Barista

Rituais 3corações capacita jovens indígenas no preparo de cafés

Fruto de programa de formação da Rituais 3corações, iniciativa reuniu 25 jovens ligados ao Projeto Tribos em uma competição de cafés filtrados

Por Gabriela Kaneto

Os jovens indígenas Gleyson Suruí e Natielly Aruá desembarcaram na cidade de São Paulo para uma semana de conhecimentos teóricos e práticos sobre barismo com a equipe técnica da Rituais 3corações. 

A iniciativa faz parte da premiação da 1ª Copa Tribos, competição realizada no final de 2025, em Cacoal (RO). Na ocasião, 25 jovens indígenas ligados ao Projeto Tribos, da 3corações, foram instruídos por profissionais da marca e testaram suas habilidades no preparo de cafés filtrados. 

Nesta 1ª edição, Gleyson e Natielly ficaram em primeiro e segundo lugares, respectivamente. Além de prêmio em dinheiro, os jovens ganharam uma viagem para São Paulo, com o objetivo de darem continuidade aos seus aprendizados na profissão e conhecerem a gastronomia e o turismo da capital paulista. A Espresso foi convidada para acompanhar a primeira manhã dos jovens na sede da 3corações.

“Também sou cafeicultor, mas não tinha base para dar notas e aromas para o meu café. Por isso me interessei em fazer o curso de barismo. Agora estou aprendendo muito com os melhores baristas da Rituais 3corações”, comemora Gleyson. “Quero agradecer à Rituais 3corações por estar proporcionando este momento incrível. Estar passando essa semana aqui em São Paulo está sendo uma grande experiência. Pra mim é muito gratificante”, agradece Natielly.

Gleyson Suruí e Natielly Aruá em cerimônia de premiação da 1ª Copa Tribos

Para a Rituais 3corações, a iniciativa visa gerar valor agregado às comunidades indígenas produtoras de café, aproximando os jovens do cultivo de seus familiares e apresentando todo o universo do grão até a xícara. “Trazemos a juventude e a nova geração para perto do café, mostrando outras possibilidades além da produção”, comenta Carol Barreto, responsável pelos treinamentos e operações da marca. “Nessa 1ª Copa Tribos, ficamos muito orgulhosos de ver a qualidade dos cafés servidos e o profissionalismo no preparo”, destaca.

“Queremos mostrar para esses jovens que o café é um universo, é uma gama de profissões que podem ser seguidas além do cultivo”, destaca Poliana Perrut, engenheira agrônoma, especialista em cafeicultura e parceira do Projeto Tribus desde 2019. Ela pontua que a ideia foi passada para as lideranças, que abraçaram a iniciativa e a enxergaram como uma maneira de manter esses jovens dentro do território ao mesmo tempo que ligados às novidades globais. 

“Isso é importante demais para a cadeia do café como um todo e, principalmente, para os territórios indígenas. Precisamos oferecer possibilidades para que os filhos dos cafeicultores indígenas tenham melhores oportunidades, não deixando a cultura, mas sim fazendo a comunicação dela para o mundo. E eles encontraram isso através do café”, alegra-se.

TEXTO Gabriela Kaneto • FOTO Divulgação

Mercado

Andrea Illy diz que agricultura regenerativa virou prática geral em Minas Gerais

Durante as comemorações dos 35 anos do Prêmio Ernesto Illy no Brasil, o empresário italiano destacou a expansão da agricultura regenerativa, o avanço de novas áreas cafeeiras e a capacidade do país de enfrentar a crise climática, embora veja um cenário global ainda cercado de incertezas

Andrea Illy

Por Cristiana Couto

Horas antes de conduzir a tradicional premiação anual dos melhores grãos brasileiros que compõem os produtos da illycaffè, Andrea Illy, presidente da torrefadora italiana, comemorou durante coletiva de imprensa realizada em São Paulo, na quinta-feira (7): “A agricultura regenerativa, em menos de 10 anos, se tornou universal, pelo menos em Minas”.

A reflexão do empresário sobre a cafeicultura brasileira – a partir de Minas Gerais e de São Paulo, de onde sai boa parte do café verde nacional usado pela marca –, provocada pela reportagem da Espresso no encontro com os jornalistas, foi feita na esteira do aniversário do Prêmio Illy de Qualidade Sustentável do Café para Espresso, que teve sua 35ª edição no país em que foi criado (e que hoje também acontece em mais nove países). 

A Minas Gerais a que ele se referiu é, precisamente, regiões do Sul de Minas, Cerrado Mineiro e Matas de Minas. Segundo Illy, a agricultura regenerativa trouxe benefícios aos produtores de todas as ordens — qualidade, lucro e produtividade —, além da resiliência à crise climática, tema que percorreu sua fala, entre perguntas de cunho econômico e geopolítico. 

O empresário também destacou a crescente adoção da compostagem de resíduos e da produção de biocompostos, referidos por ele em português como “compostos”: “A produção de compostos agora, é uma prática quase geral, pelo menos em Minas, o que permite baixar muito o custo de insumos”.

“O futuro do café depende diretamente da saúde do solo e da capacidade de tornar os sistemas produtivos mais resilientes”, ensina ele, que desde os anos 2000 investe em sustentabilidade.

Quanto ao cenário global, Andrea Illy é enfático ao alertar para um “risco climático estrutural”, que, ao lado dos preços elevados, gera um cenário “delicado” e sujeito a crises de preços. 

Considerado por ele um modelo global de produção de café, o Brasil tem vantagens e desafios. “A vantagem estratégica do Brasil é que há produção de café em diferentes estados, com diferentes climas, e um pode compensar o outro. O desafio é a consistência [de qualidade] ao longo do tempo”, acredita. 

Mas os cafés menos atingidos pelas mudanças do clima são, para ele, os de qualidade – que perfazem apenas 2% do mercado mundial. “Muitas vezes, as áreas produtivas para os cafés de alta qualidade, com maior altitude, são as mais protegidas. Consequentemente, o risco é menor”, avalia Illy.

Ainda sobre o desenvolvimento das regiões brasileiras de café que visita anualmente há mais de 30 anos, o empresário afirmou ter observado investimentos em novas variedades e visitado novas áreas produtoras no interior do estado mineiro. “Nós observamos o maior número de sequências de preços mais altos e mais atrativos para crescer a produção. Tem mais gente investindo, cultivando novas plantas”, comenta. “No interior de Minas Gerais, tem novas áreas que estão crescendo de maneira dinâmica, como o triângulo [Mineiro], que visitamos agora também”, completa ele.

Illy também concordou com o comentário de Anna Illy, presidente da Fundação Ernesto Illy e membro do Conselho Administrativo da illycaffè, que participou da coletiva, sobre o aumento da permanência de jovens nas fazendas de café.

Em meio aos preços historicamente elevados do café e à instabilidade climática global, Andrea Illy afirmou que o setor ainda convive com incertezas capazes de sustentar a volatilidade do mercado, mesmo diante da expectativa de uma safra maior. Segundo ele, há mais de 90% de probabilidade de formação de um “super El Niño” no segundo semestre. “Ninguém pode prever os efeitos”, disse. “Esses elementos representam pontos de interrogação para a produção futura e para o mercado”, ressaltou. O executivo ponderou, porém, que episódios anteriores do fenômeno climático não impediram uma boa produção brasileira.

Ainda assim, Illy avalia que “o custo do café este ano será maior do que a média do ano passado, mas a rentabilidade [da illycaffè] deve ser normalizada”.

Os vencedores do prêmio da illycaffè

Nesta edição, Minas Gerais destacou-se mais uma vez ao conquistar os três primeiros lugares entre os 40 finalistas selecionados pela comissão julgadora, formada por especialistas nacionais e internacionais da illycaffè. 

Vencedores do 35º Prêmio Ernesto Illy de Qualidade Sustentável do Café para Espresso e executivos da illycaffè

Agro Fonte Alta (Sul de Minas), Raimundo Dimas Santana Filho (Matas de Minas) e São Mateus Agropecuária (Cerrado Mineiro) receberam prêmios de R$ 10 mil cada e garantiram vaga na disputa do 11º Prêmio Internacional de Café Ernesto Illy, que será realizado no segundo semestre, ainda sem local definido.

A classificação final entre primeiro, segundo e terceiro lugares será anunciada durante a premiação internacional.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Divulgação

Identidade gera valor

Por Caio Alonso Fontes

Conheci o cantor Bad Bunny assistindo ao Super Bowl, evento esportivo que, em seu tradicional show de intervalo, se tornou um dos maiores palcos da cultura pop contemporânea. Naquele momento, não entendi por completo o tamanho do sucesso dele. Só depois, tentando entender o que estava por trás do fenômeno, compreendi: não era apenas música — havia, ali, uma estratégia.

Hoje, ele é um dos artistas mais ouvidos no mundo. Mas a música latina sempre teve alcance global. A diferença, agora, é a forma deliberada como a questão da identidade passa a orientar as decisões. Idioma, estética, território e posicionamento não são mais, simplesmente, contexto, mas, sim, um modelo de negócio.

Seu álbum recente, Debí Tirar Más Fotos, concentra-se em memória, cotidiano latino e pertencimento, mas reforça que não é preciso adaptar-se para ganhar validação externa. Pelo contrário, a mensagem principal é a importância da identidade. Isso gera identificação no público, inclusive entre o do Brasil, considerado historicamente ambíguo quanto ao seu lugar na América Latina. Aliás, aproveito para citar o jornalista e escritor Ruy Castro, que, em coluna recente na Folha de S.Paulo, lembrou-nos que “dos anos 1920 a 1970, a América Latina fazia parte da cultura brasileira. Só não era chamada por esse nome”.

Bad Bunny não inventa a música latina. Ele opera com identidade. Um bom exemplo é a temporada fixa de 30 shows em Porto Rico, onde nasceu. Para além de uma agenda artística, houve uma “estratégia territorial” na decisão de concentrar suas apresentações na ilha, ou seja, a de acrescentar uma experiência cultural a uma camada política e simbólica.

Estima-se que o evento movimentou entre US$ 200 milhões e US$ 400 milhões na economia local, um efeito de 0,15% a 0,3% no PIB, respectivamente. Depois do show no Super Bowl, a procura por voos para Porto Rico aumentou 245%; o Airbnb registrou crescimento de mais de 1000% nas reservas, enquanto a ocupação hoteleira subiu 70% em relação ao ano anterior. Soft power com consequência econômica direta.

Mas esse movimento revela algo maior: a revalorização simbólica da América Latina. Ser latino deixou de ser um RG periférico para tornar-se agente com valor cultural, estético e econômico.

Quanto ao Brasil, sempre particular nas questões em torno da América Latina, sua importância econômica parece até afastá-lo, simbolicamente, dessa integração. Algo que pode mudar, pois reconhecer pertencimento ao grupo é um passo, no mínimo, decisivo.

O café ajuda a esclarecer esse ponto de vista. A agenda de origem não é uma tática brasileira nova. O setor já estruturou regiões, denominações, rastreabilidade e narrativa. Origem, portanto, é a base dessa construção, e não um diferencial.

Usar a identidade para gerar valor econômico implica, assim, tomadas de decisão práticas. Por exemplo, criar experiências que levem pessoas a conhecer o território de produção do café, e não apenas levar o café até o consumidor. Não é à toa que, no Brasil, crescem iniciativas que estruturam o turismo como vetor de desenvolvimento regional, integrando hospitalidade, gastronomia e experiências à produção do café — tudo amarrado por uma narrativa coesa. Nesse caminho, a origem deixa de funcionar apenas como procedência técnica e transforma-se no destino.

Integrar o café a outras expressões culturais de uma região, como comida, paisagem, arte e história, amplia o tempo de permanência de um visitante, bem como seus gastos no local.

Em um momento em que a América Latina volta a afirmar seu valor cultural e econômico, reconhecer o café brasileiro como parte dessa narrativa amplia o protagonismo brasileiro. Quando Bad Bunny sugere que deveríamos tirar mais fotos, a mensagem tinha o intuito de ultrapassar a ideia de registro como memória. Era um aviso sobre a importância de transformar identidade em valor.

O café brasileiro já está pronto. Falta a nós tomar decisões para conduzi-lo mais dessa forma.

Texto originalmente publicado na edição #91 (março, abril e maio de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Caio Alonso Fontes • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

O império contra-ataca

Por Celso Vegro

Em parte, por responsabilidade da mídia especializada em economia, o debate brasileiro se restringe à trajetória das contas públicas sob permanente ameaça de compressão do espaço fiscal.

Sim, é uma problemática que todos devemos entender e buscar soluções (embora não exista o menor interesse do Congresso Nacional em produzir qualquer solução para a temática), ainda que, na macroeconomia, o endividamento de nações não seja o motor para crises, mas, como bem ensinou John Maynard Keynes, uma ferramenta macroeconômica anticíclica (investimento público como estabilizador da economia). Mas deixo essa controvérsia para os mais bem capacitados.

A imposição de tarifas aos produtos brasileiros, impetrada arbitrariamente pelo mandatário estadunidense (que ainda permanece sobre o café solúvel destinado àquele país), demonstra nitidamente que política internacional é política econômica.

A tentativa de retomada do Canal do Panamá; as ameaças ao México visando o endurecimento no combate ao narcotráfico e às imigrações; o explícito apoio à eleição de um ex-condenado por tráfico à presidência de Honduras; a produção de escassez energética, ruína econômica e crise humanitária em Cuba; o sequestro do presidente venezuelano e de sua esposa com retomada dos investimentos das companhias petrolíferas estadunidenses; as ameaças tarifárias contra a Colômbia;  a instalação de base militar estadunidense no Paraguai; os ataques à ferramenta brasileira de pagamentos instantâneos e o domínio sobre lavras de minerais estratégicos do subcontinente (lítio, nióbio, cobalto, manganês e as argilas iônicas) são posicionamentos que ensaiam uma imposição definitiva da Doutrina Donroe [um amálgama de Donald Trump e Doutrina Monroe] – implementada por Trump a partir de perspectivas da ultradireita que politicamente o sustenta –, que estabelece a Iberoamérica como espaço da influência direta e controle do território.

O momento histórico atual denota a condição particular do sistema internacional. Diante de uma crescente contestação chinesa, vivencia-se o estertor — ou a agonia — da hegemonia estadunidense, caracterizada pela supremacia militar, pelo domínio da fronteira tecnológica e pela hegemonia monetária, hoje sob intensa contestação de outros países, com a criação de sistemas de pagamento que não incluem o dólar.

Nesse contexto, desencadeou-se a perda de protagonismo das organizações multilaterais e do arranjo de regras de funcionamento global construído pelos EUA no pós-guerra. A fragmentação ganha força nas relações entre as nações, exigindo reposicionamentos em que a revalorização dos territórios é crucial.

Forçar alinhamentos político-econômicos dos países iberoamericanos aos interesses estadunidenses reflete o esforço de neutralizar a influência chinesa no subcontinente – aqui, sem juízo de valor sobre se é melhor estar sob influência do dragão ou da águia careca – não existe altruísmo entre as nações mas, apenas, interesses.

Diante dessa constatação, ganha relevância a política econômica pautada por posicionamentos que fortaleçam a soberania nacional vinculados a um projeto hegemônico de desenvolvimento nacional, pois a condição de território colonial não trouxe qualquer benefício a nenhum dos países do chamado sul global.

Retomando o início do artigo, o chamado tarifaço foi revogado pela suprema corte do país em fevereiro de 2026, impondo não apenas uma fragorosa derrota ao governo Trump como, ainda, chancelando a possibilidade de estorno dos montantes pagos às empresas tarifadas. Todavia, esse é um governo que não sabe perder, e outros mecanismos estão em gestação visando driblar a suprema corte e manter as barreiras fiscais revogadas. As alternativas se apoiam nas seções 122, 201, 301 da lei de comércio dos Estados Unidos de 1974.

A seção 122 da referida lei estabelece tarifa de 10%, de forma cumulativa, sobre as atualmente praticadas. A seção permite que a tarifa alcance 15% por 150 dias, sob o argumento de correção dos desequilíbrios da balança de pagamentos. A partir dessa seção, substituiu-se o tarifaço revogado pela suprema corte dos EUA, porém, com limites de vigência e percentual.

A seção 201 prevê a imposição de cotas temporárias de importação. Já a seção 301 trata de um mecanismo para investigar possíveis práticas comerciais desleais de países estrangeiros que afetem o comércio dos EUA. A apuração é conduzida pelo Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) e pode abranger, por exemplo, práticas análogas à escravidão e a ausência de rastreabilidade de produtos importados.

A seção 232, de 1962, permite a imposição de tarifas para produtos que ameacem a segurança nacional e faz parte da legislação de extensão comercial, enquanto a seção 338 pertence à lei tarifária de 1930, que impõe tarifas de até 50% a países que discriminem produtos estadunidenses. Esta última nunca foi aplicada, mas o dedo trumpista está no gatilho.

Adicionalmente, há, ainda, a possibilidade de retaliação aos países que transacionam com o Irã (25% de tarifa adicional), embora exista o consenso de que o principal perdedor da deflagração da “Fúria Épica” sejam os Estados Unidos. O governo continua sob os preceitos da teocracia, enquanto o mundo voltou-se contra o ataque, pois os EUA levaram ao colapso a oferta de energia/vida (petróleo, gás, enxofre e fertilizantes), atendendo mais ao intuito de construção da hegemonia israelense na região e prescindindo da preocupação do avanço do enriquecimento de urânio no Irã.

Como se não bastassem todas essas possibilidades de, novamente, levantarem-se barreiras ao café brasileiro, a possibilidade do governo dos EUA caracterizar como terroristas os grupamentos criminosos PCC e o CV concederá ao país a licença para impor taxas a produtos brasileiros amparados.

Ao longo de cerca de cem dias de vigência do tarifaço, houve perda de US$ 400 milhões exclusivamente nas exportações do agronegócio cafeeiro brasileiro para os EUA1. Apesar da revogação do tarifaço, os 50% atribuídos ao solúvel persistem, retirando, por completo, qualquer possibilidade do produto concorrer no mercado estadunidense.

Em alguma medida, as 23 indicações geográficas de café do Brasil permitem plena rastreabilidade dos produtos procedentes desses territórios. Os cafés dessas procedências têm relativa proteção contra o levantamento de barreiras tarifárias decorrente da alegada impossibilidade de rastreamento. Todavia, outras questões capazes de impedir as transações do café brasileiro no mercado estadunidense podem ser levantadas. Cabe às entidades representativas do segmento apresentarem informações sobre a estrutura produtiva da lavoura cafeeira, considerando, especialmente, tanto as relações sociais quanto os reflexos ambientais de produção.

O encontro programado entre os mandatários do Brasil e seu congênere estadunidense foi antecipadamente pautado por empresários brasileiros com acesso à cúpula do governo Trump. Acertos quanto a taxação sobre o aço e o alumínio concentram o maior interesse do lado brasileiro, enquanto, do lado de lá, são  minerais críticos. Porém, há ainda o problema dos embarques do café solúvel (onerado em 50%), que demanda um equacionamento favorável ao agronegócio Cafés do Brasil. O mais provável é que continue como está, mantendo as mercadorias brasileiras ameaçadas pelos interesses do “império”.

1 SIMÕES, K. Tensão geopolítica e tarifas redesenham ação no exterior. Valor Econômico, Caderno Especial Pequenas Empresas, 21 e 22 abr. 2026, p. F3. 

TEXTO Celso Luis Rodrigues Vegro é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

Cafeteria & Afins

Coar Cafeteria – Foz do Iguaçu (PR)

Não é só a beleza natural que atrai turistas do mundo inteiro à Foz do Iguaçu. A cidade, que abriga um dos 23 patrimônios naturais da humanidade no Brasil – o Parque Nacional do Iguaçu e suas belas Cataratas – também é casa para uma grande comunidade árabe e muçulmana, somando mais de 20 mil pessoas. O local conta com uma das maiores mesquitas da América Latina, a Omar Ibn Al-Khattab, que é marco da comunidade na tríplice fronteira.

Majida Rahall é muçulmana e proprietária da Coar Cafeteria, lugar em que escolhemos fazer uma visita durante breve passagem pela cidade. Localizada na região central, a cafeteria possui fachada simples, rústica e convidativa, com tijolinhos à vista e pintura branca com detalhes em verde.

Do lado de dentro, possui salão amplo com decoração mínima: piso e móveis de madeira, algumas fotografias na parede e uma grande oferta de mesas, que traz um tom acolhedor, principalmente para quem trabalha de maneira remota e prefere o conforto de uma cafeteria para se estabelecer durante o dia. O balcão de pedidos e pagamento, localizado à esquerda de quem entra, também é vitrine para os doces e salgados feitos artesanalmente na casa, que chamam muita atenção. Ali também são preparados os cafés e finalizados os pratos. 

Ao escolhermos uma mesa, um atendente simpático e solícito já nos entregou os cardápios para fazermos a escolha dos itens. As opções de bebidas vão de cafés e chás quentes a cafés gelados, sucos e refrigerantes. As comidas são um show à parte, com sanduíches e toasts com pão feito na casa, além das tortas, bolos e cookies. 

No cardápio, não há clareza na comunicação dos cafés, sem indicação da origem, torra, produtor e outras informações. Para quem aprecia o universo dos cafés especiais, certamente é algo que faz muita falta. Optamos, então, por um coado na V60, que já chega pronto à mesa e entrega um dulçor acentuado com notas de caramelo, acidez baixa e corpo médio, fácil de beber. Experimentamos também o cappuccino tradicional, que estava cremoso e muito bem vaporizado. 

A pedida para acompanhar os cafés foi uma toast de cogumelos com cream cheese e zaatar, uma fatia de torta de maçã e uma de torta de pistache, mascarpone e chocolate, ambas indicações da atendente. 

A toast, servida num pão de campanha feito na casa, estava muito bem equilibrada, com os cogumelos caramelizados e o toque herbal do zaatar unidos pela cremosidade do cream cheese. O pão era crocante e macio ao mesmo tempo. A torta de maçã surpreendeu pela quantidade abundante da fruta em sua preparação, mas a massa era um pouco pálida e macia demais – sentimos falta de uma crocância para contrastar com o recheio. Já a torta de pistache e mascarpone entregou não só visual, mas muito sabor. O chocolate não roubou a cena, e você conseguia apreciar cada um dos três sabores, mesmo sendo todos marcantes. Não era muito doce e foi uma grata surpresa, combinando perfeitamente com o café coado. 

Torta de maçã e torta de pistache

As porções servidas no local são para lá de generosas, sendo possível compartilhar com uma ou mais pessoas. Aliás, a cafeteria é o lugar perfeito para pedir três ou quatro opções e dividir com uma mesa cheia de amigos. A casa também oferece brunch árabe aos sábados e domingos – mas esse ficará para uma próxima visita.

A Coar Cafeteria é um destino bacana para quem busca bons cafés para além do rigor técnico. Aqui, a experiência é construída ao redor da mesa, com acolhimento e identidade. O espaço encontra sua força no conjunto – boa comida, café que agrada com facilidade e um ambiente genuinamente hospitaleiro. No centro de Foz do Iguaçu, o endereço encontra seu lugar naquilo que entrega de forma simples e honesta: o prazer de estar à mesa. 

Nossa conta: R$ 102 (com taxa de serviço)
Café coado – R$ 15
Cappuccino – R$ 14
Toast de cogumelos – R$ 26
Torta de maçã – R$ 18
Torta de pistache e mascarpone – R$ 20

A Espresso visitou a casa anonimamente e pagou a conta.

Informações sobre a Cafeteria

TEXTO Equipe Espresso • FOTO Equipe Espresso

Barista

Juliana Morgado defende o Brasil no mundial de filtrado: “Vão ver como é o nosso café e a força das mulheres”

Única mulher entre os seis finalistas da competição nacional, a barista de Brasília se prepara para o mundial da categoria na Bélgica

“Acordo todo dia de manhã e vou olhar minha prateleira pra ver se é verdade”, conta Juliana Morgado à Espresso sobre sua vitória no Campeonato Brasileiro de Brewers no último dia 26.

Única mulher entre os seis finalistas, a barista de Brasília segue em ritmo de treinamento para representar o Brasil no mundial, que acontece de 25 a 27 de junho em Bruxelas, na Bélgica. 

Em entrevista exclusiva, Juliana relembra sua trajetória no café, reflete sobre os desafios da profissão e comenta os planos para o futuro e as expectativas para o mundial. “Quero mostrar que o café brasileiro é mais do que castanha, caramelo, chocolate e torra escura para espresso”. 

Espresso: Conte um pouco sobre sua trajetória no café – experiências, conquistas e desafios.

Juliana: Faz oito anos que estou no café, comecei como barista. Antes, trabalhei sete anos como assessora de imprensa. Saí de um trabalho que estava me fazendo mal, e, como tinha um curso de barista, comecei a trabalhar com isso e me apaixonei. Igual à Alice, caí no buraco do coelho, no mundo do café especial, e a curiosidade foi me levando. Como sempre fui estudiosa, acho natural querer ampliar conhecimento. Acho que foi isso o que fez minha carreira deslanchar e é o que eu digo a todos os baristas com quem convivo: se você estuda, se dedica com compromisso e consistência, consegue melhorar a vida de ser barista. Meu grande desafio é o de todo mundo – ser barista e ter perspectiva de crescimento, não apenas ficar na cafeteria fazendo café. 

Trabalhei em cafeterias em Brasília. O café que usei no campeonato foi selecionado e torrado pelo Rodrigo, da Studio Grão, onde trabalhei quatro anos. Íamos atrás de lotes incríveis de produtores muito pequenos, ou, às vezes, um pouco maiores, mas com alguma saca maravilhosa difícil de vender  – ninguém quer pagar frete de uma saca só. Mas a gente ia lá, para mostrar que o Brasil tem jóias a serem lapidadas.

E: O que significa ganhar o título de Campeã Brasileira de Brewers?

J: Foi incrível. Acordo toda manhã e vou olhar minha prateleira pra ver se é verdade. Bato no troféu e sigo o dia. Eu sabia que eu iria bem porque estava me esforçando muito e tinha um café realmente muito bom. Já fui com o pensamento de que iria ganhar, porque é competição e você tem que dar o seu melhor. Quando anunciaram meu nome, caí de joelhos, porque é a chancela de todo o meu esforço, de oito anos de barismo, de anos ensinando. Sou instrutora, consultora, ajudo a abrir cafeterias. Trabalho como barista parceira da 3corações visitando lugares com cafés de todos os tipos. Amo não só cafés especiais, por isso fiquei em êxtase. Acredito que consegui representá-lo e, principalmente, as mulheres do café, uma área muito dominada por homens e onde precisamos ganhar espaço. E o mundial é o nosso espaço, o do Brasil, para dizermos que temos cafés incríveis também.

E: De que maneira ganhar este campeonato impacta sua vida profissional?  

J: Agora ela virou de cabeça pra baixo. Com essa visibilidade, consigo colocar meus projetos pra frente. Sempre quis fazer cursos filantrópicos para mulheres e trans em situação de risco. Tem muita gente querendo me ajudar. Mas, antes, quero levar o café brasileiro pra fora e mostrar que somos mais do que castanha, caramelo, chocolate e torra escura para espresso. Porque nas cafeterias lá fora, o Brasil está sempre nessa média. Temos cafés incríveis, florais, frutados, delicados, feitos com esforço e por mãos que querem oferecer uma xícara incrível, uma experiência. É isso quero mostrar. 

E: Como você pretende se preparar para o Mundial e quais são as expectativas em relação a essa disputa?

J: Estou em fase de treinamento, fechando meu discurso em inglês, decidindo se o café vai ser o mesmo ou não. Estamos buscando patrocínio, porque só tenho a minha ida garantida, mas preciso dos meus coachs, de equipamentos e utensílios para treinar e me apresentar. Só o filtro de papel que uso custa R$ 10. Nos denominamos uma seleção brasileira de barismo, pois não vou representar uma marca, mas o Brasil. Então, aceitamos ajuda de que quem tiver interesse em ajudar a marca Brasil. Minha expectativa é de que vamos ganhar, e vocês vão ver como é o café do Brasil e a força das mulheres.

E: Quais os planos para o futuro? Pretende competir novamente?

J: Claro. Esse ano vou ao Campeonato Brasileiro de Barista e, ano que vem, ao de brewers de novo. E de barista de novo. E mundial de novo – se der. Gosto disso.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Barista

Campeonatos de café movimentam a semana no Brasil e na Tailândia

Disputas de torra, em Varginha (MG), e de degustação, em Bangcoc, reúnem profissionais; mineiro Jacques Carneiro representa o país no mundial de cupping

*Post atualizado em 7 de maio, às 17h30.

A cena do café especial entra em ebulição nesta semana com dois campeonatos de peso — um no Brasil, outro no circuito internacional. De um lado, o Campeonato Brasileiro de Torra, que começa nesta quarta-feira (6) e segue até sexta (8), em Varginha (MG). De outro, o World Cup Tasters Championship, que reúne degustadores de 44 países entre quinta (7) e sábado (9), em Bangcoc, na Tailândia.

O Brasil será representado pelo mineiro Jacques Carneiro na disputa internacional, realizada durante o World of Coffee Bangkok 2026. Cofundador e diretor de Inovação e Qualidade da Unique Cafés Especiais, atua há mais de 20 anos no setor. Participa do mundial pela segunda vez — em 2007, foi 3º colocado em competição internacional de degustação.

Sobre a preparação para o mundial, Carneiro conta à Espresso que treinou diariamente no laboratório da Unique, testando tipos de triangulações e variando granulometrias. “A estratégia é sempre acertar mais em menos tempo, mas vou observar na primeiro rodada como está o nível de acerto e tempo dos competidores antes de mim, e se os acertos forem muito altos, vou precisar acelerar mesmo correndo o risco do erro, mas como estratégia pra tentar passar pra próxima. Agora, se o nível de acerto for médio, vou na paciência e esqueço o tempo para tentar o máximo de acerto para passar para próxima”, comenta.

Jacques Carneiro no Campeonato Brasileiro de Cup Tasters 2026

O mundial de cup tasters premia o degustador que demonstra maior precisão, velocidade e consistência na identificação de diferenças sensoriais em cafés especiais. Na prova, os competidores enfrentam séries de triangulações — três xícaras servidas, sendo duas com cafés idênticos e uma diferente. Cada rodada reúne oito triangulações, e o objetivo é apontar corretamente a xícara distinta no menor tempo possível, usando olfato, paladar e memória sensorial.

A edição deste ano reflete uma mudança mais ampla no circuito internacional do café. Ao levar o campeonato para a Ásia, a Specialty Coffee Association reforça a descentralização do setor e acompanha o crescimento da região como polo consumidor e produtor. Além da disputa em si, o Cup Tasters tem sido, na opinião de especialistas, cada vez mais usado como referência de calibração sensorial na indústria, influenciando desde o treinamento de equipes até processos de compra e controle de qualidade de cafés.

No Brasil, o Campeonato Brasileiro de Torra abre a programação nesta quarta (6), no Centro do Comércio de Café do Estado de Minas Gerais (CCCMG), em Varginha. O vencedor será conhecido na sexta (8) e garantirá vaga no World Coffee Roasting Championship, que acontece entre 25 e 27 de junho, em Bruxelas, na Bélgica.

Ao todo, 14 competidores de 13 cidades participam da disputa nacional. O campeonato avalia o desempenho com base no perfil sensorial do café apresentado, premiando quem melhor reproduz, na xícara, o plano de torra previamente submetido ao júri. O café oficial é da cooperativa Minasul, e os torradores utilizados são da marca Kaleido.

Competidores do Campeonato Brasileiro de Torra

Breno Azevedo de Oliveira – Rio de Janeiro (RJ)
Fabio Milan Pereira – Machado (MG)
Flavio Camargos Lopes da Silva – Salvador (BA)
Franciele Cristina da Silva Moreira – Varginha (MG)
Gabriel Carvalhaes Heinerici – Rio de Janeiro (RJ)
Ivan Carlos de Santana – Cabo Verde (MG)
João Santarosa Esmanhoto – Florianópolis (SC)
Johann Schelck Emmerich – Belo Horizonte (MG)
Nicholas Eloy Delfino Lara – Curitiba (PR)
Pedro Henrique Figueiredo dos Anjos – Brasília (DF)
Reginaldo Gonçalves Gomes – Uberaba (MG)
Rhuan Simil Fernandes – Patrocínio (MG)
Robson Rodrigues Ribeiro – Carmo de Minas (MG)
Tiago de Mello – São Paulo (SP)

World Cup Tasters Championship
Onde: Bangkok International Trade & Exhibition Centre
Quando: 7/5 (11h–17h, primeira rodada); 8/5 (10h30–15h, quartas de final e semifinais); 9/5 (12h30–14h, final)

Campeonato Brasileiro de Torra
Onde: Centro do Comércio de Café do Estado de Minas Gerais (CCCMG) – Varginha (MG)
Quando: 6/5 (10h–15h10); 7/5 (8h–15h15); 8/5 (9h–16h30)

TEXTO Redação

Mercado

Nestlé confirma venda da Blue Bottle para acionária da Luckin Coffee

Estratégia faz parte de de reposicionamento da empresa em negócios escaláveis e café, com redução do portfólio e corte de empregos

A Nestlé confirmou a venda da Blue Bottle Coffee para a Centurium Capital Partners, empresa de private equity chinesa e maior acionista da Luckin Coffee. O valor da venda não foi divulgado, e o negócio está previsto para ser concluído neste primeiro semestre, conforme anúncio da multinacional divulgado em seu relatório de vendas trimestrais no fim de abril.

A Nestlé adquiriu participação majoritária na Blue Bottle Coffee em 2017 por cerca de US$ 425 milhões, mas a expectativa do mercado é de que o valor desta próxima venda seja bem menor do que os US$ 700 milhões que a Blue Bottle vale atualmente – especialistas arriscam US$ 400 milhões. 

Notícias recentes informam que a transação inclui os cafés da Blue Bottle e a maior parte de seu negócio em bens de consumo, enquanto a Nestlé manterá direitos sobre as cápsulas da marca.

A venda da Blue Bottle Coffee, com mais de 100 lojas nos EUA e na Ásia, é parte da estratégia de reestruturação da Nestlé, que inclui a redução do portfólio e o foco em marcas globais de maior alcance, particularmente no setor de café, onde Nescafé e Nespresso impulsionam seu crescimento. 

No ano passado, o conglomerado suíço revisou, por exemplo, suas marcas de vitaminas, como a Puritan’s Pride, e, em fevereiro, anunciou sua saída do mercado de sorvetes, e, parcialmente, do negócio de água engarrafada – são dela as marcas Perrier e San Pellegrino, cujo acordo de vendas gira em torno de US$ 5,75 bilhões, segundo informou a Reuters.

A maior empresa de alimentos do mundo também planeja reduzir custos. Em outubro de 2025, o CEO da Nestlé, Philipp Navratil, anunciou o corte de 16 mil empregos como parte de um plano para reestruturá-la. Dias atrás, o sindicato britânico GMB afirmou o corte de 450 empregos no Reino Unido.

O café, porém, continua sendo uma área importante para a Nestlé. Mesmo com queda de 5,7% nas vendas no primeiro trimestre do ano em relação a 2025, a categoria registrou vendas de US$ 7,6 bilhões no período, um valor considerado estável em comparação ao mesmo período do ano anterior, e cresceu 9,3%, superando os demais segmentos. 

O plano de reestruturação concentra-se em quatro pilares principais — café, cuidados com animais de estimação, nutrição e alimentos e snacks. 

Expansão nos EUA

Criada em 2017, a Luckin acaba de abrir, em fevereiro, sua loja número 30 mil, em Shenzen, na China, onde está presente em mais de 300 cidades, além de ter unidades em Singapura, Malásia, Hong Kong e Estados Unidos.  

A transação, portanto, reforça a presença da Centurium na América do Norte, onde existem mais de 70 unidades da Blue Bottle. A aceleração de crescimento da Luckin é atribuída à entrada da Centurium no negócio, em 2022. Uma das novidades recentes é a abertura de um centro de torrefação da rede na cidade chinesa de Qingdao, considerado o maior do país.

TEXTO Fontes: CNN, Reuters, Perfect Daily Grind, Daily Coffee News, Los Angeles Times, FoodNavigator.

Mercado

Café especial ganha força na França e muda reputação histórica do país

Em um país de tradições culinárias e culturais mundialmente famosas, a qualidade do café costuma ser notícia na França — mas, muitas vezes, pelas razões erradas. Porém, os tempos estão mudando. A 5thWave conversou com a nova geração de artesãos que está aproveitando a profunda herança francesa de gastronomia, terroir e savoir-faire para inaugurar uma nova era de excelência no café especial.

Por Tobias Pearce

Poucas coisas são tão importantes para os franceses quanto a excelência culinária – tanto que, em 2010, a gastronomia francesa e suas tradições foram reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. Mas, em um país onde a alta gastronomia é tratada como arte, o café costuma ser uma decepção amarga.

A cultura dos cafés na França pode até ser lendária, mas, como explica Christophe Servell, fundador da inovadora cafeteria e torrefação parisiense Terres de Café, “os franceses não estão acostumados com café bom, mas com café queimado”. Mesmo assim, os tempos estão mudando, e a França está desenvolvendo rapidamente uma abordagem única para o café especial, guiada por sua profunda conexão cultural com a terra, a agronomia e os métodos artesanais de produção.

Inaugurada em 2009, a Terres de Café pertence a uma das primeiras comunidades de negócios voltadas ao café especial – juntamente com Coutume, L’Arbre à Café e Lomi – que desafiaram o status quo do espresso de baixa qualidade servido como mero complemento da refeição.

Fundamentada nos princípios da gastronomia, do terroir, do respeito ao produto e da expertise, a Terres de Café torra cerca de 350 toneladas de café especial por ano e opera 11 lojas em Paris, além de unidades em Lille, Versalhes e até Seul, na Coreia do Sul. O negócio evoluiu bastante desde 2009, quando “não havia mercado para café especial na França”, recorda Servell.

A ascensão do café especial no país acontece em um momento em que muitos dos tradicionais estabelecimentos de hospitalidade franceses estão em declínio. “Assim como os pubs britânicos ou os diners americanos, há uma verdadeira crise dos cafés em Paris, onde dez novas cafeterias abrem enquanto dez cafés tradicionais fecham”, observa ele.

Estima-se que nos últimos 25 anos Paris tenha perdido cerca de 500 cafés e bistrôs tradicionais, restando hoje algo como 1.400 desses estabelecimentos. Esse encolhimento se deve, em parte, à mudança nas expectativas dos consumidores franceses, cada vez mais críticos quanto à preferência nacional por cafés commodities de torra escura. “O espresso sempre fez parte da refeição francesa, mas era mais por seu suposto efeito revigorante do que por prazer. Isso fez com que o café fosse subvalorizado como parte da experiência gastronômica”, afirma o australiano Tom Clark, fundador do grupo de cafeterias parisiense Coutume.

Ofício e precisão: latte art na Terres de Café

Clark apaixonou-se por Paris e por sua mundialmente famosa cultura de cafés quando era estudante de intercâmbio em direito. Mas logo percebeu que o café da cidade não tinha a joie de vivre (alegria de viver) à qual ele estava acostumado em casa. “Até pouco tempo, não havia propriamente uma cena de cafés na França. Não existia a noção de complexidade sensorial ou de diversidade”, diz ele.

A Coutume, que significa “costume” ou “hábito”, foi a primeira em Paris a instalar uma torrefação de cafés especiais no interior de uma loja de varejo ao abrir suas portas em 2011. Para mostrar como o mercado evoluiu, hoje cerca de 45% da receita da Coutume vem de 350 contas de food service, incluindo fornecimento de máquinas e manutenção, e o restante é gerado por suas dez cafeterias. “Saímos de um conceito de nicho, talvez um pouco estranho e anglófono, para algo plenamente adotado – ao menos em Paris”, afirma Clark.

Responsável por cerca de três quartos de todo o café especial vendido na França, a Belco – empresa que comercializa cafés sustentáveis e biodinâmicos – é outro nome que tem reconfigurado a relação dos franceses com o café. Fundada em 2007 por Nicolas e Alexandre Bellangé, a Belco produziu 6 mil toneladas de cafés com alta pontuação em 2024, sendo que cerca de 70% se destinam ao mercado francês e os 30% restantes são exportados para a Europa e o Oriente Médio.

Os negócios vão bem, mas conquistar o público francês não foi tarefa simples. “Os franceses têm muito orgulho de sua comida e da agricultura, mas nem sempre estão abertos à mudança. Leva tempo para mudar mentalidades, mas o café especial na França hoje é mais do que um nicho”, diz Laure Jubert, diretora de relações estratégicas e experiências de produto da Belco.

Esse sentimento é compartilhado por Line Cosmidis, diretora de vendas de cafés especiais da britânica Falcon Coffees. Francesa radicada no Reino Unido, ela observa que, ironicamente, a forte tradição de consumo da bebida na França pode ter dificultado a valorização do produto. “A França é um país com cultura de café, enquanto o Reino Unido sempre foi mais voltado ao chá. Como o café já era um pilar cultural do país, mudar hábitos levou mais tempo – um pouco como acontece no mercado italiano”, afirma.

Ainda assim, com a mudança de mentalidade, especialmente entre consumidores mais jovens, Cosmidis diz que a França é hoje um dos mercados que mais crescem para a Falcon, com sede no Reino Unido. “Agora há mais ênfase no produto em si, e não apenas no contexto social em torno do café”, conclui.

Antigas tradições, novas tendências

Embora historicamente alguns elementos da tradicional culinária francesa possam ter limitado a adoção do café especial, muitos chefs e donos de restaurantes do país estão adotando novas maneiras de servir a bebida.

Quando Servell abriu sua primeira cafeteria em Le Marais, a demanda inicial foi baixa entre os consumidores, para quem o café especial era um conceito desconhecido. A Terres de Café começou como fornecedora do grão para restaurantes parisienses, mas hoje o maior canal de distribuição do negócio é o fornecimento de café para escritórios, seguido por hotéis, com os restaurantes representando uma parcela importante porém bem menor do negócio. De fato, 60% do volume de vendas da Terres de Café são para clientes B2B. “Entre os primeiros a entender a mensagem estavam os chefs e donos de restaurantes em Paris – é graças a eles que o café ainda está vivo”, acredita.

A trajetória do café especial na França também é profundamente influenciada por outra obsessão nacional: o vinho. Para Hippolyte Courty, fundador da L’Arbre à Café, com sede em Paris, as sinergias entre café especial e vinho despertaram uma nova paixão pela torrefação artesanal e pelo terroir. “O café especial é como o vinho – o sabor vem da agricultura”, afirma Courty, explicando porque o terroir e a agricultura são fundamentais para a missão da L’Arbre de criar uma “nova arte francesa do café” baseada no equilíbrio, na complexidade e em um retrogosto longo e fresco – assim como o vinho.

À esquerda, Hippolyte Courty com as sommelières Paz Levinson e Pascaline Lepeltier na Finca Mariposa, do L’Arbre à Café, no Peru. À direita, preparo de café coado na L’Arbre à Café, em Paris

Atualmente, a L’Arbre opera cinco cafeterias em Paris, administra sua própria fazenda de 35 hectares, a Finca Mariposa, no Peru, e importa diretamente 90% de todo o café que vende, proporcionando uma verdadeira experiência da fazenda à xícara. “Descobri o café especial e decidi fundar a L’Arbre para criar uma torrefação de café orgânico e biodinâmico de alta qualidade. Percebi que havia coisas fabulosas acontecendo com o café nos EUA, Reino Unido, Escandinávia e Austrália – em todos os lugares, exceto na França”, acrescenta Courty.

Assim como a França tornou famosas suas 11 principais regiões vinícolas com o sistema de Denominação de Origem Controlada (AOC, abreviação de Appellation d’Origine Contrôlée, no original), Cosmidis, da Falcon, acredita que há uma tremenda oportunidade para os torrefadores franceses liderarem um novo movimento de café especial focado no terroir.

“Definitivamente, há uma oportunidade para o mercado de café francês se tornar mais internacional”, afirma. “Vinho, culinária, chefs, todas essas coisas pelas quais os franceses são conhecidos estão se infiltrando no mercado de café. Há uma enorme oportunidade que não foi totalmente aproveitada”, afirma.

Ao comparar a uva e o grão, Jubert, da Belco, observa que, embora muitas das principais vinícolas francesas tenham reduzido a produção em meio à queda da demanda doméstica e internacional, aquelas focadas em boas práticas agrícolas e processos naturais são agora as mais bem-sucedidas. Ela acredita que a indústria cafeeira francesa poderia seguir uma trajetória semelhante.

“O café especial tem muitas ligações com o mercado gastronômico. Sommeliers poderiam ser treinados para selecionar um bom café. Acredito que esse seja o futuro, e ele está mais próximo do que imaginamos”, afirma.

Muitos artesãos tornam o trabalho leve

Ao ouvir feedbacks e conversas de clientes em suas cafeterias, Clark observou mudanças nas atitudes dos franceses em relação à bebida. Se a Coutume costumava aplicar uma torra mais escura aos grãos para atrair os hesitantes apreciadores de café especial, atualmente, afirma Clark, sua demanda por café no estilo italiano está diminuindo.

Interior da Coutume, na Galeries Lafayette

“Houve uma mudança radical, e as pessoas agora querem consumir de forma autêntica, em vez de serem afastadas por diferentes condicionamentos e canais de distribuição. Há também um segmento mais amplo em busca de uma experiência de alto nível, disposto a pagar um pouco mais por um nanolote ou uma cofermentação exclusiva”, observa ele.

Courty, da L’Arbre, também vê a diversificação do mercado francês de cafés especiais e a busca dos consumidores por novas experiências. “Há dez, quinze anos, ninguém em Paris queria comer ou beber andando na rua, eles queriam sentar-se à mesa ou no balcão. Agora, vemos pessoas caminhando com copos de café para viagem.”

Essa mudança de mentalidade pode representar uma oportunidade significativa para o considerável mercado de padarias e cafés da França. “A boulangerie e a pâtisserie são uma nova fronteira para o café como um mercado para viagem. Os lanches representam cerca de 30 a 50% dos negócios de padaria atualmente, e as bebidas quentes fazem parte disso”, diz Courty. Um dos maiores clientes atacadistas da L’Arbre é o aclamado pâtissier Pierre Hermé, que agora serve cafés especiais em suas 60 lojas pela Europa e Japão.

Dito isso, quando o assunto é café, Paris ainda tem um longo caminho a percorrer antes de atingir o nível de capitais europeias como Londres e Berlim. Após organizar um tour recente por cafeterias para avaliar a situação do mercado, Courty relata que cerca de cinco dos 30 estabelecimentos visitados por sua equipe serviam o que ele considerou um café especial “muito bom”. “Os outros se concentraram mais no estilo de vida, o que me mostrou que as pessoas não vêm apenas pela qualidade da bebida, mas pela qualidade da experiência completa”, diz ele.

Além da cidade-luz

É evidente que o mercado de café parisiense passa por um período de rápida premiunização, mas será que o café especial conseguirá se infiltrar no restante do país? Para Courty, há sinais encorajadores. “Paris é o epicentro do café especial na França, mas também há crescimento em Bordeaux, Lille e Lyon. Em Limoges, uma cidadezinha no centro do país, um amigo meu abriu uma cafeteria e torrefação de cafés especiais chamada La Fabrique du Café”, conta ele.

Exposição de produtos na loja Terres de Café Daguerre, em Paris

Os locais de trabalho também se tornaram embaixadores improváveis do café ​especial na França, principalmente porque muitos empregadores buscam atrair trabalhadores remotos de volta ao escritório. “O mercado corporativo está passando por uma grande mudança, uma guinada completa, deixando de apostar em cápsulas para apostar em grãos”, diz Clark, cujo empreendimento mais recente é um bem sucedido negócio de café corporativo.

Jubert, da Belco’s, destaca que torrefações de grãos especiais estão ganhando cada vez mais espaço nas prateleiras dos grandes supermercados franceses. Ela também observa uma demanda crescente pelo produto em locais não especializados em todo o país. “Isso já está acontecendo, até mesmo em estações ferroviárias e hotéis. Nos últimos dois anos, também vimos marcas de luxo fazendo colaborações com cafés especiais porque entenderam que ele também é um grande construtor de comunidades”, avalia.

Fabricado na França

Muitos países adotaram o café especial, mas a França está aproveitando suas profundas tradições culturais em torno do terroir e da gastronomia para desenvolver sua própria cultura em torno dos grãos de qualidade. “Os franceses realmente valorizam a experiência gastronômica, faz parte de sua arte de viver. Eles são muito agrários, muito conectados à terra e isso agora se reflete na cultura cafeeira. É um mercado empolgante e há uma enorme oportunidade para nós”, diz Clark, que acredita num crescimento do mercado de especiais de 5% para 25% nos próximos cinco anos.

O café pode ter tido um espaço secundário na experiência gastronômica francesa, mas agora está ocupando seu devido lugar nos mais altos escalões das tradições gastronômicas do país. Incluído no prestigiado concurso Meilleur Ouvrier de France (MOF) desde 2018, o status do café como a mais nova instituição culinária da França parece firmemente garantido.

Texto originalmente publicado na edição #89 (setembro, outubro e novembro de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Tobias Pearce (5THWAVE)

Barista

Campeonato Torrefação do Ano 2026 recebe inscrições até 7/5

O campeão assegura vaga na final da edição nacional, que acontece em novembro na SIC, em Belo Horizonte (MG)

Vencedores do campeonato na Semana Internacional do Café (SIC) em 2025

Estão abertas as inscrições para a competição Torrefação do Ano 2026, organizada pela Attila Torradores. A primeira etapa acontece de 26 a 29 de maio no Fispal Food Service, em São Paulo (SP). 

O vencedor garante vaga na final do campeonato, que acontece durante a Semana Internacional do Café (SIC), em Belo Horizonte, entre 11 e 13 de novembro. As inscrições custam R$ 350 e podem ser feitas no site da empresa.

O concurso está na 6ª edição e busca aprimorar a qualidade das torrefações com provas que envolvem criatividade e consistência, além de participação do público. Os cafés do campeonato são das Fazendas Diamante – que ficam nos municípios mineiros de Martins Soares, Manhumirim e Caparaó e cada torrefação escolhe 2 kg de um deles para trabalhar. 

Depois de um dia de treino, os competidores entregam uma amostra de 150 g, que será avaliada por juízes sensoriais. As três melhores serão, então, provadas pelo público, que elegerá a ordem dessas torrefações no pódio.  

O quê: Torrefação do Ano 2026 – edição Fispal
Quando: 26 a 29 de maio
Onde: Durante a Fispal 2026, no Distrito Anhembi (av. Olavo Fontoura, 1.209, São Paulo – SP)
Inscrições: R$ 350, até 7 de maio, no site da Attila Torradores

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