Mercado

Luckin investe R$ 2,2 bi em torrefação e expande capacidade industrial na China

Novo centro em Qingdao eleva a capacidade da rede a 155 mil toneladas por ano e reforça a estratégia de integração e eficiência logística da rede no leste do país

Foto: Divulgação

A rede Luckin Coffee anunciou o início das operações de um centro inteligente de torrefação de café em Qingdao, na província chinesa de Shandong.

Com investimento de cerca de 3 bilhões de yuans (quase R$ 2,19 bilhões) e capacidade anual acima de 55 mil toneladas, a empresa afirma, em comunicado, que a instalação “representa mais um passo em frente na cadeia de suprimentos global da Luckin, com capacidade e eficiência aprimoradas, impulsionando o progresso na transformação inteligente e sustentável da indústria cafeeira da China”.

Com a inauguração, a companhia passa a operar uma rede de torrefação em quatro cidades no leste do país — Qingdao, Pingnan, Kunshan e Xiamen (em construção) — que, juntas, devem superar 155 mil toneladas de capacidade anual, um novo recorde para a indústria de torrefação de café na China, segundo a empresa.

Além disso, a proximidade do Porto de Qingdao, um dos principais do país, permite a importação direta de café verde de origens como Brasil, Colômbia e Etiópia. De acordo com o comunicado, o apoio de uma rede logística que integra transporte marítimo, terrestre, aéreo e ferroviário deve aumentar a eficiência entre a compra do grão e o consumo final.

 

Arte: Cristiana Couto, com uso de IA

Para Jinyi Guo, cofundador e CEO da Luckin Coffee, a abertura do centro marca um avanço na consolidação da cadeia de produção da empresa, ao combinar tecnologia e sustentabilidade e contribuir para a modernização do setor cafeeiro chinês.

Segundo a Luckin, os processos no centro de torrefação de Qingdao são 100% automatizados, com equipamentos de embalagem de alta capacidade e armazenamento com controle constante de temperatura e umidade. A estrutura inclui ainda um sistema de redução de emissões de carbono.

De acordo com dados da World Coffee Portal, a Luckin Coffee protagonizou uma das expansões mais rápidas do varejo global de café, ao saltar de poucos milhares de lojas no início da década para mais de 30 mil unidades em 2025.

O crescimento consolidou a rede como líder na China em número de pontos de venda e reduziu a distância em relação à Starbucks, indicando uma mudança relevante no equilíbrio do mercado global, analisa a WCP.

Fonte: World Coffee Portal

TEXTO Redação

Quantos Marcelos e Antônios são necessários para produzir o café da sua xícara?

Foto: Bruno Conrado

Por Bruno Conrado

Que o café faz parte da vida dos brasileiros, não é novidade. Ainda criança, lembro de tomar as primeiras canecas de café com leite e não gostar nem um pouco — o achocolatado era bem mais saboroso. Na adolescência, passei a tomá-lo puro, sem leite, porque, para mim, era elegante ser visto com um copo americano fumegando nas mãos.

Mas foi durante uma edição do São Paulo Coffee Week, organizado por Flavia Pogliani, do The Little Coffee Shop, que, já adulto, conheci os cafés especiais – e as cervejas artesanais também. Ambos criaram uma explosão de sabores e sensações para meu paladar ainda inexperiente.

Foi na mesma época que resolvi mudar de profissão – e a fotografia, que era um hobby, ocupou o lugar da música e virou sustento. Por conta, talvez, desse meu hiperfoco, comprei Perfume de Sonho, o livro do fotógrafo Sebastião Salgado sobre café. 

Foi questão de tempo para eu decidir fazer o mesmo tipo de trabalho. Assim como ele, quis fotografar colheitas e, de quebra, aprender o que pudesse sobre a pequena fruta.

Foto: Bruno Conrado

Com a ajuda de Samuel, produtor do Café Tequila, visitei desde plantações a perder de vista até pequenos produtores no Sul de Minas Gerais. De moto e mochila nas costas, cruzei as montanhas frias da Mantiqueira, de estradas sinuosas cercadas por araucárias. As seriemas, quando não corriam desengonçadas, pareciam gargalhar da boa vida que levavam ali. 

Em Baependi, cidade de Nhá Chica, a primeira mulher negra brasileira declarada beata pela igreja católica, conheci Antônio e Marcelo, pequenos produtores que compartilham o trabalho com seus familiares. Ali, tudo é feito de maneira simples, totalmente manual – um cenário diferente daquele de fazendas com colheitadeiras ou ônibus para transportar funcionários. Naquele ano, Antônio e Marcelo venderam microlotes para cafeterias de São Paulo. 

Seu Antônio fotografado por Bruno Conrado

Quando voltei para casa, longe daquela beleza bucólica, preparei um coado e estudei as fotos da viagem. Uma delas, inclusive, estampou a embalagem do café do Antônio, vendidos na cafeteria Pato Rei. Mas um detalhe curioso não me saiu da cabeça: aqueles produtores nunca provaram o próprio café. Com o dinheiro que recebiam, compravam o café tradicional extraforte no mercado. O que me intrigava é que eles não sabiam o gosto do que produziam.

No ano seguinte, fui revê-los e descobri que Antônio tinha desistido de plantar café. “O milho vai me dar mais dinheiro”, disse. Então, encontrei Marcelo, que não só seguia trabalhando com café, como tinha aumentado sua produção. “Plantei até no campo de futebol, ninguém mais jogava ali mesmo”, contou ele. 

Assim como fizera com Antônio, pedi para tirar seu retrato. Marcelo sentou-se à mesa e, quando fui bater a primeira foto, ele levantou subitamente, gritando: “Peraí!”. Em seguida, colocou um pacote sobre a mesa. “Mandei torrar e moer meu café. Agora estou vendendo pra turma aqui poder tomar uma coisinha um pouco melhor”, comentou. No retrato, ele aparece orgulhoso com seu café empacotado, segurando um copo do que produziu com a família. 

O produtor Marcelo fotografado por Bruno Conrado

Por conta do trabalho, não voltei a Baependi com a frequência de antes, mas as fotos seguem guardadas com as histórias que conheci por lá. 

Certo dia, perguntei a Samuel como estavam as coisas na região. “Seu Antônio agora planta abacaxi, mas Marcelo segue firme”, atualizou-me. “Ano passado, inclusive, ficou em segundo lugar na premiação da cooperativa para os melhores cafés.”

Por passar por muitos processos, vários produtores acabam vendendo sua produção no beneficiamento e, não chegam a ver o produto final. O café dá muito trabalho. 

Marcelo continua tomando o café que produz e, por conta da alta no preço, agora vende só para a cooperativa. Já Antônio segue tomando o tradicional extraforte – mas, agora, em sua mesa, não falta abacaxi. 

Bruno Conrado é fotógrafo profissional. Criou o podcast Sessão de Fotografia, e consolidou-se como retratista. Reconhecido por seu trabalho em retrato e fotografia documental, atuou no mercado comercial com grandes empresas, produções artísticas e podcasts, e já fotografou personalidades do cenário nacional, entre eles Débora Secco e Alex Atala.

TEXTO Bruno Conrado

Cafezal

Exposição itinerante quer mostrar “compromisso e amor” de cafeicultores brasileiros por trás das fotografias

“BRASIS Cafés de Origem” percorre sete cidades produtoras do Sudeste com fotografias das Igs de café do país; degustação e bate-papo com produtores abrem a ação

“BRASIS Cafés de Origem” chega nesta quinta-feira (23) a Carmo do Paranaíba, no Cerrado Mineiro, uma das sete cidades do Sudeste do país a receber a exposição itinerante de fotografias de indicações geográficas de café brasileiras. 

Com o propósito de celebrar o trabalho dos cafeicultores e o valor dos grãos nestas áreas de origem, a mostra, criada em parceria com a Pink Produções, combina imagens do fotógrafo Marcelo Coelho e textos técnicos de Juliano Tarabal, diretor-executivo da Federação de Cafeicultores do Cerrado Mineiro. “A ideia dos textos que acompanham as fotos é explicar os valores e diferenciais de cada região, para promover as nossas Igs de café”, diz Tarabal. 

A exposição reúne cerca de 30 imagens produzidas para o livro A Revolução do Café Brasileiro – Regiões com Indicação Geográfica, e já passou pelas cidades de Franca (SP) e Guaxupé (MG). O próximo destino é Viçosa, nas Matas de Minas, onde permanecerá de 6 a 18 de maio, seguida pelos municípios capixabas Guaçuí, Venda Nova do Imigrante e Linhares.

Em cada cidade, a abertura da mostra inclui degustação de cafés e painel com produtores locais. “Os produtores dão depoimentos de como estão se envolvendo nesse trabalho coletivo de promoção das regiões de origem”, explica Tarabal.

Bem mais do que palavras

Em 2024, ao registrar imagens das então 14 indicações geográficas para o livro A Revolução do Café Brasileiro, lançado na SIC (Semana Internacional do Café) daquele ano, Marcelo Coelho percebeu que o café brasileiro é “uma soma de territórios profundamente distintos” e um vetor “real” de desenvolvimento.

“A cafeicultura leva prosperidade para regiões distantes dos grandes centros, e se conecta com temas contemporâneos importantes, como sustentabilidade ambiental e diversidade humana, refletindo um Brasil plural”, analisa.

A expectativa do fotógrafo é que os visitantes vislumbrem, por trás das paisagens que produziu, histórias de cafeicultores que carregam “gerações de conhecimento e de dedicação”. “Existe ali um nível de compromisso e amor pelo que fazem que é difícil traduzir em palavras”, resume. “Se o visitante sair da exposição enxergando o café como uma expressão cultural, humana e territorial — e entendendo o nível de excelência que o Brasil já alcançou, inclusive com reconhecimento internacional —, então acredito que o trabalho cumpriu seu papel”, acredita ele.

BRASIS Cafés de Origem
Quando: de 23 de abril a 2 de maio (de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h)
Onde: Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Lazer e Esporte
Quanto: entrada grátis

TEXTO Redação • FOTO Marcelo Coelho

Barista

Brasileiro de Brewers começa nesta sexta (24) em São Paulo

Campeão garante vaga no World Brewers Cup 2026, na Bélgica, entre 25 e 27 de junho

O Campeonato Brasileiro de Brewers começa nesta sexta-feira (24) e segue até domingo (26) no Mercado Municipal de São Paulo. Organizada pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), a competição reúne 20 baristas para a disputa, e o vencedor representará o Brasil no mundial  em Bruxelas, na Bélica, entre 25 e 27 de junho, durante a edição do World of Coffee no país europeu.

Ao longo dos três dias, os competidores se enfrentam em rodadas eliminatórias que envolvem o preparo de café, em dez minutos, em um método filtrado escolhido pelo competidor. O café, servido em três xícaras, será avaliado por três juízes sensoriais em atributos como aroma, sabor, acidez, corpo e equilíbrio. Um juíz técnico observa execução, organização e precisão no preparo da bebida.

Confira a agenda

 24/04 (sexta-feira)

  • Abertura da arena: 8h30
  • Início das apresentações: 9h30
  • Encerramento do dia: 15h

25/04 (sábado)

  • Abertura da arena: 8h15
  • Início das apresentações: 9h18
  • Término das eliminatórias: 10h30
  • Anúncio dos finalistas: 11h50
  • Início das finais: 13h
  • Encerramento do dia: 17h

26/04 (domingo)

  • Abertura da arena: 8h30
  • Início das apresentações: 9h
  • Premiação: 15h
  • Encerramento: 15h30

Confira os competidores

Anderson Dize Mena (dizeanderson_barista)
Barista, São Paulo/SP

André Phillipe (@theniggaofcoffee)
Ristto Coffee, Rio de Janeiro/RJ

Carol Vieira (@coffeecarol_)
Barista, Curitiba/PR

Daniel Vaz (@Daniel_vaz)
Five Roasters, Rio de Janeiro/RJ

Emerson Nascimento (@emersonbarista1)
Barista, Rio de Janeiro/RJ

Gabriel Agrelli (@gabrielagrelli)
Daterra Coffees e Abigail Coffee Company, Campinas/SP

Guilherme Nunes (@Guiobarista)
Empreendedor, São Paulo/SP

Hugo Silva (@hugosilva.barista)
Sabino Torrefação, São Paulo/SP

Ju Morgado (@ju._morgado)
Barista, Brasília/DF

Juliana Mina (@chuchudalmina)
Royalty, Curitiba/PR

Juliana Sorati (@julianasorati)
Cafeteria Urbana, Campinas/SP

Léo Moço (@eusouleomoco)
Empresário, Curitiba/PR

Lucas Santos (@lucasfellipesantos)
Not Black Coffee, Goiânia/GO

Maurício Maciel (@baristamaciel)
Barista, Patrocínio/MG

Renan Dantas (@barista.nomade)
Oficina do Barista, São Paulo/SP

Rhus Batista (@volante.cafe)
Volante Café, Rio de Janeiro/RJ

Silas Silva (@fala.silas)
DCAE, Salvador/BA

Teo Paes (@pour.teo)
Unique Cafés, Carmo de Minas/MG

Tiago de Mello (@tiagodemelloshow)
Barista, São Paulo/SP

Antonio Neto / Tony (@tony.netobarista)
Buffet 3A, São Paulo/SP

TEXTO Redação

Mercado

No Dia Mundial do Livro, a Espresso indica 5 leituras sobre café

Guia essencial, agora ampliado

A nova edição de The World Atlas of Coffee, feita no fim de 2025, atualiza e enriquece um dos guias mais influentes do café contemporâneo. O barista inglês e campeão mundial James Hoffmann revisa origens, variedades e processamento do grão em mais de 30 países, além de incluir temas recentes como descafeinação e novas regiões produtoras. Estas são, aliás, o diferencial do livro – cada país é abordado a partir de sua história, principais regiões produtoras e variedades, enriquecido com mapa e dados. Com abordagem didática que mantém o rigor técnico, a nova edição acrescenta aos capítulos sobre variedades, processamento, torra e métodos de preparo novidades como descafeinação do café e novas origens (Austrália, Japão e Porto Rico). 

James Hoffmann, The World Atlas of Coffee, editora Mitchell Beazley, 2025 (3ª ed.). A partir de R$ 264, no site da amazon.

 

Como o café virou hábito social no Brasil

Histórias do Café – Consumo, cultura e alimentação, recém-lançado pela editora Alameda, preenche duas lacunas – a falta quase crônica de publicações brasileiras sobre café, especialmente às vésperas do tricentenário comemorativo do cultivo do grão no país, e os ainda poucos estudos sobre história do consumo da bebida. Organizado pelos historiadores Joana Monteleone e Bruno Bortoloto do Carmo, o livro reúne 15 ensaios que percorrem o tema – dos cafés da cidade-luz no século XIX aos botequins e confeitarias do Rio de Janeiro na época do Império, passando pela presença da bebida em livros de receitas e nos hábitos paulistanos oitocentistas e alcançando, até, laboratórios e faculdades de medicina, que investigaram os efeitos da ingestão da bebida. Para quem se interessa por história e quer consumir boa pesquisa acadêmica, o livro é um prato cheio.

Joana Monteleone e Bruno Bortoloto do Carmo (orgs.), Histórias do Café – Consumo, cultura e alimentação, editora Alameda, 2026. R$ 92, no site da Alameda. 

Um retrato visual do café brasileiro

Em Café no Brasil, o fotógrafo Marcos Piffer faz um amplo ensaio fotográfico da presença cotidiana do café no país. São fotos que retratam a lida diária no campo, o cuidado no beneficiamento do grão, o conforto cotidiano simbolizado no bule esquentando no fogão à lenha. Isso sem falar das belezas arquitetônicas erguidas no auge da produção e comércio do café em Santos. O resultado é um livro de forte apelo visual, que documenta a história, a cultura e o território no maior país produtor do mundo. E uma ótima opção para presente. 

Marcos Piffer, Café no Brasil, editora Solaris, 2015.  R$ 39, no site Sebo Virtual.

Um olhar sobre a qualidade

Outra referência global em café, o barista norueguês Tim Wendelboe reúne no livro uma síntese de sua experiência com cafés especiais, sob um olhar rigoroso e pessoal. Dicas sobre equipamentos, serviço e compra de grãos integram o conteúdo, construído a partir de mais de duas décadas de visitas a países produtores e à frente de sua Coffee Roastery & Espresso Bar, em Oslo. Receitas de drinques e comidas também são compartilhadas no livro, publicado em português pela Café Editora. Leitura-chave para iniciantes.

Tim Wendelboe, Coffee with Tim Wendelboe, Café Editora, 2019 (ed. brasileira). R$ 30, no site Café Store.

Café em HQ

Saindo do formato tradicional, Kophee leva o universo do café para as histórias em quadrinhos. Escrito pelo quadrinista, ilustrador e barista Guilherme Match, em parceria com a designer Gabê Almeida, acompanha os personagens Ink e Maki na cafeteria Mono — um dos poucos espaços que ainda servem café de verdade em uma cidade dominada por vending machines. Publicado pela Editora JBC, o volume de 192 páginas inclui, ao final, receitas de preparo assinadas por profissionais do café.

Guilherme Match e Gabê Almeida, Kophee, Editora JBC, 2022. Na Amazon, por R$ 40,44.

TEXTO Redação

Cafezal

Empresas de café lançam programa para rastrear desmatamento

Sistema usa satélite e IA para mapear lavouras e evitar desmatamento, em resposta às exigências da União Europeia que podem restringir exportações de café

Empresas e comerciantes de café estão lançando um novo sistema para rastrear o desmatamento relacionado ao cultivo de café em todo o mundo. A informação é da JDE Peet’s, uma das companhias participantes, em um comunicado feito nesta quarta-feira (22), segundo a Reuters.

O programa Coffee Canopy Partnership usará imagens de satélite fornecidas pela Airbus, combinadas a modelos de inteligência artificial, para mapear fazendas de café e identificar áreas de perda florestal nas proximidades delas.

De acordo com comunicado publicado hoje no site da Tchibo, uma das empresas participantes do programa, a ação, que inclui também verificação in loco, vai gerar dois conjuntos de dados: um mapa de referência para 2020/2021, que distingue os sistemas agroflorestais de café da floresta natural, e um mapa atualizado para 2024/2025 para destacar as mudanças ocorridas desde 2020. Os dois conjuntos de dados serão integrados a uma plataforma aberta de geodados.

Segundo a JDE Peet’s, o objetivo é identificar corretamente a paisagem e trabalhar com governos e comunidades locais para restaurar as florestas e evitar futuros desmatamentos.

Além da Tchibo e da JDE Peet’s, participam do programa operadores de commodities Louis Dreyfus Company, Sucden, Neumann Kaffee Gruppe, Touton e Sucafina.

O sistema terá como alvo inicial a África Oriental – abrangendo a Etiópia, Tanzânia, Quênia, Uganda, Burundi e Ruanda, com o objetivo, segundo as empresas, de alcançar a cobertura mundial de todas as regiões produtoras de café em 2027.

De acordo com a Regulamentação sobre Desmatamento da UE – que deve entrar em vigor em 30 de dezembro para grandes corporações e em 30 de junho de 2027 para micro e pequenas empresas –, o café cultivado em terras classificadas como floresta após dezembro de 2020 não poderá entrar nos mercados da UE.

“Isso ameaça excluir milhões de pequenos agricultores dos principais mercados, apesar de suas práticas agrícolas sustentáveis, simplesmente porque os mapas existentes classificam incorretamente suas terras de produção de café agroflorestal ou cultivadas à sombra como floresta”, disse o comunicado da JDE Peet’s.

A empresa acrescentou que a iniciativa vai cobrir “a falta histórica de dados de mapeamento precisos, que frequentemente resultou em fazendas de café sendo identificadas erroneamente como floresta natural”.

Segundo as empresas, o sistema estará aberto à consulta de agricultores, governos e do setor cafeeiro.

TEXTO Fonte: Reuters

Mercado

Livro investiga como o café se tornou hábito e marcador social no Brasil e no mundo

Histórias do Café – Consumo, cultura e alimentação desloca o olhar para um território menos frequentado pela historiografia brasileira: o do consumo, da vida urbana e das sociabilidades que se formaram em torno da bebida.

Partindo da constatação de que o café se tornou um elemento estruturante do cotidiano moderno, presente nas refeições, nos espaços públicos e nos rituais de convivência, o livro propõe entender como um produto não essencial se converteu em hábito indispensável e marcador social.

Organizado pela dupla de historiadores Joana Monteleone, também editora e pesquisadora-colaboradora da Universidade de São Paulo, e Bruno Bortoloto do Carmo, doutor em História Social, que atuou como pesquisador do Museu do Café de Santos por 13 anos, o volume reúne 15 artigos sobre pesquisas recentes de uma série de autores de diferentes linhas historiográficas. O conjunto articula história econômica, urbana e da alimentação e recusa fronteiras rígidas entre esses campos.

No artigo “O consumo de café e as novas sociabilidades paulistanas nas primeiras décadas do século XIX”, a historiadora Rafaela Basso acompanha a bebida desde a produção doméstica até sua incorporação a práticas sociais marcadas por gênero, classe e exclusão.

Por meio de sua análise, afasta a imagem de São Paulo como um núcleo pobre e pacato e a aproxima da de uma cidade já integrada a circuitos modernos de consumo, na qual o café surge como marcador simbólico de pertencimento antes mesmo de sua plena popularização.

Abordagens científicas conduzem os ensaios de Cristiana Couto, doutora em história da ciência e coordenadora de conteúdo da Espresso&CO, que propõe discussões sobre o café como alimento e medicamento no Brasil no século XIX, e de Moisés Stahl, doutor em história econômica, que examina o café como objeto de investigação científica em perspectiva histórica.

Um dos méritos da obra está na ampliação do repertório documental. Romances, folhetins, peças teatrais, menus, discos, almanaques e teses médicas dialogam com atas oficiais e jornais e revelam o café como mercadoria, alimento, estimulante, remédio e símbolo de distinção.

Ao acompanhar a emergência dos cafés, botequins, confeitarias e espaços de consumo nas cidades, sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo, os autores mostram como o cafezinho ajudou a moldar práticas sociais e formas de pertencimento urbano no século XIX.

Ao mesmo tempo, o livro assume suas lacunas como desafio futuro, sobretudo no que diz respeito às relações de trabalho e à presença da escravidão no universo do consumo. Essa fricção entre potência analítica e ausência temática reforça o caráter do volume — menos síntese conclusiva e mais convite a novas investigações sobre comer, beber e conviver no Brasil do café. (Luiza Fecarotta)

Histórias do Café – Consumo, cultura e alimentação – Joana Monteleone e Bruno Bortoloto do Carmo (orgs.) – Editora Alameda (320 págs.; R$ 88)

TEXTO Luiza Fecarotta • FOTO Divulgação

Mercado

“Precisamos ser Cafés do Brasil, independentemente da ideologia de cada um”, diz Márcio Ferreira, do Cecafé

Márcio Cândido Ferreira, presidente do Cecafé, defende que o produto não tenha bandeiras ideológicas, mas se aproxime da cultura para expandir fronteiras, principalmente para a Ásia

Márcio Cândido Ferreira, presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) e diretor-superintendente da Tristão, é pequeno em estatura, mas gigante na diplomacia. Em ano eleitoral, ele defende que não só o café, mas todo o agro, “tenha mais praticidade e menos ideologia” e se aproxime da cultura, que comunica o que fala alto ao ser humano independentemente da nacionalidade.

Brasiliense de nascimento e capixaba de coração, Ferreira se autointitula “alguém sem inimigos” e aproveita sua facilidade de relacionar-se para fazer pontes e abrir portas para o café brasileiro com a ajuda de sua equipe no Cecafé, “enxuta, mas de primeiríssima linha”.

Há quatro anos à frente da instituição, ele lidou com as quebras de safra, consequência da geada que afetou lavouras cafeeiras em 2021; as exportações recordes de canéfora em 2024 e o tarifaço imposto pelos EUA ao café brasileiro em 2025, que acabou dando um “empurrãozinho” para a assinatura do Acordo Mercosul-União Europeia neste ano.

Nos últimos meses, visitou várias vezes a Ásia, continente em que o café tem conquistado mais adeptos a cada dia e que responderá pelo crescimento futuro da demanda pelo grão no mundo. Prova disso é a China, que já alcançou consumo de 6 milhões de sacas e superou a Itália, cujo volume está na casa de 5,5 milhões de sacas/ano. A seguir, a íntegra da entrevista.

Espresso: Você está prestes a completar meio século de carreira no setor de café. Como ingressou na área?

Márcio Ferreira: Comecei em 1977 no Grupo Tristão, empresa em que trabalho até hoje e que, no ano passado, completou 90 anos. Entrei como office boy, depois fui para área de exportação fazer serviços de desembaraço no porto. Em 1987, ingressei na área comercial, onde estou até hoje como diretor-superintendente.

E: Quando começou e como foi sua trajetória no Cecafé?

MF: Passei cerca de quatro anos como vice-presidente do Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV) e, posteriormente, fui presidente da instituição, que é associada ao Cecafé e cobre a cafeicultura capixaba. Dali, fui indicado para ser o novo presidente do Cecafé no final de dezembro de 2022 e estou indo para o meu quarto ano. O Cecafé responde por 97% das exportações de café do Brasil para o mundo. Dentre os associados, temos as principais cooperativas, que atuam no comércio exterior e no mercado interno, as multinacionais e as empresas nacionais, como a Tristão. Um dos nossos objetivos é oferecer aos produtores a melhor remuneração possível. O Brasil repassa mais de 90% do valor FOB aos cafeicultores, enquanto outras origens estão na casa de 75%, e há aquelas que repassam menos de 50%.

E: Como a sua experiência e o peso institucional do Cecafé têm se traduzido nas negociações comerciais e defesa do café brasileiro mundo afora?

MF: Tem sido extremamente positivo, porque o Cecafé é uma instituição de prestígio no exterior. Em janeiro, nosso diretor-geral, Marcos Matos, esteve em Berlim a convite da Associação Alemã de Café para eventos e ações da indústria alemã. O Cecafé combina os conhecimentos técnicos e acadêmicos do nosso diretor-geral com o meu na parte comercial e de relacionamentos, o que facilita as negociações do Brasil, que – necessariamente – passam pelos clientes.

A nossa equipe é enxuta, mas de primeiríssima linha, com o Eduardo Heron, como diretor-técnico, e a Silvia Pizzol, como a diretora de sustentabilidade, nos dando instrumentos para trabalhar. Neste cenário de mudança na geopolítica, EUDR e outras demandas da Europa, o Cecafé tem sido proativo. É um trabalho intenso de relacionamentos com autoridades em âmbito municipal, estadual, federal e global. Estamos sempre em Brasília com os ministros, Presidência da República, Itamaraty. Ano passado, estive 30 dias na Ásia. Primeiro, na China a convite da Apex-Brasil. Depois, fui para Indonésia e Malásia, quando o presidente Lula com seus ministros se reuniu com o presidente Trump para tratar da questão das tarifas. Foi um encontro extremamente importante, com vários setores representados ali, e o Cecafé estava presente. [Depois dessa reunião, os EUA anunciaram o fim de boa parte das tarifas impostas a produtos brasileiros].

Quando surgiu a EUDR, muitos a encararam como protecionismo, mas temos que olhar as oportunidades. Eles alegam que o consumidor quer saber se a área de onde vem o café tem desmatamento. Ok, nós aplaudimos isso, mas requeremos que as embalagens finais reflitam a realidade, o que hoje não ocorre.

Numa loja no exterior, você pega uma embalagem de café em que está escrito [origem] Colômbia, mas quando você escaneia o QR Code, vê que 50% daquele café é brasileiro. Se existe uma EUDR, uma legislação que exige a rastreabilidade do café no talhão, então é de direito do Brasil exigir que a embalagem final ou a cafeteria tenha transparência e demonstre que aquele café é brasileiro.

E: E as tarifas de 50% impostas pelos EUA no ano passado?

MF: Há crises que são verdadeiros presentes. Essa crise fez ressaltar aos olhos do consumidor norte-americano a importância dos cafés do Brasil, porque embora a embalagem não necessariamente diga que os cafés são do Brasil, isso ficou nítido. Inclusive, eu e o Marcos demos entrevistas à rede norte-americana – citando várias características do café brasileiro, que são diferentes das dos demais. Quando você tira o café brasileiro do mercado e aplica uma tarifa de 50%, você automaticamente obriga os importadores a buscarem cafés em outras origens, que não têm quantidade. Aí, o café bateu um novo recorde de preço. Desde que começou a história da tarifa, eu dizia em Brasília: “o tempo corre a nosso favor”. Logo depois que a tarifa foi implantada, o mercado estava em 260 centavos de dólar por libra-peso e foi para 430 centavos de dólar por libra-peso na Bolsa de Nova York.

E: O tarifaço norte-americano criou o ambiente para a assinatura do Acordo Mercosul-União Europeia?

MF: Certamente, teve um empurrãozinho das tarifas que o governo americano vem aplicando sobre todos os países, mas a gente já vinha trabalhando no acordo há 25 anos. Estamos falando do segundo maior bloco, com um PIB de US$ 22 trilhões, abaixo somente dos Estados Unidos, com US$ 29 trilhões. Os EUA estão com uma postura unilateral, protecionista, que não conversa com o que a União Europeia e nós pretendemos [conversar] – isso é o multilateralismo. Os Estados Unidos é líder como importador de café no Brasil, temos uma relação muito boa e queremos permanecer assim. Mas a União Europeia participa com 44% de tudo o que o Brasil exporta de café, e o acordo abre um potencial enorme pra nós.

E: Você está falando de solúveis?

MF: Sim. Há mais de 20 anos, o Brasil investiu em fábricas de café solúvel, que agregam valor à matéria-prima, mas o produto vem sendo sobretaxado pela União Europeia, com um imposto de importação de 9%. É lamentável ter clientes que outrora compravam café solúvel e, hoje, compram café em grãos, porque a tarifa é proibitiva. Enquanto isso, a União Europeia fechou acordos bilaterais com Colômbia, México, Equador, Vietnã, Índia e Indonésia, que não têm esse imposto de importação sobre o solúvel. Com isso, o crescimento do parque industrial de café solúvel nesses países foi enorme.

O Vietnã ultrapassou o Brasil na capacidade de produção de café solúvel. Hoje, nosso parque industrial está com uma ociosidade de 20%, sem considerar a tarifa americana de 50% sobre o café solúvel brasileiro. Se ela permanecer, a ociosidade vai para 35%. Isso requer muito trabalho para buscar novos clientes, reconquistar o nosso espaço, principalmente na Europa. Se não fossem os 9% de imposto, a participação [brasileira de solúvel] na Europa seria, no mínimo, de 35%, mas, infelizmente, é de 17%. Às vezes, é mais barato mandar conilon em grão para o Vietnã, produzir o solúvel lá e exportar para a Europa. Hoje, é mais barato mandar café do Brasil para Equador, Colômbia ou México e, de lá, exportar para os EUA. Mas temos indústrias que fazem sacrifício para exportar para os EUA, absorvem parte da tarifa, para não perder clientes de sete, oito anos e, às vezes, de décadas.

E: O fato de o Vietnã estar com um parque industrial de café solúvel maior que o nosso é uma ameaça?

MF: É uma ameaça, se nós não fizermos o dever de casa. Mas assinamos o acordo Mercosul-União Europeia e temos importantíssimos compradores de café solúvel do Brasil, fora os Estados Unidos e a Europa. Estou falando da Ásia, onde o solúvel é tarifado de 20% a 48%. Estive com o governo brasileiro nos países asiáticos para negociações bilaterais e retirada desses impostos. Tanto a Europa quanto a Ásia estão na direção do multilateralismo. Isso abre um diálogo para o Brasil dizer: “está na hora de vocês tirarem as tarifas para o café solúvel”. E, eventualmente, o Brasil terá que receber produtos que não são produzidos aqui, ou – mesmo que sejam – que possam entrar num regime de cota sem aplicação de imposto.

E: O que você acha do aumento do consumo de café na China?

MF: O consumo está crescendo em toda a Ásia. Segundo estudos, a população mundial vai saltar de 8 bilhões para 10 bilhões nas próximas décadas, e 100% do crescimento estará na Ásia e na África. A população da Europa está em declínio, a da América também. Já o consumo de café na China foi de mais de 6 milhões de sacas e ultrapassou o da Itália em 2025. Isso é um dado muito relevante, pelo tamanho da população chinesa. Tomar café está se tornando um hábito, uma cultura entre os jovens, que também gostam muito de laranja e de coco. Então, além do café convencional, as fábricas têm feito bebidas cafeinadas com estes ingredientes.

E: Com o Acordo Mercosul-União Europeia, o solúvel brasileiro passa a competir em pé de igualdade com outras origens?

MF: Vai levar um pouco de tempo, porque esses 9% vão sofrer um desagravo durante quatro anos, da ordem de 2,25% ao ano. Isso, depois de implementadas todas as regras, e de o acordo ter sido ratificado país a país. Depois disso, o Brasil estará em condições de igualdade. Mas sempre advogo que temos que ser mais agressivos, e começar a participar mais do mercado europeu. Temos ociosidade de produção, então, mesmo se as indústrias venderem com zero de margem, realizarão um bom negócio porque otimizarão as fábricas com produção total, reduzindo o custo por quilo produzido.

E: Existe alguma perspectiva de redução da tarifa dos Estados Unidos para o café solúvel brasileiro?

MF: Sim. O Vietnã está tarifado em 20%; o Brasil, em 50%. É uma diferença de 30%. O Cecafé tem dialogado com a Abics [Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel], com as instituições em Brasília, junto à própria NCA [National Coffee Association], nos Estados Unidos, e com os dois principais compradores de café solúvel americanos. Existe uma perspectiva, mas talvez demore mais do que a gente esperava por causa das questões geopolíticas.

E: Como você avalia o movimento das exportações brasileiras de cafés sustentáveis? A demanda global e a quantidade ofertada pelo Brasil vêm aumentando?

Sim, tem aumentado. O Brasil tem um Código Florestal rígido. Nossos cafés são extremamente sustentáveis, se concentram em pequenas propriedades, é um universo de produtores. Muitas vezes, para que sejam ratificados como sustentáveis, trazem uma certificação, como 4C, Rainforest, Fair Trade. O café sustentável não necessariamente será de extrema qualidade. Mas não existe café de qualidade ruim. Existe café que não se adequa ao hábito do consumidor.

Nos Estados Unidos há as cafeterias e o consumo no lar. Entre a população americana, há um percentual enorme de hispânicos. Esta população consome uma bebida não tão fina, mas nem por isso abre mão de uma certificação. O mesmo ocorre com a Argentina, que tem todas as variedades de café. Na Europa, onde temos uma participação de 44% do café importado, o Brasil entrega um percentual cada vez maior de cafés sustentáveis. É comum ter cafés ratificados por esses certificadores, com seus produtores constantemente dedicados a produzir cada vez mais cafés sustentáveis. A empresa onde trabalho, por exemplo, é pioneira em café e sustentabilidade no Espírito Santo. Desde o ano 2000, trabalhamos com a maior fabricante de café do Japão, a UCC [Ueshima Coffee Co.]. Nosso investimento em qualidade e sustentabilidade alcança mais do que a família e a propriedade. Onde tem café, o IDH é melhor. Onde tem café com sustentabilidade, o IDH e os índices socioambientais são ainda melhores, e isso coloca o produtor na vitrine nacional e na internacional.

E: Em 2025, as exportações de café do Brasil tiveram recorde em receita cambial, embora tenham registrado queda em volume. O que esperar para este ano?

No ano passado tivemos uma queda de 20% em volume e um aumento de 24% em receita. Nos últimos anos, o Brasil teve problemas climáticos. Em 2021, tivemos a geada mais forte desde 1994. Também registramos temperaturas muito altas. Em 2024, batemos recorde de exportação de conilon por causa de problemas no Vietnã e na Indonésia. Neste ano, as condições climáticas estão favoráveis, tivemos boas chuvas em janeiro, o que favorece o enchimento do grão. A safra de arábica deve ter uma recuperação, e a de canéfora deve se manter igual ou ser um pouco maior. Possivelmente, tenhamos uma correção na Bolsa de Nova York para níveis mais realistas, do ponto de vista histórico.

E: Como o café brasileiro pode expandir ainda mais as fronteiras?

MF: Não só o café, mas o agro deveria ter menos ideologia e mais praticidade. Precisamos ser Cafés do Brasil, independentemente da ideologia que a pessoa tenha. Todos acordam de manhã, tomam seu café, falam de café. É isso que nos interessa. Precisamos também ser mais próximos da cultura, porque, assim, vamos nos aproximar dos elos, não só no Brasil, mas no mundo, que conversam entre si. O [publicitário] Nizan Guanaes faz críticas ao agro e ele tem razão. Quando você assiste a uma série colombiana na Netflix, vê propagandas do Juan Valdez, mas quando vê uma série brasileira, não vê Cafés do Brasil.

Existe uma pesquisa na Europa que mostra que a marca Cafés do Brasil é mais conhecida do que o próprio Brasil. Temos um desafio internacional. A Colômbia tem um olhar para o produto acabado e abriu uma loja em um shopping no Brasil – temos de aplaudi-los por isso. Segundo a liderança colombiana, o mercado brasileiro está no foco, e essa será a primeira de muitas lojas. O Brasil tem o produto acabado nas mãos de empresas, em sua maioria não brasileiras. Entendo que precisamos produzir aqui o produto final, porque geramos empregos, agregamos valor e exportamos produtos com rastreabilidade. Produtos com matéria-prima 100% brasileira ou com alguma outra no blend, mas produzidos no Brasil para agregar valor – e não produzidos no exterior, com mais de 50% de café brasileiro, para depois serem pagos a custos elevados pelos próprios brasileiros.

E: Quais os principais desafios do setor?

MF: Hoje, o Brasil tem um problema logístico sério. Há navios no porto do Vietnã que transportam, numa única viagem, toda a exportação de conilon do Brasil para o mundo em um ano. Veja o quão atrasados estamos. Nossa logística é deficitária da lavoura ao navio – precisamos de ferrovia, de portos. Na década de 1980, tínhamos um armazém em Bauru, e todo o café seguia por trem até o porto de Santos ou de Paranaguá [no Paraná]. Quarenta e cinco anos depois, nem sequer temos ferrovia – regredimos.

A boa notícia é o advento dos novos portos, principalmente o porto de Imetame, no Espírito Santo. Atualmente, Santos é o maior porto da América Latina, recebendo navios da ordem de 10 mil contêineres. O porto de Imetame e outros do parque logístico do Espírito Santo receberão os maiores navios do mundo, com até 25 mil contêineres. Isso vai ajudar o Brasil mas, obviamente, só o porto não basta. Precisamos de estrutura terrestre e, principalmente, de ferrovias, porque o consumo de café vai crescer nos próximos anos.

Outro desafio é tributário, juros altos, financeiro. Como captar dinheiro com nossas taxas de juros e gerar negócios futuros, se os mesmos futuros têm deságios, que chegam a 20% em dólar ao ano? Da parte do governo, [a solução é] intensificar as políticas econômicas para que não tenhamos uma despesa tão maior do que as receitas como tem acontecido, o que leva o Banco Central a manter taxas de juros altas. Na questão tributária, o mais importante é ter clareza de qual tributo está sendo pago, respeitando um limite de pagamento de tributos, porque a atividade do café precisa ser remuneradora.

Texto originalmente publicado na edição #91 (março, abril e maio de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Lívia Andrade • FOTO Agência Ophelia

Mercado

Degustação e bate-papo sobre cafés do Cerrado acontecem sábado (18) na Casa Hario (SP)

A iniciativa, que prestigia IGs brasileiras, trará produtores e cafés de outras regiões até o fim de 2026; jantar harmonizado com a bebida fecha o primeiro encontro

A Casa Hario lança, neste sábado (18), uma série de degustações e encontros mensais com produtores para celebrar as indicações geográficas brasileiras de café. A ação faz parte do projeto Cafés de Origem, criado por Katia Nassuno, idealizadora da Casa Hario, que busca conectar cafeicultores e seus territórios a consumidores por meio de provas da bebida e workshops. 

A cada mês, o espaço, que reúne loja, cafeteria, bar e restaurante no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo, recebe um produtor e seus grãos. “Mais do que sediar ativações, atuamos como plataforma anfitriã e curadora de experiências, conectando origem e consumo de forma genuína”, diz Kátia. 

A região de estreia é o Cerrado Mineiro, primeira denominação de origem de cafés do país, representada pela Fazenda Três Meninas, do casal Marcelo e Ana Paula Urtado. Localizada em Monte Carmelo, a fazenda é referência mundial na produção de cafés regenerativos. No dia 18, das 10h às 12h, está programado um café da manhã com Ana Paula – acompanhada das filhas Malu e Fernanda, que, ao lado dela, são a razão do nome da propriedade – e degustação do arábica topázio, de processamento natural (100% ao sol), em três torras diferentes. 

“O Cerrado tem excelência em agricultura regenerativa para cafés, e quando o consumidor escolhe um café regenerativo, ele apoia a cadeia e incentiva a base produtora”, conta Ana Paula à Espresso

Ana Paula Urtado com suas filhas, Malu e Fernanda

Adepta há dez anos da prática, que restaura o solo e aumenta a biodiversidade, Ana Paula diz que a iniciativa é uma oportunidade de conversar sobre o tema com o público. “O conceito de qualidade em café evoluiu – já não é mais apenas como ele se apresenta na xícara, mas como ele foi produzido”, reforça ela. “Se você pode escolher um café bom com impacto positivo, por que não?”, provoca. 

O ingresso do encontro, com vagas limitadas, custa R$ 198 (mais taxas) no site Sympla.

O café da Fazenda 3 Meninas também está disponível a partir de sábado no cardápio da cafeteria, em sete métodos (como v60, sifão e surien), e será comercializado (em edição limitada) ao lado de mais dois representantes do Cerrado: um paraíso 2 natural do Guima Café, das fazendas São Lourenço (Patos de Minas) e Brasis (Varjão de Minas), no Alto Paranaíba – núcleo da produção cafeeira da D.O. –, e um novo mundo de fermentação induzida da Fazenda Tabatinga, em Indianópolis, de Alzira Mantovanelli.

Os cafés também entram no cardápio do jantar de 24 de abril (às 19h, por R$ 380). O menu, assinado pela cozinheira e cafeicultora Gabi Tropicana, à frente do restaurante Riacho Pequeno (Itu, SP), aposta numa cozinha caipira harmonizada com café e vinhos mineiros. Entre os pratos, arroz com requeijão moreno (queijo de corte, amarronzado e levemente adocicado, feito no fogão à lenha e típico de regiões como Vale do Mucuri), cupim prensado ao demi-glace de café, farofa e couve rasgada.

Até o fim do ano, a Casa Hario vai receber cafés e produtores das IGs Região do Pinhal (SP), Alta Mogiana (SP), Região Vulcânica (MG) e da Canastra (MG). As datas, a serem definidas, serão atualizadas no site da empresa e nas redes sociais.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Tão perto, tão longe: o café brasileiro e a América Latina

Por décadas, a cafeicultura brasileira manteve os olhos voltados para o Atlântico, de frente para o mar, como bem escreveu nosso colunista Gustavo Paiva em sua metáfora sobre nossa posição no mundo. Sempre orientados a exportar para Europa e Estados Unidos, deixamos a montanha — nossos vizinhos latino-americanos — em segundo plano.

Esta escolha fazia sentido quando o consumo interno da região era tímido e a lógica, apenas da escala, apontava para os mercados consolidados do Hemisfério Norte. Mas será que este paradigma permanece inabalável? Diante de um pano de fundo global em transformação — com cenário tarifário instável, novos arranjos geopolíticos redesenhando fluxos comerciais e a crescente percepção da máxima “não colocar todos os ovos na mesma cesta” —, talvez seja hora de perguntar: olhar para a América Latina ainda é apenas uma ideia simpática ou pode se tornar um movimento estratégico?

Os mercados da região continuam pequenos em termos absolutos. É preciso cuidado para não romantizar: enquanto a Europa concentra cerca de 30% do consumo mundial e países nórdicos chegam a 12 kg per capita por ano, o consumo da América Latina, com exceção do Brasil, ainda gira entre 1 e 3 kg. O consumo brasileiro está em 4,8 kg per capita, próximo dos Estados Unidos, mas em países como México (1,7 kg), Argentina (1,4 kg) e Chile (0,7 kg) ainda está em patamares modestos.

Mesmo assim, há sinais de dinamismo. A Colômbia evoluiu de 2,2 kg em 2019 para 3,08 kg per capita/ano em 2025. No Peru, o consumo interno está em cerca de 1,4 kg per capita/ano em 2025; o café solúvel no país segue dominante, concentrando 70 a 75% do montante, enquanto o moído já representa cerca de 20%. O mercado da América Latina tem uma taxa de crescimento entre 4% e 7,5% ao ano.

O ponto, portanto, é reconhecer que a América Latina também oferece caminhos de oportunidade. Os mercados vizinhos carregam vantagens competitivas claras: barreiras tarifárias menores, que reduzem custos de entrada; proximidade logística, que encurta prazos e barateia transporte; custos operacionais mais baixos, que aumentam a margem de competitividade; e, não menos importante, afinidade cultural, que facilita a construção de narrativas e marcas capazes de dialogar com os consumidores locais.

Essa proximidade não favorece apenas o comércio de café verde, mas abre também espaço para o café torrado e industrializado, com maior valor agregado e potencial de diferenciação para o consumidor.

Em Santiago, cafeterias de bairro já consolidam a presença do café especial; em Buenos Aires, o consumo per capita supera a média nacional, mesmo num país de tradição do mate; no Peru, cresce a disposição em pagar mais por qualidade. Essas mudanças mostram que a região pode se tornar um espaço estratégico para diversificação e construção de parcerias.

Mais do que exportar sacas ou pacotes de café, trata-se também de construir alianças. Como maior produtor do mundo, o Brasil tem um papel inescapável. Não é o caso apenas de aproveitar oportunidades, mas de liderar pelo exemplo. Fortalecer parcerias comerciais e colaborativas, trabalhar com países produtores em comércio justo e desenvolvimento econômico, assegurar que todos os agentes da cadeia sejam igualmente beneficiados: essa é a liderança que gera referência, confiança e estabilidade — e que projeta o Brasil tanto como fornecedor quanto articulador de um ecossistema.

No fim, a questão não é abandonar os grandes compradores do Hemisfério Norte, mas diversificar riscos, ampliar mercado e se posicionar. A região vizinha pode funcionar como um mercado de teste para marcas brasileiras, seja com cafés verdes ou com linhas de torrado e moído, em modelos mais próximos do consumidor final.

Oportunidades de posicionamento premium, parcerias de distribuição e novos canais tornam a América Latina um campo de negócio real e com escala crescente. E, ao mesmo tempo, o Brasil pode se posicionar como líder regional na agregação de valor, mostrando que não exporta apenas matéria-prima, mas também qualidade, sustentabilidade e inovação.

Texto originalmente publicado na edição #89 (setembro, outubro e novembro de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Caio Alonso Fontes • FOTO Eduardo Nunes
Popup Plugin