Mercado

Café especial ganha força na França e muda reputação histórica do país

Em um país de tradições culinárias e culturais mundialmente famosas, a qualidade do café costuma ser notícia na França — mas, muitas vezes, pelas razões erradas. Porém, os tempos estão mudando. A 5thWave conversou com a nova geração de artesãos que está aproveitando a profunda herança francesa de gastronomia, terroir e savoir-faire para inaugurar uma nova era de excelência no café especial.

Por Tobias Pearce

Poucas coisas são tão importantes para os franceses quanto a excelência culinária – tanto que, em 2010, a gastronomia francesa e suas tradições foram reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. Mas, em um país onde a alta gastronomia é tratada como arte, o café costuma ser uma decepção amarga.

A cultura dos cafés na França pode até ser lendária, mas, como explica Christophe Servell, fundador da inovadora cafeteria e torrefação parisiense Terres de Café, “os franceses não estão acostumados com café bom, mas com café queimado”. Mesmo assim, os tempos estão mudando, e a França está desenvolvendo rapidamente uma abordagem única para o café especial, guiada por sua profunda conexão cultural com a terra, a agronomia e os métodos artesanais de produção.

Inaugurada em 2009, a Terres de Café pertence a uma das primeiras comunidades de negócios voltadas ao café especial – juntamente com Coutume, L’Arbre à Café e Lomi – que desafiaram o status quo do espresso de baixa qualidade servido como mero complemento da refeição.

Fundamentada nos princípios da gastronomia, do terroir, do respeito ao produto e da expertise, a Terres de Café torra cerca de 350 toneladas de café especial por ano e opera 11 lojas em Paris, além de unidades em Lille, Versalhes e até Seul, na Coreia do Sul. O negócio evoluiu bastante desde 2009, quando “não havia mercado para café especial na França”, recorda Servell.

A ascensão do café especial no país acontece em um momento em que muitos dos tradicionais estabelecimentos de hospitalidade franceses estão em declínio. “Assim como os pubs britânicos ou os diners americanos, há uma verdadeira crise dos cafés em Paris, onde dez novas cafeterias abrem enquanto dez cafés tradicionais fecham”, observa ele.

Estima-se que nos últimos 25 anos Paris tenha perdido cerca de 500 cafés e bistrôs tradicionais, restando hoje algo como 1.400 desses estabelecimentos. Esse encolhimento se deve, em parte, à mudança nas expectativas dos consumidores franceses, cada vez mais críticos quanto à preferência nacional por cafés commodities de torra escura. “O espresso sempre fez parte da refeição francesa, mas era mais por seu suposto efeito revigorante do que por prazer. Isso fez com que o café fosse subvalorizado como parte da experiência gastronômica”, afirma o australiano Tom Clark, fundador do grupo de cafeterias parisiense Coutume.

Ofício e precisão: latte art na Terres de Café

Clark apaixonou-se por Paris e por sua mundialmente famosa cultura de cafés quando era estudante de intercâmbio em direito. Mas logo percebeu que o café da cidade não tinha a joie de vivre (alegria de viver) à qual ele estava acostumado em casa. “Até pouco tempo, não havia propriamente uma cena de cafés na França. Não existia a noção de complexidade sensorial ou de diversidade”, diz ele.

A Coutume, que significa “costume” ou “hábito”, foi a primeira em Paris a instalar uma torrefação de cafés especiais no interior de uma loja de varejo ao abrir suas portas em 2011. Para mostrar como o mercado evoluiu, hoje cerca de 45% da receita da Coutume vem de 350 contas de food service, incluindo fornecimento de máquinas e manutenção, e o restante é gerado por suas dez cafeterias. “Saímos de um conceito de nicho, talvez um pouco estranho e anglófono, para algo plenamente adotado – ao menos em Paris”, afirma Clark.

Responsável por cerca de três quartos de todo o café especial vendido na França, a Belco – empresa que comercializa cafés sustentáveis e biodinâmicos – é outro nome que tem reconfigurado a relação dos franceses com o café. Fundada em 2007 por Nicolas e Alexandre Bellangé, a Belco produziu 6 mil toneladas de cafés com alta pontuação em 2024, sendo que cerca de 70% se destinam ao mercado francês e os 30% restantes são exportados para a Europa e o Oriente Médio.

Os negócios vão bem, mas conquistar o público francês não foi tarefa simples. “Os franceses têm muito orgulho de sua comida e da agricultura, mas nem sempre estão abertos à mudança. Leva tempo para mudar mentalidades, mas o café especial na França hoje é mais do que um nicho”, diz Laure Jubert, diretora de relações estratégicas e experiências de produto da Belco.

Esse sentimento é compartilhado por Line Cosmidis, diretora de vendas de cafés especiais da britânica Falcon Coffees. Francesa radicada no Reino Unido, ela observa que, ironicamente, a forte tradição de consumo da bebida na França pode ter dificultado a valorização do produto. “A França é um país com cultura de café, enquanto o Reino Unido sempre foi mais voltado ao chá. Como o café já era um pilar cultural do país, mudar hábitos levou mais tempo – um pouco como acontece no mercado italiano”, afirma.

Ainda assim, com a mudança de mentalidade, especialmente entre consumidores mais jovens, Cosmidis diz que a França é hoje um dos mercados que mais crescem para a Falcon, com sede no Reino Unido. “Agora há mais ênfase no produto em si, e não apenas no contexto social em torno do café”, conclui.

Antigas tradições, novas tendências

Embora historicamente alguns elementos da tradicional culinária francesa possam ter limitado a adoção do café especial, muitos chefs e donos de restaurantes do país estão adotando novas maneiras de servir a bebida.

Quando Servell abriu sua primeira cafeteria em Le Marais, a demanda inicial foi baixa entre os consumidores, para quem o café especial era um conceito desconhecido. A Terres de Café começou como fornecedora do grão para restaurantes parisienses, mas hoje o maior canal de distribuição do negócio é o fornecimento de café para escritórios, seguido por hotéis, com os restaurantes representando uma parcela importante porém bem menor do negócio. De fato, 60% do volume de vendas da Terres de Café são para clientes B2B. “Entre os primeiros a entender a mensagem estavam os chefs e donos de restaurantes em Paris – é graças a eles que o café ainda está vivo”, acredita.

A trajetória do café especial na França também é profundamente influenciada por outra obsessão nacional: o vinho. Para Hippolyte Courty, fundador da L’Arbre à Café, com sede em Paris, as sinergias entre café especial e vinho despertaram uma nova paixão pela torrefação artesanal e pelo terroir. “O café especial é como o vinho – o sabor vem da agricultura”, afirma Courty, explicando porque o terroir e a agricultura são fundamentais para a missão da L’Arbre de criar uma “nova arte francesa do café” baseada no equilíbrio, na complexidade e em um retrogosto longo e fresco – assim como o vinho.

À esquerda, Hippolyte Courty com as sommelières Paz Levinson e Pascaline Lepeltier na Finca Mariposa, do L’Arbre à Café, no Peru. À direita, preparo de café coado na L’Arbre à Café, em Paris

Atualmente, a L’Arbre opera cinco cafeterias em Paris, administra sua própria fazenda de 35 hectares, a Finca Mariposa, no Peru, e importa diretamente 90% de todo o café que vende, proporcionando uma verdadeira experiência da fazenda à xícara. “Descobri o café especial e decidi fundar a L’Arbre para criar uma torrefação de café orgânico e biodinâmico de alta qualidade. Percebi que havia coisas fabulosas acontecendo com o café nos EUA, Reino Unido, Escandinávia e Austrália – em todos os lugares, exceto na França”, acrescenta Courty.

Assim como a França tornou famosas suas 11 principais regiões vinícolas com o sistema de Denominação de Origem Controlada (AOC, abreviação de Appellation d’Origine Contrôlée, no original), Cosmidis, da Falcon, acredita que há uma tremenda oportunidade para os torrefadores franceses liderarem um novo movimento de café especial focado no terroir.

“Definitivamente, há uma oportunidade para o mercado de café francês se tornar mais internacional”, afirma. “Vinho, culinária, chefs, todas essas coisas pelas quais os franceses são conhecidos estão se infiltrando no mercado de café. Há uma enorme oportunidade que não foi totalmente aproveitada”, afirma.

Ao comparar a uva e o grão, Jubert, da Belco, observa que, embora muitas das principais vinícolas francesas tenham reduzido a produção em meio à queda da demanda doméstica e internacional, aquelas focadas em boas práticas agrícolas e processos naturais são agora as mais bem-sucedidas. Ela acredita que a indústria cafeeira francesa poderia seguir uma trajetória semelhante.

“O café especial tem muitas ligações com o mercado gastronômico. Sommeliers poderiam ser treinados para selecionar um bom café. Acredito que esse seja o futuro, e ele está mais próximo do que imaginamos”, afirma.

Muitos artesãos tornam o trabalho leve

Ao ouvir feedbacks e conversas de clientes em suas cafeterias, Clark observou mudanças nas atitudes dos franceses em relação à bebida. Se a Coutume costumava aplicar uma torra mais escura aos grãos para atrair os hesitantes apreciadores de café especial, atualmente, afirma Clark, sua demanda por café no estilo italiano está diminuindo.

Interior da Coutume, na Galeries Lafayette

“Houve uma mudança radical, e as pessoas agora querem consumir de forma autêntica, em vez de serem afastadas por diferentes condicionamentos e canais de distribuição. Há também um segmento mais amplo em busca de uma experiência de alto nível, disposto a pagar um pouco mais por um nanolote ou uma cofermentação exclusiva”, observa ele.

Courty, da L’Arbre, também vê a diversificação do mercado francês de cafés especiais e a busca dos consumidores por novas experiências. “Há dez, quinze anos, ninguém em Paris queria comer ou beber andando na rua, eles queriam sentar-se à mesa ou no balcão. Agora, vemos pessoas caminhando com copos de café para viagem.”

Essa mudança de mentalidade pode representar uma oportunidade significativa para o considerável mercado de padarias e cafés da França. “A boulangerie e a pâtisserie são uma nova fronteira para o café como um mercado para viagem. Os lanches representam cerca de 30 a 50% dos negócios de padaria atualmente, e as bebidas quentes fazem parte disso”, diz Courty. Um dos maiores clientes atacadistas da L’Arbre é o aclamado pâtissier Pierre Hermé, que agora serve cafés especiais em suas 60 lojas pela Europa e Japão.

Dito isso, quando o assunto é café, Paris ainda tem um longo caminho a percorrer antes de atingir o nível de capitais europeias como Londres e Berlim. Após organizar um tour recente por cafeterias para avaliar a situação do mercado, Courty relata que cerca de cinco dos 30 estabelecimentos visitados por sua equipe serviam o que ele considerou um café especial “muito bom”. “Os outros se concentraram mais no estilo de vida, o que me mostrou que as pessoas não vêm apenas pela qualidade da bebida, mas pela qualidade da experiência completa”, diz ele.

Além da cidade-luz

É evidente que o mercado de café parisiense passa por um período de rápida premiunização, mas será que o café especial conseguirá se infiltrar no restante do país? Para Courty, há sinais encorajadores. “Paris é o epicentro do café especial na França, mas também há crescimento em Bordeaux, Lille e Lyon. Em Limoges, uma cidadezinha no centro do país, um amigo meu abriu uma cafeteria e torrefação de cafés especiais chamada La Fabrique du Café”, conta ele.

Exposição de produtos na loja Terres de Café Daguerre, em Paris

Os locais de trabalho também se tornaram embaixadores improváveis do café ​especial na França, principalmente porque muitos empregadores buscam atrair trabalhadores remotos de volta ao escritório. “O mercado corporativo está passando por uma grande mudança, uma guinada completa, deixando de apostar em cápsulas para apostar em grãos”, diz Clark, cujo empreendimento mais recente é um bem sucedido negócio de café corporativo.

Jubert, da Belco’s, destaca que torrefações de grãos especiais estão ganhando cada vez mais espaço nas prateleiras dos grandes supermercados franceses. Ela também observa uma demanda crescente pelo produto em locais não especializados em todo o país. “Isso já está acontecendo, até mesmo em estações ferroviárias e hotéis. Nos últimos dois anos, também vimos marcas de luxo fazendo colaborações com cafés especiais porque entenderam que ele também é um grande construtor de comunidades”, avalia.

Fabricado na França

Muitos países adotaram o café especial, mas a França está aproveitando suas profundas tradições culturais em torno do terroir e da gastronomia para desenvolver sua própria cultura em torno dos grãos de qualidade. “Os franceses realmente valorizam a experiência gastronômica, faz parte de sua arte de viver. Eles são muito agrários, muito conectados à terra e isso agora se reflete na cultura cafeeira. É um mercado empolgante e há uma enorme oportunidade para nós”, diz Clark, que acredita num crescimento do mercado de especiais de 5% para 25% nos próximos cinco anos.

O café pode ter tido um espaço secundário na experiência gastronômica francesa, mas agora está ocupando seu devido lugar nos mais altos escalões das tradições gastronômicas do país. Incluído no prestigiado concurso Meilleur Ouvrier de France (MOF) desde 2018, o status do café como a mais nova instituição culinária da França parece firmemente garantido.

Texto originalmente publicado na edição #89 (setembro, outubro e novembro de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Tobias Pearce (5THWAVE)

Barista

Campeonato Torrefação do Ano 2026 recebe inscrições até 7/5

O campeão assegura vaga na final da edição nacional, que acontece em novembro na SIC, em Belo Horizonte (MG)

Vencedores do campeonato na Semana Internacional do Café (SIC) em 2025

Estão abertas as inscrições para a competição Torrefação do Ano 2026, organizada pela Attila Torradores. A primeira etapa acontece de 26 a 29 de maio no Fispal Food Service, em São Paulo (SP). 

O vencedor garante vaga na final do campeonato, que acontece durante a Semana Internacional do Café (SIC), em Belo Horizonte, entre 11 e 13 de novembro. As inscrições custam R$ 350 e podem ser feitas no site da empresa.

O concurso está na 6ª edição e busca aprimorar a qualidade das torrefações com provas que envolvem criatividade e consistência, além de participação do público. Os cafés do campeonato são das Fazendas Diamante – que ficam nos municípios mineiros de Martins Soares, Manhumirim e Caparaó e cada torrefação escolhe 2 kg de um deles para trabalhar. 

Depois de um dia de treino, os competidores entregam uma amostra de 150 g, que será avaliada por juízes sensoriais. As três melhores serão, então, provadas pelo público, que elegerá a ordem dessas torrefações no pódio.  

O quê: Torrefação do Ano 2026 – edição Fispal
Quando: 26 a 29 de maio
Onde: Durante a Fispal 2026, no Distrito Anhembi (av. Olavo Fontoura, 1.209, São Paulo – SP)
Inscrições: R$ 350, até 7 de maio, no site da Attila Torradores

Mercado

Muito além do chocolate

Iniciativas que miram o aproveitamento total do cacau apostam em inovação, sustentabilidade e mais sabor à mesa

Por Beatriz Marques

Durante a Fruit Attraction, uma das maiores feiras de fruticultura do mundo, realizada na capital espanhola em outubro deste ano, frequentadores ficaram curiosos ao passar pelo estande da empresa Sebastião da Manga, do Vale do Rio São Francisco. 

Expostos improvisadamente em caixas de papelão para armazenar mangas, vários cacaus avermelhados e vistosos, semiembrulhados em papel de seda, causavam surpresa quando cortados ao meio para expor suas amêndoas, unidas pela polpa suculenta e esbranquiçada. “Foi difícil conseguir levar o cacau para lá: primeiro, ele ficou retido em Portugal, depois, na Espanha e até na porta da feira, pois ninguém o conhecia”, revela Luis Fernando Campeche, engenheiro agrônomo e sócio da Novo Sol Agrícola, outra importante empresa produtora de frutas irrigadas no Vale do São Francisco, responsável por conseguir que o cacau in natura pudesse ser apreciado no evento. 

Por mais que o chocolate seja popular em todo o mundo e seu consumo continue a aumentar a passos largos, o mesmo não pode ser dito do seu ingrediente de origem, um verdadeiro desconhecido não só por estrangeiros como por muitos brasileiros que, além de nunca tê-lo provado diretamente da fonte, também não imaginam o potencial que ele tem a revelar.

Afinal, a parte da qual nasce o chocolate representa muito pouco da fruta inteira. “As amêndoas são somente 8% do cacau”, explica José Raul dos Santos Guimarães, superintendente regional dos estados do Pará e Amazonas da Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), órgão ligado ao Ministério da Agricultura e Pecuária para promover o desenvolvimento sustentável e a pesquisa no setor cacaueiro no Brasil.

Estimulando a bioeconomia

Aprimorar as formas de uso do produto, de modo a complementar a renda dos produtores, está entre os principais objetivos da equipe à frente da Ceplac na região, que também atua no combate a doenças, como a vassoura-de-bruxa, e na promoção do cultivo em sistemas agroflorestais.

“A bioeconomia do cacau é algo bem amplo, que perpassa a produção de amêndoa seca. Estamos falando de um aproveitamento integrado e sustentável dos recursos gerados na unidade de produção de cacau”, diz Santos, sobre a diversificação da atividade produtiva para agregar valor e ampliar a renda dos agricultores, promovendo maior sustentabilidade no campo.

Mel de cacau, da Dengo

Os produtos mais acessíveis à realidade das famílias locais são a polpa e o mel do cacau. O primeiro, extraído por uma despolpadeira, e o segundo, com uma prensa, transformam-se na base de licores, geleias, caldas, coquetéis, sucos e até molhos de pratos salgados. “De cada mil quilos de amêndoa fermentada e seca que o produtor vende, ele conseguiria aproveitar entre 450 e 500 litros de mel de cacau”, diz José Janilson do Socorro, agente de atividades agropecuárias da Ceplac. 

Para extrair o mel do cacau, a prensagem é feita logo após a colheita e mantém a integridade das amêndoas, que podem ser beneficiadas como de costume. “Só é preciso pegar uma parte do cacau sem tirar nem mel e nem polpa e misturar às amêndoas restantes, para não prejudicar o processo de fermentação”, explica Socorro, que auxilia em projetos para montar minifábricas a interessados na região. “Não é tão caro quanto os equipamentos para a elaboração do chocolate, mas ainda tem pouca gente fazendo”, conta o agente. “Com 35 mil reais, é possível adquirir esses outros equipamentos, como prensa e freezer”, completa.

Além da capacitação continuada de técnicos, a Ceplac treina famílias de agricultores – que representam 95% dos cerca de 33 mil produtores do Pará – para essas novas expertises. E o interesse pelo aprendizado, em sua maioria, parte das mulheres. “Somos muito demandados para essas capacitações e o público predominante é do gênero feminino, que tem forte presença nas propriedades”, revela Santos, que almeja empoderar cada vez mais os agricultores de toda a riqueza gerada pela economia do cacau. “Na cadeia de valor do chocolate, o produtor se apropria de apenas 6%. Olha que triste!”, lamenta o superintendente regional da Ceplac.

Do mel ao vinagre

Quem já tem explorado a versatilidade do fruto é a Mais do Cacau, fundada em 2018 e que, hoje em dia, já acumula 20 produtos alimentícios – com cacau de Ilhéus, no sul da Bahia – distribuídos em todo o país. “Nossa missão é criar produtos inovadores que vão muito além do chocolate tradicional, sempre com sustentabilidade, foco no aumento da rentabilidade, ecologicamente e socialmente corretos”, diz José Eduardo Amorim, um dos sócios. 

Mais do cacau?

Vinagre, mel, melato (mel de cacau reduzido), amêndoas e nibs caramelizados e a “cauchaça”, aguardente de cacau com 42% de teor alcoólico, são os destaques da marca, que tem como clientes restaurantes, bares e hotéis, além de consumidores finais, com vendas pelo site da marca. “O [preço do] cacau subiu 190% em dois anos, criando desafios, mas, também, oportunidades para produtos de valor agregado”, opina Amorim.

O mel de cacau, aliás, também foi novidade na Dengo Chocolates quando lançado em 2018, e hoje é vendido nas lojas da marca no Brasil e na França. Feito na Bahia pelos produtores Du Kakau e Agrícola Condurú, o mel é pasteurizado e tem adição de conservante, para que ganhe mais tempo de prateleira. Além de envasado, o líquido – de sabor frutado, doce e levemente ácido – faz parte de drinques preparados na loja Fábrica de Dengo na Faria Lima, capital paulista. 

Além destes produtos do cacau, a Dengo também elabora os gins Cacau, feito com extratos vegetais de zimbro, nibs de cacau e semente de coentro, e o Piranga, com zimbro, nibs de cacau, pitanga e limão. “O gim com cacau foi uma ideia da Dengo para ter outras formas de usar o cacau em bebidas”, conta Luciana Lobo, chocolatière da marca. “Então, buscamos um parceiro, a Draco Gin House, que usa nossos nibs de cacau no processo”, completa. O desejo de aumentar o portfólio neste segmento continua firme. “Nós estamos cada vez mais trabalhando para que isso se concretize”, afirma Andresa Silva, gerente-executiva de redes da Dengo.

Gim de cacau, feito a partir dos nibs do fruto

Inovação 

Ainda há muito a ser explorado entre as possibilidades do cacau, e a inovação tem sido uma constante no setor. Um exemplo é a norte-americana Blue Stripes, que faz o aproveitamento total do fruto, originário do Equador, em mel (chamado de “água”), gomas, mix de nuts, granola, amêndoas de cacau cobertas de chocolate e de creme de avelã, posicionando o fruto como “superalimento”. 

A empresa, inaugurada há três anos, vende seus produtos em todas as lojas da Whole Foods e registra mais de 10 milhões de dólares em vendas anuais no varejo.

No Brasil, o cacau tem cada vez mais se inspirado no café para trilhar novos caminhos. O Centro de Inovação do Cacau (CIC), em Ilhéus, na Bahia, está de olho no fruto do cacaueiro como um alimento funcional e pesquisa suas qualidades para desenvolver um produto pré-treino. “A gente tem desenvolvido produtos e inovações olhando muito para o que o café já vivenciou”, revela Cristiano Villela, diretor científico do CIC. A atenção maior está no flavonóide epicatequina, presente no fruto. “É um dos mais potentes antioxidantes que existem na natureza, e ele é abundante no cacau.”

A Maré Chocolates também vê o cacau como um superalimento. A marca de chocolate orgânico usa 100% do cacau, extraindo as cascas das amêndoas (depois de torradas) para elaborar com elas uma infusão rica em teobromina, um alcalóide de efeito levemente estimulante. “Geralmente, nas grandes indústrias, essas cascas são trituradas com as amêndoas, o que deixa um amargor no chocolate. Nós usamos um maquinário que permite essa separação e que mantém as cascas mais íntegras para a infusão”, explica Maruska Gemelli, sócia da Maré, que hoje adquire cacau de produtores de Cachoeiras de Macacu, na serra fluminense.

Pacote de chá das cascas do fruto, da Maré Chocolates

O mesmo potencial é explorado pela paulistana Chocolat Du Jour ao começar a produzir chocolates bean-to-bar. “Incorporamos o processo de descascar a amêndoa do cacau e percebemos que tinha perda de um ingrediente que poderia ter alguma utilização. Quando sentimos o aroma do cacau, que é maravilhoso, durante o processo de fabricação do chocolate, não nos conformamos com o desperdício”, relembra a sócia Patrícia Landmann. Ao lado de Carla Saueressig, uma das maiores especialistas em chás no Brasil, desenvolveram o Choco Chá, uma infusão das amêndoas dos nibs com a casca, que também é oferecido em versão com especiarias. “Ele é rico em antioxidantes e tem todas as propriedades do cacau que fazem bem para a saúde”, completa Patrícia.

Cascas do fruto

Não só de amêndoas, polpa e mel é feito o cacau. A grossa casca vistosa também pode ter melhor destino que o descarte. “Ela pode ser triturada para compostagem ou utilizada para produção de biogás, biofertilizante, ração animal. Mas esse aproveitamento da casca ainda é pouco explorado aqui”, revela Santos.

Para evitar que a casca seja um problema para o produtor, o CIC busca usá-la como meio de cultura para fungos benéficos, como o Trichoderma, para combater outros fungos que causam doenças, como a vassoura-de-bruxa. “Queremos transformar um problema numa solução amigável”, diz Villela.

Em grandes fazendas, onde o volume de cacau produzido é bem maior, as cascas já entram em um processo mecanizado. Segundo o diretor da CIC essas fazendas desenvolveram máquinas que, conforme passam pela área de colheita recolhendo o cacau para a quebra automática do fruto, já trituram as cascas e as espalham como adubo. “Só que isso é um uso pouco nobre da casca, pelo potencial que ela tem”, opina. 

In natura

O que poderia parecer óbvio, mas ainda é pouco explorado, é a venda da fruta in natura. A demonstração do cacau no Fruit Attraction foi um bom termômetro para verificar a curiosidade do público estrangeiro em relação à origem do chocolate e as possibilidades de um consumo mais amplo do cacau. “A gente tem variedades na Bahia, como a salobrinho 03, que tem sabor espetacular”, opina Villela. “A Fazenda Cantagalo [em Itabuna, sul da Bahia] tem algumas seleções para fruticultura. É um mundo ainda inexplorado e com potencial gigante”, atesta. 

Campeche, da Novo Sol Agrícola, já está de olho nesse futuro promissor e iniciou o plantio de cacaueiros para, daqui a dois anos, colher os frutos desta aposta. Assim como as uvas no Vale do Rio São Francisco, o cacau tem irrigação controlada e é cultivado com outras espécies – no caso da Novo Sol, o mamoeiro apoia o sombreamento do cacau e ainda gera renda com a venda dos frutos. “Já temos a cadeia da fruticultura bem definida e estamos bem avançados na comercialização de frutos de qualidade. Do jeito que estamos propondo o cultivo do cacau, com padrão, rastreabilidade, cultivo ambientalmente correto e selos de qualidade, conseguiremos avançar na sua exportação”, explica Villela. 

Choco Chá, infusão das amêndoas dos nibs com a casca do cacau, da Chocolat du Jour

Para tal, é preciso entender as particularidades da venda in natura. Em um cultivo commodity, ou seja, focado na comercialização das amêndoas, não há cuidado com a apresentação da casca, por exemplo. “Terei de colher de forma diferenciada, não posso jogar no chão para não amassar a casca, que perde valor comercial, e fazer uma seleção de tamanho, que conta na padronização. Por isso, a remuneração do produtor também terá de ser diferente”, detalha Campeche. Outro desafio é o shelf life do cacau que, diferentemente de frutas que podem ser colhidas verdes para depois amadurecerem, não evolui depois de retirada do pé. “Ainda estamos estudando qual seria seu tempo de vida pós-colheita e como conservá-lo”, informa o engenheiro agrônomo, sobre a conservação do fruto por baixa temperatura ou com revestimento de cera (aplicação de fina camada de cera comestível sobre a casca).

Tais diretrizes, sem dúvida, podem transformar o cacau em um produto de luxo. “É um caminho desconhecido, mas achamos que vai dar certo”, acredita Campeche.

Texto originalmente publicado na edição #90 (dezembro, janeiro e fevereiro de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Beatriz Marques

Mercado

Luckin investe R$ 2,2 bi em torrefação e expande capacidade industrial na China

Novo centro em Qingdao eleva a capacidade da rede a 155 mil toneladas por ano e reforça a estratégia de integração e eficiência logística da rede no leste do país

Foto: Divulgação

A rede Luckin Coffee anunciou o início das operações de um centro inteligente de torrefação de café em Qingdao, na província chinesa de Shandong.

Com investimento de cerca de 3 bilhões de yuans (quase R$ 2,19 bilhões) e capacidade anual acima de 55 mil toneladas, a empresa afirma, em comunicado, que a instalação “representa mais um passo em frente na cadeia de suprimentos global da Luckin, com capacidade e eficiência aprimoradas, impulsionando o progresso na transformação inteligente e sustentável da indústria cafeeira da China”.

Com a inauguração, a companhia passa a operar uma rede de torrefação em quatro cidades no leste do país — Qingdao, Pingnan, Kunshan e Xiamen (em construção) — que, juntas, devem superar 155 mil toneladas de capacidade anual, um novo recorde para a indústria de torrefação de café na China, segundo a empresa.

Além disso, a proximidade do Porto de Qingdao, um dos principais do país, permite a importação direta de café verde de origens como Brasil, Colômbia e Etiópia. De acordo com o comunicado, o apoio de uma rede logística que integra transporte marítimo, terrestre, aéreo e ferroviário deve aumentar a eficiência entre a compra do grão e o consumo final.

 

Arte: Cristiana Couto, com uso de IA

Para Jinyi Guo, cofundador e CEO da Luckin Coffee, a abertura do centro marca um avanço na consolidação da cadeia de produção da empresa, ao combinar tecnologia e sustentabilidade e contribuir para a modernização do setor cafeeiro chinês.

Segundo a Luckin, os processos no centro de torrefação de Qingdao são 100% automatizados, com equipamentos de embalagem de alta capacidade e armazenamento com controle constante de temperatura e umidade. A estrutura inclui ainda um sistema de redução de emissões de carbono.

De acordo com dados da World Coffee Portal, a Luckin Coffee protagonizou uma das expansões mais rápidas do varejo global de café, ao saltar de poucos milhares de lojas no início da década para mais de 30 mil unidades em 2025.

O crescimento consolidou a rede como líder na China em número de pontos de venda e reduziu a distância em relação à Starbucks, indicando uma mudança relevante no equilíbrio do mercado global, analisa a WCP.

Fonte: World Coffee Portal

TEXTO Redação

Quantos Marcelos e Antônios são necessários para produzir o café da sua xícara?

Foto: Bruno Conrado

Por Bruno Conrado

Que o café faz parte da vida dos brasileiros, não é novidade. Ainda criança, lembro de tomar as primeiras canecas de café com leite e não gostar nem um pouco — o achocolatado era bem mais saboroso. Na adolescência, passei a tomá-lo puro, sem leite, porque, para mim, era elegante ser visto com um copo americano fumegando nas mãos.

Mas foi durante uma edição do São Paulo Coffee Week, organizado por Flavia Pogliani, do The Little Coffee Shop, que, já adulto, conheci os cafés especiais – e as cervejas artesanais também. Ambos criaram uma explosão de sabores e sensações para meu paladar ainda inexperiente.

Foi na mesma época que resolvi mudar de profissão – e a fotografia, que era um hobby, ocupou o lugar da música e virou sustento. Por conta, talvez, desse meu hiperfoco, comprei Perfume de Sonho, o livro do fotógrafo Sebastião Salgado sobre café. 

Foi questão de tempo para eu decidir fazer o mesmo tipo de trabalho. Assim como ele, quis fotografar colheitas e, de quebra, aprender o que pudesse sobre a pequena fruta.

Foto: Bruno Conrado

Com a ajuda de Samuel, produtor do Café Tequila, visitei desde plantações a perder de vista até pequenos produtores no Sul de Minas Gerais. De moto e mochila nas costas, cruzei as montanhas frias da Mantiqueira, de estradas sinuosas cercadas por araucárias. As seriemas, quando não corriam desengonçadas, pareciam gargalhar da boa vida que levavam ali. 

Em Baependi, cidade de Nhá Chica, a primeira mulher negra brasileira declarada beata pela igreja católica, conheci Antônio e Marcelo, pequenos produtores que compartilham o trabalho com seus familiares. Ali, tudo é feito de maneira simples, totalmente manual – um cenário diferente daquele de fazendas com colheitadeiras ou ônibus para transportar funcionários. Naquele ano, Antônio e Marcelo venderam microlotes para cafeterias de São Paulo. 

Seu Antônio fotografado por Bruno Conrado

Quando voltei para casa, longe daquela beleza bucólica, preparei um coado e estudei as fotos da viagem. Uma delas, inclusive, estampou a embalagem do café do Antônio, vendidos na cafeteria Pato Rei. Mas um detalhe curioso não me saiu da cabeça: aqueles produtores nunca provaram o próprio café. Com o dinheiro que recebiam, compravam o café tradicional extraforte no mercado. O que me intrigava é que eles não sabiam o gosto do que produziam.

No ano seguinte, fui revê-los e descobri que Antônio tinha desistido de plantar café. “O milho vai me dar mais dinheiro”, disse. Então, encontrei Marcelo, que não só seguia trabalhando com café, como tinha aumentado sua produção. “Plantei até no campo de futebol, ninguém mais jogava ali mesmo”, contou ele. 

Assim como fizera com Antônio, pedi para tirar seu retrato. Marcelo sentou-se à mesa e, quando fui bater a primeira foto, ele levantou subitamente, gritando: “Peraí!”. Em seguida, colocou um pacote sobre a mesa. “Mandei torrar e moer meu café. Agora estou vendendo pra turma aqui poder tomar uma coisinha um pouco melhor”, comentou. No retrato, ele aparece orgulhoso com seu café empacotado, segurando um copo do que produziu com a família. 

O produtor Marcelo fotografado por Bruno Conrado

Por conta do trabalho, não voltei a Baependi com a frequência de antes, mas as fotos seguem guardadas com as histórias que conheci por lá. 

Certo dia, perguntei a Samuel como estavam as coisas na região. “Seu Antônio agora planta abacaxi, mas Marcelo segue firme”, atualizou-me. “Ano passado, inclusive, ficou em segundo lugar na premiação da cooperativa para os melhores cafés.”

Por passar por muitos processos, vários produtores acabam vendendo sua produção no beneficiamento e, não chegam a ver o produto final. O café dá muito trabalho. 

Marcelo continua tomando o café que produz e, por conta da alta no preço, agora vende só para a cooperativa. Já Antônio segue tomando o tradicional extraforte – mas, agora, em sua mesa, não falta abacaxi. 

Bruno Conrado é fotógrafo profissional. Criou o podcast Sessão de Fotografia, e consolidou-se como retratista. Reconhecido por seu trabalho em retrato e fotografia documental, atuou no mercado comercial com grandes empresas, produções artísticas e podcasts, e já fotografou personalidades do cenário nacional, entre eles Débora Secco e Alex Atala.

TEXTO Bruno Conrado

Cafezal

Exposição itinerante quer mostrar “compromisso e amor” de cafeicultores brasileiros por trás das fotografias

“BRASIS Cafés de Origem” percorre sete cidades produtoras do Sudeste com fotografias das Igs de café do país; degustação e bate-papo com produtores abrem a ação

“BRASIS Cafés de Origem” chega nesta quinta-feira (23) a Carmo do Paranaíba, no Cerrado Mineiro, uma das sete cidades do Sudeste do país a receber a exposição itinerante de fotografias de indicações geográficas de café brasileiras. 

Com o propósito de celebrar o trabalho dos cafeicultores e o valor dos grãos nestas áreas de origem, a mostra, criada em parceria com a Pink Produções, combina imagens do fotógrafo Marcelo Coelho e textos técnicos de Juliano Tarabal, diretor-executivo da Federação de Cafeicultores do Cerrado Mineiro. “A ideia dos textos que acompanham as fotos é explicar os valores e diferenciais de cada região, para promover as nossas Igs de café”, diz Tarabal. 

A exposição reúne cerca de 30 imagens produzidas para o livro A Revolução do Café Brasileiro – Regiões com Indicação Geográfica, e já passou pelas cidades de Franca (SP) e Guaxupé (MG). O próximo destino é Viçosa, nas Matas de Minas, onde permanecerá de 6 a 18 de maio, seguida pelos municípios capixabas Guaçuí, Venda Nova do Imigrante e Linhares.

Em cada cidade, a abertura da mostra inclui degustação de cafés e painel com produtores locais. “Os produtores dão depoimentos de como estão se envolvendo nesse trabalho coletivo de promoção das regiões de origem”, explica Tarabal.

Bem mais do que palavras

Em 2024, ao registrar imagens das então 14 indicações geográficas para o livro A Revolução do Café Brasileiro, lançado na SIC (Semana Internacional do Café) daquele ano, Marcelo Coelho percebeu que o café brasileiro é “uma soma de territórios profundamente distintos” e um vetor “real” de desenvolvimento.

“A cafeicultura leva prosperidade para regiões distantes dos grandes centros, e se conecta com temas contemporâneos importantes, como sustentabilidade ambiental e diversidade humana, refletindo um Brasil plural”, analisa.

A expectativa do fotógrafo é que os visitantes vislumbrem, por trás das paisagens que produziu, histórias de cafeicultores que carregam “gerações de conhecimento e de dedicação”. “Existe ali um nível de compromisso e amor pelo que fazem que é difícil traduzir em palavras”, resume. “Se o visitante sair da exposição enxergando o café como uma expressão cultural, humana e territorial — e entendendo o nível de excelência que o Brasil já alcançou, inclusive com reconhecimento internacional —, então acredito que o trabalho cumpriu seu papel”, acredita ele.

BRASIS Cafés de Origem
Quando: de 23 de abril a 2 de maio (de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h)
Onde: Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Lazer e Esporte
Quanto: entrada grátis

TEXTO Redação • FOTO Marcelo Coelho

Barista

Brasileiro de Brewers começa nesta sexta (24) em São Paulo

Campeão garante vaga no World Brewers Cup 2026, na Bélgica, entre 25 e 27 de junho

O Campeonato Brasileiro de Brewers começa nesta sexta-feira (24) e segue até domingo (26) no Mercado Municipal de São Paulo. Organizada pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), a competição reúne 20 baristas para a disputa, e o vencedor representará o Brasil no mundial  em Bruxelas, na Bélica, entre 25 e 27 de junho, durante a edição do World of Coffee no país europeu.

Ao longo dos três dias, os competidores se enfrentam em rodadas eliminatórias que envolvem o preparo de café, em dez minutos, em um método filtrado escolhido pelo competidor. O café, servido em três xícaras, será avaliado por três juízes sensoriais em atributos como aroma, sabor, acidez, corpo e equilíbrio. Um juíz técnico observa execução, organização e precisão no preparo da bebida.

Confira a agenda

 24/04 (sexta-feira)

  • Abertura da arena: 8h30
  • Início das apresentações: 9h30
  • Encerramento do dia: 15h

25/04 (sábado)

  • Abertura da arena: 8h15
  • Início das apresentações: 9h18
  • Término das eliminatórias: 10h30
  • Anúncio dos finalistas: 11h50
  • Início das finais: 13h
  • Encerramento do dia: 17h

26/04 (domingo)

  • Abertura da arena: 8h30
  • Início das apresentações: 9h
  • Premiação: 15h
  • Encerramento: 15h30

Confira os competidores

Anderson Dize Mena (dizeanderson_barista)
Barista, São Paulo/SP

André Phillipe (@theniggaofcoffee)
Ristto Coffee, Rio de Janeiro/RJ

Carol Vieira (@coffeecarol_)
Barista, Curitiba/PR

Daniel Vaz (@Daniel_vaz)
Five Roasters, Rio de Janeiro/RJ

Emerson Nascimento (@emersonbarista1)
Barista, Rio de Janeiro/RJ

Gabriel Agrelli (@gabrielagrelli)
Daterra Coffees e Abigail Coffee Company, Campinas/SP

Guilherme Nunes (@Guiobarista)
Empreendedor, São Paulo/SP

Hugo Silva (@hugosilva.barista)
Sabino Torrefação, São Paulo/SP

Ju Morgado (@ju._morgado)
Barista, Brasília/DF

Juliana Mina (@chuchudalmina)
Royalty, Curitiba/PR

Juliana Sorati (@julianasorati)
Cafeteria Urbana, Campinas/SP

Léo Moço (@eusouleomoco)
Empresário, Curitiba/PR

Lucas Santos (@lucasfellipesantos)
Not Black Coffee, Goiânia/GO

Maurício Maciel (@baristamaciel)
Barista, Patrocínio/MG

Renan Dantas (@barista.nomade)
Oficina do Barista, São Paulo/SP

Rhus Batista (@volante.cafe)
Volante Café, Rio de Janeiro/RJ

Silas Silva (@fala.silas)
DCAE, Salvador/BA

Teo Paes (@pour.teo)
Unique Cafés, Carmo de Minas/MG

Tiago de Mello (@tiagodemelloshow)
Barista, São Paulo/SP

Antonio Neto / Tony (@tony.netobarista)
Buffet 3A, São Paulo/SP

TEXTO Redação

Mercado

No Dia Mundial do Livro, a Espresso indica 5 leituras sobre café

Guia essencial, agora ampliado

A nova edição de The World Atlas of Coffee, feita no fim de 2025, atualiza e enriquece um dos guias mais influentes do café contemporâneo. O barista inglês e campeão mundial James Hoffmann revisa origens, variedades e processamento do grão em mais de 30 países, além de incluir temas recentes como descafeinação e novas regiões produtoras. Estas são, aliás, o diferencial do livro – cada país é abordado a partir de sua história, principais regiões produtoras e variedades, enriquecido com mapa e dados. Com abordagem didática que mantém o rigor técnico, a nova edição acrescenta aos capítulos sobre variedades, processamento, torra e métodos de preparo novidades como descafeinação do café e novas origens (Austrália, Japão e Porto Rico). 

James Hoffmann, The World Atlas of Coffee, editora Mitchell Beazley, 2025 (3ª ed.). A partir de R$ 264, no site da amazon.

 

Como o café virou hábito social no Brasil

Histórias do Café – Consumo, cultura e alimentação, recém-lançado pela editora Alameda, preenche duas lacunas – a falta quase crônica de publicações brasileiras sobre café, especialmente às vésperas do tricentenário comemorativo do cultivo do grão no país, e os ainda poucos estudos sobre história do consumo da bebida. Organizado pelos historiadores Joana Monteleone e Bruno Bortoloto do Carmo, o livro reúne 15 ensaios que percorrem o tema – dos cafés da cidade-luz no século XIX aos botequins e confeitarias do Rio de Janeiro na época do Império, passando pela presença da bebida em livros de receitas e nos hábitos paulistanos oitocentistas e alcançando, até, laboratórios e faculdades de medicina, que investigaram os efeitos da ingestão da bebida. Para quem se interessa por história e quer consumir boa pesquisa acadêmica, o livro é um prato cheio.

Joana Monteleone e Bruno Bortoloto do Carmo (orgs.), Histórias do Café – Consumo, cultura e alimentação, editora Alameda, 2026. R$ 92, no site da Alameda. 

Um retrato visual do café brasileiro

Em Café no Brasil, o fotógrafo Marcos Piffer faz um amplo ensaio fotográfico da presença cotidiana do café no país. São fotos que retratam a lida diária no campo, o cuidado no beneficiamento do grão, o conforto cotidiano simbolizado no bule esquentando no fogão à lenha. Isso sem falar das belezas arquitetônicas erguidas no auge da produção e comércio do café em Santos. O resultado é um livro de forte apelo visual, que documenta a história, a cultura e o território no maior país produtor do mundo. E uma ótima opção para presente. 

Marcos Piffer, Café no Brasil, editora Solaris, 2015.  R$ 39, no site Sebo Virtual.

Um olhar sobre a qualidade

Outra referência global em café, o barista norueguês Tim Wendelboe reúne no livro uma síntese de sua experiência com cafés especiais, sob um olhar rigoroso e pessoal. Dicas sobre equipamentos, serviço e compra de grãos integram o conteúdo, construído a partir de mais de duas décadas de visitas a países produtores e à frente de sua Coffee Roastery & Espresso Bar, em Oslo. Receitas de drinques e comidas também são compartilhadas no livro, publicado em português pela Café Editora. Leitura-chave para iniciantes.

Tim Wendelboe, Coffee with Tim Wendelboe, Café Editora, 2019 (ed. brasileira). R$ 30, no site Café Store.

Café em HQ

Saindo do formato tradicional, Kophee leva o universo do café para as histórias em quadrinhos. Escrito pelo quadrinista, ilustrador e barista Guilherme Match, em parceria com a designer Gabê Almeida, acompanha os personagens Ink e Maki na cafeteria Mono — um dos poucos espaços que ainda servem café de verdade em uma cidade dominada por vending machines. Publicado pela Editora JBC, o volume de 192 páginas inclui, ao final, receitas de preparo assinadas por profissionais do café.

Guilherme Match e Gabê Almeida, Kophee, Editora JBC, 2022. Na Amazon, por R$ 40,44.

TEXTO Redação

Cafezal

Empresas de café lançam programa para rastrear desmatamento

Sistema usa satélite e IA para mapear lavouras e evitar desmatamento, em resposta às exigências da União Europeia que podem restringir exportações de café

Empresas e comerciantes de café estão lançando um novo sistema para rastrear o desmatamento relacionado ao cultivo de café em todo o mundo. A informação é da JDE Peet’s, uma das companhias participantes, em um comunicado feito nesta quarta-feira (22), segundo a Reuters.

O programa Coffee Canopy Partnership usará imagens de satélite fornecidas pela Airbus, combinadas a modelos de inteligência artificial, para mapear fazendas de café e identificar áreas de perda florestal nas proximidades delas.

De acordo com comunicado publicado hoje no site da Tchibo, uma das empresas participantes do programa, a ação, que inclui também verificação in loco, vai gerar dois conjuntos de dados: um mapa de referência para 2020/2021, que distingue os sistemas agroflorestais de café da floresta natural, e um mapa atualizado para 2024/2025 para destacar as mudanças ocorridas desde 2020. Os dois conjuntos de dados serão integrados a uma plataforma aberta de geodados.

Segundo a JDE Peet’s, o objetivo é identificar corretamente a paisagem e trabalhar com governos e comunidades locais para restaurar as florestas e evitar futuros desmatamentos.

Além da Tchibo e da JDE Peet’s, participam do programa operadores de commodities Louis Dreyfus Company, Sucden, Neumann Kaffee Gruppe, Touton e Sucafina.

O sistema terá como alvo inicial a África Oriental – abrangendo a Etiópia, Tanzânia, Quênia, Uganda, Burundi e Ruanda, com o objetivo, segundo as empresas, de alcançar a cobertura mundial de todas as regiões produtoras de café em 2027.

De acordo com a Regulamentação sobre Desmatamento da UE – que deve entrar em vigor em 30 de dezembro para grandes corporações e em 30 de junho de 2027 para micro e pequenas empresas –, o café cultivado em terras classificadas como floresta após dezembro de 2020 não poderá entrar nos mercados da UE.

“Isso ameaça excluir milhões de pequenos agricultores dos principais mercados, apesar de suas práticas agrícolas sustentáveis, simplesmente porque os mapas existentes classificam incorretamente suas terras de produção de café agroflorestal ou cultivadas à sombra como floresta”, disse o comunicado da JDE Peet’s.

A empresa acrescentou que a iniciativa vai cobrir “a falta histórica de dados de mapeamento precisos, que frequentemente resultou em fazendas de café sendo identificadas erroneamente como floresta natural”.

Segundo as empresas, o sistema estará aberto à consulta de agricultores, governos e do setor cafeeiro.

TEXTO Fonte: Reuters

Mercado

Livro investiga como o café se tornou hábito e marcador social no Brasil e no mundo

Histórias do Café – Consumo, cultura e alimentação desloca o olhar para um território menos frequentado pela historiografia brasileira: o do consumo, da vida urbana e das sociabilidades que se formaram em torno da bebida.

Partindo da constatação de que o café se tornou um elemento estruturante do cotidiano moderno, presente nas refeições, nos espaços públicos e nos rituais de convivência, o livro propõe entender como um produto não essencial se converteu em hábito indispensável e marcador social.

Organizado pela dupla de historiadores Joana Monteleone, também editora e pesquisadora-colaboradora da Universidade de São Paulo, e Bruno Bortoloto do Carmo, doutor em História Social, que atuou como pesquisador do Museu do Café de Santos por 13 anos, o volume reúne 15 artigos sobre pesquisas recentes de uma série de autores de diferentes linhas historiográficas. O conjunto articula história econômica, urbana e da alimentação e recusa fronteiras rígidas entre esses campos.

No artigo “O consumo de café e as novas sociabilidades paulistanas nas primeiras décadas do século XIX”, a historiadora Rafaela Basso acompanha a bebida desde a produção doméstica até sua incorporação a práticas sociais marcadas por gênero, classe e exclusão.

Por meio de sua análise, afasta a imagem de São Paulo como um núcleo pobre e pacato e a aproxima da de uma cidade já integrada a circuitos modernos de consumo, na qual o café surge como marcador simbólico de pertencimento antes mesmo de sua plena popularização.

Abordagens científicas conduzem os ensaios de Cristiana Couto, doutora em história da ciência e coordenadora de conteúdo da Espresso&CO, que propõe discussões sobre o café como alimento e medicamento no Brasil no século XIX, e de Moisés Stahl, doutor em história econômica, que examina o café como objeto de investigação científica em perspectiva histórica.

Um dos méritos da obra está na ampliação do repertório documental. Romances, folhetins, peças teatrais, menus, discos, almanaques e teses médicas dialogam com atas oficiais e jornais e revelam o café como mercadoria, alimento, estimulante, remédio e símbolo de distinção.

Ao acompanhar a emergência dos cafés, botequins, confeitarias e espaços de consumo nas cidades, sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo, os autores mostram como o cafezinho ajudou a moldar práticas sociais e formas de pertencimento urbano no século XIX.

Ao mesmo tempo, o livro assume suas lacunas como desafio futuro, sobretudo no que diz respeito às relações de trabalho e à presença da escravidão no universo do consumo. Essa fricção entre potência analítica e ausência temática reforça o caráter do volume — menos síntese conclusiva e mais convite a novas investigações sobre comer, beber e conviver no Brasil do café. (Luiza Fecarotta)

Histórias do Café – Consumo, cultura e alimentação – Joana Monteleone e Bruno Bortoloto do Carmo (orgs.) – Editora Alameda (320 págs.; R$ 88)

TEXTO Luiza Fecarotta • FOTO Divulgação
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