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Andrea Illy diz que agricultura regenerativa virou prática geral em Minas Gerais

Durante as comemorações dos 35 anos do Prêmio Ernesto Illy no Brasil, o empresário italiano destacou a expansão da agricultura regenerativa, o avanço de novas áreas cafeeiras e a capacidade do país de enfrentar a crise climática, embora veja um cenário global ainda cercado de incertezas

Andrea Illy

Por Cristiana Couto

Horas antes de conduzir a tradicional premiação anual dos melhores grãos brasileiros que compõem os produtos da illycaffè, Andrea Illy, presidente da torrefadora italiana, comemorou durante coletiva de imprensa realizada em São Paulo, na quinta-feira (7): “A agricultura regenerativa, em menos de 10 anos, se tornou universal, pelo menos em Minas”.

A reflexão do empresário sobre a cafeicultura brasileira – a partir de Minas Gerais e de São Paulo, de onde sai boa parte do café verde nacional usado pela marca –, provocada pela reportagem da Espresso no encontro com os jornalistas, foi feita na esteira do aniversário do Prêmio Illy de Qualidade Sustentável do Café para Espresso, que teve sua 35ª edição no país em que foi criado (e que hoje também acontece em mais nove países). 

A Minas Gerais a que ele se referiu é, precisamente, regiões do Sul de Minas, Cerrado Mineiro e Matas de Minas. Segundo Illy, a agricultura regenerativa trouxe benefícios aos produtores de todas as ordens — qualidade, lucro e produtividade —, além da resiliência à crise climática, tema que percorreu sua fala, entre perguntas de cunho econômico e geopolítico. 

O empresário também destacou a crescente adoção da compostagem de resíduos e da produção de biocompostos, referidos por ele em português como “compostos”: “A produção de compostos agora, é uma prática quase geral, pelo menos em Minas, o que permite baixar muito o custo de insumos”.

“O futuro do café depende diretamente da saúde do solo e da capacidade de tornar os sistemas produtivos mais resilientes”, ensina ele, que desde os anos 2000 investe em sustentabilidade.

Quanto ao cenário global, Andrea Illy é enfático ao alertar para um “risco climático estrutural”, que, ao lado dos preços elevados, gera um cenário “delicado” e sujeito a crises de preços. 

Considerado por ele um modelo global de produção de café, o Brasil tem vantagens e desafios. “A vantagem estratégica do Brasil é que há produção de café em diferentes estados, com diferentes climas, e um pode compensar o outro. O desafio é a consistência [de qualidade] ao longo do tempo”, acredita. 

Mas os cafés menos atingidos pelas mudanças do clima são, para ele, os de qualidade – que perfazem apenas 2% do mercado mundial. “Muitas vezes, as áreas produtivas para os cafés de alta qualidade, com maior altitude, são as mais protegidas. Consequentemente, o risco é menor”, avalia Illy.

Ainda sobre o desenvolvimento das regiões brasileiras de café que visita anualmente há mais de 30 anos, o empresário afirmou ter observado investimentos em novas variedades e visitado novas áreas produtoras no interior do estado mineiro. “Nós observamos o maior número de sequências de preços mais altos e mais atrativos para crescer a produção. Tem mais gente investindo, cultivando novas plantas”, comenta. “No interior de Minas Gerais, tem novas áreas que estão crescendo de maneira dinâmica, como o triângulo [Mineiro], que visitamos agora também”, completa ele.

Illy também concordou com o comentário de Anna Illy, presidente da Fundação Ernesto Illy e membro do Conselho Administrativo da illycaffè, que participou da coletiva, sobre o aumento da permanência de jovens nas fazendas de café.

Em meio aos preços historicamente elevados do café e à instabilidade climática global, Andrea Illy afirmou que o setor ainda convive com incertezas capazes de sustentar a volatilidade do mercado, mesmo diante da expectativa de uma safra maior. Segundo ele, há mais de 90% de probabilidade de formação de um “super El Niño” no segundo semestre. “Ninguém pode prever os efeitos”, disse. “Esses elementos representam pontos de interrogação para a produção futura e para o mercado”, ressaltou. O executivo ponderou, porém, que episódios anteriores do fenômeno climático não impediram uma boa produção brasileira.

Ainda assim, Illy avalia que “o custo do café este ano será maior do que a média do ano passado, mas a rentabilidade [da illycaffè] deve ser normalizada”.

Os vencedores do prêmio da illycaffè

Nesta edição, Minas Gerais destacou-se mais uma vez ao conquistar os três primeiros lugares entre os 40 finalistas selecionados pela comissão julgadora, formada por especialistas nacionais e internacionais da illycaffè. 

Vencedores do 35º Prêmio Ernesto Illy de Qualidade Sustentável do Café para Espresso e executivos da illycaffè

Agro Fonte Alta (Sul de Minas), Raimundo Dimas Santana Filho (Matas de Minas) e São Mateus Agropecuária (Cerrado Mineiro) receberam prêmios de R$ 10 mil cada e garantiram vaga na disputa do 11º Prêmio Internacional de Café Ernesto Illy, que será realizado no segundo semestre, ainda sem local definido.

A classificação final entre primeiro, segundo e terceiro lugares será anunciada durante a premiação internacional.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Divulgação

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Nestlé confirma venda da Blue Bottle para acionária da Luckin Coffee

Estratégia faz parte de de reposicionamento da empresa em negócios escaláveis e café, com redução do portfólio e corte de empregos

A Nestlé confirmou a venda da Blue Bottle Coffee para a Centurium Capital Partners, empresa de private equity chinesa e maior acionista da Luckin Coffee. O valor da venda não foi divulgado, e o negócio está previsto para ser concluído neste primeiro semestre, conforme anúncio da multinacional divulgado em seu relatório de vendas trimestrais no fim de abril.

A Nestlé adquiriu participação majoritária na Blue Bottle Coffee em 2017 por cerca de US$ 425 milhões, mas a expectativa do mercado é de que o valor desta próxima venda seja bem menor do que os US$ 700 milhões que a Blue Bottle vale atualmente – especialistas arriscam US$ 400 milhões. 

Notícias recentes informam que a transação inclui os cafés da Blue Bottle e a maior parte de seu negócio em bens de consumo, enquanto a Nestlé manterá direitos sobre as cápsulas da marca.

A venda da Blue Bottle Coffee, com mais de 100 lojas nos EUA e na Ásia, é parte da estratégia de reestruturação da Nestlé, que inclui a redução do portfólio e o foco em marcas globais de maior alcance, particularmente no setor de café, onde Nescafé e Nespresso impulsionam seu crescimento. 

No ano passado, o conglomerado suíço revisou, por exemplo, suas marcas de vitaminas, como a Puritan’s Pride, e, em fevereiro, anunciou sua saída do mercado de sorvetes, e, parcialmente, do negócio de água engarrafada – são dela as marcas Perrier e San Pellegrino, cujo acordo de vendas gira em torno de US$ 5,75 bilhões, segundo informou a Reuters.

A maior empresa de alimentos do mundo também planeja reduzir custos. Em outubro de 2025, o CEO da Nestlé, Philipp Navratil, anunciou o corte de 16 mil empregos como parte de um plano para reestruturá-la. Dias atrás, o sindicato britânico GMB afirmou o corte de 450 empregos no Reino Unido.

O café, porém, continua sendo uma área importante para a Nestlé. Mesmo com queda de 5,7% nas vendas no primeiro trimestre do ano em relação a 2025, a categoria registrou vendas de US$ 7,6 bilhões no período, um valor considerado estável em comparação ao mesmo período do ano anterior, e cresceu 9,3%, superando os demais segmentos. 

O plano de reestruturação concentra-se em quatro pilares principais — café, cuidados com animais de estimação, nutrição e alimentos e snacks. 

Expansão nos EUA

Criada em 2017, a Luckin acaba de abrir, em fevereiro, sua loja número 30 mil, em Shenzen, na China, onde está presente em mais de 300 cidades, além de ter unidades em Singapura, Malásia, Hong Kong e Estados Unidos.  

A transação, portanto, reforça a presença da Centurium na América do Norte, onde existem mais de 70 unidades da Blue Bottle. A aceleração de crescimento da Luckin é atribuída à entrada da Centurium no negócio, em 2022. Uma das novidades recentes é a abertura de um centro de torrefação da rede na cidade chinesa de Qingdao, considerado o maior do país.

TEXTO Fontes: CNN, Reuters, Perfect Daily Grind, Daily Coffee News, Los Angeles Times, FoodNavigator.

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Café especial ganha força na França e muda reputação histórica do país

Em um país de tradições culinárias e culturais mundialmente famosas, a qualidade do café costuma ser notícia na França — mas, muitas vezes, pelas razões erradas. Porém, os tempos estão mudando. A 5thWave conversou com a nova geração de artesãos que está aproveitando a profunda herança francesa de gastronomia, terroir e savoir-faire para inaugurar uma nova era de excelência no café especial.

Por Tobias Pearce

Poucas coisas são tão importantes para os franceses quanto a excelência culinária – tanto que, em 2010, a gastronomia francesa e suas tradições foram reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. Mas, em um país onde a alta gastronomia é tratada como arte, o café costuma ser uma decepção amarga.

A cultura dos cafés na França pode até ser lendária, mas, como explica Christophe Servell, fundador da inovadora cafeteria e torrefação parisiense Terres de Café, “os franceses não estão acostumados com café bom, mas com café queimado”. Mesmo assim, os tempos estão mudando, e a França está desenvolvendo rapidamente uma abordagem única para o café especial, guiada por sua profunda conexão cultural com a terra, a agronomia e os métodos artesanais de produção.

Inaugurada em 2009, a Terres de Café pertence a uma das primeiras comunidades de negócios voltadas ao café especial – juntamente com Coutume, L’Arbre à Café e Lomi – que desafiaram o status quo do espresso de baixa qualidade servido como mero complemento da refeição.

Fundamentada nos princípios da gastronomia, do terroir, do respeito ao produto e da expertise, a Terres de Café torra cerca de 350 toneladas de café especial por ano e opera 11 lojas em Paris, além de unidades em Lille, Versalhes e até Seul, na Coreia do Sul. O negócio evoluiu bastante desde 2009, quando “não havia mercado para café especial na França”, recorda Servell.

A ascensão do café especial no país acontece em um momento em que muitos dos tradicionais estabelecimentos de hospitalidade franceses estão em declínio. “Assim como os pubs britânicos ou os diners americanos, há uma verdadeira crise dos cafés em Paris, onde dez novas cafeterias abrem enquanto dez cafés tradicionais fecham”, observa ele.

Estima-se que nos últimos 25 anos Paris tenha perdido cerca de 500 cafés e bistrôs tradicionais, restando hoje algo como 1.400 desses estabelecimentos. Esse encolhimento se deve, em parte, à mudança nas expectativas dos consumidores franceses, cada vez mais críticos quanto à preferência nacional por cafés commodities de torra escura. “O espresso sempre fez parte da refeição francesa, mas era mais por seu suposto efeito revigorante do que por prazer. Isso fez com que o café fosse subvalorizado como parte da experiência gastronômica”, afirma o australiano Tom Clark, fundador do grupo de cafeterias parisiense Coutume.

Ofício e precisão: latte art na Terres de Café

Clark apaixonou-se por Paris e por sua mundialmente famosa cultura de cafés quando era estudante de intercâmbio em direito. Mas logo percebeu que o café da cidade não tinha a joie de vivre (alegria de viver) à qual ele estava acostumado em casa. “Até pouco tempo, não havia propriamente uma cena de cafés na França. Não existia a noção de complexidade sensorial ou de diversidade”, diz ele.

A Coutume, que significa “costume” ou “hábito”, foi a primeira em Paris a instalar uma torrefação de cafés especiais no interior de uma loja de varejo ao abrir suas portas em 2011. Para mostrar como o mercado evoluiu, hoje cerca de 45% da receita da Coutume vem de 350 contas de food service, incluindo fornecimento de máquinas e manutenção, e o restante é gerado por suas dez cafeterias. “Saímos de um conceito de nicho, talvez um pouco estranho e anglófono, para algo plenamente adotado – ao menos em Paris”, afirma Clark.

Responsável por cerca de três quartos de todo o café especial vendido na França, a Belco – empresa que comercializa cafés sustentáveis e biodinâmicos – é outro nome que tem reconfigurado a relação dos franceses com o café. Fundada em 2007 por Nicolas e Alexandre Bellangé, a Belco produziu 6 mil toneladas de cafés com alta pontuação em 2024, sendo que cerca de 70% se destinam ao mercado francês e os 30% restantes são exportados para a Europa e o Oriente Médio.

Os negócios vão bem, mas conquistar o público francês não foi tarefa simples. “Os franceses têm muito orgulho de sua comida e da agricultura, mas nem sempre estão abertos à mudança. Leva tempo para mudar mentalidades, mas o café especial na França hoje é mais do que um nicho”, diz Laure Jubert, diretora de relações estratégicas e experiências de produto da Belco.

Esse sentimento é compartilhado por Line Cosmidis, diretora de vendas de cafés especiais da britânica Falcon Coffees. Francesa radicada no Reino Unido, ela observa que, ironicamente, a forte tradição de consumo da bebida na França pode ter dificultado a valorização do produto. “A França é um país com cultura de café, enquanto o Reino Unido sempre foi mais voltado ao chá. Como o café já era um pilar cultural do país, mudar hábitos levou mais tempo – um pouco como acontece no mercado italiano”, afirma.

Ainda assim, com a mudança de mentalidade, especialmente entre consumidores mais jovens, Cosmidis diz que a França é hoje um dos mercados que mais crescem para a Falcon, com sede no Reino Unido. “Agora há mais ênfase no produto em si, e não apenas no contexto social em torno do café”, conclui.

Antigas tradições, novas tendências

Embora historicamente alguns elementos da tradicional culinária francesa possam ter limitado a adoção do café especial, muitos chefs e donos de restaurantes do país estão adotando novas maneiras de servir a bebida.

Quando Servell abriu sua primeira cafeteria em Le Marais, a demanda inicial foi baixa entre os consumidores, para quem o café especial era um conceito desconhecido. A Terres de Café começou como fornecedora do grão para restaurantes parisienses, mas hoje o maior canal de distribuição do negócio é o fornecimento de café para escritórios, seguido por hotéis, com os restaurantes representando uma parcela importante porém bem menor do negócio. De fato, 60% do volume de vendas da Terres de Café são para clientes B2B. “Entre os primeiros a entender a mensagem estavam os chefs e donos de restaurantes em Paris – é graças a eles que o café ainda está vivo”, acredita.

A trajetória do café especial na França também é profundamente influenciada por outra obsessão nacional: o vinho. Para Hippolyte Courty, fundador da L’Arbre à Café, com sede em Paris, as sinergias entre café especial e vinho despertaram uma nova paixão pela torrefação artesanal e pelo terroir. “O café especial é como o vinho – o sabor vem da agricultura”, afirma Courty, explicando porque o terroir e a agricultura são fundamentais para a missão da L’Arbre de criar uma “nova arte francesa do café” baseada no equilíbrio, na complexidade e em um retrogosto longo e fresco – assim como o vinho.

À esquerda, Hippolyte Courty com as sommelières Paz Levinson e Pascaline Lepeltier na Finca Mariposa, do L’Arbre à Café, no Peru. À direita, preparo de café coado na L’Arbre à Café, em Paris

Atualmente, a L’Arbre opera cinco cafeterias em Paris, administra sua própria fazenda de 35 hectares, a Finca Mariposa, no Peru, e importa diretamente 90% de todo o café que vende, proporcionando uma verdadeira experiência da fazenda à xícara. “Descobri o café especial e decidi fundar a L’Arbre para criar uma torrefação de café orgânico e biodinâmico de alta qualidade. Percebi que havia coisas fabulosas acontecendo com o café nos EUA, Reino Unido, Escandinávia e Austrália – em todos os lugares, exceto na França”, acrescenta Courty.

Assim como a França tornou famosas suas 11 principais regiões vinícolas com o sistema de Denominação de Origem Controlada (AOC, abreviação de Appellation d’Origine Contrôlée, no original), Cosmidis, da Falcon, acredita que há uma tremenda oportunidade para os torrefadores franceses liderarem um novo movimento de café especial focado no terroir.

“Definitivamente, há uma oportunidade para o mercado de café francês se tornar mais internacional”, afirma. “Vinho, culinária, chefs, todas essas coisas pelas quais os franceses são conhecidos estão se infiltrando no mercado de café. Há uma enorme oportunidade que não foi totalmente aproveitada”, afirma.

Ao comparar a uva e o grão, Jubert, da Belco, observa que, embora muitas das principais vinícolas francesas tenham reduzido a produção em meio à queda da demanda doméstica e internacional, aquelas focadas em boas práticas agrícolas e processos naturais são agora as mais bem-sucedidas. Ela acredita que a indústria cafeeira francesa poderia seguir uma trajetória semelhante.

“O café especial tem muitas ligações com o mercado gastronômico. Sommeliers poderiam ser treinados para selecionar um bom café. Acredito que esse seja o futuro, e ele está mais próximo do que imaginamos”, afirma.

Muitos artesãos tornam o trabalho leve

Ao ouvir feedbacks e conversas de clientes em suas cafeterias, Clark observou mudanças nas atitudes dos franceses em relação à bebida. Se a Coutume costumava aplicar uma torra mais escura aos grãos para atrair os hesitantes apreciadores de café especial, atualmente, afirma Clark, sua demanda por café no estilo italiano está diminuindo.

Interior da Coutume, na Galeries Lafayette

“Houve uma mudança radical, e as pessoas agora querem consumir de forma autêntica, em vez de serem afastadas por diferentes condicionamentos e canais de distribuição. Há também um segmento mais amplo em busca de uma experiência de alto nível, disposto a pagar um pouco mais por um nanolote ou uma cofermentação exclusiva”, observa ele.

Courty, da L’Arbre, também vê a diversificação do mercado francês de cafés especiais e a busca dos consumidores por novas experiências. “Há dez, quinze anos, ninguém em Paris queria comer ou beber andando na rua, eles queriam sentar-se à mesa ou no balcão. Agora, vemos pessoas caminhando com copos de café para viagem.”

Essa mudança de mentalidade pode representar uma oportunidade significativa para o considerável mercado de padarias e cafés da França. “A boulangerie e a pâtisserie são uma nova fronteira para o café como um mercado para viagem. Os lanches representam cerca de 30 a 50% dos negócios de padaria atualmente, e as bebidas quentes fazem parte disso”, diz Courty. Um dos maiores clientes atacadistas da L’Arbre é o aclamado pâtissier Pierre Hermé, que agora serve cafés especiais em suas 60 lojas pela Europa e Japão.

Dito isso, quando o assunto é café, Paris ainda tem um longo caminho a percorrer antes de atingir o nível de capitais europeias como Londres e Berlim. Após organizar um tour recente por cafeterias para avaliar a situação do mercado, Courty relata que cerca de cinco dos 30 estabelecimentos visitados por sua equipe serviam o que ele considerou um café especial “muito bom”. “Os outros se concentraram mais no estilo de vida, o que me mostrou que as pessoas não vêm apenas pela qualidade da bebida, mas pela qualidade da experiência completa”, diz ele.

Além da cidade-luz

É evidente que o mercado de café parisiense passa por um período de rápida premiunização, mas será que o café especial conseguirá se infiltrar no restante do país? Para Courty, há sinais encorajadores. “Paris é o epicentro do café especial na França, mas também há crescimento em Bordeaux, Lille e Lyon. Em Limoges, uma cidadezinha no centro do país, um amigo meu abriu uma cafeteria e torrefação de cafés especiais chamada La Fabrique du Café”, conta ele.

Exposição de produtos na loja Terres de Café Daguerre, em Paris

Os locais de trabalho também se tornaram embaixadores improváveis do café ​especial na França, principalmente porque muitos empregadores buscam atrair trabalhadores remotos de volta ao escritório. “O mercado corporativo está passando por uma grande mudança, uma guinada completa, deixando de apostar em cápsulas para apostar em grãos”, diz Clark, cujo empreendimento mais recente é um bem sucedido negócio de café corporativo.

Jubert, da Belco’s, destaca que torrefações de grãos especiais estão ganhando cada vez mais espaço nas prateleiras dos grandes supermercados franceses. Ela também observa uma demanda crescente pelo produto em locais não especializados em todo o país. “Isso já está acontecendo, até mesmo em estações ferroviárias e hotéis. Nos últimos dois anos, também vimos marcas de luxo fazendo colaborações com cafés especiais porque entenderam que ele também é um grande construtor de comunidades”, avalia.

Fabricado na França

Muitos países adotaram o café especial, mas a França está aproveitando suas profundas tradições culturais em torno do terroir e da gastronomia para desenvolver sua própria cultura em torno dos grãos de qualidade. “Os franceses realmente valorizam a experiência gastronômica, faz parte de sua arte de viver. Eles são muito agrários, muito conectados à terra e isso agora se reflete na cultura cafeeira. É um mercado empolgante e há uma enorme oportunidade para nós”, diz Clark, que acredita num crescimento do mercado de especiais de 5% para 25% nos próximos cinco anos.

O café pode ter tido um espaço secundário na experiência gastronômica francesa, mas agora está ocupando seu devido lugar nos mais altos escalões das tradições gastronômicas do país. Incluído no prestigiado concurso Meilleur Ouvrier de France (MOF) desde 2018, o status do café como a mais nova instituição culinária da França parece firmemente garantido.

Texto originalmente publicado na edição #89 (setembro, outubro e novembro de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Tobias Pearce (5THWAVE)

Mercado

Muito além do chocolate

Iniciativas que miram o aproveitamento total do cacau apostam em inovação, sustentabilidade e mais sabor à mesa

Por Beatriz Marques

Durante a Fruit Attraction, uma das maiores feiras de fruticultura do mundo, realizada na capital espanhola em outubro deste ano, frequentadores ficaram curiosos ao passar pelo estande da empresa Sebastião da Manga, do Vale do Rio São Francisco. 

Expostos improvisadamente em caixas de papelão para armazenar mangas, vários cacaus avermelhados e vistosos, semiembrulhados em papel de seda, causavam surpresa quando cortados ao meio para expor suas amêndoas, unidas pela polpa suculenta e esbranquiçada. “Foi difícil conseguir levar o cacau para lá: primeiro, ele ficou retido em Portugal, depois, na Espanha e até na porta da feira, pois ninguém o conhecia”, revela Luis Fernando Campeche, engenheiro agrônomo e sócio da Novo Sol Agrícola, outra importante empresa produtora de frutas irrigadas no Vale do São Francisco, responsável por conseguir que o cacau in natura pudesse ser apreciado no evento. 

Por mais que o chocolate seja popular em todo o mundo e seu consumo continue a aumentar a passos largos, o mesmo não pode ser dito do seu ingrediente de origem, um verdadeiro desconhecido não só por estrangeiros como por muitos brasileiros que, além de nunca tê-lo provado diretamente da fonte, também não imaginam o potencial que ele tem a revelar.

Afinal, a parte da qual nasce o chocolate representa muito pouco da fruta inteira. “As amêndoas são somente 8% do cacau”, explica José Raul dos Santos Guimarães, superintendente regional dos estados do Pará e Amazonas da Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), órgão ligado ao Ministério da Agricultura e Pecuária para promover o desenvolvimento sustentável e a pesquisa no setor cacaueiro no Brasil.

Estimulando a bioeconomia

Aprimorar as formas de uso do produto, de modo a complementar a renda dos produtores, está entre os principais objetivos da equipe à frente da Ceplac na região, que também atua no combate a doenças, como a vassoura-de-bruxa, e na promoção do cultivo em sistemas agroflorestais.

“A bioeconomia do cacau é algo bem amplo, que perpassa a produção de amêndoa seca. Estamos falando de um aproveitamento integrado e sustentável dos recursos gerados na unidade de produção de cacau”, diz Santos, sobre a diversificação da atividade produtiva para agregar valor e ampliar a renda dos agricultores, promovendo maior sustentabilidade no campo.

Mel de cacau, da Dengo

Os produtos mais acessíveis à realidade das famílias locais são a polpa e o mel do cacau. O primeiro, extraído por uma despolpadeira, e o segundo, com uma prensa, transformam-se na base de licores, geleias, caldas, coquetéis, sucos e até molhos de pratos salgados. “De cada mil quilos de amêndoa fermentada e seca que o produtor vende, ele conseguiria aproveitar entre 450 e 500 litros de mel de cacau”, diz José Janilson do Socorro, agente de atividades agropecuárias da Ceplac. 

Para extrair o mel do cacau, a prensagem é feita logo após a colheita e mantém a integridade das amêndoas, que podem ser beneficiadas como de costume. “Só é preciso pegar uma parte do cacau sem tirar nem mel e nem polpa e misturar às amêndoas restantes, para não prejudicar o processo de fermentação”, explica Socorro, que auxilia em projetos para montar minifábricas a interessados na região. “Não é tão caro quanto os equipamentos para a elaboração do chocolate, mas ainda tem pouca gente fazendo”, conta o agente. “Com 35 mil reais, é possível adquirir esses outros equipamentos, como prensa e freezer”, completa.

Além da capacitação continuada de técnicos, a Ceplac treina famílias de agricultores – que representam 95% dos cerca de 33 mil produtores do Pará – para essas novas expertises. E o interesse pelo aprendizado, em sua maioria, parte das mulheres. “Somos muito demandados para essas capacitações e o público predominante é do gênero feminino, que tem forte presença nas propriedades”, revela Santos, que almeja empoderar cada vez mais os agricultores de toda a riqueza gerada pela economia do cacau. “Na cadeia de valor do chocolate, o produtor se apropria de apenas 6%. Olha que triste!”, lamenta o superintendente regional da Ceplac.

Do mel ao vinagre

Quem já tem explorado a versatilidade do fruto é a Mais do Cacau, fundada em 2018 e que, hoje em dia, já acumula 20 produtos alimentícios – com cacau de Ilhéus, no sul da Bahia – distribuídos em todo o país. “Nossa missão é criar produtos inovadores que vão muito além do chocolate tradicional, sempre com sustentabilidade, foco no aumento da rentabilidade, ecologicamente e socialmente corretos”, diz José Eduardo Amorim, um dos sócios. 

Mais do cacau?

Vinagre, mel, melato (mel de cacau reduzido), amêndoas e nibs caramelizados e a “cauchaça”, aguardente de cacau com 42% de teor alcoólico, são os destaques da marca, que tem como clientes restaurantes, bares e hotéis, além de consumidores finais, com vendas pelo site da marca. “O [preço do] cacau subiu 190% em dois anos, criando desafios, mas, também, oportunidades para produtos de valor agregado”, opina Amorim.

O mel de cacau, aliás, também foi novidade na Dengo Chocolates quando lançado em 2018, e hoje é vendido nas lojas da marca no Brasil e na França. Feito na Bahia pelos produtores Du Kakau e Agrícola Condurú, o mel é pasteurizado e tem adição de conservante, para que ganhe mais tempo de prateleira. Além de envasado, o líquido – de sabor frutado, doce e levemente ácido – faz parte de drinques preparados na loja Fábrica de Dengo na Faria Lima, capital paulista. 

Além destes produtos do cacau, a Dengo também elabora os gins Cacau, feito com extratos vegetais de zimbro, nibs de cacau e semente de coentro, e o Piranga, com zimbro, nibs de cacau, pitanga e limão. “O gim com cacau foi uma ideia da Dengo para ter outras formas de usar o cacau em bebidas”, conta Luciana Lobo, chocolatière da marca. “Então, buscamos um parceiro, a Draco Gin House, que usa nossos nibs de cacau no processo”, completa. O desejo de aumentar o portfólio neste segmento continua firme. “Nós estamos cada vez mais trabalhando para que isso se concretize”, afirma Andresa Silva, gerente-executiva de redes da Dengo.

Gim de cacau, feito a partir dos nibs do fruto

Inovação 

Ainda há muito a ser explorado entre as possibilidades do cacau, e a inovação tem sido uma constante no setor. Um exemplo é a norte-americana Blue Stripes, que faz o aproveitamento total do fruto, originário do Equador, em mel (chamado de “água”), gomas, mix de nuts, granola, amêndoas de cacau cobertas de chocolate e de creme de avelã, posicionando o fruto como “superalimento”. 

A empresa, inaugurada há três anos, vende seus produtos em todas as lojas da Whole Foods e registra mais de 10 milhões de dólares em vendas anuais no varejo.

No Brasil, o cacau tem cada vez mais se inspirado no café para trilhar novos caminhos. O Centro de Inovação do Cacau (CIC), em Ilhéus, na Bahia, está de olho no fruto do cacaueiro como um alimento funcional e pesquisa suas qualidades para desenvolver um produto pré-treino. “A gente tem desenvolvido produtos e inovações olhando muito para o que o café já vivenciou”, revela Cristiano Villela, diretor científico do CIC. A atenção maior está no flavonóide epicatequina, presente no fruto. “É um dos mais potentes antioxidantes que existem na natureza, e ele é abundante no cacau.”

A Maré Chocolates também vê o cacau como um superalimento. A marca de chocolate orgânico usa 100% do cacau, extraindo as cascas das amêndoas (depois de torradas) para elaborar com elas uma infusão rica em teobromina, um alcalóide de efeito levemente estimulante. “Geralmente, nas grandes indústrias, essas cascas são trituradas com as amêndoas, o que deixa um amargor no chocolate. Nós usamos um maquinário que permite essa separação e que mantém as cascas mais íntegras para a infusão”, explica Maruska Gemelli, sócia da Maré, que hoje adquire cacau de produtores de Cachoeiras de Macacu, na serra fluminense.

Pacote de chá das cascas do fruto, da Maré Chocolates

O mesmo potencial é explorado pela paulistana Chocolat Du Jour ao começar a produzir chocolates bean-to-bar. “Incorporamos o processo de descascar a amêndoa do cacau e percebemos que tinha perda de um ingrediente que poderia ter alguma utilização. Quando sentimos o aroma do cacau, que é maravilhoso, durante o processo de fabricação do chocolate, não nos conformamos com o desperdício”, relembra a sócia Patrícia Landmann. Ao lado de Carla Saueressig, uma das maiores especialistas em chás no Brasil, desenvolveram o Choco Chá, uma infusão das amêndoas dos nibs com a casca, que também é oferecido em versão com especiarias. “Ele é rico em antioxidantes e tem todas as propriedades do cacau que fazem bem para a saúde”, completa Patrícia.

Cascas do fruto

Não só de amêndoas, polpa e mel é feito o cacau. A grossa casca vistosa também pode ter melhor destino que o descarte. “Ela pode ser triturada para compostagem ou utilizada para produção de biogás, biofertilizante, ração animal. Mas esse aproveitamento da casca ainda é pouco explorado aqui”, revela Santos.

Para evitar que a casca seja um problema para o produtor, o CIC busca usá-la como meio de cultura para fungos benéficos, como o Trichoderma, para combater outros fungos que causam doenças, como a vassoura-de-bruxa. “Queremos transformar um problema numa solução amigável”, diz Villela.

Em grandes fazendas, onde o volume de cacau produzido é bem maior, as cascas já entram em um processo mecanizado. Segundo o diretor da CIC essas fazendas desenvolveram máquinas que, conforme passam pela área de colheita recolhendo o cacau para a quebra automática do fruto, já trituram as cascas e as espalham como adubo. “Só que isso é um uso pouco nobre da casca, pelo potencial que ela tem”, opina. 

In natura

O que poderia parecer óbvio, mas ainda é pouco explorado, é a venda da fruta in natura. A demonstração do cacau no Fruit Attraction foi um bom termômetro para verificar a curiosidade do público estrangeiro em relação à origem do chocolate e as possibilidades de um consumo mais amplo do cacau. “A gente tem variedades na Bahia, como a salobrinho 03, que tem sabor espetacular”, opina Villela. “A Fazenda Cantagalo [em Itabuna, sul da Bahia] tem algumas seleções para fruticultura. É um mundo ainda inexplorado e com potencial gigante”, atesta. 

Campeche, da Novo Sol Agrícola, já está de olho nesse futuro promissor e iniciou o plantio de cacaueiros para, daqui a dois anos, colher os frutos desta aposta. Assim como as uvas no Vale do Rio São Francisco, o cacau tem irrigação controlada e é cultivado com outras espécies – no caso da Novo Sol, o mamoeiro apoia o sombreamento do cacau e ainda gera renda com a venda dos frutos. “Já temos a cadeia da fruticultura bem definida e estamos bem avançados na comercialização de frutos de qualidade. Do jeito que estamos propondo o cultivo do cacau, com padrão, rastreabilidade, cultivo ambientalmente correto e selos de qualidade, conseguiremos avançar na sua exportação”, explica Villela. 

Choco Chá, infusão das amêndoas dos nibs com a casca do cacau, da Chocolat du Jour

Para tal, é preciso entender as particularidades da venda in natura. Em um cultivo commodity, ou seja, focado na comercialização das amêndoas, não há cuidado com a apresentação da casca, por exemplo. “Terei de colher de forma diferenciada, não posso jogar no chão para não amassar a casca, que perde valor comercial, e fazer uma seleção de tamanho, que conta na padronização. Por isso, a remuneração do produtor também terá de ser diferente”, detalha Campeche. Outro desafio é o shelf life do cacau que, diferentemente de frutas que podem ser colhidas verdes para depois amadurecerem, não evolui depois de retirada do pé. “Ainda estamos estudando qual seria seu tempo de vida pós-colheita e como conservá-lo”, informa o engenheiro agrônomo, sobre a conservação do fruto por baixa temperatura ou com revestimento de cera (aplicação de fina camada de cera comestível sobre a casca).

Tais diretrizes, sem dúvida, podem transformar o cacau em um produto de luxo. “É um caminho desconhecido, mas achamos que vai dar certo”, acredita Campeche.

Texto originalmente publicado na edição #90 (dezembro, janeiro e fevereiro de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Beatriz Marques

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Luckin investe R$ 2,2 bi em torrefação e expande capacidade industrial na China

Novo centro em Qingdao eleva a capacidade da rede a 155 mil toneladas por ano e reforça a estratégia de integração e eficiência logística da rede no leste do país

Foto: Divulgação

A rede Luckin Coffee anunciou o início das operações de um centro inteligente de torrefação de café em Qingdao, na província chinesa de Shandong.

Com investimento de cerca de 3 bilhões de yuans (quase R$ 2,19 bilhões) e capacidade anual acima de 55 mil toneladas, a empresa afirma, em comunicado, que a instalação “representa mais um passo em frente na cadeia de suprimentos global da Luckin, com capacidade e eficiência aprimoradas, impulsionando o progresso na transformação inteligente e sustentável da indústria cafeeira da China”.

Com a inauguração, a companhia passa a operar uma rede de torrefação em quatro cidades no leste do país — Qingdao, Pingnan, Kunshan e Xiamen (em construção) — que, juntas, devem superar 155 mil toneladas de capacidade anual, um novo recorde para a indústria de torrefação de café na China, segundo a empresa.

Além disso, a proximidade do Porto de Qingdao, um dos principais do país, permite a importação direta de café verde de origens como Brasil, Colômbia e Etiópia. De acordo com o comunicado, o apoio de uma rede logística que integra transporte marítimo, terrestre, aéreo e ferroviário deve aumentar a eficiência entre a compra do grão e o consumo final.

 

Arte: Cristiana Couto, com uso de IA

Para Jinyi Guo, cofundador e CEO da Luckin Coffee, a abertura do centro marca um avanço na consolidação da cadeia de produção da empresa, ao combinar tecnologia e sustentabilidade e contribuir para a modernização do setor cafeeiro chinês.

Segundo a Luckin, os processos no centro de torrefação de Qingdao são 100% automatizados, com equipamentos de embalagem de alta capacidade e armazenamento com controle constante de temperatura e umidade. A estrutura inclui ainda um sistema de redução de emissões de carbono.

De acordo com dados da World Coffee Portal, a Luckin Coffee protagonizou uma das expansões mais rápidas do varejo global de café, ao saltar de poucos milhares de lojas no início da década para mais de 30 mil unidades em 2025.

O crescimento consolidou a rede como líder na China em número de pontos de venda e reduziu a distância em relação à Starbucks, indicando uma mudança relevante no equilíbrio do mercado global, analisa a WCP.

Fonte: World Coffee Portal

TEXTO Redação

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No Dia Mundial do Livro, a Espresso indica 5 leituras sobre café

Guia essencial, agora ampliado

A nova edição de The World Atlas of Coffee, feita no fim de 2025, atualiza e enriquece um dos guias mais influentes do café contemporâneo. O barista inglês e campeão mundial James Hoffmann revisa origens, variedades e processamento do grão em mais de 30 países, além de incluir temas recentes como descafeinação e novas regiões produtoras. Estas são, aliás, o diferencial do livro – cada país é abordado a partir de sua história, principais regiões produtoras e variedades, enriquecido com mapa e dados. Com abordagem didática que mantém o rigor técnico, a nova edição acrescenta aos capítulos sobre variedades, processamento, torra e métodos de preparo novidades como descafeinação do café e novas origens (Austrália, Japão e Porto Rico). 

James Hoffmann, The World Atlas of Coffee, editora Mitchell Beazley, 2025 (3ª ed.). A partir de R$ 264, no site da amazon.

 

Como o café virou hábito social no Brasil

Histórias do Café – Consumo, cultura e alimentação, recém-lançado pela editora Alameda, preenche duas lacunas – a falta quase crônica de publicações brasileiras sobre café, especialmente às vésperas do tricentenário comemorativo do cultivo do grão no país, e os ainda poucos estudos sobre história do consumo da bebida. Organizado pelos historiadores Joana Monteleone e Bruno Bortoloto do Carmo, o livro reúne 15 ensaios que percorrem o tema – dos cafés da cidade-luz no século XIX aos botequins e confeitarias do Rio de Janeiro na época do Império, passando pela presença da bebida em livros de receitas e nos hábitos paulistanos oitocentistas e alcançando, até, laboratórios e faculdades de medicina, que investigaram os efeitos da ingestão da bebida. Para quem se interessa por história e quer consumir boa pesquisa acadêmica, o livro é um prato cheio.

Joana Monteleone e Bruno Bortoloto do Carmo (orgs.), Histórias do Café – Consumo, cultura e alimentação, editora Alameda, 2026. R$ 92, no site da Alameda. 

Um retrato visual do café brasileiro

Em Café no Brasil, o fotógrafo Marcos Piffer faz um amplo ensaio fotográfico da presença cotidiana do café no país. São fotos que retratam a lida diária no campo, o cuidado no beneficiamento do grão, o conforto cotidiano simbolizado no bule esquentando no fogão à lenha. Isso sem falar das belezas arquitetônicas erguidas no auge da produção e comércio do café em Santos. O resultado é um livro de forte apelo visual, que documenta a história, a cultura e o território no maior país produtor do mundo. E uma ótima opção para presente. 

Marcos Piffer, Café no Brasil, editora Solaris, 2015.  R$ 39, no site Sebo Virtual.

Um olhar sobre a qualidade

Outra referência global em café, o barista norueguês Tim Wendelboe reúne no livro uma síntese de sua experiência com cafés especiais, sob um olhar rigoroso e pessoal. Dicas sobre equipamentos, serviço e compra de grãos integram o conteúdo, construído a partir de mais de duas décadas de visitas a países produtores e à frente de sua Coffee Roastery & Espresso Bar, em Oslo. Receitas de drinques e comidas também são compartilhadas no livro, publicado em português pela Café Editora. Leitura-chave para iniciantes.

Tim Wendelboe, Coffee with Tim Wendelboe, Café Editora, 2019 (ed. brasileira). R$ 30, no site Café Store.

Café em HQ

Saindo do formato tradicional, Kophee leva o universo do café para as histórias em quadrinhos. Escrito pelo quadrinista, ilustrador e barista Guilherme Match, em parceria com a designer Gabê Almeida, acompanha os personagens Ink e Maki na cafeteria Mono — um dos poucos espaços que ainda servem café de verdade em uma cidade dominada por vending machines. Publicado pela Editora JBC, o volume de 192 páginas inclui, ao final, receitas de preparo assinadas por profissionais do café.

Guilherme Match e Gabê Almeida, Kophee, Editora JBC, 2022. Na Amazon, por R$ 40,44.

TEXTO Redação

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Livro investiga como o café se tornou hábito e marcador social no Brasil e no mundo

Histórias do Café – Consumo, cultura e alimentação desloca o olhar para um território menos frequentado pela historiografia brasileira: o do consumo, da vida urbana e das sociabilidades que se formaram em torno da bebida.

Partindo da constatação de que o café se tornou um elemento estruturante do cotidiano moderno, presente nas refeições, nos espaços públicos e nos rituais de convivência, o livro propõe entender como um produto não essencial se converteu em hábito indispensável e marcador social.

Organizado pela dupla de historiadores Joana Monteleone, também editora e pesquisadora-colaboradora da Universidade de São Paulo, e Bruno Bortoloto do Carmo, doutor em História Social, que atuou como pesquisador do Museu do Café de Santos por 13 anos, o volume reúne 15 artigos sobre pesquisas recentes de uma série de autores de diferentes linhas historiográficas. O conjunto articula história econômica, urbana e da alimentação e recusa fronteiras rígidas entre esses campos.

No artigo “O consumo de café e as novas sociabilidades paulistanas nas primeiras décadas do século XIX”, a historiadora Rafaela Basso acompanha a bebida desde a produção doméstica até sua incorporação a práticas sociais marcadas por gênero, classe e exclusão.

Por meio de sua análise, afasta a imagem de São Paulo como um núcleo pobre e pacato e a aproxima da de uma cidade já integrada a circuitos modernos de consumo, na qual o café surge como marcador simbólico de pertencimento antes mesmo de sua plena popularização.

Abordagens científicas conduzem os ensaios de Cristiana Couto, doutora em história da ciência e coordenadora de conteúdo da Espresso&CO, que propõe discussões sobre o café como alimento e medicamento no Brasil no século XIX, e de Moisés Stahl, doutor em história econômica, que examina o café como objeto de investigação científica em perspectiva histórica.

Um dos méritos da obra está na ampliação do repertório documental. Romances, folhetins, peças teatrais, menus, discos, almanaques e teses médicas dialogam com atas oficiais e jornais e revelam o café como mercadoria, alimento, estimulante, remédio e símbolo de distinção.

Ao acompanhar a emergência dos cafés, botequins, confeitarias e espaços de consumo nas cidades, sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo, os autores mostram como o cafezinho ajudou a moldar práticas sociais e formas de pertencimento urbano no século XIX.

Ao mesmo tempo, o livro assume suas lacunas como desafio futuro, sobretudo no que diz respeito às relações de trabalho e à presença da escravidão no universo do consumo. Essa fricção entre potência analítica e ausência temática reforça o caráter do volume — menos síntese conclusiva e mais convite a novas investigações sobre comer, beber e conviver no Brasil do café. (Luiza Fecarotta)

Histórias do Café – Consumo, cultura e alimentação – Joana Monteleone e Bruno Bortoloto do Carmo (orgs.) – Editora Alameda (320 págs.; R$ 88)

TEXTO Luiza Fecarotta • FOTO Divulgação

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“Precisamos ser Cafés do Brasil, independentemente da ideologia de cada um”, diz Márcio Ferreira, do Cecafé

Márcio Cândido Ferreira, presidente do Cecafé, defende que o produto não tenha bandeiras ideológicas, mas se aproxime da cultura para expandir fronteiras, principalmente para a Ásia

Márcio Cândido Ferreira, presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) e diretor-superintendente da Tristão, é pequeno em estatura, mas gigante na diplomacia. Em ano eleitoral, ele defende que não só o café, mas todo o agro, “tenha mais praticidade e menos ideologia” e se aproxime da cultura, que comunica o que fala alto ao ser humano independentemente da nacionalidade.

Brasiliense de nascimento e capixaba de coração, Ferreira se autointitula “alguém sem inimigos” e aproveita sua facilidade de relacionar-se para fazer pontes e abrir portas para o café brasileiro com a ajuda de sua equipe no Cecafé, “enxuta, mas de primeiríssima linha”.

Há quatro anos à frente da instituição, ele lidou com as quebras de safra, consequência da geada que afetou lavouras cafeeiras em 2021; as exportações recordes de canéfora em 2024 e o tarifaço imposto pelos EUA ao café brasileiro em 2025, que acabou dando um “empurrãozinho” para a assinatura do Acordo Mercosul-União Europeia neste ano.

Nos últimos meses, visitou várias vezes a Ásia, continente em que o café tem conquistado mais adeptos a cada dia e que responderá pelo crescimento futuro da demanda pelo grão no mundo. Prova disso é a China, que já alcançou consumo de 6 milhões de sacas e superou a Itália, cujo volume está na casa de 5,5 milhões de sacas/ano. A seguir, a íntegra da entrevista.

Espresso: Você está prestes a completar meio século de carreira no setor de café. Como ingressou na área?

Márcio Ferreira: Comecei em 1977 no Grupo Tristão, empresa em que trabalho até hoje e que, no ano passado, completou 90 anos. Entrei como office boy, depois fui para área de exportação fazer serviços de desembaraço no porto. Em 1987, ingressei na área comercial, onde estou até hoje como diretor-superintendente.

E: Quando começou e como foi sua trajetória no Cecafé?

MF: Passei cerca de quatro anos como vice-presidente do Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV) e, posteriormente, fui presidente da instituição, que é associada ao Cecafé e cobre a cafeicultura capixaba. Dali, fui indicado para ser o novo presidente do Cecafé no final de dezembro de 2022 e estou indo para o meu quarto ano. O Cecafé responde por 97% das exportações de café do Brasil para o mundo. Dentre os associados, temos as principais cooperativas, que atuam no comércio exterior e no mercado interno, as multinacionais e as empresas nacionais, como a Tristão. Um dos nossos objetivos é oferecer aos produtores a melhor remuneração possível. O Brasil repassa mais de 90% do valor FOB aos cafeicultores, enquanto outras origens estão na casa de 75%, e há aquelas que repassam menos de 50%.

E: Como a sua experiência e o peso institucional do Cecafé têm se traduzido nas negociações comerciais e defesa do café brasileiro mundo afora?

MF: Tem sido extremamente positivo, porque o Cecafé é uma instituição de prestígio no exterior. Em janeiro, nosso diretor-geral, Marcos Matos, esteve em Berlim a convite da Associação Alemã de Café para eventos e ações da indústria alemã. O Cecafé combina os conhecimentos técnicos e acadêmicos do nosso diretor-geral com o meu na parte comercial e de relacionamentos, o que facilita as negociações do Brasil, que – necessariamente – passam pelos clientes.

A nossa equipe é enxuta, mas de primeiríssima linha, com o Eduardo Heron, como diretor-técnico, e a Silvia Pizzol, como a diretora de sustentabilidade, nos dando instrumentos para trabalhar. Neste cenário de mudança na geopolítica, EUDR e outras demandas da Europa, o Cecafé tem sido proativo. É um trabalho intenso de relacionamentos com autoridades em âmbito municipal, estadual, federal e global. Estamos sempre em Brasília com os ministros, Presidência da República, Itamaraty. Ano passado, estive 30 dias na Ásia. Primeiro, na China a convite da Apex-Brasil. Depois, fui para Indonésia e Malásia, quando o presidente Lula com seus ministros se reuniu com o presidente Trump para tratar da questão das tarifas. Foi um encontro extremamente importante, com vários setores representados ali, e o Cecafé estava presente. [Depois dessa reunião, os EUA anunciaram o fim de boa parte das tarifas impostas a produtos brasileiros].

Quando surgiu a EUDR, muitos a encararam como protecionismo, mas temos que olhar as oportunidades. Eles alegam que o consumidor quer saber se a área de onde vem o café tem desmatamento. Ok, nós aplaudimos isso, mas requeremos que as embalagens finais reflitam a realidade, o que hoje não ocorre.

Numa loja no exterior, você pega uma embalagem de café em que está escrito [origem] Colômbia, mas quando você escaneia o QR Code, vê que 50% daquele café é brasileiro. Se existe uma EUDR, uma legislação que exige a rastreabilidade do café no talhão, então é de direito do Brasil exigir que a embalagem final ou a cafeteria tenha transparência e demonstre que aquele café é brasileiro.

E: E as tarifas de 50% impostas pelos EUA no ano passado?

MF: Há crises que são verdadeiros presentes. Essa crise fez ressaltar aos olhos do consumidor norte-americano a importância dos cafés do Brasil, porque embora a embalagem não necessariamente diga que os cafés são do Brasil, isso ficou nítido. Inclusive, eu e o Marcos demos entrevistas à rede norte-americana – citando várias características do café brasileiro, que são diferentes das dos demais. Quando você tira o café brasileiro do mercado e aplica uma tarifa de 50%, você automaticamente obriga os importadores a buscarem cafés em outras origens, que não têm quantidade. Aí, o café bateu um novo recorde de preço. Desde que começou a história da tarifa, eu dizia em Brasília: “o tempo corre a nosso favor”. Logo depois que a tarifa foi implantada, o mercado estava em 260 centavos de dólar por libra-peso e foi para 430 centavos de dólar por libra-peso na Bolsa de Nova York.

E: O tarifaço norte-americano criou o ambiente para a assinatura do Acordo Mercosul-União Europeia?

MF: Certamente, teve um empurrãozinho das tarifas que o governo americano vem aplicando sobre todos os países, mas a gente já vinha trabalhando no acordo há 25 anos. Estamos falando do segundo maior bloco, com um PIB de US$ 22 trilhões, abaixo somente dos Estados Unidos, com US$ 29 trilhões. Os EUA estão com uma postura unilateral, protecionista, que não conversa com o que a União Europeia e nós pretendemos [conversar] – isso é o multilateralismo. Os Estados Unidos é líder como importador de café no Brasil, temos uma relação muito boa e queremos permanecer assim. Mas a União Europeia participa com 44% de tudo o que o Brasil exporta de café, e o acordo abre um potencial enorme pra nós.

E: Você está falando de solúveis?

MF: Sim. Há mais de 20 anos, o Brasil investiu em fábricas de café solúvel, que agregam valor à matéria-prima, mas o produto vem sendo sobretaxado pela União Europeia, com um imposto de importação de 9%. É lamentável ter clientes que outrora compravam café solúvel e, hoje, compram café em grãos, porque a tarifa é proibitiva. Enquanto isso, a União Europeia fechou acordos bilaterais com Colômbia, México, Equador, Vietnã, Índia e Indonésia, que não têm esse imposto de importação sobre o solúvel. Com isso, o crescimento do parque industrial de café solúvel nesses países foi enorme.

O Vietnã ultrapassou o Brasil na capacidade de produção de café solúvel. Hoje, nosso parque industrial está com uma ociosidade de 20%, sem considerar a tarifa americana de 50% sobre o café solúvel brasileiro. Se ela permanecer, a ociosidade vai para 35%. Isso requer muito trabalho para buscar novos clientes, reconquistar o nosso espaço, principalmente na Europa. Se não fossem os 9% de imposto, a participação [brasileira de solúvel] na Europa seria, no mínimo, de 35%, mas, infelizmente, é de 17%. Às vezes, é mais barato mandar conilon em grão para o Vietnã, produzir o solúvel lá e exportar para a Europa. Hoje, é mais barato mandar café do Brasil para Equador, Colômbia ou México e, de lá, exportar para os EUA. Mas temos indústrias que fazem sacrifício para exportar para os EUA, absorvem parte da tarifa, para não perder clientes de sete, oito anos e, às vezes, de décadas.

E: O fato de o Vietnã estar com um parque industrial de café solúvel maior que o nosso é uma ameaça?

MF: É uma ameaça, se nós não fizermos o dever de casa. Mas assinamos o acordo Mercosul-União Europeia e temos importantíssimos compradores de café solúvel do Brasil, fora os Estados Unidos e a Europa. Estou falando da Ásia, onde o solúvel é tarifado de 20% a 48%. Estive com o governo brasileiro nos países asiáticos para negociações bilaterais e retirada desses impostos. Tanto a Europa quanto a Ásia estão na direção do multilateralismo. Isso abre um diálogo para o Brasil dizer: “está na hora de vocês tirarem as tarifas para o café solúvel”. E, eventualmente, o Brasil terá que receber produtos que não são produzidos aqui, ou – mesmo que sejam – que possam entrar num regime de cota sem aplicação de imposto.

E: O que você acha do aumento do consumo de café na China?

MF: O consumo está crescendo em toda a Ásia. Segundo estudos, a população mundial vai saltar de 8 bilhões para 10 bilhões nas próximas décadas, e 100% do crescimento estará na Ásia e na África. A população da Europa está em declínio, a da América também. Já o consumo de café na China foi de mais de 6 milhões de sacas e ultrapassou o da Itália em 2025. Isso é um dado muito relevante, pelo tamanho da população chinesa. Tomar café está se tornando um hábito, uma cultura entre os jovens, que também gostam muito de laranja e de coco. Então, além do café convencional, as fábricas têm feito bebidas cafeinadas com estes ingredientes.

E: Com o Acordo Mercosul-União Europeia, o solúvel brasileiro passa a competir em pé de igualdade com outras origens?

MF: Vai levar um pouco de tempo, porque esses 9% vão sofrer um desagravo durante quatro anos, da ordem de 2,25% ao ano. Isso, depois de implementadas todas as regras, e de o acordo ter sido ratificado país a país. Depois disso, o Brasil estará em condições de igualdade. Mas sempre advogo que temos que ser mais agressivos, e começar a participar mais do mercado europeu. Temos ociosidade de produção, então, mesmo se as indústrias venderem com zero de margem, realizarão um bom negócio porque otimizarão as fábricas com produção total, reduzindo o custo por quilo produzido.

E: Existe alguma perspectiva de redução da tarifa dos Estados Unidos para o café solúvel brasileiro?

MF: Sim. O Vietnã está tarifado em 20%; o Brasil, em 50%. É uma diferença de 30%. O Cecafé tem dialogado com a Abics [Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel], com as instituições em Brasília, junto à própria NCA [National Coffee Association], nos Estados Unidos, e com os dois principais compradores de café solúvel americanos. Existe uma perspectiva, mas talvez demore mais do que a gente esperava por causa das questões geopolíticas.

E: Como você avalia o movimento das exportações brasileiras de cafés sustentáveis? A demanda global e a quantidade ofertada pelo Brasil vêm aumentando?

MF: Sim, tem aumentado. O Brasil tem um Código Florestal rígido. Nossos cafés são extremamente sustentáveis, se concentram em pequenas propriedades, é um universo de produtores. Muitas vezes, para que sejam ratificados como sustentáveis, trazem uma certificação, como 4C, Rainforest, Fair Trade. O café sustentável não necessariamente será de extrema qualidade. Mas não existe café de qualidade ruim. Existe café que não se adequa ao hábito do consumidor.

Nos Estados Unidos há as cafeterias e o consumo no lar. Entre a população americana, há um percentual enorme de hispânicos. Esta população consome uma bebida não tão fina, mas nem por isso abre mão de uma certificação. O mesmo ocorre com a Argentina, que tem todas as variedades de café. Na Europa, onde temos uma participação de 44% do café importado, o Brasil entrega um percentual cada vez maior de cafés sustentáveis. É comum ter cafés ratificados por esses certificadores, com seus produtores constantemente dedicados a produzir cada vez mais cafés sustentáveis. A empresa onde trabalho, por exemplo, é pioneira em café e sustentabilidade no Espírito Santo. Desde o ano 2000, trabalhamos com a maior fabricante de café do Japão, a UCC [Ueshima Coffee Co.]. Nosso investimento em qualidade e sustentabilidade alcança mais do que a família e a propriedade. Onde tem café, o IDH é melhor. Onde tem café com sustentabilidade, o IDH e os índices socioambientais são ainda melhores, e isso coloca o produtor na vitrine nacional e na internacional.

E: Em 2025, as exportações de café do Brasil tiveram recorde em receita cambial, embora tenham registrado queda em volume. O que esperar para este ano?

MF: No ano passado tivemos uma queda de 20% em volume e um aumento de 24% em receita. Nos últimos anos, o Brasil teve problemas climáticos. Em 2021, tivemos a geada mais forte desde 1994. Também registramos temperaturas muito altas. Em 2024, batemos recorde de exportação de conilon por causa de problemas no Vietnã e na Indonésia. Neste ano, as condições climáticas estão favoráveis, tivemos boas chuvas em janeiro, o que favorece o enchimento do grão. A safra de arábica deve ter uma recuperação, e a de canéfora deve se manter igual ou ser um pouco maior. Possivelmente, tenhamos uma correção na Bolsa de Nova York para níveis mais realistas, do ponto de vista histórico.

E: Como o café brasileiro pode expandir ainda mais as fronteiras?

MF: Não só o café, mas o agro deveria ter menos ideologia e mais praticidade. Precisamos ser Cafés do Brasil, independentemente da ideologia que a pessoa tenha. Todos acordam de manhã, tomam seu café, falam de café. É isso que nos interessa. Precisamos também ser mais próximos da cultura, porque, assim, vamos nos aproximar dos elos, não só no Brasil, mas no mundo, que conversam entre si. O [publicitário] Nizan Guanaes faz críticas ao agro e ele tem razão. Quando você assiste a uma série colombiana na Netflix, vê propagandas do Juan Valdez, mas quando vê uma série brasileira, não vê Cafés do Brasil.

Existe uma pesquisa na Europa que mostra que a marca Cafés do Brasil é mais conhecida do que o próprio Brasil. Temos um desafio internacional. A Colômbia tem um olhar para o produto acabado e abriu uma loja em um shopping no Brasil – temos de aplaudi-los por isso. Segundo a liderança colombiana, o mercado brasileiro está no foco, e essa será a primeira de muitas lojas. O Brasil tem o produto acabado nas mãos de empresas, em sua maioria não brasileiras. Entendo que precisamos produzir aqui o produto final, porque geramos empregos, agregamos valor e exportamos produtos com rastreabilidade. Produtos com matéria-prima 100% brasileira ou com alguma outra no blend, mas produzidos no Brasil para agregar valor – e não produzidos no exterior, com mais de 50% de café brasileiro, para depois serem pagos a custos elevados pelos próprios brasileiros.

E: Quais os principais desafios do setor?

MF: Hoje, o Brasil tem um problema logístico sério. Há navios no porto do Vietnã que transportam, numa única viagem, toda a exportação de conilon do Brasil para o mundo em um ano. Veja o quão atrasados estamos. Nossa logística é deficitária da lavoura ao navio – precisamos de ferrovia, de portos. Na década de 1980, tínhamos um armazém em Bauru, e todo o café seguia por trem até o porto de Santos ou de Paranaguá [no Paraná]. Quarenta e cinco anos depois, nem sequer temos ferrovia – regredimos.

A boa notícia é o advento dos novos portos, principalmente o porto de Imetame, no Espírito Santo. Atualmente, Santos é o maior porto da América Latina, recebendo navios da ordem de 10 mil contêineres. O porto de Imetame e outros do parque logístico do Espírito Santo receberão os maiores navios do mundo, com até 25 mil contêineres. Isso vai ajudar o Brasil mas, obviamente, só o porto não basta. Precisamos de estrutura terrestre e, principalmente, de ferrovias, porque o consumo de café vai crescer nos próximos anos.

Outro desafio é tributário, juros altos, financeiro. Como captar dinheiro com nossas taxas de juros e gerar negócios futuros, se os mesmos futuros têm deságios, que chegam a 20% em dólar ao ano? Da parte do governo, [a solução é] intensificar as políticas econômicas para que não tenhamos uma despesa tão maior do que as receitas como tem acontecido, o que leva o Banco Central a manter taxas de juros altas. Na questão tributária, o mais importante é ter clareza de qual tributo está sendo pago, respeitando um limite de pagamento de tributos, porque a atividade do café precisa ser remuneradora.

Texto originalmente publicado na edição #91 (março, abril e maio de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Lívia Andrade • FOTO Agência Ophelia

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Degustação e bate-papo sobre cafés do Cerrado acontecem sábado (18) na Casa Hario (SP)

A iniciativa, que prestigia IGs brasileiras, trará produtores e cafés de outras regiões até o fim de 2026; jantar harmonizado com a bebida fecha o primeiro encontro

A Casa Hario lança, neste sábado (18), uma série de degustações e encontros mensais com produtores para celebrar as indicações geográficas brasileiras de café. A ação faz parte do projeto Cafés de Origem, criado por Katia Nassuno, idealizadora da Casa Hario, que busca conectar cafeicultores e seus territórios a consumidores por meio de provas da bebida e workshops. 

A cada mês, o espaço, que reúne loja, cafeteria, bar e restaurante no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo, recebe um produtor e seus grãos. “Mais do que sediar ativações, atuamos como plataforma anfitriã e curadora de experiências, conectando origem e consumo de forma genuína”, diz Kátia. 

A região de estreia é o Cerrado Mineiro, primeira denominação de origem de cafés do país, representada pela Fazenda Três Meninas, do casal Marcelo e Ana Paula Urtado. Localizada em Monte Carmelo, a fazenda é referência mundial na produção de cafés regenerativos. No dia 18, das 10h às 12h, está programado um café da manhã com Ana Paula – acompanhada das filhas Malu e Fernanda, que, ao lado dela, são a razão do nome da propriedade – e degustação do arábica topázio, de processamento natural (100% ao sol), em três torras diferentes. 

“O Cerrado tem excelência em agricultura regenerativa para cafés, e quando o consumidor escolhe um café regenerativo, ele apoia a cadeia e incentiva a base produtora”, conta Ana Paula à Espresso

Ana Paula Urtado com suas filhas, Malu e Fernanda

Adepta há dez anos da prática, que restaura o solo e aumenta a biodiversidade, Ana Paula diz que a iniciativa é uma oportunidade de conversar sobre o tema com o público. “O conceito de qualidade em café evoluiu – já não é mais apenas como ele se apresenta na xícara, mas como ele foi produzido”, reforça ela. “Se você pode escolher um café bom com impacto positivo, por que não?”, provoca. 

O ingresso do encontro, com vagas limitadas, custa R$ 198 (mais taxas) no site Sympla.

O café da Fazenda 3 Meninas também está disponível a partir de sábado no cardápio da cafeteria, em sete métodos (como v60, sifão e surien), e será comercializado (em edição limitada) ao lado de mais dois representantes do Cerrado: um paraíso 2 natural do Guima Café, das fazendas São Lourenço (Patos de Minas) e Brasis (Varjão de Minas), no Alto Paranaíba – núcleo da produção cafeeira da D.O. –, e um novo mundo de fermentação induzida da Fazenda Tabatinga, em Indianópolis, de Alzira Mantovanelli.

Os cafés também entram no cardápio do jantar de 24 de abril (às 19h, por R$ 380). O menu, assinado pela cozinheira e cafeicultora Gabi Tropicana, à frente do restaurante Riacho Pequeno (Itu, SP), aposta numa cozinha caipira harmonizada com café e vinhos mineiros. Entre os pratos, arroz com requeijão moreno (queijo de corte, amarronzado e levemente adocicado, feito no fogão à lenha e típico de regiões como Vale do Mucuri), cupim prensado ao demi-glace de café, farofa e couve rasgada.

Até o fim do ano, a Casa Hario vai receber cafés e produtores das IGs Região do Pinhal (SP), Alta Mogiana (SP), Região Vulcânica (MG) e da Canastra (MG). As datas, a serem definidas, serão atualizadas no site da empresa e nas redes sociais.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

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Exportações de café caem 8% em março, para 3 milhões de sacas

Entressafra, retenção de vendas pelos produtores e gargalos logísticos reduzem embarques; receita recua mais que volume

Os embarques brasileiros de café somaram 3,04 milhões de sacas (60 kg) em março, com receita de US$ 1,125 bilhão, informa o relatório estatístico mensal do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), divulgado nesta segunda-feira (13). Em comparação a março de 2025, houve queda de 7,8% em volume e de 15,1% em valor.

Para o presidente da entidade, Márcio Ferreira, o recuo reflete a combinação de fatores sazonais e estruturais, como o período de entressafra, que reduz a oferta enquanto a nova colheita começa a chegar ao mercado, e a situação financeira dos produtores. “Os cafeicultores se encontram capitalizados e analisando os melhores momentos para negociar seus cafés remanescentes, assim, há menor disponibilidade do produto.” Há ainda gargalos estruturais nos portos, que limitam a capacidade de embarque, e um cenário externo de incertezas nas relações comerciais com os EUA e de tensões no Oriente Médio, que encarecem as operações dos importadores. 

No acumulado do ano-safra 2025/26 (julho a março), o Brasil exportou 29,093 milhões de sacas – queda de 21,2% ante o mesmo intervalo anterior–, mas com alta de 2,9% na receita, de US$ 11,431 bilhões. No primeiro trimestre de 2026, os embarques somaram 8,465 milhões de sacas (-21,2%), com receita de US$ 3,371 bilhões (-13,6%).

A Alemanha liderou as compras no primeiro trimestre, com 1,192 milhão de sacas (-15,6%), seguida pelos EUA, com 936,6 mil (-48,3%). Itália (885,2 mil, +10,2%), Bélgica (527,5 mil, +4,5%) e Japão (440 mil, -35%) completam o ranking dos principais destinos do café brasileiro no período.

O arábica foi o principal produto exportado no primeiro trimestre, com 6,712 milhões de sacas (79,3% do total embarcado), embora em queda de 25,8% na comparação anual. Já os canéforas (conilons e robustas) somaram 780,9 mil sacas, com alta de 11% e participação de 9,2%, enquanto o segmento de solúvel alcançou 963,2 mil sacas (-1,5%), respondendo por 11,4% dos embarques.

O relatório completo das exportações de café do Brasil, com os dados de março de 2026, está disponível no site do Cecafé.

TEXTO Redação