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Como a Geração Z está reinventando a vida social

Pesquisas da Harris Poll e da Ogilvy mostram que custo de vida, busca por bem-estar e novas prioridades estão mudando a forma como a Geração Z socializa e consome fora de casa

Por Nick Lichtenberg, Fortune/via Reuters Connect

Duas pesquisas divulgadas recentemente pela revista de negócios norte-americana Fortune apontam que o alto custo de socializar está mudando os hábitos da Geração Z nos Estados Unidos. Um levantamento do instituto The Harris Poll, “Gen Z Weekend Report”, realizado entre o fim de maio e o início de junho com 4,1 mil adultos norte-americanos, mostrou que metade dos jovens deixa de sair nos fins de semana por falta de dinheiro e que quase três quartos passam esse período em casa.

As conclusões são reforçadas pelo relatório “Gen Z Pulse”, da Ogilvy Consulting, com 2,1 mil entrevistados nos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, segundo o qual “a Geração Z não é contraditória. A vida moderna é”. Os dois estudos indicam que o principal obstáculo ao convívio presencial não é uma mudança de comportamento, mas o aumento do custo do lazer e do consumo fora de casa.

Para Libby Rodney, diretora de estratégia do Harris Poll, o isolamento da Geração Z começou na infância, quando os ambientes digitais passaram a substituir parte da convivência presencial. Agravado pela pandemia de Covid-19 durante os anos de formação dessa geração, esse processo contribuiu para que permanecer em casa se tornasse o padrão.

Os dados da Ogilvy também mostram que o ambiente digital não substitui o convívio presencial. Mais de 60% dos jovens afirmam que estão tentando reduzir o tempo diante das telas, enquanto 52% gostariam de se encontrar mais com outras pessoas. Ainda assim, apenas 6% consideram satisfatório o nível atual de interação social. “As telas não são o objetivo”, resume o relatório.

De um recorte de 603 adultos, o instituto Harris Poll constatou que 51% sentem solidão nos fins de semana. Já a Ogilvy revelou que apenas 17% dos jovens americanos dizem se sentir conectados a uma comunidade e que 68% acham que sair “não compensa o prejuízo para o bolso”.  Muitos jovens adultos ainda vivem com os pais para conseguir economizar, e, em uma pergunta hipotética, 71% afirmaram que destinariam um ganho inesperado de US$ 100 à poupança ou ao pagamento de contas. 

Segundo o relatório “Gen Z Pulse”, da Ogilvy, também, com base em dados da Deloitte, metade da Geração Z hoje se considera financeiramente insegura, comparada a menos de um terço um ano antes. “Tudo está atingindo essa geração ao mesmo tempo”, afirma Libby. Eles sentem que precisam ser fiscalmente responsáveis. E, assim, estão trocando suas conexões e seu bem-estar social pela saúde financeira.”

Para ela, a Geração Z vive o que se cunhou de “policrise” — sucessão de crises interligadas, como pandemia, inflação e instabilidade no mercado de trabalho. Os relatos reunidos pela Ogilvy apontam na mesma direção: os entrevistados rejeitam estereótipos como preguiça ou falta de preparo e associam seus desafios às mudanças econômicas e sociais que dificultaram o acesso à vida adulta.

Nem mesmo as filas em restaurantes que viralizam nas redes contradizem esse cenário. Segundo a Fortune, pesquisas indicam que 84% da Geração Z experimentam tendências gastronômicas descobertas online. Para muitos desses jovens, porém, comer fora deixou de ser um hábito e passou a ser um programa esporádico e planejado, o que ajuda a explicar por que essas experiências ganham tanta visibilidade nas redes sociais.

As restrições financeiras também têm levado a Geração Z a reinventar o lazer. Segundo a Ogilvy, 85% dos jovens criaram alternativas mais baratas para socializar no último ano, como se reunir em casa, enquanto 73% afirmam preferir ambientes em que o álcool não seja o protagonista.

De fato, a busca por novos espaços de convivência aparece nas pesquisas. A Harris Poll, por exemplo, mostra que 65% dos jovens se sentem mais conectados em ambientes ligados ao bem-estar do que na vida noturna tradicional.

Apesar do orçamento limitado, a Geração Z continua exercendo forte influência sobre o consumo. Para Libby Rodney, serão os bares e as casas noturnas — e não os jovens — que precisarão se adaptar aos novos hábitos de socialização. Segundo a Ogilvy, essa geração deverá liderar o crescimento dos gastos globais até 2034, movimentando cerca de US$ 9 trilhões.

As mudanças de comportamento da Geração Z já começam a influenciar diferentes setores da economia. No mercado de café, por exemplo, cafeterias e marcas vêm adaptando cardápios, estratégias de marketing e experiências de consumo para atrair esse público — tema de uma reportagem especial que a Espresso publicará nos próximos dias.

CafezalMercado

Brasil impulsiona estratégia regenerativa da Nespresso

Em visita a uma fazenda parceira da Nespresso no interior paulista, a Espresso acompanhou como práticas regenerativas, conservação ambiental e assistência agronômica orientam a estratégia da empresa para garantir a qualidade do café no longo prazo

Por Gabriela Kaneto, de São Sebastião da Grama (SP)

Em evento realizado em São Paulo (SP) na terça-feira (28), a Nespresso divulgou novos dados sobre a agricultura regenerativa no Brasil, que complementam a edição de 2025 do The Positive Cup, relatório global anual de sustentabilidade da marca. O documento reúne os principais resultados da companhia em temas como agricultura regenerativa, descarbonização, circularidade e fortalecimento das comunidades cafeeiras. O encontro também contou com o lançamento do Prêmio Regenerativo Avançado e o anúncio de parceria para restauração de paisagens cafeeiras.

Um dos destaques abordados foi o Plano de Qualidade Sustentável Nespresso (chamado anteriormente de Programa AAA), que reúne mais de 130 mil cafeicultores de 18 países e combina assistência técnica, rastreabilidade e incentivo à adoção de práticas regenerativas. 

O Brasil responde por cerca de 30% do café verde utilizado pela marca. No país, o programa reúne 500 produtores e investe R$ 70 milhões por ano em iniciativas como o uso de fertilizantes orgânicos, biochar e monitoramento ambiental. Em 2025, 95% do café brasileiro adquirido pela Nespresso veio de fazendas que adotam essas práticas, em comparação com 84% em 2022. O avanço registrado no país também elevou a média global: no mesmo intervalo, esse índice passou de 76% para 85%, tendo o Brasil como principal responsável por esse crescimento.

Fazenda Cachoeira da Grama, em São Sebastião da Grama (SP) desde 1890

A convite da marca, a equipe da Espresso conheceu de perto uma das propriedades brasileiras que integram o Plano de Qualidade Sustentável. A Fazenda Cachoeira da Grama, do produtor Gabriel Carvalho Dias, fica em São Sebastião da Grama (SP), na região do Vale da Grama, a cerca de 250 km da capital paulista. Fornecedora de cafés para a Nespresso há mais de 15 anos, a propriedade participa do programa com o acompanhamento dos engenheiros agrônomos da empresa, que orientam a adoção de práticas regenerativas.

“Cada talhão tem suas próprias características. Buscamos compreender o solo em todos os seus aspectos – físicos, químicos e biológicos – para enriquecer a saúde do solo e oferecer à planta as melhores condições de desenvolvimento”, explica Rhafael Martins, engenheiro agrônomo do programa, que atua há 13 anos na propriedade. 

Com 85 hectares, a fazenda mantém 40% de sua área preservada – o dobro do mínimo de 20% exigido pelo Código Florestal Brasileiro. O trabalho também inclui a recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APPs), com 22 nascentes restauradas até o momento.

Produção de café na Fazenda Cachoeira da Grama

A ampliação dos sistemas agroflorestais e das iniciativas de remoção de carbono foi outro destaque do relatório The Positive Cup. No ano passado, mais de 2 milhões de árvores foram plantadas em áreas cafeeiras, das quais cerca de 1,9 milhão em projetos voltados à remoção de carbono.

“A ideia do Plano de Qualidade Sustentável é proporcionar esse relacionamento a longo prazo com os produtores”, afirma Tatiana Nakamura, especialista de cafés da Nespresso. “Nosso foco é ajudar o produtor a ter cafés de qualidade com produtividade, cuidando do meio ambiente, do solo e das pessoas para garantir, no futuro, uma xícara de café produzida de forma sustentável.”

Sustentabilidade além da lavoura

Dados da pesquisa Nestlé CUP 2025 Local Insights Report – Brasil: Panorama Geral e Comportamento do Consumidor, realizada com mil consumidores de café de 16 a 75 anos em todas as regiões do país, mostram que, embora o mercado tradicional ainda seja predominante, as cápsulas já respondem por 9% do consumo nacional e seguem em expansão.

A reciclagem das cápsulas também integra a estratégia de sustentabilidade da marca. Presente em 79 países, incluindo o Brasil, o programa conta com mais de 400 pontos próprios de coleta, como as boutiques da Nespresso, além de uma parceria com os Correios que permite aos consumidores enviar gratuitamente as cápsulas usadas ao Centro de Reciclagem da empresa, em Valinhos (SP). Lá, o alumínio e a borra são separados sem uso de água no processo para reaproveitamento.

O alumínio retorna à cadeia produtiva por meio de parceiros, como a Natura, que desenvolve embalagens cosméticas, e a borra é transformada em biometano por biodigestão, utilizado na geração de energia renovável. Com investimento superior a R$ 2 milhões por ano, o projeto processa até 850 toneladas anuais de borra de café e reduz as emissões de carbono em cerca de 900 toneladas por ano.

“Acreditamos no café como uma força capaz de gerar impacto positivo em toda a cadeia, do campo ao pós-consumo”, resume Marina Gargiulo, gerente de branding & sustentabilidade da Nespresso. “O The Positive Cup reflete como estamos avançando nessa jornada”.

TEXTO Gabriela Kaneto

Café & Preparos

Cada canéfora, uma torra: a importância de entender as diferenças entre os cafés

À medida que o mercado amplia o olhar para além do arábica e incorpora canéforas de qualidade, entender diferenças técnicas entre as duas espécies e suas variedades no processo torna-se necessidade

Por Gabriela Kaneto (com colaboração de Cristiana Couto)

A produção brasileira de canéfora cresceu no último ano. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que a espécie produziu 20,8 milhões de sacas em 2025 no Brasil – 42,1% a mais do que a safra anterior, enquanto o arábica teve queda de 9,7% em 2025, para 35,76 milhões de sacas.

Esse aumento de volume aliado ao avanço em qualidade – resultado de melhoramento genético e
cuidados pré e pós-colheita – transformaram a percepção e as possibilidades do uso dos canéforas, o que faz com que o olhar sobre a torra destes grãos seja, necessariamente, revisitado.

Atualmente, a espécie entrega uma bebida com identidade própria e desafios específicos – especialmente no momento da torra. E é justamente aí que as comparações com o arábica falham. Pois, embora a torra possa ser resumida como um processo de aplicação de energia térmica sobre o grão, as respostas a ela são variadas e dependem de fatores que alcançam a genética do café.

Entre híbridos, clones e arábicas

As diferenças entre arábicas e canéforas começam bem antes de um grão de café entrar no torrador. “Nos últimos cinco anos, o canéfora mudou da água para o vinho”, resume Leandro Paiva, professor-titular de cafeicultura do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas (IFSULDEMINAS) e diretor do Polo de Inovação em Agroindústria do Café, em Machado (MG).

Segundo ele, o avanço de programas de melhoramento – feitos principalmente pela Embrapa Rondônia e pelo Incaper – e a entrada no mercado de novos clones e híbridos ampliaram a diversidade dos canéforas. A espécie, antes tratada como um bloco relativamente homogêneo, passou a revelar diferenças expressivas de densidade, massa e tamanho do grão, resultando em comportamentos térmicos também distintos. “Mudaram os clones, mudaram as densidades, mudou o sensorial. E isso obrigou a gente a rever tudo o que achava que sabia sobre torra de canéfora”, afirma Paiva.

Antes dessas mudanças, lembra o pesquisador, aplicava-se aos cafés canéfora a mesma lógica de torra usada para o arábica. Mais tarde, mestres de torra passaram a estender a fase de secagem (evaporação da água no interior do grão na etapa inicial do processo) dos canéforas para favorecer a caramelização dos açúcares disponíveis, já que a espécie tende a apresentar menor teor deles que os arábicas. Mas a estratégia não era tão simples.

“Com a chegada desses novos híbridos e clones, vimos que o que achávamos correto não funcionaria para todos. Então, estamos começando de novo”, explica Paiva, que atualmente faz testes sobre o comportamento desses novos grãos no torrador.

As diferenças entre os novos canéforas começa na base genética da espécie. Diferentemente do arábica, que se reproduz por autofecundação e que deriva de um número restrito de cruzamentos – o que resulta em variedades “primas” entre si –, o canéfora é dependente de fecundação cruzada e permite, ainda, uma ampla exploração de híbridos F1 – primeira geração de plantas resultantes do cruzamento entre duas linhagens geneticamente distintas –, a partir da sua propagação pela técnica de clonagem (que produz indivíduos geneticamente iguais). O resultado é uma explosão recente de diversidade genética e fenotípica de canéforas.

“Essa heterogeneidade faz com que a gente encontre canéforas com até o dobro da densidade de um arábica padrão. Isso muda completamente a física no interior do torrador”, pondera ele. “A movimentação de um canéfora mais denso no equipamento é muito mais rápida do que a de um arábica”, exemplifica ele, que há anos coordena a torra dos cafés do Coffee of the Year, premiação dos melhores arábicas e canéforas brasileiros na Semana Internacional do Café, evento que acontece anualmente em Belo Horizonte.

O especialista diz que é por conta dessa heterogeneidade, ainda pouco conhecida, que não há um protocolo consolidado para a torra da espécie – é preciso continuar as investigações. “É a partir desse tipo de teste que vou começar a ter ideias de como fazer uma melhor gestão de todo o processo no torrador”, prevê.

“Essa diversidade dos novos canéforas vai exigir novas tecnologias e, provavelmente, novos torradores”, arrisca Paiva. “Não é só uma questão de velocidade de rotação do torrador, mas de fluxo de ar, profundidade e diâmetro do tambor, quantidade do café utilizado, todos esses fatores”, ilustra, enquanto apresenta um vídeo à reportagem da Espresso para mostrar como o comportamento de um grão no interior do equipamento já varia durante as etapas da torra. “Estamos ainda lidando com hipóteses, começando agora a ver as diferenças e porque elas existem. Diferenças não só em densidade, mas também no tamanho e na composição química dos grãos”, explica o especialista.

A curva do aprendizado

Raphael Brandão, mestre de torra e fundador da torrefação Café di Preto, no Rio de Janeiro (RJ), torra cafés desde 2019, mas passou a trabalhar com canéforas apenas em 2022. Ele, que começou torrando cafés da Fazenda São Bento, em Santa Teresa (ES), nas Montanhas do Espírito Santo – vencedora do Coffee of the Year 2025 na categoria canéfora –, diz que a maior diferença entre as espécies durante a torra está no gerenciamento de energia. “É uma lógica bem diferente. Se aplicarmos a mesma estratégia às duas, estragamos completamente a bebida. Entender a necessidade de mais ou menos energia de cada canéfora é o grande segredo”, comenta.

Raphael Brandão, mestre de torra e fundador da torrefação Café di Preto

Para Samilly Miranda Cunha, fundadora da Torra da Sam, em Belém (PA), a densidade do café é um dos primeiros fatores a orientar as decisões no torrador. “Dependendo da densidade do grão, consigo saber quanto de energia vou aplicar e em quais momentos da curva [de torra]”, explica. Segundo ela, que começou a torrar cafés em 2023, é por isso que os canéforas levam mais tempo para se desenvolver fisicamente (mudar de cor e de tamanho) do que os arábicas. “Não é um padrão fixo, mas tem sido comum”, pondera.

Essa diferença no tempo e na condução da torra foi, para muitos profissionais, um aprendizado construído na prática, por tentativa e erro. Samilly relembra a insegurança que sentiu na primeira torra de canéforas. “Quando provei o café, não gostei e planejei tudo o que ia mudar”, conta. A mudança foi o descanso do café. “Depois de cinco a sete dias, provei de novo e era outro café. Não mudei nada e segui satisfeita com o resultado”. Para ela, a experiência reforçou a importância de respeitar o tempo do grão e de não tirar conclusões precipitadas logo após a torra.

Samilly Miranda Cunha, fundadora da Torra da Sam

“No começo, quando tratei o conilon como um arábica na torra, fiquei intrigada com os resultados”, relata Keiko Sato, da torrefação paulistana Punga Cafés Especiais, que trabalha com canéforas desde 2017. “Sabia que não era uma questão de qualidade da matéria-prima, mas, sim, de condução da torra”. Quase sem referências disponíveis na época, Keiko conta que testou diferentes abordagens de desenvolvimento e aplicação de energia no processo. Os resultados a agradaram. “Não tenha receio de prolongar o desenvolvimento”, aconselha Keiko. “Percebi que torras um pouco mais escuras podem trazer perfis sensoriais muito interessantes, preservando a acidez característica do canéfora”, completa.

Essa abordagem ajuda a explicar por que sabores como malte e chocolate amargo, comuns em canéforas bem trabalhados, não devem ser interpretados como defeitos, mas como expressões da espécie desenvolvidas na etapa da torra. “Até notas florais, como de lavanda, e de maracujá podem aparecer se a torra for bem conduzida”, explica ela.

Ainda assim, profissionais acreditam que, para que os cafés canéforas sejam plenamente aceitos pelo consumidor final, é necessário um trabalho de educação e de ampliação do repertório sensorial, capaz de desconstruir estigmas históricos associados à espécie.

Keiko Sato, da torrefação paulistana Punga Cafés Especiais

Da tentativa ao método

Para quem está começando a torrar canéfora, a orientação é clara: é preciso planejamento, registro e paciência. “Planeje o que vai ser feito, anote tudo, salve as curvas e não faça alterações aleatórias”, orienta Samilly. “Espere o tempo de descanso e só mude algo depois de provar o café descansado”, avisa. “Entenda que são matérias-primas diferentes”, reforça Brandão. “Os compostos são diferentes e exigem conduções distintas. Isso muda muito a percepção de acidez que a bebida pode ter”, completa Keiko.

“Temos que convidar a comunidade acadêmica, as universidades e instituições de ensino e pesquisa a explorar mais esses novos híbridos de canéfora”, incentiva Paiva.

Por dentro do grão

A genética explica por que os cafés canéforas são tão diferentes. Mas é sob o microscópio que essa diferença se materializa.

Toda célula vegetal é envolvida por uma estrutura externa rígida, a parede celular, responsável pela sustentação dos tecidos. No café, ela influencia diretamente a forma como o calor atravessa o grão durante a torra.

A parede celular é composta principalmente por celulose e hemicelulose (na ilustração abaixo) — polissacarídeos, isto é, grandes moléculas formadas por cadeias de açúcares. A celulose, feita de glicose, organiza-se em cadeias longas e lineares. A hemicelulose, formada por diferentes açúcares (que ainda estão sendo investigados), tem cadeias mais curtas e ramificadas. Além da composição química diversa, essas macromoléculas diferem nos tipos de ligação química que as estruturam — mais ou menos suscetíveis à degradação térmica.

“Entre os açúcares da hemicelulose está a glicose, que estabelece outro tipo de ligação química nessa estrutura”, explica Leandro Paiva. Maior teor de hemicelulose implica maior concentração de unidades de glicose na sua estrutura, o que aumenta a massa e contribui para maior densidade do grão.

Nas pesquisas que conduz, Paiva verificou que a celulose é mais abundante em canéforas do que em arábicas – 2o% a 25% do total da massa do grão de arábica contra 22% a 28% em canéforas. Observou também que a quantidade de hemicelulose, medida em miligramas por grama de grão, não só é menor em arábicas (cerca de 16,1 mg/g) do que em canéforas como varia significativamente entre conilons (27,2 mg/g) e robustas (17,7 mg/g).

Outro elemento entra nessa equação: a lignina, polímero fenólico estrutural que se associa à hemicelulose e reforça a parede celular, aumentando sua resistência. “Paredes celulares mais rígidas, como as dos canéforas, dificultam a migração do calor da superfície para o centro do grão”, detalha o pesquisador. O resultado é conhecido dos torrefadores: a parte externa avança com mais rapidez no processo de torra, enquanto o interior do grão ainda está em desenvolvimento. “É como cozinhar robustas em panela de ferro e arábicas em panelas finas de alumínio”, compara.

Conilons, robustas e arábicas diferem também no perfil de proteínas. Na torra, elas se degradam em aminoácidos que reagem com açúcares na reação de Maillard — processo responsável por grande parte dos compostos que formam aroma e sabor. Como genética e clima moldam o perfil proteico do grão, também determinam quais aminoácidos estarão disponíveis para reagir. É uma das razões pelas quais cafés diferentes desenvolvem sabores distintos sob a mesma curva de torra.

Os distintos teores e tipos de açúcar em cafés também interferem no processo. Conforme a temperatura no torrador aumenta, a sacarose, o açúcar mais abundante, decompõe-se em açúcares menores – os açúcares redutores, como frutose e glicose –, que participam da reação de Maillard.

Cafés arábicas, com maior concentração de sacarose, tendem a oferecer maior disponibilidade de açúcares redutores durante a torra, o que favorece o desenvolvimento de aromas mais doces. Já os canéforas, que apresentam menor teor total de açúcares e composição distinta, exigem perfis de torra diferentes para alcançar equilíbrio sensorial. “O manejo adequado da reação de Maillard contribui para reduzir a percepção do amargor característico da cafeína”, aponta o especialista.

Texto originalmente publicado na edição #91 (março, abril e maio de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Gabriela Kaneto (com colaboração de Cristiana Couto)

Mercado

Café brasileiro escapa de nova tarifa de 12,5% dos EUA

Todos os tipos de café produzidos no Brasil ficaram de fora da nova tarifa adicional de 12,5% anunciada pelos Estados Unidos na noite de quinta-feira (23) e que entra em vigor nesta sexta (24). Cerca de 3 mil produtos brasileiros foram taxados, estima a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil).

O café permanece na lista de exceções como resultado da investigação da Seção 301 sobre bens produzidos com trabalho forçado. A nova medida faz parte de um pacote que amplia tarifas sobre produtos importados pelos EUA de mais de 80 países, com alíquotas entre 10% e 12,5%, segundo o jornal britânico The Guardian

O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) atribui a decisão ao trabalho conjunto, com parceiros brasileiros e internacionais, como National Coffee Association (NCA), dos Estados Unidos, por mais de um ano e com mais de 100 reuniões técnicas com o governo norte-americano. Entre os dados apresentados, estão os oriundos da fiscalização trabalhista na cafeicultura feito em mais de 58 mil inspeções nos últimos anos e ações em parceria com o Ministério do Trabalho para ampliar as boas práticas no campo. 

Segundo o Cecafé, a medida preserva exportações de US$ 2 bilhões a US$ 2,5 bilhões por ano aos EUA, que compram por ano, em média, 6 milhões de sacas de café brasileiro.

A exceção concedida ao café contrasta com o impacto sobre o restante da pauta exportadora brasileira. A Amcham Brasil estima que os cerca de 3 mil produtos taxados somam US$ 12,5 bilhões em exportações anuais aos Estados Unidos. Desse total, 85,3% das vendas (US$ 10,7 bilhões) podem ter tarifa cumulativa de 37,5%, uma das maiores alíquotas aplicadas pelos EUA a parceiros comerciais, como Canadá, China e México.

Mercado

Ninja aposta em automação para o futuro do café doméstico

A Ninja lançou a AutoBarista Pro, máquina de café que combina automação, inteligência artificial e personalização no preparo de bebidas. Apresentado em 27 de maio, o equipamento tem 13 opções de preparo, tecnologia Grind iQ, que ajusta automaticamente a moagem, e programas de vaporização capazes de produzir microespuma para diferentes bebidas.

A empresa aposta na novidade para unir conveniência e qualidade, proporcionando uma experiência próxima à de uma cafeteria. O modelo permite criar até dois perfis de usuários, salvando preferências como intensidade, volume, temperatura e método de vaporização do leite, acompanhando a tendência de integração entre hardware e recursos inteligentes. Conta ainda com dois reservatórios intercambiáveis para grãos, com capacidade de 340 g cada, e função de preparo duplo para extração simultânea de duas doses de espresso.

No mercado europeu, a Ninja AutoBarista Pro custa £ 899,99.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Cafeteria & Afins

Cafeteria Ritual – Ribeirão Preto (SP)

O nome da cafeteria faz juz à rica experiência sensorial oferecida aos clientes. A Ritual, que também é uma loja-conceito das conceituadas marcas Ritual Tools, Timemore e Loveramics, está instalada em uma casa com pé direito alto e atmosfera intimista, ocupada por mesas pequenas e um sofá compartilhado. As prateleiras abrigam xícaras, métodos de preparo e pacotes de torrefações parceiras. 

O cardápio traz, logo na primeira página, os cafés oferecidos pela casa, distribuídos entre microlotes e os chamados “excepcionais”. Disponíveis nos métodos espresso e filtrado – este, preparado em um método flatbed de porcelana da Loveramics –,  os cafés chegam à mesa em recipientes com características específicas, escolhidos para valorizar os atributos de cada bebida. 

Chamado de “refrescante”, o primeiro café provado era da variedade SL28 lavado, produzido na fazenda Santuário Sul, na Mantiqueira de Minas, e torrado pela paulistana Sabino Torrefação. A bebida foi servida em um copo amarelo de abertura mais ampla que, segundo a barista, tem como objetivo “abrir os voláteis do café”, aumentando sua percepção de doçura. A rigor, isso significa que o recipiente da Loveramics – que é referência global entre baristas e competidores dos mundiais de barismo, promete favorecer a dispersão dos aromas e espalhar o fluxo da bebida, aumentando a percepção de atributos como doçura, por exemplo. O café trouxe notas de chá verde, açúcar demerara e um leve aroma de damasco, com acidez cítrica e corpo sedoso. 

Café filtrado e porção de palitos de parmesão

Para acompanhá-lo, foram pedidos uma porção de palitos de parmesão, cujo sabor remete uma combinação de pão de queijo e chipa (biscoito tradicional paraguaio de polvilho e queijo, com textura firme, sabor intenso de queijo e formato de ferradura), e um sanduíche caprese, com mussarela de búfala, tomate cereja e pesto de manjericão, feito com schiacciata – pão típico da Toscana, de formato achatado casca crocante e miolo macio. A nota vegetal do pesto harmonizou bem com a nota de chá verde percebido na bebida e evidenciou ainda mais sua acidez cítrica. Já os palitos de parmesão contribuíram para realçar o corpo e a doçura do café. 

Outra pedida foi um espresso preparado com um grão da linha “excepcionais”. Batizado de “exótico frutado”, trata-se de um café da variedade arara, fermentado, da Fazenda Capadócia, na Mantiqueira de Minas, e torrado pela Sabino. Ao ser mexido, o café revelou notas de geleia de frutas amarelas, baunilha em fava e chocolate, com acidez tartárica brilhante, corpo suculento e finalização prolongada. 

Como acompanhamento, entre os cookies e brownies do cardápio de doces, a escolha recaiu sobre o cookie com gotas de chocolate. Servido quente, tinha textura crocante e, embora apresentasse doçura um pouco pronunciada, acabou equilibrando bem a acidez elevada do espresso. 

Sanduíche caprese e cappuccino

A última bebida provada foi um cappuccino, preparado com um arábica mundo novo do produtor Márcio Martins, na Alta Mogiana (SP), denominado “doce de leite”. De processamento natural e torrado pela Doca Cafés, de Franca (SP), o café foi servido com bebida vegetal e chegou à mesa com um latte art em formato de coelho, de traços bem definidos. Na boca, mostrou-se doce e equilibrado, com notas evidentes de cereal e caramelo. 

A Cafeteria Ritual é fiel ao que propõe: transformar o café em uma experiência marcada pela atenção aos detalhes. Dos grãos selecionados às porcelanas escolhidas para valorizar cada preparo, tudo ali tem uma razão de ser. 

Nossa conta: R$ 111
Filtrado de microlote – R$ 22
Sanduíche caprese – R$ 25
Palito de parmesão – R$ 17
Espresso – R$ 14
Cookie – R$ 15
Cappuccino – R$ 18

A Espresso visitou a casa anonimamente e pagou a conta.

Informações sobre a Cafeteria

Endereço Rua Álvaro Cândido da Silva Gradim, 111
Bairro Jardim Botânico
Cidade Ribeirão Preto
Estado São Paulo
Website http://www.instagram.com/cafeteria.ritual

Mercado

Café solúvel brasileiro é isento da nova tarifa de 25% dos EUA

Por Reuters (São Paulo)

O solúvel brasileiro foi incluído na lista de produtos isentos da nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre importações provenientes do Brasil, em decisão aguardada pela indústria do setor. Era o único segmento da cafeicultura brasileira que permanecia sujeito à taxação norte-americana.

Segundo o Conselho dos Exportadores de Café (Cecafé), a medida preserva exportações brasileiras de café para os Estados Unidos entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões por ano, considerando também o café verde, que já era isento da tarifa.

Diferentemente do café verde, o produto havia permanecido sujeito a uma tarifa de 10%, mesmo após o governo norte-americano revogar taxas mais elevadas aplicadas à maior parte dos produtos brasileiros.

A aplicação de uma tarifa de 50% sobre o solúvel brasileiro teve impacto significativo sobre os embarques do produto, que recuaram 28,2% em 2025 na comparação com 2024, para o equivalente a 558.470 sacas g, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics). O volume correspondeu a cerca de 15% das exportações brasileiras de café solúvel no ano passado.

Segundo o diretor-geral do Cecafé, Marcos Matos, a isenção resulta do trabalho conjunto desenvolvido desde o ano passado pela indústria brasileira e pela National Coffee Association (NCA), entidade que representa o setor cafeeiro nos Estados Unidos.

De acordo com Matos, os esforços buscaram demonstrar tecnicamente o valor agregado pela indústria brasileira de café solúvel e sua contribuição para a estabilidade dos preços pagos pelo consumidor norte-americano.

Matos lembrou que os Estados Unidos são o maior consumidor e importador mundial de café, enquanto o Brasil lidera a produção e as exportações globais da commodity. “São parceiros insubstituíveis, é uma relação de ganha-ganha, uma relação de via de mão dupla”, afirmou.

O aumento das tarifas está entre os fatores que contribuíram para a queda das exportações brasileiras de café em 2025, levando a Alemanha a superar os Estados Unidos como principal destino do produto no ano-safra 2025/26 (julho a junho), segundo o Cecafé.

Embora a tarifa de 50% tenha permanecido em vigor por cerca de quatro meses, os embarques totais de café para o mercado norte-americano recuaram 43,2% no ano-safra 2025/26 em relação aos 12 meses anteriores.

No café solúvel, a retração foi ainda mais intensa. Entre agosto e dezembro, período em que vigorou a tarifa de 50%, os embarques caíram 62,8% na comparação com o mesmo intervalo do ano anterior, segundo dados da Abics.

BaristaMercado

Intertorra 2026 discutirá tendências em Poços de Caldas (MG)

Encontro chega à Região Vulcânica em agosto para reunir profissionais da cadeia cafeeira em torno de inovação, tecnologia e tendências 

Sessões de torra, degustações de cafés de diferentes origens, demonstrações de equipamentos e debates sobre tecnologia e qualidade compõem a programação do Intertorra 2026, que será realizado de 28 a 30 de agosto no campus do Instituto Federal do Sul de Minas (IF Sul de Minas), em Poços de Caldas (MG). Voltado aos profissionais da cadeia cafeeira, o encontro reunirá produtores, traders, mestres de torra, proprietários de cafeterias, baristas e especialistas.

Situado na região produtora dos cafés da Região Vulcânica, o evento terá palestras técnicas sobre temas como análise microscópica, torra para cápsulas de cafés especiais, controle de qualidade e inovação, além de showcases de produtos e equipamentos. Os ingressos custam R$ 1,8 mil por pessoa e incluem alimentação durante os três dias e certificado de participação.

O encontro ocorre em um momento de crescimento do mercado de cafés especiais, em que torrefações buscam aumentar a eficiência dos processos e agregar valor ao produto. Segundo Matheus Tinoco, mestre de torra e idealizador do Intertorra, a programação abordará temas como regularização de torrefações, novos protocolos de degustação e padrões de degustação de cafés. “Teremos também bate-papos com especialistas estrangeiros para entender como está o mercado lá fora”, detalha Tinoco. 

Realizado desde 2018, o Intertorra já passou pelas cidades de Machado (MG), Pedregulho (SP), Piumhi (MG), Batatais (SP) e Belo Horizonte (MG). A edição de 2026 tem co-realização da Espresso&CO e apoio da Associação dos Produtores de Café da Região Vulcânica e da Prefeitura de Poços de Caldas.

Serviço
Intertorra 2026
Quando: 28 a 30 de agosto, das 8h às 21h
Onde: Campus do IF Sul de Minas, Poços de Caldas (rua Dirce Pereira Rosa, 300 – Jardim Esperança – Poços de Caldas/MG)
Mais informações: https://evento.intertorra.com.br/2026 

Cafezal

IBGE reduz em 1,2% estimativa da safra brasileira de café

Nova projeção aponta 66 milhões de sacas, com previsão de canéfora, com colheita mais avançada, revisada para baixo

O IBGE revisou para baixo a estimativa da safra brasileira de café 2026/27. Segundo o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) divulgado nesta terça-feira (14), a produção nacional foi estimada em 66 milhões de sacas, queda de 1,2% em relação à projeção de junho. Ainda assim, o volume representa um crescimento de 14,7% frente à safra de 2025.

A produção de café arábica foi mantida praticamente estável na comparação mensal, estimada em 44,4 milhões de sacas. De acordo com o instituto, as condições climáticas têm favorecido as lavouras do Centro-Sul e a safra também é impulsionada pela bienalidade positiva, característica do ciclo produtivo da espécie.

Já a estimativa para o café canéfora (conilon e robusta) foi revisada para baixo. O IBGE passou a projetar uma produção de 21,6 milhões de sacas, redução de 3,6% em relação ao levantamento anterior. Mesmo com o ajuste, o volume permanece 3% acima do registrado em 2025.

A nova projeção reforça a expectativa de uma recuperação da oferta brasileira em 2026/27, embora os ajustes mensais indiquem que o desempenho da safra continua sendo acompanhado de perto à medida que a colheita avança.

FOTO Camila Luz

Mercado

Além do matcha: ingredientes asiáticos ganham destaque em cafeterias de SP

Dos já conhecidos shoyu e missô ao yuzu e ube, insumos vindos da Ásia surgem em misturas criativas com café

Por Leonardo Neiva

O matcha não é mais o único ingrediente asiático de destaque nas cafeterias brasileiras. Preparos que levam shoyu, missô, frutas como o yuzu e outros insumos asiáticos menos conhecidos começam a chegar às cafeterias — especialmente em São Paulo, cidade que reúne a maior comunidade de descendentes japoneses do mundo.

No cardápio do Aizomê Café da Japan House, na avenida Paulista, já existem opções como o latte e o chocolate quente com caramelo missô (R$ 29) — pasta de soja fermentada usada na culinária japonesa —, e o shoga cold brew (R$ 25), café extraído a frio com infusão de gengibre.

“Quando a gente traz uma conserva de gengibre, o missô ou o yuzu, é para que os ingredientes valorizem o café e os componentes da bebida”, explica o chef-confeiteiro do Aizomê, Rafael Aoki. “O shoga [gengibre], por exemplo, intensifica o sabor do grão, trazendo o umami.”

Shoga cold brew e latte com caramelo missô, do Aizomê Café

Numa programação alinhada ao São Paulo Coffee Festival, o Aizomê preparou recentemente o asagohan, café da manhã especial que segue as tradições japonesas, e o coffee omakase, menu-degustação harmonizado com café. A curadoria foi da chef Telma Shimizu, do Aizomê, e do barista Cauã Sperling, do Fora da Lei Café.

Na Mirá Padaria Autoral, instalada no bairro de Pinheiros, a bebida mais pedida e à frente do matcha é o mocha shoyu (R$ 32), mistura de leite, café espresso e xarope de shoyu e mel. Mas a fusão com ingredientes nipônicos também surge em outros itens como o yuzu café (R$ 26), refrigerante à base da fruta mesclado a uma dose de espresso.

O sócio Leonardo Akira, que comanda a casa ao lado da companheira Júlia Fraga, deve essa inspiração latino-nipônica à família, de origem japonesa, e à primeira experiência como padeiro no Uruguai. Ele conta que o processo de criação se assemelha ao de um laboratório. “Outro dia, criamos uma bebida com amazake [vinho de arroz japonês doce] de milho. Fizemos um café nesse amazake, que virou uma espécie de bebida junina, unindo milho com café.”

Yuzu café, da Mirá Padaria Autoral

Segundo o especialista em café Ensei Neto, autor da coluna Um Café para Dividir, do Estadão, a tendência dá continuidade a uma longa tradição gastronômica japonesa por aqui, e que traz uma visão quase oposta à dos industrializados dos EUA: “Parece que o que vem da Ásia é mais puro, mais natural.” Assim, o uso de ingredientes como missô ou shissô integra até mesmo a busca pelo wellness. “São produtos que acabam trazendo benefícios e oferecem algo diferente para o café.”

Para Aoki, é também uma resposta do universo do café ao hype da cultura asiática, da música ao audiovisual. “Temos muitas séries e filmes, principalmente coreanos, entrando no Brasil. Todas essas pequenas coisas foram crescendo e se unindo para dar um boom generalizado na cultura oriental.”

Tão perto e tão longe

Em tempos de TikTok, alguns desses ingredientes chegam às mesas após fazer fama nas redes. É o caso do ube ou inhame roxo, das Filipinas, que viralizou nos EUA no início do ano devido à sua coloração e ao sabor puxado para a baunilha. Entre as criações com o produto, destaca-se o ube latte. O ingrediente deu as caras na última edição do São Paulo Coffee Festival, em estandes como o da marca de leite de aveia Nude e o da Namu Matcha, numa bebida que combina o ube com inhame comum, suco de milho e leite vegetal. 

Ele também já aparece no cardápio de estabelecimentos como a cafeteria norte-americana Superwow Coffee, que conta com uma unidade em Moema, bairro da zona sul da capital paulista. “Quando foram competir nas Filipinas, nossos baristas perceberam o produto e trouxeram, criando o xarope de ube”, conta Ricardo Ribeiro, um dos sócios. O público gostou tanto que o ube latte (R$ 25) permanece fixo no cardápio e representa 25% das bebidas vendidas na casa.

Ube latte, do Superwow Coffee

Mas o sucesso de algumas dessas matérias-primas esbarra no desafio de obtê-los. Pouco conhecido no país, o ube do Superwow Coffee precisa ser importado. Por outro lado, Aoki, do Aizomê, reforça que a popularidade facilita o acesso a produtos como o yuzu, hoje cultivado em pequenas quantidades no interior de São Paulo. “Entre fevereiro e abril, a época de yuzu no Brasil, a gente chega a comprar meia tonelada e faz todo o processo de conserva”, conta.

Akira, da padaria Mirá, revela que a fruta é uma das grandes apostas internacionais do governo japonês depois do sucesso do matcha. Em parte, por conta da semelhança com cítricos como o limão taiti, que o aproximam do público, mas com um aroma e sabor próprios. “É um ingrediente que deve ser bem explorado nos próximos anos”, afirma.

Ensei Neto adverte, no entanto, que esse tipo de tendência não pode virar “copia e cola” do que é feito nas cafeterias estrangeiras. “Não podemos basear tudo no que vem de fora e esquecer de criar uma cultura do café essencialmente brasileira.”

Aizomê Café
Endereço: Avenida Paulista, 52 (Japan House) – Bela Vista – São Paulo (SP)
https://japanhousesp.com.br/aizome-cafe/

Mirá Padaria Autoral
Endereço: R. Francisco Leitão, 265 – Pinheiros – São Paulo (SP)
https://linktr.ee/miraspp

Superwow Coffee
Endereço: R. Gaivota, 501 – Moema – São Paulo (SP)
https://superwowcoffee.com.br/ 

TEXTO Leonardo Neiva • FOTO Divulgação