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Os desafios da instável Etiópia

Por Gustavo Magalhães Paiva

A Etiópia, berço do café mundial e atualmente quinta maior produtora do grão no globo, conseguiu avançar na cafeicultura nos últimos anos, apesar de enfrentar grandes desafios internos e externos.

O país é um grande mosaico de etnias, línguas e culturas diversas. O café é cultivado em várias áreas do território, tornando-se parte crucial da identidade e até mesmo da religião local, majoritariamente cristã ortodoxa. Sendo, portanto, um dos poucos fatores que as diferentes culturas guardam em comum.

Nos últimos anos, a produção tem se mantido segura e crescente devido ao crescimento do consumo interno e à melhora no acesso dos cafeicultores a assistência técnica e insumos, mas também principalmente por uma estabilidade política e econômica que permitiu que estes fatores se desenvolvessem.

Nos últimos dois meses, porém, a frágil estabilidade tem dado sinais de esgotamento, trazendo incertezas para o país no momento em que os produtores se preparam para colher o café.

É praticamente impossível resumir em poucas palavras as raízes históricas do conflito, de suas alianças e interesses. Mas é importante mencionar que a crise mais recente, na região do Tigray, havia sido resolvida através do Acordo de Pretória em novembro de 2022, um tratado de paz entre a milícia Frente Popular de Libertação do Tigray (TPLF) e o governo etíope.

Em setembro, esse mesmo acordo foi totalmente rompido quando a milícia do Tigray lançou ofensivas e tomou as duas maiores cidades da região, fazendo alianças com outras milícias regionais como as de Oromia e Afar.

As forças paramilitares regionais buscam engajar a população contra o governo central por meio da internet, canalizando a insatisfação com a economia. A Etiópia é totalmente dependente da importação de combustíveis fósseis, e a alta dos preços internacionais trouxe consequências para a economia, gerando inflação e aumento do desemprego.

Oromia é a região vizinha à capital Adis Abeba, representando 41% da economia e cerca de um terço da população total da Etiópia. Também é o território de maior extensão do país e concentra a fatia mais ampla da produção de café, abrigando inclusive a maior cooperativa do grão no mundo em número de cafeicultores associados: mais de 520 mil membros, segundo estimativas próprias.

Afar não conta com produção de café, mas é uma região chave para o comércio exterior do país, já que faz divisa com o Djibouti, por onde passa praticamente todo o volume de exportação e importação da nação africana.

A instabilidade também provém de conflitos e interesses divergentes em relação aos países vizinhos. A Etiópia esteve em guerra com Eritreia e Somália nas últimas décadas e possui uma rivalidade histórica com Sudão e Egito. O governo de Adis Abeba também acusa os vizinhos de financiar, treinar e fornecer equipamentos às milícias rebeldes.

No caso egípicio, as animosidades se reacenderam por conta da construção de uma barragem no Nilo pelo governo etíope, o que reduziu o fluxo da água do rio para seus vizinhos.

No Sudão, por outro lado, além da disputa pela barragem, existe também uma concorrência por terras férteis e com potencial de exploração de terras raras, localizadas na fronteira entre os dois países.

Por último, mas não menos importante, a Etiópia fechou um acordo com a província rebelde da Somalilândia para recuperar o seu acesso ao mar. Em troca de reconhecimento formal de sua independência, o Estado, hoje apenas parcialmente oficializado, aceitou ceder uma porção do seu litoral para que a Etiópia pudesse construir um porto e escoar a sua produção.

Nos últimos anos, a Etiópia vem tentando transmitir a imagem de um país moderno e diverso. Uma nação que, ao mesmo tempo em que preserva suas tradições, se apresenta como ponte para uma África soberana e aberta ao mundo. Nesse contexto, o café talvez seja o maior ativo de soft power que o país pode oferecer. E talvez por isso mesmo ele tenha se desenvolvido tão bem nos últimos anos. No curto prazo, porém, o desafio de manter a unidade e a integridade de um território tão diverso pode impactar, e muito, a produção de um dos países-chave para o setor.

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Magalhães Paiva

Café & Preparos •

Mantiqueira de Minas conquista as três categorias do Cup of Excellence 2026

Gesha vence nas três modalidades da 27ª edição do concurso, que premiou 27 cafés arábicas neste sábado (31), em São Paulo

Integrantes do Sítio Nossa Senhora das Candeias, em Cristina (MG), vencedores da categoria via seca (natural), mostram troféus e certificado

Por Cristiana Couto

A Mantiqueira de Minas reuniu os três campeões da 27ª edição do Cup of Excellence, anunciados neste sábado (31), no Espaço Bisutti Cardoso de Melo, em São Paulo.

Os cafés vencedores, um em cada categoria — experimental, via úmida e via seca —, são da variedade gesha: dois produzidos em Cristina e um em Conceição do Rio Verde. Criada no Brasil em 1999, a competição reconhece os melhores cafés especiais brasileiros da espécie arábica.

Na categoria experimental, destinada a cafés submetidos a processos inovadores e/ou de fermentação induzida (introduzida em 2023), o título ficou com a Fazenda Rio Verde, do grupo Ipanema Agrícola, em Conceição do Rio Verde. O lote alcançou 92,25 pontos, a maior nota desta edição. A propriedade repetiu a vitória de 2025 na categoria, conquistando o bicampeonato consecutivo.

Na via úmida, que reúne cafés despolpados, desmucilados ou CDs (cerejas descascados), o vencedor foi Cleverson Daniel da Silva, do Sítio Vargem Alegre, em Cristina, com 91,31 pontos. O município também conquistou o primeiro lugar na via seca, destinada aos cafés naturais (secos com casca): Hilda Cândida da Silva, do Sítio Nossa Senhora das Candeias, obteve 91,29 pontos.

Para Silvio Leite, head judge do concurso, o gesha se destaca pela nitidez de seu perfil sensorial, com notas florais, como jasmim, e um toque de hortelã que aparecem rapidamente na prova. A expressão dessas características, porém, depende do local de cultivo. “Não é em todos os lugares que ele entrega esse sabor”, explicou à Espresso. Na Mantiqueira de Minas, ele destaca o resultado da Fazenda Rio Verde, cujo café reúne a doçura e as notas florais que caracterizam a variedade.

Esse potencial vem acompanhado de desafios no campo. Segundo Leite, o gesha tem produtividade muito baixa, requer sombra e exige cuidados específicos. A colheita no momento certo, com frutos de elevada doçura, e o processamento adequado são fundamentais para extrair o máximo de qualidade de cada grão.

Já Vinícius Estrela, diretor-executivo da BSCA (Associação Brasileira de Cafés Especiais), destacou à Espresso a maior complexidade dos cafés e a proximidade entre as notas dos concorrentes. “É sinal de que a gente tem um conjunto de produtores que vem se destacando pela excelência”, avaliou. Para ele, o resultado mostra que a qualidade deixou de estar concentrada em poucas fazendas e reflete a construção de uma comunidade capaz de oferecer a diversidade de cafés que os compradores internacionais buscam no Brasil.

A cerimônia também homenageou a Orfeu Cafés Especiais com o título Legend of Excellence (Lenda da Excelência), que reconhece a consistência na produção de cafés de alta qualidade e o legado para a cafeicultura. Ricardo Madureira, CEO da empresa, recebeu o prêmio das mãos de Luiz Paulo Dias Pereira Filho, homenageado na edição anterior.

A novidade de 2026 foi a criação do Prêmio Silvio Leite, dedicado aos classificadores de café e batizado em homenagem ao especialista que estruturou tecnicamente o Cup of Excellence desde sua primeira edição. “Temos de 2 a 3 mil deles no Brasil”, disse Leite, referindo-se a esses profissionais.

Os primeiros contemplados foram Ruhan Corrêia e Karoline Pereira, os dois juízes nacionais mais calibrados, que integraram o júri nacional e internacional desta edição. A premiação inclui uma viagem para que eles atuem como jurados no Cup of Excellence de Honduras, em 2027.

Nesta edição, o concurso recebeu 641 amostras, das quais 150 foram selecionadas para avaliação na fase nacional. Da fase nacional, avançaram à etapa internacional 40 lotes de Minas Gerais (32), Bahia (cinco) e São Paulo (três), distribuídos por oito regiões produtoras. O Cerrado Mineiro, com 14 lotes, e a Mantiqueira de Minas, com 12, concentraram a maior parte dos classificados, seguidos pela Chapada Diamantina (cinco), Região Vulcânica (quatro), Café da Canastra (dois), Caparaó, Matas de Minas e Sudoeste de Minas (um cada). Confira a lista dos 40 classificados para a etapa internacional.

Os 27 cafés premiados, com notas iguais ou superiores a 87 pontos após avaliações dos júris nacional e internacional, seguem para o leilão virtual internacional do Cup of Excellence, marcado para 10 de dezembro. No Brasil, o concurso é realizado pela BSCA, em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e a Alliance for Coffee Excellence (ACE).

Cafezal •

Concurso Coffee of the Year anuncia amostras classificadas de 2026

Selecionados entre 477 amostras de trinta regiões produtoras, grãos serão provadas por compradores nacionais e internacionais e pelo público durante a SIC, em novembro

O Coffee of the Year (COY) anunciou nesta quinta-feira (29) os cafés brasileiros classificados para a etapa final da premiação. São 156 arábicas e 31 canéforas selecionados por um júri de Q-Graders e R-Graders entre 478 amostras de trinta regiões cafeeiras. Os grãos seguem para as salas de cupping da 14ª Semana Internacional do Café (SIC), de 11 a 13 de novembro, em Belo Horizonte (MG), onde poderão ser provados e negociados por compradores nacionais e internacionais. Veja aqui a lista completa.

Criado em 2012, o concurso nasceu para apresentar cafés de alta qualidade ao mercado e dar visibilidade aos produtores e às regiões de onde vêm. Ao longo destes anos, ajudou a tornar o Caparaó conhecido pelos arábicas especiais, e foi pioneiro na valorização dos canéforas – robustas amazônicos de Rondônia e conilons do Espírito Santo –, além de ter premiado regiões tradicionais, como Cerrado Mineiro, Alta Mogiana e Matas de Minas. Essa valorização já se traduziu em negócios expressivos: cafeicultores consagrados já receberam ofertas de até R$ 10 mil por saca em edições passadas. 

Neste ano, a SIC espera receber 40 compradores de mais de 20 países, além da visita de cerca de 60 torrefadores brasileiros nas Salas de Cupping e Rodadas de Negócios durante os três dias da feira, permitindo aos profissionais conhecer os cafés da safra e estabelecer contato com os produtores. A expectativa é que a geração de negócios com as vendas de cafés alcance R$ 100 milhões.

Na etapa decisiva da premiação, os dez arábicas e os cinco canéforas mais bem avaliados serão servidos pelo método filtrado, em garrafas térmicas, para degustação às cegas e votação dos visitantes. O voto popular será incorporado à avaliação final, que definirá os campeões de cada espécie.

O anúncio dos vencedores e a premiação acontecem em 13 de novembro, às 15h, no Grande Auditório do Expominas.

Semana Internacional do Café
Quando: 11 a 13 de novembro, das 10h às 19h
Onde: Expominas (avenida Amazonas, 6.200 — Gameleira — Belo Horizonte, MG)
Mais informações e credenciamento: https://semanainternacionaldocafe.com.br/

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Cafeteria & Afins •

Tostato Specialty Coffees – Bréscia (Itália)

A visita foi feita numa manhã fria de segunda-feira, com o termômetro marcando 4 °C. O ambiente aconchegante dava as boas-vindas ao som de João Gilberto cantando “Corcovado”, de Tom Jobim — como se dissesse: “pode entrar, a casa é sua”.

A familiaridade foi reforçada com a procedência dos grãos. No blend do espresso, 50% do café era brasileiro, 30%, etíope e 20%, colombiano. Segundo a barista, a receita busca equilíbrio: corpo e notas de caramelo e chocolate do brasileiro, suavidade do colombiano e floral delicado do africano. Além do blend, havia três microlotes na carta no dia: um fermentado brasileiro da Fazenda Pinhal, um natural da Fazenda Las Camelias (Guatemala) e um lavado colombiano produzido por mulheres da região de Antioquia.

A lista de pedidos foi variada: um café colombiano na chemex (300 ml), o fermentado brasileiro filtrado na v60 (300 ml), um cappuccino, um espresso (25 ml) e um espresso longo. Para acompanhar, croquinho — releitura do croque-monsieur, com pão artesanal amanteigado, recheado com queijo edamer e prosciutto e coberto com queijo derretido — e um croissant com calda de laranja (os italianos apreciam doces pela manhã; mesmo o croissant simples é levemente adocicado). Pain au chocolat e mignons (doce de cranberries) fecharam a refeição.

Croissant com bebidas pedidas pela equipe; pain au chocolat com espresso

Com notas de tangerina, o suave café colombiano combinou bem com o croissant, enquanto o café brasileiro, de fermentação anaeróbica, dividiu o time da Espresso. Para quem gostou, a bebida elevou o croquinho que, apesar da boa execução, ficou aquém da inspiração. Houve consenso apenas nos doces: o destaque foi o de cranberries.

Espressos e cappuccinos, de fato, dominam a arte da extração italiana. O espresso estava equilibrado, e o cappuccino, cremoso — a ponto de não se perceber onde termina o café e começa o leite. Ao pedirmos um espresso longo, a barista reagiu: “Noi non roviniamo il caffè” (“não estragamos o café”) — e serviu a água à parte, para que cada um a acrescentasse à bebida.

Comandado por quatro jovens, a Tostato é a parada perfeita para quem quer tomar um bom filtrado na Bréscia. Mas a dica é estar com o bolso preparado: um espresso custa 1,80 euros (R$ 10,76) e um filtrado individual, entre 5 e 7 euros (de R$ 29,89 a R$ 41,84), dependendo do microlote.

Ambiente do café; croquinho com café filtrado

Nossa conta: 42,80 EUR (R$ 269,64)
Filtrado na chemex – 10 EUR (R$ 63)
Filtrado na v60 – 14 EUR (R$ 88,2)
Espresso – 1,80 EUR (R$ 11,34)
Espresso longo – 1,80 EUR (R$ 11,34)
Cappuccino – 2,30 EUR (R$ 14,49)
Croquinho – 8 EUR (R$ 50,40)
Croissant – 1,70 EUR (R$ 10,71)
Pain au chocolat – 1,70 EUR (R$ 10,71)
Mignons – 1,50 EUR (R$ 9,45)

A Espresso visitou a casa anonimamente e pagou a conta.

Informações sobre a Cafeteria

Endereço Via Fratelli Porcellaga, 28
Cidade Bréscia
País Itália
TEXTO Equipe Espresso • FOTO Equipe Espresso

Mercado •

Conheça os 20 finalistas do concurso de embalagens de café Espresso Design

Embalagens ficarão expostas de 11 a 12 de novembro na Semana Internacional do Café (SIC), em Belo Horizonte (MG), onde o público poderá votar em sua favorita

O Espresso Design, concurso que reconhece algumas das melhores embalagens de café do mercado brasileiro, acaba de anunciar os finalistas de sua 8ª edição. As 20 marcas foram selecionadas por uma comissão julgadora, que avaliou pontos como design gráfico, funcionalidade, estrutura e materiais, e conceito da embalagem.

Este ano, foram mais de 90 inscritos. Entre os principais critérios de escolha, entraram questões como a composição visual, a tipografia, as ilustrações e a diferenciação dentro do mercado. Legibilidade, facilidade de usar, e de abrir e fechar a embalagem também foram consideradas durante a análise.

Além desses pontos, os jurados avaliaram qualidade, viabilidade e sustentabilidade dos materiais utilizados, assim como a clareza e o cumprimento do conceito proposto pela marca.

Finalistas do Espresso Design

Aga
Astral Café de Especialidade
Butk Cafés Especiais
Café de Bolso
Café do Leste
Café Terra dos Diamantes
Cafézices
Cumbré Café de Origem
Dropit
Elisa Coffee Roasters
Lauma
Lema Cafés Especiais
Lira Café
Massemba Cafés
Memoê
Mercê
Nossa Torra
OOP Café
Pingado Cafés Especiais
Terrafé Cafés Especiais

As 20 embalagens ficarão expostas ao longo dos dois primeiros dias da Semana Internacional do Café (SIC), entre 11 e 12 de novembro, em Belo Horizonte (MG). O público do evento poderá votar para escolher a sua favorita (um voto por CPF).

As três embalagens vencedoras serão anunciadas em 13 de novembro, último dia da SIC, durante uma cerimônia no Grande Auditório.

Semana Internacional do Café
Quando: 11 a 13 de novembro, das 10h às 19h
Onde: Expominas (avenida Amazonas, 6.200 — Gameleira — Belo Horizonte, MG)
Mais informações e credenciamento: https://semanainternacionaldocafe.com.br/

TEXTO Redação

Barista •

Barista chinês conquista vitória inédita em Campeonato Mundial no Panamá

Primeiro profissional do país a vencer a competição, barista Pan Wei, da Parking Coffee, dividiu o pódio com representantes da Malásia e Emirados Árabes Unidos

O barista chinês Pan Wei, da Parking Coffee, é o grande vencedor do Campeonato Mundial de Barista, competição que ocorreu de 22 a 25 de outubro, durante o World of Coffee Panama 2026. A final aconteceu neste sábado (25), data de encerramento do evento, após quatro dias de uma competição que reuniu profissionais de mais de 50 países na Cidade do Panamá, capital do país da América Central.

A fase derradeira da premiação, que avalia critérios como inovação, técnica e criatividade, marcou um embate entre seis baristas de diferentes países. Além do primeiro lugar de Wei, que é bicampeão da modalidade na China, os competidores Shing Win, da One Half Coffee Roastery (Malásia), e Frederick Rubens, da Benchmark Coffee (Emirados Árabes Unidos), ficaram com a segunda e a terceira posição, respectivamente.

Duas vezes vencedor do Campeonato Brasileiro de Barista, em 2023 e 2025, e representante brasileiro na competição, o carioca Daniel Vaz, da Five Roasters (RJ), acabou ficando de fora das finais e semifinais. O Brasil se sagrou campeão da premiação internacional apenas uma vez, em 2023, com o paulistano Boram Um.

O resultado marca a primeira vitória de um barista chinês na competição. Em 2025, Simon SunLei, da Marus Coffee (China), já havia chegado perto, conquistando o segundo lugar. Shing Win e Frederick Rubens também fizeram história nesta edição para Malásia e Emirados Árabes Unidos, que nunca antes haviam subido ao pódio da modalidade.

Classificação final – Campeonato Mundial de Barista 2026

1º lugar Pan Wei (China)
2º lugar Shing Win (Malásia)
3º lugar Frederick Rubens (Emirados Árabes Unidos)
4º lugar Gabrel Tan (Austrália)
5º lugar Jane Kawinnart (Tailândia)
6º lugar Jill Hoff (Canadá)

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Mercado •

Mercado de café caminha para cenário de superávit, aponta Rabobank

Melhora do clima e recuperação das exportações brasileiras ampliam perspectivas de oferta, mas estoques no Japão e na Europa continuam reduzidos, segundo a Reuters

Por Cristiana Couto

O mercado global de café começa a substituir as preocupações com riscos climáticos e restrições de oferta pela perspectiva de superávit e recomposição dos estoques. A avaliação é do Rabobank, em relatório de setembro de 2026 divulgado na segunda-feira (19).

A melhora das condições climáticas no Brasil, Vietnã e Indonésia, associada à expectativa de aumento das exportações brasileiras, reduz os riscos para a safra 2027/28, embora persistam incertezas sobre o equilíbrio entre oferta e demanda.

A Safras & Mercado aponta na mesma direção. Em avaliação publicada em 2 de outubro, o analista Gil Barabach destaca a chegada da safra brasileira ao mercado e a melhora das perspectivas de abastecimento. O salto nos embarques brasileiros em agosto, quando foram exportadas 4,15 milhões de sacas, reforçou essa percepção.

Em setembro, as exportações brasileiras somaram 3,89 milhões de sacas, queda de 6,3% em relação a agosto, mas alta de 3,1% sobre setembro de 2025, segundo balanço divulgado pelo Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) em 9 de outubro. No trimestre de julho a setembro, os embarques cresceram 15,5% na comparação anual.

As exportações mundiais também cresceram. Segundo relatório da Organização Internacional do Café (OIC), divulgado em 9 de outubro, os embarques de café verde aumentaram 15,6% em agosto, para 10,94 milhões de sacas.

A OIC estima superávit mundial de 3 milhões de sacas no ano-cafeeiro 2025/26, depois de quatro anos de déficit. O volume equivale, porém, a menos de uma semana do consumo global.

A expectativa de maior oferta pressionou as cotações internacionais em setembro. Segundo o Rabobank, o arábica negociado em Nova York caiu 15,1%, enquanto o robusta em Londres permaneceu praticamente estável, com alta de 0,4% A recuperação dos preços no fim do mês não foi suficiente para reverter a queda do arábica.

“A recuperação no fim de setembro proporcionou um ponto de partida mais favorável para outubro, mas ainda não sinaliza uma reversão da tendência mensal de queda do arábica”, afirmou o analista Claudio Delposte no relatório.

No Brasil, as chuvas de setembro também favoreceram as perspectivas para a safra 2027/28. O Rabobank registrou precipitações superiores às médias históricas dos últimos 15 anos em todas as regiões produtoras analisadas, em um período importante para a floração e o desenvolvimento vegetativo das lavouras.

Estoques ainda reduzidos

Apesar das expectativas de maior oferta, os estoques de café verde no Japão e na Europa permanecem abaixo dos níveis de um ano antes.

Dados de associações do setor, compilados pela Coffee Trading Academy e divulgados pela Reuters nesta quarta-feira (21), mostram que o Japão armazenava 1,99 milhão de sacas de café verde em agosto, queda de 12,4% em relação ao mesmo mês de 2025 e o menor volume para agosto desde pelo menos 2022.

Na Europa, os estoques somaram 7,14 milhões de sacas, recuo anual de 16,8%. A redução, segundo a Reuters, foi ainda maior entre os arábicas naturais, cujos estoques caíram 25,6% (para 1,69 milhão de sacas), depois de três meses consecutivos de retração. Os estoques europeus de robusta somaram 3,03 milhões de sacas, queda de 16% na comparação anual.

TEXTO Cristiana Couto

Cafezal •

Cafés brasileiros batem recordes de preço em leilão beneficente da ACE

Gesha da Santuário Sul e arara da Orfeu alcançaram US$ 200 e US$ 151 por libra-peso, superando a marca brasileira de US$ 143 registrada em 2018

Por Cristiana Couto

Dois cafés brasileiros alcançaram os maiores preços por libra-peso já pagos por lotes do país nos leilões da Alliance for Coffee Excellence (ACE), segundo a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA). Os negócios foram feitos no último dia 16, no leilão beneficente Legends of Excellence (Lendas da Excelência), em Tóquio, no Japão. O pregão integrou a SCAJ World Specialty Coffee Conference and Exhibition 2026, importante evento de cafés especiais da Ásia.

O gesha natural de Luiz Paulo Dias Pereira Filho, produzido na Fazenda Santuário Sul, em Carmo de Minas (MG), foi arrematado pela japonesa Snow Beans Coffee por US$ 200 por libra-peso (equivalente a US$ 26,5 mil por saca). Já o arara natural da Fazenda Sertãozinho, em Botelhos (MG), da Orfeu Cafés Especiais, foi comprado pela Black Sip Coffee Roasters, da Arábia Saudita, por US$ 151 por libra-peso (US$ 20 mil por saca).

A marca brasileira anterior era de 2018, quando um gesha da Fazenda Primavera, em Angelândia, na Chapada de Minas, foi vendido por US$ 143 por libra-peso (US$ 18,9 mil por saca). Comprado pela Ally Coffee, o lote venceu a categoria Pulped Naturals (via úmida), do Cup of Excellence daquele ano.

O pregão de Tóquio reuniu 12 lotes do Brasil e de Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, com participação presencial e pela internet. O maior lance foi para um gesha lavado de Honduras, produzido na Finca El Puente: US$ 333 por libra-peso (US$ 44 mil por saca). 

Cada participante doou uma caixa de 10 kg, e toda a receita terá destino beneficente: metade financiará projetos sociais nas comunidades produtoras e metade, iniciativas de educação cafeeira pelo mundo. Segundo a ACE, os recursos apoiarão escolas, projetos de abastecimento de água, moradia e saúde, além de formação profissional e bolsas de estudo. 

O título Legends of Excellence, criado em 2025, reconhece produtores com resultados recorrentes no Cup of Excellence, que atualmente premia até trinta cafés por edição no Brasil.

Fazenda Sertãozinho, em Botelhos (MG), da Orfeu Cafés Especiais

Outro destaque entre os recordistas brasileiros é o café arara, resultado de décadas de pesquisa no país. A cultivar de arábica foi lançada em 2012, a partir dos trabalhos desenvolvidos pelo extinto Instituto Brasileiro do Café (IBC) e pela Fundação Procafé. Um de seus principais desenvolvedores, o engenheiro agrônomo José Braz Matiello, acompanhou a seleção a partir de plantas de frutos amarelos encontradas em 1987, em uma lavoura de sarchimor no Paraná. A variedade reúne produtividade, resistência à ferrugem e qualidade de bebida.

Seguindo a tradição de apoio à pesquisa cafeeira, a fazenda Sertãozinho participou, já em 2013, dos ensaios de campo com a cultivar – uma das 28 variedades plantadas em escala comercial nas fazendas da Orfeu e entre as 35 cultivadas em suas áreas de pesquisa, segundo a empresa. Em 2017, dois araras da Sertãozinho foram premiados no Cup of Excellence – a primeira aparição da cultivar no concurso.

“Como consequência do trabalho, recebemos o reconhecimento nas premiações com o arara, como é o caso das duas vezes no Top 10 do Cup of Excellence, além das seis edições em que foi campeã de Aroma, as duas vezes como Top 10 no Coffee of The Year e as duas vezes como campeã do Região Vulcânica”, detalha Lucas Henrique Figueiredo, gerente técnico de operações agrícolas de Orfeu Cafés Especiais, em entrevista à Espresso. Segundo ele, além das características de campo do grão arara, sua notoriedade está, principalmente, no potencial de bebida que entrega. 

A presença da variedade entre os premiados se ampliou nos últimos anos. Em 2024, foram sete lotes de arara, do Cerrado Mineiro, das Matas de Minas e da Mantiqueira de Minas. Em 2025, a cultivar apareceu em 16 dos 30 lotes premiados, de seis regiões.

Em comunicado divulgado pela BSCA, Luiz Paulo afirmou que o resultado expressa o reconhecimento internacional do trabalho dos produtores e do potencial dos cafés brasileiros. 

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Divulgação

Mercado •

Alemanha concentra um terço das importações de café da União Europeia

País se destaca como centro de processamento e redistribuição do grão, além de reunir o maior mercado consumidor de café da Europa

Por Cristiana Couto

Em 2025, a Alemanha recebeu 16,8 milhões de sacas de café (principalmente verde e torrado) vindos de fora da União Europeia, o equivalente a 34,4% do total dessas importações no bloco, segundo estudo da Federação Europeia do Café (ECF, na sigla em inglês). A Itália ocupou uma distante segunda posição, com 10,1 milhões de sacas, ou 20,7% do total.

Mais de 97% do café importado pela União Europeia chega na forma de grãos verdes, de acordo com o levantamento. Uma predominância que evidencia o papel da indústria europeia no processamento do produto antes de sua distribuição aos mercados consumidores.

A posição alemã reflete uma estrutura que vai além do abastecimento interno. O país reúne importantes portos de entrada, indústrias de processamento e uma rede de distribuição que atende a outros mercados europeus e internacionais.O estudo Economic Impact of Coffee in Europe, elaborado pela consultoria Europe Economics para a ECF e divulgado em junho de 2026, estima que a cadeia cafeeira alemã gere € 29,3 bilhões (R$ 165,4 bilhões) e sustente cerca de 517 mil empregos (dado este de 2023).

Da entrada ao processamento

Os portos de Hamburgo, Bremen e Bremerhaven desempenham papel central na entrada e na movimentação de café na Europa. Parte dos grãos recebidos segue para torrefações e outras unidades industriais alemãs; outra parcela é distribuída a países vizinhos.

A Alemanha também está entre os maiores polos europeus de torrefação. Em 2023, produziu cerca de 517 mil toneladas de café torrado, o equivalente a 8,6 milhões de sacas. A Itália apresentou volume ligeiramente superior, de 522 mil toneladas, ou 8,7 milhões de sacas.

Bremen abriga ainda duas grandes unidades de descafeinação, cada uma com capacidade superior a 1,7 milhão de sacas por ano. Além disso, o país figura entre os centros europeus de fabricação de café solúvel.

A importância alemã na redistribuição do produto aparece nas estatísticas da Organização Internacional do Café (OIC). Em 2025, o país liderou as reexportações mundiais de café, com 13,2 milhões de sacas, mais que o dobro das 5,94 milhões registradas pela Itália, segunda colocada. Países Baixos (5,14 milhões), Bélgica (4,97 milhões) e Espanha (3,29 milhões) vieram em seguida.

Entre os principais destinos das reexportações alemãs estão a Polônia, com 3,07 milhões de sacas, os Países Baixos (1,20 milhão), a França (983 mil) e os Estados Unidos (961 mil). Os volumes da OIC são expressos em equivalente de café verde e incluem diferentes formas do produto.

Um mercado consumidor consolidado

Além de seu peso comercial e industrial, a Alemanha é o maior mercado consumidor de café da Europa e o terceiro do mundo, atrás dos Estados Unidos e do Brasil. Em 2025, o consumo alemão alcançou 9,59 milhões de sacas, segundo a OIC, ante 5,85 milhões na Itália e 5,84 milhões na França.

O consumo por habitante – embora, por ser um mercado maduro, cresça lentamente – foi superior ao dos dois países: 6,79 kg na Alemanha, 5,95 kg na Itália e 5,12 kg na França. Entre 2005 e 2025, o consumo alemão avançou 7,6%, de 8,91 milhões para 9,59 milhões de sacas. No mesmo período, o aumento foi de 14,3% na França e de 6,8% na Itália.

A presença do café no cotidiano alemão também se reflete nos hábitos. Segundo levantamento divulgado pelo Centro de Promoção de Importações de Países em Desenvolvimento (CBI, na sigla em inglês), 89% dos alemães consomem café, e os consumidores da bebida tomam, em média, 3,4 xícaras por dia. O café filtrado permanece o preparo mais popular: 47% dos consumidores afirmam consumi-lo regularmente.

Em 2025, as vendas de café torrado no mercado alemão somaram aproximadamente 456 mil toneladas, queda de 1,5% em relação ao ano anterior, segundo a Associação Alemã do Café. Apesar da retração no volume, o faturamento cresceu 23,5%, para € 8,98 bilhões (R$ 50,7 bilhões).

Grãos e novos solúveis

O mercado alemão também passa por mudanças na forma de consumo. Segundo a Associação Alemã do Café, as vendas de café em grãos inteiros cresceram 130% entre 2015 e 2025, alcançando 193,8 mil toneladas no último ano. No mesmo período, as vendas de café moído recuaram 38%.

O avanço dos grãos acompanha a difusão das máquinas automáticas que moem o café no momento do preparo. Atualmente, cerca de um em cada três domicílios alemães possui um equipamento desse tipo.

O café solúvel também apresenta novas possibilidades de consumo. Embora responda por aproximadamente uma em cada dez xícaras consumidas no país, a categoria passa a incorporar produtos de maior valor agregado, como versões especiais de café instantâneo e concentrados líquidos.

Essas transformações ocorrem em um mercado de consumo relativamente estável, mas integrado a uma das maiores estruturas de importação, processamento e distribuição de café do mundo.

Fontes: Federação Europeia do Café (ECF), Economic Impact of Coffee in Europe (2026); Organização Internacional do Café (OIC), Coffee Trade Globe (dados de 2005 e 2025); Associação Alemã do Café (2026); Centro de Promoção de Importações de Países em Desenvolvimento (CBI, 2025)

TEXTO Cristiana Couto

Cafezal • Mercado •

Safra de café do Vietnã deve ficar estável

Maior produtor mundial de robusta, país tem lavouras renovadas para compensar prováveis perdas climáticas provocadas por El Niño em 2026/27

Por Reuters (Hanói)

A produção de café do Vietnã deve permanecer estável na safra 2026/27, segundo representantes do setor. O aumento da produtividade de lavouras jovens e replantadas deve compensar as perdas provocadas por chuvas excessivas e pragas em algumas áreas do Planalto Central, principal região cafeeira do país, o maior produtor mundial de canéfora.

Segundo Trinh Duc Minh, presidente da Associação de Café de Buon Ma Thuot, na província de Dak Lak, as condições climáticas afetaram desigualmente as áreas produtoras da variedade robusta, e os melhores resultados de algumas lavouras ajudam a equilibrar a oferta.

A avaliação é mais cautelosa que a previsão divulgada em maio pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). O órgão estimou uma colheita de 32,5 milhões de sacas – alta de 2,5% em relação ao ciclo anterior. Desse total, 31,4 milhões seriam de robusta, avanço de 3%.

Além da renovação das lavouras, o USDA apontou que os preços elevados de 2024/25 estimularam a expansão da área plantada e dos investimentos de empresas privadas.

A preocupação do setor, porém, é quanto à safra 2027/28. O El Niño, que costuma provocar secas no Sudeste Asiático, pode reduzir a disponibilidade de água para irrigação e comprometer a próxima colheita, embora seja cedo ainda para dimensionar as perdas.

Na província de Gia Lai, a produtora Tran Thi Mai, que cultiva 2 hectares de café, teme dificuldades para irrigar já em fevereiro. Minh também prevê abastecimento insuficiente de água e alerta para o impacto de um El Niño severo sobre a produção.