Cacau •
Muito além do chocolate
Iniciativas que miram o aproveitamento total do cacau apostam em inovação, sustentabilidade e mais sabor à mesa
Por Beatriz Marques
Durante a Fruit Attraction, uma das maiores feiras de fruticultura do mundo, realizada na capital espanhola em outubro deste ano, frequentadores ficaram curiosos ao passar pelo estande da empresa Sebastião da Manga, do Vale do Rio São Francisco.
Expostos improvisadamente em caixas de papelão para armazenar mangas, vários cacaus avermelhados e vistosos, semiembrulhados em papel de seda, causavam surpresa quando cortados ao meio para expor suas amêndoas, unidas pela polpa suculenta e esbranquiçada. “Foi difícil conseguir levar o cacau para lá: primeiro, ele ficou retido em Portugal, depois, na Espanha e até na porta da feira, pois ninguém o conhecia”, revela Luis Fernando Campeche, engenheiro agrônomo e sócio da Novo Sol Agrícola, outra importante empresa produtora de frutas irrigadas no Vale do São Francisco, responsável por conseguir que o cacau in natura pudesse ser apreciado no evento.
Por mais que o chocolate seja popular em todo o mundo e seu consumo continue a aumentar a passos largos, o mesmo não pode ser dito do seu ingrediente de origem, um verdadeiro desconhecido não só por estrangeiros como por muitos brasileiros que, além de nunca tê-lo provado diretamente da fonte, também não imaginam o potencial que ele tem a revelar.
Afinal, a parte da qual nasce o chocolate representa muito pouco da fruta inteira. “As amêndoas são somente 8% do cacau”, explica José Raul dos Santos Guimarães, superintendente regional dos estados do Pará e Amazonas da Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), órgão ligado ao Ministério da Agricultura e Pecuária para promover o desenvolvimento sustentável e a pesquisa no setor cacaueiro no Brasil.
Estimulando a bioeconomia
Aprimorar as formas de uso do produto, de modo a complementar a renda dos produtores, está entre os principais objetivos da equipe à frente da Ceplac na região, que também atua no combate a doenças, como a vassoura-de-bruxa, e na promoção do cultivo em sistemas agroflorestais.
“A bioeconomia do cacau é algo bem amplo, que perpassa a produção de amêndoa seca. Estamos falando de um aproveitamento integrado e sustentável dos recursos gerados na unidade de produção de cacau”, diz Santos, sobre a diversificação da atividade produtiva para agregar valor e ampliar a renda dos agricultores, promovendo maior sustentabilidade no campo.
Os produtos mais acessíveis à realidade das famílias locais são a polpa e o mel do cacau. O primeiro, extraído por uma despolpadeira, e o segundo, com uma prensa, transformam-se na base de licores, geleias, caldas, coquetéis, sucos e até molhos de pratos salgados. “De cada mil quilos de amêndoa fermentada e seca que o produtor vende, ele conseguiria aproveitar entre 450 e 500 litros de mel de cacau”, diz José Janilson do Socorro, agente de atividades agropecuárias da Ceplac.
Para extrair o mel do cacau, a prensagem é feita logo após a colheita e mantém a integridade das amêndoas, que podem ser beneficiadas como de costume. “Só é preciso pegar uma parte do cacau sem tirar nem mel e nem polpa e misturar às amêndoas restantes, para não prejudicar o processo de fermentação”, explica Socorro, que auxilia em projetos para montar minifábricas a interessados na região. “Não é tão caro quanto os equipamentos para a elaboração do chocolate, mas ainda tem pouca gente fazendo”, conta o agente. “Com 35 mil reais, é possível adquirir esses outros equipamentos, como prensa e freezer”, completa.
Além da capacitação continuada de técnicos, a Ceplac treina famílias de agricultores – que representam 95% dos cerca de 33 mil produtores do Pará – para essas novas expertises. E o interesse pelo aprendizado, em sua maioria, parte das mulheres. “Somos muito demandados para essas capacitações e o público predominante é do gênero feminino, que tem forte presença nas propriedades”, revela Santos, que almeja empoderar cada vez mais os agricultores de toda a riqueza gerada pela economia do cacau. “Na cadeia de valor do chocolate, o produtor se apropria de apenas 6%. Olha que triste!”, lamenta o superintendente regional da Ceplac.
Do mel ao vinagre
Quem já tem explorado a versatilidade do fruto é a Mais do Cacau, fundada em 2018 e que, hoje em dia, já acumula 20 produtos alimentícios – com cacau de Ilhéus, no sul da Bahia – distribuídos em todo o país. “Nossa missão é criar produtos inovadores que vão muito além do chocolate tradicional, sempre com sustentabilidade, foco no aumento da rentabilidade, ecologicamente e socialmente corretos”, diz José Eduardo Amorim, um dos sócios.
MAIS DO CACAU?
Vinagre, mel, melato (mel de cacau reduzido), amêndoas e nibs caramelizados e a “cauchaça”, aguardente de cacau com 42% de teor alcoólico, são os destaques da marca, que tem como clientes restaurantes, bares e hotéis, além de consumidores finais, com vendas pelo site da marca. “O [preço do] cacau subiu 190% em dois anos, criando desafios, mas, também, oportunidades para produtos de valor agregado”, opina Amorim.
O mel de cacau, aliás, também foi novidade na Dengo Chocolates quando lançado em 2018, e hoje é vendido nas lojas da marca no Brasil e na França. Feito na Bahia pelos produtores Du Kakau e Agrícola Condurú, o mel é pasteurizado e tem adição de conservante, para que ganhe mais tempo de prateleira. Além de envasado, o líquido – de sabor frutado, doce e levemente ácido – faz parte de drinques preparados na loja Fábrica de Dengo na Faria Lima, capital paulista.
Além destes produtos do cacau, a Dengo também elabora os gins Cacau, feito com extratos vegetais de zimbro, nibs de cacau e semente de coentro, e o Piranga, com zimbro, nibs de cacau, pitanga e limão. “O gim com cacau foi uma ideia da Dengo para ter outras formas de usar o cacau em bebidas”, conta Luciana Lobo, chocolatière da marca. “Então, buscamos um parceiro, a Draco Gin House, que usa nossos nibs de cacau no processo”, completa. O desejo de aumentar o portfólio neste segmento continua firme. “Nós estamos cada vez mais trabalhando para que isso se concretize”, afirma Andresa Silva, gerente-executiva de redes da Dengo.
Inovação
Ainda há muito a ser explorado entre as possibilidades do cacau, e a inovação tem sido uma constante no setor. Um exemplo é a norte-americana Blue Stripes, que faz o aproveitamento total do fruto, originário do Equador, em mel (chamado de “água”), gomas, mix de nuts, granola, amêndoas de cacau cobertas de chocolate e de creme de avelã, posicionando o fruto como “superalimento”.
A empresa, inaugurada há três anos, vende seus produtos em todas as lojas da Whole Foods e registra mais de 10 milhões de dólares em vendas anuais no varejo.
No Brasil, o cacau tem cada vez mais se inspirado no café para trilhar novos caminhos. O Centro de Inovação do Cacau (CIC), em Ilhéus, na Bahia, está de olho no fruto do cacaueiro como um alimento funcional e pesquisa suas qualidades para desenvolver um produto pré-treino. “A gente tem desenvolvido produtos e inovações olhando muito para o que o café já vivenciou”, revela Cristiano Villela, diretor científico do CIC. A atenção maior está no flavonóide epicatequina, presente no fruto. “É um dos mais potentes antioxidantes que existem na natureza, e ele é abundante no cacau.”
A Maré Chocolates também vê o cacau como um superalimento. A marca de chocolate orgânico usa 100% do cacau, extraindo as cascas das amêndoas (depois de torradas) para elaborar com elas uma infusão rica em teobromina, um alcalóide de efeito levemente estimulante. “Geralmente, nas grandes indústrias, essas cascas são trituradas com as amêndoas, o que deixa um amargor no chocolate. Nós usamos um maquinário que permite essa separação e que mantém as cascas mais íntegras para a infusão”, explica Maruska Gemelli, sócia da Maré, que hoje adquire cacau de produtores de Cachoeiras de Macacu, na serra fluminense.
O mesmo potencial é explorado pela paulistana Chocolat Du Jour ao começar a produzir chocolates bean-to-bar. “Incorporamos o processo de descascar a amêndoa do cacau e percebemos que tinha perda de um ingrediente que poderia ter alguma utilização. Quando sentimos o aroma do cacau, que é maravilhoso, durante o processo de fabricação do chocolate, não nos conformamos com o desperdício”, relembra a sócia Patrícia Landmann. Ao lado de Carla Saueressig, uma das maiores especialistas em chás no Brasil, desenvolveram o Choco Chá, uma infusão das amêndoas dos nibs com a casca, que também é oferecido em versão com especiarias. “Ele é rico em antioxidantes e tem todas as propriedades do cacau que fazem bem para a saúde”, completa Patrícia.
Cascas do fruto
Não só de amêndoas, polpa e mel é feito o cacau. A grossa casca vistosa também pode ter melhor destino que o descarte. “Ela pode ser triturada para compostagem ou utilizada para produção de biogás, biofertilizante, ração animal. Mas esse aproveitamento da casca ainda é pouco explorado aqui”, revela Santos.
Para evitar que a casca seja um problema para o produtor, o CIC busca usá-la como meio de cultura para fungos benéficos, como o Trichoderma, para combater outros fungos que causam doenças, como a vassoura-de-bruxa. “Queremos transformar um problema numa solução amigável”, diz Villela.
Em grandes fazendas, onde o volume de cacau produzido é bem maior, as cascas já entram em um processo mecanizado. Segundo o diretor da CIC essas fazendas desenvolveram máquinas que, conforme passam pela área de colheita recolhendo o cacau para a quebra automática do fruto, já trituram as cascas e as espalham como adubo. “Só que isso é um uso pouco nobre da casca, pelo potencial que ela tem”, opina.
In natura
O que poderia parecer óbvio, mas ainda é pouco explorado, é a venda da fruta in natura. A demonstração do cacau no Fruit Attraction foi um bom termômetro para verificar a curiosidade do público estrangeiro em relação à origem do chocolate e as possibilidades de um consumo mais amplo do cacau. “A gente tem variedades na Bahia, como a salobrinho 03, que tem sabor espetacular”, opina Villela. “A Fazenda Cantagalo [em Itabuna, sul da Bahia] tem algumas seleções para fruticultura. É um mundo ainda inexplorado e com potencial gigante”, atesta.
Campeche, da Novo Sol Agrícola, já está de olho nesse futuro promissor e iniciou o plantio de cacaueiros para, daqui a dois anos, colher os frutos desta aposta. Assim como as uvas no Vale do Rio São Francisco, o cacau tem irrigação controlada e é cultivado com outras espécies – no caso da Novo Sol, o mamoeiro apoia o sombreamento do cacau e ainda gera renda com a venda dos frutos. “Já temos a cadeia da fruticultura bem definida e estamos bem avançados na comercialização de frutos de qualidade. Do jeito que estamos propondo o cultivo do cacau, com padrão, rastreabilidade, cultivo ambientalmente correto e selos de qualidade, conseguiremos avançar na sua exportação”, explica Villela.
Para tal, é preciso entender as particularidades da venda in natura. Em um cultivo commodity, ou seja, focado na comercialização das amêndoas, não há cuidado com a apresentação da casca, por exemplo. “Terei de colher de forma diferenciada, não posso jogar no chão para não amassar a casca, que perde valor comercial, e fazer uma seleção de tamanho, que conta na padronização. Por isso, a remuneração do produtor também terá de ser diferente”, detalha Campeche. Outro desafio é o shelf life do cacau que, diferentemente de frutas que podem ser colhidas verdes para depois amadurecerem, não evolui depois de retirada do pé. “Ainda estamos estudando qual seria seu tempo de vida pós-colheita e como conservá-lo”, informa o engenheiro agrônomo, sobre a conservação do fruto por baixa temperatura ou com revestimento de cera (aplicação de fina camada de cera comestível sobre a casca).
Tais diretrizes, sem dúvida, podem transformar o cacau em um produto de luxo. “É um caminho desconhecido, mas achamos que vai dar certo”, acredita Campeche.





























