Coluna Café por Convidado Especial

Do campo à xícara, profissionais convidados refletem sobre o setor

Notas sobre paixão: uma antropóloga buscando a comunidade de cafés especiais no Brasil

Alguns meses depois de me mudar da Inglaterra para São Paulo, adoeci. Fui ao hospital para fazer alguns exames e, depois duma coleta de sangue, eu desmaiei. (Não se preocupe, esta história acaba bem, prometo). Depois que acordei, a enfermeira disse que sabia o que me ajudaria. Ela fez meu marido me ajudar a ir até um corredor, onde ela apontou não para um copo d’água, suco ou biscoitos (coisas que eu esperaria receber nessa situação num hospital inglês), mas, sim, para uma garrafa térmica de café.

Eu bebi… E, sim, eu me senti um pouco melhor. (Viu? Disse que ia acabar bem). 

É uma boa história, ilustrativa quando eu explico meu trabalho para estrangeiros porque qualquer pessoa que tenha um interesse por café em qualquer lugar do mundo sabe que o Brasil é o maior produtor mundial de grãos. Muito menos conhecido, porém, é o fato de o Brasil ter recentemente ultrapassado os Estados Unidos como o maior consumidor de café do mundo. Como eu descobri no hospital, o café realmente está em todo lugar. Essa combinação simultânea de altos níveis de produção e consumo criou uma economia de café híbrida em que as demandas de produtores e consumidores são mais aproximadas do que nos países importadores do café. Foi em resposta a esse cenário único que estive em São Paulo: eu estava conduzindo uma pesquisa que fazia a pergunta: “como é a comunidade de consumidores de café especial num país produtor?”. É claro, o café na garrafa do hospital não era o especial, mas eu também tive que entender o panorama geral do consumo da bebida: se o café já está em toda parte da sociedade, por que se dar ao trabalho de buscar, comprar, pagar e gastar tempo com outro tipo? Em outras palavras, por que fazemos as coisas que fazemos em relação ao café? 

Uma parte complicada dessa pesquisa foi como definir “comunidade de cafés especiais”. É um exercício mesmo! Experimente: como você definiria esse grupo? Quem está dentro? Quem não está? Durante minhas observações, era comum encontrar uma gama diversificada de profissionais e entusiastas em eventos e oportunidades educacionais, muitos dos quais ocupavam as duas metades do binário. Aqueles que inicialmente imaginei serem profissionais do café muitas vezes mudavam do café para outros empregos de hospitalidade ou serviços, enquanto muitos entusiastas eram ex-profissionais do café ou esperavam trabalhar com ele algum dia. E todo mundo era um ‘consumidor’ de alguma forma. 

A fronteira que define essa comunidade é nebulosa, na medida em que o termo engloba uma longa cadeia de produção e fornecimento, da origem agrícola do produto ao barista que serve uma bebida a um cliente ou ao indivíduo que faz seu próprio café em casa de manhã. Eu não fui a única pessoa com dificuldade em entender a forma desse grupo. Como me disse o dono de um café em São Paulo: a comunidade de café especial “não é visual como a do rock. Você não vê alguém e fica tipo, ‘Ah sim, aquele cara com a jaqueta jeans, com certeza ele é da comunidade do café’”. O que, além das transações comerciais, liga todas as pessoas nessa ‘cena do café’? 

A solução foi fornecida pela Tereza Cristhina Barbosa, da Pasta de Amendoim da Tereza, numa tarde chuvosa, enquanto tomávamos café na cafeteria Takkø. Além de ser empreendedora de pastas de amendoim, ela ama cafés especiais. Ela os ama tanto que se descreveu como “apaixonada”. Aqui estava a minha chave: paixão. 

Nem todos os bebedores de cafés especiais sentem paixão, da mesma forma que nem todo cliente de uma cervejaria artesanal é fanático por cerveja. Encontrei muitos clientes de cafeterias especiais que só moram ou trabalham nas proximidades e as visitam por conveniência, ou tenham uma preferência genuína por café especial em comparação com o café convencional, mas não se preocupam em fazer disso um hobby. O que distingue as pessoas que constituem essa comunidade é que a sua paixão por cafés especiais é um pilar importante de seu estilo de vida; a paixão motiva as ações. Ter a paixão como denominador comum me permitiu considerar pessoas de todo o setor cafeeiro brasileiro em meu trabalho, conversar, aprender e conhecer pessoas de toda a cadeia como parte dum único grupo.

A paixão é assim: não é estática. Sentimos profundamente, queima, está vivo. É um sentimento que inspira e motiva, pode dar forma à vida e nos ajuda a encontrar valores além do monetário. Por exemplo, conheci um jovem barista que viajava quase duas horas da periferia para chegar a seu emprego numa cafeteria especial – sua paixão por café o ajudou a moldar a sua aspiração por uma vida diferente. Ele teria ganhado quase o mesmo dinheiro trabalhando na padaria de seu bairro, mas seguiu sua paixão até o centro da cidade. Ou considere os dois advogados que conheci que haviam deixado seus empregos na advocacia para trabalhar com café: eles não eram felizes como advogados, e o valor de sua paixão pelo café superava o corte no salário que veio com essa transição de trabalho. Através da paixão vêm as possibilidades da vida. A paixão por café também nos conecta com outras pessoas: até eu morrer, não esquecerei o som de todos gritando na SIC 2018, quando Emi Fukahori, de Switzerland, ganhou a copa mundial de cafés coados com um café brasileiro – ou de que vi vários trabalhadores agrícolas supermasculinos chorar neste momento. A paixão nos une. Até mesmo, no caso da vitória de Fukahori, em um momento turbulento no país, poucas semanas após a última eleição presidencial. 

E então, o que é ser uma comunidade de café especial em um país produtor? É usar a paixão como forma de construir um futuro diferente, melhor, com mais autodeterminação. É usar isso como uma força motivadora para superar obstáculos e, em seguida, removê-los: mesmo quando são muitos, mesmo quando é desafiador. 

TEXTO Dra. Sabine Parrish - antropóloga e pós-doutorada no Centre for Food Policy da City University London • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Dentes brancos e café combinam SIM! E é a Ciência quem diz isso!

E a velha frase “café escurece o dente!” foi por água abaixo! E junto com ela, a ideia de que seria incompatível clarear os dentes e tomar café. Mas em que momento isso mudou e NINGUÉM ME CONTOU NADA? “Sofri à toa clareando e me abstendo de um belo cafezão especial?”. A dolorosa resposta é: SIM!

Realmente, há muito anos, os pacientes que faziam clareamento dental eram orientados a assumir a chamada “dieta branca”. Nada de alimentos ou bebidas que continham corantes, e nosso amado café entrava nesse time de restrições.

Primeiro, vamos entender de onde vem a cor do café, que tanto assusta quem deseja dentes brancos. Durante a torrefação, dentre uma variedade de reações, temos a desejada (se bem feita!) Reação de Maillard, unindo carboidratos, aminoácidos, calor e gerando diversas outras substâncias e compostos. Uma das substâncias formadas é a melanoidina, que possui cor castanha. Solúvel em água, representa uma fração considerável do café em pó, variando conforme a espécie de café e detalhes como a intensidade da torra.

Assumiu-se, então, que esta cor marrom poderia ser “transferida” para os dentes, tornando-os amarelados. E isso foi tido como verdade absoluta por muito tempo, pois era algo um tanto óbvio, já que o café tende a manchar outras superfícies claras no nosso dia a dia. E assim permaneceu, sendo esta informação repassada sem que fosse questionada.

As mudanças de comportamento, tanto dos dentistas quanto dos pacientes, realmente ocorre de modo bem gradativo e, especialmente na área de Saúde, isso é compreensível. Mas em algum momento a mudança começa: algum pesquisador resolve observar fenômenos, questionar o status quo e testar possibilidades seguindo um método. E um belo dia alguém resolveu testar o clareamento em um grupo de pacientes que consumiam café diariamente e com outro grupo que não consumia. E para surpresa de muitos, resultado igual, ou seja, os dentes clarearam na mesma intensidade. Seguindo o curso normal deste tipo de pesquisa, outros pesquisadores, em locais variados do mundo, pesquisaram sobre o mesmo assunto e confirmaram: também não houve influência negativa. E tudo isso não é tão recente assim, pois desde início dos anos 2000 já surgiam publicações sinalizando que café não seria tão vilão assim. Mas o que explicava estes achados?

O grande detalhe é que uma boa parte dos corantes presentes nos alimentos, como as melanoidinas, são considerados como sendo cadeias macromoleculares. Traduzindo para nosso dia a dia, são moléculas tão grandes que não conseguem “entrar” nos espaços microscópicos do esmalte dentário. Em casos extremos de consumo ou quando há defeitos no esmalte ou presença
de “placa bacteriana”, este pigmento fica, no máximo, acumulado na superfície do dente, sendo removido pela escovação ou limpeza profissional.

Dando um exemplo extremamente simples mas objetivo, imagine uma casa com piso cinza. Se uma camada de poeira se depositar sobre este piso, ele não deixa de ter sua cor original, somente está oculta. Feita uma limpeza, a cor original aparece novamente.

Sabendo que a Reação de Maillard não é exclusiva do café, se ele realmente fosse vilão, todos os pacientes deveriam também ser orientados a se abster de “outros vilões”, como: carne assada, pães, bolachas, bacon, chocolate, doce de leite, caramelo, cerveja escura, azeite balsâmico e mais uma infinidade de alimentos que também terão as melanoidinas no produto finalizado.

E como dentista, professor universitário e apaixonado por café especial, não voltaria para casa tranquilo obrigando meus pacientes a não tomarem café enquanto fazem clareamento dental. Seria alegria de um lado e tristeza de outro. Então a dica é: se for clarear seus dentes, procure um profissional que mantenha seu cafezão em dia. Sorria, beba um baita café e seja bem feliz assim!

TEXTO Johnson Fonseca, dentista e professor no Unilavras. Proprietário da SOUL Café & Prosa. @johnsonfonseca • FOTO Parker Johnson

Crise de fertilizantes afeta competitividade de cafeicultores e cria oportunidades para a agricultura regenerativa

O grande aumento nos preços dos fertilizantes provocado pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia causará altas no custo de produção do café, mas este impacto provavelmente será muito diferente dependendo do país e do tamanho da fazenda. Isto pode ser uma vantagem competitiva para pequenos produtores que usam menos fertilizantes por hectare? Isto pode ser uma oportunidade para produtores de todos os tamanhos aumentarem as práticas de agricultura regenerativa?

O uso de fertilizantes é muito mais intenso em países de alta produtividade, como Vietnã e Brasil, onde a produtividade média do café é de cerca de 2 toneladas por hectare, do que em países de baixa produtividade, cuja produtividade média pode ser
tão baixa como 500 kg por hectare. Mas mesmo no Brasil e não tanto no Vietnã, os pequenos produtores tendem a usar menos fertilizantes do que os de médio e grande porte. Pequenas fazendas usam muito menos ou nenhum fertilizante em muitos países produtores. Com isso, seu custo de produção será menos impactado pela atual crise de fertilizantes e poderão ganhar competitividade em relação aos produtores maiores.

Isto pode não ser o caminho ideal para pequenos produtores e alguns países se tornarem relativamente mais competitivos, mas é um fato que resulta de preços mais altos de fertilizantes. Por outro lado, isto será um incentivo para os produtores de todos os tamanhos aumentarem o uso da agricultura regenerativa para garantir que a produtividade econômica máxima seja alcançada.

A busca da alta produtividade sem a devida consideração de seus custos deve ser questionada e a produtividade que proporciona o maior lucro, ou seja, a produtividade econômica máxima, deve ser buscada em todos os momentos. A agricultura
regenerativa pode ser um caminho a ser seguido por produtores de todos os tamanhos sempre e especialmente em tempos de preços altos de fertilizantes.

A agricultura regenerativa, uma abordagem de conservação e reabilitação baseada na regeneração do solo superficial, melhora do ciclo da água, aumento da biodiversidade, melhora do ecossistema e apoio ao bio-sequestro, baseia-se em muitas práticas que são mais fáceis de implementar em pequenas propriedades, por exemplo: reciclagem de resíduos agrícolas, agrossilvicultura, restauração ecológica, etc. Isto pode favorecer a competitividade e aumentar a resiliência às mudanças climáticas dos pequenos cafeicultores, desde que tenham acesso a essas tecnologias.

A crise dos fertilizantes deve fornecer incentivos para que as fazendas de café de todos os tamanhos aumentem seu uso da agricultura regenerativa e criem um círculo virtuoso. Por exemplo, à medida que a saúde do solo melhora os requisitos de insumos podem diminuir, incluindo fertilizantes, a resiliência às mudanças climáticas pode aumentar e a produtividade também.

Não vamos, no entanto, tratar os atuais altos preços dos fertilizantes e as oportunidades que eles criam como uma panaceia para a redução de seu uso. Os fertilizantes continuam sendo um insumo fundamental para fazendas de todos os tamanhos alcançarem a máxima produtividade econômica do café em muitos ambientes e países produtores, ainda mais quando seu preço é mais baixo.

TEXTO Carlos Brando • FOTO Café Editora

A diversidade da produção mundial de café está ameaçada?

A tabela abaixo inclui os 14 países que produziram mais de 1 milhão de sacas de café em 2019/20. Os países estão agrupados de acordo com o tamanho da produção.

As colunas do lado direito da tabela mostram a produção média em 2010/11 a 2014/15 e 2015/16 a 2019/20, a participação mundial da produção dessas médias e o crescimento das médias entre os dois períodos. A última coluna do lado direito contém números surpreendentes.

Ao contrário do que se menciona com frequência, que o Vietnã e o Brasil juntos estão ganhando participação crescente e expressiva no mercado global, esta última coluna mostra que o segundo e terceiro grupos de países tiveram um crescimento percentual da produção muito maior do que os dois maiores produtores, o que fez com que seu volume de produção adicional se situe na mesma faixa dos dois principais produtores. Enquanto o Vietnã e o Brasil adicionaram 9,3 milhões de sacas à produção média mundial neste período, os próximos 6 países – Grupos B e C da tabela – adicionaram 4,4 + 4,4 = 8,8 milhões de sacas. Isto mostra que a concentração da produção é um processo que envolve mais países do que apenas o Vietnã e o Brasil, o que é bem vindo para a diversidade da oferta de café.

Por outro lado, não é bom que juntos os próximos dois grupos – D e E – não tenham crescido e tenham perdido um pouco de participação. Com exceção da Nicarágua, que teve um dos maiores crescimentos percentuais da tabela (37%), e da Guatemala, que teve um crescimento pequeno (2%), todos os outros países viram sua produção média cair. Isto não é bom para a diversidade.

A escolha aleatória de anos para calcular as médias pode ser criticada. Pode-se argumentar, por exemplo, que esta escolha abordou os períodos durante e após a renovação da cafeicultura da Colômbia e que a produção do país se manteve bastante estável nos últimos 5 anos. A produção vietnamita também tem oscilado em torno de uma média de 30,5 milhões de sacas nos últimos 5 anos, após forte crescimento em relação ao período anterior. Em outras palavras, esses dois grandes produtores não cresceram significativamente nos últimos 5 anos. O crescimento da produção foi modesto no Brasil entre os dois períodos e também no segundo período, apesar das oscilações típicas da bienalidade da produção brasileira.

Crescimento entre médias à parte, a análise da produção anual de cada país na tabela mostra uma tendência visível de expansão em países como Etiópia, Honduras, Uganda, Nicarágua e Costa do Marfim. É interessante saber o que estes países estão fazendo para aumentar a produção e usar tais informações como base para ajudar outros países a fazerem o mesmo.

Esta troca de experiências entre países produtores médios e pequenos é especialmente relevante considerando o argumento de que Brasil e Vietnã têm uma escala de produção muito maior e que seu agronegócio café é tão mais desenvolvido que é difícil transferir o que estão fazendo para outros países produtores. Provavelmente verdade em uma perspectiva macro, isto pode não ser o caso em nível de fazenda, em uma perspectiva micro, onde as soluções podem de fato ser transferíveis, especialmente aquelas usadas pelos pequenos cafeicultores. Em realidade, o ambiente facilitador institucional e de negócios que funciona bem e está mais desenvolvido no Brasil e no Vietnã deve também ser introduzido ou melhorado em todos os países produtores, mas esta é uma tarefa muito mais complexa e de longo prazo.

A outra boa notícia é que apenas 4 dos 14 países descritos na tabela perderam produção entre as médias dos períodos em questão e estas perdas ocorreram no final de um período bastante longo de preços baixos do café. O crescimento médio para todos os 14 países (13%) foi superior ao do Brasil e do Vietnã juntos (12%) e a produção mundial total cresceu apenas um pouco menos (11%). A diversidade de produção não está se perdendo… mas pode crescer mais, inclusive dentro dos países líderes de produção.

É um bom desafio dedicar mais tempo à análise dos números na tabela acima e, principalmente, do que está por trás destes números para chegar a conclusões adicionais. O aumento da produção nos países produtores médios foi fruto de vontade política, melhoria do ambiente favorável ou outro(s) fator(es)? Uma forte razão para o aumento da produção em qualquer lugar é que os cafeicultores ganhem mais dinheiro. Foi o caso destes países?

TEXTO Carlos Henrique Jorge Brando

A tempestade perfeita no Brasil cria oportunidades para outras origens?

Muito pior do que aconteceu na seca de 1986 e nas geadas de 1994, a combinação de eventos que afetou o agronegócio café brasileiro em 2021 é uma excelente definição de tempestade perfeita: seca, geadas, seca de novo, crise logística, grandes aumentos de preços de fertilizantes e pesticidas, risco de barreiras de acesso aos mercados da UE e excesso de chuvas e inundações primeiro nas áreas de Conilon e agora em Minas Gerais.

Embora a maioria dos componentes desta tempestade seja específica do Brasil, a crise logística e os insumos mais caros afetam todos os países produtores de café. No entanto, os aumentos de frete têm um impacto maior sobre os preços de entrega CIF dos cafés brasileiros porque o país está mais distante dos principais países importadores de café. Também, os preços de fertilizantes e pesticidas subiram para todos os países produtores, mas o Brasil os usa de forma mais intensa por vários motivos.

Foi a tempestade perfeita no Brasil pois afetou o tamanho da safra e o custo de produção e entrega do café de forma que não há paralelo no próprio Brasil no passado e na maioria dos outros países produtores no passado ou no presente. Sendo o Brasil, de longe, o maior país produtor de café, não é de admirar que os preços do café tenham subido de maneira não vista há décadas! Isto pode trazer oportunidades interessantes para todos os outros países produtores de café aumentarem sua participação no mercado porque as geadas podem ter impactos que vão além da safra de 2022, a crise logística – fretes altos – também pode se estender além de 2022 e os preços dos insumos devem permanecer altos no futuro próximo. Ou seja, pode haver uma janela de oportunidade para os concorrentes brasileiros que vai além de 2022.

Origens que não o Brasil podem se beneficiar desta oportunidade de várias maneiras: no curto prazo, melhor processamento de seus cafés – benefício úmido, secagem e benefício seco – para aumentar a eficiência e oferecer cafés de melhor qualidade; na próxima safra, boas práticas agrícolas e aumentos inteligentes no uso de insumos para avançar em direção à produtividade econômica máxima; e, no médio prazo, renovação com variedades resistentes a pragas e doenças e mais produtivas. Estas oportunidades são maiores para grandes produtores e para aqueles que tratam o café como um negócio. Os pequenos produtores, que são a maioria, tendem a se beneficiar menos porque são menos eficientes e geralmente vendem seus cafés por um preço mais baixo porque têm menos acesso à tecnologia e menos poder de barganha.

Como o tamanho médio da fazenda de café no Brasil é 4 a 5 vezes maior do que no resto do mundo, uma forma destes países que competem com o Brasil aproveitarem esta oportunidade e tornarem seus benefícios mais duradouros é fazer com que esses seus pequenos produtores unam forças e trabalhem juntos para ganhar escala e eficiência. Como isso pode ser feito? A primeira etapa pode ser processar café em conjunto, em pequenas centrais de benefício úmido, a fim de reduzir os custos operacionais e os investimentos. O próximo passo pode ser comprar insumos – fertilizantes e pesticidas – em conjunto para reduzir os custos de produção. O último passo pode ser vender café juntos para conseguir preços melhores. Entretanto, isto não é fácil devido a fatores culturais, ao apego a sistemas tradicionais, etc.

O uso de centrais de benefício para processamento de café pode ir além de micro e pequenas unidades centrais de benefício úmido para grupos de pequenos produtores e incluir centrais maiores de secagem, limpeza e descasque dos cafés provenientes de um grupo de centrais de benefício úmido. Isto pode ser um passo adicional para aumentar a eficiência, reduzir custos e aumentar lucros. Esta pode ser uma oportunidade para cooperativas de cafeicultores ou comerciantes de café à medida que mais e mais café é reunido e separação por tamanho, densidade e cor são adicionados juntamente com a liga, para fazer “blends”. Essa consolidação do processamento pode exigir menos pessoas, mas a tecnologia para ganhar mais eficiência de produção pode diminuir muito mais a mão de obra requerida.

Tendo em vista que ao se aproveitar as oportunidades criadas pela tempestade perfeita no Brasil pode sobrar mão de obra nos países concorrentes, cabe aqui uma pergunta muitas vezes ignorada no negócio café: o futuro da produção deve estar a cargo de um grande número de pessoas, cuja renda ou salário não seja suficiente para que tenham uma vida decente e próspera, ou contar com menos pessoas que tenham uma renda ou salário justo? A resposta a essa pergunta incômoda não pode e não deve ser buscada somente dentro do setor cafeeiro, apenas na cadeia de abastecimento do café, como erroneamente se espera. A resposta está no desenvolvimento regional para criar os empregos necessários fora da produção de café, à medida que esta se torna mais eficiente.

É interessante notar que em países com produtividade alta, por exemplo, Brasil, Vietnã, Costa Rica e a própria Colômbia, há disponibilidade de empregos urbanos nas regiões cafeeiras. Valeria a pena estudar melhor o papel da diversificação rural-urbana nestes países, com pequenos cafeicultores e/ou familiares tendo empregos ou negócios nas cidades pequenas e médias de sua região cafeeira, como inclusive ocorre no Brasil.

A tempestade perfeita no Brasil cria oportunidades que as instituições preocupadas com o desenvolvimento nos países produtores de café deveriam olhar com uma visão mais ampla, que inclua políticas de desenvolvimento regional ou mesmo nacional que vão além do próprio agronegócio café. As Boas Práticas Agrícolas (BPA) e as centrais de benefício poderiam ou deveriam desencadear um processo de desenvolvimento econômico que vá além do agronegócio café e seja um dos componentes de planos de desenvolvimento regional ou nacional. É a dificuldade disto ocorrer na maior parte dos países que deverá fazer com que a participação do Brasil no mercado tenha perda efêmera e volte a crescer em poucos anos.

TEXTO Carlos Henrique Jorge Brando

Altos preços abrem caminho para aumentar a produção de café fora do Brasil e Vietnã?

O aumento da produtividade e, consequentemente, a redução dos custos têm impulsionado o crescimento da participação do Brasil e do Vietnã na produção mundial de café. Isto pode ser revertido pelos altos preços atuais? Argumento, em seguida, que os altos preços do café hoje podem estimular esta reversão, mas ela só será durável com mudanças estruturais na maioria dos países que concorrem com o Brasil e o Vietnã. Uso o caso do Brasil para demonstrar como mudanças no setor e no agronegócio brasileiro impactaram a competitividade do país independentemente dos preços do café e não como resultado de preços altos.

O gráfico acima, que começa em 1990, logo após o fim das cotas da OIC, e termina em 2019, antes que os preços começassem a subir, pode ser intrigante no sentido de que a produtividade e a produção no Brasil subiram muito independentemente do preço do café! Será que a produtividade aumentou exatamente para se adaptar a preços baixos?

A extinção do Instituto Brasileiro do Café (IBC) e o fim das cotas da OIC aconteceram quase ao mesmo tempo fazendo com que o negócio de café do país entrasse na década de 1990 na terrível situação de queda dos preços, interrompida apenas e por alguns anos pela geada de 1994, e a desorganização da pesquisa cafeeira, serviços de extensão, promoção comercial, etc. antes realizados pelo IBC. Isto pode ter criado os desafios que a cafeicultura brasileira precisava para se tornar muito mais eficiente!

Ao contrário do que se esperava, ocorreu uma série de reações, principalmente induzidas pelo setor privado e realizadas pelo governo e pelo próprio setor privado. Isto aumentou a eficiência da cadeia de fornecimento de café dentro e fora da fazenda, com a produtividade quase dobrando nos primeiros 10 anos após 1990 e dobrando novamente nos primeiros 20 anos deste século: um aumento de quase quatro vezes em 30 anos. Resumo abaixo muito do que ocorreu, com maior ênfase no que realmente aconteceu do que no momento em que sucedeu.

Universidades, institutos de pesquisa e fundações tornaram-se muito mais ativos na pesquisa cafeeira, com problemas iniciais de falta de foco e planejamento estratégico bem como duplicação de esforços. Isso acabou sendo corrigido com a criação do Consórcio Pesquisa Café, que reuniu a maioria dessas instituições para desenvolver uma agenda de pesquisa conjunta.

Os serviços de extensão e treinamento no café realizados pelo IBC foram progressivamente transferidos para os serviços de extensão dos governos estaduais e cooperativas. A permeabilidade e o alcance aumentaram em vez de diminuir.

Estas duas mudanças contribuíram para tornar os cafeicultores mais eficientes apesar dos preços mais baixos do café. Os produtores de fato “acordaram” depois de um longo período de preços controlados, antes de 1990, que fez com que a produção ineficiente prevalecesse. Novas variedades, densidades maiores de plantio, boas práticas agrícolas (BPA), mecanização e outras iniciativas contribuíram decisivamente para resolver o problema.

O sistema cereja descascado, também chamado de CD e “honey”, foi desenvolvido, o processamento de café na fazenda cresceu, a cadeia de abastecimento da porta da fazenda ao porto ganhou eficiência com o café trocando menos vezes de mãos, as entidades representativas do setor privado já existentes ganharam força e a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) foi criada. Os ganhos de eficiência na fazenda foram combinados com ações além da porteira, incluindo o “rebranding” dos cafés brasileiros, passando de somente qualidade comercial para todas as qualidades, incluindo os cafés especiais. O Café do Brasil se tornou Cafés do Brasil, “um país muitos sabores”, e o país foi dividido em regiões produtoras – origens – que oferecem uma infinidade de qualidades de café.

Em outra frente, o consumo doméstico brasileiro de café começou a ser promovido, não por acaso, a partir de 1989/1990. Em 30 anos, o consumo brasileiro aumentou mais de 3 vezes, de 6,5 para cerca de 21 milhões de sacas por ano, criando um enorme mercado para os cafés produzidos localmente.

O estoque remanescente de café no final do período das cotas foi progressivamente vendido para criar o Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé), que é usado principalmente para financiar os cafeicultores e, em menor escala, a cadeia de abastecimento do café. Além do financiamento do Funcafé, há hoje também aquele concedido pelos bancos privados que são, por lei, obrigados a canalizar um determinado percentual dos depósitos à vista para o financiamento de atividades agrícolas a juros mais baixos. O governo também apoia o agronegócio com a isenção de impostos sobre a exportação de produtos agrícolas.

Voltando ao meu argumento inicial, os países produtores além do Brasil e do Vietnã podem usar esta oportunidade de preços de café mais altos, que provavelmente será temporária, para promover mudanças estruturais duráveis que aumentarão sua eficiência e competitividade? Sim, os exemplos do Brasil acima podem ajudar mas isto leva tempo e terá que ser um processo contínuo, em tempos de preços altos e baixos.

Muito se fala hoje de agregação de valor que, por si só, não é suficiente para compensar a falta de eficiência e competitividade que vem gerando concentração de mercado. Os preços altos podem incentivar maior busca de eficiência pelos concorrentes do Brasil e Vietnã… ou ter o efeito contrário. Só o tempo dirá.

TEXTO Carlos Henrique Jorge Brando

Efeitos da pandemia em diversos países

“Uma boa cafeteria é como um farol de sanidade no meio de um mar turbulento” – quem me disse isso foi Dan Urieli, fundador do Café Nahat, em Israel, enquanto me contava sobre o alívio que seus clientes sentiam ao ver a cafeteria aberta, como se ela fosse um sinal de normalidade no meio da confusão, um pedacinho da vida de antes.

Acredito que esse sentimento seja quase universal entre nós, amantes do café. O ritual de ir a uma cafeteria, que já era algo precioso, agora parece ter ganhado um ar de urgência. Enquanto ainda não recuperamos toda a liberdade que desejamos, vale a pena entender como está a cena de cafés especiais pelo mundo. Para isso, conversei com vários amigos que fiz por aí – enquanto alguns também estão passando por momentos difíceis, outros mostram que há esperança.

Comecei pela China, o primeiro país a sofrer com a Covid-19. Falando com Dianne Wang, uma profissional do café, vi que por lá as coisas já voltaram praticamente ao normal. Durante a pandemia, os chineses usaram muito os serviços de delivery e de takeaway (o nosso famoso “embrulha para viagem”). Dianne me contou que, com as portas fechadas, muitas marcas passaram a fazer vendas on-line pela TV – sim, à moda antiga! Foi uma febre, mas não é nada fácil vender café pela tela: “O café é um produto que exige a vida real”, conta. Dianne observou que um dos grandes desafios foi fazer com que a paixão pelo café permanecesse acesa: “Com tantas dificuldades financeiras, foi difícil manter os profissionais focados, o que dificultava o planejamento para qualquer mudança, mesmo que para melhor”.

Voltando a Israel, falar com Dan foi uma injeção de esperança, afinal o país já está quase livre do vírus: com a população vacinada, as restrições estão quase todas revogadas e máscaras não são mais necessárias em espaços abertos. Mas não foi sempre assim: Dan conta que, durante meses, ele e seus sócios viveram momentos de incertezas: “Devemos demitir os funcionários? O governo vai nos ajudar de alguma maneira? Quanto de café devo comprar para este ano?”. Essas eram perguntas às quais eles não conseguiam responder.

Num primeiro momento, a Nahat passou a depositar todas as energias no e-commerce, e precisou afastar trinta funcionários – para cortar custos, os próprios donos se encarregaram de fazer entregas, mantendo a loja aberta apenas para takeaway. A estratégia foi não renunciar à qualidade: “O consumidor está disposto a pagar por ela. Optamos por oferecer apenas o que temos de melhor, e o público valorizou isso”, disse Dan.

Infelizmente, nem todos os lugares se recuperaram completamente ainda – na Itália, a situação pede atenção. Quem me disse isso foi Alessandro Galtieri, o atual campeão italiano do Brewer’s Cup e terceiro colocado no mundial de 2019. Alessandro conta que, assim como no leia mais…

TEXTO Juliana Sorati, assessora de marketing na Daterra Coffee • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Tipos de geadas e impactos na produção nos próximos anos

É muito difícil avaliar os reais impactos das geadas na produção porque, em primeiro lugar, as geadas afetam as plantações de café em diferentes níveis de intensidade – os “tipos” de geadas mencionados acima – e, em segundo lugar, estes tipos de geadas estão associados a diferentes graus de perdas em 2022 e nos anos seguintes.

Quando se olha para vistas aéreas das áreas afetadas pela geada, com cafezais com cor uniforme preta ou marrom, tem-se a impressão de que o impacto é homogêneo em toda a área. A realidade é que, avaliando a nível de campo, os impactos podem ser bastante diferentes, apesar da mesma cor e aparência uniformes vistas de cima. Isto levou à consideração de três impactos distintos no que não é uma descrição científica, mas apenas uma visão prática geralmente usada para ajudar leigos a compreender as perdas causadas pelas geadas.

Uma geada de “capote” danifica apenas a parte superior da árvore. Uma geada “total” afeta o cafeeiro adulto de alto a baixo. O impacto sobre os cafeeiros jovens, que ainda não estão produzindo ou estão começando a produzir, é diferente daquele que afeta as árvores adultas.

Como a geada de capote danifica o terço ou metade superior do cafeeiro, a poda deverá ser feita a uma determinada altura acima do solo, a ser decidida caso a caso na área afetada, geralmente no terço superior da árvore. A parte do cafeeiro não podada produzirá em 2022 e a produtividade dependerá do ciclo bienal de produção do café, ano de safra alta ou baixa.

A geada total afeta as folhas de cima a baixo do cafeeiro e requer poda perto do solo. A produção não retornará até 2024 e poderá ser alta dependendo das práticas de cultivo do café nos dois anos intermediários.

Os danos causados pela geada aos cafezais jovens geralmente são totais, mas há duas possibilidades: o sistema radicular ainda é viável e o cafeeiro é podado próximo ao solo ou as árvores devem ser leia mais…

TEXTO Carlos Henrique Jorge Brando

Agricultura e as mudanças climáticas: a esperança da regeneração

O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU apontou que o aquecimento global está se acelerando e a temperatura média da superfície do mundo aumentará a 1,5°C por volta de 2030, uma DÉCADA antes do previsto. E já estamos sentindo os efeitos negativos — não é à toa que o Brasil está passando pela maior seca dos últimos 100 anos na bacia do Rio Paraná (afetando o fornecimento de água para São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná), ao mesmo tempo em que registramos ondas de frio históricas, com geadas intensas, e um aumento dos focos de incêndio na Amazônia e no Cerrado.

Se estes efeitos negativos são sentidos primeiro no campo — produtores de café estimam uma perda de até 35% da lavoura com as geadas de julho passado —, eles também acabam chegando até as prateleiras dos mercados, com uma estimativa de alta de 14% nos preços internacionais do grão.

Mas o que pode ser feito então para evitar (e até prevenir) os prejuízos causados pelas mudanças climáticas?

Por mais de 30 anos, nós da Rainforest Alliance trabalhamos para tornar a agricultura mais sustentável ao fazer com que nossos  produtores rurais parceiros em todo o mundo adotem métodos de cultivos que protegem a terra. E isso, sem abrir mão da produtividade necessária para garantir boas condições de vida no campo. Em outras palavras, a agricultura sustentável é uma prática de redução de danos — o primeiro passo crucial no caminho em direção à criação de sistemas benéficos para as pessoas e a natureza.

Para nós a sustentabilidade é uma jornada de melhoria contínua, e o destino final é a regeneração do meio ambiente. Um produtor pode começar a sua trajetória sustentável ao reduzir o uso de insumos como pesticidas, por exemplo, o que pode estimular uma melhoria na fertilidade do solo. Quando medidas enriquecem a terra — como o plantio de árvores de sombra para proteger e nutrir os solos — são aplicadas em todas as frentes, você tem uma fazenda de fato regenerativa.

Nosso programa de certificação ajuda os produtores a se adaptar às mudanças climáticas ao identificar os desafios específicos da sua região — tais como novos padrões de clima, secas ou chuvas mais intensas — e a encontrar os métodos corretos para superá-las. Esse tipo de adaptação direcionada ajuda os produtores a construir resiliência leia mais…

TEXTO Maiara Despontin, especialista em Agricultura Sustentável na Rainforest Alliance Brasil • FOTO Café Editora

Esquema da fenologia do cafeeiro arábica

Agora você vai entender direitinho como “funciona” nossa planta favorita: o café, é claro! Conheça as fases da fenologia do cafeeiro arábica no Brasil.

Existem sempre dois ciclos acontecendo em um ramo de café, ao mesmo tempo: o primeiro ano fenológico (a primeira e a segunda fases do infográfico) e o segundo ano fenológico (a terceira, a quarta e a quinta fases do infográfico). 

Primeira fase: começa a formação das gemas florais (que viram flores) e gemas vegetativas (que viram novos galhos).

Segunda fase: nessa fase, as gemas se diferenciam e amadurecem. Depois elas ficam ali quietinhas esperando o momento de despertar – e esse momento é: a chuva! Esse estágio é muito importante porque qualquer chuvinha fora de hora pode despertar uma florada e bagunçar toda a maturação do café naquele ano. 

Terceira fase: Ahh… A florada! As flores vivem em média três dias, depois secam e dão lugar aos chumbinhos, que vão crescer e virar cerejas. 

Quarta fase: nesse estágio, as cerejas (e os grãozinhos dentro delas) se expandem!

Quinta fase: aqui os frutos já cresceram o que tinham de crescer. Agora eles vão amadurecer e se tornar cerejas vermelhas ou amarelas, dependendo da variedade. Quando as cerejas estiverem bem maduras, é hora de colher!

TEXTO Juliana Sorati