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Conheça os campeonatos e premiações da SIC 2026

Do Coffee of the Year ao Campeonato Brasileiro de Barista, o evento sedia algumas das principais competições do universo do café no Brasil

Entre os maiores destaques da Semana Internacional do Café (SIC) este ano, estarão algumas das principais competições do universo do grão no Brasil. O evento, que acontece na Expominas, em Belo Horizonte (MG), volta a reconhecer na edição de 2026 produtos e profissionais que integram toda a cadeia produtiva e comercial do café.

Ao longo da programação, entre os dias 11 e 13 de novembro, produtores, baristas, torrefadores, classificadores, além de marcas e profissionais do setor, terão oportunidades para demonstrar excelência, compartilhar conhecimento e ampliar sua visibilidade no mercado nacional e internacional.

Veja a seguir as principais premiações que acontecem na SIC este ano e que, além de revelar novos talentos e consolidar projetos de sucesso, ajudam a valorizar diferentes origens e a fortalecer a inovação na cafeicultura brasileira.

Coffee of the Year

A premiação reconhece alguns dos melhores cafés do Brasil, que se destacam pela qualidade e diversidade, valorizando diferentes origens e produtores brasileiros. Criado em 2012, o Coffee of the Year contempla arábica e canéfora, as duas principais espécies produzidas no país, aproximando os cafés finalistas de compradores, torrefadores e profissionais do mercado por meio das Salas de Cupping da SIC.

Premiação Coffee of the Year em 2025

Espresso Design

Em sua 8ª edição, o concurso de embalagens destaca a importância do design na construção e na promoção da identidade das marcas de café. Promovida pela Revista Espresso, a iniciativa valoriza criatividade, conceito, identidade visual e soluções que contribuem para a experiência do consumidor. Ao longo dos dois primeiros dias da SIC, o público poderá votar em uma das 20 embalagens expostas no evento, aproximando profissionais de café e design e apresentando ao mercado tendências para a comunicação do produto.

Golden Cup Brasil

O evento premia os melhores cafés Fairtrade de pequenos produtores e produtoras de diferentes regiões do país, que seguem padrões de comércio justo. Realizado pela Coordenadora Latino-Americana e do Caribe de Pequenos Produtores e Trabalhadores de Comércio Justo (CLAC), em parceria com a BRFAIR, o concurso dá visibilidade às pequenas cadeias produtivas de cafés arábica e canéfora, estimulando a melhoria contínua da qualidade, a sustentabilidade e a agregação de valor à produção.

Florada Premiada

No Ano Internacional da Mulher Agricultora, a SIC sedia um dos principais concursos do país dedicados às mulheres cafeicultoras, promovido pelo Grupo 3corações, em parceria com a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA). Ao reconhecer a qualidade dos cafés arábica e canéfora produzidos por mulheres, a premiação chega à sua 9ª edição fortalecendo o protagonismo delas na produção brasileira, com mais de 50 pontos de coleta de amostras em regiões produtoras do Brasil.

Premiação Florada Premiada em 2025

Torrefação do Ano Brasil

A competição dedicada à qualidade e consistência da atividade propõe aos participantes desenvolver um perfil próprio de torra a partir de um mesmo lote de café verde. Organizada pela Attila, a 5ª edição do Torrefação do Ano Brasil reúne representantes de diferentes regiões do país em uma etapa decisiva, que acontece durante a SIC.

Campeonato Brasileiro de Blends de Café

A competição valoriza o conhecimento técnico e a criatividade de profissionais envolvidos na criação de blends, destacando o trabalho de classificadores, degustadores e mestres de torra. A final do campeonato, criado pela Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), ocorre na SIC e vai avaliar o trabalho dos profissionais na combinação de diferentes cafés para a construção de perfis sensoriais equilibrados e consistentes.

Campeonato Brasileiro de Barista

Maior competição de baristas do Brasil, o evento realizado pela BSCA reúne na SIC profissionais de diferentes regiões do país. Os participantes precisarão preparar espressos, bebidas com leite e drinques autorais, em uma disputa que reconhece os profissionais de destaque do barismo nacional. O campeonato funciona como etapa de qualificação internacional, levando o campeão brasileiro ao Mundial de Barista.

Premiação Campeonato Brasileiro de Barismo (categoria Latte Art) em 2025

Concurso NossoCafé

A iniciativa destaca produtores que dedicam atenção específica à qualidade e ao cuidado na produção de cafés especiais, valorizando o trabalho no campo e a adoção de boas práticas de manejo e nutrição, que contribuem para o desenvolvimento sustentável da cafeicultura. Promovido pela Yara, empresa global de nutrição mineral de plantas e soluções agrícolas sustentáveis, o concurso, além de premiar os produtores, fortalece a conexão entre qualidade, conhecimento técnico e valorização da origem.

Prêmio ATeG

A premiação, promovida pelo Sistema CNA/Senar e destacada pelo Sistema Faemg Senar, reconhece todo ano produtores rurais, técnicos de campo e supervisores que se destacam pelos resultados de produtividade e gestão no campo. O objetivo é valorizar a transformação de propriedades rurais, por meio da orientação técnica e gerencial, em negócios mais eficientes e sustentáveis.

Serviço
Semana Internacional do Café
Quando: 11 a 13 de novembro, das 10h às 19h
Onde: Expominas (avenida Amazonas, 6.200 — Gameleira — Belo Horizonte, MG)
Mais informações e credenciamento: https://semanainternacionaldocafe.com.br/

TEXTO Equipe Espresso • FOTO NITRO/Semana Internacional do Café

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Itália e Banco Mundial lançam Iniciativa Global do Café

Parceria pretende mobilizar US$ 500 milhões; Espresso Fund, primeiro fundo global público-privado dedicado à cadeia cafeeira, terá contribuição italiana de € 40 milhões

Por Cristiana Couto

A Itália e o Grupo Banco Mundial lançaram nesta quarta-feira (14), em Roma, a Global Coffee Initiative (Iniciativa Global do Café), uma plataforma para atrair investimentos públicos e privados, ampliar a renda dos produtores e fortalecer a cadeia cafeeira diante das mudanças climáticas.

A iniciativa inclui o Espresso Fund (Fundo Espresso), primeiro fundo global público-privado dedicado à cadeia do café, para o qual o país aprovou € 40 milhões (R$ 226,5 milhões) em contribuições entre 2025 e 2027.

Promovida pelo Ministério das Relações Exteriores e da Cooperação Internacional da Itália e pela Cassa Depositi e Prestiti (CDP), em parceria com o banco, a iniciativa pretende mobilizar pelo menos US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões) em sua fase inicial.

O lançamento da GCI aconteceu na Farnesina, sede do ministério italiano, e foi transmitido ao vivo pelo YouTube durante o evento “Estratégia Internacional da Itália para o Café: Desenvolvimento, Valor, Parcerias”, dedicado a apresentar a estratégia para o setor e fortalecer parcerias com países produtores, organizações internacionais, instituições financeiras e representantes da indústria.

Lançamento da Iniciativa Global do Café na sede do Ministério das Relações Exteriores da Itália, em Roma

Em participação ao vivo pela internet, o presidente do Grupo Banco Mundial, Ajay Banga, explicou que o propósito é ajudar os cafeicultores a obterem mais valor para seus cafés, com ganhos de produtividade e renda. “Mas também significa criar empregos além das propriedades rurais: no processamento, na logística, na indústria, nas finanças, nas exportações e no varejo”, afirmou. 

O Espresso Fund financiará estudos, assistência técnica e preparação de projetos. Uma plataforma de cofinanciamento buscará recursos públicos e privados para viabilizar as operações. Entre as frentes de atuação do fundo estão variedades adaptadas às mudanças climáticas, práticas regenerativas, rastreabilidade e capacitação dos produtores para que possam melhorar a produtividade, atender às exigências regulatórias e fortalecer conexões com o mercado.

O fundo está alinhado ao AgriConnect, principal plataforma do Grupo Banco Mundial para ampliar soluções que geram empregos e fortalecem as cadeias de valor agrícolas.

A GCI é resultado do compromisso assumido pelo G7 durante a presidência italiana, em 2024. Na cúpula de junho daquele ano, em Puglia, no sul da Itália, os líderes apoiaram uma parceria público-privada para fortalecer a sustentabilidade da cadeia cafeeira e avaliar a criação de um fundo global para o setor.

O encontro reuniu Vanusia Nogueira, diretora-executiva da Organização Internacional do Café (OIC), Giuseppe Lavazza, presidente do Comitê Italiano do Café e do Grupo Lavazza, e Andrea Illy, presidente da illycaffè. Também participaram representantes dos governos de Uganda, Quênia e Colômbia e Maurizio Martina, vice-diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Illy avaliou o lançamento como “o início da fase operacional desse sonho”, em referência à mobilização internacional pelo futuro do café. Segundo ele, agricultura regenerativa, sistemas agroflorestais e renovação dos cafezais com variedades mais produtivas e de melhor qualidade podem fortalecer a adaptação ao clima e aumentar a rentabilidade dos agricultores.

Vanusia destacou a necessidade de transformar os compromissos em ações e investimentos. “Seu sucesso dependerá de uma forte colaboração entre governos, instituições financeiras internacionais, parceiros de desenvolvimento, produtores de café e suas organizações”, afirmou.

A estratégia italiana inclui ainda o ACT Coffee, programa da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO), desenvolvido em colaboração com a OIC e parceiros do setor. Vinculado ao Plano Mattei, de cooperação italiana com a África, e ao Global Gateway, estratégia europeia de investimentos internacionais, o programa atua inicialmente na Etiópia, no Quênia, em Uganda, na Tanzânia e no Maláui.

Segundo o Banco Mundial, o café é fonte de renda para mais de 100 milhões de pessoas e um importante produto de exportação para mais de 50 países.

TEXTO Cristiana Couto

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Dinâmicas sociais no consumo doméstico de café

Por Pietro Amorim

O cafezinho faz parte da rotina do brasileiro. Mais do que uma bebida, é um vetor de sociabilidades – oferecê-la é um gesto de hospitalidade. Mas quando e como incorporamos esse hábito?

No início do século XIX, nas grandes cidades, o café era encontrado timidamente em botequins e casas de pasto. Relatos de viajantes, como os do inglês John Mawe e do francês Jean-Baptiste Debret, registram seu consumo por famílias abastadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, em refeições e festividades.

Utensílios de preparo e serviço de café em inventários de pessoas de posses também indicam a presença da bebida, ainda que como artigo de luxo. É o que mostra a tese de Rafaela Basso, Entre tabuleiros, balcões e fogões: Um estudo sobre a alimentação de rua na cidade de São Paulo e o livro Fazendas do café do Vale do Paraíba – o que os inventários revelam, organizado por Carlos Eugênio Marcondes de Moura.

A chegada da família real portuguesa e parte de sua administração ao Rio de Janeiro em 1808 demandou produtos e hábitos pouco familiares aos moradores, e a abertura dos portos, ao lado do estabelecimento da corte, contribuiu para o aumento do consumo de café.

Com a produção de café concentrada na província fluminense e já como principal produto de exportação, o Rio de Janeiro logo cresceu, dando origem a uma rica classe comercial urbana e a um contingente de pequenos proprietários, sobretudo imigrantes.

Ao longo do século XIX, referências ao café no mercado interno tornaram-se mais frequentes nos periódicos. Vendido inicialmente em moinhos e nas ruas por pessoas escravizadas, o grão ganhou destaque na segunda metade dos oitocentos com o surgimento das “fábricas de café torrado” e “fábricas de café moído”, que abasteciam cafés, hotéis, hospitais e residências.

Lojas com utensílios para café abriram. Em 1859, a loja Ao Bule Monstro anunciava “aparelhos de metal do príncipe para café e chá, inclusive xícaras e pires”, citando vários materiais de que eram feitos.

O naturalista suíço Johann Von Tschudi, em viagem ao Brasil nas décadas de 1850 e 1860, relatou que “o consumo dentro do próprio país é considerável, pois todo mundo saboreia várias vezes por dia essa bebida nacional, seja rico ou seja pobre, moço ou velho, patrão ou empregado”.

O café já não se restringia às elites. Mas todos o bebiam do mesmo jeito? Se fora de casa havia estabelecimentos voltados a públicos distintos, é razoável supor diferenças também nos lares, onde as elites preservavam formas de distinção para consumi-lo, como a etiqueta social.

A ascensão da burguesia europeia entre XVII e XVIII levou a aristocracia a adotar novas formas de diferenciação. Não bastava possuir certos objetos, mas apropriar-se deles e usá-los de modo específico. Esses códigos de distinção chegaram ao Brasil.

A ritualização do cotidiano foi mais expressiva em encontros sociais em torno da alimentação, especialmente o jantar, que se tornou demonstração de prestígio e seguiu protocolos rígidos. Esses códigos foram registrados em manuais de etiqueta e economia doméstica, livros de culinária e periódicos voltados às mulheres e à família. As publicações descreviam ambientes, refeições, utensílios e o papel de cada membro da família, orientando-os para modos “mais refinados”.

Assim, o café era servido após o jantar e a sobremesa, marcando a transição entre refeição e sociabilidade. Em O lar doméstico, de 1902, Vera Cleser descreve: “o café e os licores são levados à sala; a dona da casa, auxiliada pelas filhas, ou moças e moços de sua intimidade, serve a infusão aromática, que deve ser muito quente. O dono da casa serve os licores”.

A divisão de tarefas entre os anfitriões é clara. Como disse o gastrônomo francês Jean Anthelme Brillat-Savarin em A fisiologia do
gosto, de 1825, “a dona de casa deve sempre ter certeza que seu café é excelente, e o dono, que os licores são de primeira qualidade”.

Essa participação feminina se alinhava à construção de um ideal de mulher como boa esposa, mãe e dona de casa. O zelo cotidiano pelo lar envolvia tarefas leves, como no café da manhã. “Enquanto a criada for preparando o café, a dona da casa ou sua filha arrume as xícaras, o açucareiro, a cestinha de pão e dê tudo uma disposição agradável à vista”, ensina Vera.

A limpeza, a decoração da casa e o asseio das mesas de refeição eram fundamentais para a harmonia familiar. A casa burguesa tornou-se uma expressão de êxito econômico, profissional e familiar, como mostra Maria Homem em O palacete paulistano. Arquitetura e decoração deveriam transmitir riqueza, bom gosto e cosmopolitismo, especialmente nos ambientes onde havia tais rituais. A sala de jantar tinha étagères, cristaleiras e móveis que armazenavam e exibiam pratarias e porcelanas.

Aparelhos de chá e café tinham duas funções: a prática, ligada ao serviço da bebida; e a simbólica, como marca de distinção social e elemento decorativo. Diferentemente do “metal do príncipe” – liga de cobre e zinco citada no citado anúncio –, os materiais preferidos eram prata, porcelana e faianças.

A dona da casa também supervisionava os criados – termo genérico para trabalhadores domésticos. A crescente complexidade da cozinha e dos ritos sociais exigia vários deles, cada vez mais especializados. Em 1872, a cidade de São Paulo contabilizava 3,5 mil criados livres e 1,3 mil escravizados nessa categoria, indicando a preferência por pessoas habituadas a esses costumes, especialmente imigrantes.

Em Senhoras e criadas no espaço doméstico, Simone Andriani dos Santos investiga essa relação conflituosa. Mesmo sem integrar o núcleo familiar, os criados eram vistos com desconfiança. Os manuais recomendavam instrução e vigilância. Em O cozinheiro imperial, Constança Oliva de Lima dedicou uma seção a ensiná-los, entre outras funções, a preparar e servir café.

O serviço à americana, popular a partir do início do século XX, simplificou a dinâmica das refeições, reduzindo o número de criados. Em 1919, o Jornal das Moças instruía o copeiro a servir sopa e levar os pratos à mesa, enquanto anfitriões e convidados se serviam. Café e licores encerravam a refeição na sala de visitas.

As dinâmicas que envolviam o serviço do café variaram conforme a época, o lugar e as classes sociais. Porém, alguns elementos permanecem até hoje, como servir o café como expressão de hospitalidade e a marcante presença feminina em torno da bebida no ambiente doméstico, desde torra e moagem do grão até o preparo da bebida e a execução do serviço.

Pietro Amorim é especialista em história, sociedade e cultura pela PUC-SP e pesquisador do Museu do Café (SP).

Texto originalmente publicado na edição #92 (junho, julho e agosto de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

 

TEXTO Pietro Amorim • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Café & Preparos •

Brasileiro vence mundial amador de tiramisù na Itália

O criador de abelhas Marcos Muzzi conquistou a categoria Receita Original em Treviso após vencer a etapa nacional no São Paulo Coffee Festival, em junho

Uma sobremesa tradicional italiana à base de café, mas com um toque bem brasileiro. Foi essa combinação que levou o paulistano Marcos Muzzi a vencer a categoria Receita Original da Tiramisù World Cup 2026, competição destinada a confeiteiros amadores. A final aconteceu no domingo (11), em Treviso, na Itália. 

Criador de abelhas e confeiteiro amador, Muzzi havia conquistado o título nacional na final brasileira que aconteceu em 28 de junho, durante o São Paulo Coffee Festival, na Bienal do Ibirapuera. A vitória garantiu sua classificação para a semifinal mundial. O circuito brasileiro também teve seletivas em Bento Gonçalves (RS), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP). 

Na categoria Receita Original da premiação mundial, os participantes precisaram utilizar os seis ingredientes clássicos da receita: mascarpone, ovos, açúcar, biscoitos savoiardi — conhecidos por aqui como biscoitos de champanhe —, café e cacau. A conquista, aliás, não é a primeira do Brasil nessa modalidade. Em 2023, a paulistana Patrícia Guerra também levou a competição.

Além do título, Muzzi chegou à semifinal da categoria Receita Criativa, com uma versão da sobremesa que incorporou pé-de-moleque e doce de leite.

A décima edição do evento reuniu 320 participantes de 33 países. A competição também contou com 130 jurados, entre confeiteiros amadores, especialistas e chefs profissionais.

TEXTO Redação

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Espresso #93 debate o futuro do café diante da emergência climática

Às vésperas dos 300 anos do café no Brasil, a cafeicultura começa a construir sua próxima agenda global. Esta edição, que circula durante a Semana Internacional do Café, lança um olhar sobre alguns dos caminhos que podem definir esse futuro.

Na entrevista, Vanusia Nogueira, primeira mulher e primeira brasileira a dirigir a Organização Internacional do Café, aborda mudanças climáticas, novos mercados consumidores, inovação e a necessidade de aproximar governos, empresas e instituições para enfrentar os desafios do setor. A reportagem de sustentabilidade, produzida pela 5th Wave, mostra como a cadeia pode responder à emergência climática e liderar mudanças capazes de conciliar ecologia, economia e equidade.

A edição acompanha também transformações já em curso. Mostramos como cresce o número de cafeicultores que criam marcas próprias para agregar valor à produção e ampliar sua renda, e como a revisão de protocolos tradicionais procura atualizar a linguagem usada para avaliar e comunicar a qualidade do café. Viajamos ainda ao Panamá para contar como o gesha projetou uma pequena origem entre as mais valorizadas do mundo.

Boa leitura,
Equipe Espresso

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Seca eleva prêmios do café da América Central ao maior nível em três anos

Oferta de arábica pode cair mais que o previsto em Honduras e Guatemala, que concentram dois terços da produção da região

Por Reuters (Londres e Cidade do México)

Os prêmios pagos pelo café arábica da América Central atingiram o maior nível em cerca de três anos. A alta — o prêmio é o valor adicional pago em relação à cotação de referência na bolsa internacional — reflete os efeitos da seca associada ao El Niño, que teve seu pico entre julho e agosto no chamado Corredor Seco, faixa que atravessa Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicarágua.

Marcada por estiagens prolongadas, muitas vezes seguidas de chuvas intensas, a região enfrenta também uma crise na produção de alimentos. Agências humanitárias alertaram para o risco de insegurança alimentar depois que agricultores de subsistência e pequenos produtores – entre 3 milhões e 5 milhões de pessoas – sofreram fortes perdas nas lavouras de feijão e milho. Por ser uma cultura perene, o café tende a ser menos afetado pela seca, mas sua oferta também está sob pressão.

Os prêmios refletem diferenças de qualidade no café, mas também a relação entre oferta e demanda. Especialistas afirmam que os valores elevados na América Central, responsável por 15% da oferta global de arábica, estão estabelecendo um piso para os preços futuros do café no mercado internacional.

Dados da Reuters mostram que os prêmios pagos pelos cafés dos quatro países afetados estão nos maiores níveis, ou próximos deles, em mais de três anos.

Previsões iniciais de produção de arábica em Honduras e na Guatemala para 2026/27 apontam queda de 7% e 10%, respectivamente. Os dois países, responsáveis por dois terços dos grãos da América Central, afirmam, porém, que as perdas podem ser maiores.

“A América Central está excepcionalmente seca. [Isso] pode ser nosso primeiro indício dos possíveis efeitos de um El Niño severo”, afirma Marc Schonland, consultor independente de café.

TEXTO Redação

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SIC 2026 terá Summit dedicado às mulheres do agro e do café

Programação acontece no último dia do evento e integra as ações do Ano Internacional da Mulher Agricultora

Sandra Lelis, do Sítio Caminho da Serra, em Araponga (MG), que estará no talk “Excelência que inspira: as histórias das produtoras de cafés campeões”

A Semana Internacional do Café (SIC) deste ano terá, entre as novidades, o Summit Mulheres, programação temática dedicada à atuação feminina na cafeicultura e no agronegócio. O encontro acontece em 13 de novembro, terceiro e último dia do evento, a partir das 10h, na Arena SIC, no Expominas, em Belo Horizonte (MG).

A iniciativa, composta por palestras, painéis e talks com produtoras, pesquisadoras e lideranças do agro e do café, integra as ações do Ano Internacional da Mulher Agricultora, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) para 2026. A mobilização busca dar visibilidade à participação das mulheres nos sistemas agroalimentares e ampliar seu acesso a recursos como terra, financiamento, tecnologia, capacitação e espaços de decisão.

A palestra magna de abertura do Summit, “As mulheres que estão transformando o agro brasileiro”, será feita por Tania Zanella, primeira mulher a assumir a presidência-executiva do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), que reúne e representa as cooperativas brasileiras.

Entre os destaques do dia está o painel “Histórias e lideranças femininas do grão à xícara”, às 11h40, com Isabela Raposeiras, fundadora do Coffee Lab, em São Paulo; Poliana Perrut, cafeicultora e engenheira agrônoma que atua com assistência técnica nas Matas de Rondônia; e Mariselma Sabbag, presidente da Aliança Internacional das Mulheres do Café (IWCA Brasil).

Às 14h20, produtoras premiadas no Coffee of the Year participam do talk “Excelência que inspira: as histórias das produtoras de cafés campeões”. Participam Sandra Lelis, do Sítio Caminho da Serra, em Araponga (MG), vencedora na categoria arábica em 2017 e em fermentação induzida em 2021; Carolinna Bridi Gomes, da Fazenda São Bento, em Santa Teresa (ES), campeã entre os canéforas em 2025; e Larissa Sodré de Paula, do Sítio Café da Sophia, em Alto Jequitibá (MG), vencedora na categoria arábica em 2022.

A programação inclui ainda painéis sobre ciência, tecnologia e sustentabilidade; sucessão, gestão e empreendedorismo; e os impactos de acontecimentos globais sobre os negócios do café.

Serviço
Semana Internacional do Café
Quando: 11 a 13 de novembro, das 10h às 19h
Onde: Expominas (avenida Amazonas, 6.200 — Gameleira — Belo Horizonte, MG)
Mais informações e credenciamento: https://semanainternacionaldocafe.com.br/

TEXTO Equipe Espresso

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“Precisamos mudar a pesquisa do café de uma lógica de projetos para uma lógica de resultados”

O novo chefe-geral da Embrapa Café, Rodolfo Osorio de Oliveira, defende uma revisão do modelo de gestão da pesquisa cafeeira, maior previsibilidade dos recursos do Funcafé e programas permanentes de capacitação para aproximar a ciência do campo

Por Lívia Andrade

“O potencial da cafeicultura está no Brasil inteiro”. Esta frase define o desafio que Rodolfo Osorio de Oliveira, novo gestor da Embrapa Café, tem pela frente. Para isso, o engenheiro agrônomo quer mudar o modelo que orienta a pesquisa cafeeira brasileira, hoje focado em projetos, para uma lógica baseada em resultados. Seu foco é alavancar a sustentabilidade e o desenvolvimento de territórios por meio de um programa de capacitação continuada para técnicos, responsáveis por disseminar o conhecimento porteira adentro. Entre os territórios, destaca-se o Nordeste, onde estudos recentes identificaram potencial para a cafeicultura em sete dos nove estados da região.

A seguir, a entrevista com Oliveira, concedida por videoconferência a partir de Brasília.

Espresso: Sua chegada é vista como um novo ciclo para a Embrapa Café. O que muda a partir daqui?

Rodolfo Osorio de Oliveira: Quero transformar a Embrapa Café numa referência forte em café dentro da própria empresa e para o país. Vou aproveitar os 43 centros de pesquisa que a instituição tem, com equipes que trabalham com genética, solos e agroindústria, para contribuir com a cafeicultura sustentável e resiliente às mudanças climáticas, sempre olhando os pilares econômico, social e ambiental. Mas é preciso fortalecer o [pilar] econômico. Se o produtor não tiver renda, fica difícil exigir mais dele. Hoje existem tecnologias para arábica e canéfora que permitem produzir bem, ganhar dinheiro e, ao mesmo tempo, reduzir impactos ambientais e emissões de gases de efeito estufa.

E: O que é a Embrapa Café e qual a relação dela com o Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café (CBP&D/Café)?

R: O consórcio é um acordo de cooperação técnica, criado em 1997, que reúne instituições estaduais de pesquisa [Epamig, IAC, Incaper, IDR-PR e Pesagro-Rio], universidades [UFLA, UFV e Uesb], a Embrapa e o MAPA. Essa cooperação surge para organizar a pesquisa cafeeira após a extinção do Instituto Brasileiro do Café (IBC), em 1990. Neste arranjo, a Embrapa faz a gestão, o repasse de recursos para pesquisa e é responsável por uma estratégia nacional de desenvolvimento da cafeicultura, garantindo continuidade às pesquisas.

E: Em quase três décadas de atuação, quais as principais entregas do CBP&D/Café?

R: A principal foi a formação de equipes técnicas qualificadas para a cafeicultura. Uma parte dos pesquisadores que atuam com café nas instituições brasileiras passou por programas apoiados pelo consórcio. Além da formação de pessoal, o consórcio contribuiu para o desenvolvimento de diversas cultivares de café arábica adaptadas às diferentes regiões produtoras, com maior produtividade e resistência a altas temperaturas, pragas e doenças.

Outro avanço foi a criação de um ambiente de trabalho em rede entre instituições de pesquisa, fortalecendo a cooperação, a troca de conhecimento e a busca conjunta por recursos.

E: Como são definidos os temas da agenda de pesquisa?

R: Os temas de pesquisa são avaliados e aprovados por um comitê técnico de representantes da cadeia no CDPC. O consórcio apresenta uma proposta inicial de temas, construída a partir de consultas ao próprio setor, buscando identificar os obstáculos e demandas da cafeicultura. A partir disso, são estruturadas as agendas de pesquisa, que têm funcionado por meio de editais com duração média de quatro anos.

E: As pesquisas do CBP&D/Café são financiadas por recursos do Funcafé. Como tem sido o financiamento das pesquisas nos últimos anos?

R: Não existe pesquisa sem dinheiro e, principalmente, sem previsibilidade. Há uma tendência de queda nos repasses do Funcafé para pesquisa, algo que preocupa o consórcio e a Embrapa. Mais do que o volume de recursos, o problema é a instabilidade dos repasses, já que pesquisa é um processo de médio e longo prazo. Um projeto dura pelo menos quatro anos; no caso do desenvolvimento de cultivares, pode levar até 25 anos. Prefiro trabalhar com menos recursos, mas com garantia e previsibilidade ao longo do tempo. Os projetos são planejados para ciclos de quatro anos, mas os recursos dependem do orçamento anual do MAPA, que varia de ano para ano. Ou seja, o planejamento da pesquisa é de médio prazo, enquanto a lógica do financiamento é de curto prazo. Isso não é má vontade do ministério nem do consórcio, mas uma dificuldade do modelo atual.

Também é preciso olhar para os próximos 20 anos, entendendo como as mudanças climáticas vão afetar a cafeicultura, especialmente a do arábica, mais sensível ao calor. O consórcio administra cerca de 100 projetos. Talvez seja necessário discutir se não há projetos demais e entregas de menos, buscando direcionar melhor os recursos limitados.

Precisamos de mais recursos e de uma mudança na gestão das pesquisas, saindo de um modelo focado em projetos para uma lógica baseada em resultados, que permita direcionar melhor os investimentos e concentrar esforços naquilo que a ciência pode resolver no médio e longo prazo.

E: Uma de suas propostas é fortalecer a Embrapa Café por meio de novas parcerias. Como isso deve ocorrer?

R: O primeiro passo é fortalecer as parcerias que a Embrapa Café já mantém no consórcio – iniciamos conversas para melhorar a eficiência e ampliar os ganhos dessas relações. Também é preciso aproximar a Embrapa de outros elos da cadeia, especialmente da indústria e dos consumidores. Temas como sustentabilidade e rastreabilidade vêm justamente das demandas de quem consome café. Por isso, estamos em diálogo com a ABIC e a Abics para buscar soluções para os desafios da cadeia.

Outra frente é usar o café como instrumento de desenvolvimento de territórios. Queremos fortalecer parcerias com grupos de agricultores, cooperativas e federações para desenvolver programas de inovação e capacitação continuada em regiões com grande potencial de crescimento, como o Norte.

E: Entre os temas que mencionou – territórios, rastreabilidade e sustentabilidade –, qual é hoje a prioridade?

R: Sustentabilidade e desenvolvimento de territórios. Sustentabilidade significa produzir café com qualidade, rentabilidade e respeito às questões ambientais e sociais, gerando prosperidade ao cafeicultor. Para isso, a ciência precisa sair do laboratório e chegar ao campo. A prioridade é criar programas de capacitação continuada para técnicos e profissionais que trabalham com os produtores, com metodologias adaptadas às diferentes realidades da cafeicultura brasileira.

Também queremos criar espaços de interação entre pesquisadores, produtores e mercado. Esse trabalho passa mais por construção conjunta do que pela imposição de modelos prontos. Temos muito material genético disponível e é preciso entender como ele se comporta em novas condições climáticas e regiões. Já estamos iniciando testes de adaptação de robustas amazônicos em diferentes regiões do Ceará e acompanhando experiências em locais antes improváveis para o plantio de café, como áreas próximas ao litoral do Nordeste.

E: Onde estão hoje as novas fronteiras da cafeicultura brasileira?

R: O potencial da cafeicultura está no Brasil inteiro. Rondônia é um exemplo disso. O robusta já existia no estado, mas era visto como um café de baixa qualidade. A partir da seleção de materiais genéticos identificados pelos próprios produtores, a Embrapa ajudou a desenvolver o que hoje é reconhecido como um café amazônico brasileiro com identidade própria. Pesquisas mostram ainda que, em Rondônia, um hectare de café pode sequestrar mais carbono do que emitir.

Os robustas amazônicos estão sendo levados para Amazonas, Pará, Roraima e Acre. Além da adaptação climática, apresentam diferenciais de mercado que ajudaram a mudar a percepção sobre o canéfora.

Nossos primeiros levantamentos na região Nordeste, por exemplo, identificou potencial em sete dos nove estados da região, mas com cenário diferente. Os cafezais do Maciço de Baturité, no Ceará, existem há mais de 200 anos e eram cultivados sob a sombra da Mata Atlântica. Quando o IBC incentivou a substituição desse modelo pelo sistema a pleno sol, boa parte da produção desapareceu. Os produtores que permaneceram mantiveram uma cafeicultura com valor histórico, ambiental e turístico. A proposta é desenvolver modelos em que o café seja parte de uma estratégia de turismo e valorização territorial, capaz de gerar renda mesmo sem altas produtividades.

E: Que oportunidades existem para o aproveitamento do café além do consumo como bebida?

R: O Núcleo de Estudos Avançados do Café (NEAC), uma estrutura em fase de implantação, vai ser um laboratório voltado à química e bioquímica de alimentos, com foco em biomoléculas do café e no desenvolvimento de produtos de alto valor agregado, como fármacos e alimentos nutracêuticos.

O NEAC trabalha com economia circular, ao aproveitar subprodutos e cafés impróprios para consumo, como grãos verdes ou ardidos.

Já existem, por exemplo, pesquisas [em fase inicial] da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia que conseguiram isolar uma molécula com potencial analgésico, por exemplo.

O projeto, prioritário para a Embrapa, conta com recursos do Programa de Aceleração e Crescimento [PAC]. A ideia é mostrar aos potenciais parceiros o que a Embrapa Café pode agregar aos projetos deles e, a partir disso, ampliar a captação de recursos nacionais e internacionais, especialmente junto a instituições com histórico de parceria com a Embrapa.

Oliveira com a cafeicultora Cristiane Zancanaro durante a Agrobrasília 2026

E: Qual seria o impacto de uma molécula do café com potencial analgésico chegar ao mercado?

R: É importante frisar que a pesquisa está na sua fase inicial. Se essa molécula se mostrar viável primeiro em laboratório, e depois em escala, o impacto pode ser enorme para a cafeicultura. Mesmo porque podem ser usados cafés verdes ou ardidos para a extração dessas substâncias, o que poderia mudar a lógica de parte do setor. Por isso, é um tema que precisa ser tratado com cuidado e analisado em profundidade. O potencial de disrupção é grande para a pesquisa e o mercado de café.

E: Como pretende revitalizar os bancos de germoplasma de café?

R: Para ser um Banco Ativo de Germoplasma (BAG), não basta manter plantas ou sementes guardadas. É preciso conservar o material genético, seja in situ, com plantas em campo, ou ex situ, com sementes em câmaras frias ou materiais preservados em cultura de tecidos. Também é preciso registrar, catalogar, caracterizar geneticamente e disponibilizar esse material para intercâmbio entre programas de pesquisa.

Muitas instituições do consórcio tem coleções genéticas de café, mas nem todas são BAGs, pois não passaram por todo esse processo. Hoje, os principais desafios são o registro e a gestão. Manter um BAG custa caro, exige equipe, estrutura e recursos contínuos. Perder esse material significa perder parte do futuro da cafeicultura, principalmente a possibilidade de desenvolver plantas mais resistentes a pragas, doenças e mudanças climáticas.

Uma das propostas é integrar o café à estrutura nacional de conservação genética da Embrapa, organizando primeiramente os materiais nesse sistema e, futuramente, ampliando a estrutura para funcionar como um banco de segurança para o país, recebendo cópias de materiais genéticos de outras instituições. É um tema sensível, ainda em discussão.

E: Na sua avaliação, o melhoramento genético deve priorizar novas variedades de arábica resilientes ao calor, o potencial dos canéforas ou espécies raras de café?

R: O melhoramento genético nunca saiu de pauta. Quanto mais tempo um programa permanece ativo, mais informação e dados ele acumula. Os canéforas vêm ganhando importância pela maior resistência a altas temperaturas e ao déficit hídrico em comparação ao arábica, e a experiência de Rondônia com robustas amazônicos especiais abriu um mercado impensável anos atrás.

Os programas de melhoramento vão continuar trabalhando com arábica, buscando materiais mais resistentes ao calor, a pragas e a doenças. Ao mesmo tempo, existe esse movimento de testar e adaptar materiais em novas regiões, aproveitando variedades desenvolvidas para entender como se comportam em áreas próximas ao mar ou em regiões de altitude por exemplo.

Existe também um olhar atento a outras espécies, como Coffea liberica e Coffea stenophylla. São materiais pouco estudados no Brasil, usados como fonte de resistência genética, mas com potencial diante da crescente demanda mundial por cafés raros. São plantas com menor produtividade, mas que podem atingir alto valor agregado.

Não se trata de substituir arábica ou canéfora, mas de trabalhar várias frentes, como adaptação a novas condições de cultivo e abertura de novos mercados para cafés diferenciados.

E: O que as novas fronteiras cafeeiras podem ensinar às regiões tradicionais?

R: Uma das lições é a necessidade de maior integração. Organizações de produtores, instituições de ensino, assistência técnica, extensão rural, crédito e governo precisam trabalhar de forma integrada, com planejamento para cada território. Existe muita gente fazendo a mesma coisa. Rondônia é um exemplo interessante desse esforço conjunto – construiu um planejamento estratégico para a cafeicultura com entidades públicas e privadas, para entender como a sinergia entre instituições pode gerar desenvolvimento eficiente, beneficiando os produtores, a cadeia e o estado, com geração de riqueza e arrecadação.

Texto originalmente publicado na edição #92 (junho, julho e agosto de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Lívia Andrade

Barista •

Jacques Carneiro conquista o tricampeonato brasileiro de Cup Tasters

Degustador da Unique Cafés venceu pela segunda vez seguida e vai representar o Brasil no Mundial de 2027

Jacques Carneiro e sua esposa

Jacques Pereira Carneiro conquistou pela terceira vez o Campeonato Brasileiro de Cup Tasters. Cofundador e diretor de inovação da Unique Cafés, de Carmo de Minas (MG), ele venceu a final realizada no sábado (3), em Reduto, na Zona da Mata mineira. Bruno Megda, degustador de Cabo Verde (MG), ficou em segundo lugar, e José Augusto Naves, da Naves Comércio de Café, de Varginha (MG), em terceiro.

Com o título, Carneiro será o representante brasileiro no World Cup Tasters Championship de 2027, ainda sem data e local definidos pela Specialty Coffee Association (SCA).

Duas vitórias no mesmo ano

Organizado pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), o Campeonato Brasileiro de Cup Tasters aconteceu entre 1º e 3 de outubro, durante a primeira edição do Arábica Coffee Festival. Na final, Carneiro identificou corretamente seis dos oito conjuntos de cafés apresentados, em 7 minutos e 28 segundos.

A competição testa a capacidade sensorial dos provadores por meio de triangulações. Em cada uma, o competidor recebe três xícaras, sendo duas delas com o mesmo café. O desafio é identificar a xícara diferente. O número de acertos é o principal critério de classificação e, em caso de empate, vence quem conclui a prova em menos tempo.

Em março deste ano, Carneiro havia vencido a edição anterior do campeonato, durante o Festival Mantiqueira de Minas, em Carmo de Minas (MG). O resultado garantiu a ele a vaga no Mundial realizado dois meses depois, em Bangcoc, na Tailândia.

“Desta vez, estava mais solto e conhecedor das regras para poder definir estratégias diferentes para cada rodada”, disse Carneiro sobre a experiência de disputar duas edições do campeonato nacional no mesmo ano.

O mineiro soma agora três títulos nacionais. O primeiro, conquistado em 2006, o levou ao Mundial de 2007, quando terminou em terceiro lugar – a segunda melhor posição de um brasileiro na história da competição. A melhor veio em 2024, quando Dionatan de Almeida, de Três Pontas (MG), tornou-se o primeiro brasileiro campeão mundial de Cup Tasters, em Chicago, nos Estados Unidos.

Para o Mundial de 2027, Carneiro terá mais tempo para se preparar. “Quero alcançar uma boa colocação”, afirma o campeão, que pretende dedicar cerca de cinco horas semanais ao treinamento sensorial até a competição.

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A improvável primeira vítima do Super El Niño

Por Gustavo Magalhães Paiva

Já há muito tempo, não é segredo para ninguém que o El Niño está ativo em intensidade muito alta e, provavelmente, será o mais forte da história. Por mais que ainda seja cedo para estabelecer uma relação causal direta com o fenômeno, parece que os dois principais oceanos do planeta já estão em território desconhecido, com muitas ocorrências climáticas excepcionais desde a confirmação do fenômeno. 

Para citar apenas o Brasil, tivemos vendavais e tornados no Paraná, o setembro mais chuvoso da história em São Paulo e temperaturas significativamente abaixo da média para o período em Minas Gerais.

E a questão que vai pautar o mercado nos próximos meses é o tamanho do impacto desta singularidade climática na vida dos produtores e como ela afetará o custo de vida dos consumidores. 

Pelo menos, entre todos os territórios produtores de café, já temos uma vítima clara e inesperada: o Havaí. Por mais que o arquipélago seja absolutamente irrelevante em termos de consumo, não é o caso quando analisamos a localização do estado norte-americano.

Isolado no meio do Pacífico Central, o Havaí tem servido de exemplo da imensa instabilidade climática que o Pacífico enfrenta neste momento. Ao final do mês de setembro, três furacões e uma tempestade tropical já haviam golpeado o pequeno território. Além disso, considerando todo o Pacífico, foram identificados 21 sistemas de tempestade, 20 tempestades tropicais e 10 furacões, dos quais sete de grande intensidade.

Se a tímida produção de café do local está comprometida, isso serve de aviso para alguns grandes produtores que iniciarão em breve suas colheitas e são diretamente influenciados pelos padrões climáticos do Oceano Pacífico: Vietnã, Colômbia, México, Peru, Indonésia, entre outros.

Enquanto isso, do outro lado do continente americano, o Oceano Atlântico também já vem apresentando um padrão climático excêntrico, mas em sentido oposto ao que ocorre no Pacífico. Pela primeira vez na história, desde que equipamentos científicos confiáveis foram instalados ao longo do oceano, nenhum furacão se formou até o início de outubro. E, segundo as previsões para as próximas semanas, nenhum furacão deve se formar. 

A cada semana, cresce a possibilidade de termos uma inédita temporada sem absolutamente nenhum furacão. Considerando que, até agora, foram apenas oito tempestades tropicais, sistemas de intensidade menor do que o furacão de categoria 1.

Se a calmaria singular do Atlântico Norte traz boas notícias aos seus moradores, no Atlântico Sul, as anomalias já podem representar prejuízos no campo e nas cidades. Alguns deles são os mencionados no Brasil, mas que também atingem outros países do Atlântico Sul, como o Uruguai, que teve o segundo inverno mais chuvoso de sua história.

Restringindo-se à produção de café brasileira, já se pode dizer que o pegamento da florada é incerto. Após a floração, houve muitas chuvas nas zonas cafeeiras e foram registradas temperaturas abaixo do ideal em vários estados. Mas o que virá pela frente é um grande mistério, pois, logo após o fim das chuvas, altas temperaturas já foram registradas nas zonas produtoras. 

Em um contexto de queda de preços, estimativas colocam a última safra brasileira entre as mais altas dos últimos tempos, e várias fontes confiáveis apontam para um recorde histórico. Portanto, uma nova safra recorde pode deprimir ainda mais os valores pagos ao produtor e pressionar a classe média cafeeira tanto no Brasil quanto no exterior.

Por outro lado, um impacto profundo, causado pelo fenômeno inédito e excepcionalmente intenso, deve levar os preços a um novo patamar. Tais impactos afetariam uma ou mais colheitas no futuro, em um mercado que acredita nas grandes produções brasileiras, mas ainda não repôs o próprio estoque. Além disso, o El Niño tende a afetar toda a sociedade, atingindo o ambiente facilitador de diversos cultivos agrícolas. 

Mas a verdadeira resposta ainda demorará alguns meses para aparecer. Provavelmente, uma parte dela será dada ao final desta primavera, e o restante, no final do verão, para grande proveito dos especuladores, que nada plantam, nada produzem e quase tudo colhem. 

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café. 

TEXTO Gustavo Magalhães Paiva • FOTO Luisa Gonzalez