Cafezal

Colheita de café 26/27 no Brasil alcança 90%, diz Safras & Mercado

A colheita da safra brasileira de café 2026/27 atingiu 90% da produção até o dia 12 de agosto, marcando um avanço de 6 pontos percentuais em relação à semana anterior, mas ainda com atraso frente ao registrado no ano passado, apontou levantamento da Safras & Mercado nesta sexta (14).De acordo com a consultoria, em igual período de 2025, os trabalhos de colheita alcançavam 97% da produção, enquanto a média dos últimos cinco anos (2021-2025) é de 94%.

Entre as espécies de café, a colheita de canéfora (conilon/robusta) chegou ao fim, “restando apenas alguns poucos repasses e a retirada dos últimos cafés das lavouras”, enquanto a de arábica atinge 86% da produção.

Fonte: Reuters

Mercado

Terremoto interrompe escoamento de café por principal porto da Colômbia

Buenaventura retomou as operações nesta quinta-feira (13), mas bloqueios nas estradas podem atrasar embarques

Por Cristiana Couto

O terremoto de magnitude 7,4 que atingiu na segunda-feira (10) o oeste da Colômbia e parte de sua principal região cafeeira interrompeu por três dias o escoamento do grão por Buenaventura, principal porto de saída do produto no país. Os terminais retomaram as operações nesta quinta-feira (13), mas o café represado e as restrições nas estradas ainda podem atrasar os embarques.

A rodovia Buga–Buenaventura foi liberada, para veículos de carga, com trânsito controlado nos pontos críticos, segundo balanço do Ministério dos Transportes publicado pelo jornal colombiano El Espectador.

Buenaventura havia suspendido as operações para inspecionar seus três terminais – Agua Dulce, Sociedad Portuaria e TCBUEN. Germán Bahamón, gerente-geral da Federação Nacional de Cafeicultores da Colômbia (FNC), afirmou à Reuters na quarta-feira (12) que as exportações continuavam por Cartagena e Santa Marta, no Caribe.

Entre janeiro e agosto de 2025, Buenaventura respondeu por 58,1% dos contêineres de cafés colombianos exportado, segundo dados do Grupo Puerto de Cartagena publicados pelo jornal colombiano La República em novembro. A Colômbia exporta cerca de 1 milhão de sacas por mês. Cada dia de interrupção pode adiar o despacho de mais de 30 mil sacas.

Deslizamentos bloquearam trechos da rodovia Cali–Buenaventura e impediram a passagem de veículos de carga, informou o La República na quarta. A interrupção acontece no momento de concentração da colheita em Cauca, Nariño, Valle del Cauca e Huila, no sul e sudoeste do país, cuja produção costuma ser escoada pelo porto, segundo a Associação Nacional de Exportadores de Café da Colômbia (Asoexport).

Unidades de processamento da região também avaliam os danos. Cortes de energia, falhas de conectividade e a situação dos trabalhadores afetaram as operações, informou a revista Global Coffee Report na quarta.

A FNC e o Comitê de Cafeicultores de Quindío levantam prejuízos em propriedades rurais dos 12 municípios do departamento. Armazéns de insumos agrícolas de Filandia e Buenavista, por exemplo, estão fechados após apresentarem danos estruturais, informou o site colombiano El Quindiano na terça-feira (11).

Pereira, capital de Risaralda e uma das principais cidades do Eje Cafetero, contabilizava nesta quinta-feira 93 mortos, 260 desaparecidos e 259 feridos. Ao todo, a Colômbia registra 273 mortes e mais de 3,8 mil feridos.

Fontes: Reuters, El Quindiano, Global Coffee Report, La República, FNC e Ministério dos Transportes da Colômbia

TEXTO Cristiana Couto

Itinerário literário do café

Por Moisés Stahl

Bebedor contumaz de café, o literato francês Honoré de Balzac gostava de sugeri-lo como um bom companheiro na revisão de textos. Reforçava o poder estimulante da bebida ao dizer: “Escreva com vinho, revise com café”. Não só apreciado por escritores, o café e seu ambiente foram representados na literatura, sobretudo brasileira, com personagens e relações cuja base é a fazenda de café. Desde a narrativa fundadora de sua origem, o café fez parte do dia a dia dos seus produtores, consumidores e dos que imaginam histórias sobre o grão.

Uma das marcas da cafeicultura é seu caráter itinerante: a produção se desloca, dentro de um país ou no cenário global. No fim do século XVIII, quando Saint-Domingue — então colônia francesa e maior produtora mundial — entrou em colapso com a Revolução do Haiti (1791-1804), o Brasil expandiu suas lavouras, superou o Haiti e consolidou-se como principal produtor ao longo do século XIX.

Outro exemplo: da Etiópia, o grão segue para o Iêmen, que se torna o primeiro polo de produção intensiva e exportação nos séculos XVI e XVII. Em sua rota global, chega ao Pará, em 1727. Do Vale do Paraíba — primeira grande região produtora — ao Oeste Paulista, que no fim do século XIX assumiu perfil capitalista, o café estruturou uma verdadeira sociedade cafeeira.

Mais que um fenômeno econômico, o café forjou um imaginário social e cultural. Mas é possível falar em uma literatura do café?

Na expansão dos cafezais, distinguem-se três áreas: zonas velhas, de baixa produtividade; intermediárias, de plena produção; e pioneiras, em plantio ou formação. Ao avançar, a cafeicultura transformou a paisagem e estruturou uma sociedade fundada nas relações de sua produção — base material de uma imaginação literária povoada por narrativas e personagens inscritos no ambiente do café.

Não foram poucos os literatos brasileiros que escreveram sobre o café. Embora seja longa a lista desses autores, alguns foram notáveis em transpor para a ficção o espírito de uma época.

Talvez Monteiro Lobato tenha sido quem mais galvanizou a literatura do grão. Nascido em Taubaté, no Vale do Paraíba, o escritor cresceu em uma realidade marcada pelo legado da cultura cafeeira. Pela fazenda desfilam personagens que mantêm vínculo com uma cultura já superada, em volume, pela produção pujante do Oeste Paulista no final do século XIX.

Com a cafeicultura do Vale em declínio, muitos produtores — como observou, em 1883, o cientista francês Louis Couty — seguiam presos a um modelo extensivo, monocultor e dependente da mão de obra escrava, já incompatível com as transformações econômicas do Oeste Paulista. Para Couty, os cafeicultores do Vale viviam o lado passado do futuro; no Oeste, o futuro acontecia.

No Vale de Lobato, um personagem sintetiza essa realidade presa a uma dinâmica colonial de produção: o major Mimbuia, do conto “Café! Café!”, publicado em 1900 no jornal O Povo de Caçapava e depois reunido em outras obras do autor. Preso à terra e à rotina da lavoura, à espera de incentivos oficiais e já em crise, Mimbuia profere as últimas palavras: “Há de subir, há de subir, há de chegar a sessenta mil réis em julho. Café, café, só café!”.

Em 1906, com o Convênio de Taubaté, seu desejo de amparo oficial seria, afinal, atendido. Para Lobato, Mimbuia encarnava o atraso nacional: “Na cabeça, já branca, habitavam ideias de pedra”. Pensava só no café, não admitia outros gêneros, não incrementava a produção com máquinas ou diversificação — queria lucro sem modernização.

Em crônica de 1924, Ribeiro do Couto, atento à linguagem e à cultura forjadas pela cafeicultura, permite ao leitor ver a confluência de tempos num “triangulozinho de terra” entre São Paulo, Rio e Minas — espaço onde se ergueram, com a força do café e de mãos negras, cidades como São José do Barreiro, vizinha à próspera Bananal, “herdeira de tradições e de riqueza cafeeira”. Esses tempos sobrepostos surgem na figura de Samuel, negro centenário: “Tinha mais, mais de cem anos / E teus olhos tão humanos / Eram cheios do Brasil”.

Ao descrever e refletir sobre o contexto e a figura de Samuel, o autor — atento ao falar local — registra que o velho tomava o café “acompanhado com duas mãos”: numa, a bebida; noutra, a batata-doce. A crônica evoca o Brasil do café antes vibrante, então esgotado, sem o ritmo do Oeste. Herdeiro de tradições, o velho Vale do Paraíba já não prosperava, mas preservava a cultura; o progresso seguia os trilhos rumo ao Oeste.

No Oeste paulista, no início do boom produtivo, José de Alencar publicou, em 1872, o romance Til. A trama se passa no cotidiano de uma fazenda de café em Campinas, então área de rápida expansão. Detalhista, o narrador descreve a terra coberta por crosta de argila roxa, “afamada na província por sua espantosa fertilidade”. Ao incorporá-la ao texto, Alencar reforça que a riqueza advinha dessa fecundidade — guardada na mata ou revelada pela derrubada da floresta.

Na confluência dos rios Atibaia e Piracicaba, a fazenda, diz o narrador, estava “no seio de uma bela floresta virgem, porventura a mais vasta e frondosa das que então contava a província de São Paulo, e [que] foram convertidas, a ferro e fogo, em campos de cultura”. A expansão da cafeicultura sistematizou esse desmatamento, feito, literalmente, a ferro e a fogo.

A cena da queima da mata derrubada é recorrente na literatura e em livros de memória. “Papai falava em aumentar os cafezais, pois que, atravessando a estrada de ferro, tinha mata e terras muito boas. Levaram a derrubar essa mata, deixaram secar e, quando menos esperávamos, papai nos disse que iria fazer a queimada, ia pôr fogo na derrubada”, relata Brazilia Oliveira de Lacerda em suas memórias Dias Ensolarados no Paraizo, das décadas de 1890 e 1900.

As queimadas eram mais frequentes nas áreas de plantio recente. Enquanto o Vale vivia a estagnação, o Oeste acelerava a expansão. Nesse cenário surge outro personagem de Lobato, o Jeca Tatu, símbolo da inércia atribuída ao Vale do Paraíba. No auge produtivo, entre as décadas de 1840 e 1870–80, o Oeste paulista afirmava-se como nova frente cafeeira.

Com as transformações e o passar dos anos, o Vale tornou-se menos produtivo, enquanto o Oeste avançava em busca de novas terras férteis. Embora a produção em Campinas e Ribeirão Preto mantivesse bom ritmo — ainda que sujeita a oscilações —, as mudanças político-econômicas nacionais e internacionais passaram a afetar diretamente o café brasileiro, sobretudo após a Crise de 1929 e a Grande Depressão.

Em Fazenda, romance de 1940, Luís Martins retrata a decadência do café e matiza a ascensão do algodão, insumo-chave da indústria têxtil já em crescimento. O narrador observa que “o pessoal que tinha colhido o algodão achava o café um serviço melhor”. A tradição cafeeira — e a preferência dos trabalhadores pelas roças de café — gerava resistência à novidade do algodão.

“O café é uma epopeia”, disse Monteiro Lobato, ao reafirmar o caráter épico do fruto. Para ele, quando a literatura brasileira tomasse consciência de sua missão, “a epopeia, a tragédia, o drama e a comédia do café serão os grandes temas de quantos sentiram em si a fagulha divina”.

Lobato propôs uma agenda literária do café, ancorada numa história de mudanças econômicas e sociais. A cafeicultura forjou uma cultura de narrativas literárias reveladoras do clima das relações sociais, tornando-se fonte de informação e entretenimento para uma sociedade que prosperou em ritmos distintos da produção cafeeira.

É possível, assim, responder afirmativamente à questão do uso da literatura na elaboração do conhecimento histórico: embora não seja relatório, carta ou jornal, ela inscreve-se na realidade histórica de seu tempo.

Moisés Stahl é doutor em história econômica pela USP e autor de Louis Couty e o Império do Brasil (Editora da Ufabc).

Texto originalmente publicado na edição #91 (março, abril e maio de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Moisés Stahl • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Barista

Copa Matcha abre inscrições para competição de latte art em dez cidades brasileiras

Evento promovido pela Namu Matcha leva a competição para dez cafeterias brasileiras e reforça o crescimento da bebida no mercado nacional

Foto: Vic Mrtns Foto & Vídeo

Baristas interessados em disputar a edição 2026 da Copa Matcha já podem se inscrever para a competição de matcha latte art, que será realizada em 20 de agosto, simultaneamente em dez cidades brasileiras. As inscrições custam R$ 30 e devem ser feitas pelos perfis das cafeterias participantes em cada cidade.

Promovida pela Namu Matcha, a competição acontece nas cafeterias Hyus Haus (São Paulo/SP), Move Coffee (Rio de Janeiro/RJ), Nakombi Coffee Co. (Florianópolis/SC), Ernesto Cafés Especiais (Brasília/DF), OOP Café (Belo Horizonte/MG), Asteristico Café (Curitiba/PR), XOX Coffee Club (Porto Alegre/RS), Colha Padaria (Maringá/PR), Versado Café (Recife/PE) e Let’s Bora Café (Goiânia/GO). Durante as disputas eliminatórias, os competidores produzem desenhos em bebidas à base de matcha diante do público, em um formato voltado à interação e ao compartilhamento nas redes sociais.

Segundo a organização, a edição de 2025 reuniu mais de 120 inscritos, alcançou mais de 50 mil pessoas e somou mais de 100 mil visualizações. Os vencedores deste ano receberão prêmios oferecidos pelas marcas Namu Matcha, Nude, Pasquali, Escola de Chá Embahú e Lindoya.

Idealizada para valorizar o trabalho dos baristas e ampliar a presença da cultura do chá nas cafeterias brasileiras, a Copa Matcha reúne profissionais, empresários do setor, criadores de conteúdo e consumidores em torno da bebida.

A Espresso é apoio de mídia da edição 2026.

TEXTO Redação • FOTO Vic Mrtns Foto & Vídeo

Mercado

Xangai ultrapassa 10 mil cafeterias em 2025

Relatório publicado por associação e universidade chinesas mostra avanço do consumo, expansão das cafeterias e fortalecimento da produção de cafés especiais em Yunnan

Xangai ultrapassou a marca de 10 mil cafés em 2025, ao alcançar 10.336 estabelecimentos, em comparação aos 9.115 registrados no ano anterior. Os dados constam do Relatório sobre o Desenvolvimento do Café nas Cidades Chinesas 2026, lançado em 30 de abril.

Segundo o documento, a indústria do café na China movimentou 354,9 bilhões de yuans (cerca de US$ 51,9 bilhões) em 2025, 13,3% a mais do que em 2024. O consumo per capita também avançou, passando de 16,74 para 28,57 xícaras por habitante ao ano entre 2023 e 2025. Segundo informações divulgadas pela Shanghai Jiao Tong University, o relatório foi publicado conjuntamente pela Associação de Promoção da Indústria Cultural e Criativa de Xangai e pelo Instituto de Cultura, Inovação e Desenvolvimento da Juventude da universidade, com apoio de Meituan, Ele.me e Taotian Group.

O relatório também mostra o crescimento da produção de cafés especiais na província de Yunnan, principal origem cafeeira do país. A participação desses cafés subiu de 8% para 31,6% entre 2021 e 2025, enquanto as exportações da região alcançaram 860 milhões de yuans (cerca de US$ 126 milhões). Além disso, bebidas que combinam café e chá, como cafés aromatizados com jasmim, vêm ganhando espaço e refletem o desenvolvimento de um perfil de consumo próprio do mercado chinês.

Fontes: Governo Municipal de Xangai; Shanghai Jiao Tong University.

TEXTO Redação

Café & Preparos

Cafés à moda turca e árabe ganham destaque e preservam tradições de imigrantes no Brasil

Por Leonardo Neiva

Sobre um recipiente retangular com uma camada de areia quente, a barista movimenta lentamente o cezve (ou ibrik, em árabe). Dentro dessa pequena panela de cobre com cabo longo, o café de moagem extremamente fina se mistura com a água, num método diferente dos espressos e filtrados. Em meio à areia quente, ele recebe o calor de maneira uniforme, desenvolvendo sua espuma e aroma característicos.

Imagens do preparo do café turco vêm ganhando destaque nos cardápios de estabelecimentos pelo Brasil e viralizam com frequência nas redes, devido à sua técnica única. O aquecimento sobre a areia quente, típico da Turquia e de certas regiões do Oriente Médio, se inspira na tradição de povos nômades do deserto, que tinham apenas o sol e a areia como fogão.

Mas “o verdadeiro café turco não está só no preparo, e muito menos numa máquina de areia. Ele está na técnica, no conhecimento e na formação de quem prepara”, afirma Adriana Gomes, proprietária da Tenda Turca, pioneira no preparo da bebida em São Paulo. Inspirada pelos laços familiares e de amizade na Turquia, ela abriu a casa em 2022, onde, além do café e do chá, comercializa produtos e ingredientes importados do país.

A Asmar’s, rede de confeitaria árabe de Foz do Iguaçu (PR) que vem abrindo unidades pelo Brasil, oferece cafés inspirados em regiões diversas da Turquia. O da capital Ankara, por exemplo, leva um blend de pimentas, e o de Izmir, na costa oeste, vai com cardamomo, especiaria tradicional do café árabe.

Foto: Asmar’s

Paul Sapountzakis, que comanda duas unidades da rede em Brasília, conta que o preparo da bebida virou um show à parte. “Muitos clientes se aproximam para assistir, fazem perguntas, fotografam e gravam vídeos. Antes mesmo do primeiro gole, já existe uma conexão com a história e com a tradição da bebida.”

Descendente de gregos e libaneses, o empreendedor cresceu em uma família onde o café era ritual de convivência e gesto de acolhimento. “O café turco não foi criado para ser consumido com pressa. Ele convida as pessoas a desacelerar, conversarem e aproveitarem o momento”, afirma.

Reconhecidos como Patrimônios Culturais Imateriais da Humanidade, tanto o café turco quanto o árabe remontam ao século 15, com seus primeiros usos medicinais e rituais na região do Iêmen. A primeira cafeteria de que se tem registro surgiu nesse mesmo século em Constantinopla, atual Istambul.

No Brasil, há uma confusão histórica entre os imigrantes vindos da região. Do fim do século 19 ao início do 20, viajantes de países que faziam parte do Império Otomano, como Líbano e Síria, eram rotulados pelas autoridades brasileiras como “turcos”, conta o doutor em história social Bruno Bortoloto do Carmo, analista de pesquisa do Theatro Municipal de São Paulo.

Um dos autores do projeto Memórias do Café Árabe, do Museu do Café de Santos, Bortoloto registrou narrativas orais de imigrantes, que resultaram em um artigo e uma exposição focada na tradição do café árabe por aqui.

Por conta da proximidade, há semelhanças – e diferenças importantes – entre os cafés da região. O café fino jogado direto na água e o bule de cabo longo estão presentes tanto na versão árabe quanto na turca. Por outro lado, o café de países árabes quase sempre inclui cardamomo e usa uma torra mais clara, o que o torna leve e floral, enquanto o turco tem um sabor mais encorpado. “O turco não costuma ter tantas especiarias”, aponta o pesquisador.

Foto: Asmar’s

Um exemplo dessa confluência de tradições é o Yummizza, de Curitiba (PR). Apesar de ser inspirado nos sabores de Damasco, capital da Síria, o restaurante traz no cardápio o café turco – ao menos no nome. No entanto, é possível tomá-lo tanto puro quanto com cardamomo, ingrediente tradicional da bebida em solo damasceno.

Vindo da capital síria para recomeçar a vida no Brasil, foi a falta que Ahmad Mnayer sentia dos sabores da terra natal que o inspirou a abrir o estabelecimento, onde também vende esfihas e shawarmas. “Quando sirvo esse café, lembro da minha infância, da família e da cultura. Tem gente que diz que o café os fez lembrar dos pais ou dos avós. Isso é muito bonito.”

Se só agora os cafés turco e árabe passaram a ganhar projeção nas redes e em estabelecimentos daqui, entre comunidades imigrantes já eram presença constante. “[Durante a pesquisa] Todas as pessoas nos receberam com um café feito dessa forma e contaram que mantêm essa tradição em casa”, diz Bortoloto. Segundo ele, restaurantes tradicionais, como o Syria e o Abud Síria, no centro de São Paulo, também servem a bebida, muitas vezes fora do cardápio.

Na visão de Adriana Gomes, da Tenda Turca, ainda são poucos os lugares no Brasil que oferecem uma experiência realmente especializada do café turco. Mas ela já percebe uma mudança. “As pessoas estão mais curiosas, viajam mais e veem conteúdo sobre isso nas redes. Cresce o interesse pelas gastronomias do Oriente Médio e da Turquia.”

Tenda Turca
Endereço: Pão de Açúcar – Av. Brigadeiro Luís Antônio, 2013 – Lj 04 – Bela Vista, São Paulo (SP)
https://www.tendaturca.com.br/

Asmar’s Brasília
Endereço: Unidade ParkShopping – SMAS Trecho 1 Luc 280A – Guará – Brasília (DF)
Unidade Conjunto Nacional – SDN, CNB – Asa Norte, Brasília (DF)
https://asmarsbrasilia.com.br/

Yummizza
Endereço: Av. Sete de Setembro, 4341 – Água Verde – Curitiba (PR)
https://www.instagram.com/yummizza/

TEXTO Leonardo Neiva • FOTO Asmar's

A tempestade perfeita

Por Gustavo Paiva

Nos últimos meses, vem se desenhando na América Latina uma tempestade perfeita, resultado da combinação de fatores climáticos, políticos e econômicos. Colômbia e Peru tendem a enfrentar tempos bastante complicados para a produção de café.

Ocorre que as suspeitas de formação de El Niño se confirmaram, resultando em chuvas mais escassas e temperaturas mais altas para todas as zonas cafeeiras do continente, mas com condições um pouco mais brandas para o Brasil.

Além disso, fatores políticos e macroeconômicos tendem a influenciar negativamente e de modo direto os cafeicultores latino-americanos, em especial os de Colômbia e do Peru. Em ambos, eleições foram realizadas recentemente e o resultado foi claro ao mostrar países divididos.

No Peru, a moeda Peruana, o sol, vem se valorizando há anos. Em um país que chegou a impressionantes dez presidentes em quase dez anos, o chefe do Banco Central, Julio Velarde, conseguiu a façanha de ser mantido por todos eles. No campo político, o país está extremamente polarizado, já que a candidata Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, conseguiu se eleger depois de quatro derrotas em eleições presidenciais. A vitória veio com uma margem de 0,26% ou 50 mil votos. Favorita do mercado por sua postura neoliberal, é provável que ela implemente políticas de privatizações e que a valorização da moeda peruana continue. 

No entanto, Fujimori foi bem enfática ao dizer, durante a campanha, que a criminalidade, a produção de cultivos ilícitos e o narcotráfico seriam enfrentados com “mão dura”. No seu primeiro dia de governo, declarou estado de exceção e delegou ao exército controle da segurança de algumas zonas do país. A medida pode gerar conflitos abertos no campo e aumentar o êxodo populacional de zonas rurais – que são majoritariamente contrárias a Fujimori.

Em um país com tantos presidentes em uma década, é impensável que, fora do campo econômico gerido por Velarde, alguma medida coerente e coesa tenha sido duradoura. E não foi diferente para o setor cafeeiro, que deverá continuar fora do foco das políticas públicas, já que a líder da extrema direita peruana menciona a palavra “café’’ apenas duas vezes nas 144 páginas do seu plano de governo. 

O documento menciona apenas que a prioridade do governo será o apoio ao investimento privado no setor agrícola, redução da burocracia e de impostos, sem especificar quais e como estas medidas serão tomadas. 

Na Colômbia, o roteiro é muito parecido: o candidato de extrema direita Abelardo de la Espriella derrotou o candidato de centro esquerda Ivan Cepeda por 0,95% de diferença. Além da instabilidade de um país dividido, Espriella traz algumas medidas que impactariam diretamente os produtores. Em primeiro lugar, por ser um candidato neo-liberal, apoiado por Donald Trump e com fortes inspirações em Javier Milei, Espriella era o favorito do mercado financeiro. Desde o dia da declaração de vitória, o peso colombiano valorizou em 6% o que acaba por encarecer as exportações. Além disso, o candidato promete o retorno das intervenções militares contra os narcotraficantes e guerrilhas existentes no país. Esta posição linha dura, já implementada por Alvaro Uribe no início do século, resultou em conflitos abertos em zonas cafeeiras, como Cauca, Antioquia e o Vale do Cauca, todas no sudoeste do país.

Em segundo lugar, Espriella havia demandado tomar posse em um quartel-general do exército, como um símbolo da militarização do país durante seu governo. Como teve seu pedido recusado, tomará posse em Cali, capital da região cafeeira do Vale do Cauca, epicentro da violência e da atividade paramilitar. 

Existe uma expectativa de que nos primeiros dias de governo, que começará em 7 de agosto, ele também irá declarar um regime de exceção. Durante um conflito, mesmo em outras regiões rurais que não são afetadas diretamente pela intervenção das forças armadas, a população rural tende a migrar por medo, principalmente os jovens, que abandonam suas terras e diminuem a mão de obra disponível. 

Por último, em sua proposta de programa de governo ainda como candidato, Espriella não mencionava café em suas únicas três páginas do plano de governo. Durante o segundo turno, o candidato prometeu adotar as propostas de Paloma Valencia, terceira colocada, para o setor cafeeiro. Mas ainda pairam muitas dúvidas, sobre, por exemplo, quem administra o Fondo Nacional de Café, taxa cobrada por cada saca de café exportada pelo país e usada para subsidiar a produção, como será feita a logística de exportação do sul do país que será, invariavelmente, afetada por intervenções militares e qual será a forma de trabalho com a Federação Nacional de Cafeteros.

O El Niño já está formado e tende a ser um dos maiores da história, o que prejudicará o próximo ciclo de produção do café, trazendo seca a todos os países produtores na América Central e na América do Sul. Enquanto o real brasileiro segue estabilizado em um valor relativamente baixo, o que favorece as exportações, as moedas colombiana e peruana tendem a se valorizar no curto e médio prazo, perdendo ainda mais competitividade em relação ao produto brasileiro. 

Além disso, grandes intervenções militares em zonas rurais impactam a continuidade da vida e do trabalho no campo, além de interromper fluxos logísticos. Todos estes desafios não são passageiros e tendem a deixar a cadeia produtiva e a continuidade da mão de obra no campo ainda mais fragilizadas em toda a sua estrutura de funcionamento.

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

Cafeteria & Afins

Khaleeji Qahwa Specialty Coffee – Poços de Caldas (MG)

O nome já revela parte da história da cafeteria. “Qahwa” significa café em árabe. “Khaleeji”, por sua vez, é o termo usado para designar os povos que habitam a região do Golfo Árabe, que reúne países como Omã, Kuwait, Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos. Este último é o país de origem do proprietário Amir Almadani Serah, que trouxe de lá referências culturais que imprimem identidade à casa. 

A cafeteria abriu as portas em junho, em Poços de Caldas, no Sul de Minas. A fachada já chama a atenção pelas três bandeiras hasteadas: Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Arábia Saudita. Logo na entrada, outro destaque é a máquina usada no preparo tradicional do café árabe. Nela, uma bandeja com areia aquecida recebe o recipiente de preparo. O contraste vem logo ao lado, com um filtro de barro tipicamente brasileiro. No balcão, equipado com máquina de espresso e outros acessórios, dividem espaço métodos de preparo e xícaras tradicionais árabes, sem alças.

No interior, o ambiente é estreito e comprido, quase um corredor. A decoração reúne referências árabes em cada detalhe. Em frente ao balcão, fotografias retratam a comunidade e autoridades dos Emirados Árabes Unidos. Ao fundo, grandes telas coloridas, pintadas pela esposa do fundador, ocupam a parede principal.

Pacotinhos de café à venda na casa e café feito na dallah

Além das banquetas para quem prefere acompanhar o trabalho do barista, a cafeteria conta com duas mesas coletivas, algumas poltronas e uma estante com livros. Também ficam expostos os pacotes de café vendidos pela casa, selecionados pelo fundador e torrados pela Gamers Coffee, de Poços de Caldas.

Por hora, o proprietário é quem atende os clientes, enquanto se prepara para formar uma equipe. Como ainda fala pouco português, a comunicação acontece principalmente em inglês. Quando isso não é possível, entram em cena a paciência, os gestos e, às vezes, a ajuda de amigos que fez no entorno da cafeteria.

O ponto alto da experiência é conhecer preparos tradicionais da bebida no Oriente Médio, como o cezve e a dallah. O primeiro utiliza um pequeno recipiente de cabo longo e rende apenas uma xícara de café. A recomendação é não beber até o fim, já que a moagem extremamente fina deixa um sedimento no fundo da xícara. Já a dallah, uma jarra de maior capacidade, serve várias porções. Aqui, o café é fervido por alguns minutos com especiarias – receita “secreta” da avó de Amir Serah. Nos dois preparos, o café utilizado era da variedade dawairi, lavado, cultivado no Iêmen. 

Cezve (à esquerda) e dallah

O cezve resultou em uma bebida encorpada, doce, com notas de chocolate meio amargo e leve menta, e acidez baixa. Na dallah a bebida lembrava um chá: era delicada, perfumada por especiarias (como cardamomo), mas preservava a doçura e a identidade sensorial do café. O uso de preparos tradicionais com cafés especiais cria um encontro interessante entre tradição e contemporaneidade. 

Embora o cardápio ofereça poucas opções de comida, todas as receitas têm origem familiar. Para acompanhar os cafés, a escolha foi o manakish. Conhecido como uma espécie de pizza árabe, é preparado sobre uma massa semelhante ao pão sírio, coberta com queijo muçarela e uma mistura de especiarias. A porção é generosa e pode ser compartilhada. Como manda a tradição, deve ser consumido com as mãos, dispensando os talheres. As especiarias dão complexidade ao prato, e a cobertura permanece úmida na medida certa, sem excessos.

A cafeteria também oferece cafés brasileiros filtrados na v60 e no origami, além de espressos, cold brew e drinques à base de leite. Pedimos um coado na v60, feito com grãos produzidos em Santa Rita de Minas, de processamento lavado. Na xícara, a bebida apresentou notas de chocolate e caramelo, corpo cremoso e acidez equilibrada. Para harmonizar, a escolha foi o bolo do dia, preparado por Serah, e cuja receita ele não releva. Seu sabor adocicado e suave – uma composição equilibrada entre especiarias e castanhas – fez uma combinação agradável com a acidez média do filtrado, um café adequado para tomar mais vezes ao dia. 

Manekish (à esquerda) e bolo do dia

Nossa conta: R$ 102
Café no cezve – R$ 13
Café na dallah – R$ 27
Manakish – R$ 27
Bolo do dia – R$ 17
Coado na v60 – R$ 18

A Espresso visitou a casa anonimamente e pagou a conta.

Informações sobre a Cafeteria

Endereço Rua Pernambuco, 710
Bairro Centro
Cidade Poços de Caldas
Estado Minas Gerais
TEXTO Equipe Espresso • FOTO Equipe Espresso

Mercado

Como a Geração Z está reinventando a vida social

Pesquisas da Harris Poll e da Ogilvy mostram que custo de vida, busca por bem-estar e novas prioridades estão mudando a forma como a Geração Z socializa e consome fora de casa

Por Nick Lichtenberg, Fortune/via Reuters Connect

Duas pesquisas divulgadas recentemente pela revista de negócios norte-americana Fortune apontam que o alto custo de socializar está mudando os hábitos da Geração Z nos Estados Unidos. Um levantamento do instituto The Harris Poll, “Gen Z Weekend Report”, realizado entre o fim de maio e o início de junho com 4,1 mil adultos norte-americanos, mostrou que metade dos jovens deixa de sair nos fins de semana por falta de dinheiro e que quase três quartos passam esse período em casa.

As conclusões são reforçadas pelo relatório “Gen Z Pulse”, da Ogilvy Consulting, com 2,1 mil entrevistados nos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, segundo o qual “a Geração Z não é contraditória. A vida moderna é”. Os dois estudos indicam que o principal obstáculo ao convívio presencial não é uma mudança de comportamento, mas o aumento do custo do lazer e do consumo fora de casa.

Para Libby Rodney, diretora de estratégia do Harris Poll, o isolamento da Geração Z começou na infância, quando os ambientes digitais passaram a substituir parte da convivência presencial. Agravado pela pandemia de Covid-19 durante os anos de formação dessa geração, esse processo contribuiu para que permanecer em casa se tornasse o padrão.

Os dados da Ogilvy também mostram que o ambiente digital não substitui o convívio presencial. Mais de 60% dos jovens afirmam que estão tentando reduzir o tempo diante das telas, enquanto 52% gostariam de se encontrar mais com outras pessoas. Ainda assim, apenas 6% consideram satisfatório o nível atual de interação social. “As telas não são o objetivo”, resume o relatório.

De um recorte de 603 adultos, o instituto Harris Poll constatou que 51% sentem solidão nos fins de semana. Já a Ogilvy revelou que apenas 17% dos jovens americanos dizem se sentir conectados a uma comunidade e que 68% acham que sair “não compensa o prejuízo para o bolso”.  Muitos jovens adultos ainda vivem com os pais para conseguir economizar, e, em uma pergunta hipotética, 71% afirmaram que destinariam um ganho inesperado de US$ 100 à poupança ou ao pagamento de contas. 

Segundo o relatório “Gen Z Pulse”, da Ogilvy, também, com base em dados da Deloitte, metade da Geração Z hoje se considera financeiramente insegura, comparada a menos de um terço um ano antes. “Tudo está atingindo essa geração ao mesmo tempo”, afirma Libby. Eles sentem que precisam ser fiscalmente responsáveis. E, assim, estão trocando suas conexões e seu bem-estar social pela saúde financeira.”

Para ela, a Geração Z vive o que se cunhou de “policrise” — sucessão de crises interligadas, como pandemia, inflação e instabilidade no mercado de trabalho. Os relatos reunidos pela Ogilvy apontam na mesma direção: os entrevistados rejeitam estereótipos como preguiça ou falta de preparo e associam seus desafios às mudanças econômicas e sociais que dificultaram o acesso à vida adulta.

Nem mesmo as filas em restaurantes que viralizam nas redes contradizem esse cenário. Segundo a Fortune, pesquisas indicam que 84% da Geração Z experimentam tendências gastronômicas descobertas online. Para muitos desses jovens, porém, comer fora deixou de ser um hábito e passou a ser um programa esporádico e planejado, o que ajuda a explicar por que essas experiências ganham tanta visibilidade nas redes sociais.

As restrições financeiras também têm levado a Geração Z a reinventar o lazer. Segundo a Ogilvy, 85% dos jovens criaram alternativas mais baratas para socializar no último ano, como se reunir em casa, enquanto 73% afirmam preferir ambientes em que o álcool não seja o protagonista.

De fato, a busca por novos espaços de convivência aparece nas pesquisas. A Harris Poll, por exemplo, mostra que 65% dos jovens se sentem mais conectados em ambientes ligados ao bem-estar do que na vida noturna tradicional.

Apesar do orçamento limitado, a Geração Z continua exercendo forte influência sobre o consumo. Para Libby Rodney, serão os bares e as casas noturnas — e não os jovens — que precisarão se adaptar aos novos hábitos de socialização. Segundo a Ogilvy, essa geração deverá liderar o crescimento dos gastos globais até 2034, movimentando cerca de US$ 9 trilhões.

As mudanças de comportamento da Geração Z já começam a influenciar diferentes setores da economia. No mercado de café, por exemplo, cafeterias e marcas vêm adaptando cardápios, estratégias de marketing e experiências de consumo para atrair esse público — tema de uma reportagem especial que a Espresso publicará nos próximos dias.

CafezalMercado

Brasil impulsiona estratégia regenerativa da Nespresso

Em visita a uma fazenda parceira da Nespresso no interior paulista, a Espresso acompanhou como práticas regenerativas, conservação ambiental e assistência agronômica orientam a estratégia da empresa para garantir a qualidade do café no longo prazo

Por Gabriela Kaneto, de São Sebastião da Grama (SP)

Em evento realizado em São Paulo (SP) na terça-feira (28), a Nespresso divulgou novos dados sobre a agricultura regenerativa no Brasil, que complementam a edição de 2025 do The Positive Cup, relatório global anual de sustentabilidade da marca. O documento reúne os principais resultados da companhia em temas como agricultura regenerativa, descarbonização, circularidade e fortalecimento das comunidades cafeeiras. O encontro também contou com o lançamento do Prêmio Regenerativo Avançado e o anúncio de parceria para restauração de paisagens cafeeiras.

Um dos destaques abordados foi o Plano de Qualidade Sustentável Nespresso (chamado anteriormente de Programa AAA), que reúne mais de 130 mil cafeicultores de 18 países e combina assistência técnica, rastreabilidade e incentivo à adoção de práticas regenerativas. 

O Brasil responde por cerca de 30% do café verde utilizado pela marca. No país, o programa reúne 500 produtores e investe R$ 70 milhões por ano em iniciativas como o uso de fertilizantes orgânicos, biochar e monitoramento ambiental. Em 2025, 95% do café brasileiro adquirido pela Nespresso veio de fazendas que adotam essas práticas, em comparação com 84% em 2022. O avanço registrado no país também elevou a média global: no mesmo intervalo, esse índice passou de 76% para 85%, tendo o Brasil como principal responsável por esse crescimento.

Fazenda Cachoeira da Grama, em São Sebastião da Grama (SP) desde 1890

A convite da marca, a equipe da Espresso conheceu de perto uma das propriedades brasileiras que integram o Plano de Qualidade Sustentável. A Fazenda Cachoeira da Grama, do produtor Gabriel Carvalho Dias, fica em São Sebastião da Grama (SP), na região do Vale da Grama, a cerca de 250 km da capital paulista. Fornecedora de cafés para a Nespresso há mais de 15 anos, a propriedade participa do programa com o acompanhamento dos engenheiros agrônomos da empresa, que orientam a adoção de práticas regenerativas.

“Cada talhão tem suas próprias características. Buscamos compreender o solo em todos os seus aspectos – físicos, químicos e biológicos – para enriquecer a saúde do solo e oferecer à planta as melhores condições de desenvolvimento”, explica Rhafael Martins, engenheiro agrônomo do programa, que atua há 13 anos na propriedade. 

Com 85 hectares, a fazenda mantém 40% de sua área preservada – o dobro do mínimo de 20% exigido pelo Código Florestal Brasileiro. O trabalho também inclui a recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APPs), com 22 nascentes restauradas até o momento.

Produção de café na Fazenda Cachoeira da Grama

A ampliação dos sistemas agroflorestais e das iniciativas de remoção de carbono foi outro destaque do relatório The Positive Cup. No ano passado, mais de 2 milhões de árvores foram plantadas em áreas cafeeiras, das quais cerca de 1,9 milhão em projetos voltados à remoção de carbono.

“A ideia do Plano de Qualidade Sustentável é proporcionar esse relacionamento a longo prazo com os produtores”, afirma Tatiana Nakamura, especialista de cafés da Nespresso. “Nosso foco é ajudar o produtor a ter cafés de qualidade com produtividade, cuidando do meio ambiente, do solo e das pessoas para garantir, no futuro, uma xícara de café produzida de forma sustentável.”

Sustentabilidade além da lavoura

Dados da pesquisa Nestlé CUP 2025 Local Insights Report – Brasil: Panorama Geral e Comportamento do Consumidor, realizada com mil consumidores de café de 16 a 75 anos em todas as regiões do país, mostram que, embora o mercado tradicional ainda seja predominante, as cápsulas já respondem por 9% do consumo nacional e seguem em expansão.

A reciclagem das cápsulas também integra a estratégia de sustentabilidade da marca. Presente em 79 países, incluindo o Brasil, o programa conta com mais de 400 pontos próprios de coleta, como as boutiques da Nespresso, além de uma parceria com os Correios que permite aos consumidores enviar gratuitamente as cápsulas usadas ao Centro de Reciclagem da empresa, em Valinhos (SP). Lá, o alumínio e a borra são separados sem uso de água no processo para reaproveitamento.

O alumínio retorna à cadeia produtiva por meio de parceiros, como a Natura, que desenvolve embalagens cosméticas, e a borra é transformada em biometano por biodigestão, utilizado na geração de energia renovável. Com investimento superior a R$ 2 milhões por ano, o projeto processa até 850 toneladas anuais de borra de café e reduz as emissões de carbono em cerca de 900 toneladas por ano.

“Acreditamos no café como uma força capaz de gerar impacto positivo em toda a cadeia, do campo ao pós-consumo”, resume Marina Gargiulo, gerente de branding & sustentabilidade da Nespresso. “O The Positive Cup reflete como estamos avançando nessa jornada”.

TEXTO Gabriela Kaneto