A pátria de café e de chuteiras

Por Gustavo Paiva

Segundo o escritor Nelson Rodrigues, o Brasil é “a pátria de chuteiras”. A cada quatro anos, o maior torneio de futebol do planeta envolve a população brasileira em torno de um televisor, esperando o pontapé inicial das partidas. De maneira quase invariável, o início da Copa do Mundo de futebol coincide, também, com o da colheita de café no Brasil.  

Ocorre que, há algumas décadas, esta coincidência representou uma relação direta. No final dos anos 1970, a FIFA exigiu de suas associadas a criação de uma organização dedicada exclusivamente ao futebol. Foi assim que a antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD), deu lugar à Confederação Brasileira de Futebol (CBF). 

A Copa na Argentina, disputada em 1978, foi a última da antiga confederação. Depois de uma campanha da seleção brasileira considerada frustrante — com um terceiro lugar, apesar da invencibilidade —, houve uma forte demanda por mudanças dentro e fora de campo.

A junção entre a obrigação das mudanças institucionais e a  pressão por mudanças vindas da sociedade fez com que a nova entidade máxima do futebol brasileiro mudasse não apenas o nome, mas também o escudo, costurando no peito da seleção canarinho as três estrelas do tricampeonato e a taça Jules Rimet, conquistada definitivamente pela seleção. 

Além disso, o Instituto Brasileiro do Café (IBD), extinto em 1990, estava preocupado, à época, com o crescimento da concorrência internacional na produção do grão e com a melhora da imagem do café dos concorrentes. Foi aí que o IBD decidiu ousar: desembolsou 3 milhões de dólares como patrocínio à recém-criada confederação antes do Mundial de 1982. Além do escudo, o patrocínio incluía peças publicitárias com os destaques da seleção – Sócrates, Zico e Telê –, visando o mercado doméstico.

O patrocínio previa, ainda, uma representação gráfica do tradicional ramo do café, impresso nas sacarias brasileiras, em lugar do logotipo da Topper, fornecedora de material esportivo. Ao saber da história, o então presidente da FIFA, João Havelange, ficou furioso e vetou imediatamente o patrocínio escancarado da então única seleção tricampeã mundial, que chegava à Espanha repleta de craques e com amplo favoritismo.

Com pouco tempo para fazer mudanças e um excelente contrato em jogo, o então presidente da CBF, Giulite Coutinho, optou por uma solução tipicamente brasileira: o jeitinho. Aproveitando o momento em que muitas seleções mudaram os logotipos de suas respectivas confederações, a CBF colocou o ramo de café no escudo da própria instituição e, consequentemente, no uniforme da seleção brasileira. 

Como as regras ainda não eram precisas quanto à temática dos escudos e a fiscalização dos uniformes não exigia o profissionalismo de hoje, o Brasil acabou jogando o Mundial de 1982 com um ramo de café no interior do escudo. 

Tanto Havelange quanto a CBF prometeram dobrar a aposta e seguir a briga na Copa do Mundo de 1986. Mas, desta vez, a história teve elementos extras e inusitados. A Colômbia, sede do Mundial de 1986 e principal rival da cafeicultura brasileira à época, enfrentava uma grave crise de segurança em razão dos conflitos ligados ao narcotráfico. Assim, desistiu de sediar o mundial, que acabou transferido para o México. 

Portanto, a tentativa de fazer propaganda do café nacional em território concorrente perdia um pouco o sentido. Além disso, a FIFA aumentou o rigor na fiscalização dos uniformes, buscando vetar quaisquer referências a possíveis patrocinadores. A CBF não deixou barato e levou carregamentos extras de uniformes para tentar burlar a fiscalização. Resultado: o Brasil entrou em campo com alguns uniformes ostentando o ramo de café e outros sem ele. Naquela seleção brasileira, havia um jogador que conhecia muito de café e de futebol: o volante machadense Elzo Coelho, titular em todos os jogos. 

De lá para cá, muita coisa mudou. O Brasil distanciou-se muito dos concorrentes na produção de café, mas nem tanto nos títulos mundiais de futebol. Porém, o que se vê atualmente nos uniformes são algumas referências nacionais que, diferentemente do café, não parecem relacionadas ao cotidiano da maioria dos brasileiros. Além disso, uma estratégia orquestrada e ousada para promover o consumo do café brasileiro durante o Mundial, dentro ou fora do país, não parece ser mais uma prioridade. 

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

Mercado

Índia: um gigante do café em ascensão

Com a Índia transformando-se rapidamente em uma grande nação consumidora de café, cafeterias, torrefações e produtores se preparam para um crescimento extraordinário

A Índia é um país em plena ascensão. Em abril de 2023, a nação do Sul da Ásia ultrapassou oficialmente a China como o país mais populoso do mundo, com 65% de seus atuais 1,46 bilhão de habitantes abaixo dos 35 anos. Com projeção de crescimento do PIB em torno de 6,6% no ano fiscal de 2025, a maior democracia do planeta segue no rumo de se manter entre as economias de grande porte que mais crescem.

Ganhando protagonismo no cenário global, executivos de origem indiana estão à frente de algumas das empresas mais valiosas e influentes do mundo. É o caso de Satya Nadella, que comanda a Microsoft, Sundar Pichai, CEO do Google e da Alphabet, e Vasant Narasimhan, da Novartis. Até 2024, Laxman Narasimhan também integrou esse grupo, ao ocupar o cargo de CEO da Starbucks.

Um país de oportunidades

Após cinco décadas de rápido desenvolvimento econômico, a sociedade indiana passa por uma mudança profunda rumo à “premiunização”. Jovens, escolarizados, viajados e cada vez mais abastados, os consumidores indianos têm adotado marcas internacionais como estilo de vida enquanto impulsionam, com a mesma intensidade, uma nova era de empreendedorismo local – e o café não fica de fora desse movimento.

“O cenário de café na Índia passou por uma transformação significativa na última década”, afirma Adrit Mishra, diretor de operações da Tata Starbucks, joint venture responsável por administrar a rede norte-americana no país. “À medida que a cultura do café cresce na Índia, a valorização por cafés premium está avançando para além das grandes metrópoles”, completa.

Presente no mercado indiano desde 2012, a Starbucks começou focada em lojas de alto perfil nos centros urbanos mais importantes. Mas, desde então, diversificou sua atuação para cidades de segundo e terceiro porte, ampliando o portfólio com unidades menores e modelos drive-thru. Em entrevista recente ao canal de notícias CNBC TV18, Brian Niccol, CEO da Starbucks, afirmou que a Índia tornou-se um dos mercados internacionais de crescimento mais rápido da Starbucks. Atualmente, a rede sediada em Seattle acelera sua expansão: em agosto, somava 480 lojas em todo o país – e pretendia chegar a 500 em novembro –, detendo cerca de 9% do mercado indiano. Também em novembro, a rede inaugurou a Starbucks Reserve na região metropolitana de Delhi – a segunda unidade Reserve da rede no país. “Os consumidores estão descobrindo as nuances do café e o papel que ele desempenha em seu dia a dia. Oferecemos cafés sazonais de diferentes origens, os melhores single origins e perfis de torra variados – temos tudo”, diz Mishra.

Uma das unidades da joint venture Tata Starbucks, no aeroporto de Bangalore

Com os indianos consumindo um valor estimado em INR 4 trilhões (US$ 53,3 bilhões) em café por ano, fica fácil entender por que as redes internacionais veem um potencial gigantesco no país. Operando no país por meio da licenciada Devyani International Ltd, a Costa Coffee, por exemplo, já tem 225 lojas em território indiano – um dos mercados prioritários da rede britânica.

Outra rede britânica, a Pret a Manger, também avança na Índia. Com a primeira loja aberta em Mumbai em abril de 2023 em parceria com o gigante varejista Reliance Brands, a rede fechou o ano de 2024 com 14 unidades – o plano é chegar a 100 lojas até 2028. Com o crescimento do consumo da bebida também em restaurantes, a Pret a Manger lançou na Índia, em abril deste ano, seu primeiro restaurante com serviço completo do mundo.

Enquanto isso, a canadense Tim Hortons investiu US$ 37 milhões para inaugurar dezenas de unidades ao ano em parceria com a AG Café – em 2023, abriu sua primeira loja em Nova Déli para longas filas de consumidores curiosos e, em agosto de 2025, já contava com 40 unidades no país.

Luxo é acessível?

Redes de café premium há muito se posicionam como um “luxo acessível” nos Estados Unidos e na Europa. Mas essa dinâmica não se repete no mercado indiano.

Para contextualizar: o salário mínimo por hora nos EUA – para trabalhadores que não recebem gorjetas – é de US$ 7,25. Dados da World Coffee Portal indicam que o preço médio de um latte em redes norte-americanas é de US$ 4,92, o que permite que mesmo trabalhadores de baixa renda consumam café fora de casa com alguma regularidade.

Na Índia, porém, redes internacionais chegam a cobrar até US$ 4 por bebida, enquanto o salário mínimo diário é de INR 178 (US$ 1,99) – o que torna o consumo fora de casa um luxo praticamente inacessível para a grande maioria.

A Starbucks lançou o tamanho “picco”, mais barato, abaixo de INR 200 (US$ 2,24) – ainda assim, um gasto elevado e difícil de competir com um copo de chai que custa apenas US$ 0,20 para a maior parte da população.

“Nos EUA e na Europa, marcas populares de café são vistas como redes ‘comuns’, mas na Índia elas são consideradas ultrapremium – há muitas barreiras de entrada para o café como produto de estilo de vida no país”, afirma Abhijeet Anand, CEO e fundador da abCoffee, uma rede de cafés especiais de posicionamento acessível, inaugurada em 2022 e que hoje soma mais de 75 lojas no país.

Anand decidiu criar a abCoffee depois de vivenciar a cultura de cafeterias europeias enquanto trabalhava na Romênia. Ao retornar à Índia, percebeu um crescimento expressivo no consumo de pacotes de café no varejo e identificou uma lacuna no mercado para lançar um conceito de cafeteria de marca com preços realmente acessíveis.

A abCoffee foca na compra de cafés especiais produzidos na Índia, e as bebidas começam com INR 77 (US$ 0,86) por um espresso e chegam a INR 127 (US$ 1,42) por um latte. A empresa consegue praticar esses preços mais baixos ao abastecer-se exclusivamente de produtores nacionais, como as fazendas Harley’s e Barbara, em Karnataka, e ao operar lojas enxutas, voltadas principalmente para take-away.

“A Índia produz muito café, mas os preços praticados no mercado interno estão no mesmo patamar do Reino Unido ou dos EUA – deveriam ser muito mais baixos –, e isso historicamente afastou muitos consumidores indianos do café fresco”, afirma Anand.

Bases sólidas para um crescimento admirável

Apesar de terem entrado no mercado indiano com preços inacessíveis para a maior parte dos consumidores, as redes internacionais de café construíram modelos de negócio viáveis ao mirar o público de alta renda do país. Impulsionadas por uma classe média em rápida expansão, essas redes – e uma nova leva de operadores domésticos – agora estão preparadas para um ciclo acelerado de crescimento.

O avanço de grandes redes internacionais de café em mercados emergentes não é novidade. Mas uma marca criada na própria Índia já demonstrava, há quase 30 anos, que a cultura do café de marca poderia prosperar no país.

Fundada em 1996 pelo empreendedor VG Siddhartha, natural de Karnataka, a Café Coffee Day foi pioneira na cultura de redes de cafeterias na Índia. Com o slogan “muita coisa pode acontecer tomando café”, a marca foi, por muitos anos, uma das únicas do país a servir bebidas à base de espresso em ambientes inspirados no conceito de “terceiro lugar”, e em escala nacional.

Em 2019, a Café Coffee Day já havia alcançado mais de 1,75 mil lojas e operava um negócio de 50 mil máquinas de autoatendimento em 243 cidades indianas, o que gerou US$ 200 milhões em receita anual – um feito impressionante em um mercado de café que, ainda hoje, é classificado como “em desenvolvimento”.

No entanto, o aparente suicídio de VG Siddhartha e a revelação de uma dívida de US$ 840 milhões naquele mesmo ano quase acabaram com a principal rede de cafeterias da Índia. A empresa fechou centenas de lojas durante a pandemia, após uma grande reestruturação. Sob a liderança de Malavika Hegde, viúva de Siddhartha, o negócio voltou a se recuperar e segue com mais de 425 lojas em operação.

Hoje em dia, uma nova geração de operadores locais atende ao público indiano emergente – consumidores muito mais viajados do que as gerações anteriores e cada vez mais inclinados a aderir a marcas associadas a estilo de vida.

Em 2023, estimativas conservadoras situavam a crescente classe média indiana em cerca de 100 milhões de pessoas. No entanto, uma pesquisa no mesmo ano do People Research on India’s Consumer Economy (Price), organização sem fins lucrativos sediada em Udaipur, concluiu que eram cerca de 432 milhões de indianos de “classe média”, definidos como aqueles com renda familiar anual entre INR 500 mil e INR 3 milhões (US$ 5.580 a US$ 33.474).

Com cerca de um em cada três indianos atualmente enquadrados nesse grupo, trata-se de uma definição ampla – mas uma faixa de renda que permite à maioria desses consumidores acessar gastos flexíveis, incluindo o consumo de café fora de casa.

Se apenas 10% desses consumidores de maior renda aderirem à cultura de café de marca, o mercado da Índia se equiparia hoje ao de um país europeu de médio porte – e está preparado para um crescimento extraordinário. Além disso, a pesquisa do Price projetou que esse grupo vai representar quase metade da população indiana, estimada em 1,46 bilhão, em 2047.

Na mesma época, o CEO da Costa Coffee, Philippe Schaillee, estimou em 20 a 25 milhões o tamanho do público indiano que “gravitava” em torno do café especial – números expressivos mesmo sob estimativas conservadoras.

“A Índia, como todos os países produtores de café dessa região do mundo, sempre foi uma economia de baixa renda. Nos últimos 10 a 20 anos, esses países se desenvolveram significativamente e agora há consumidores com renda suficiente para pagar por produtos de melhor qualidade. Isso não é apenas uma tendência no café – ocorre em todas as categorias de bens de consumo”, afirma Matt Chitharanjan, cofundador e CEO da Blue Tokai Coffee Roasters, torrefação e cafeteria de cafés especiais sediada em Gurgaon.

Fundada por Chitharanjan e Namrata Asthana em 2013, a Blue Tokai é exemplo dessa nova geração de operadores locais que elevam o padrão de qualidade enquanto valorizam os cafeicultores indianos.

Unidade da Blue Tokai em Pune

A empresa tornou-se uma das principais forças do movimento de cafés especiais na Índia e hoje opera 189 lojas em dez cidades indianas. Por meio de suas quatro torrefações – três na Índia e uma no Japão, o foco central da marca tem sido tornar o café especial indiano mais acessível, tanto no mercado doméstico quanto no exterior.

“O café indiano é subestimado globalmente. É muito raro entrar em uma cafeteria em outras partes do mundo e ver café indiano no cardápio – mas a qualidade dos grãos produzidos por nossos parceiros e torrados por nós poderia ser servida, sem qualquer problema, em qualquer cafeteria de Melbourne, Nova York ou Londres”, afirma Chitharanjan.

Hoje em dia, a Blue Tokai trabalha com uma rede de 42 produtores de café indianos e já chegou a fazer parceria com mais de 80. No entanto, a ideia de Chitharanjan e Asthana de comercializar café indiano de alta qualidade no mercado doméstico foi inicialmente recebida com ceticismo. Como Asthana descreve, um agricultor de café indiano que eles abordaram inicialmente rejeitou a ideia de vender seu produto.

Made in Índia

abCoffee, Blue Tokai e Subko estão explorando o enorme potencial do café produzido na Índia. A estratégia, economicamente, faz sentido – reduz custos de importação – e, ao mesmo tempo, alinha-se a um forte sentimento de orgulho nacional em torno de marcas locais. Em outubro de 2021, o primeiro-ministro Narendra Modi usou um pronunciamento nacional para incentivar a população a ser “vocal for local” (“valorizar o que é local”, em tradução livre) e priorizar produtos fabricados no país.

Interior da Subko Specialty Coffee Roasters

Quando o assunto é café, a Índia dispõe de recursos consideráveis. Dados do governo indiano apontam que a produção nacional atingiu 374,2 mil toneladas no ano safra 2023/24, volume que coloca o país na sétima posição entre os maiores produtores globais. Cerca de 70% desse total vem do estado de Karnataka, no sudoeste, e toda a cadeia emprega aproximadamente dois milhões de pessoas. Até 80% da produção segue para mercados de exportação de commodities.

Encravado entre as florestas densas de Andhra Pradesh, no leste do país, o Vale de Araku vem se consolidando como um pólo de cafés especiais. O estado produz hoje uma fração da safra indiana – cerca de 14,6 mil toneladas –, mas o cultivo de arábica de alta qualidade na região é considerado estratégico para reposicionar a Índia no mercado global de café.

A produção de café na região integra a iniciativa “One District, One Product” (ODOP, cuja tradução livre é “um distrito, um produto”), que oferece apoio governamental a produtos únicos e de alta qualidade produzidos nos 28 estados da Índia. Seja a cúrcuma de Lakadong, as nozes da Caxemira ou as mangas de Gujarat, “cada distrito na Índia destaca um produto para ser promovido no mercado doméstico e internacional”, afirma Randhir Jaiswal, cônsul-geral do Consulado da Índia em Nova York.

No ano fiscal 2024/25, a exportação total de café da Índia passou de US$ 1,80 bilhão – um salto significativo, se comparado aos US$ 719,42 milhões em 2020/21 e US$ 1,15 bilhão em 2022/23.

Como explica Jaiswal, o café é uma peça importante no desenvolvimento econômico da Índia. Embora muitos consumidores no Ocidente já tenham experimentado café indiano em blends populares, solúveis e cápsulas, o consulado em Nova York vem promovendo cafés de origem única e especiais nos mercados internacionais.

“Exportávamos US$ 1 milhão para os EUA em 2019/20 – mas, em 2022/23, chegamos a US$ 61 milhões”, diz Jaiswal, sobre o crescimento da produção de cafés especiais na Índia dois anos atrás. A contribuição econômica do café para o país é evidente, mas as exportações de alta qualidade também têm ajudado a tirar da pobreza comunidades tribais historicamente de baixa renda no Vale de Araku. Grande parte desse trabalho é conduzida pela organização indiana sem fins lucrativos Naandí Foundation, que há 25 anos atua na promoção de práticas de agricultura regenerativa, no incentivo ao empreendedorismo e na ampliação do acesso à educação, especialmente para mulheres e meninas.

“O objetivo é agregar valor ao café dos produtores e garantir a eles o melhor preço. O melhor disso é que a maior parte da renda vai para pequenos agricultores, produtores com pouca terra e comunidades tribais que precisam de apoio – e isso tem um enorme impacto socioeconômico na base. Por todas essas razões, o café se tornou algo muito especial”, afirma Jaiswal.

Membro da Blue Tokai colhendo café em Karnataka

Uma ascensão irrefreável

A força da Índia no cenário global vem crescendo, como ficou claro ao sediar a World Coffee Conference 2023, em Bengaluru. Coordenado pela Organização Internacional do Café (OIC) em parceria com o Coffee Board of India, o primeiro evento de café da Ásia, realizado ao longo de quatro dias, reuniu representantes dos 75 países-membros da OIC, mais de 1,5 mil delegados inscritos e 10 mil visitantes de negócios de várias partes do mundo.

Do mundo da moda à gastronomia, das viagens à tecnologia, os consumidores indianos, cada vez mais numerosos, buscam experiências de estilo de vida premium muito além do café. Em meio a uma onda crescente de otimismo nacional, o empreendedorismo local tornou-se um forte atrativo para a juventude do país, que hoje lidera a rápida transformação da indústria de cafés especiais na Índia.

Aproveitando esse momento, é apenas uma questão de tempo até que essas empresas locais comecem a deixar sua marca na Europa e nos Estados Unidos.

“Café não é apenas uma bebida, é uma conversa e parte de nossa cultura”, afirma o cônsul-geral Randhir Jaiswal. Quando se trata das ambições cafeeiras da Índia, parece que o céu é realmente o limite para esse gigante emergente.

Reportagem publicada na edição de janeiro de 2024 da 5thWave e atualizada pela Espresso com números e valores de novembro de 2025.

TEXTO Tobias Pearce (5THWAVE)

Cafezal

Conexão Cafeína Cocatrel destaca protagonismo feminino na cafeicultura durante a Expocafé

Programação especial reuniu especialistas, produtoras e lideranças do setor para debater inovação, sustentabilidade, gestão e o protagonismo feminino na cafeicultura durante o segundo dia da Expocafé

Painel “Mulheres no café brasileiro: de origem ao mercado global” , com Sílvia Pizzol e Raquel Miranda – Foto: Kahwah Autovisual/Expocafé

Por Gabriela Kaneto, de Três Pontas (MG)

O segundo dia da 29ª edição da Expocafé, realizado nesta terça (27), no Aeroporto de Três Pontas (MG), foi marcado por uma programação especial dedicada ao Ano Internacional da Mulher Agricultora, com o Grupo Cafeína Cocatrel – que promove, desde 2019, a valorização das mulheres na cadeia cafeeira por meio de capacitação técnica e gerencial. 

Chamada de Conexão Cafeína Cocatrel, a iniciativa reuniu produtoras, especialistas e profissionais do setor cafeeiro para debater temas ligados à liderança feminina, inovação, gestão e os desafios da mulher no agronegócio.

“Mulheres no café brasileiro: de origem ao mercado global” foi o primeiro painel do dia e contou com Sílvia Pizzol, diretora de sustentabilidade do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), e Raquel Miranda, consultora sênior do Conselho Nacional do Café (CNC) e da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC). “A oportunidade do Cecafé neste painel foi trazer temas relevantes para o comércio exportador e para a agenda do dia a dia dessas mulheres, que muitas estão envolvidas na gestão das propriedades e precisam estar atentas às principais regras que partem dos nossos mercados consumidores, tanto relacionadas à compliance, socioambiental, rastreabilidade, quanto questões de segurança do alimento e gestão de riscos climáticos”, destacou Sílvia à Espresso. “Isso se conecta muito com o trabalho do Grupo Cafeína Cocatrel, como rede de apoio para fortalecer esse protagonismo feminino”. 

“Cafeicultura em cenários heterogêneos: o triângulo entre fitossanidade, segurança alimentar e sustentabilidade”, com Vanessa Figueiredo – Foto: Kahwah Audiovisual/Expocafé

Vanessa Figueiredo, pesquisadora da Epamig, ministrou o segundo conteúdo, que teve como tema “Cafeicultura em cenários heterogêneos: o triângulo entre fitossanidade, segurança alimentar e sustentabilidade”. O estudo, conduzido ao lado da Dra Sara Chaulfon, da Universidade Federal de Lavras (Ufla), destacou as tecnologias desenvolvidas pela Epamig e dados em relação a doenças do cafeeiro. “Tivemos a oportunidade de transmitir temas atualizados e tecnologias desenvolvidas pela nossa empresa, que tem como objetivo alavancar cada vez mais a produtividade do cafeicultor, no sentido de aumentar sua produção e de maior qualidade”, explicou Vanessa.

O último painel da programação do Conexão Cafeína foi o “Raízes que transformam: café, ciência e propósito na jornada das cafeicultoras”, com Sônia Salgado, pesquisadora da Epamig, e Silvana Novaes, engenheira agrônoma e gerente da gerência da mulher e do jovem de inovação do Sistema Faemg/Senar. “É muito importante ter momentos como esse para que as mulheres da cafeicultura se encontrem e percebam não só a importância desse coletivo, mas também a importância pessoal delas dentro da própria família, para que elas impactem a sucessão rural. Foi um momento muito rico”, comentou Silvana.

“Raízes que transformam: café, ciência e propósito na jornada das cafeicultoras”, com Sônia Salgado e Silvana Novaes – Foto: Kahwah Audiovisual/Expocafé

A ação reforçou a importância da valorização das mulheres no campo e evidenciou o papel cada vez mais estratégico das produtoras na construção de uma cafeicultura mais inovadora, sustentável e diversa.

A Expocafé segue até esta quinta-feira (28), com programação técnica, exposição de máquinas, tecnologias e soluções para o agronegócio cafeeiro.

TEXTO Gabriela Kaneto • FOTO Kahwah Audiovisual/Expocafé

Mercado

29ª Expocafé começa hoje (26) e movimenta o setor cafeeiro em Três Pontas

Com organização da Cocatrel e Espresso&CO, evento traz programação técnica, demonstrações de tecnologias, debates sobre mercado e exposição de estandes com empresas do setor

Por Gabriela Kaneto, de Três Pontas (MG)

A 29ª edição da Expocafé, realizada entre os dias 26 e 28 de maio, no Aeroporto de Três Pontas (MG), reforça seu posicionamento como uma das principais feiras da cafeicultura nacional. Em mais um ano, a Espresso&CO, um ecossistema de marcas do setor do café, está à frente da organização e promoção da feira ao lado da Cocatrel.

“Estamos aqui no primeiro dia da 29ª Expocafé. Essa é a maior edição, com 170 expositores e dois quilômetros de feira”, comenta Jacques Miari, presidente do conselho administrativo da Cocatrel. “Temos programação para a família toda, além de tenda de eventos, com três dias de palestras sobre reforma tributária, gestão de pessoas, tendências inovadoras como tratores autônomos e elétricos, agricultura regenerativa”, complementa.

Reunindo produtores, empresas, especialistas e lideranças do setor e mais de 170 estandes expositores, o evento apresenta as principais tendências, tecnologias e debates voltados ao agronegócio café. Neste primeiro dia, a programação geral traz conteúdos sobre gestão de riscos, orientações para a safra 2026, perspectivas econômicas e políticas, a importância do agrônomo e os impactos da reforma tributária para o produtor. Já na grade do Simpósio de Mecanização da Lavoura, alguns dos assuntos abordados são pulverização com drone e mecanização eletrificada.

“É uma satisfação trabalhar em mais uma edição da Expocafé ao lado da Cocatrel, contribuindo para um evento que conecta inovação, tecnologia e conhecimento ao produtor rural. Em uma região tão tradicional e estratégica para a cafeicultura, a feira se consolida como um espaço fundamental para apresentar soluções, tendências e informações relevantes para o setor”, diz Caio Fontes, CEO da Espresso&CO.

A 29ª Expocafé é realizada pela Cocatrel, com patrocínio ouro do Crea-MG, patrocínio prata da Unimed, Sicoob, Cemig e Governo de Minas, e patrocínio bronze de Anysort, Basari, Biomix, NetZero e Giro. A organização é da Cocatrel, Ufla e Prefeitura de Três Pontas, com apoio de W Outdoor, Rede Mais, Record e EPR Vias do Café. Promoção e organização é da Espresso&CO.

Confira mais sobre o evento no @cafepointbr.

TEXTO Gabriela Kaneto • FOTO Expocafé

Cafezal

Estimativas apontam safra recorde de café no Brasil em 2026/27

Conab projeta 66,7 milhões de sacas, enquanto consultorias trabalham com volumes acima de 70 milhões; produção maior pode ajudar a recompor estoques e impulsionar exportações

A produção brasileira de café está estimada em 66,7 milhões de sacas na safra 2026/27, segundo o 2º levantamento da safra de café, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) na quinta-feira (21). 

Se confirmada, a colheita será recorde na série histórica da estatal, representando uma alta de volume de 18% em relação a 2025, superando em 5,74% a colheita registrada em 2020, quando foram colhidas 63,08 milhões de sacas.

Porém, consultorias privadas têm apontado uma produção brasileira de mais de 70 milhões de sacas em 2026/27, segundo a Reuters, com impulso da colheita de grãos arábica, que responde pela maior parte do total colhido no Brasil e está no ano de alta de produtividade do ciclo bienal. 

A corretora StoneX projeta 75,3 milhões de sacas para a safra do país, citando clima favorável e investimentos nas lavouras após um período de preços recordes. Já a corretora Rabobank estima a safra de café em 73,3 milhões de sacas – aumento de 9,5 milhões ante o ciclo passado, com um salto de 27,5% para o arábica (48,7 milhões de sacas) ante o ciclo anterior, e de 24,6 milhões de sacas para canéforas, com 1 milhão de sacas abaixo do histórico volume do ciclo passado.

Diante dessas expectativas, o Brasil terá exportações recordes de café (julho/junho), próximas a 50 milhões de sacas, projeta Carlos Santana, diretor comercial da exportadora Eisa, uma das maiores do mundo, uma vez que a safra brasileira ajudará a recompor os estoques, que estão baixos no mundo.

Santana avaliou que o fenômeno climático El Niño em formação deverá ser benéfico para a safra brasileira do ano que vem (2027/28), já que o clima mais quente esperado reduz o risco de geadas no próximo inverno. Por outro lado, o fenômeno pode trazer problemas, se as chuvas forem insuficientes entre setembro ou outubro de 2026 para garantir as floradas da próxima safra.

Fontes: Reuters e Conab

TEXTO Fontes: Reuters e Conab

Mercado

Safra recorde, regulação e tensões internacionais marcam o último dia do Seminário Internacional do Café de Santos

Painéis sobre comércio exterior, oferta e demanda e os impactos da geopolítica reuniram lideranças do setor em Santos (SP), com destaque para projeções otimistas da safra brasileira e debates sobre agregação de valor ao café nacional

Por Gabriela Kaneto, de Santos (SP)

Produtores, exportadores, pesquisadores, especialistas e representantes da indústria cafeeira se reuniram em Santos (SP), entre 19 e 21 de maio, para acompanhar a 25ª edição do Seminário Internacional do Café, realizado pela Associação Comercial de Santos.

A programação do último dia do evento contou com debates importantes. Um deles foi o “Painel regulatório”, com com Marcos Matos (Cecafé), Bill Murray (National Coffee Association of USA), Kevin Lardner (Rainforest Alliance) e Augusto Billi (Ministério da Agricultura e Pecuária). Os debates giraram em torno das tarifas impostas pelo presidente Trump, reafirmaram a importância da educação do consumidor sobre os cafés do Brasil e o reposicionamento da União Europeia quanto à EUDR, ao simplificar e diminuir os custos da compliance na regulamentação. 

Outro destaque foi a palestra sobre geopolítica “O fim da hiperglobalização e o Brasil”, do economista Eduardo Giannetti, que explorou as tensões políticas atuais e destacou como esse contexto pode ser uma janela de oportunidades para o Brasil no processo de desglobalização. Potenciais do país, como sua matriz de energia limpa e como player global na produção de alimentos e de reserva de minerais raros são uma vantagem competitiva que o Brasil, deveria usar para se reposicionar globalmente. Além disso, a estratégia do país deve ser a de uma economia mais aberta, aumentando a sua importação e sua exportação de bens manufaturados. “No café, vamos vender menos in natura e mais café processado e industrializado no Brasil, para agregar valor”, pontuou. 

O vice-presidente da Associação Comercial de Santos, Carlos Santana, conduziu o painel “Supply & demand”. Os convidados Claudio Delposte (Rabobank) e Oscar Schaps (StoneX) forneceram estimativas de colheita, clima e consumo de café no Brasil e no mundo, além de questões de logística e volatilidade dos preços internacionais e expectativas das próximas safras nos principais países produtores.

As duas consultorias apostam em uma safra brasileira acima dos 70 milhões de sacas – 73,2 (Rabobank) e 75,3 (StoneX) –, com o arábica alcançando 48,7 milhões de sacas (Rabobank) e 50,2 (StoneX), e o canéfora,  24,6 (Rabobank) e 25,1 milhões de sacas (StoneX). Assim, ambas projetam um superávit do volume de consumo entre 8 e 10 milhões de sacas no mundo.

TEXTO Gabriela Kaneto

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Library Coffee – Toronto (Canadá)

A estação St. Patrick do metrô de Toronto fica em Downtown, no coração da cidade, muito próxima de cartões postais da capital – reconhecida mundialmente por metade da sua população ser composta por imigrantes de diversas regiões do planeta, que resulta em efervescência cultural e uma riquíssima diversidade de etnias e origens.

Situada dentro da área da University Toronto, próxima à Galeria de Arte de Ontário AGO e da Nathan Phillips Square – praça onde fica o famoso letreiro e instagramável de Toronto – a estação abriga o Library Coffee. O nome, uma alusão à biblioteca, já entrega essa conexão com as universidades que estão ao seu redor e ao ritmo urbano. Frequentada por estudantes e transeuntes, a cafeteria acolhe bem quem está de passagem, sem abrir mão de grãos de qualidade.

O espaço é minimalista, com inspiração japonesa, e oferece dois balcões compridos, no formato compartilhado, para quem quer ler ou ouvir música enquanto aprecia um café. No ambiente pequeno, janelas deixam entrar a luz do sol e emolduram o vaivém de pedestres e dos famosos streetcars: os bondinhos vermelhos que compõem a maior operação de bondes das Américas e tornaram-se símbolos de Toronto. No centro do espaço está o coração da cafeteria: o balcão onde duas baristas, diretas e ágeis, preparam os cafés e as demais bebidas da casa.

A carta de cafés especiais é generosa por sua variedade de grãos. A máquina La Marzocco extrai espressos que podem ser preparados com o Seasonal Blend (80% de grãos da Guatemala, da região de Huehuetenango, de processamento lavado, e 20% de Etiópia Sidamo Natural), resultando em uma xícara com aromas de cereja, ameixa e cacau. Há também o Blend ZZZ, elaborado com grãos brasileiros de Minas Gerais, das variedades mundo novo e catuaí vermelho, cultivados a mil metros de altitude, com notas de melaço, chocolate e passas.

Os filtrados são preparados em pour over, com moagem na hora e pesagem cuidadosa – ritual este que dá para acompanhar do balcão. São cinco opções de grãos, entre eles o Yaye: variedade 74158 da região de Sidama, na Etiópia, com notas de mirtilo silvestre, hibisco e vinho.

A carta também contempla mocha, matcha latte, chai latte, chás como Jasmine Imperial, Hibiscus e Lime Ginger, além de cold brew e chá gelado.

As opções para comer são restritas, já que a proposta da cafeteria é to go. O destaque fica com o butter croissant, macio e fofinho, que harmonizou muito bem com o espresso feito com o Seasonal Blend. Já para acompanhar o filtrado feito com grãos Yaye, a escolha foi o chocolate scone, um clássico bolinho inglês de massa amanteigada e aerada, recheado generosamente com pedaços e gotas de chocolate.

No Library Coffee, tudo é servido em embalagens descartáveis, como copos de papel e saquinhos, mas sem tirar o prazer de uma bela degustação, em um ambiente calmo e tranquilo. 

Nossa conta: $24,58 CAD (R$ 89,93, com taxa de serviço)
Espresso – $4,50 CAD (R$ 16,46)
Filtrado – $9,50 CAD (R$ 34,75)
Croissant – $3,75 CAD (R$ 13,72)
Chocolate Scone – $4,00 CAD (R$ 14,63)

*O valor foi convertido levando em consideração a data da visita (CAD = R$ R$ 3,65)

A Espresso visitou a casa anonimamente e pagou a conta.

Informações sobre a Cafeteria

Endereço Dundas St W, 281
Cidade Toronto
País Canadá
Website http://www.instagram.com/tlscoffee

Mercado

Consumo de café cresce 2,44% de janeiro a abril 

Vendas no varejo somaram 4,91 milhões de sacas no quadrimestre, segundo a ABIC; indústria vê recuperação gradual após período de pressão sobre oferta e preços

Por Cristiana Couto

Entre janeiro e abril, as vendas de café brasileiro no varejo cresceram 2,44%, informou nesta quinta-feira (21) a Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC). O avanço corresponde a 4,91 milhões de sacas, ante 4,79 milhões no mesmo período de 2025 — ano em que o consumo havia registrado retração de 5,13% em relação a 2024. O resultado representa um sinal relevante de recuperação para o setor.

“Os dados mostram mudança constante, especialmente a partir de março, quando o consumo melhorou de maneira mais forte”, afirmou o diretor-executivo da Abic, Celírio Inácio, em coletiva de imprensa, ao comentar o aumento de 10,25% registrado naquele mês. Em abril, a alta foi de 3,66%.

Embora o crescimento ainda não compense totalmente as perdas do ano passado, o movimento traz alívio para a indústria e o varejo. “Não podemos falar ainda em recuperação total do mercado, pelos desafios relevantes enfrentados nos últimos meses. Mas, com a melhora gradual do abastecimento de matéria-prima, a expectativa de maior volume de produção, a ausência de notícias climáticas desfavoráveis e maior estabilidade do mercado, há sinais de retomada da confiança”, avaliou.

O faturamento da indústria de café torrado — formada por cerca de 1.050 empresas no país — alcançou R$ 46,24 bilhões em 2025, alta de 25,6% frente a 2024, impulsionada pelo aumento dos preços nas gôndolas.

Segundo a ABIC, o abastecimento de matéria-prima para a indústria retomou um ritmo considerado normal. A situação havia se tornado “crítica” a partir do fim de 2024 e ao longo de 2025, devido às dificuldades de acesso ao produto.

Entre as categorias, os preços continuam elevados em alguns segmentos. O café descafeinado acumulou alta de 21% entre abril de 2025 e abril de 2026, alcançando R$ 114,93 por quilo, enquanto os cafés especiais avançaram 16,89%, para R$ 161,26/kg.

Outras categorias registraram queda. O tradicional/extraforte passou para R$ 55,34/kg (-15,51%), o superior caiu para R$ 70,37/kg (-12,65%) e as cápsulas, segmento com maior valor agregado, recuaram 9,49%, para R$ 364,16/kg.

Cafezal

Expocafé 2026 reúne produtores e especialistas em Três Pontas (MG)

29ª edição acontece entre 26 e 28 de maio, no Aeroporto de Três Pontas, e promove encontros técnicos e comerciais para discutir os desafios e as inovações da cafeicultura

A cidade mineira de Três Pontas recebe, entre 26 e 28 de maio, a 29ª edição da Expocafé, uma das principais feiras do setor cafeeiro no Brasil. Com entrada gratuita, o evento promove encontros técnicos e comerciais, e reúne pesquisadores, consultores e produtores para discutir os desafios e as inovações da cafeicultura.

Entre os destaques do primeiro dia estão as palestras “Diretrizes e orientações para a safra 2026”, às 9h30, com Jacques Fagundes Miari (Cocatrel) e “Fundamentos, panoramas e gestão de risco no café”, às 10h50, com Bruno Popovic (Marex). Já no Simpósio de Mecanização da Lavoura serão debatidos assuntos sobre energia, mecanização eletrificada, trator elétrico e utilização de drone, como no painel “Pulverização com drone na cafeicultura: eficiência, economia e prática”, às 14h, com Adão Felipe dos Santos (Universidade Federal de Lavras – UFLA).

Na quarta (27), Sara Chalfoun, da UFLA, faz uma exposição do tema sobre “Cafeicultura em cenários heterogêneos: o triângulo entre fitossanidade, segurança alimentar e sustentabilidade”, às 10h. Às 14h30, Leandro Paiva (IFSULDEMINAS) discorre sobre inteligência artificial na palestra “Seleção de Café com IA”, seguido por Ricardo Góes (Biomix) e Camila Moreira (Embrapii-Esalq), que ministram o tema “Nutrir, proteger e regenerar: o novo padrão de controle da broca do café” (15h15).

No último dia (28), é a vez do painel “Mapeamento do potencial de qualidade: descobrindo os melhores cafés da propriedade”, às 10h, com Denis Henrique Silva Nadaleti (UFLA). Às 15h20, Matheus Trolesi (Cocatrel) conduz o papo sobre “Os impactos da Reforma Tributária para o produtor rural”. 

A 29ª edição da Expocafé é realizada pela Cocatrel. A organização é da Cocatrel, Universidade Federal de Lavras (UFLA) e Prefeitura de Três Pontas. A organização e promoção é da Espresso&CO.

Expocafé 2026
Onde: Aeroporto de Três Pontas, Três Pontas (MG)
Quando: 26 a 28 de maio
Informações e pré-credenciamento: expocafeoficial.com.br 

TEXTO Redação

Mercado

LAP Coffee, de Berlim, é exemplo de polarização na Alemanha

Com cappuccinos a € 2,50 e modelo baseado em retirada rápida, rede desperta críticas e protestos em meio à piora do cenário econômico alemão 

Clientes na cafeteria LAP, em Berlim, Alemanha. Foto: Reuters

Reuters, de Berlim

Há três anos, quando Ralph Hage lançou a LAP Coffee em Berlim com a missão de levar cafés baratos à capital da Alemanha, ele mal imaginava a reação negativa que seus cappuccinos de € 2,50 (US$ 2,91) provocariam.

Embora a startup esteja conquistando consumidores preocupados com os gastos, ela também dividiu os berlinenses, gerando uma campanha online chamada “LapCoffeeScheisse” (“Lap Coffee é uma porcaria”, em tradução livre) e uma onda de vandalismo que, em outubro passado, deixou muitas das lojas de retirada rápida, originalmente pintadas de azul e branco, cobertas de tinta vermelha e pichações com a frase “Boicote à Lap”.

Porém, ignorando os críticos, a LAP – que opera 30 lojas em Berlim, Munique e Hamburgo –, avança pelas maiores cidades da Alemanha, com planos de abrir mais 20 unidades neste ano, mirando Colônia, Düsseldorf e Frankfurt, disse Hage à Reuters.

“Há uma bipolarização de tudo, não apenas do café”, disse Hage, que se mudou de Nova York para Berlim há sete anos. “Isso é apenas uma representação do que a Alemanha está atravessando neste momento enquanto economia, sociedade e país.”

A maior economia da Europa ainda lutava para recuperar o ritmo pré-pandemia quando a guerra com o Irã elevou os preços, adiando mais uma vez uma recuperação há muito esperada. Conhecidos por serem econômicos, os alemães passaram a vigiar seus gastos ainda mais de perto.

Em meio a essa ansiedade econômica, a LAP — sigla para Life Among People (Vida Entre Pessoas) — apresenta-se como um espaço de previsibilidade de preços em tempos incertos.

“Os contratos futuros do café caíram 8,3%, a inflação subiu 2,3%. Os mercados mudam, nossos preços não”, diz um painel, semelhante aos do mercado financeiro, situado na homepage da empresa.

Mas o modelo de negócios da LAP e sua rápida expansão, apoiada por fundos de investimento privados, deixam muitos alemães divididos, afirmou à Reuters Michael Burda, professor de economia da Universidade Humboldt, de Berlim. “É compreensível que as pessoas tentam economizar em todos os lugares”, disse ele. “Acho que elas são mais contrárias ao aspecto corporativo que isso representa (…). É como uma ‘McDonaldização’ do negócio de cafeterias.”

“Café com bolo” X retirada rápida

As tradicionais cafeterias de café e bolo de Berlim evoluíram nos últimos anos para ambientes descontraídos e modernos, onde os clientes podem permanecer por horas tomando bebidas especiais preparadas habilmente pelo grande contingente de baristas da cidade.

Mas essa cultura tem um preço. A torrefação berlinense 19grams, que opera diversas cafeterias pela cidade, cobra € 4,20 (US$ 4,89) por um cappuccino pequeno e € 5,20 (US$ 6,06) por um grande. A 19grams também fornece grãos para a LAP.

“Nas minhas lojas, uma bebida semelhante custa significativamente mais — não por causa do café em si, mas porque tudo ao redor é consideravelmente mais caro”, disse o proprietário Gerrit Peters, da 19grams. Dois fatores compõem grande parte desses custos adicionais: serviço e aluguel.

A estratégia da LAP é o que Hage chama de modelo de microvarejo: lojas pequenas, equipe reduzida e café para viagem em áreas de grande circulação. Ao reduzir os custos por xícara e depender de alta rotatividade em espaços pequenos, a LAP aposta que conveniência e volume podem superar a fórmula tradicional das cafeterias, baseada em longas permanências e tíquete médio maior.

Sentado em uma cafeteria no bairro de Prenzlauer Berg, no leste de Berlim, Ben Jones, professor de inglês natural de Carlisle, Inglaterra, disse que a LAP jamais substituirá seu café dominical com amigos. “Mas, em um momento em que os preços parecem só aumentar em todas as áreas, os preços acessíveis da LAP são uma bênção para minha conta bancária”, disse ele.

Dividindo os berlinenses 

Ainda assim, alguns moradores de Berlim veem o modelo de retirada rápida da LAP como uma ameaça à cultura do café da cidade, com críticos alertando que cafeterias tradicionais não conseguem competir em preço.

No descolado bairro de Kreuzberg, Nikita Jung e uma amiga saíram de uma unidade da LAP Coffee sem comprar nada depois de um súbito sentimento de culpa. “Nós pensamos nisso. Vale mesmo a pena tomar um café barato se isso significar que pequenos cafés podem deixar de existir por causa disso?”, disse ela à Reuters.

Os críticos também argumentam que o apoio de capital de risco significa que a LAP não sofre pressão para gerar lucro no curto prazo, permitindo que ganhe participação no mercado por meio de uma rápida expansão.

A LAP concluiu, de fato, duas rodadas de investimento. Mas isso, segundo Hage, aconteceu somente depois que bancos alemães rejeitaram sua ideia, levando-o inicialmente a recorrer a familiares e amigos em busca de capital.

“O fracasso dos mercados de capital alemães não é que o capital de risco seja excessivamente dominante; é que os bancos locais são extremamente conservadores”, afirmou Burda, da Universidade Humboldt.

Conforme avança com seu plano de expandir a LAP Coffee pela Alemanha, Hage acha graça quando ouve falar do medo de que ele possa dominar o mercado, e refere-se às cerca de 11 mil cafeterias existentes no país. “Se abrirmos duas lojas por mês, levaríamos 450 anos para monopolizar o café na Alemanha.”

TEXTO Reuters • FOTO Reuters/Nadja Wohlleben
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