Cafezal

A resiliência do robusta ao calor não é um “mito da internet”

Em artigo exclusivo para a Espresso, Fábio DaMatta contesta conclusões de estudo internacional e afirma que genética, manejo e resultados obtidos no Brasil demonstram a capacidade dos robustas de produzir sob temperaturas elevadas

Por Fábio M. DaMatta (colaborou Guilherme Messias Duarte)

Classificar a resiliência climática do café robusta como um “mito da internet”, como fez o botânico inglês Aaron Davis em entrevista recente à Reuters após a publicação de seu artigo científico sobre o tema e sua difusão em veículos de comunicação, é uma generalização que precisa ser contestada. 

O estudo por ele liderado (Davis et al., 2026) tem inúmeros méritos ao apontar riscos associados à escassez de água, à expansão sem planejamento e às limitações dos modelos de previsão. Concordamos com esses alertas. Eles, contudo, não sustentam uma desqualificação ampla da capacidade dos robustas de produzir em ambientes quentes. Nesse aspecto, a realidade da cafeicultura brasileira, particularmente a de Rondônia, oferece um contraponto que não recebeu a devida atenção.

Tolerância ao calor e tolerância à seca são características distintas. Um cafeeiro pode produzir muito bem sob temperaturas relativamente elevadas quando dispõe de água e, ao mesmo tempo, ser vulnerável à falta dela. Usar essa vulnerabilidade para colocar em dúvida sua resiliência ao calor mistura duas questões diferentes e transmite ao público uma interpretação equivocada.

A realidade de Rondônia é bastante clara a esse respeito. Em várias regiões do estado, lavouras bem manejadas ultrapassam 100 sacas por hectare, mesmo sob temperaturas médias anuais superiores a 25°C. Em condições experimentais, há registros de médias superiores a 200 sacas por hectare ao longo de três colheitas. São plantas que florescem, frutificam e produzem abundantemente em ambientes quentes.

Dados medidos em uma propriedade localizada em Nova Brasilândia d’Oeste, uma das principais regiões produtoras de café robusta em Rondônia, ilustram essa realidade. Nos anos agrícolas de 2023/2024 e 2024/2025, as temperaturas médias anuais ficaram em torno de 28°C, muito acima da média histórica regional, situada entre 25 e 26 °C. 

Mesmo sob esse calor, as produtividades alcançaram 120 e 115 sacas por hectare, respectivamente (Tabela 1 abaixo). O resultado de 2023/2024 é particularmente expressivo, pois foi obtido apesar da ocorrência, em 2024, de uma seca severa para os padrões rondonienses, com praticamente quatro meses sem chuvas, entre maio e setembro.

Tabela 1. Médias anuais das temperaturas máximas, médias e mínimas, precipitação acumulada e produtividade de lavouras de cafés robustas em Nova Brasilândia d’Oeste, Rondônia, durante quatro anos agrícolas, de junho a maio.

Ano agrícola Temp. máxima (°C) Temp. média (°C) Temp. mínima (°C) Precipitação (mm) Produtividade (sc/ha)
2021/2022 33,5 26,1 18,6 1.965 95
2022/2023 32,9 25,6 18,9 2.602 132
2023/2024 36,8 28,1 20,4 2.145 120
2024/2025 36,5 28,0 20,7 1.693 115

Esses dados não demonstram que o calor seja inofensivo ou que temperaturas médias próximas de 28°C sejam ótimas para todos os materiais. Tampouco permitem concluir que não tenha havido perda de produtividade causada pelo calor ou pela seca. 

Demonstram, entretanto, que genótipos selecionados de Coffea canephora podem florescer, frutificar e sustentar produtividades muito elevadas nessas condições. Isso contraria a generalização de que temperaturas médias anuais superiores a 25°C seriam necessariamente deletérias à floração e à frutificação dos robustas, conforme sugeriu Davis. Uma avaliação sobre os limites térmicos da espécie precisa explicar essa realidade, em vez de formular conclusões que não a acomodam.

Ao não atribuir o devido peso a resultados como esses, Davis parece desconhecer aspectos fundamentais da cafeicultura brasileira contemporânea, especialmente os avanços obtidos na seleção de materiais genéticos e no manejo das lavouras. A questão não é desconsiderar sua contribuição científica, mas questionar a abrangência de conclusões que não refletem adequadamente a experiência de um dos maiores produtores mundiais de C. canephora.

O mesmo problema aparece na interpretação da temperatura presumivelmente ótima, próxima de 20,5°C, estimada a partir de condições asiáticas. Em experimentos conduzidos em regiões brasileiras de maior altitude, com temperaturas médias anuais em torno de 20°C, muitos clones de C. canephora apresentam crescimento vegetativo vigoroso, mas produzem muito pouco. Alguns genótipos produzem relativamente bem, porém, são minoria (Partelli et al., 2019). Para a maioria dos materiais avaliados nessas condições, portanto, temperaturas mais baixas não se traduzem em maior produtividade. Uma estimativa regional não deveria ser transformada em referência universal sem considerar a origem e a identidade dos materiais genéticos cultivados.

Essas diferenças de comportamento remetem à ampla diversidade genética de C. canephora, espécie alógama que reúne os cafés conhecidos como conilon e robusta, além de numerosos híbridos entre esses grupos. Há diferenças expressivas entre genótipos quanto à produtividade e às respostas ao calor e à seca. Embora os autores reconheçam essa variabilidade intraespecífica, não lhe atribuem o devido peso em suas conclusões. Não basta reconhecer a diversidade ao longo do artigo se, ao final dele, limitações observadas em determinados materiais e ambientes são generalizadas para toda a espécie.

Também é inadequado utilizar as condições encontradas no habitat natural africano como se elas estabelecessem os limites dos materiais atualmente cultivados. A origem florestal da espécie e sua ocorrência natural em ambientes com temperaturas médias geralmente inferiores a 25°C ajudam a compreender sua biologia, mas não encerram sua história. 

Ao longo do processo de domesticação, pesquisadores e produtores selecionaram materiais capazes de se destacar a pleno sol e sob temperaturas mais elevadas. A cafeicultura brasileira contemporânea é resultado desse processo contínuo de seleção, combinado com grandes avanços no manejo.

As generalizações sobre o sistema radicular merecem cuidado semelhante. A concentração de grande parte das raízes nas camadas superficiais não significa incapacidade de explorar camadas mais profundas do solo. Em solos com acidez corrigida e sem impedimentos físicos ao crescimento, observa-se um desenvolvimento muito profuso de raízes até a profundidade avaliada de 1,20 m (DaMatta et al., 2025). É provável que quantidades consideráveis de raízes também ocorram abaixo dessa camada. O desenvolvimento radicular depende do genótipo e, em grande medida, das condições físicas e químicas do solo, não podendo ser tratado como uma limitação fixa e uniforme de todos os robustas.

Quanto à água, o contraste entre as regiões brasileiras é especialmente esclarecedor. No Espírito Santo, principal produtor brasileiro de conilon, a produção é altamente dependente de irrigação, embora as temperaturas médias anuais nas principais regiões produtoras girem em torno de 24°C. Em Rondônia e em outros estados amazônicos nos quais o cultivo vem se expandindo, temperaturas médias anuais superiores a 27°C são compatíveis com produtividades muito elevadas.

Rondônia recebe, geralmente, entre 1.400 e 2.400 mm de chuva por ano, mas apresenta uma estação seca de aproximadamente quatro meses. Uma precipitação anual elevada não garante água em quantidade suficiente durante todas as fases do ciclo produtivo. Por isso, a irrigação continua sendo importante para assegurar altas produtividades. Sua necessidade depende da distribuição das chuvas, da capacidade do solo de armazenar água, da demanda atmosférica e da própria demanda da lavoura. Não constitui, por si só, evidência de intolerância ao calor.

Há uma premissa fisiológica elementar que precisa ser considerada nessa discussão: altas produtividades exigem suprimento de água elevado porque, para incorporar CO₂ pela fotossíntese, a planta inevitavelmente perde água. Os estômatos permitem simultaneamente a entrada de CO₂ e a saída de vapor de água. Em termos simples, a planta troca água por CO₂, do qual retira o carbono utilizado na formação de folhas, caules, raízes e frutos. Essa troca pode ocorrer com maior ou menor eficiência, mas não pode ser eliminada. Quanto maior a produção de biomassa e de frutos, maior tende a ser o consumo de água. Isso não é uma deficiência particular dos robustas, mas uma condição fisiológica comum às plantas terrestres.

É necessário, portanto, distinguir a demanda hídrica associada à produção do desperdício causado por uma irrigação mal dimensionada ou mal manejada. Uma lavoura muito produtiva pode utilizar mais água por hectare e, ainda assim, produzir mais café por unidade de água consumida. Avaliar apenas o volume aplicado, sem considerar a produtividade obtida, fornece uma visão incompleta da eficiência e da sustentabilidade do sistema. Evidentemente, essa eficiência deve ser conciliada com a disponibilidade hídrica da região e com a preservação dos recursos naturais.

Essa distinção é particularmente relevante no contexto das mudanças climáticas. Onde existem recursos hídricos e infraestrutura adequados, os efeitos da irregularidade das chuvas e dos períodos de seca podem ser parcialmente compensados com irrigação eficiente, armazenamento de água e manejo responsável do solo. A disponibilidade de água não é simples nem ilimitada, mas pode, em determinadas condições, ser manejada.

O aumento da temperatura é um desafio muito mais difícil de controlar no campo. Seus efeitos podem ser atenuados pela escolha de genótipos, pela arborização e pelo manejo da cultura, mas o produtor não consegue controlar a temperatura do ar em uma lavoura. Por isso, a capacidade de materiais selecionados produzirem sob temperaturas elevadas representa uma vantagem adaptativa especialmente relevante. A vulnerabilidade dos robustas à seca não elimina sua resiliência relativa ao aquecimento, principalmente porque o suprimento de água é, em muitos contextos, mais manejável do que o calor.

Essa discussão revela outra limitação na abordagem de Davis. Ao enfatizar a sustentabilidade ambiental, o autor parece relegar a segundo plano uma de suas dimensões essenciais: a sustentabilidade econômica e social do produtor. Sustentabilidade não se resume a reduzir o uso de água, fertilizantes ou outros insumos. Para que uma atividade agrícola seja verdadeiramente sustentável, ela também precisa gerar renda, remunerar o trabalho e permitir que o produtor permaneça no campo com condições dignas de vida.

Essa questão é particularmente importante para os pequenos produtores, que constituem parte expressiva da cafeicultura de C. canephora. Eles não cultivam café apenas para conservar recursos naturais, embora essa conservação seja indispensável. Cultivam-no para sustentar suas famílias. Sem produtividade e renda, não há permanência no campo, capacidade de investimento ou adoção duradoura de práticas ambientalmente responsáveis. Uma proposta de sustentabilidade que não incorpore a viabilidade econômica do sistema corre o risco de ser ambientalmente desejável no discurso, mas socialmente inviável na prática.

Os alertas apresentados no estudo permanecem pertinentes. A expansão da cafeicultura deve estar vinculada ao planejamento hídrico, à conservação do solo, ao armazenamento de água e à irrigação eficiente. A busca por produtividade não justifica o desperdício nem o uso de água acima da capacidade das bacias hidrográficas. Da mesma forma, nenhuma tolerância ao calor torna uma lavoura independente desses cuidados. Mas reconhecer tais exigências não autoriza descartar a contribuição dos robustas à adaptação da cafeicultura, nem ignorar que produtividade e renda também integram o conceito de sustentabilidade.

O robusta não oferece uma garantia universal contra as mudanças climáticas. Nenhuma espécie cultivada oferece. Materiais selecionados, contudo, já demonstram capacidade de sustentar produtividades muito elevadas em ambientes quentes. A dimensão dessa contribuição dependerá do genótipo, do ambiente e do manejo, inclusive da disponibilidade sustentável de água.

Questionar promessas exageradas é necessário. Generalizar as vulnerabilidades da espécie, sem dar o devido peso à diversidade genética, aos avanços do manejo e à realidade da cafeicultura brasileira, também é um exagero. A resiliência dos robustas ao calor tem limites e condições. Tratá-la como um mito não esclarece o debate: obscurece uma capacidade demonstrada nas lavouras brasileiras, que o estudo liderado por Aaron Davis não considera com o devido peso em suas conclusões.

Fábio M. DaMatta é Professor Titular de fisiologia vegetal na Universidade Federal de Viçosa (MG). fdamatta@ufv.br

Guilherme Messias Duarte é consultor agronômico e proprietário da GT Agro Pesquisa e Consultoria

TEXTO Fábio DaMatta

Cacau

Muito além do chocolate

Iniciativas que miram o aproveitamento total do cacau apostam em inovação, sustentabilidade e mais sabor à mesa

Foto: Unsplash/Barder

Por Beatriz Marques

Durante a Fruit Attraction, uma das maiores feiras de fruticultura do mundo, realizada na capital espanhola em outubro deste ano, frequentadores ficaram curiosos ao passar pelo estande da empresa Sebastião da Manga, do Vale do Rio São Francisco. 

Expostos improvisadamente em caixas de papelão para armazenar mangas, vários cacaus avermelhados e vistosos, semiembrulhados em papel de seda, causavam surpresa quando cortados ao meio para expor suas amêndoas, unidas pela polpa suculenta e esbranquiçada. “Foi difícil conseguir levar o cacau para lá: primeiro, ele ficou retido em Portugal, depois, na Espanha e até na porta da feira, pois ninguém o conhecia”, revela Luis Fernando Campeche, engenheiro agrônomo e sócio da Novo Sol Agrícola, outra importante empresa produtora de frutas irrigadas no Vale do São Francisco, responsável por conseguir que o cacau in natura pudesse ser apreciado no evento. 

Por mais que o chocolate seja popular em todo o mundo e seu consumo continue a aumentar a passos largos, o mesmo não pode ser dito do seu ingrediente de origem, um verdadeiro desconhecido não só por estrangeiros como por muitos brasileiros que, além de nunca tê-lo provado diretamente da fonte, também não imaginam o potencial que ele tem a revelar.

Afinal, a parte da qual nasce o chocolate representa muito pouco da fruta inteira. “As amêndoas são somente 8% do cacau”, explica José Raul dos Santos Guimarães, superintendente regional dos estados do Pará e Amazonas da Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), órgão ligado ao Ministério da Agricultura e Pecuária para promover o desenvolvimento sustentável e a pesquisa no setor cacaueiro no Brasil.

Estimulando a bioeconomia

Aprimorar as formas de uso do produto, de modo a complementar a renda dos produtores, está entre os principais objetivos da equipe à frente da Ceplac na região, que também atua no combate a doenças, como a vassoura-de-bruxa, e na promoção do cultivo em sistemas agroflorestais.

“A bioeconomia do cacau é algo bem amplo, que perpassa a produção de amêndoa seca. Estamos falando de um aproveitamento integrado e sustentável dos recursos gerados na unidade de produção de cacau”, diz Santos, sobre a diversificação da atividade produtiva para agregar valor e ampliar a renda dos agricultores, promovendo maior sustentabilidade no campo.

Os produtos mais acessíveis à realidade das famílias locais são a polpa e o mel do cacau. O primeiro, extraído por uma despolpadeira, e o segundo, com uma prensa, transformam-se na base de licores, geleias, caldas, coquetéis, sucos e até molhos de pratos salgados. “De cada mil quilos de amêndoa fermentada e seca que o produtor vende, ele conseguiria aproveitar entre 450 e 500 litros de mel de cacau”, diz José Janilson do Socorro, agente de atividades agropecuárias da Ceplac. 

Para extrair o mel do cacau, a prensagem é feita logo após a colheita e mantém a integridade das amêndoas, que podem ser beneficiadas como de costume. “Só é preciso pegar uma parte do cacau sem tirar nem mel e nem polpa e misturar às amêndoas restantes, para não prejudicar o processo de fermentação”, explica Socorro, que auxilia em projetos para montar minifábricas a interessados na região. “Não é tão caro quanto os equipamentos para a elaboração do chocolate, mas ainda tem pouca gente fazendo”, conta o agente. “Com 35 mil reais, é possível adquirir esses outros equipamentos, como prensa e freezer”, completa.

Além da capacitação continuada de técnicos, a Ceplac treina famílias de agricultores – que representam 95% dos cerca de 33 mil produtores do Pará – para essas novas expertises. E o interesse pelo aprendizado, em sua maioria, parte das mulheres. “Somos muito demandados para essas capacitações e o público predominante é do gênero feminino, que tem forte presença nas propriedades”, revela Santos, que almeja empoderar cada vez mais os agricultores de toda a riqueza gerada pela economia do cacau. “Na cadeia de valor do chocolate, o produtor se apropria de apenas 6%. Olha que triste!”, lamenta o superintendente regional da Ceplac.

Do mel ao vinagre

Quem já tem explorado a versatilidade do fruto é a Mais do Cacau, fundada em 2018 e que, hoje em dia, já acumula 20 produtos alimentícios – com cacau de Ilhéus, no sul da Bahia – distribuídos em todo o país. “Nossa missão é criar produtos inovadores que vão muito além do chocolate tradicional, sempre com sustentabilidade, foco no aumento da rentabilidade, ecologicamente e socialmente corretos”, diz José Eduardo Amorim, um dos sócios. 

Vinagre, mel, melato (mel de cacau reduzido), amêndoas e nibs caramelizados e a “cauchaça”, aguardente de cacau com 42% de teor alcoólico, são os destaques da marca, que tem como clientes restaurantes, bares e hotéis, além de consumidores finais, com vendas pelo site da marca. “O [preço do] cacau subiu 190% em dois anos, criando desafios, mas, também, oportunidades para produtos de valor agregado”, opina Amorim.

O mel de cacau, aliás, também foi novidade na Dengo Chocolates quando lançado em 2018, e hoje é vendido nas lojas da marca no Brasil e na França. Feito na Bahia pelos produtores Du Kakau e Agrícola Condurú, o mel é pasteurizado e tem adição de conservante, para que ganhe mais tempo de prateleira. Além de envasado, o líquido – de sabor frutado, doce e levemente ácido – faz parte de drinques preparados na loja Fábrica de Dengo na Faria Lima, capital paulista. 

Além destes produtos do cacau, a Dengo também elabora os gins Cacau, feito com extratos vegetais de zimbro, nibs de cacau e semente de coentro, e o Piranga, com zimbro, nibs de cacau, pitanga e limão. “O gim com cacau foi uma ideia da Dengo para ter outras formas de usar o cacau em bebidas”, conta Luciana Lobo, chocolatière da marca. “Então, buscamos um parceiro, a Draco Gin House, que usa nossos nibs de cacau no processo”, completa. O desejo de aumentar o portfólio neste segmento continua firme. “Nós estamos cada vez mais trabalhando para que isso se concretize”, afirma Andresa Silva, gerente-executiva de redes da Dengo.

Inovação 

Ainda há muito a ser explorado entre as possibilidades do cacau, e a inovação tem sido uma constante no setor. Um exemplo é a norte-americana Blue Stripes, que faz o aproveitamento total do fruto, originário do Equador, em mel (chamado de “água”), gomas, mix de nuts, granola, amêndoas de cacau cobertas de chocolate e de creme de avelã, posicionando o fruto como “superalimento”. 

A empresa, inaugurada há três anos, vende seus produtos em todas as lojas da Whole Foods e registra mais de 10 milhões de dólares em vendas anuais no varejo.

No Brasil, o cacau tem cada vez mais se inspirado no café para trilhar novos caminhos. O Centro de Inovação do Cacau (CIC), em Ilhéus, na Bahia, está de olho no fruto do cacaueiro como um alimento funcional e pesquisa suas qualidades para desenvolver um produto pré-treino. “A gente tem desenvolvido produtos e inovações olhando muito para o que o café já vivenciou”, revela Cristiano Villela, diretor científico do CIC. A atenção maior está no flavonóide epicatequina, presente no fruto. “É um dos mais potentes antioxidantes que existem na natureza, e ele é abundante no cacau.”

A Maré Chocolates também vê o cacau como um superalimento. A marca de chocolate orgânico usa 100% do cacau, extraindo as cascas das amêndoas (depois de torradas) para elaborar com elas uma infusão rica em teobromina, um alcalóide de efeito levemente estimulante. “Geralmente, nas grandes indústrias, essas cascas são trituradas com as amêndoas, o que deixa um amargor no chocolate. Nós usamos um maquinário que permite essa separação e que mantém as cascas mais íntegras para a infusão”, explica Maruska Gemelli, sócia da Maré, que hoje adquire cacau de produtores de Cachoeiras de Macacu, na serra fluminense.

Choco Chá, da Chocolat Du Jour / Foto: Divulgação

O mesmo potencial é explorado pela paulistana Chocolat Du Jour ao começar a produzir chocolates bean-to-bar. “Incorporamos o processo de descascar a amêndoa do cacau e percebemos que tinha perda de um ingrediente que poderia ter alguma utilização. Quando sentimos o aroma do cacau, que é maravilhoso, durante o processo de fabricação do chocolate, não nos conformamos com o desperdício”, relembra a sócia Patrícia Landmann. Ao lado de Carla Saueressig, uma das maiores especialistas em chás no Brasil, desenvolveram o Choco Chá, uma infusão das amêndoas dos nibs com a casca, que também é oferecido em versão com especiarias. “Ele é rico em antioxidantes e tem todas as propriedades do cacau que fazem bem para a saúde”, completa Patrícia.

Cascas do fruto

Não só de amêndoas, polpa e mel é feito o cacau. A grossa casca vistosa também pode ter melhor destino que o descarte. “Ela pode ser triturada para compostagem ou utilizada para produção de biogás, biofertilizante, ração animal. Mas esse aproveitamento da casca ainda é pouco explorado aqui”, revela Santos.

Para evitar que a casca seja um problema para o produtor, o CIC busca usá-la como meio de cultura para fungos benéficos, como o Trichoderma, para combater outros fungos que causam doenças, como a vassoura-de-bruxa. “Queremos transformar um problema numa solução amigável”, diz Villela.

Em grandes fazendas, onde o volume de cacau produzido é bem maior, as cascas já entram em um processo mecanizado. Segundo o diretor da CIC essas fazendas desenvolveram máquinas que, conforme passam pela área de colheita recolhendo o cacau para a quebra automática do fruto, já trituram as cascas e as espalham como adubo. “Só que isso é um uso pouco nobre da casca, pelo potencial que ela tem”, opina. 

In natura

O que poderia parecer óbvio, mas ainda é pouco explorado, é a venda da fruta in natura. A demonstração do cacau no Fruit Attraction foi um bom termômetro para verificar a curiosidade do público estrangeiro em relação à origem do chocolate e as possibilidades de um consumo mais amplo do cacau. “A gente tem variedades na Bahia, como a salobrinho 03, que tem sabor espetacular”, opina Villela. “A Fazenda Cantagalo [em Itabuna, sul da Bahia] tem algumas seleções para fruticultura. É um mundo ainda inexplorado e com potencial gigante”, atesta. 

Campeche, da Novo Sol Agrícola, já está de olho nesse futuro promissor e iniciou o plantio de cacaueiros para, daqui a dois anos, colher os frutos desta aposta. Assim como as uvas no Vale do Rio São Francisco, o cacau tem irrigação controlada e é cultivado com outras espécies – no caso da Novo Sol, o mamoeiro apoia o sombreamento do cacau e ainda gera renda com a venda dos frutos. “Já temos a cadeia da fruticultura bem definida e estamos bem avançados na comercialização de frutos de qualidade. Do jeito que estamos propondo o cultivo do cacau, com padrão, rastreabilidade, cultivo ambientalmente correto e selos de qualidade, conseguiremos avançar na sua exportação”, explica Villela. 

Para tal, é preciso entender as particularidades da venda in natura. Em um cultivo commodity, ou seja, focado na comercialização das amêndoas, não há cuidado com a apresentação da casca, por exemplo. “Terei de colher de forma diferenciada, não posso jogar no chão para não amassar a casca, que perde valor comercial, e fazer uma seleção de tamanho, que conta na padronização. Por isso, a remuneração do produtor também terá de ser diferente”, detalha Campeche. Outro desafio é o shelf life do cacau que, diferentemente de frutas que podem ser colhidas verdes para depois amadurecerem, não evolui depois de retirada do pé. “Ainda estamos estudando qual seria seu tempo de vida pós-colheita e como conservá-lo”, informa o engenheiro agrônomo, sobre a conservação do fruto por baixa temperatura ou com revestimento de cera (aplicação de fina camada de cera comestível sobre a casca).

Tais diretrizes, sem dúvida, podem transformar o cacau em um produto de luxo. “É um caminho desconhecido, mas achamos que vai dar certo”, acredita Campeche.

TEXTO Beatriz Marques • FOTO divulgação

Cafezal

Safra brasileira de café 26/27 alcançará 77,2 milhões de sacas, estima StoneX

Consultoria também vê situação favorável para 2027/28, embora não dê estimativa 

Foto: REUTERS/Alexandre Meneghini

Por Reuters

 A safra de café do Brasil 2026/27 está estimada em 77,2 milhões de sacas pela StoneX. A previsão do recorde – um aumento de 2,6% ante a estimativa de março da consultoria – foi divulgada no fim da tarde desta quarta-feira (2).

A empresa também aposta numa situação favorável para o próximo ciclo (2027/28) até o momento – embora sem cravar um número –, graças às boas condições climáticas no período de enchimento dos grãos, que resultou em arábicas mais pesados e com bom rendimento para esta safra, segundo o técnico de pesquisa em inteligência de mercado da StoneX, João Pena, em apresentação online.

Com a revisão, a consultoria estima um crescimento de 23,9% da safra em comparação com o ciclo anterior, aumento este impulsionado pela alta produtividade dos arábicas – cuja safra esperada é de 51,8 milhões de sacas diante da expectativa anterior de 50,2 milhões pela StoneX. A safra de canéfora também aumentou, de 25,1 milhões de sacas previstas em março para atuais 25,4 milhões de sacas. 

Apesar do grande volume de arábica, as chuvas atrasaram a colheita e trouxeram preocupações sobre a qualidade, diz Leonardo Rossetti, especialista em inteligência de mercado da StoneX. Segundo ele, produtores “bem remunerados” pelos altos preços nos últimos anos seguraram vendas, limitando a oferta e impactando os mercados globais. “O clima foi fator negativo para a qualidade, isso tem preocupado o mercado internacional”, analisa Rossetti.

Safra 2027/28

As chuvas, influenciadas pelo El Niño, tem favorecido e até antecipado a florada dos arábicas para a próxima safra. Especialistas destacam que, nos últimos anos, regiões cafeeiras no Brasil praticamente não viram chuvas entre maio e julho, que atrasaram em agosto e setembro, diferentemente de agora. 

A boa umidade favoreceu o processo vegetativo da espécie, que de modo geral tem condições para entregar uma florada maior este mês. Se o clima continuar úmido em setembro, há espaço para o preço internacional do café ceder, acredita Rossetti. Mesmo assim, a safra 2027/28 depende ainda do clima durante o enchimento de grãos (janeiro e março), embora o Brasil já tenha registrado crescimento na produção em anos de El Niño. Esse potencial será reduzido, porém, se nos primeiros meses de 2027 houver seca com altas temperaturas. 

No caso do canéfora, já com registro de floradas, a próxima safra brasileira poderá ser igual ou maior do que o recorde de 2025/26, diz Pena. quanto ao arábica, cujo próximo ciclo é de baixa bienalidade, a diminuição da safra 2027/28 pode não ser acentuada, resultado de aumento do parque cafeeiro e renovação das lavouras.

Mercado

Intertorra reúne profissionais do café para discutir torra, tecnologia e novos critérios de qualidade

Em sua sexta edição, encontro realizado em Poços de Caldas (MG) conecta especialistas, torrefadores e representantes da indústria em três dias de palestras, atividades práticas e degustações

Por Gabriela Kaneto, de Poços de Caldas (MG)

A torra, etapa em que o café pode ganhar complexidade ou perder parte do trabalho realizado ao longo de meses no campo, é o centro das discussões do Intertorra 2026, que começou ontem (28) no Instituto Federal do Sul de Minas, em Poços de Caldas (MG). Em sua sexta edição, o encontro reúne, durante três dias, profissionais ligados à produção, torrefação, indústria e consumo de cafés especiais. O evento é co-realizado pela Espresso&CO e pela Tinoco Cafés Exclusivos.

No primeiro dia, a programação apresentou palestras técnicas sobre qualidade, tecnologia, segurança e avaliação sensorial. Entre os convidados, marcaram presença nomes como Isabela Raposeiras, do Coffee Lab, o australiano Sam Corra, da Link Roaster e da ONA Coffee, e Elton Massarollo, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Raposeiras deu início aos conteúdos com a palestra “Como não estragar o trabalho de um ano inteiro em alguns segundos”, em que abordou a responsabilidade da torra sobre um café que passou por uma longa cadeia de decisões antes de chegar ao torrador.

Isabela Raposeiras, do Coffee Lab, e o australiano Sam Corra, da Link Roaster e da ONA Coffee / Fotos: -B Films

“Este é um evento muito importante porque, como país que mais produz no mundo, precisamos falar de qualidade. Precisamos que mais gente torre o próprio café aqui no Brasil”, opinou a empresária e mestre de torras. “Já dei palestras em outras edições, já fui embaixadora, e me sinto muito honrada por continuar contribuindo, aprendendo muito e trocando ideias”.

A discussão sobre qualidade ganhou uma perspectiva internacional com Sam Corra, que apresentou a palestra “Desafiando os estereótipos do café: como dados e tecnologia estão redefinindo a qualidade”. O australiano discutiu o uso de informações e ferramentas tecnológicas para compreender melhor o processo de torra e questionou conceitos estabelecidos sobre o que determina a qualidade de uma bebida. 

“Eu acho que este é um grande público de mentes curiosas que querem descobrir e questionar coisas”, comentou Corra. “Ao longo da minha jornada no café, alcançamos sucesso questionando por que estamos fazendo algo e vendo se há outras possibilidades. Então eu gostaria que minha palestra inspirasse as pessoas a questionar e tentar novas maneiras, sabendo que há diferentes jeitos de encontrar o resultado certo e a abordagem e a opinião de todos são válidas”.

Outro tema de destaque do primeiro dia foi a apresentação da nova Classificação Oficial Brasileira (COB), protocolo oficial de classificação e degustação de cafés do país. Elton Massarollo apresentou as mudanças e explicou como o novo sistema pretende atualizar os parâmetros utilizados na avaliação do café brasileiro.

Elton Massarollo, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) / Foto: -B Films

“Um grande ponto que tratei foram as atualizações que o Ministério vem desenvolvendo nas normas que tratam da qualidade, identidade e segurança do café”, destacou Massarollo. “É importante que as pessoas saibam que este diálogo é para fazermos um questionamento sobre o que o Brasil faz com o seu café e como podemos agregar ainda mais valor, para que o país e o mundo conheçam melhor as virtudes e as características do café brasileiro”.

Além das palestras, o primeiro dia contou com apresentações de equipamentos de torra das marcas oficiais da edição, discussões sobre prevenção e segurança e atividades voltadas à valorização dos cafés produzidos na Região Vulcânica, onde está localizado o município de Poços de Caldas.

Para Caio Alonso Fontes, da Espresso&CO, realizar o Intertorra em Poços de Caldas é poder conectar diferentes etapas do café – a torra e a produção – em um só lugar. “Está sendo uma excelente oportunidade poder ver os profissionais se relacionando e aprendendo sobre torra junto com os embaixadores e com os convidados nesses três dias de evento”, afirmou.

“É uma grande oportunidade trazer para a Região Vulcânica tantos mestres de torra e pessoas renomadas do café especial”, comemora Ulisses Ferreira, diretor-executivo da Associação dos Produtores de Café da Região Vulcânica. “O Intertorra tem uma dinâmica muito bacana. É uma oportunidade de conhecer cada um dos torradores e cada um dos perfis que os mestres de torra estão trabalhando, ou seja, é uma oportunidade de muito conhecimento e expertise para os produtores e também para as marcas que trabalham com cafés especiais”.

A partir deste sábado (29), o evento entra na etapa prática. Ao longo do dia, os participantes acompanham sessões de torra e têm a oportunidade de utilizar diferentes equipamentos das marcas parceiras do evento – Atilla, Carmomaq, Kaleido Brasil e Ruralmac –, com a participação de especialistas e mestres de torra. 

“Neste segundo dia de evento, temos a oportunidade de torrar quatro cafés aqui da Região Vulcânica em quatro grandes fabricantes de máquinas de torra. É a oportunidade perfeita para os participantes entenderem como cada café se comporta, o que cada equipamento tem a oferecer de diferencial e quais as técnicas dos embaixadores”, destacou Matheus Tinoco, da Tinoco Cafés Exclusivos.

No domingo (30), terceiro e último dia do Intertorra, os cafés torrados durante o encontro serão degustados. A programação prevê sessões de prova, investigação de defeitos de torra, seleção interna e geral dos cafés e divulgação das melhores torras.

Realizado desde 2018, o Intertorra já passou por cidades de Minas Gerais e São Paulo. Além das marcas oficiais de torradores, a edição de 2026 conta com a Baobá Cafés Especiais, Orfeu Cafés Especiais, Rosa Franco Cafés Especiais e Subasio Café Gourmet como cafés oficiais, e apoio de ABIC, Bunn, Cafés da Região Vulcânica, IF Sul de Minas – Campus Poços de Caldas, Link Roaster e PackOn.

TEXTO Gabriela Kaneto • FOTO -B Films

Quando a qualidade abre novas portas

Por Caio Fontes

Durante décadas, o setor de café no Brasil trabalhou para resolver um desafio fundamental – o de produzir e de consumir qualidade. Esse esforço coletivo envolveu um profundo conhecimento em pesquisa, tecnologia, capacitação, manejo pós-colheita, torra e preparo da bebida. O resultado é visível, pois nunca produzimos tantos cafés de alta qualidade nem tivemos tanto acesso à informação ou profissionais tão dedicados a aperfeiçoar cada aspecto do grão.

Essa transformação, que merece ser celebrada, também nos convida a outra reflexão. Quando a qualidade abre novas portas, para onde elas nos levam?

Em primeiro lugar, é importante deixar claro que esta análise não diminui a relevância da qualidade do café nem dos desafios que a cadeia enfrenta. Produzir cafés melhores, mais sustentáveis e resilientes e com eficiência continua sendo prioridade para o setor. A excelência agronômica, ambiental e operacional segue sendo a base sobre a qual todo o restante é construído.

Porém, a qualidade pode estar ganhando importância ainda maior e abrindo novas perspectivas. Para percebê-las, basta observar como os consumidores escolhem, compram e se relacionam com o café. Eles querem cafés com história, experiências gastronômicas, espaços de convivência e marcas com valor, identidade e propósito.

Uma das oportunidades mais interessantes está em modelos de negócio ancorados nos cafés especiais. Eles sugerem que a qualidade do grão já cumpriu sua função, transformando-se em requisito básico, a partir do qual surgem novas formas de criar valor, diferenciar marcas e desenvolver relacionamento com os consumidores.

Em uma visita recente a Londres para acompanhar o The London Coffee Festival, notei como muitas redes de cafeterias na cidade não se empenham mais em provar aos clientes que servem um bom café. Oferecer bebida de qualidade é uma premissa. A diferenciação entre essas empresas acontece em outros territórios, como hospitalidade, gastronomia, atendimento, velocidade de serviço, ambiente, curadoria e acessibilidade de preços. Propósitos que cada empresa escolhe em focar.

A brasileira The Coffee é um bom exemplo. Sua proposta não foi convencer o consumidor de que ela serve o melhor café do mercado. A empresa, que já tem mais de 300 unidades nos cinco continentes, combinou qualidade consistente de café a conveniência, tecnologia, design, localização e eficiência operacional. A boa bebida está lá, mas não é a única mensagem.

Talvez esta mudança de foco seja um dos sinais mais claros da maturidade do setor cafeeiro. Até pouco tempo, nosso desafio foi mostrar que o café do Brasil tem valor. Hoje em dia, em diferentes situações, a oportunidade está em ampliar as formas pelas quais esse valor pode ser percebido e capturado pelos clientes.

Isso exige uma mudança de perspectiva. Nem sempre os consumidores procuram cafés mais complexos, descrições mais técnicas ou novos vocabulários para adjetivar a bebida. Muitas vezes, eles buscam algo mais descomplicado, ou seja, conexão, descoberta, bem-estar, praticidade, pertencimento ou, simplesmente, um bom momento compartilhado, pois já entendem o que é qualidade básica em café.

Compreender essas motivações não significa, de modo algum, abandonar a busca pela excelência do grão, mas reconhecer que o seu valor não termina na apreciação sensorial, mas inclui, também, o modo como as pessoas o incorporam.

Quando entendermos melhor como os consumidores se relacionam com o café, seremos capazes de abrir espaço para novos serviços, experiências e formatos de varejo, assim como disponibilizar novas bebidas e desenvolver iniciativas atraentes em turismo, hospitalidade e educação. Em outras palavras, essa nova compreensão do mercado quanto ao consumo do café irá ampliar possibilidades em um ecossistema já construído sobre bases sólidas de qualidade.

Aproveitará quem tiver qualidade nessa visão.

Cafezal

Painel Café em Números oferece visão integrada do café brasileiro

Ferramenta on-line lançada pela Embrapa reúne uma década de dados de produção e indicadores territoriais, sociais e climáticos; reportagem testa a navegação e analisa o caso de Cacoal (RO) 

Por Cristiana Couto

A Embrapa acaba de lançar o Painel Café em Números, ferramenta on-line e interativa que reúne informações oficiais sobre a cafeicultura brasileira. A plataforma permite acompanhar onde o café é produzido, como a atividade evoluiu ao longo do tempo e quais características sociais, territoriais e produtivas estão associadas a cada região.

Desenvolvido pela Embrapa Café (DF) e pela Embrapa Territorial (SP), o painel integra dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Censo Agropecuário, do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) e da própria Embrapa.

“Faltava um ponto único e integrado de consulta”, afirma Daniela Maciel, analista da Embrapa Territorial responsável pelo desenvolvimento da ferramenta.

O painel reúne informações sobre arábica e canéfora, com recortes nacionais, regionais, estaduais e municipais. A série histórica de produção vai de 2014 a 2024, enquanto dados sobre estabelecimentos agrícolas e produtores são do Censo Agropecuário de 2017. A ferramenta será atualizada à medida que novos dados oficiais forem publicados. 

Sete módulos

O painel está organizado em sete módulos temáticos. Eles abrangem indicadores como produção, área plantada e colhida, produtividade e valor gerado; distribuição territorial e rankings dos estados produtores; e número e perfil dos estabelecimentos, com informações sobre agricultura familiar, gênero, faixa etária e envelhecimento dos cafeicultores. 

A ferramenta também apresenta mapas e períodos de menor risco climático para o cultivo e reúne a produção científica e tecnológica da Embrapa.

“O Painel Café em Números fortalece a capacidade do setor de planejar, antecipar riscos, orientar investimentos e subsidiar decisões e políticas públicas baseadas em evidências”, afirma Renata Silva, chefe de Inovação e Negócios da Embrapa Café.

Primeiro passo para plataforma nacional

O painel é o primeiro passo para a criação da Plataforma Nacional de Inteligência Territorial do Café. Ainda em fase de estruturação, a iniciativa pretende agregar dados georreferenciados, indicadores estratégicos, mapas interativos e análises diversas do setor a partir de ferramentas de IA, sensoriamento remoto e imagens de satélite.

Segundo a Embrapa, a proposta é oferecer ao mercado global um retrato baseado em evidências da cafeicultura nacional, além de orientar políticas públicas, investimentos e ampliar a competitividade no setor. A implementação em escala nacional ainda depende da formação de parcerias e da captação de recursos.

Teste da reportagem

O volume, a diversidade e o detalhamento dos dados, reunidos em uma série histórica de 2014 a 2024, permitem traçar panoramas locais e acompanhar a evolução recente da cafeicultura. 

Para testar essa possibilidade, a reportagem pesquisou a produção de canéfora em Cacoal (RO), município central na produção dos robustas amazônicos. Híbrido de conilon e robusta que ganhou identidade em Rondônia, esse café constitui um fenômeno singular cujo desenvolvimento coincide com o período coberto pelo painel. 

Foram comparados cinco indicadores de 2015, período de emergência dos robustas amazônicos, e de 2024, ano mais recente contemplado pela ferramenta. 

Os dados dimensionam (em nível de município) a importância econômica crescente dos robustas amazônicos: em uma década, a produtividade média avançou 72,8% – enquanto a área colhida no período caiu 28% – e o valor nominal de produção saltou de R$ 40,6 milhões para R$ 339,8 milhões. Além disso, o peso do café na produção agropecuária de Cacoal aumentou 7,37 pontos percentuais.

Navegação ainda exige ajustes

No teste, o painel oferece mapas com dados claros. A plataforma também contempla várias opções de filtros e indicadores e recortes geográficos diversos, que permitem partir de um panorama nacional e chegar a informações municipais.

Em parte dos módulos, a interface parece apenas transpor para o ambiente on-line a estrutura de planilhas, sem explorar recursos de navegação e visualização próprios da web. A navegação nem sempre é intuitiva, sobretudo diante da quantidade de informações e das possibilidades de filtragem — duas qualidades que revelam o amplo patrimônio de dados oficiais do Brasil, particularmente da Embrapa – sobre sua cafeicultura. O painel também ainda não está adaptado à consulta pelo celular, e a ferramenta de tradução para o inglês não funcionou durante o teste.

Por outro lado, por trás dessa interface, houve um extenso trabalho de seleção, padronização e tratamento de bases produzidas com metodologias distintas. Segundo Daniela, as tabelas disponibilizadas por instituições como o IBGE precisaram ser reorganizadas e convertidas para formatos compatíveis com o processamento em bancos de dados antes de serem incorporadas ao painel.

Isso resultou em buscas que não encaminham o usuário às bases de origem, mas fornecem dados já processados e estruturados pela equipe da Embrapa.

A amplitude e a integração das informações são os principais méritos da ferramenta. Ajustes futuros de responsividade, organização visual e fluxos de navegação podem simplificar a consulta e ampliar o potencial desse acervo para produzir conhecimento sobre a cafeicultura brasileira. 

TEXTO Cristiana Couto

Café & Preparos

Preços do arábica devem cair 8,8% até o fim de 2026, informa Reuters

Especialistas ouvidos pela agência afirmam que os baixos estoques nos Estados Unidos, na Europa e no Japão deixam o mercado mais sujeito aos efeitos causados pelo clima ou por logística na oferta de grãos 

Luisa Gonzalez (Reuters)

Por Reuters, de Nova York

Os preços dos grãos arábica devem cair 8,8% até o final de 2026 em relação aos valores atuais, apesar da ameaça do El Niño, informa pesquisa da Reuters divulgada na segunda-feira (24).

A média prevista, calculada a partir da consulta com 11 analistas e corretores, aponta que os contratos futuros de arábica na bolsa ICE de Nova York devem fechar o ano a US$ 3 por libra-peso, abaixo dos US$3,293 registrados no fechamento da sexta-feira (21).

Por outro lado, os entrevistados acreditam na elevação de 4,6% nos preços do robusta para US$ 3.900 por tonelada no mesmo período.

Os participantes também prevêem extrema imprevisibilidade no mercado, particularmente para o café arábica, com estimativas de preço variando de US$2,50 a US$3,90 por libra-peso, já que a “anomalia” climática do El Niño obscurece as perspectivas.

Para Laleska Moda, analista da corretora Hedgepoint Global Markets, a variação de preços dependerá, especialmente, dos impactos do fenômeno na florada da próxima safra brasileira: se ela ocorrer normalmente, os preços podem oscilar entre US$2,30 e US$2,60. Senão, podem ficar mais altos do que os atuais.

Para os analistas consultados, a questão  é a disposição dos produtores em vender os grãos depois do El Niño. Eles concordam, também, quanto à safra-recorde, prevista em torno de 75 milhões de sacas. 

“Há café em abundância, mas a questão principal é com que rapidez ele será colocado no mercado”, disse um analista de uma empresa multinacional de comercialização, que pediu para não ser identificado.

“Os produtores com boa capitalização têm pouca pressão para vender: os custos de produção estão amplamente cobertos, e o Brasil continua sendo um dos lugares mais baratos para armazenar café.”

A maioria, porém, afirma que os estoques baixos nos principais consumidores (EUA, Europa e Japão) deixam o mercado vulnerável a choques de oferta, climáticos ou logísticos. Em condições normais de ambos, a pesquisa indica uma perspectiva positiva para os estoques.

Estima-se que o excedente global de café aumente para 8,2 milhões de sacas em 2026/27, em comparação à 1,7 milhão de sacas em 2025/26 (outubro-setembro). 

BaristaMercado

São Paulo recebe o primeiro Café Lacoste da América Latina

A capital paulista foi a escolhida para receber a primeira cafeteria da marca Lacoste na América Latina. Localizado no Shopping Cidade Jardim, o espaço segue o mesmo conceito de outras unidades francesas, como a de Paris e a de Mônaco, reunindo hospitalidade, gastronomia e design. A escolha de São Paulo, segundo a marca, reforça a relevância estratégica do mercado para a Lacoste e reconhece a cidade como um dos principais polos de moda, cultura e consumo de luxo da região. 

No Brasil, a operação de cafés está a cargo da rede de cafés especiais IL Barista, comandada por Gelma Franco. Entre as opções da carta de bebidas estão espresso, duplo espresso, macchiato, americano, latte, coado e o Eau de Croco – drinque preparado com água de coco, matcha e gengibre. 

O conceito gastronômico da casa foi pensado pelo empresário e restaurateur italiano Riccardo Giraudi, conhecido por reunir tendências de design, estilo de vida e alta culinária. Com referências à boulangerie e à cozinha francesa de bistrô, o menu reúne sanduíches, croissants, pain au chocolat e gougère — especialidade da Borgonha feita com massa choux e queijo. Entre os pratos estão o croque-monsieur, o croque-césar, releitura inspirada na salada Caesar, e o green avo smash, abacate cremoso servido sobre pão. 

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Barista

Copa Matcha reúne competidores em dez cidades e aproxima universos do café e do chá

3ª edição reuniu simultaneamente baristas em dez cidades em disputas que combinam técnica, criatividade e comunidade

Foto: Gabriela Kaneto

A terceira edição da Copa Matcha movimentou, simultaneamente, dez cidades brasileiras na noite da última quinta (20), com disputas que reuniram profissionais e entusiastas de café e chá. Em São Paulo, a competição aconteceu na cafeteria Hyu Haus e foi acompanhada de perto pela Espresso, parceira de mídia do evento.

Realizada pela Namu Matcha e pela Mana Coffee, a competição busca aproximar os universos das duas bebidas em uma disputa que combina técnica, criatividade e comunidade. Em cada etapa, os participantes foram desafiados a preparar matcha lattes, colocando à prova não apenas a habilidade no preparo da bebida, mas também a consistência e a execução sob a pressão da competição.

16 competidores entraram na disputa, organizada em chaves eliminatórias. A cada rodada, um desenho era sorteado e o barista do latte mais votado avançava para a próxima etapa, até a definição dos vencedores locais.

“Este é o terceiro ano que estamos fazendo a Copa Matcha e ela vem crescendo cada vez mais. Em 2024, a disputa aconteceu em três cidades. Já em 2025, saltamos para oito. Agora são dez. Vamos ver quantas vão ser nos próximos anos”, comemora Álvaro Dominguez, diretor da Namu Matcha. “A ideia é cada vez mais juntar a comunidade dos baristas e todo o universo que está ao redor do atendimento e da hospitalidade das cafeterias, para fazer disso algo divertido”.

Foto: Gabriela Kaneto

Além da competição em si, a Copa Matcha vem se consolidando como um ponto de encontro para profissionais de diferentes áreas e para uma comunidade cada vez mais interessada nas possibilidades do matcha. A proposta também reflete a crescente presença da bebida em cafeterias e outros espaços ligados à cultura do café, abrindo caminho para novas técnicas, combinações e formatos de consumo.

Em um pódio totalmente feminino, Roberta Fukunaga conquistou o primeiro lugar da competição em São Paulo, seguida por Maria Santos, na segunda colocação, e Maria Eduarda Farias, em terceiro. Além da capital paulista, a Copa Matcha aconteceu no Rio de Janeiro, Florianópolis, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Maringá, Recife e Goiânia.

A terceira edição da Copa Matcha foi realizada pela Namu Matcha e pela Mana Coffee, com parceria de Nude, Pasquali, Tsmart e Lindoya Verão. A Espresso participou como parceira de mídia, enquanto Escola de Chá e ABChá atuaram como parceiros institucionais.

Cafezal

Consultoria mantém projeção de safra recorde de café do Brasil

Chuvas atípicas de inverno atrasaram a colheita e afetaram a qualidade do arábica, mas não alteraram a estimativa de volume da Hedgepoint Global Markets

A estimativa da Hedgepoint Global Markets para a safra brasileira de café 2026/27 foi mantida em 75,8 milhões de sacas de 60 kg, volume recorde, apesar das chuvas atípicas registradas durante o inverno, que atrasaram a colheita e afetaram a qualidade dos grãos, sobretudo nas regiões produtoras de arábica.

Em relatório divulgado ontem (19), a consultoria afirmou que os efeitos das condições climáticas não alteraram sua projeção para o volume produzido. “Mantivemos nossos números de produção. Apesar dos impactos na qualidade nas regiões produtoras de arábica, o volume produzido ainda está em linha com nossas expectativas”, afirmou.

A produção de arábica foi estimada em 50,2 milhões de sacas, alta em relação às 37,7 milhões de sacas da temporada anterior. O volume, porém, ficaria abaixo do recorde de 54,2 milhões de sacas registrado em 2020/21.

Para o canéfora, que reúne as variedades robusta e conilon, a projeção é de 25,6 milhões de sacas, ante 27 milhões no ciclo 2025/26. Apesar da queda esperada nesta safra, a produção da variedade vem crescendo nos últimos anos.

Segundo a Hedgepoint, o avanço da colheita mantém a perspectiva de uma safra recorde em volume, embora as condições climáticas tenham trazido impactos sobre a qualidade do café produzido.

Fonte: Reuters