Mercado

A relação entre a Geração Z e o café

Eles são a geração mais escrutinada da história – mas será que a indústria do café realmente entende a Gen Z?

Por Tobias Pearce (5thWave)

A The Economist os chamou de “incrivelmente ricos”. O Fórum Econômico Mundial diz que é a geração mais “hiperconectada e hipersolitária” que já existiu. Para alguns, eles são preguiçosos e sem habilidades sociais. Outros elogiam seu espírito empreendedor. Em 2025, eles chegaram a derrubar governos com manifestações em massa. A Geração Z, genericamente definida como os nascidos entre 1997 e 2012, é a mais analisada da história.

Todos têm opinião, e toda empresa quer captar sua atenção. Esse grupo demográfico enigmático tornou-se o santo graal dos profissionais de marketing do setor, e a indústria está obcecada em entendê-los. O que está em jogo não é só mais uma tendência ou oportunidade passageira. Trata-se de capturar o futuro do consumo de café.

Um mundo em transformação

Sempre houve dificuldade de conexão entre gerações, mas a Geração Z enfrenta um mundo incerto de modo imprevisível. A crise climática, o avanço da inteligência artificial e a instabilidade geopolítica fazem com que eles lidem com ansiedades sociais, políticas, tecnológicas e ambientais que são únicas.

“A Geração Z não é uma nova geração; é uma mudança geracional. Saímos da pandemia; ainda há incertezas financeiras e os conflitos aumentam. O mundo está conectado, e essas mudanças econômicas e sociais estão acontecendo justamente quando a Geração Z está entrando no consumo de café”, diz André Eiermann, gerente global de produtos da Melitta e criador da pesquisa Gen Z x The Future of Coffee.

Chamados “nativos digitais”, esses jovens estão reformulando atitudes por meio de um engajamento sem precedentes nas redes sociais. Embora tenham posturas progressistas em relação à fluidez de gênero, eles também abraçam tendências ultraconservadoras, como as tradwives (esposas tradicionais) e a machosfera (manosphere). Sua atitude em relação ao café é igualmente difícil de decifrar e em uma era de tendências velozes, alta conectividade e intercâmbio cultural, a preocupação central das marcas em todo o mundo é manter-se relevante.

O que dizem os dados

Pesquisa do World Coffee Portal nos maiores mercados de cafeterias de marca do mundo – China e Estados Unidos – mostra que a Geração Z prefere bebidas geladas, personalização e conveniência digital.

Na China, 24% dos entrevistados com menos de 25 anos visitam cafeterias diariamente ou várias vezes ao dia, ante 11% dos maiores de 45. O sucesso de redes digitais como Luckin Coffee, Cotti Coffee e KCoffee ajuda a explicar o avanço do consumo de café em um país tradicionalmente ligado ao chá. Entre os jovens da Gen Z, 77% costumam pedir café pelos aplicativos das marcas.

Os consumidores mais jovens impulsionam o consumo de café gelado no país: 48% dos menores de 25 anos preferem bebidas frias ao longo do ano, ante 31% dos maiores de 45. A personalização também é relevante: em 2025, 41% adicionavam creme de coco ao café, contra 35% entre os mais velhos.

Nos Estados Unidos, essa diferença geracional no consumo é mais acentuada. Mais de um quinto dos consumidores com menos de 25 anos toma café frio diariamente, ante 8% dos acima de 60. Já o café quente é consumido todos os dias por 77% dos mais velhos, contra 27% dos mais jovens.

“Impulsionadas pelas redes sociais, as tendências entre os consumidores da Geração Z surgem praticamente da noite para o dia. Antes, elas levavam meses ou anos para ganhar força”, diz Bradley Journeaux, responsável pela pesquisa.

André Eiermann também viu tendências surgirem e desaparecerem. Trader de café na Volcafe desde 1999, campeão suíço de barista em 2017 e ex-executivo de empresas como UCC e Eversys, ele toca a já referida investigação Gen Z x Future of Coffee com a ZHAW Coffee Excellence Center, instituição acadêmica suíça de pesquisa e tecnologia do café. Já foram entrevistados mais de mil jovens consumidores e profissionais do café em mais de 60 países.

Os primeiros resultados mostram forte preferência por bebidas personalizáveis, geladas e aromatizadas, consumidas ao longo do dia. Já o espresso é mais consumido de manhã – muitos mencionam sensibilidade à cafeína. Outros simplesmente evitam tomá-lo. O consumo de café, portanto, está evoluindo. Mas para onde ele vai?

O que dizem as redes sociais

Quando, em 2026, um skit no Instagram de Tommy Armour, ex-participante do reality show de namoro Love Island Australia, faz ironia ao pedir um flat white “normal” e ultrapassa um milhão de curtidas, a indústria do café deveria prestar atenção.

Se a Geração Z consome menos espresso e bebidas clássicas à base dele, o que as cafeterias podem fazer para se adaptar? Entender as tendências do TikTok é um bom ponto de partida. O termo “max-xing” é um fenômeno cultural da Geração Z que significa ir “com tudo” em algo específico. No café, “flavour maxxing”, “caffeine maxxing”, “protein maxxing” e “fibre maxxing” buscam aumentar a intensidade de sabor e os benefícios funcionais da bebida com a adição de itens personalizados.

Essas bebidas em alta costumam ser superdoces, supercoloridas e ter, até, tamanho gigante. Entre elas está o ube, inhame das Filipinas de um roxo vibrante incorporado a lattes que viralizaram nas redes. Há também o proffee – shakes prontos de proteína misturada a espresso ou cold brew, responsáveis por um impulso a mais antes de treinos –, uma tendência que certamente joga a favor da recente aquisição da Huel pela Danone por € 1 bilhão.

Outra criação viral do TikTok é o cloud coffee – um americano preparado com água de coco e servido com uma camada de leite vegetal sobre gelo. Sinalizando essa nova era de experimentação, a Nespresso apresentou em abril o pickle coffee cola, uma bebida inspirada em sua nova embaixadora da marca, a cantora pop Dua Lipa.

Mas ter tudo, em todo lugar e ao mesmo tempo pode, rapidamente, esgotar um sabor em alta. Hot honey, chocolate de Dubai e pistache – ingredientes que antes viralizaram – agora perdem popularidade e, depois de massificados, até provocam o temido “ick” nos consumidores.

Ainda assim, a tendência mais ampla em direção a bebidas geladas, coloridas e experimentais parece ter vindo para ficar – e está mantendo operadores e fornecedores em constante adaptação. “A Geração Z quer tudo gelado, o ano todo. Bebidas funcionais, com colágeno ou vitaminas, tendem a ser mais populares. Como os consumidores estão mais conscientes de como e onde gastam, oferecer funções adicionais é o incentivo de que precisam”, diz Helen Ostle, diretora de comunicação da Beyond the Bean, fornecedora britânica de concentrados funcionais, matcha e chai.

Mas Helen não acredita que este seja o fim da linha para o espresso, e, sim, uma diversificação da demanda em meio ao avanço da personalização. “Os consumidores mais jovens não estão rejeitando o café; estão rejeitando a mesmice. Diante da pressão contínua sobre o mercado, os operadores precisam olhar com mais atenção para o mix de bebidas”, afirma.

Ilya Aksamentov é diretor de marca da The Miners, grupo tcheco de cafés especiais com mais de vinte unidades em seis mercados europeus. Ele concorda que os cardápios tradicionais baseados em espresso já não atraem a Geração Z como acontecia com gerações anteriores. “Seu verdadeiro concorrente não é só a cafeteria da esquina, mas o matcha, os energéticos e as RTDs. Se não for fotogênico, é invisível para a Geração Z”, afirma.

O pragmatismo financeiro e cultural desta “geração sensata” também significa que menos jovens estão socializando em torno do álcool. Em vez disso, eles se aproximam de produtos ligados à saúde e ao bem-estar, o que faz dessa categoria uma grande oportunidade para as cafeterias.

“Eles estão reformulando a narrativa em torno do consumo de álcool e substituindo essa experiência por alternativas mais saudáveis, como café e matcha”, diz Carlos Fertonani, cofundador da The Coffee, rede boutique de cafeterias com foco digita e mais de 330 lojas em 22 mercados globais.

Para empresas de café e hospitalidade, essa mudança tem um impacto profundo. Recentemente, a Starbucks informou um aumento de 70% nas vendas de chá desde 2022, aparentemente impulsionado pelo matcha, em mais de 10 mil lojas próprias nos Estados Unidos.

No fim de 2025, o Manchester Airports Group, maior grupo aeroportuário do Reino Unido, informou que viajantes da Geração Z estavam liderando a queda nas vendas de fast-food e bebidas alcoólicas nos aeroportos de Manchester, London Stansted e East Midlands. Porém, as vendas de smoothies saudáveis e matcha nesses três hubs de viagem cresceram 650% e 165%, respectivamente, em relação a 2024.

Não seja uma marca “cheugy”

Em um mundo hiperconectado, onde consumidores são bombardeados por uma cacofonia de marketing 24 horas por dia, “furar a bolha” – no jargão do marketing para a Geração Z – significa atravessar o ruído do scrolling infinito e das notificações constantes.

“Playing through” quer dizer manter a atenção com conteúdos autênticos e envolventes. Marcas voltadas à Geração Z que fracassam nisso acabam relegadas ao status de “cheugy” – gíria popularizada no TikTok para definir algo fora de moda ou que se esforça demais para parecer descolado, especialmente associado à estética Millennial. Isso significa que, embora operadores de café possam permitir que a Geração Z faça o “flavour maxx” das bebidas ao oferecer mais personalização, o próprio “marketing maxxing” seria extremamente “cheugy”.

É um verdadeiro campo minado para os marqueteiros do café – e é a Geração Z que decide o que está em alta. “A vibe é tudo. Não precisamos publicar longos textos sobre algo que podemos mostrar em uma imagem bem produzida ou em um vídeo divertido”, diz Bryan Serwatka, gerente de comunidade de café da Minor Figures, que vê nos influenciadores de lifestyle um caminho importante para conquistar a atenção da Geração Z.

Recentemente, a marca britânica de alternativas lácteas e cafés RTD mobilizou 24 criadores de conteúdo para sua campanha “Hyper Oat RTD”, incluindo a influenciadora de moda e lifestyle Paris Artiste e o estilista gastronômico Ben Slater. Segundo a Goat, agência de marketing voltada à Gen Z, as campanhas no TikTok e no Instagram geraram 17 milhões de visualizações e seis milhões de engajamento.

A Gen Z também é menos propensa a usar marcas como símbolo de status e prefere valorizar experiências de hospitalidade com significado. Para cafeterias que colocam logotipo nas xícaras, isso é tanto um desafio quanto uma oportunidade. “A Geração Z quer cocriar com as marcas bebidas, espaços e atmosfera. Eles querem fazer parte da comunidade”, observa Eiermann.

A rede boutique de cafeterias EL&N percebeu logo essa dinâmica ao criar lojas fotogênicas, que incentivaram os clientes a integrar a marca às suas redes sociais. A dinamarquesa Joe & The Juice também construiu, desde o início, uma comunidade em suas lojas voltada a consumidores e funcionários jovens.

Depois de capturar o espírito do tempo em torno do matcha e dos cafés aromatizados entre a Geração Z, a Blank Street reformulou sua marca, transformando as lojas em destinos conectados não só ao café, mas a um estilo de vida.

A Starbucks também percebeu isso, e redirecionou sua estratégia para experiências mais significativas, focadas em longas permanências – retornando às raízes do conceito de “terceiro lugar” depois da mal sucedida aposta em lojas pick-up voltadas ao digital. “Nosso negócio não é só café; reunimos pessoas, e foi isso que fez com que se apaixonassem por nossa marca”, reconheceu a rede no fim de 2024.

“A Geração Z se identifica mais com o que as marcas de lifestyle representam. Apresentar os valores da marca a eles é tão importante quanto promover os produtos”, analisa Fertonani. Para marcas bem posicionadas, a elegância dessa abordagem faz com que o compartilhamento orgânico nas redes sociais amplifique o alcance do marketing para além de uma campanha convencional.

“Há mais chance dos jovens interagirem pela primeira vez com uma marca via online, mas a experiência do usuário é crucial para mantê-los ali”, afirma Serwatka. Para a Nothing Before Coffee (NBC), rede indiana de cafeterias com mais de cem lojas e voltada à Gen Z, essa abordagem deu certo. Depois de captar cerca de US$ 3 milhões, a NBC planeja quadruplicar o número de unidades até 2029.

“A diferença é que a Geração Z não gosta de ser alvo de marketing”, diz Akshay Kedia, jovem empreendedor por trás da NBC. “Tratamos o Instagram como uma comunidade, e interagimos o tempo todo por meio de reels, concursos e conversas. Eles não querem só conteúdo, querem fazer parte dele.” Offline, as lojas da NBC costumam promover noites de jogos e raves matinais sem álcool para os clientes. “Nos dias mais tranquilos, a atmosfera muda: o espaço vira um ambiente calmo e confortável para leitura ou trabalho”, completa.

Atenção para o olhar da Gen Z

Se você trabalha com jovens ou já foi atendido por eles, talvez tenha se deparado com o temido “olhar da geração Z”. Essa reação vazia e sem expressão, geralmente observada em situações de atendimento ao cliente, chamou atenção da mídia em 2025.

Alguns comentaristas atribuíram o fenômeno à pandemia, que teria prejudicado as habilidades sociais da Geração Z. Outros, ao aumento da ansiedade entre jovens e à resistência a uma performance positiva no ambiente de trabalho. E houve quem concluísse que eles são mal-educados.

À medida que o debate ganhou força, integrantes da Geração Z recorreram ao TikTok para responder. Alguns argumentaram que a pausa serve para formular respostas mais adequadas. Outros foram mais diretos. “Muitas pessoas de gerações mais velhas falam demais, são rudes e se orgulham da própria ignorância. É preciso trabalhar no setor de alimentação para entender o quanto as pessoas podem ser estúpidas”, afirmou Efe Ahworegba, então com 19 anos e funcionária de uma rede de fast-food, em um post que hoje acumula 3,6 milhões de curtidas.

A Geração Z está disposta a questionar sistemas e caminhos tradicionais de crescimento pessoal e financeiro. Assim como os Millennials, eles também enfrentaram a erosão do “contrato social” em relação ao emprego e à segurança financeira depois da pandemia e da crise do custo de vida.

“É uma geração que atingiu a maioridade durante a Covid, quando muitos perderam as primeiras experiências no ambiente de trabalho e as oportunidades de aprendizado presencial. Isso afetou os níveis de confiança de muitos jovens. Mas não devemos confundir isso com falta de habilidade de comunicação ou de motivação. Com suporte e ambiente adequados, eles se adaptam e prosperam”, diz Eve Wagg, CEO e fundadora da Well Grounded, que apoia jovens no setor cafeeiro oferecendo treinamento e oportunidade de emprego.

A indústria do café precisa da Geração Z para garantir as vendas futuras e renovar seus quadros. Embora empregadores do setor de hospitalidade tenham razões legítimas para se preocupar com a forma como jovens funcionários interagem com os clientes, também é importante compreender o contexto em que essa geração foi formada.

Pesquisa global da Deloitte com mais de 23 mil integrantes da Geração Z e Millennials mostra que cerca de nove em cada dez consideram o senso de propósito importante para a satisfação no trabalho. Ao mesmo tempo, 48% dos entrevistados da Gen Z não se sentem financeiramente seguros, ante 46% dos Millennials. Mais da metade de ambos os grupos gasta tudo o que recebe.

A Geração Z prioriza o ‘bom trabalho’ – que ofereça remuneração justa, bem-estar, propósito e oportunidades de crescimento. Isso cria uma abordagem mais informada e intencional em relação à carreira”, diz Eve. Embora o setor de hospitalidade esteja entre os mais desejados, a crescente exigência de conhecimento especializado nas vagas de entrada pode dificultar o acesso ao emprego. “A Geração Z quer trabalhar, aprender e evoluir. Cabe ao setor investir nesse potencial, oferecendo treinamento, suporte e oportunidades de crescimento. Quando encontra o ambiente adequado, ela traz energia, propósito e disposição para transformar positivamente a indústria.”

Assim como o consumidor “médio” é uma métrica útil, mas também uma ficção estatística, tratar milhões de jovens como um grupo homogêneo pode obscurecer a complexidade, a diversidade e a criatividade dessa geração.

“Fico constrangida ao ver que a Geração Z é tratada como se todos fossem a mesma pessoa, com as mesmas necessidades e os mesmos comportamentos. É muito superficial tratá-la como um grupo à parte, mais conectado e atento às próprias emoções e que impõe limites”, acredita Serwatka, da Minor Figures.

Ainda assim, a Geração Z vem desafiando a indústria do café a inovar mais rapidamente do que nunca, impulsionando o crescimento e dando novo fôlego a cardápios antes ameaçados pela estagnação.

Se a indústria do café parecia estagnada, os dois últimos anos marcaram um período de rápida inovação, impulsionado pela ascensão do matcha, pela experimentação de sabores, por ingredientes funcionais e pela integração entre experiências online e offline.

A Geração Z está no centro dessa reinvenção. Com cerca de US$ 450 bilhões em renda no mundo, é o grupo decisivo para o futuro do café e da hospitalidade. Vale recebê-lo bem – mas sem tentar parecer “descolado”.

Texto originalmente publicado na edição #93 (junho, julho e agosto de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Tobias Pearce (5THWAVE)

Cafezal

Inscrições abertas para a edição 2026 do concurso Coffee of the Year

Concurso, que premia os melhores cafés arábica e canéfora do Brasil em cerimônia realizada durante a Semana Internacional do Café, recebe amostras até 5 de outubro

Estão abertas a partir desta segunda-feira (17) as inscrições para o Coffee of the Year 2026, premiação que busca mapear e reconhecer os melhores cafés do Brasil, incentivando o aprimoramento da produção nacional e a valorização de novas origens produtoras. Produtores de todo o país podem inscrever amostras de grãos das espécies arábica e canéfora. 

Este ano, cada produtor poderá inscrever apenas uma única amostra no concurso. Conforme o regulamento, será considerada a vinculação simultânea do CPF do produtor e da identificação da propriedade rural. Não serão aceitas inscrições oriundas da mesma propriedade, ainda que realizadas por pessoas distintas, nem múltiplas inscrições de um mesmo produtor vinculadas a propriedades diferentes. O valor da participação é de R$ 200.

As amostras (03 kg), juntamente com a ficha da amostra, devem ser enviadas até o dia 5 de outubro para o Centro de Excelência em Cafeicultura do Senar, no endereço abaixo:

CONCURSO COY – COFFEE OF THE YEAR 2026
SEMANA INTERNACIONAL DO CAFÉ
A/C PROFESSOR LEANDRO PAIVA
CENTRO DE EXCELÊNCIA EM CAFEICULTURA – SENAR
RUA LUIZ DOMINGHETTI, Nº 115 – RESIDENCIAL ALTO DO VALE
VARGINHA (MG) CEP: 37048-854

Sobre o COY

O concurso começa com o recebimento das amostras, que passarão por um processo de avaliação conduzido por uma Comissão de Julgadores formada por especialistas de todo o país. Serão selecionadas as 180 melhores amostras, sendo 150 da categoria arábica e 30 da canéfora.

As amostras selecionadas serão apresentadas na sala Cupping & Negócios da Semana Internacional do Café, que este ano será realizada de 11 a 13 de novembro, em Belo Horizonte (MG). Dentre elas, os 10 melhores cafés arábica e os 5 melhores canéfora participam da votação popular no evento, por meio de degustação às cegas com método filtrado, em garrafas térmicas disponíveis nos dois primeiros dias de SIC. 

A divulgação dos nomes e da ordem dos finalistas, bem como a cerimônia de premiação, acontecem no último dia de SIC, 13 de novembro, às 15h, no Grande Auditório.

Cafezal

Colheita de café 26/27 no Brasil alcança 90%, diz Safras & Mercado

A colheita da safra brasileira de café 2026/27 atingiu 90% da produção até o dia 12 de agosto, marcando um avanço de 6 pontos percentuais em relação à semana anterior, mas ainda com atraso frente ao registrado no ano passado, apontou levantamento da Safras & Mercado nesta sexta (14). De acordo com a consultoria, em igual período de 2025, os trabalhos de colheita alcançavam 97% da produção, enquanto a média dos últimos cinco anos (2021-2025) é de 94%.

Entre as espécies de café, a colheita de canéfora (conilon/robusta) chegou ao fim, “restando apenas alguns poucos repasses e a retirada dos últimos cafés das lavouras”, enquanto a de arábica atinge 86% da produção.

Fonte: Reuters

Mercado

Terremoto interrompe escoamento de café por principal porto da Colômbia

Buenaventura retomou as operações nesta quinta-feira (13), mas bloqueios nas estradas podem atrasar embarques

Por Cristiana Couto

O terremoto de magnitude 7,4 que atingiu na segunda-feira (10) o oeste da Colômbia e parte de sua principal região cafeeira interrompeu por três dias o escoamento do grão por Buenaventura, principal porto de saída do produto no país. Os terminais retomaram as operações nesta quinta-feira (13), mas o café represado e as restrições nas estradas ainda podem atrasar os embarques.

A rodovia Buga–Buenaventura foi liberada, para veículos de carga, com trânsito controlado nos pontos críticos, segundo balanço do Ministério dos Transportes publicado pelo jornal colombiano El Espectador.

Buenaventura havia suspendido as operações para inspecionar seus três terminais – Agua Dulce, Sociedad Portuaria e TCBUEN. Germán Bahamón, gerente-geral da Federação Nacional de Cafeicultores da Colômbia (FNC), afirmou à Reuters na quarta-feira (12) que as exportações continuavam por Cartagena e Santa Marta, no Caribe.

Entre janeiro e agosto de 2025, Buenaventura respondeu por 58,1% dos contêineres de cafés colombianos exportado, segundo dados do Grupo Puerto de Cartagena publicados pelo jornal colombiano La República em novembro. A Colômbia exporta cerca de 1 milhão de sacas por mês. Cada dia de interrupção pode adiar o despacho de mais de 30 mil sacas.

Deslizamentos bloquearam trechos da rodovia Cali–Buenaventura e impediram a passagem de veículos de carga, informou o La República na quarta. A interrupção acontece no momento de concentração da colheita em Cauca, Nariño, Valle del Cauca e Huila, no sul e sudoeste do país, cuja produção costuma ser escoada pelo porto, segundo a Associação Nacional de Exportadores de Café da Colômbia (Asoexport).

Unidades de processamento da região também avaliam os danos. Cortes de energia, falhas de conectividade e a situação dos trabalhadores afetaram as operações, informou a revista Global Coffee Report na quarta.

A FNC e o Comitê de Cafeicultores de Quindío levantam prejuízos em propriedades rurais dos 12 municípios do departamento. Armazéns de insumos agrícolas de Filandia e Buenavista, por exemplo, estão fechados após apresentarem danos estruturais, informou o site colombiano El Quindiano na terça-feira (11).

Pereira, capital de Risaralda e uma das principais cidades do Eje Cafetero, contabilizava nesta quinta-feira 93 mortos, 260 desaparecidos e 259 feridos. Ao todo, a Colômbia registra 273 mortes e mais de 3,8 mil feridos.

Fontes: Reuters, El Quindiano, Global Coffee Report, La República, FNC e Ministério dos Transportes da Colômbia

TEXTO Cristiana Couto

Itinerário literário do café

Por Moisés Stahl

Bebedor contumaz de café, o literato francês Honoré de Balzac gostava de sugeri-lo como um bom companheiro na revisão de textos. Reforçava o poder estimulante da bebida ao dizer: “Escreva com vinho, revise com café”. Não só apreciado por escritores, o café e seu ambiente foram representados na literatura, sobretudo brasileira, com personagens e relações cuja base é a fazenda de café. Desde a narrativa fundadora de sua origem, o café fez parte do dia a dia dos seus produtores, consumidores e dos que imaginam histórias sobre o grão.

Uma das marcas da cafeicultura é seu caráter itinerante: a produção se desloca, dentro de um país ou no cenário global. No fim do século XVIII, quando Saint-Domingue — então colônia francesa e maior produtora mundial — entrou em colapso com a Revolução do Haiti (1791-1804), o Brasil expandiu suas lavouras, superou o Haiti e consolidou-se como principal produtor ao longo do século XIX.

Outro exemplo: da Etiópia, o grão segue para o Iêmen, que se torna o primeiro polo de produção intensiva e exportação nos séculos XVI e XVII. Em sua rota global, chega ao Pará, em 1727. Do Vale do Paraíba — primeira grande região produtora — ao Oeste Paulista, que no fim do século XIX assumiu perfil capitalista, o café estruturou uma verdadeira sociedade cafeeira.

Mais que um fenômeno econômico, o café forjou um imaginário social e cultural. Mas é possível falar em uma literatura do café?

Na expansão dos cafezais, distinguem-se três áreas: zonas velhas, de baixa produtividade; intermediárias, de plena produção; e pioneiras, em plantio ou formação. Ao avançar, a cafeicultura transformou a paisagem e estruturou uma sociedade fundada nas relações de sua produção — base material de uma imaginação literária povoada por narrativas e personagens inscritos no ambiente do café.

Não foram poucos os literatos brasileiros que escreveram sobre o café. Embora seja longa a lista desses autores, alguns foram notáveis em transpor para a ficção o espírito de uma época.

Talvez Monteiro Lobato tenha sido quem mais galvanizou a literatura do grão. Nascido em Taubaté, no Vale do Paraíba, o escritor cresceu em uma realidade marcada pelo legado da cultura cafeeira. Pela fazenda desfilam personagens que mantêm vínculo com uma cultura já superada, em volume, pela produção pujante do Oeste Paulista no final do século XIX.

Com a cafeicultura do Vale em declínio, muitos produtores — como observou, em 1883, o cientista francês Louis Couty — seguiam presos a um modelo extensivo, monocultor e dependente da mão de obra escrava, já incompatível com as transformações econômicas do Oeste Paulista. Para Couty, os cafeicultores do Vale viviam o lado passado do futuro; no Oeste, o futuro acontecia.

No Vale de Lobato, um personagem sintetiza essa realidade presa a uma dinâmica colonial de produção: o major Mimbuia, do conto “Café! Café!”, publicado em 1900 no jornal O Povo de Caçapava e depois reunido em outras obras do autor. Preso à terra e à rotina da lavoura, à espera de incentivos oficiais e já em crise, Mimbuia profere as últimas palavras: “Há de subir, há de subir, há de chegar a sessenta mil réis em julho. Café, café, só café!”.

Em 1906, com o Convênio de Taubaté, seu desejo de amparo oficial seria, afinal, atendido. Para Lobato, Mimbuia encarnava o atraso nacional: “Na cabeça, já branca, habitavam ideias de pedra”. Pensava só no café, não admitia outros gêneros, não incrementava a produção com máquinas ou diversificação — queria lucro sem modernização.

Em crônica de 1924, Ribeiro do Couto, atento à linguagem e à cultura forjadas pela cafeicultura, permite ao leitor ver a confluência de tempos num “triangulozinho de terra” entre São Paulo, Rio e Minas — espaço onde se ergueram, com a força do café e de mãos negras, cidades como São José do Barreiro, vizinha à próspera Bananal, “herdeira de tradições e de riqueza cafeeira”. Esses tempos sobrepostos surgem na figura de Samuel, negro centenário: “Tinha mais, mais de cem anos / E teus olhos tão humanos / Eram cheios do Brasil”.

Ao descrever e refletir sobre o contexto e a figura de Samuel, o autor — atento ao falar local — registra que o velho tomava o café “acompanhado com duas mãos”: numa, a bebida; noutra, a batata-doce. A crônica evoca o Brasil do café antes vibrante, então esgotado, sem o ritmo do Oeste. Herdeiro de tradições, o velho Vale do Paraíba já não prosperava, mas preservava a cultura; o progresso seguia os trilhos rumo ao Oeste.

No Oeste paulista, no início do boom produtivo, José de Alencar publicou, em 1872, o romance Til. A trama se passa no cotidiano de uma fazenda de café em Campinas, então área de rápida expansão. Detalhista, o narrador descreve a terra coberta por crosta de argila roxa, “afamada na província por sua espantosa fertilidade”. Ao incorporá-la ao texto, Alencar reforça que a riqueza advinha dessa fecundidade — guardada na mata ou revelada pela derrubada da floresta.

Na confluência dos rios Atibaia e Piracicaba, a fazenda, diz o narrador, estava “no seio de uma bela floresta virgem, porventura a mais vasta e frondosa das que então contava a província de São Paulo, e [que] foram convertidas, a ferro e fogo, em campos de cultura”. A expansão da cafeicultura sistematizou esse desmatamento, feito, literalmente, a ferro e a fogo.

A cena da queima da mata derrubada é recorrente na literatura e em livros de memória. “Papai falava em aumentar os cafezais, pois que, atravessando a estrada de ferro, tinha mata e terras muito boas. Levaram a derrubar essa mata, deixaram secar e, quando menos esperávamos, papai nos disse que iria fazer a queimada, ia pôr fogo na derrubada”, relata Brazilia Oliveira de Lacerda em suas memórias Dias Ensolarados no Paraizo, das décadas de 1890 e 1900.

As queimadas eram mais frequentes nas áreas de plantio recente. Enquanto o Vale vivia a estagnação, o Oeste acelerava a expansão. Nesse cenário surge outro personagem de Lobato, o Jeca Tatu, símbolo da inércia atribuída ao Vale do Paraíba. No auge produtivo, entre as décadas de 1840 e 1870–80, o Oeste paulista afirmava-se como nova frente cafeeira.

Com as transformações e o passar dos anos, o Vale tornou-se menos produtivo, enquanto o Oeste avançava em busca de novas terras férteis. Embora a produção em Campinas e Ribeirão Preto mantivesse bom ritmo — ainda que sujeita a oscilações —, as mudanças político-econômicas nacionais e internacionais passaram a afetar diretamente o café brasileiro, sobretudo após a Crise de 1929 e a Grande Depressão.

Em Fazenda, romance de 1940, Luís Martins retrata a decadência do café e matiza a ascensão do algodão, insumo-chave da indústria têxtil já em crescimento. O narrador observa que “o pessoal que tinha colhido o algodão achava o café um serviço melhor”. A tradição cafeeira — e a preferência dos trabalhadores pelas roças de café — gerava resistência à novidade do algodão.

“O café é uma epopeia”, disse Monteiro Lobato, ao reafirmar o caráter épico do fruto. Para ele, quando a literatura brasileira tomasse consciência de sua missão, “a epopeia, a tragédia, o drama e a comédia do café serão os grandes temas de quantos sentiram em si a fagulha divina”.

Lobato propôs uma agenda literária do café, ancorada numa história de mudanças econômicas e sociais. A cafeicultura forjou uma cultura de narrativas literárias reveladoras do clima das relações sociais, tornando-se fonte de informação e entretenimento para uma sociedade que prosperou em ritmos distintos da produção cafeeira.

É possível, assim, responder afirmativamente à questão do uso da literatura na elaboração do conhecimento histórico: embora não seja relatório, carta ou jornal, ela inscreve-se na realidade histórica de seu tempo.

Moisés Stahl é doutor em história econômica pela USP e autor de Louis Couty e o Império do Brasil (Editora da Ufabc).

Texto originalmente publicado na edição #91 (março, abril e maio de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Moisés Stahl • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Barista

Copa Matcha abre inscrições para competição de latte art em dez cidades brasileiras

Evento promovido pela Namu Matcha leva a competição para dez cafeterias brasileiras e reforça o crescimento da bebida no mercado nacional

Foto: Vic Mrtns Foto & Vídeo

Baristas interessados em disputar a edição 2026 da Copa Matcha já podem se inscrever para a competição de matcha latte art, que será realizada em 20 de agosto, simultaneamente em dez cidades brasileiras. As inscrições custam R$ 30 e devem ser feitas pelos perfis das cafeterias participantes em cada cidade.

Promovida pela Namu Matcha, a competição acontece nas cafeterias Hyus Haus (São Paulo/SP), Move Coffee (Rio de Janeiro/RJ), Nakombi Coffee Co. (Florianópolis/SC), Ernesto Cafés Especiais (Brasília/DF), OOP Café (Belo Horizonte/MG), Asteristico Café (Curitiba/PR), XOX Coffee Club (Porto Alegre/RS), Colha Padaria (Maringá/PR), Versado Café (Recife/PE) e Let’s Bora Café (Goiânia/GO). Durante as disputas eliminatórias, os competidores produzem desenhos em bebidas à base de matcha diante do público, em um formato voltado à interação e ao compartilhamento nas redes sociais.

Segundo a organização, a edição de 2025 reuniu mais de 120 inscritos, alcançou mais de 50 mil pessoas e somou mais de 100 mil visualizações. Os vencedores deste ano receberão prêmios oferecidos pelas marcas Namu Matcha, Nude, Pasquali, Escola de Chá Embahú e Lindoya.

Idealizada para valorizar o trabalho dos baristas e ampliar a presença da cultura do chá nas cafeterias brasileiras, a Copa Matcha reúne profissionais, empresários do setor, criadores de conteúdo e consumidores em torno da bebida.

A Espresso é apoio de mídia da edição 2026.

TEXTO Redação • FOTO Vic Mrtns Foto & Vídeo

Mercado

Xangai ultrapassa 10 mil cafeterias em 2025

Relatório publicado por associação e universidade chinesas mostra avanço do consumo, expansão das cafeterias e fortalecimento da produção de cafés especiais em Yunnan

Xangai ultrapassou a marca de 10 mil cafés em 2025, ao alcançar 10.336 estabelecimentos, em comparação aos 9.115 registrados no ano anterior. Os dados constam do Relatório sobre o Desenvolvimento do Café nas Cidades Chinesas 2026, lançado em 30 de abril.

Segundo o documento, a indústria do café na China movimentou 354,9 bilhões de yuans (cerca de US$ 51,9 bilhões) em 2025, 13,3% a mais do que em 2024. O consumo per capita também avançou, passando de 16,74 para 28,57 xícaras por habitante ao ano entre 2023 e 2025. Segundo informações divulgadas pela Shanghai Jiao Tong University, o relatório foi publicado conjuntamente pela Associação de Promoção da Indústria Cultural e Criativa de Xangai e pelo Instituto de Cultura, Inovação e Desenvolvimento da Juventude da universidade, com apoio de Meituan, Ele.me e Taotian Group.

O relatório também mostra o crescimento da produção de cafés especiais na província de Yunnan, principal origem cafeeira do país. A participação desses cafés subiu de 8% para 31,6% entre 2021 e 2025, enquanto as exportações da região alcançaram 860 milhões de yuans (cerca de US$ 126 milhões). Além disso, bebidas que combinam café e chá, como cafés aromatizados com jasmim, vêm ganhando espaço e refletem o desenvolvimento de um perfil de consumo próprio do mercado chinês.

Fontes: Governo Municipal de Xangai; Shanghai Jiao Tong University.

TEXTO Redação

Café & Preparos

Cafés à moda turca e árabe ganham destaque e preservam tradições de imigrantes no Brasil

Por Leonardo Neiva

Sobre um recipiente retangular com uma camada de areia quente, a barista movimenta lentamente o cezve (ou ibrik, em árabe). Dentro dessa pequena panela de cobre com cabo longo, o café de moagem extremamente fina se mistura com a água, num método diferente dos espressos e filtrados. Em meio à areia quente, ele recebe o calor de maneira uniforme, desenvolvendo sua espuma e aroma característicos.

Imagens do preparo do café turco vêm ganhando destaque nos cardápios de estabelecimentos pelo Brasil e viralizam com frequência nas redes, devido à sua técnica única. O aquecimento sobre a areia quente, típico da Turquia e de certas regiões do Oriente Médio, se inspira na tradição de povos nômades do deserto, que tinham apenas o sol e a areia como fogão.

Mas “o verdadeiro café turco não está só no preparo, e muito menos numa máquina de areia. Ele está na técnica, no conhecimento e na formação de quem prepara”, afirma Adriana Gomes, proprietária da Tenda Turca, pioneira no preparo da bebida em São Paulo. Inspirada pelos laços familiares e de amizade na Turquia, ela abriu a casa em 2022, onde, além do café e do chá, comercializa produtos e ingredientes importados do país.

A Asmar’s, rede de confeitaria árabe de Foz do Iguaçu (PR) que vem abrindo unidades pelo Brasil, oferece cafés inspirados em regiões diversas da Turquia. O da capital Ankara, por exemplo, leva um blend de pimentas, e o de Izmir, na costa oeste, vai com cardamomo, especiaria tradicional do café árabe.

Foto: Asmar’s

Paul Sapountzakis, que comanda duas unidades da rede em Brasília, conta que o preparo da bebida virou um show à parte. “Muitos clientes se aproximam para assistir, fazem perguntas, fotografam e gravam vídeos. Antes mesmo do primeiro gole, já existe uma conexão com a história e com a tradição da bebida.”

Descendente de gregos e libaneses, o empreendedor cresceu em uma família onde o café era ritual de convivência e gesto de acolhimento. “O café turco não foi criado para ser consumido com pressa. Ele convida as pessoas a desacelerar, conversarem e aproveitarem o momento”, afirma.

Reconhecidos como Patrimônios Culturais Imateriais da Humanidade, tanto o café turco quanto o árabe remontam ao século 15, com seus primeiros usos medicinais e rituais na região do Iêmen. A primeira cafeteria de que se tem registro surgiu nesse mesmo século em Constantinopla, atual Istambul.

No Brasil, há uma confusão histórica entre os imigrantes vindos da região. Do fim do século 19 ao início do 20, viajantes de países que faziam parte do Império Otomano, como Líbano e Síria, eram rotulados pelas autoridades brasileiras como “turcos”, conta o doutor em história social Bruno Bortoloto do Carmo, analista de pesquisa do Theatro Municipal de São Paulo.

Um dos autores do projeto Memórias do Café Árabe, do Museu do Café de Santos, Bortoloto registrou narrativas orais de imigrantes, que resultaram em um artigo e uma exposição focada na tradição do café árabe por aqui.

Por conta da proximidade, há semelhanças – e diferenças importantes – entre os cafés da região. O café fino jogado direto na água e o bule de cabo longo estão presentes tanto na versão árabe quanto na turca. Por outro lado, o café de países árabes quase sempre inclui cardamomo e usa uma torra mais clara, o que o torna leve e floral, enquanto o turco tem um sabor mais encorpado. “O turco não costuma ter tantas especiarias”, aponta o pesquisador.

Foto: Asmar’s

Um exemplo dessa confluência de tradições é o Yummizza, de Curitiba (PR). Apesar de ser inspirado nos sabores de Damasco, capital da Síria, o restaurante traz no cardápio o café turco – ao menos no nome. No entanto, é possível tomá-lo tanto puro quanto com cardamomo, ingrediente tradicional da bebida em solo damasceno.

Vindo da capital síria para recomeçar a vida no Brasil, foi a falta que Ahmad Mnayer sentia dos sabores da terra natal que o inspirou a abrir o estabelecimento, onde também vende esfihas e shawarmas. “Quando sirvo esse café, lembro da minha infância, da família e da cultura. Tem gente que diz que o café os fez lembrar dos pais ou dos avós. Isso é muito bonito.”

Se só agora os cafés turco e árabe passaram a ganhar projeção nas redes e em estabelecimentos daqui, entre comunidades imigrantes já eram presença constante. “[Durante a pesquisa] Todas as pessoas nos receberam com um café feito dessa forma e contaram que mantêm essa tradição em casa”, diz Bortoloto. Segundo ele, restaurantes tradicionais, como o Syria e o Abud Síria, no centro de São Paulo, também servem a bebida, muitas vezes fora do cardápio.

Na visão de Adriana Gomes, da Tenda Turca, ainda são poucos os lugares no Brasil que oferecem uma experiência realmente especializada do café turco. Mas ela já percebe uma mudança. “As pessoas estão mais curiosas, viajam mais e veem conteúdo sobre isso nas redes. Cresce o interesse pelas gastronomias do Oriente Médio e da Turquia.”

Tenda Turca
Endereço: Pão de Açúcar – Av. Brigadeiro Luís Antônio, 2013 – Lj 04 – Bela Vista, São Paulo (SP)
https://www.tendaturca.com.br/

Asmar’s Brasília
Endereço: Unidade ParkShopping – SMAS Trecho 1 Luc 280A – Guará – Brasília (DF)
Unidade Conjunto Nacional – SDN, CNB – Asa Norte, Brasília (DF)
https://asmarsbrasilia.com.br/

Yummizza
Endereço: Av. Sete de Setembro, 4341 – Água Verde – Curitiba (PR)
https://www.instagram.com/yummizza/

TEXTO Leonardo Neiva • FOTO Asmar's

A tempestade perfeita

Por Gustavo Paiva

Nos últimos meses, vem se desenhando na América Latina uma tempestade perfeita, resultado da combinação de fatores climáticos, políticos e econômicos. Colômbia e Peru tendem a enfrentar tempos bastante complicados para a produção de café.

Ocorre que as suspeitas de formação de El Niño se confirmaram, resultando em chuvas mais escassas e temperaturas mais altas para todas as zonas cafeeiras do continente, mas com condições um pouco mais brandas para o Brasil.

Além disso, fatores políticos e macroeconômicos tendem a influenciar negativamente e de modo direto os cafeicultores latino-americanos, em especial os de Colômbia e do Peru. Em ambos, eleições foram realizadas recentemente e o resultado foi claro ao mostrar países divididos.

No Peru, a moeda Peruana, o sol, vem se valorizando há anos. Em um país que chegou a impressionantes dez presidentes em quase dez anos, o chefe do Banco Central, Julio Velarde, conseguiu a façanha de ser mantido por todos eles. No campo político, o país está extremamente polarizado, já que a candidata Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, conseguiu se eleger depois de quatro derrotas em eleições presidenciais. A vitória veio com uma margem de 0,26% ou 50 mil votos. Favorita do mercado por sua postura neoliberal, é provável que ela implemente políticas de privatizações e que a valorização da moeda peruana continue. 

No entanto, Fujimori foi bem enfática ao dizer, durante a campanha, que a criminalidade, a produção de cultivos ilícitos e o narcotráfico seriam enfrentados com “mão dura”. No seu primeiro dia de governo, declarou estado de exceção e delegou ao exército controle da segurança de algumas zonas do país. A medida pode gerar conflitos abertos no campo e aumentar o êxodo populacional de zonas rurais – que são majoritariamente contrárias a Fujimori.

Em um país com tantos presidentes em uma década, é impensável que, fora do campo econômico gerido por Velarde, alguma medida coerente e coesa tenha sido duradoura. E não foi diferente para o setor cafeeiro, que deverá continuar fora do foco das políticas públicas, já que a líder da extrema direita peruana menciona a palavra “café’’ apenas duas vezes nas 144 páginas do seu plano de governo. 

O documento menciona apenas que a prioridade do governo será o apoio ao investimento privado no setor agrícola, redução da burocracia e de impostos, sem especificar quais e como estas medidas serão tomadas. 

Na Colômbia, o roteiro é muito parecido: o candidato de extrema direita Abelardo de la Espriella derrotou o candidato de centro esquerda Ivan Cepeda por 0,95% de diferença. Além da instabilidade de um país dividido, Espriella traz algumas medidas que impactariam diretamente os produtores. Em primeiro lugar, por ser um candidato neo-liberal, apoiado por Donald Trump e com fortes inspirações em Javier Milei, Espriella era o favorito do mercado financeiro. Desde o dia da declaração de vitória, o peso colombiano valorizou em 6% o que acaba por encarecer as exportações. Além disso, o candidato promete o retorno das intervenções militares contra os narcotraficantes e guerrilhas existentes no país. Esta posição linha dura, já implementada por Alvaro Uribe no início do século, resultou em conflitos abertos em zonas cafeeiras, como Cauca, Antioquia e o Vale do Cauca, todas no sudoeste do país.

Em segundo lugar, Espriella havia demandado tomar posse em um quartel-general do exército, como um símbolo da militarização do país durante seu governo. Como teve seu pedido recusado, tomará posse em Cali, capital da região cafeeira do Vale do Cauca, epicentro da violência e da atividade paramilitar. 

Existe uma expectativa de que nos primeiros dias de governo, que começará em 7 de agosto, ele também irá declarar um regime de exceção. Durante um conflito, mesmo em outras regiões rurais que não são afetadas diretamente pela intervenção das forças armadas, a população rural tende a migrar por medo, principalmente os jovens, que abandonam suas terras e diminuem a mão de obra disponível. 

Por último, em sua proposta de programa de governo ainda como candidato, Espriella não mencionava café em suas únicas três páginas do plano de governo. Durante o segundo turno, o candidato prometeu adotar as propostas de Paloma Valencia, terceira colocada, para o setor cafeeiro. Mas ainda pairam muitas dúvidas, sobre, por exemplo, quem administra o Fondo Nacional de Café, taxa cobrada por cada saca de café exportada pelo país e usada para subsidiar a produção, como será feita a logística de exportação do sul do país que será, invariavelmente, afetada por intervenções militares e qual será a forma de trabalho com a Federação Nacional de Cafeteros.

O El Niño já está formado e tende a ser um dos maiores da história, o que prejudicará o próximo ciclo de produção do café, trazendo seca a todos os países produtores na América Central e na América do Sul. Enquanto o real brasileiro segue estabilizado em um valor relativamente baixo, o que favorece as exportações, as moedas colombiana e peruana tendem a se valorizar no curto e médio prazo, perdendo ainda mais competitividade em relação ao produto brasileiro. 

Além disso, grandes intervenções militares em zonas rurais impactam a continuidade da vida e do trabalho no campo, além de interromper fluxos logísticos. Todos estes desafios não são passageiros e tendem a deixar a cadeia produtiva e a continuidade da mão de obra no campo ainda mais fragilizadas em toda a sua estrutura de funcionamento.

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

Cafeteria & Afins

Khaleeji Qahwa Specialty Coffee – Poços de Caldas (MG)

O nome já revela parte da história da cafeteria. “Qahwa” significa café em árabe. “Khaleeji”, por sua vez, é o termo usado para designar os povos que habitam a região do Golfo Árabe, que reúne países como Omã, Kuwait, Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos. Este último é o país de origem do proprietário Amir Almadani Serah, que trouxe de lá referências culturais que imprimem identidade à casa. 

A cafeteria abriu as portas em junho, em Poços de Caldas, no Sul de Minas. A fachada já chama a atenção pelas três bandeiras hasteadas: Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Arábia Saudita. Logo na entrada, outro destaque é a máquina usada no preparo tradicional do café árabe. Nela, uma bandeja com areia aquecida recebe o recipiente de preparo. O contraste vem logo ao lado, com um filtro de barro tipicamente brasileiro. No balcão, equipado com máquina de espresso e outros acessórios, dividem espaço métodos de preparo e xícaras tradicionais árabes, sem alças.

No interior, o ambiente é estreito e comprido, quase um corredor. A decoração reúne referências árabes em cada detalhe. Em frente ao balcão, fotografias retratam a comunidade e autoridades dos Emirados Árabes Unidos. Ao fundo, grandes telas coloridas, pintadas pela esposa do fundador, ocupam a parede principal.

Pacotinhos de café à venda na casa e café feito na dallah

Além das banquetas para quem prefere acompanhar o trabalho do barista, a cafeteria conta com duas mesas coletivas, algumas poltronas e uma estante com livros. Também ficam expostos os pacotes de café vendidos pela casa, selecionados pelo fundador e torrados pela Gamers Coffee, de Poços de Caldas.

Por hora, o proprietário é quem atende os clientes, enquanto se prepara para formar uma equipe. Como ainda fala pouco português, a comunicação acontece principalmente em inglês. Quando isso não é possível, entram em cena a paciência, os gestos e, às vezes, a ajuda de amigos que fez no entorno da cafeteria.

O ponto alto da experiência é conhecer preparos tradicionais da bebida no Oriente Médio, como o cezve e a dallah. O primeiro utiliza um pequeno recipiente de cabo longo e rende apenas uma xícara de café. A recomendação é não beber até o fim, já que a moagem extremamente fina deixa um sedimento no fundo da xícara. Já a dallah, uma jarra de maior capacidade, serve várias porções. Aqui, o café é fervido por alguns minutos com especiarias – receita “secreta” da avó de Amir Serah. Nos dois preparos, o café utilizado era da variedade dawairi, lavado, cultivado no Iêmen. 

Cezve (à esquerda) e dallah

O cezve resultou em uma bebida encorpada, doce, com notas de chocolate meio amargo e leve menta, e acidez baixa. Na dallah a bebida lembrava um chá: era delicada, perfumada por especiarias (como cardamomo), mas preservava a doçura e a identidade sensorial do café. O uso de preparos tradicionais com cafés especiais cria um encontro interessante entre tradição e contemporaneidade. 

Embora o cardápio ofereça poucas opções de comida, todas as receitas têm origem familiar. Para acompanhar os cafés, a escolha foi o manakish. Conhecido como uma espécie de pizza árabe, é preparado sobre uma massa semelhante ao pão sírio, coberta com queijo muçarela e uma mistura de especiarias. A porção é generosa e pode ser compartilhada. Como manda a tradição, deve ser consumido com as mãos, dispensando os talheres. As especiarias dão complexidade ao prato, e a cobertura permanece úmida na medida certa, sem excessos.

A cafeteria também oferece cafés brasileiros filtrados na v60 e no origami, além de espressos, cold brew e drinques à base de leite. Pedimos um coado na v60, feito com grãos produzidos em Santa Rita de Minas, de processamento lavado. Na xícara, a bebida apresentou notas de chocolate e caramelo, corpo cremoso e acidez equilibrada. Para harmonizar, a escolha foi o bolo do dia, preparado por Serah, e cuja receita ele não releva. Seu sabor adocicado e suave – uma composição equilibrada entre especiarias e castanhas – fez uma combinação agradável com a acidez média do filtrado, um café adequado para tomar mais vezes ao dia. 

Manekish (à esquerda) e bolo do dia

Nossa conta: R$ 102
Café no cezve – R$ 13
Café na dallah – R$ 27
Manakish – R$ 27
Bolo do dia – R$ 17
Coado na v60 – R$ 18

A Espresso visitou a casa anonimamente e pagou a conta.

Informações sobre a Cafeteria

Endereço Rua Pernambuco, 710
Bairro Centro
Cidade Poços de Caldas
Estado Minas Gerais
TEXTO Equipe Espresso • FOTO Equipe Espresso