Porque o futuro do café é gelado
Com o café gelado ganhando espaço como escolha favorita entre os consumidores mais jovens em todo o mundo, será que as bebidas quentes estão com os dias contados? Nesta reportagem, Tobias Pearce, editor da revista 5thWave, viajou até as fronteiras congeladas da inovação na indústria do café para descobrir como as bebidas geladas terão um impacto profundo no futuro do setor.
Por Tobias Pearce
Como a maior rede de cafeterias do mundo, com mais de 40 mil lojas, a Starbucks costuma ser vista como um termômetro das tendências globais do café. Mas para os fãs de clássicos quentes – como cappuccinos, lattes e flat whites –, uma nova onda fria vem surgindo.
Em agosto de 2021, o então CEO da Starbucks, Kevin Johnson, revelou que as vendas de bebidas frias tinham superado com folga as de bebidas quentes nas lojas próprias dos Estados Unidos, respondendo por 74% do total de bebidas vendidas no terceiro trimestre fiscal – uma tendência que só se consolidou desde então.
Em 2022, a Starbucks Coreia relatou que 76% de todas as bebidas vendidas foram frias, incluindo 60% durante o inverno de 2021–2022. “Na Europa, o café gelado é a categoria que mais cresce”, afirmou em 2023 Fernando Albarrán, gerente de marca da Starbucks Espanha.
Na região mais ampla do Oriente Médio e Norte da África (MENA), quase 40% de todas as bebidas da Starbucks são servidas frias, e esse número continua a subir.
Nos Estados Unidos, em particular, observou-se uma mudança significativa rumo ao café gelado e às bebidas frias na última década, impulsionada pela popularidade do cold brew e das versões ready-to-drink (RTD). Segundo pesquisa da World Coffee Portal, 42% dos consumidores de cafeterias norte-americanas entrevistados em 2024 compraram café gelado semanalmente, e 18% o fizeram diariamente. Quando convidados a escolher sua bebida favorita em uma cafeteria, 30% dos consumidores dos EUA citaram o café gelado – logo atrás do café puro, com 36%.
Em 2023, os Estados Unidos gastaram cerca de US$ 17,7 bilhões com cafés frios fora de casa – incluindo café gelado, cold brew e drinques de café gelados –, mais que o dobro dos US$ 8,5 bilhões registrados em 2016, segundo a consultoria de food service Technomic.
“Hoje, o RTD é o segmento mais empolgante da indústria do café”, diz Todd Carmichael, fundador visionário da La Colombe Coffee Roasters e inovador em cafés gelados, que percebeu a chegada dessa nova era há mais de uma década. “Quando fundei a La Colombe, em 1994, todo mundo achou que eu estava arruinando a minha vida!”, lembra Carmichael. Trinta anos depois, ele colhe uma fortuna milionária – em grande parte graças ao boom do café gelado que ele ajudou a provocar com o lançamento do cold brew nos Estados Unidos.
“Fui o primeiro cara a fazer cold brew e vendê-lo comercialmente”, recorda. “Lembro de ter enviado umas cinco caixas para uma loja da Whole Foods perto de casa – foi o primeiro cold brew vendido na América. Quando, em poucos dias, o lote acabou, percebi que não seria o único nesse mercado.”
A La Colombe também foi pioneira no latte ready-to-drink, lançado em 2017. “Sabíamos que o leite texturizado seria tendência, e eu queria pegar o cardápio de uma cafeteria e transformá-lo em algo portátil – cappuccinos, lattes, americanos, todos eles.”
Sobre o sucesso comercial das bebidas frias, Carmichael fornece um dado impressionante: “Antes do draft latte [latte tirado sob pressão, criado pela La Colombe] eu diria que a La Colombe valia uns US$ 75 milhões. Alguns anos depois, a oferta foi de US$ 900 milhões – isso foi o que o draft latte trouxe.”
A intuição de Carmichael de que o café gelado viraria um sucesso nos Estados Unidos estava correta. Em julho de 2023, a Keurig Dr Pepper – parceria da JAB Holding criada para impulsionar o café nas categorias de energéticos e refrigerantes – adquiriu uma participação minoritária de US$ 300 milhões na La Colombe, em um acordo que incluía licenciamento de longo prazo para produtos RTD e cápsulas. Menos de seis meses depois, a empresa foi comprada pela gigante americana de laticínios Chobani por US$ 900 milhões.
Nesse mesmo ano, a Westrock Coffee inaugurou em Conway, no Arkansas, uma fábrica de US$ 315 milhões dedicada à produção de café pronto para beber – a maior do tipo no mundo, segundo relatos.
Como observou Nick Stone, fundador da Bluestone Lane, em sua participação no programa Gordon Ramsay’s Food Stars, em 2023: “Se você não tem bebidas frias, está perdendo uma grande oportunidade.”
Efeito bola de neve
As redes sociais desempenharam um papel central na promoção do café gelado entre novos públicos ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, a estrela da internet Emma Chamberlain construiu um império de US$ 22 milhões com sua marca Chamberlain Coffee, impulsionado, sobretudo, pelo enorme apelo do café gelado entre seus 12,1 milhões de assinantes no YouTube.
Enquanto isso, o TikTok já acumula mais de 244 milhões de vídeos sobre café gelado, exaltando as virtudes de tendências virais como café gelado com água de coco, latte gelado de pistache e Biscoff iced coffee.
Mas as bebidas geladas vão muito além de um simples deleite visual para smartphones. Na verdade, essa “compartilhabilidade” está enraizada em uma tendência mais ampla de indulgência entre os consumidores da geração Z, observa Ahmed Mahla, torrefador-chefe do Spicekix Coffee Lab, torrefação de cafés especiais sediada em Roterdã, na Holanda. “Um dos principais motivadores para os jovens consumidores de café é o que chamo de ‘momento de micro-luxo’. Eles podem não ter condições de comprar uma casa ou um carro novo, mas querem se permitir uma bebida especial”, diz Mahla.
A pesquisa da World Coffee Portal também informa que 49% dos líderes da indústria europeia entrevistados em 2025 identificaram o café gelado como o produto com maior potencial de crescimento em seus mercados de cafeterias – e 9% afirmaram que ele possui “potencial máximo”. “Essa bebida social faz parte de um ritual, em que as pessoas querem ver o barista preparar o pedido passo a passo, não apenas apertar um botão. Sim, elas pagam de 8 a 10 euros, mas não é só pela bebida – é por essa experiência de micro-luxo”, completa Mahla.
Um vento que sopra do Leste
Do tradicional café vietnamita à espuma fria e à febre do dalgona coffee, muitas tendências de bebidas geladas nasceram na Ásia – com China, Coreia do Sul e Japão atuando como verdadeiros incubadores de inovação no café frio.
Em 2022, o CEO da Starbucks Coreia, Son Jung-hyun, falou em uma “nova potência das bebidas geladas”, extremamente popular entre consumidores millennials e da geração Z. Naquele ano, o vanilla cream iced coffee [espresso, leite cremoso e toque de baunilha] e o cold brew registraram crescimento de mais de 40% nas vendas da Starbucks Coreia. As infusões geladas também tiveram forte demanda – o aurora chamomile relaxer [chá gelado sazonal, de camomila e frutas] vendeu 10 milhões de copos em dois anos.
Atualmente, tendências como o café infusionado com frutas dominam as redes sociais em todo o planeta. Na China, as redes M Stand e Seesaw Coffee oferecem linhas populares de café com polpa de frutas e café infusionado com grapefruit. A mesma coisa acontece com as redes indonésias Janji Jiwa e Kopi Kenangan, que têm cardápios extensos de cafés infusionados com frutas.
Na ponta mais curiosa desse espectro gelado, o latte gelado com cebolinha é a tendência mais recente na China – dados da World Coffee Portal indicam que mais de 60% dos consumidores do país compram café gelado ao menos uma vez por semana.
Essas bebidas especiais são apenas a ponta do iceberg de uma categoria que há muito domina as vendas das redes de cafeterias em todo o leste asiático. Na Flash Coffee, que opera 60 lojas na Indonésia, cerca de 90% de todas as bebidas vendidas são servidas frias ou geladas, e quase metade do cardápio de cafés está disponível somente na versão gelada.
O CEO da empresa, Bardon Matthew, atua na indústria indonésia de café há mais de 20 anos. Começou a carreira como barista da Starbucks na Indonésia e depois ocupou cargos de gerente regional na Starbucks e na Krispy Kreme, na Malásia. Recentemente, foi vice-presidente de operações da Fore Coffee, onde, como no restante do mercado, as vendas de cafés gelados também predominavam. “Na Fore Coffee, era bem parecido – provavelmente 85% das bebidas eram geladas”, revela Matthew.
“Em um mercado tropical como o indonésio, as bebidas geladas são favoritas o ano inteiro”, conta Tempest Larrichia, diretora de marketing da Flash Coffee. “Diferentemente dos mercados em países de clima temperado, onde a demanda varia conforme as estações, nossas vendas de bebidas frias permanecem altas o tempo todo. Há um pequeno aumento apenas em períodos muito quentes e secos ou em datas festivas, quando lançamos edições limitadas com sabores refrescantes, como nossos drinques de coco para o verão de 2024”, completa.
O sabor do mês?
Seja misturando frutas frescas, álcool ou água tônica, o café gelado abre espaço para uma experimentação de sabores impossível nas preparações quentes convencionais. Em abril de 2025, a competição Lavazza Barista Challenge reuniu 17 baristas e mixologistas de diversos países, desafiando-os a criar, exclusivamente, bebidas frias tendo como base o tradicional espresso.
A bebida vencedora, criada pelo grego George Nikolopoulos, combinava xarope de laranja e tomilho com licor de cereja e vermute, demonstrando o enorme potencial da mixologia no segmento de cafés gelados. “As bebidas frias oferecem muito mais possibilidades: dá para adicionar sabores como manga, morango ou framboesa ao matcha latte, por exemplo. Chai, chás gelados e coquetéis também são mais fáceis de preparar frios. Já com bebidas quentes, geralmente é só o latte”, explica Vicky Ceulemans, fundadora da Bodhi Drinks, fornecedora holandesa de chás, matcha e chai premium.
No Reino Unido, onde o clima frio e úmido prevalece na maior parte do ano, as vendas de bebidas geladas sempre dependeram dos meses mais quentes, entre maio e setembro. Embora o café com gelo ainda não tenha alcançado a popularidade que tem nos EUA, na China ou na Coreia do Sul, a categoria fria está se tornando rapidamente um item essencial para as cafeterias britânicas.
A rede Caffè Nero, que opera mais de 630 lojas no país, mostra como o café gelado deixou de ser apenas uma campanha sazonal de verão para representar 10% do total das vendas de bebidas. “Essa categoria cresceu significativamente nos últimos anos”, afirma o CEO da Caffè Nero, Will Stratton-Morris. “A popularidade do café gelado fez com que ele deixasse de ser um item de verão e se tornasse presença permanente no nosso cardápio o ano todo.”
Para Stratton-Morris, “não há dúvida” de que o café gelado já é a norma para muitos clientes, especialmente os da geração Z e menores de 30 anos. “Saímos na frente com o latte gelado de pistache. Ele foi lançado por tempo limitado, mas fez tanto sucesso que hoje está incorporado ao nosso menu anual”, afirma.
O grupo Caffè Nero também vem surfando essa onda gelada. Em fevereiro de 2024, a rede Coffee#1, com sede em Cardiff, capital do País de Gales (Reino Unido), comemorou o sucesso das bebidas frias, que aumentaram o tíquete médio e impulsionaram em 19% o crescimento semestral das vendas, alcançando £29,5 milhões (US$ 37,3 milhões).
Em outubro de 2024, a Greggs, rede britânica de padarias de preço acessível, atribuiu 10,3% do crescimento em suas vendas do terceiro trimestre à sua linha de bebidas geladas. Da mesma maneira, a rede especializada em robusta especial Black Sheep Coffee e a americana Blank Street colocaram os cafés gelados no centro de suas campanhas no Reino Unido, do início da primavera até o fim do outono, e seguem promovendo essas bebidas até mesmo durante o inverno.
Dados do World Coffee Portal mostram que o gasto médio com bebidas frias em cafeterias do Reino Unido subiu de £3,88 para £3,99 entre 2023 e 2024, o que reforça a disposição dos consumidores britânicos em reservar gastos para bebidas geladas indulgentes. O estudo também destaca a importância dos jovens na expansão da categoria: 66% dos consumidores britânicos com até 35 anos afirmam comprar uma bebida gelada ao menos uma vez por semana.
O conforto do cold brew
Em um mercado globalizado de café, onde os consumidores parecem já ter visto de tudo, o cold brew surge como ponte entre os puristas do café especial e uma nova onda de interesse por adição de sabores. Mas, segundo Todd Carmichael, fundador da La Colombe, embora o cold brew tenha um potencial enorme, a indústria do café ainda não explorou devidamente o que ele tem a oferecer. “Atualmente, ainda vivemos o que chamo de ‘cold brew 1.0’ – extrações básicas, perfis genéricos e pouca diferenciação. É praticamente o mesmo produto que bebíamos há dez anos, só que em outro recipiente. Mas o cold brew é um formato poderoso: limpo, intenso, de baixa acidez e naturalmente propício a inovações funcionais, complexidade de sabor e novos sistemas de preparo.”
Mas será que o café especial, com seu foco em origem e terroir, consegue dialogar com essa nova geração de bebidas aromatizadas e geladas? A julgar pelo debate recente sobre cofermentação, a relação tende a ser complexa. Mesmo o cold brew, que costuma ser uma interseção entre o café especial e as bebidas indulgentes, não escapa das críticas. “Falando honestamente, o cold brew é muito genérico – parece mais uma substância semelhante à cerveja”, disse o lendário especialista George Howell à 5thWave, em 2023. “Não reflete o terroir nem as nuances do grão, e ainda o vendem com ‘baixa acidez’. Tente imaginar um vinho sem acidez, ou um morango sem acidez. É brincadeira!”, exclama.
Ainda assim, é impossível negar o enorme potencial da categoria, tanto para os puristas quanto para os inovadores. Em entrevista à 5thWave, em março de 2025, a barista e influenciadora britânica Celeste Wong expressou sua esperança de que o café especial se torne mais acessível e experimental. “O café especial sempre foi criticado por ser esnobe ou elitista – aquele barista clássico que diz que você não deve colocar açúcar no café ou que só serve o café puro ou com leite. Eu comecei a pensar em outras perspectivas, adicionando novos sabores”, contou ela, ao falar sobre seu novo livro, Coffee Creations.
Essa também é a visão de futuro que Todd Carmichael quer abraçar. “Estou realmente empolgado com o cold brew do futuro, um ponto de encontro entre inovação e propósito. Falo de integrar novos métodos de preparo, cascatas de bolhas de gás que vão além da estética, tecnologias para adoçantes naturais, infusões focadas em sabor e protocolos aprimorados de extração. Há muito espaço a ser ocupado. Falta alguém dar o próximo passo e construir o ‘cold brew 2.0’. Penso nisso todos os dias”, afirma.
Café: mais descolado do que nunca
Com um potencial ilimitado para experimentação de sabores e enorme popularidade entre a nova geração de consumidores de café, o café gelado é a nova fronteira da inovação em bebidas – um território que a indústria do café está apenas começando a explorar.
Seja em frapês, lattes gelados, matcha, bubble tea, cafés com infusão de frutas ou coquetéis servidos em redes de cafeterias, estabelecimentos independentes ou em latas de RTD, o café gelado está em toda parte. Para os negócios no setor que buscam sucesso a longo prazo, a regra é clara: vá de gelado ou vá pra casa.
Texto originalmente publicado na edição #90 (dezembro, janeiro e fevereiro de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.



























