Cafezal •
Por um Espírito Santo (ainda) mais sustentável
Cooperação entre produtores, empresas e instituições públicas busca posicionar o estado no mercado global dos cafés responsáveis
Por Cristiana Couto, do Espírito Santo
Das montanhas de Brejetuba, com pequenas propriedades produtoras de arábicas especiais, às áreas de conilon no norte capixaba, marcadas por escala e tecnologia, o Espírito Santo reúne uma diversidade de cafés rara de encontrar em outras origens do mundo. Apesar das diferenças, a cafeicultura capixaba enfrenta desafios comuns, como adaptar-se às mudanças climáticas e atender mercados exigentes quanto a rastreabilidade e sustentabilidade dos grãos.
Com o café cultivado em 69,7% das propriedades rurais, o segundo maior estado produtor do grão no país vem articulando empresas, instituições públicas, produtores e cooperativas para fortalecer a competitividade da cafeicultura capixaba.
Para Michel Tesch Simon, subsecretário de Desenvolvimento Rural da Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), a sustentabilidade é um dos pilares dessa agenda. “O posicionamento do Espírito Santo passa pela combinação de diversidade de origens, famílias prosperando no campo, sustentabilidade, qualidade, volume e sucessão”, afirma.
A difusão da irrigação no cultivo de arábicas é uma das apostas desse movimento. Em Brejetuba, a 750 metros de altitude, Sérgio Alexandre Corrêa viu a produtividade de um hectare de café saltar de 40 para 78 sacas por hectare no primeiro ano após a implantação de um sistema fertirrigado. Na safra 2026/27, recém-colhida, foram 80 sacas/ha – mais do que o dobro da registrada nas áreas não irrigadas da propriedade e da produtividade média do arábica capixaba, de 35 sacas/ha, segundo a Conab.
A tecnologia chegou ao Sítio Fazenda Corrêa em 2024, depois que estiagens sucessivas comprometeram a produção. “Até 2020 o clima era mais favorável. Depois vieram quatro anos de seca e resolvemos passar para a irrigação”, diz Corrêa. Ele já ampliou a área irrigada para 14 hectares e pretende levar o sistema para toda a lavoura.
Segundo Fabiano Tristão Alixandre, coordenador estadual de cafeicultura do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), a irrigação de cafés arábica acontece em apenas 2% da área de cultivo da espécie, que ocupa 127,5 mil hectares no estado (Conab, 2026). Historicamente, as regiões de montanha tinham chuvas regulares e temperaturas amenas. “O produtor não via necessidade de irrigar. Mas, nos últimos anos, observamos chuvas irregulares e temperaturas acima da média durante o desenvolvimento dos frutos, o que tem provocado perdas”, explica.
Pacote tecnológico
Lançado pela Seag em 2024, o projeto Cafeicultura Sustentável, que incentiva o avanço da irrigação em áreas vulneráveis de arábica, é a principal iniciativa do estado para posicionar os grãos capixabas no mercado global. Com investimento de R$ 4,9 milhões até março de 2027, o projeto – que integra o Programa de Desenvolvimento Sustentável da Cafeicultura do Espírito Santo e é executado pelo Incaper – já alcançou 6 mil propriedades das 8 mil esperadas. Já a expectativa do programa é alcançar 35 mil delas até 2030.
Os resultados da iniciativa na propriedade de Corrêa já começaram a se espalhar pela região. “Quase toda semana vem alguém para conhecer o projeto”, diz o produtor. Segundo Tristão, pelo menos dez cafeicultores implantaram sistemas de irrigação como o do Sítio Fazenda Corrêa, selecionado pelo Incaper como uma unidade demonstrativa da tecnologia, que funciona como vitrine da prática para incentivar sua adoção.
O modelo já está sendo replicado em dez outras unidades, instaladas em áreas abaixo de 800 metros de altitude, mais vulneráveis a essas mudanças do clima, nas Montanhas do Espírito Santo e no Caparaó.
Além do aumento de produtividade, Corrêa observou ganhos na qualidade do café. “Estou conseguindo obter peneiras melhores. O café fica mais graúdo”, relata. Mas o desempenho dessa lavoura não está associado apenas à irrigação – cujo projeto é personalizado –, mas também a escolha da cultivar, manejo nutricional e acompanhamento técnico. “Não é só irrigação, é um pacote tecnológico”, reforça.
Sustentabilidade na embalagem
A agenda da sustentabilidade também começa a ganhar espaço na valorização das origens capixabas. Nas Montanhas do Espírito Santo, a Associação dos Produtores de Café Especial das Montanhas do Espírito Santo (Acemes) quer destacar que há critérios socioambientais na produção de café nos 16 municípios que compõem a denominação de origem.
Para receber o selo da DO, os produtores comprovam, além da qualidade e origem do grão, o cumprimento de requisitos de sustentabilidade, avaliados por meio do Currículo de Sustentabilidade do Café (CSC), adotado pelo Cafeicultura Sustentável como base para suas ações. Lançado em 2015 e elaborado com a participação de vários segmentos do setor, o CSC alinha-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU) e reúne 39 indicadores distribuídos entre os eixos ambiental, social e econômico.
Thiago Douro, diretor da Acemes, diz que a ideia é associar a reputação sensorial dos cafés das Montanhas às boas práticas adotadas pelos produtores. “A gente entendeu que não bastava vender apenas qualidade. As Montanhas do Espírito Santo têm uma história ligada à preservação ambiental e queríamos que isso também estivesse refletido na certificação.” Os primeiros selos foram emitidos em maio. Por meio de um QR Code impresso no selo colado à embalagem, os compradores acessam informações sobre aquele lote na plataforma Origem Controlada Café, lançada em 2024 na SIC e que faz a rastreabilidade de cafés com indicação geográfica. “A gente tem um potencial de quase oito mil cafeicultores”, calcula Douro.
Uma propriedade-modelo
Se o selo das Montanhas busca comunicar atributos socioambientais dos grãos, em propriedades como a de Joselino Menegueti esses critérios fazem parte da rotina há anos. Em Brejetuba, a 1.100 m de altitude, o produtor alcançou este ano 95,3 pontos no CSC, o que coloca o Sítio Rancho Dantas entre as referências em sustentabilidade da denominação de origem.
Essa conquista é fruto de uma trajetória iniciada em 2007, quando Menegueti teve dificuldades em manter a lavoura, de baixa produtividade. Com apoio técnico do Incaper, ele renovou os cafezais e apostou em qualidade. Em 2010, começou a conquistar prêmios em concursos. Hoje em dia, o produtor torra e vende on-line o seu café.
Entre os indicadores do currículo que foram cumpridos estão a proteção de nascentes, a conservação das áreas de preservação permanente, a destinação adequada de resíduos e a sucessão familiar. “O trabalho familiar foi o mais importante. A gente se reuniu, buscou uma renda sustentável e a tecnologia veio ajudando”, resume o produtor.
Outro destaque é o manejo e conservação do solo. Em vez de eliminar a vegetação espontânea, Menegueti passou a roçá-la com cuidado e regularmente a fim de proteger o terreno contra erosão, conservar a umidade e favorecer a ciclagem de nutrientes. “Antigamente, o mato era visto como inimigo número um”, lembra.
Agora, o Rancho Sítio Dantas é uma das primeiras unidades de referência em cafeicultura regenerativa implantadas no estado em parceria com a Plataforma Global do Café (GCP). O trabalho, que começou este ano, cruza a avaliação da microbiota do solo com análises químicas e de matéria orgânica. A partir daí, surge um índice de saúde do solo.
Para Tristão, a propriedade de Menegueti mostra que sustentabilidade não depende de uma única tecnologia. “É o conjunto: variedade adaptada, nutrição equilibrada, conservação do solo e troca de conhecimento”, afirma. “O Joselino sempre manteve as portas abertas para compartilhar o que aprende, e isso ajuda a difundir essas práticas para outros produtores da região.”
Qualidade em escala
Se nas Montanhas do Espírito Santo a sustentabilidade exige práticas como irrigação, nas regiões produtoras de conilon os desafios têm outra dimensão. Maior produtor brasileiro da variedade – a estimativa da Conab para esta safra é de 13,56 milhões de sacas –, o Espírito Santo busca combinar escala ao aumento de qualidade, especialmente no pós-colheita.
Uma das iniciativas é a substituição gradual da lenha por gás natural nos secadores de café. Desenvolvido em parceria entre a ES Gás e o Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV), o projeto-piloto de secadores a gás está sendo testado nesta safra no município de Linhares, no norte capixaba, para validar a tecnologia. O principal objetivo é reduzir a emissão de fumaça na secagem do grão, um grande desafio na produção do conilon em larga escala no estado. A secagem a gás de cafés também permite controle térmico, que pode melhorar a qualidade da bebida além de oferecer mais segurança aos trabalhadores.
“O pós-colheita é o principal gargalo das propriedades. Perdemos mais de 10% em peso do grão só na secagem”, explica Aldemar Polonini Moreli, coordenador do Coffee Design, centro de pesquisa, desenvolvimento e transferência de tecnologias em café do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes). Segundo ele, um levantamento em 890 propriedades mostrou que 21% dos produtores têm estrutura própria de secagem – o restante depende de terceiros para concluir o processo.
Confiante na tecnologia, Bruno Pessotti, um dos diretores da Frutmel, uma das maiores exportadoras de mamão do país, decidiu converter 11 dos seus 17 secadores de café para gás natural. Com mais de mil hectares de conilon plantados em 16 propriedades entre Linhares e outros quatro municípios, ele espera colher 60 mil sacas nesta safra. A meta é secar 70% desse volume com os novos secadores.
A decisão surgiu em 2025, quando, depois de investir em certificações, vendeu 56% da sua produção para multinacionais. “Para participarmos hoje de um comércio melhor, temos que ter certificações. Além disso, a demanda atual da indústria é por conilon sem defeitos”, acredita Pessotti.
Há trinta anos convivendo com café, Pessotti avalia que o avanço do conilon capixaba nas duas últimas décadas concentrou-se no campo – com novos clones, manejo hídrico, tratos culturais (como a poda) e formação acadêmica de jovens cafeicultores –, e que o pós-colheita não acompanhou essa evolução. “A preocupação era aumentar a potência dos ventiladores e a temperatura dos secadores. Pouco se discutia o que acontecia com o produto”, diz.
Sua aposta no sistema a gás é o controle de temperatura. “Com lenha, você tem picos e quedas de temperatura, de 150°C a 400°C”, explica Pessotti. Sua expectativa é começar a secar os grãos em temperaturas mais baixas e elevar gradualmente o calor, para reduzir danos e ganhar uniformidade e qualidade nos lotes.
Para Michel Tesch Simon, iniciativas como a de Pessotti têm potencial para acelerar transformações na cafeicultura capixaba, já que produtores de grande porte levam pouco tempo para incorporar novas tecnologias. “A gente vai ter volume de conilon de qualidade no mercado rapidamente, enquanto os pequenos produtores vão se adequando gradualmente.”
“Hoje exige-se do produtor rural habilidade e estratégia não só para produzir, mas também comercializar. Tenho certeza de que 2026 será um marco para o conilon”, acredita Pessotti.
Sobre cafés e árvores
Parte da transformação da cafeicultura capixaba também nasce na troca de conhecimento entre gerações de produtores. Em Santa Teresa, Luis Carlos da Silva Gomes decidiu reduzir pela metade a área cultivada da Fazenda São Bento para investir em recuperação ambiental.
Dos 84 hectares com plantas de arábica e conilon, 12 já foram reflorestados e o restante vem seguindo o mesmo destino, em parceria com a Samarco Mineração. A iniciativa, conduzida pela filha Carolinna Bridi Gomes, começou em 2015 por conta da escassez hídrica típica das áreas de topo de morro, onde fica a fazenda, aliada à busca por um sistema produtivo mais resiliente.
Mas houve resistência de Gomes no início. “Eu discutia com meu pai o fato de produzir um bom café num ambiente ruim. E a frustração de ter um bom produto no mercado e ele não ser aceito por isso”, conta Carolinna.
O resultado já aparece no campo, com aumento de 25% na produtividade das áreas remanescentes – auxiliado pelo uso de biofertilizantes e bioinseticidas – e recuperação de nascentes. Gomes acredita que esse percentual aumentará com a renovação de lavouras que vem sendo feitas, já com irrigação.
E não é só o investimento na recuperação ambiental que torna a Fazenda São Bento exemplar. Em 1999, Gomes já olhava para a qualidade do conilon como valor. Em 2010, produziu as primeiras 100 sacas descascadas da variedade. “Foi por nossa conta e risco. Não existia mercado para isso”, lembra.
Pouco depois, liderou um grupo de produtores que exportou 1,6 mil sacas de conilon especial para a Rússia. Hoje, ele acredita que as duas estratégias caminham juntas. “Quem paga mais olha tudo isso: como você produz, como está o solo e como vivem as pessoas envolvidas no processo. O conilon também tem que ir por esse caminho”, afirma.
A Fazenda Camocim é outra referência em boas práticas, quando o termo sustentabilidade nem existia nos manuais ambientais. Em Domingos Martins, o cearense Olivar de Araújo, um dos conselheiros da Aracruz Celulose, começou a plantar árvores e proteger as sete nascentes locais depois de comprar a fazenda, em 1962. O café chegou três décadas depois, quando o negócio da madeira começou a dar prejuízo.
Mundialmente conhecida pelo café jacu, produzido a partir dos frutos digeridos pela ave nativa da Mata Atlântica, a Camocim entrega cafés de alta qualidade em sistema agroflorestal, de forma orgânica e biodinâmica. Isso rendeu à Camocim, entre outras certificações, um selo internacional de práticas regenerativas – o primeiro para café no Brasil, concedido pela norte-americana Regenerative Organic Alliance em 2024.
Com o tempo, as práticas responsáveis ajudaram a aumentar a população de jacu. “Às vezes, vemos duzentos deles. Alguns a gente já conhece, porque moram aqui”, conta Henrique Sloper, neto de Araújo e administrador do negócio. Variedades abandonadas, como a catucaí açu, também foram recuperadas. “É uma planta fraca de produção, porém de qualidade espetacular. Toda a região tem catucaí açu vindo da Camocim”, orgulha-se ele, que dissemina as práticas de agricultura regenerativa entre os produtores da região nas várias reuniões que promove na fazenda. “A regeneração está aqui desde o começo”, resume.
Texto originalmente publicado na edição #92 (junho, julho e agosto de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.
























