumos no campo e a combinação de condições climáticas mais favoráveis em boa parte das regiões produtoras.

A área total plantada com café no país — somando arábica e canéfora — chega a 2,3 milhões de hectares, alta de 3,4% sobre a safra anterior. Desse total, 1,9 milhão de hectares estão em produção (+4,1%), enquanto 397,3 mil hectares permanecem em formação (+0,2%).

A Conab também projeta ganho de produtividade, estimada em 34,2 sacas por hectare – avanço de 12,4%. No café arábica, a produtividade média deve alcançar 28,5 scs/ha (+18,4%), enquanto, no canéfora, a previsão é de 57,1 scs/ha (+2,3%).

Confira levantamento completo aqui

Produção por estado

Minas Gerais

  • 32,4 milhões de sacas (+25,9%)
  • Alta explicada pela bienalidade positiva e pela melhor distribuição das chuvas antes da floração.

Espírito Santo

  • 19 milhões de sacas (+9%)
  • Produção estimada em 14,9 milhões de sacas de conilon (+5%) e 4,2 milhões de sacas de arábica (+26,5%), beneficiada pelo bom regime de chuvas no norte do estado.

São Paulo

  • 5,5 milhões de sacas (+16%)
  • Resultado associado à bienalidade positiva e à recuperação de áreas afetadas no ciclo 2024/25.

Bahia

  • 4,6 milhões de sacas (+4%)
  • Do total, 1,2 milhão de sacas são de arábica e 3,4 milhões de conilon. Crescimento sustentado por clima mais regular, maior investimento em insumos e entrada de novas áreas em produção.

Rondônia

  • 2,7 milhões de sacas de canéfora (+18,3%)
  • Avanço impulsionado pela renovação de lavouras com clones mais produtivos e por condições climáticas favoráveis.

Goiás

  • 253,2 mil sacas (+17,5%)
  • Produtividade estimada em 42 scs/ha (+8,7%), com expansão da área em produção (+8,1%), bienalidade positiva e chuvas regulares.

Rio de Janeiro

  • 394 mil sacas de arábica (−6,7%)
  • Queda atribuída à elevada carga produtiva registrada na safra anterior.

Paraná

  • 750,6 mil sacas, com predomínio de arábica (+0,3%)
  • Condições climáticas favoráveis sustentam leve crescimento.

Mato Grosso

  • 298,7 mil sacas (+7,2%)
  • Expansão da área produtiva, maior uso de fertilizantes e avanço dos cafezais clonais.

Amazonas

  • 38,7 mil sacas de canéfora
  • Área em produção estimada em 1.043,7 hectares e área total cultivada de cerca de 1,5 mil hectares, com cultivo em expansão apoiado por políticas públicas e distribuição de mudas adaptadas à região.

TEXTO Redação

Mercado

A aposta no cacau brasileiro

Cadeia prepara-se para dobrar a produção até o fim da década e lança marca para promover o produto no mercado internacional, com foco em sustentabilidade

Foto: Ana Lee / AIPC e CocoAction Brasil

O Brasil está na contracorrente do mundo. Enquanto os maiores países produtores de cacau vêem a produção despencar por problemas como falta de renovação das lavouras, aparecimento de doenças, mudanças climáticas e garimpo ilegal, em território nacional, a cadeia cacaueira planeja dobrar a produção e atingir 400 mil toneladas por ano, tornando-se autossuficiente até 2030.

Esta é a meta do Plano Inova Cacau, desenvolvido pela Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira, órgão ligado ao Ministério da Agricultura) e pelo CocoaAction Brasil, com o objetivo de acelerar o desenvolvimento do setor cacaueiro brasileiro. “Para isso acontecer, um dos caminhos é dobrar a produtividade média das lavouras”, diz Guilherme Salata, coordenador do CocoaAction Brasil. Atualmente, o país produz cerca de 350 quilos por hectare ao ano.

Pode parecer um salto grande, mas, na verdade, o projeto é retomar a produtividade que o Brasil já teve antes da chegada da vassoura-de-bruxa, doença fúngica que dizimou os cacauais nos anos 1980. Isso fez o país, que era o segundo maior produtor de cacau do mundo, cair para a atual sexta posição.

Mas como fazer isso? “Expandindo a assistência técnica e gerencial aos produtores de cacau e ampliando o acesso a crédito”, diz Salata, referindo-se às medidas que têm sido foco dos esforços do CocoaAction, iniciativa da Fundação Mundial do Cacau que chegou ao Brasil em 2018. Não por acaso, uma das metas do Plano Inova Cacau é aumentar em 30% o número de produtores que recebem assistência técnica e extensão rural (Ater). Hoje, a cadeia estima que cerca de 14 mil produtores, em um universo de 93 mil estabelecimentos rurais com cacau no Brasil, tenham Ater.

Foto: Ana Lee / AIPC e CocoAction Brasil

 

Segundo os agrônomos do CocoaAction e as entidades parceiras, é possível duplicar a produção com práticas agrícolas simples, que boa parte dos produtores ainda não realizam. São elas a análise de solo, para indicar a quantidade de fertilizante que a lavoura precisa, e o manejo de incidência de luz.

Embora o cacau cabruca, sombreado pelas árvores da Mata Atlântica, e o cacau agroflorestal necessitem de um pouco de sombra, as podas são fundamentais para que o fruto se desenvolva bem.

A força da assistência técnica

A prova de que a assistência técnica faz toda diferença é o Programa Cacau+, do Ciapra, um consórcio de 14 municípios do Sul da Bahia que representa 1/3 da produção cacaueira do estado e congrega 25,6 mil agricultores familiares, com uma área de 99,6 mil hectares destinadas ao cacau. A iniciativa já beneficiou 2,4 mil famílias com o aumento de produtividade das lavouras e, consequentemente, incremento da renda e da qualidade de vida.

Voltado à difusão de conhecimento através de assistência técnica, o programa aumentou a produtividade dos agricultores assistidos de 336 quilos por hectare em 2021, ano em que foi lançado, para 624 kg/ha em 2024. Isso graças às análises de solos, correção com calcário e gesso e distribuição do kit mudas para os participantes do Cacau+.

José Alberto Vilas Boas e Zulmira, produtores de cacau agroflorestal em 4,5 hectares no município de Igrapiúna (BA), são um exemplo. “O programa nos trouxe conhecimento e nossa renda aumentou 60%”, diz Vilas Boas. Antes do Cacau+, eles adubavam a roça uma vez ao ano, mas jogavam muito fertilizante e as plantas não o absorviam. Com a orientação do técnico agrícola, começaram a escalonar a adubação, e o resultado foi um aumento de produtividade na área de 2,7 mil quilos em 2021 para mais de 5 mil no ano passado.

Casal Vilas Boas – Foto: Ciapra

O programa também foi um divisor de águas na vida de Josenildo de Jesus Souza, produtor de cacau consorciado com seringueira em Ituberá (BA), na comunidade de Caboge. Em 2018, ele colhia 405 kg em 1,3 hectare, mas, com o acompanhamento do técnico agrícola do Cacau+, a colheita saltou para 2,4 mil quilos no ano passado. “A partir do programa, com o aumento da renda, consegui realizar meu sonho de criança e estou fazendo faculdade de agronomia”, comemora Souza.

De acordo com o Banco Central, o total de crédito rural acessado pela agropecuária em 2024 foi de R$ 374 bilhões, sendo R$ 253 bilhões destinados à agricultura. Deste montante, R$ 234 milhões foram para a cultura do cacau, sendo R$ 158 milhões direcionado ao Pronaf (via Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). “O total de crédito rural público para o cacau representa 0,06%. É inexpressivo, tem muito espaço para crescer”, diz Salata.

O produtor de cacau Josenildo de Jesus Souza – Foto: Ciapra

Um salto no crédito

Porém, a situação já melhorou. Em 2017, o volume de crédito do Pronaf concedido aos produtores de cacau foi de R$ 19,7 milhões – número que saltou para R$ 158 milhões no final de 2024. “Temos trabalhado com a cadeia para ampliar o acesso a crédito e impulsionar os agricultores a melhorar o manejo da lavoura, para aumento de produtividade e, consequentemente, expandir renda e qualidade de vida”, diz o coordenador do CocoaAction Brasil.

Segundo Salata, o grande gargalo para o acesso a crédito dos produtores de cacau é a falta de regularização fundiária, principalmente no Pará, e da regulamentação ambiental, na Bahia, além da falta de assistência técnica. Com estes entraves, diz ele, os agricultores não conseguem participar de políticas públicas.

De cada 100 produtores de cacau no Brasil, 85 estão à margem do sistema financeiro e 75 nunca receberam assistência técnica, de acordo com o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária). Ao mesmo tempo, cerca de 80% da produção de cacau no Brasil depende dos agricultores de pequenas propriedades. O resultado dessa combinação é baixa renda e baixa produtividade.

Não por acaso, os mecanismos de crédito alternativo têm crescido. Um deles é o Fundo de Impacto Kawá, no modelo de blended finance (financiamento misto, em inglês), que mescla recursos públicos, de fomento ou filantrópicos, ao capital privado.

Foto: Ciapra

Criado pelos Instituto Arapyaú, Violet, ONG Tabôa Fortalecimento Comunitário e MOV Investimentos, a iniciativa tem a meta de destinar R$ 1 bilhão para custeio de pequenos produtores em sistemas sustentáveis até 2030. “Identificamos que a baixa renda para as famílias continuarem a viver do cultivo é resultado da falta de recursos para fazer investimentos e da falta de uma assistência técnica”, analisa Vinicius Ahmar, gerente de Bioeconomia do Instituto Arapyaú. A Ater, inclusive, é fundamental para ajudar os produtores a resolver os problemas fundiários de regularização ambiental.

Por isso, o fundo acredita que o crédito tem que vir ao lado da assistência técnica. “Assim, o técnico agrícola ouve o produtor e pensa com ele o que pode ser feito na área para ter melhores resultados, como aumentar a renda, pagar o crédito e conseguir tomar outros, iniciando um círculo virtuoso”, diz Ahmar.

O Kawá seguirá o modelo dos dois Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) Sustentáveis para o Cacau emitidos pela Tabôa, que já beneficiaram mais de 2,8 mil pessoas. Na primeira fase, o fundo deve contemplar, com cerca de R$ 30 milhões, 1,2 mil produtores da Bahia e do Pará. Além disso, a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (Aipc) sinalizou que irá mobilizar seus associados para comprar as amêndoas dos produtores contemplados pelo Kawá.

Foto: Ana Lee / AIPC e CocoAction Brasil

Os ventos estão favoráveis ao setor. A procura por cacau, aliada aos problemas de fornecimento, fez o preço dele decolar. A tonelada da amêndoa chegou a ultrapassar US$ 12 mil em 2024 e, no fechamento desta reportagem, estava em torno de US$ 10 mil. “A hora de investir é agora, principalmente no aumento de produtividade, porque cacau é commodity. Não dá para saber até quando o preço vai ficar neste patamar”, diz Salata. “Mas, se o produtor tiver produtividade alta, quando o preço cair, ele continuará ganhando dinheiro”, acrescenta.

Holofotes para o cacau brasileiro sustentável

No final de março, foi lançada a marca Cacau Brasileiro – Gente, Floresta e Cultura. A iniciativa – feita pela Associação das Indústrias Processadoras de Cacau ao lado da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Cacau e Sistemas Agroflorestais, do Centro de Inovação do Cacau (CIC), do CocoaAction Brasil, da Federação da Agricultura do Estado da Bahia e do Instituto Arapyaú – quer promover a imagem do produto em mercados estratégicos, como Estados Unidos e países da Europa, e colocar o Brasil entre os maiores exportadores de cacau sustentável até 2030. “A marca é resultado de um movimento setorial, que visa fortalecer o cacau brasileiro, considerando aspectos que o diferenciam do restante do mundo”, diz Ricardo Gomes, gerente de Desenvolvimento Territorial do Instituto Arapyaú.

Para as entidades, o cacau brasileiro tem atributos únicos no cenário internacional. Um deles são as centenas de produtores e comunidades locais vinculadas à história do cacau, com tradição na produção do fruto. Outro atributo é a floresta, já que 80% da produção nacional vem de agroflorestas ou do sistema cabruca – modelos produtivos que preservam a biodiversidade, ajudam na resiliência climática e geram prosperidade aos agricultores. Por fim, há o elemento ligado à cultura: os cacauais fazem parte da identidade das regiões produtoras, que têm receitas e festivais atrelados ao fruto, que também é uma alavanca para o turismo.

A expansão recente do cacau também entra na conta. Nos últimos anos, as plantações de cacau têm alcançado Cerrado Baiano, Tocantins e São Paulo, regiões não tradicionais de cultivo e com projetos de larga escala, tecnologia e inovação. “Com a marca, queremos atrair, no curto prazo, investimentos para o Brasil de quem aposta no cacau com atributos de sustentabilidade e rastreabilidade para atender à demanda de abastecimento global”, explica Gomes, referindo-se à falta de amêndoas nos países africanos.

Foto: Ana Lee / AIPC e CocoAction Brasil

Hoje, o Brasil não é autossuficiente – produz cerca de 200 mil toneladas de amêndoas ao ano – e precisa importar para suprir a demanda interna. “A aposta da iniciativa é somar esforços com políticas públicas que contribuam para que o país retome o protagonismo da cadeia de valor e suprimento global do cacau”, diz Guilherme Salata, coordenador do CocoaAction Brasil.

A mobilização do setor com o Plano Inova Cacau e o lançamento da marca, entre outras ações, prepara o terreno para quando o Brasil tiver excedente de produção. Nos tempos áureos do cacau no país, o “cacau bahia superior” chegou a ter um preço diferenciado em bolsa por causa da qualidade. Mas, com o declínio a partir dos anos 1990, o Brasil perdeu o posto de produtor de cacau fino.

Desde 2019, porém, o CIC passou a organizar o Concurso Nacional de Qualidade de Cacau, com objetivo de promover a produção de cacau especial. Em 2023, o Brasil voltou a ser reconhecido pelo Conselho Internacional de Cacau (Icco) como país exportador de cacau com 100% de qualidade. “No ano passado, na 6ª edição do Cacao of Excellence (CoEx), o ‘Oscar do Cacau’, o Brasil ficou em 2o lugar, com dois produtores com medalha de ouro e um com medalha de prata”, lembra Cristiano Villela, diretor científico do CIC.

As estimativas, portanto, são animadoras. Até 2030, o Brasil tem potencial de participar com 13% do mercado global de cacau. Essa é a projeção de um relatório do Instituto AYA, que colaborou com o Plano de Transformação Ecológica do Governo Federal. Com isso, o país estaria entre os três maiores produtores do mundo, gerando US$ 2,3 bilhões em receita e ofertando até 300 mil empregos.

Texto originalmente publicado na edição #88 (junho, julho, agosto de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Lívia Andrade

Mercado

Redes de cafeterias avançam no Leste Asiático e superam 180 mil lojas em 2025

Dados do Project Café East Asia 2026, do World Coffee Portal, mostram crescimento regional de 18,4%, puxado pela China, que abriu mais de 20 mil lojas em um ano; mercado asiático deve ultrapassar 200 mil pontos de venda até 2026

Foto: 5thWave

O Projeto Café Leste Asiático 2026, análise pioneira da inglesa World Coffee Portal sobre o mercado de redes de cafeterias no Leste Asiático, revela que o mercado regional total cresceu 18,4% em número de lojas em 2025, alcançando 180.268 pontos de venda, com China, Tailândia, Indonésia, Vietnã e Filipinas registrando crescimento de dois dígitos.

Mercado chinês em disparada

O mercado chinês de redes de cafeterias cresceu 31,5% em 2025, alcançando 87.505 lojas — quase o dobro do mercado dos EUA e quase metade do total de lojas do Leste Asiático. É a primeira vez que um mercado de redes de cafeterias inaugura mais de 20 mil lojas em um ano-calendário.

O crescimento foi liderado por Luckin Coffee e Cotti Coffee, os dois maiores operadores do país, que, juntos, abriram mais de 12 mil lojas e respondem, atualmente, por 50% do mercado chinês de cafeterias.

O mercado chinês é cada vez mais influenciado por preço, promoções e descontos, com destaque para a guerra de preços de RMB 9,9 (US$ 1,40) entre Luckin e Cotti.

A ênfase em acessibilidade também impulsionou o surgimento de redes de crescimento acelerado focadas em valor, como a Lucky Cup, da Mixue, e a KCoffee, da Yum China.

Esse ambiente altamente competitivo surpreendeu muitos operadores internacionais em um mercado hoje dominado por cadeias locais. Vale destacar, por exemplo, que a antiga líder Starbucks concordou com a venda de uma participação majoritária de US$ 4 bilhões de seu negócio na China — com 8 mil lojas — para a Boyu Capital, de Hong Kong.

Inovação em bebidas

Oitenta por cento dos 4 mil frequentadores de cafeterias na China entrevistados pelo World Coffee Portal consomem café quente pelo menos uma vez por semana, sendo que 25% o fazem diariamente. Ainda assim, os operadores vêm experimentando cada vez mais cafés gelados, aromatizados e com infusão de frutas, tornando a China um laboratório único de inovação em sabores.

Matcha, açúcar de palma e coco foram os ingredientes adicionados às bebidas de café mais citados, o que reforça a tendência. O coconut latte, por exemplo, é o item mais vendido da Luckin Coffee desde seu lançamento, em 2017. Da mesma forma, a KCoffee lançou linhas ousadas, como um café americano gaseificado com vinagre preto.

Foto: 5thWave

Preferência por redes locais

Os mercados de redes de cafeterias do Leste Asiático desenvolveram identidades próprias, baseadas em tradições nacionais de café e na oferta de bebidas à base de espresso mais acessíveis.

Na China, 57% dos entrevistados preferem redes domésticas a operadores internacionais. Esse sentimento se repete em toda a região, onde cadeias locais continuam ganhando participação de mercado de marcas ocidentais. Entre os exemplos estão Jinji Jawa, na Indonésia, ZUS Coffee, na Malásia, e Pickup Coffee, nas Filipinas, que inauguraram centenas de lojas no último ano, crescendo mais rápido que concorrentes como Starbucks, Dunkin’ e Costa Coffee.

Na Tailândia, por exemplo, Café Amazon e PunThai Coffee responderam por 80% de todas as novas lojas abertas nos últimos 12 meses.

Otimismo entre líderes da região

A maioria dos líderes do setor entrevistados (71%) registrou crescimento anual de vendas, e mais de dois terços estão otimistas quanto às condições atuais de mercado. Além disso, 68% esperam melhora nas condições comerciais nos próximos 12 meses.

O World Coffee Portal projeta que o mercado de cafeterias do Leste Asiático será o primeiro do mundo a ultrapassar 200 mil lojas até o fim de 2026. Até novembro de 2030, o total deve superar 263 mil lojas, com crescimento médio anual (CAGR) de 7,9% em cinco anos.

A China deve crescer 20% em número de lojas em 2026 e 10,3% ao ano nos próximos cinco anos, alcançando mais de 142,5 mil lojas até o fim de 2030. Camboja, Indonésia, Malásia, Filipinas e Vietnã também devem registrar crescimento de dois dígitos em 2027.

Comentando os resultados do estudo, Jeffrey Young, fundador e CEO do Allegra Group, responsável pelo Project Café East Asia 2026, afirma que esse crescimento demonstra como o Leste Asiático se tornou parte “fundamental” da indústria global de café.

“A China, uma verdadeira potência, adicionou mais de 20 mil lojas em um ano, alcançando um crescimento sem precedentes e impressionante”, comenta. Segundo Young, ainda há “muito espaço” para expansão. “Esperamos que toda a região se torne o principal motor de crescimento global nas próximas décadas. Uma coisa é certa: este é um sinal de mudança, e o mercado global de café está sendo cada vez mais liderado por conceitos do Leste Asiático.”

TEXTO Fonte: World Coffee Portal (tradução da Revista Espresso) • FOTO 5thWave

Mercado

Consumo de café no Brasil cai 2,31% em 2025

Volatilidade dos preços freou o consumo per capita em 2025, mas o faturamento cresceu; a expectativa de uma safra maior em 2025/26 pode estabilizar mercado 

Por Cristiana Couto

O consumo de café torrado e moído no Brasil caiu em 2025, segundo dados divulgados nesta quinta (29) pela Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC). Entre novembro de 2024 e outubro de 2025, o volume passou de 20,85 milhões para 20,24 milhões de sacas, uma retração de 2,92% na comparação com o período anterior.

A queda reflete, sobretudo, a forte volatilidade dos preços da matéria-prima, que atingiu o varejo com atraso, mas de forma significativa. O consumo per capita de café torrado e moído recuou de 5,01 kg para 4,82 kg por habitante/ano (-3,88%)..

Faturamento cresce apesar da retração

Apesar do menor volume, o faturamento da indústria cresceu 25,6% em 2025, alcançando R$ 46,24 bilhões, impulsionado pela alta dos preços nas gôndolas. Nos últimos cinco anos, enquanto o preço do café verde subiu mais de 200%, o repasse ao consumidor ficou em torno de 116%, indicando compressão das margens da indústria.

A ABIC destacou que a escalada e a queda abrupta das cotações do café verde — especialmente entre novembro de 2024 e agosto de 2025 — dificultaram o planejamento industrial e contribuíram para o impacto no consumo. Em alguns momentos do ano, a oferta de matéria-prima chegou a níveis considerados críticos.

Solúvel avança, torrado recua

Na contramão do torrado e moído, o consumo de café solúvel cresceu 9,5% em 2025, beneficiado pela maior participação dos canéforas na matéria-prima e por preços relativamente mais competitivos. Já o consumo total de café (torrado, moído e solúvel) caiu 2,31%, para 21,4 milhões de sacas.

Expectativas da safra 2025/26 

Com boa florada e condições climáticas mais favoráveis, a expectativa da ABIC é de uma safra 2025/26 maior, o que tende a reduzir a volatilidade dos preços. No entanto, os estoques globais seguem historicamente baixos, o que limita quedas expressivas no preço ao consumidor no curto prazo. A entidade projeta recuperação gradual do consumo, apoiada em promoções pontuais e maior estabilidade do mercado.

 

TEXTO Cristiana Couto
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