Cafezal

Cafeicultor brasileiro busca quase US$ 20 mil por saca de raro café eugenioides

Luiz Paulo Dias Pereira Filho, produtor da fazenda Santuário Sul, em Carmo de Minas (MG)

Por Oliver Griffin, da Reuters (com edição de Gabriela Kaneto, da Espresso)

Luiz Paulo Dias Pereira Filho, quarta geração de fazendeiros, disse que está aumentando as vendas da única plantação brasileira do raro café eugenioides (Coffea eugenioides), um ancestral da planta arábica, com o objetivo de obter até 50 vezes o preço atual do arábica, de quase US$ 400 a saca.

Produtor da fazenda Santuário Sul, em Carmo de Minas (MG), ele pretende vender 10 sacas padronizadas de 60 kg de eugenioides por R$ 1 milhão. “É um café com muita doçura, de corpo aveludado, cítrico e floral acima da média”, diz Pereira à Espresso sobre a espécie rara. 

Historicamente, ele tem vendido sacas de eugenioides para clientes internacionais, como Taiwan, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e França. No ano passado, foram comercializadas três sacas por R$ 90 mil reais (US$ 17.148) cada.

Lavoura de eugenioides

As vendas ressaltam o apetite por cafés especiais de nicho, com variedades e espécies pouco conhecidas, mas que resultam em experiências diferentes na xícara. “O interesse pelo eugenioides agora me parece muito semelhante ao interesse pela variedade gesha no início dos anos 2000”, diz Kim Ionescu, diretor de desenvolvimento de estratégia da Specialty Coffee Association (SCA), destacando a escassez e o sabor único que o tornam um produto de luxo.

Sensível ao clima e de difícil cultivo, as plantas de eugenioides têm baixa produtividade. “É uma variedade extremamente sensível, especialmente em relação a doenças. Por isso, exige um nível de cuidado significativamente maior, cerca de dez vezes superior ao necessário para cultivares de café arábica já melhoradas geneticamente no Brasil”, afirma Pereira, que espera que cada um de seus cinco hectares plantados com a espécie produza apenas duas sacas cada – menos de um décimo do rendimento médio do arábica. 

Lavoura de eugenioides

Ele comenta que conheceu apenas algumas outras fazendas no mundo que cultivam eugenioides comercialmente, uma delas foi a Fazenda Imaculada, na Colômbia, onde ele ganhou as sementes que iniciaram sua produção em solo brasileiro. “Após trazer as sementes da Colômbia, em 2017, iniciei um processo contínuo de seleção ao longo dos anos”, destaca. 

Hoje, o banco genético de Pereira é composto não apenas pelas plantas de origem colombiana, mas também por materiais já adaptados e melhorados no Brasil. A comercialização dos lotes é feita por meio da CarmoCoffees, empresa de exportação sediada também em Carmo de Minas. 

TEXTO Oliver Griffin, da Reuters (com edição de Gabriela Kaneto, da Espresso) • FOTO Divulgação

Mercado

Le Paris Café Festival começa dia 11 e antecipa clima para evento em São Paulo

O Le Paris Café Festival começa no próximo dia 11 e segue até o dia 13, reunindo torrefadores, baristas, especialistas e amantes do café na capital francesa. O evento é um dos principais do calendário europeu e combina degustações, experiências imersivas, lançamentos de marcas e uma programação voltada tanto para o público profissional quanto para consumidores finais.

Ao longo dos três dias, o festival destaca tendências do mercado, inovação em métodos de preparo e a crescente valorização dos cafés especiais, além de promover conexões entre diferentes elos da cadeia produtiva. A proposta é aproximar o café de qualidade do grande público, em um ambiente que mistura conteúdo, entretenimento e cultura.

No Brasil, a 5ª edição do São Paulo Coffee Festival já está marcada para acontecer entre os dias 26 e 28 de junho, na Bienal do Ibirapuera, na capital paulista. Considerado um dos principais eventos do setor no país, o festival reúne cafeterias, torrefações e marcas em uma programação que inclui degustações, workshops, bate-papos e atrações culturais. Os ingressos já estão à venda.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

O Iêmen pode voltar ao centro da cafeicultura mundial

Por Gustavo Paiva

O Iêmen, um dos primeiros territórios a produzir e comercializar café fora da África, pode voltar a desempenhar um papel crucial no cenário da cafeicultura mundial. Mas, infelizmente, não por uma história de sucesso.

No final do período medieval, quando a Europa ainda se arrastava entre pragas, guerras e controle religioso, os povos árabes expandiam sua influência ao redor do mundo, investindo em ciência, comércio e novas tecnologias de navegação.

Foi nesse momento que uma cidade portuária do Iêmen, localizada no sudoeste da Península Arábica, começou a receber, da região do Chifre da África, onde hoje se encontram Etiópia, Djibouti e Somália, um grão que fornecia propriedades energéticas e era utilizado, principalmente, para alimentar animais.

O nome do grão era kaffa e o nome da cidade portuária era Moca. Situada em uma região de grande interesse para o comércio entre África, Ásia e Europa, a cidade de Moca sempre viveu uma grande efervescência cultural, com diversas influências, e era ponto de comércio de vários produtos das principais rotas comerciais do mundo.

Mas justamente por ser um ponto de interesse global, a região sempre teve dificuldades para se manter estável e isenta de invasões militares de diversas nações. A produção de café na região teve dificuldades para prosperar, mas nunca foi de fato abandonada.

Hoje em dia, mais de mil anos depois do provável primeiro comércio de café fora da África, e mais de quinhentos anos depois da abertura do primeiro ponto dedicado à apreciação da bebida, o Iêmen pode voltar ao centro das atenções globais no mercado do café.

Infelizmente, desta vez, por um motivo trágico: a região de Moca se vê, mais uma vez, em convulsão política e econômica, dominada pela milícia dos Houthis, aliada ao governo fundamentalista islâmico do Irã. Com a série de ataques ordenadas ao país do Golfo Pérsico, e o fechamento do Estreito de Hormuz, o fechamento de um novo corredor marítimo, desta vez no Canal de Suez, que passa pelo Mar Vermelho e o Chifre da África, passa a ser uma ameaça real.

A estratégia pode ser levada adiante para forçar o fim dos bombardeios na região ou para obter outros eventuais ganhos, já que, com o fechamento do Estreito de Hormuz, o fluxo de petróleo e de gás pelo Canal de Suez passa a ser ainda mais importante.

Para o mercado do café, o fechamento teria consequências diretas no preço do diesel e dos fertilizantes, bem como no próprio grão, já que o canal é a principal via de acesso dos cafés asiáticos aos portos europeus.

Com estoques historicamente baixos, a Europa aguarda ansiosamente as exportações da última safra do segundo maior exportador mundial, o Vietnã, e do quarto maior, a Indonésia.

Além disso, devido à quantidade de chuvas acima do normal no último ciclo, atrasos já eram esperados. Mas, caso o fechamento do Canal de Suez seja provocado pelos Houthis do Iêmen, os estoques na Europa podem atingir níveis críticos, não havendo nenhuma perspectiva de reposição dos níveis de estoque com cafés de outras regiões.

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Magalhães Paiva

Mercado

Espírito Santo na xícara: a Espresso degustou de 6 cafés capixabas

Segundo maior produtor de café do país, o Espírito Santo se destaca pela diversidade — uma combinação de solos, climas e tradições familiares que molda uma cafeicultura múltipla. Entre montanhas e litoral, o estado abriga lavouras de arábica em altitudes elevadas e áreas de canéfora que vêm ganhando produtividade e qualidade.

Com investimentos em tecnologia, capacitação e valorização do produtor, a produção capixaba cresceu 6,5% em 2024 e alcançou 13,9 milhões de sacas, segundo a Conab. Desse total, 9,8 milhões foram de conilon, mantendo o Espírito Santo como líder nacional da variedade.

Nesta degustação, a Espresso provou seis cafés do estado. As avaliações seguiram o Protocolo Brasileiro de Cafés Torrados, desenvolvido pela Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC). A seguir, nossas impressões.

Onofre Cafés Especiais

Café arábica da variedade caparaó amarelo cultivado no Sítio Forquilha do Rio, em Dores do Rio Preto, Caparaó, pela família Lacerda.

Complexidade de odor média/alta
Complexidade de sabor média/alta
Notas descritivas caramelo, frutado, mel, cítrico
Doçura alta
Corpo médio
Acidez média/alta
Intensidade média
Onde comprar www.cafeonofre.com

Café Cordilheiras

Um arábica catuaí nanicão, cereja descascado honey, produzido no Sítio Cordilheiras, em Iúna (Caparaó), pela família Miranda Vieira.

Complexidade de odor alta
Complexidade de sabor média/alta
Notas descritivas amadeirado, cacau, amanteigado
Doçura média
Corpo médio/alto
Acidez média/baixa
Intensidade média
Onde comprar www.cafecordilheiras.com.br

Douro Cafés Especiais

Café arábica da variedade catuaí vermelho IAC 44, de processamento cereja descascado, cultivado no Sítio Denizar em Marechal Floriano, nas Montanhas do Espírito Santo.

Complexidade de odor média
Complexidade de sabor média
Notas descritivas caramelo e cacau
Doçura média
Corpo médio
Acidez média/baixa
Intensidade alta
Onde comprar www.cafestore.com.br

Pó de Mulheres

Blend da variedade conilon, com grãos cultivados pelo grupo feminino da Cooperativa Cafesul e processados pela própria cooperativa.

Complexidade de odor baixa
Complexidade de sabor média
Notas descritivas caramelo, amadeirado, castanhas
Doçura média
Corpo médio
Acidez baixa
Intensidade curta
Onde comprar www.cafesul.coop.br

Maritacas Coffee

Grãos da variedade conilon cultivados no Sítio Novo Horizonte, em Nova Venécia, região Conilon Capixaba, de processamento natural fermentado.

Complexidade de odor média/baixa
Complexidade de sabor média
Notas descritivas frutado (ameixa seca), amadeirado, alcoólico
Doçura média
Corpo médio
Acidez baixa
Intensidade alta
Onde comprar www.maritacascoffee.com.br

Fazenda Venturim

Café da variedade conilon vitória, de processamento cereja descascado, cultivado pela família Venturim no Sítio Concórdia, região Semiárido Capixaba.

Complexidade de odor média
Complexidade de sabor média
Notas descritivas caramelo, chocolate, castanhas
Doçura média
Corpo médio
Acidez média
Intensidade alta
Onde comprar www.cafestore.com.br

Texto originalmente publicado na edição #90 (dezembro, janeiro e fevereiro de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Equipe Espresso • FOTO Agência Ophelia

Mercado

Exposição destaca a presença do café brasileiro na cultura urbana chinesa

O Museu do Café recebe, a partir de 24 de abril, em Santos (SP), a mostra temporária Ouro Negro e o Dragão, da artista plástica Camila Arruda. Com 15 obras inéditas, a exposição resulta da investigação da autora sobre o crescimento da China como um dos principais importadores do café brasileiro.

Apesar de historicamente ser uma nação consumidora de chá, a China tem apresentado um alto consumo de café nos últimos anos. De acordo com dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), os envios de cafés brasileiros para o país asiático saltaram nos últimos anos: cerca de 87 mil sacas em 2022 para aproximadamente 420 mil sacas em 2024.

A mostra reúne pinturas, esculturas, instalações e vídeos organizados em três núcleos que orientam o percurso do visitante. O primeiro se apoia na cosmologia chinesa como base de pensamento e de organização da vida cotidiana, com referências a tradições filosóficas. No segundo, o café aparece como símbolo contemporâneo de status e cosmopolitismo: por meio de sobreposições visuais, a artista aproxima passado e presente ao inserir o grão sobre referências à porcelana da Dinastia Ming. O percurso se encerra com um olhar sobre as transformações recentes da China, destacando o avanço tecnológico e situando o café brasileiro dentro dessas dinâmicas, associado a novos padrões de consumo, logística e vida urbana.

A dimensão sensorial ganha protagonismo em “Sopro”, escultura formada por cerca de 65 kg de grãos de café torrado dispostos em uma estrutura circular de latão dourado. A obra associa o café à ideia de riqueza e mobiliza o olfato como parte da experiência, evocando a conexão entre o porto de Santos e o mercado chinês. No ateliê, a artista também desenvolveu tintas a partir de café e chá verde, utilizando pigmentos naturais aplicados sobre algodão cru. As peças exploram o conceito de Yin-Yang e evidenciam a convivência entre o chá, de tradição milenar, e o café, ligado à contemporaneidade.

TEXTO Redação • FOTO Erin With

Barista

A arte do blend: como misturar grãos virou uma estratégia nas torrefações

Misturar grãos virou estratégia, tanto para manter o padrão de grandes marcas como para explorar novos perfis sensoriais nas torrefações artesanais

Em um mercado cada vez mais exigente, o segredo de um bom café pode estar na mistura. O blend, combinação de grãos de diferentes origens ou espécies, tornou-se sinônimo de consistência para grandes torrefações e de experimentação para cafeterias autorais.

É possível misturar cafés crus de várias regiões e torrá-los, ou – se a densidade dos grãos for diferente – torrá-los separadamente e blendar depois. Cada torrefação faz suas escolhas a partir dos lotes de cafés disponíveis. A illy é conhecida por ter um blend único para espresso – ano após ano, a torrefadora italiana entrega ao cliente o mesmo sabor na xícara. Elaborado com arábicas provenientes de nove países (Brasil, Costa Rica, El Salvador, Etiópia, Guatemala, Honduras, Índia, Nicarágua e Ruanda), é comum ouvir que o espresso illy leva 50% de café brasileiro. “Sim, o Brasil contribui com a maior quantidade de grãos, mas, dependendo da safra, pode ser mais ou menos”, diz Aldir Teixeira, CEO da Experimental Agrícola, empresa responsável por analisar, degustar e comprar os cafés da illy no país.

Anualmente, são feitos vários testes na sede da illy em Trieste, na Itália, até chegar ao blend que representa o sabor illy. Segundo Teixeira, a maior parte do café brasileiro comprado pela torrefadora é natural ou cereja descascado, mas não desmucilado. “É a mucilagem que dá corpo e doçura ao café brasileiro, que também tem notas de chocolate, características fundamentais para um bom espresso. O café do Brasil é ligado com cafés de outros países, que têm aromas como o floral. Agora, a illy pode usar um pouco mais de café da Etiópia ou de El Salvador, dependendo de como está o café naquele ano”, diz.

Aldir Teixeira, responsável pela compra de cafés da illycaffè

Para Lauro Araújo, gerente de P&D da 3corações, o segredo do blend é conhecer o consumidor. “Você precisa saber o que o café entrega, o que vai fazer com ele. Mas, no fundo, se não agradar o consumidor, não adianta ter receitas”, argumenta. Por isso, o grupo segue a seguinte estratégia: blends personalizados para cada região com as marcas regionais – como Santa Clara (Nordeste), Pimpinela (RJ), Itamaraty (PR) e Letícia (MG) – e blends únicos para todo o Brasil com a marca 3corações.

Para ter consistência nos seus blends, a 3corações tem uma boa política de compra e adquire cafés de todo o Brasil: Cerrado Mineiro, Sul de Minas, Matas de Minas, interior de São Paulo e Bahia, por exemplo. No entanto, toma-se o cuidado de um blend não ter o predomínio do café de uma única região. “Porque quando chega a safra seguinte, se tiver seca, algum problema, vou ter dificuldade em manter o blend”, explica Araújo. “Para cada produto, temos um blend que agrada o consumidor. E, dentro da disponibilidade das regiões, repetimos o blend. Pode ser que o Sul de Minas tenha tido quebra de safra e, para nos adaptarmos, buscamos o café mais parecido. Posso substituir por matéria-prima da Baixa Mogiana, da região de Espírito Santo do Pinhal, mas não posso pegar café de Capelinha, porque é muito diferente”, acrescenta. “Nós temos uma relação de respeito com o consumidor e, mesmo com a alta dos preços, não abrimos mão dos nossos blends, isso não é negociado”, diz.

No caso da Baristando, uma das maiores torrefações de cafés especiais e personalizados da região de Campinas, o blend é usado no rótulo clássico. “Nele, usamos cafés de São Paulo e Sul de Minas, com notas sensoriais de frutas, acidez média doce, corpo evidente e, no mínimo, 84 pontos na metodologia SCA”, diz o Q-Grader e mestre de torra Fernando Santana, CEO da empresa.

Fernando Santana, CEO da Baristando

“Sempre que diferentes cafés compõem um blend, a torra é feita separadamente e blendamos pós-torra, porque cada grão tem tamanho e densidade diferentes”, explica Santana, que utiliza torradores Probat 25 kg e Atilla 15 kg, além do software da Cropster para auxiliar no processo. “Não blendamos arábica com canéfora porque não temos necessidade, mas trabalhamos com 100% conilon da Fazenda Venturim”, acrescenta.

Por trabalhar com grandes volumes, quando se trata de cafés da mesma espécie, a 3corações blenda sempre o café cru. Para isso, utiliza torradores top de linha, como o alemão Probat 60, o coreano Stronghold – usado nos campeonatos mundiais de torra – e o americano Loring. Recentemente, a empresa adquiriu o alemão Neotec, que será instalado na fábrica de Montes Claros (MG). “Sabendo manejar a tecnologia de torra, condução, convecção e radiação, consigo trabalhar estes fatores”, diz o gerente de P&D da 3corações.

Metodologia para blend

“Blend não é uma arte, mas uma disciplina, que exige precisão”, afirma a barista Isabela Raposeiras, proprietária do Coffee Lab, na capital paulista. Não por acaso, a casa tem um curso de “Concepção de blends de café”, que transmite a metodologia de Isabela para se chegar a um blend, que – no caso do estabelecimento – é feito exclusivamente com a espécie arábica. “Blendar café não é aritmética. Não adianta misturar um café com corpo baixo com um café de corpo alto e achar que vai chegar a um café de corpo médio”, ensina Isabela. “Blendar café é química, você precisa de uma metodologia para te subsidiar nas decisões sensoriais, naquela interação química entre os cafés que está misturando”, diz.

Torra de cafés no Coffee Lab, por Isabela Raposeiras

O Coffee Lab tem um blend em seu espresso, mas, ao contrário da italiana illy, não tem o compromisso de entregar sempre o mesmo sabor. “Nosso espresso muda ao nosso bel prazer, mas sempre cuidamos do nível de doçura, de corpo e retrogosto. Não existe um padrão sensorial. Mesmo assim, todo mundo ama nosso espresso”, diz a barista.

O cliente do estabelecimento se acostumou ao modus operandi da casa, que trabalha com pequenos lotes. O rótulo café da Raimunda é um exemplo de blend. “A gente não garante a consistência do café, ele é imprevisível. Todo pacote é uma surpresa, porque trabalhamos com microlotes superexclusivos. Eventualmente, o cliente se apaixona por um café que nunca mais vai voltar, porque, mesmo sendo do mesmo produtor, cada safra é uma safra”, explica.

Embora reconheça o movimento e a importância dos cafés especiais de origem única, Isabela afirma que é insustentável – do ponto de vista financeiro – uma torrefação não fazer blends. “Além disso, há cafés que, juntos, ficam melhores do que separados”, diz.

Efeito preço

De acordo com a pesquisa feita pelo Instituto Axxus sob encomenda da ABIC (Associação Brasileira da Indústria de Café), o boom de preços do café a partir de 2024 impactou o consumo da bebida. Em setembro, o levantamento ouviu 4,2 mil pessoas, e o resultado revelou uma retração no consumo: 24% dos participantes diminuíram o consumo da bebida em 2025 e 39% passaram a escolher uma marca mais barata na prateleira. “Nós percebemos uma migração, o consumidor que comprava meio quilo passou a comprar o pacote de 250 gramas”, diz Araújo.

Na contramão deste movimento, o Coffee Lab teve um incremento de vendas. “Aumentou a procura pelos nossos cafés, porque subiu muito o preço dos tradicionais e as pessoas passaram a ver mais valor em comprar um café de alta qualidade do que de baixa qualidade, pela diferença de preço. E não temos dificuldade em cobrar o que a gente precisa cobrar”, finaliza Isabela.

Texto originalmente publicado na edição #90 (dezembro, janeiro e fevereiro de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Lívia Andrade • FOTO Divulgação

Cafezal

Espresso&CO recebe cupping de cafés de Cabo Verde

Na última sexta (27), o espaço da Espresso&CO recebeu o cupping de cafés da região de Cabo Verde, origem que faz parte das Indicações Geográficas do Sudoeste de Minas e da Região Vulcânica. 

Realizado pela Associação dos Produtores de Cafés Especiais de Cabo Verde (Assprocafé), o evento, fechado para convidados, reuniu 12 lotes, entre eles um caturra natural do Sítio Córrego Fundo, um arara natural da Fazenda São Bartolomeu e um arara natural da Fazenda Sonho Meu. Todos os lotes estavam disponíveis para compra.

“É uma região ainda desconhecida, mas que tem muito potencial de qualidade”, comenta Marcos Kim, especialista em cafés especiais, Q-Grader e organizador do evento. “Ela se localiza entre a Região Vulcânica e o Sudoeste de Minas. É um trabalho fantástico, que além da qualidade, destaca o manejo sustentável e regenerativo, e resulta em cafés muito doces, com acidez equilibrada e, muitas vezes, com notas florais”, explica.

No sábado (28), a experiência foi ampliada para o público. Durante todo o dia, três cafés de Cabo Verde ficaram disponíveis em térmicas para os clientes da Café Store, loja conceito que faz parte do grupo Espresso&CO. Além da degustação, o encontro proporcionou troca de experiências com os produtores e venda dos pacotes de café em grãos ou moído na hora.

Os cafés de Cabo Verde estão disponíveis para compra na loja física da Café Store (rua Barão de Tatuí, 387 – Vila Buarque – São Paulo) até acabarem os estoques.

TEXTO Redação • FOTO Equipe Espresso

Cafeteria & Afins

Noir Coffee Shop – Paris (França)

Para o bom amante de cafés especiais, um lugar que sabe valorizar essa bebida tão única é uma mina de ouro. Essa foi a sensação ao adentrar a Noir Coffee Shop, que te ganha já na porta com o aroma de cafés de alta qualidade. 

Com mais de 20 unidades espalhadas por Paris, a cafeteria une design moderno e sofisticado. Fomos na unidade da 33 Rue Richer, localizada perto de atrações turísticas como o Palais Garnier e a Galeries Lafayette. O ambiente é intimista, com um atendente e poucas mesas distribuídas entre o salão e um pequeno mezanino. A decoração charmosa e elegante, em conjunto com uma playlist de R&B e Soul, transmite conforto que te deixa com vontade de ficar por lá o dia todo.

A barista atendia a todos com simpatia, explicando sobre os grãos disponíveis e dando dicas sobre qual pedir. Seguimos a indicação e solicitamos um espresso e um latte. As informações sobre cada café estavam visíveis, com um QR code que levava para mais detalhes da produção. O espresso, extraído com grãos colombianos da variedade pacamara, tinha notas cítricas de tangerina e limão. Complexo no paladar, com acidez elevada e retrogosto frutado. Para acompanhá-lo, escolhemos um cookie de chocolate, nozes e flor de sal, que tinha crosta crocante e interior macio, com chocolate derretido. A harmonização foi bem-sucedida. Finalizamos com o latte, feito com café queniano das variedades SL-34 e SL-28, também foi uma boa pedida e apresentou sensorial doce de açúcar mascavo.

Ao final, batemos um papo com a barista sobre bons lugares para visitar em Paris se você gosta de café especial. Algumas indicações foram: Motors Coffee, Kb Roaster, Tanat, Back to Black e Coutume. E claro que a Noir também é um lugar que não pode faltar. 

Nossa conta: € 13,70 (R$ 85,625)
Espresso – € 3
Latte – € 6
Cookie – € 4,70 

O valor foi convertido levando em consideração a data da visita (EUR = R$ 6,25).

A equipe da Espresso visitou a casa anonimamente e pagou a conta.

Informações sobre a Cafeteria

Endereço Rue Richer, 33
Cidade Paris
Estado França
Website http://www.instagram.com/noir_coffeeshop/
TEXTO Equipe Espresso • FOTO Equipe Espresso

Mercado

Mercado de café do Vietnã é destaque da edição #91 da Espresso

Sendo o maior produtor mundial de robusta e um dos principais exportadores globais de café, o Vietnã ocupa hoje um lugar central na dinâmica do mercado cafeeiro. Conhecer mais de perto essa origem tornou-se essencial para compreender os rumos do setor. Nesta edição, fomos verificar como evoluem o consumo interno, as exportações, o cenário de cafés especiais e as iniciativas de sustentabilidade no país.

Longe dali, donos de cafeterias norte-americanas consagradas, como a Blue Bottle, de São Francisco, contam como um negócio que nasceu pequeno — e justamente por isso fez sucesso — pode ganhar escala sem perder identidade. Esta edição também mergulha em uma fronteira técnica cada vez mais relevante para o setor: a torra de cafés canéforas. Com o avanço da qualidade e a diversidade genética resultante de novos clones e híbridos, torrefadores e pesquisadores começam a rever protocolos e compreender como densidade, composição química e genética interferem na condução da torra e, consequentemente, no perfil sensorial da bebida.

A revista traz ainda uma degustação de cinco cafés descafeinados, categoria que já deixou para trás o estigma de bebida “sem graça”. Também investigamos como empresas, produtores e instituições articulam iniciativas coletivas de agricultura regenerativa para tornar a cafeicultura mais resiliente às mudanças do clima.

Entre outros destaques da edição, está a entrevista com Márcio Cândido Ferreira, presidente do Cecafé, que discute desafios e oportunidades do café brasileiro no cenário internacional — da geopolítica do comércio à expansão do consumo na Ásia — e defende uma agenda de união em torno do produto nacional.

A edição pode ser comprada no site da Café Store, em bancas e nos pontos de venda. Para assinar, clique aqui.

TEXTO Redação

Cafeteria & Afins

3 coffee shops para conhecer em Nova York

No inverno nova-iorquino, a Espresso fez uma rota por coffee shops em ritmo to-go na cidade. Foram três cafeterias, com três estilos diferentes, mas em todas saímos com um café na mão. 

Devócion

Começamos nossa jornada na Devócion, um pedaço da América do Sul em NYC. A casa está localizada na região do distrito de Flatiron, área central e histórica de Manhattan que mescla a cena gastronômica com história, cultura e uma vida urbana vibrante. O ambiente da cafeteria é espaçoso, com luz natural e clima leve – um ponto de encontro bacana, seja para trabalhar ou conversar.

Por volta de 2006, o colombiano Steven Sutton notou que o frescor do café muitas vezes era perdido depois de passar meses em trânsito, entre a colheita, a torra e o consumo. Para mudar isso, ele decidiu fundar a Devócion e se dedicar a três pontos: construir relações diretas com produtores colombianos; controlar o processo do campo à xícara, incluindo a exportação; e torrar os grãos no Brooklyn e enviar para as cafeterias o mais rápido possível.

A mudança deu certo. Enquanto a maioria dos cafés leva meses para chegar ao consumidor, Sutton conseguiu fazer com que cafés frescos da Colômbia chegassem à xícara em Nova York em cerca de dez dias. 

No dia de nossa visita, escolhemos um cappuccino para viagem e um croissant. O básico que funciona. Na hora do pedido, o atendimento foi acolhedor. A Devócion é um espaço que dá vontade de ficar por horas. Mesmo no modelo to-go, paramos para curtir a atmosfera do lugar.

Blank Street Coffee

Nossa próxima parada foi na Blank Street Coffee, um dos fenômenos mais relevantes do café em Nova York. A cafeteria nasceu em 2020, com um pequeno carrinho instalado no jardim do Wythe Diner, no Brooklyn. Desde o início a proposta era clara: reimaginar o que uma cafeteria pode ser a partir de uma operação simples, moderna e enxuta.

Com uma estrutura otimizada, a marca trabalha com cafés especiais, menu simples, preços acessíveis aos clientes e salários acima da média aos baristas – um modelo contemporâneo e ajustado ao ritmo da cidade. 

Chegamos e o atendimento foi rápido e simplificado. Aqui, repetimos o pedido: um cappuccino e um croissant, mas acrescentamos um filtrado para viagem. Percebemos que a Blank Street representa um novo momento do café nas grandes metrópoles: mais ágil, acessível, atento às tendências do mercado e integrado ao dia-a-dia. 

O que começou pequeno, hoje soma dezenas de lojas em Nova York e cidades como Londres, Boston e Washington (DC). Visitamos, pedimos, seguimos o fluxo e entendemos por que ela se espalhou por tantos lugares.

La Cabra

Café especial, padaria artesanal e minimalismo escandinavo no bairro de SoHo. Nossa última parada foi na famosa La Cabra, torrefação dinamarquesa fundada em 2011, em Aarhus. 

A marca surgiu de um objetivo básico: entender o café em todas as suas etapas, do grão à xícara. Com isso em mente, a La Cabra assumiu o controle do próprio café, selecionando e torrando os grãos, o que resultou em uma abordagem autoral, honesta e inovadora.

Esse olhar atento levou a cafeteria ao reconhecimento global, com presença em cidades como Aarhus, Copenhagen e Nordhavn, na Dinamarca; Nova York, nos Estados Unidos; Bangkok, na Tailândia; e em Muscate, no Omã.

Na unidade que visitamos, em SoHo, essa filosofia se traduz em um ambiente minimalista e silencioso, onde cada detalhe da experiência parece ter sido pensado para acolher o consumidor, com xícaras limpas, suaves e equilibradas – mesmo em um filtrado para viagem.

A experiência se completa com a panificação artesanal, outro braço da La Cabra. Definitivamente, esse foi um dos pontos mais sofisticados da rota.

TEXTO Equipe Espresso • FOTO Equipe Espresso
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