Mercado •

Mercado de café caminha para cenário de superávit, aponta Rabobank

Melhora do clima e recuperação das exportações brasileiras ampliam perspectivas de oferta, mas estoques no Japão e na Europa continuam reduzidos, segundo a Reuters

Por Cristiana Couto

O mercado global de café começa a substituir as preocupações com riscos climáticos e restrições de oferta pela perspectiva de superávit e recomposição dos estoques. A avaliação é do Rabobank, em relatório de setembro de 2026 divulgado na segunda-feira (19).

A melhora das condições climáticas no Brasil, Vietnã e Indonésia, associada à expectativa de aumento das exportações brasileiras, reduz os riscos para a safra 2027/28, embora persistam incertezas sobre o equilíbrio entre oferta e demanda.

A Safras & Mercado aponta na mesma direção. Em avaliação publicada em 2 de outubro, o analista Gil Barabach destaca a chegada da safra brasileira ao mercado e a melhora das perspectivas de abastecimento. O salto nos embarques brasileiros em agosto, quando foram exportadas 4,15 milhões de sacas, reforçou essa percepção.

Em setembro, as exportações brasileiras somaram 3,89 milhões de sacas, queda de 6,3% em relação a agosto, mas alta de 3,1% sobre setembro de 2025, segundo balanço divulgado pelo Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) em 9 de outubro. No trimestre de julho a setembro, os embarques cresceram 15,5% na comparação anual.

As exportações mundiais também cresceram. Segundo relatório da Organização Internacional do Café (OIC), divulgado em 9 de outubro, os embarques de café verde aumentaram 15,6% em agosto, para 10,94 milhões de sacas.

A OIC estima superávit mundial de 3 milhões de sacas no ano-cafeeiro 2025/26, depois de quatro anos de déficit. O volume equivale, porém, a menos de uma semana do consumo global.

A expectativa de maior oferta pressionou as cotações internacionais em setembro. Segundo o Rabobank, o arábica negociado em Nova York caiu 15,1%, enquanto o robusta em Londres permaneceu praticamente estável, com alta de 0,4% A recuperação dos preços no fim do mês não foi suficiente para reverter a queda do arábica.

“A recuperação no fim de setembro proporcionou um ponto de partida mais favorável para outubro, mas ainda não sinaliza uma reversão da tendência mensal de queda do arábica”, afirmou o analista Claudio Delposte no relatório.

No Brasil, as chuvas de setembro também favoreceram as perspectivas para a safra 2027/28. O Rabobank registrou precipitações superiores às médias históricas dos últimos 15 anos em todas as regiões produtoras analisadas, em um período importante para a floração e o desenvolvimento vegetativo das lavouras.

Estoques ainda reduzidos

Apesar das expectativas de maior oferta, os estoques de café verde no Japão e na Europa permanecem abaixo dos níveis de um ano antes.

Dados de associações do setor, compilados pela Coffee Trading Academy e divulgados pela Reuters nesta quarta-feira (21), mostram que o Japão armazenava 1,99 milhão de sacas de café verde em agosto, queda de 12,4% em relação ao mesmo mês de 2025 e o menor volume para agosto desde pelo menos 2022.

Na Europa, os estoques somaram 7,14 milhões de sacas, recuo anual de 16,8%. A redução, segundo a Reuters, foi ainda maior entre os arábicas naturais, cujos estoques caíram 25,6% (para 1,69 milhão de sacas), depois de três meses consecutivos de retração. Os estoques europeus de robusta somaram 3,03 milhões de sacas, queda de 16% na comparação anual.

TEXTO Cristiana Couto

Mercado •

Alemanha concentra um terço das importações de café da União Europeia

País se destaca como centro de processamento e redistribuição do grão, além de reunir o maior mercado consumidor de café da Europa

Por Cristiana Couto

Em 2025, a Alemanha recebeu 16,8 milhões de sacas de café (principalmente verde e torrado) vindos de fora da União Europeia, o equivalente a 34,4% do total dessas importações no bloco, segundo estudo da Federação Europeia do Café (ECF, na sigla em inglês). A Itália ocupou uma distante segunda posição, com 10,1 milhões de sacas, ou 20,7% do total.

Mais de 97% do café importado pela União Europeia chega na forma de grãos verdes, de acordo com o levantamento. Uma predominância que evidencia o papel da indústria europeia no processamento do produto antes de sua distribuição aos mercados consumidores.

A posição alemã reflete uma estrutura que vai além do abastecimento interno. O país reúne importantes portos de entrada, indústrias de processamento e uma rede de distribuição que atende a outros mercados europeus e internacionais.O estudo Economic Impact of Coffee in Europe, elaborado pela consultoria Europe Economics para a ECF e divulgado em junho de 2026, estima que a cadeia cafeeira alemã gere € 29,3 bilhões (R$ 165,4 bilhões) e sustente cerca de 517 mil empregos (dado este de 2023).

Da entrada ao processamento

Os portos de Hamburgo, Bremen e Bremerhaven desempenham papel central na entrada e na movimentação de café na Europa. Parte dos grãos recebidos segue para torrefações e outras unidades industriais alemãs; outra parcela é distribuída a países vizinhos.

A Alemanha também está entre os maiores polos europeus de torrefação. Em 2023, produziu cerca de 517 mil toneladas de café torrado, o equivalente a 8,6 milhões de sacas. A Itália apresentou volume ligeiramente superior, de 522 mil toneladas, ou 8,7 milhões de sacas.

Bremen abriga ainda duas grandes unidades de descafeinação, cada uma com capacidade superior a 1,7 milhão de sacas por ano. Além disso, o país figura entre os centros europeus de fabricação de café solúvel.

A importância alemã na redistribuição do produto aparece nas estatísticas da Organização Internacional do Café (OIC). Em 2025, o país liderou as reexportações mundiais de café, com 13,2 milhões de sacas, mais que o dobro das 5,94 milhões registradas pela Itália, segunda colocada. Países Baixos (5,14 milhões), Bélgica (4,97 milhões) e Espanha (3,29 milhões) vieram em seguida.

Entre os principais destinos das reexportações alemãs estão a Polônia, com 3,07 milhões de sacas, os Países Baixos (1,20 milhão), a França (983 mil) e os Estados Unidos (961 mil). Os volumes da OIC são expressos em equivalente de café verde e incluem diferentes formas do produto.

Um mercado consumidor consolidado

Além de seu peso comercial e industrial, a Alemanha é o maior mercado consumidor de café da Europa e o terceiro do mundo, atrás dos Estados Unidos e do Brasil. Em 2025, o consumo alemão alcançou 9,59 milhões de sacas, segundo a OIC, ante 5,85 milhões na Itália e 5,84 milhões na França.

O consumo por habitante – embora, por ser um mercado maduro, cresça lentamente – foi superior ao dos dois países: 6,79 kg na Alemanha, 5,95 kg na Itália e 5,12 kg na França. Entre 2005 e 2025, o consumo alemão avançou 7,6%, de 8,91 milhões para 9,59 milhões de sacas. No mesmo período, o aumento foi de 14,3% na França e de 6,8% na Itália.

A presença do café no cotidiano alemão também se reflete nos hábitos. Segundo levantamento divulgado pelo Centro de Promoção de Importações de Países em Desenvolvimento (CBI, na sigla em inglês), 89% dos alemães consomem café, e os consumidores da bebida tomam, em média, 3,4 xícaras por dia. O café filtrado permanece o preparo mais popular: 47% dos consumidores afirmam consumi-lo regularmente.

Em 2025, as vendas de café torrado no mercado alemão somaram aproximadamente 456 mil toneladas, queda de 1,5% em relação ao ano anterior, segundo a Associação Alemã do Café. Apesar da retração no volume, o faturamento cresceu 23,5%, para € 8,98 bilhões (R$ 50,7 bilhões).

Grãos e novos solúveis

O mercado alemão também passa por mudanças na forma de consumo. Segundo a Associação Alemã do Café, as vendas de café em grãos inteiros cresceram 130% entre 2015 e 2025, alcançando 193,8 mil toneladas no último ano. No mesmo período, as vendas de café moído recuaram 38%.

O avanço dos grãos acompanha a difusão das máquinas automáticas que moem o café no momento do preparo. Atualmente, cerca de um em cada três domicílios alemães possui um equipamento desse tipo.

O café solúvel também apresenta novas possibilidades de consumo. Embora responda por aproximadamente uma em cada dez xícaras consumidas no país, a categoria passa a incorporar produtos de maior valor agregado, como versões especiais de café instantâneo e concentrados líquidos.

Essas transformações ocorrem em um mercado de consumo relativamente estável, mas integrado a uma das maiores estruturas de importação, processamento e distribuição de café do mundo.

Fontes: Federação Europeia do Café (ECF), Economic Impact of Coffee in Europe (2026); Organização Internacional do Café (OIC), Coffee Trade Globe (dados de 2005 e 2025); Associação Alemã do Café (2026); Centro de Promoção de Importações de Países em Desenvolvimento (CBI, 2025)

TEXTO Cristiana Couto

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Safra de café do Vietnã deve ficar estável

Maior produtor mundial de robusta, país tem lavouras renovadas para compensar prováveis perdas climáticas provocadas por El Niño em 2026/27

Por Reuters (Hanói)

A produção de café do Vietnã deve permanecer estável na safra 2026/27, segundo representantes do setor. O aumento da produtividade de lavouras jovens e replantadas deve compensar as perdas provocadas por chuvas excessivas e pragas em algumas áreas do Planalto Central, principal região cafeeira do país, o maior produtor mundial de canéfora.

Segundo Trinh Duc Minh, presidente da Associação de Café de Buon Ma Thuot, na província de Dak Lak, as condições climáticas afetaram desigualmente as áreas produtoras da variedade robusta, e os melhores resultados de algumas lavouras ajudam a equilibrar a oferta.

A avaliação é mais cautelosa que a previsão divulgada em maio pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). O órgão estimou uma colheita de 32,5 milhões de sacas – alta de 2,5% em relação ao ciclo anterior. Desse total, 31,4 milhões seriam de robusta, avanço de 3%.

Além da renovação das lavouras, o USDA apontou que os preços elevados de 2024/25 estimularam a expansão da área plantada e dos investimentos de empresas privadas.

A preocupação do setor, porém, é quanto à safra 2027/28. O El Niño, que costuma provocar secas no Sudeste Asiático, pode reduzir a disponibilidade de água para irrigação e comprometer a próxima colheita, embora seja cedo ainda para dimensionar as perdas.

Na província de Gia Lai, a produtora Tran Thi Mai, que cultiva 2 hectares de café, teme dificuldades para irrigar já em fevereiro. Minh também prevê abastecimento insuficiente de água e alerta para o impacto de um El Niño severo sobre a produção.

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Safra brasileira impulsiona exportações e pressiona preços globais do café

Relatório da OIC aponta recorde dos embarques brasileiros de arábica para agosto e queda de 8,7% nos preços internacionais em setembro

Por Cristiana Couto

A chegada da nova safra brasileira ao mercado ajudou a impulsionar as exportações mundiais de café em agosto e pressionou os preços internacionais em setembro. Os embarques brasileiros de arábica do grupo dos naturais atingiram 2,92 milhões de sacas, o maior volume já registrado para um mês de agosto, segundo o último relatório, de setembro, da Organização Internacional do Café (OIC).

O volume superou os 2,26 milhões de sacas exportados pelo país em agosto de 2025 e ficou 6,6% acima do recorde anterior para o mês, de 2,74 milhões de sacas, registrado em 2020. Considerando todas as formas de café (verde, torrado e solúvel), as exportações brasileiras cresceram 34,5%, para 4,28 milhões de sacas. Foi o quinto mês consecutivo de alta na comparação anual, após uma sequência de 16 meses de retração.

O avanço brasileiro foi decisivo para o crescimento de 14,6% das exportações globais em agosto, que somaram 12,55 milhões de sacas. A América do Sul liderou a alta, com embarques de 5,98 milhões de sacas, aumento de 20,2% em relação a agosto de 2025. O Brasil respondeu, em média, por 72% das exportações da região nos cinco anos cafeeiros anteriores.

A Ásia e a Oceania também ampliaram os embarques, em 23,1% (4,03 milhões de sacas), enquanto a África e a região que reúne Caribe, México e América Central registraram quedas de 1,8% (1,74 milhão de sacas) e 14,3% (790 mil sacas), respectivamente. Apesar do crescimento expressivo em agosto, as exportações mundiais acumuladas desde outubro de 2025 avançaram apenas 1%, para 130,74 milhões de sacas.

Preços e consumo mais baixos

A maior disponibilidade de café brasileiro e a expectativa de oferta abundante contribuíram para a queda dos preços em setembro. O indicador composto da OIC, que acompanha os preços internacionais do café verde, recuou 8,7% em relação a agosto, para uma média de 262,18 centavos de dólar por libra-peso. Entre os grupos acompanhados pela organização, o dos arábicas naturais brasileiros teve a maior baixa, de 9,9%. Os robustas recuaram 7,3%.

A OIC também aponta uma expectativa de retração do consumo mundial em 2025/26, além de um superávit de 3 milhões de sacas, após quatro anos de déficit, como fatores de pressão sobre os preços. A folga, porém, é limitada: equivale a menos de uma semana de consumo global, segundo a organização.

Os baixos estoques certificados de arábica e as incertezas climáticas, porém, limitaram a queda dos preços. Em setembro, as chuvas favoreceram a floração dos cafezais brasileiros para a próxima safra, mas o calor no fim do mês e a continuidade das precipitações em outubro permaneceram no radar. Na América Central, o risco de seca em Honduras e na Nicarágua trouxe preocupação com a oferta de arábicas lavados.

Segundo o relatório, a entrada de café brasileiro também pode ajudar a recompor os estoques certificados de arábica, que, em meados de setembro, chegaram ao menor nível desde 1999.

Robustas em alta

Quanto aos embarques de café verde, os robustas deram a maior contribuição para o crescimento mundial em agosto, seguidos pelos arábicas naturais brasileiros. As exportações globais de robusta aumentaram 22,4%, para 4,36 milhões de sacas, impulsionadas principalmente pelo Vietnã e pelo Brasil. Os dois países embarcaram, respectivamente, 1,78 milhão e 960 mil sacas, altas de 69,2% e 54,9% em relação a agosto de 2025.

Nos primeiros 11 meses do ano cafeeiro 2025/26, de outubro a agosto, as exportações mundiais de robusta somaram 45,59 milhões de sacas, um avanço de 11,8%. Desse total, 5,29 milhões de sacas foram embarcadas pelo Brasil.

As exportações mundiais de arábica também cresceram em agosto, em 11,6%, para 6,58 milhões de sacas. O avanço, contudo, foi menor que o dos robustas. No acumulado dos primeiros 11 meses do ano cafeeiro, a participação dos arábicas nos embarques de café verde caiu de 63,5% para 59,6%, informa o relatório da OIC.

O grupo dos arábicas naturais brasileiros exportou 3,57 milhões de sacas em agosto, alta de 21,3% em relação ao mesmo mês de 2025. Apesar da recuperação, foi apenas o segundo mês de crescimento nos últimos 11 meses, na comparação anual. No acumulado do período, os embarques do grupo ainda recuaram 11,6%, para 33,24 milhões de sacas.

As exportações mundiais de café solúvel cresceram 8,1% em agosto, para 1,56 milhão de sacas, em relação a 1,44 milhão no mesmo mês de 2025. O Vietnã liderou os embarques no mês, com 430 mil sacas. No acumulado de outubro a agosto, o produto representou 12,6% do volume total exportado.

Na produção mundial, os robustas também vêm ganhando espaço. A OIC estima que sua participação tenha alcançado 43,1% no ano cafeeiro 2025/26, diante de uma média de 41,7% nos dois anos anteriores. Segundo a organização, essa maior presença, os preços relativos de arábicas e robustas e mudanças nas preferências de parte dos consumidores podem ajudar a explicar a nova composição das exportações.

TEXTO Cristiana Couto

Cafezal • Mercado •

Conheça os campeonatos e premiações da SIC 2026

Do Coffee of the Year ao Campeonato Brasileiro de Barista, o evento sedia algumas das principais competições do universo do café no Brasil

Entre os maiores destaques da Semana Internacional do Café (SIC) este ano, estarão algumas das principais competições do universo do grão no Brasil. O evento, que acontece na Expominas, em Belo Horizonte (MG), volta a reconhecer na edição de 2026 produtos e profissionais que integram toda a cadeia produtiva e comercial do café.

Ao longo da programação, entre os dias 11 e 13 de novembro, produtores, baristas, torrefadores, classificadores, além de marcas e profissionais do setor, terão oportunidades para demonstrar excelência, compartilhar conhecimento e ampliar sua visibilidade no mercado nacional e internacional.

Veja a seguir as principais premiações que acontecem na SIC este ano e que, além de revelar novos talentos e consolidar projetos de sucesso, ajudam a valorizar diferentes origens e a fortalecer a inovação na cafeicultura brasileira.

Coffee of the Year

A premiação reconhece alguns dos melhores cafés do Brasil, que se destacam pela qualidade e diversidade, valorizando diferentes origens e produtores brasileiros. Criado em 2012, o Coffee of the Year contempla arábica e canéfora, as duas principais espécies produzidas no país, aproximando os cafés finalistas de compradores, torrefadores e profissionais do mercado por meio das Salas de Cupping da SIC.

Premiação Coffee of the Year em 2025

Espresso Design

Em sua 8ª edição, o concurso de embalagens destaca a importância do design na construção e na promoção da identidade das marcas de café. Promovida pela Revista Espresso, a iniciativa valoriza criatividade, conceito, identidade visual e soluções que contribuem para a experiência do consumidor. Ao longo dos dois primeiros dias da SIC, o público poderá votar em uma das 20 embalagens expostas no evento, aproximando profissionais de café e design e apresentando ao mercado tendências para a comunicação do produto.

Golden Cup Brasil

O evento premia os melhores cafés Fairtrade de pequenos produtores e produtoras de diferentes regiões do país, que seguem padrões de comércio justo. Realizado pela Coordenadora Latino-Americana e do Caribe de Pequenos Produtores e Trabalhadores de Comércio Justo (CLAC), em parceria com a BRFAIR, o concurso dá visibilidade às pequenas cadeias produtivas de cafés arábica e canéfora, estimulando a melhoria contínua da qualidade, a sustentabilidade e a agregação de valor à produção.

Florada Premiada

No Ano Internacional da Mulher Agricultora, a SIC sedia um dos principais concursos do país dedicados às mulheres cafeicultoras, promovido pelo Grupo 3corações, em parceria com a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA). Ao reconhecer a qualidade dos cafés arábica e canéfora produzidos por mulheres, a premiação chega à sua 9ª edição fortalecendo o protagonismo delas na produção brasileira, com mais de 50 pontos de coleta de amostras em regiões produtoras do Brasil.

Premiação Florada Premiada em 2025

Torrefação do Ano Brasil

A competição dedicada à qualidade e consistência da atividade propõe aos participantes desenvolver um perfil próprio de torra a partir de um mesmo lote de café verde. Organizada pela Atilla, a 5ª edição do Torrefação do Ano Brasil reúne representantes de diferentes regiões do país em uma etapa decisiva, que acontece durante a SIC.

Campeonato Brasileiro de Blends de Café

A competição valoriza o conhecimento técnico e a criatividade de profissionais envolvidos na criação de blends, destacando o trabalho de classificadores, degustadores e mestres de torra. A final do campeonato, criado pela Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), ocorre na SIC e vai avaliar o trabalho dos profissionais na combinação de diferentes cafés para a construção de perfis sensoriais equilibrados e consistentes.

Campeonato Brasileiro de Barista

Maior competição de baristas do Brasil, o evento realizado pela BSCA reúne na SIC profissionais de diferentes regiões do país. Os participantes precisarão preparar espressos, bebidas com leite e drinques autorais, em uma disputa que reconhece os profissionais de destaque do barismo nacional. O campeonato funciona como etapa de qualificação internacional, levando o campeão brasileiro ao Mundial de Barista.

Premiação Campeonato Brasileiro de Barismo (categoria Latte Art) em 2025

Concurso NossoCafé

A iniciativa destaca produtores que dedicam atenção específica à qualidade e ao cuidado na produção de cafés especiais, valorizando o trabalho no campo e a adoção de boas práticas de manejo e nutrição, que contribuem para o desenvolvimento sustentável da cafeicultura. Promovido pela Yara, empresa global de nutrição mineral de plantas e soluções agrícolas sustentáveis, o concurso, além de premiar os produtores, fortalece a conexão entre qualidade, conhecimento técnico e valorização da origem.

Prêmio ATeG

A premiação, promovida pelo Sistema CNA/Senar e destacada pelo Sistema Faemg Senar, reconhece todo ano produtores rurais, técnicos de campo e supervisores que se destacam pelos resultados de produtividade e gestão no campo. O objetivo é valorizar a transformação de propriedades rurais, por meio da orientação técnica e gerencial, em negócios mais eficientes e sustentáveis.

Serviço
Semana Internacional do Café
Quando: 11 a 13 de novembro, das 10h às 19h
Onde: Expominas (avenida Amazonas, 6.200 — Gameleira — Belo Horizonte, MG)
Mais informações e credenciamento: https://semanainternacionaldocafe.com.br/

TEXTO Equipe Espresso • FOTO NITRO/Semana Internacional do Café

Mercado •

Espresso #93 debate o futuro do café diante da emergência climática

Às vésperas dos 300 anos do café no Brasil, a cafeicultura começa a construir sua próxima agenda global. Esta edição, que circula durante a Semana Internacional do Café, lança um olhar sobre alguns dos caminhos que podem definir esse futuro.

Na entrevista, Vanusia Nogueira, primeira mulher e primeira brasileira a dirigir a Organização Internacional do Café, aborda mudanças climáticas, novos mercados consumidores, inovação e a necessidade de aproximar governos, empresas e instituições para enfrentar os desafios do setor. A reportagem de sustentabilidade, produzida pela 5th Wave, mostra como a cadeia pode responder à emergência climática e liderar mudanças capazes de conciliar ecologia, economia e equidade.

A edição acompanha também transformações já em curso. Mostramos como cresce o número de cafeicultores que criam marcas próprias para agregar valor à produção e ampliar sua renda, e como a revisão de protocolos tradicionais procura atualizar a linguagem usada para avaliar e comunicar a qualidade do café. Viajamos ainda ao Panamá para contar como o gesha projetou uma pequena origem entre as mais valorizadas do mundo.

Boa leitura,
Equipe Espresso

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Seca eleva prêmios do café da América Central ao maior nível em três anos

Oferta de arábica pode cair mais que o previsto em Honduras e Guatemala, que concentram dois terços da produção da região

Por Reuters (Londres e Cidade do México)

Os prêmios pagos pelo café arábica da América Central atingiram o maior nível em cerca de três anos. A alta — o prêmio é o valor adicional pago em relação à cotação de referência na bolsa internacional — reflete os efeitos da seca associada ao El Niño, que teve seu pico entre julho e agosto no chamado Corredor Seco, faixa que atravessa Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicarágua.

Marcada por estiagens prolongadas, muitas vezes seguidas de chuvas intensas, a região enfrenta também uma crise na produção de alimentos. Agências humanitárias alertaram para o risco de insegurança alimentar depois que agricultores de subsistência e pequenos produtores – entre 3 milhões e 5 milhões de pessoas – sofreram fortes perdas nas lavouras de feijão e milho. Por ser uma cultura perene, o café tende a ser menos afetado pela seca, mas sua oferta também está sob pressão.

Os prêmios refletem diferenças de qualidade no café, mas também a relação entre oferta e demanda. Especialistas afirmam que os valores elevados na América Central, responsável por 15% da oferta global de arábica, estão estabelecendo um piso para os preços futuros do café no mercado internacional.

Dados da Reuters mostram que os prêmios pagos pelos cafés dos quatro países afetados estão nos maiores níveis, ou próximos deles, em mais de três anos.

Previsões iniciais de produção de arábica em Honduras e na Guatemala para 2026/27 apontam queda de 7% e 10%, respectivamente. Os dois países, responsáveis por dois terços dos grãos da América Central, afirmam, porém, que as perdas podem ser maiores.

“A América Central está excepcionalmente seca. [Isso] pode ser nosso primeiro indício dos possíveis efeitos de um El Niño severo”, afirma Marc Schonland, consultor independente de café.

TEXTO Redação

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SIC 2026 terá Summit dedicado às mulheres do agro e do café

Programação acontece no último dia do evento e integra as ações do Ano Internacional da Mulher Agricultora

Sandra Lelis, do Sítio Caminho da Serra, em Araponga (MG), que estará no talk “Excelência que inspira: as histórias das produtoras de cafés campeões”

A Semana Internacional do Café (SIC) deste ano terá, entre as novidades, o Summit Mulheres, programação temática dedicada à atuação feminina na cafeicultura e no agronegócio. O encontro acontece em 13 de novembro, terceiro e último dia do evento, a partir das 10h, na Arena SIC, no Expominas, em Belo Horizonte (MG).

A iniciativa, composta por palestras, painéis e talks com produtoras, pesquisadoras e lideranças do agro e do café, integra as ações do Ano Internacional da Mulher Agricultora, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) para 2026. A mobilização busca dar visibilidade à participação das mulheres nos sistemas agroalimentares e ampliar seu acesso a recursos como terra, financiamento, tecnologia, capacitação e espaços de decisão.

A palestra magna de abertura do Summit, “As mulheres que estão transformando o agro brasileiro”, será feita por Tania Zanella, primeira mulher a assumir a presidência-executiva do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), que reúne e representa as cooperativas brasileiras.

Entre os destaques do dia está o painel “Histórias e lideranças femininas do grão à xícara”, às 11h40, com Isabela Raposeiras, fundadora do Coffee Lab, em São Paulo; Poliana Perrut, cafeicultora e engenheira agrônoma que atua com assistência técnica nas Matas de Rondônia; e Mariselma Sabbag, presidente da Aliança Internacional das Mulheres do Café (IWCA Brasil).

Às 14h20, produtoras premiadas no Coffee of the Year participam do talk “Excelência que inspira: as histórias das produtoras de cafés campeões”. Participam Sandra Lelis, do Sítio Caminho da Serra, em Araponga (MG), vencedora na categoria arábica em 2017 e em fermentação induzida em 2021; Carolinna Bridi Gomes, da Fazenda São Bento, em Santa Teresa (ES), campeã entre os canéforas em 2025; e Larissa Sodré de Paula, do Sítio Café da Sophia, em Alto Jequitibá (MG), vencedora na categoria arábica em 2022.

A programação inclui ainda painéis sobre ciência, tecnologia e sustentabilidade; sucessão, gestão e empreendedorismo; e os impactos de acontecimentos globais sobre os negócios do café.

Serviço
Semana Internacional do Café
Quando: 11 a 13 de novembro, das 10h às 19h
Onde: Expominas (avenida Amazonas, 6.200 — Gameleira — Belo Horizonte, MG)
Mais informações e credenciamento: https://semanainternacionaldocafe.com.br/

TEXTO Equipe Espresso

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SIC 2026 abre celebrações dos 300 anos de café no Brasil e debate futuro do grão

Evento, que acontece de 11 a 13 de novembro em Belo Horizonte (MG), celebra ainda o protagonismo de agricultoras mulheres

A Semana Internacional do Café (SIC), maior encontro de café do Brasil e um dos principais eventos do setor no mundo, chega à sua 14ª edição em 2026 celebrando a longa história do grão no país. E o evento abre oficialmente, em novembro, as comemorações dos 300 anos dessa trajetória no país, que se completam em 2027.

De 11 a 13 de novembro, na Expominas, em Belo Horizonte, o evento recebe mais de 200 expositores e reúne produtores, pesquisadores, empresas, compradores e instituições com um olhar para os temas que estão definindo o futuro do setor: entre eles, mudanças climáticas, competitividade, ciência, tecnologia, inteligência artificial, novas regulações e acesso a mercados.

Com o tema “Às vésperas dos 300 anos do café no Brasil: construindo a próxima agenda global”, serão três dias de diálogos e debates sobre produção e sustentabilidade, inovação, genética, biotecnologia, digitalização, novas oportunidades de geração de renda para o produtor e as transformações que já impactam o mercado mundial. Um ciclo de comemoração que se encerra apenas no ano seguinte, na SIC 2027.

“O Brasil construiu uma posição de referência mundial no café, e a SIC 2026 tem justamente esse papel de reunir toda a cadeia, colocar os principais temas na mesa e ajudar a construir os próximos passos. O tema deste ano nasce daí. Olhar para a nossa história, entender os desafios do presente e discutir qual será a próxima agenda global do café”, afirma Caio Alonso Fontes, sócio da Espresso&CO, uma das organizadoras do evento.

A dimensão internacional da SIC 2026 estará presente desde a abertura da programação, que conta com a diretora-executiva da Organização Internacional do Café (OIC), Vanusia Nogueira. Na palestra magna, Nogueira vai abordar as transformações da cafeicultura mundial, o papel do Brasil e a cooperação entre países produtores, indústria, mercado e organismos internacionais.

Além de temas como competitividade global, mudanças climáticas e inovação, um dos focos da SIC 2026 são as novas possibilidades de geração de renda para o produtor, a partir da bioeconomia, energia, aproveitamento de resíduos e subprodutos, carbono, biodiversidade, turismo e processamento. A expectativa é receber cerca de 25 mil visitantes de mais de 40 países, movimentando R$ 170 milhões em negócios. Veja a programação no site.

Vitrine global

Com safra recorde estimada em 33,4 milhões de sacas no estado em 2026, Minas Gerais, maior produtor brasileiro do grão, chega à edição deste ano em cenário de expectativa positiva para a produção de arábica. Segundo Antônio de Salvo, presidente do Sistema Faemg Senar, um dos realizadores da SIC 2026, o resultado demonstra a resiliência dos produtores diante dos desafios dos últimos anos, assim como a importância da tecnificação do setor.

“A SIC 2026 é uma oportunidade para projetarmos o futuro da cafeicultura nacional e valorizarmos os produtores que estão por trás dessa atividade. Somos líderes mundiais na produção de um dos grãos mais apreciados do planeta, e a feira amplia o acesso a conhecimento e oportunidades de negócios, contribuindo para que nossos cafeicultores avancem e conquistem novos mercados”, afirma Salvo.

O secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento em exercício, João Ricardo Albanez, destaca a importância do evento como vitrine de Minas Gerais para o mundo, contribuindo para que o estado continue ocupando lugar de destaque no cenário mundial do café.

“A cafeicultura é uma das grandes forças econômicas e sociais de Minas Gerais. Está presente em centenas de municípios, reúne produtores de diferentes perfis e escalas, gera emprego e renda e movimenta uma cadeia produtiva que leva a qualidade, a diversidade e a identidade dos cafés mineiros para o Brasil e para o mundo”, declara Albanez.

Novidades e mercado

O Summit Mulheres será uma das principais novidades da edição 2026, abordando liderança feminina, sucessão, gestão e empreendedorismo em pleno Ano Internacional da Mulher Agricultora. A programação inclui ainda eventos tradicionais da SIC, como o DNA Café, o Fórum da Cafeicultura Sustentável, o Campeonato Brasileiro de Barista e premiações como Coffee of the Year, Florada Premiada, Espresso Design e Torrefação do Ano.

Aproximando a cadeia produtiva de compradores nacionais e internacionais nas Rodadas de Negócios, o evento coloca em contato produtores, cooperativas, indústria, exportadores, torrefadores, compradores, pesquisadores e instituições. Enquanto isso, as Salas de Cupping dão sabor e aroma aos três dias do evento, com cafés vindos de origens como Espírito Santo, Cerrado Mineiro e Campo das Vertentes, entre várias outras.

“A Semana Internacional do Café se consolida a cada ano como uma vitrine de tendências da cafeicultura mundial. Em 2026, o evento resgata os 300 anos do café no Brasil, destacando seu protagonismo no passado e no presente, mas, sobretudo, sua responsabilidade para um futuro mais colaborativo e regenerativo do setor”, destaca Marcelo de Souza e Silva, presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae Minas.

A Semana Internacional do Café 2026 será realizada pela Espresso&CO, Sistema Faemg Senar, Sebrae Minas e Governo de Minas Gerais.

Premiações Coffee of the Year e Espresso Design

A SIC será novamente palco de algumas das principais premiações do universo do grão. Entre elas, o Coffee of the Year apresenta alguns dos melhores cafés do Brasil e seleciona os destaques do ano. Para participar, produtores brasileiros podem inscrever seus cafés até o dia 5 de outubro nas categorias arábica ou canéfora, por R$ 200. As amostras (3 kg), juntamente com a ficha, devem ser enviadas para o Centro de Excelência em Cafeicultura do Senar. Confira aqui o regulamento da edição e o link de inscrição.

Em sua 8ª edição, o prêmio Espresso Design segue destacando a importância do design na construção e na promoção das marcas de café. As marcas podem se inscrever de forma gratuita e enviar seus pacotes para a comissão do concurso até 9 de outubro – veja o regulamento. Nos dois primeiros dias da SIC, o público poderá votar em uma das 20 embalagens mais bem avaliadas, que ficarão expostas no evento. Preencha aqui o formulário de inscrição.

As duas premiações acontecem no último dia do evento (13), no Grande Auditório.

Credenciamento

O credenciamento para a SIC 2026 já está aberto. Nos dias 11 e 12 de novembro, o evento será voltado aos profissionais do setor, enquanto o dia 13 também receberá consumidores finais. Produtores com CNPJ ou código rural e cooperados Sicoob têm entrada gratuita. O credenciamento e mais informações sobre o evento estão disponíveis no site da SIC 2026.

Semana Internacional do Café
Quando: 11 a 13 de novembro, das 10h às 19h
Onde: Expominas (avenida Amazonas, 6.200 – Gameleira – Belo Horizonte, MG)
Mais informações e credenciamento: https://semanainternacionaldocafe.com.br/

FOTO NITRO/Semana Internacional do Café

Mercado •

O novo ritual do café no Japão

Impulsionado por consumidores curiosos e estabelecimentos independentes, o país asiático vive uma transformação no café especial, marcada por rastreabilidade, experiência e valorização da delicadeza na xícara

Por Gabriela Kaneto

Por décadas, o Japão esteve associado ao consumo de café de torra escura e aos kissatens silenciosos. Mas o cenário mudou, com consumidores mais jovens e profissionais ligados às tendências globais redesenhando essa relação por meio de cafés mais claros, mais ácidos e mais complexos, apresentando ao restante da nação um novo leque sensorial da bebida.

Hoje, o país é o quarto maior importador de café do mundo. Segundo dados da All Japan Coffee Association (AJCA), em 2025 foram importadas 359 mil toneladas de café verde (cerca de 5,98 milhões de sacas) de diversas origens, incluindo Brasil, Vietnã e Colômbia. Parte desses grãos vão para cafeterias e torrefações independentes, que, para além de pontos de consumo, veem seu negócio como um espaço de identidade, estilo e, principalmente, experiência.

Para o barista brasileiro Boram Um, campeão mundial e fundador da torrefação ULT Coffee Roasters, em Osaka, o Japão ocupa hoje uma posição central na cultura global dos cafés especiais. “O país é líder em termos de tendência em consumo de café especial, na Ásia e no mundo”, acredita. “Países como Coreia do Sul, China e Taiwan olham muito para o Japão como referência de experiência, design e cafés”, detalha.

Boram Um, da ULT Coffee Roasters

Transformação do paladar japonês

Considerado um mercado sofisticado, o Japão tem recebido a inovação com menos cautela e mais curiosidade. “O perfil de compra das torrefações japonesas é bastante criterioso e orientado por consistência, qualidade e previsibilidade”, aponta Anderson Kagawa, fundador e head de operações da Eldorado Japan, parceira oficial da produtora e exportadora mineira Eldorado Specialty Coffees.

Há seis anos no Japão e cinco no café, o brasileiro observa que o mercado japonês valoriza cafés capazes de entregar estabilidade ao longo do tempo, tanto em perfil sensorial quanto em regularidade de fornecimento. “Isso é especialmente importante para operações voltadas ao consumo diário, em que o público espera encontrar sempre o mesmo padrão na xícara.”

Nesse contexto, cafés de perfil mais clássico – com notas de chocolate e caramelo, boa doçura e corpo elevado – seguem com demanda sólida. “São amplamente utilizados como base para espressos e blends”, explica.

Mas as coisas estão mudando. Segundo Kagawa, há um interesse crescente por cafés sensorialmente mais complexos, geralmente microlotes ou ofertas sazonais. “As torrefações buscam diferenciação por meio de origens específicas, variedades e processos pós-colheita inovadores, capazes de proporcionar perfis mais expressivos”, analisa.

Anderson Kagawa, fundador e head de operações da Eldorado Japan

Nesse movimento, ele destaca a rastreabilidade como fator importante no momento da compra. “Informações claras sobre origem, produtor, variedade e processo são cada vez mais valorizadas, não apenas como diferencial, mas como parte da proposta de valor.”

A nova geração e a curiosidade sensorial

Na tradição japonesa baseada nos kissatens – cafeterias com atmosfera retrô, mesas e decoração em madeira, porcelanas vintage e menu clássico –, torras escuras do grão sempre predominaram. Por isso, características como amargor e corpo podem ser familiares e reconfortantes para muitas pessoas. Mas, nos últimos anos, o perfil transformou-se. “Mais clientes estão dispostos a experimentar cafés de processo natural, com torras mais claras, ou espressos de origem única – coisas que até recentemente eram nicho”, observa Keita Nakamura, mestre de torra e COO da LiLo Coffee Roasters, em Osaka.

Em mais de uma década no setor, Nakamura vê que este é um movimento puxado por jovens entre 20 e 30 anos, que conhecem métodos de processamento e origens específicas. “As redes sociais tiveram um papel importante, mas o crescimento da cultura gastronômica e das bebidas artesanais elevou o nível de exigência sobre o que se espera de uma xícara de café”, comenta. Já clientes mais velhos tendem a ser fiéis a sabores familiares, e mais céticos em relação a torras claras. “Quando os mais velhos passam a consumir café especial, se tornam profundamente engajados. O ponto de entrada só precisa ser mais suave”, destaca.

Keita Nakamura, mestre de torra e COO da LiLo Coffee Roasters, em Osaka

Ainda assim, o COO da LiLo Coffee Roasters não acha que torras escuras vão desaparecer. “Elas fazem parte do DNA do café japonês. O que vejo é uma ampliação de repertório”, opina. Para Nakamura, seus clientes querem poder escolher o que beber em diferentes momentos. “Um filtrado etíope leve pela manhã e um espresso intenso e escuro à tarde, por exemplo. Não é substituição, é adição”, comenta.

A preferência por perfis clássicos ainda é forte, sobretudo em espressos, blends e cafés voltados ao consumo diário. Em paralelo, porém, Kagawa observa um interesse maior das torrefações especialmente para métodos filtrados e por cafés mais complexos, com acidez mais pronunciada e notas frutadas e florais. “A diversidade sensorial tem crescido de forma expressiva no Japão, com a presença cada vez mais frequente de origens já reconhecidas por esses perfis, como Etiópia, Quênia, Colômbia e Panamá”, analisa.

Para Boram Um, o Japão vive hoje um encontro entre tradição e novo repertório sensorial. “O consumidor japonês, de modo geral, ainda está acostumado a cafés com baixa acidez e prefere torras mais escuras”, afirma. “Mas a tendência de torras mais claras é hoje muito forte, principalmente sob influência das torrefações nórdicas.”

Em Hyogo, na região de Kansai, no centro-oeste do Japão, Keita Mori, proprietário e mestre de torra da Cinema Coffee Roasters, compartilha a mesma percepção: “Há uma tendência crescente em explorar diferentes sabores e estilos, sem se prender a expectativas tradicionais”. Para ele, a expansão do café especial trouxe diversidade de sabores disponíveis e, por sua vez, o interesse e a curiosidade por perfis mais leves e frutados. “Em nossas lojas, clientes que antes preferiam torras escuras descobrem o valor das torras mais claras”, destaca. Ainda assim, Mori afirma que as torras escuras não vão desaparecer. “Elas têm seu próprio valor, e ambos os estilos continuarão coexistindo”.

Keita Mori, proprietário e mestre de torra da Cinema Coffee Roasters

Hoje em dia, grande parte do público da Cinema Coffee Roasters deixou de valorizar apenas o sabor e passou a observar também as informações por trás dos cafés que escolhem. “Mais pessoas prestam atenção à origem, variedade, processamento e às histórias dos produtores. Para clientes mais engajados, a rastreabilidade é um fator muito importante e frequentemente influencia a decisão de compra”, reforça.

Para aqueles que ainda não estão familiarizados com os cafés especiais, este nível de detalhamento pode parecer um pouco intimidador. Para quebrar essa barreira, Mori adaptou sua comunicação a uma linguagem mais natural e faz eventos que oferecem trocas de experiências entre consumidores e pessoas do mercado. “Organizamos o Coffee Omnibus, onde convidamos torrefadores de diferentes regiões e oferecemos aos clientes a oportunidade de provar e comparar uma ampla variedade de cafés”. Ao experimentarem diferentes torrefações em um só lugar, diz ele, as pessoas descobrem suas preferências e entram em contato com novas perspectivas. “Essas vivências frequentemente mudam a percepção das pessoas e isso vem expandindo gradualmente a cultura do café no Japão”.

O café como experiência

Omakase e omotenashi são conceitos fortes na cultura japonesa. O primeiro, traduzido para algo como “confio no chef ”, é um estilo de menu-degustação em que o cliente entrega ao profissional a responsabilidade de escolher e preparar os melhores pratos do dia. Já o segundo reflete a filosofia de hospitalidade genuína, caracterizada por antecipar as necessidades do outro com atenção aos detalhes. Os conceitos se cruzam quando o assunto é a experiência do cliente, cujo objetivo é proporcionar uma vivência personalizada, memorável e acolhedora.

Em muitas cafeterias do país, a descoberta de novos perfis sensoriais surge por meio das conversas, da hospitalidade e da confiança construída entre cliente e barista. “Quando o cliente opta por deixar a decisão conosco, buscamos, a partir do nosso conhecimento especializado e dos gostos deles, oferecer a xícara perfeita – ou até uma nova experiência com café”, contam Naoya e Yukino Okajima, torrefadores e proprietários da Koloro Coffee, em Nagano, na principal ilha do arquipélago japonês, Honshu, na região de Chubu. “Por isso, sempre damos importância ao diálogo”, esclarece o casal, que atua no café há dez anos.

Yukino Okajima, mestre de torra e sócia da Koloro Coffee

Ler o ambiente, ajustar o ritmo e criar um espaço onde as pessoas se sintam cuidadas são elementos centrais da forma como Nakamura pratica o omotenashi na LiLo. “Já o omakase entra em cena quando recomendamos cafés com base em uma breve conversa, entendendo se a pessoa prefere algo mais brilhante e frutado, ou algo mais encorpado e doce”, destaca o mestre de torra. “Não impomos um menu fixo. Primeiro ouvimos. Assim o café se torna um diálogo”.

Embora o consumidor japonês seja altamente técnico quando se interessa por algum assunto, a experiência ainda ocupa o centro da relação com o café. “As pessoas estão buscando o que é fresco, o que é novidade, e procuram baristas que possam contar a história do grão, do produtor e da região”, observa Boram Um. “O perfil sensorial acaba sendo um acessório da experiência”.

Já na Cinema Coffee Roasters, Mori valoriza sugerir cafés com base nas preferências, no humor e na forma como cada cliente deseja aproveitar o seu tempo. “Presto atenção não apenas ao sabor da bebida, mas também à atmosfera, à conversa e à experiência como um todo, para que cada cliente desfrute de um momento confortável e significativo”, explica. “Esses pequenos momentos transformam uma simples xícara de café em uma experiência memorável”.

O futuro é agora

Em vez de abandonar tradições, o mercado japonês tem expandido possibilidades sensoriais. Torras escuras seguem como parte importante da cultura local, enquanto cafés mais claros, frutados e complexos, de diferentes origens e processamentos, ganham espaço entre consumidores cada vez mais curiosos e informados. “O mercado tem ampliado o portfólio, mantendo uma base estável enquanto incorpora novas expressões sensoriais de forma gradual”, resume Kagawa, que destaca o aumento da exigência por rastreabilidade e sustentabilidade, com consumidores buscando mais transparência sobre origem e produção. “Neste cenário, o café brasileiro está bem posicionado, principalmente pela consistência. Além disso, o Brasil tem ampliado sua presença em segmentos de maior valor agregado, com cafés rastreáveis, microlotes e perfis mais complexos, o que permite atender tanto ao mercado tradicional quanto às novas demandas”, declara.

Para as torrefações, a convivência de estilos é, justamente, o que tem tornado esse momento do café especial japonês tão singular. Yukino Okajima considera que a principal mudança não está somente na torra, mas em como o café é percebido. “O café está deixando de ser uma bebida cotidiana automática para se tornar um produto de apreciação”, afirma ele. Nesse cenário, os cafés são escolhidos como um vinho ou outras bebidas artesanais: pela origem, pelo processamento, pela narrativa e pela experiência na xícara.

Para Mori, o futuro do mercado dos cafés especiais no Japão é de expansão, profundidade e sofisticação. “Não apenas qualidade, mas também histórias e experiências ganham cada vez mais importância”, afirma. “O papel das torrefações e cafeterias também vai evoluir do serviço do café à criação de espaços de conexão e surgimento de novos valores”, antecipa.

Nakamura acredita que o Japão se tornará uma referência cada vez mais importante para o café especial no mundo, não apenas como mercado consumidor, mas também como fonte de técnica e filosofia. Para ele, cresce o número de torrefadores e baristas desenvolvendo abordagens próprias. Na LiLo Coffee Roasters, por exemplo, ele busca aplicar isso por meio de uma marca que expresse o melhor do café japonês. “Os próximos anos trarão mais concorrência, consumidores mais informados e cafés ainda mais interessantes. Estou animado com isso.”

Texto originalmente publicado na edição #92 (junho, julho e agosto de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Gabriela Kaneto • FOTO Divulgação