Coluna Café por Convidados Especiais

Do campo à xícara, profissionais convidados refletem sobre o setor

Resposta ao embargo

Por Celso Vegro

Ao contrário do que ocorre com o resto do mundo, os EUA têm longo histórico de obtenção de saldo comercial positivo frente às transações que faz com o Brasil, denotando ainda mais a deformidade que a imposição tarifária contra o país embute. Aparentemente, a possibilidade da instituição do “brix pay” constitui o verdadeiro foco da arbitrariedade contra o Brasil.

Diante da perspectiva de irredutibilidade quanto à revogação e/ou adiamento do pico tarifário instituído pelo mandatário estadunidense sobre uma nação soberana, o agronegócio café brasileiro como um todo deve considerar que o que se impôs foi, verdadeiramente, uma espécie de embargo às exportações brasileiras de café (verde, solúvel e torrado e moído).

Os reflexos sobre a economia cafeeira no Brasil serão relevantes na medida em que os EUA respondem por compras de, aproximadamente, 8 milhões de sacas (considerando em equivalente verde). No primeiro semestre de 2025, o país exportou para os EUA 3,32 milhões de sacas de café, representando declínio de 16,89% frente a igual período de 2024. Ainda assim, o mercado estadunidense respondeu por 17,1% do total das exportações contabilizadas na mesma época. Em contrapartida, as exportações de café brasileiro para todos os destinos somaram 19,41 milhões de sacas, representando receita cambial de US$ 7,52 bilhões (Fonte: Cecafé).

Segmentos econômicos estadunidenses ajuízam ações contra a escalada tarifária às mercadorias brasileiras destinadas ao seu mercado. Os importadores/distribuidores de suco de laranja, por exemplo, já o fizeram. No segmento de café, que responde por cerca de um terço das importações estadunidenses, eles alertam sobre o impacto da medida: aproximadamente 1,2% do PIB nacional, mais de US$ 343 bilhões em negócios ao ano, ocupando 2,2 milhões de trabalhadores. Trata-se, portanto, de dinâmica econômica ímpar que provavelmente se associará ao grupo do suco de laranja no ajuizamento de uma segunda ação contestatória. 

A afronta ao Brasil exige, primeiramente, uma ampla negociação, ao que a diplomacia brasileira, conduzida pelo vice-presidente, está firmemente liderando. Aparentemente, restando poucos dias para o início de vigência do pico tarifário, nenhum avanço foi alcançado junto às autoridades comerciais estadunidenses (revogação e/ou adiamento). Caminhamos para um real embargo das exportações de café brasileiras para esse mercado.

Diante deste cenário, quais as possíveis ações defensivas que o agronegócio café poderia adotar? A mais direta seria, paulatinamente, se desfazer dos contratos futuros em Nova York para privilegiar a B3. O cerceamento do acesso ao mercado estadunidense sinaliza que os negócios (apenas contratos e/ou físico) que o agronegócio Cafés do Brasil movimenta naquela praça são desejáveis. O momento é perfeito para que essa iniciativa ganhe musculatura, convidando, inclusive, outros países produtores (Vietnã e Colômbia) a se associarem a esse movimento.

A bolsa brasileira teve seu início há mais de trinta anos com o contrato futuro do café que, até meados dos anos 2000, vinha numa melhora de desempenho crescente. Questões tributárias (IOF) e a necessidade do contrato casado (futuro de café e cambial) levaram a uma preferência pela praça nova-iorquina. Todavia, dispondo das atuais sofisticadas ferramentas financeiras, tais obstáculos são perfeitamente contornáveis. O governo federal já anunciou a possibilidade de oferecer crédito a cafeicultores, cooperativas, traders e exportadores afetados pelo tarifaço – mas esses créditos podem ser convertidos em isenção do IOF nas operações de contrato futuro e subvenção no prêmio para os contratos de opções privadas.

O risco de as cotações despencarem diante do empoçamento dos cafés que seriam exportados para os EUA – e, ainda, devido à dificuldade momentânea de reordenamento dos destinos – poderia ser minimizado por AGF ou subvenção ao Pepro (Prêmio Equalizador Pago ao Produtor ou à Cooperativa,  mecanismo de apoio à comercialização agrícola criado pelo governo federal), desde que os preços mínimos reflitam a realidade do mercado. Café é produto não perecível e, portanto, armazenável. Numa eventual aquisição do governo federal (via AGF ou Pepro), dado o atual contexto de baixos estoques e demanda crescente pelo produto, existe inclusive a possibilidade de entesouramento público por meio dessa operação (leilão da Conab). (Como sugestão, caberia ao conselho gestor do Funcafé desenhar política para o enfrentamento das questões mencionadas).

Quando a força do poder prevalece sobre a vontade de dialogar, se estabelece o dissenso, ou seja, a imposição do medo como método de sujeição. A política comercial – longamente construída, inclusive, com empenho dos EUA – foi instrumentalizada para fins espúrios e se esfacelou. Sob suas ruínas, erode-se a confiança no mercado estadunidense, alicerce básico para a troca justa entre as nações. O afastamento do mundo desse mercado será o resultado mais concreto dessa guerra comercial estabelecida. 

TEXTO Celso Luis Rodrigues Vegro é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo

Energizando o mercado de café

Por Celso Vegro

A cafeína é um alcalóide presente em várias plantas, sendo o guaraná a espécie com a maior concentração conhecida dessa substância no reino vegetal. O café, particularmente o da espécie canéfora, possui uma concentração significativa de cafeína, sendo essa a principal origem comercial do alcaloide.

São largamente conhecidos os efeitos estimulantes da cafeína, por sua capacidade tanto de manter o estado de alerta como de reduzir a fadiga. Sua ação se dá a partir do bloqueio de neurotransmissores responsáveis pela sensação de sono. Recentemente, a cafeína passou a ser sistematicamente empregada também na melhora do desempenho físico humano em atividades aeróbicas.

Há décadas a cafeína compõe medicamentos destinados a mitigar cefaleia (ou enxaqueca), resfriados e alergias, e também moderadores de apetite. O pó branco de gosto muito amargo tem capacidade vasoconstritora, sendo eficaz no tratamento não curativo dessas enfermidades. A indústria farmacêutica, reconhecendo a existência de uma epidemia de enxaqueca no mundo moderno, desenvolveu várias linhas de medicamentos contendo cafeína.  

 O café insere-se no mercado de bebidas (soft drinks) e, historicamente, é a fonte primordial de consumo de cafeína. Bebidas gaseificadas passaram a incorporar o composto em suas formulações, tornando-se, em poucas décadas, recordistas em vendas no mercado de bebidas por todos os continentes.

Os conglomerados de produção e distribuição de bebidas buscam, continuamente, espaços para a acumulação capitalista. Assim, novos mercados são desenvolvidos, sendo, atualmente, o mercado de bebidas energéticas (saborizadas ou não) um dos de maior êxito. Em média, cada 100 ml desse tipo de bebida contém 30 miligramas do alcaloide.

No Brasil, acompanhamos uma verdadeira explosão no consumo de energéticos. Em 2020, estimou-se uma demanda de 151 milhões de litros. Diante da contínua expansão do espaço em gôndolas de supermercados para a exposição das bebidas energéticas, não escorrega para o exagero considerar que a demanda anual por essas bebidas já esteja em torno dos 200 milhões de litros.

As indústrias de bebidas energéticas, com raras exceções, empregam cafeína sintética em seus produtos. Essa molécula produz os mesmos efeitos no organismo humano que a obtida das plantas, mas age de forma mais imediata. Já a versão natural tem efeitos mais duradouros e carrega flavonoides com ação antioxidante.

A concentração de cafeína no café canéfora (robusta e conilon) oscila entre 2,2% e 2,7%. Para efeito da produção de estimativas, adotou-se o ponto intermediário de 2,5% como média de concentração do alcaloide. Assim, a obtenção de 1 kg de cafeína demanda, aproximadamente, 40 kg de café verde. Seguindo o mesmo raciocínio, 1 litro de energético demandará 300 mg de cafeína. Para atender a demanda por cafeína dos 200 milhões de litros referidos acima, cerca de 40 mil sacas de café teriam que ser processadas anualmente para a extração do alcaloide.

Diante do porte atual desse mercado, associado a um eventual empoçamento de café que seria embarcado para os EUA em razão do choque tarifário decretado pelo mandatário daquele país, uma regulamentação determinando que as indústrias de bebidas energéticas substituam o emprego da cafeína sintética pela derivada do café (ou do guaraná) seria uma possível alternativa paliativa até o redirecionamento do café que teria por destino os EUA.

A adoção da cafeína natural encontraria grande aceitação por parte dos consumidores norte-americanos. Um dos redutos de consumo dos energéticos são os frequentadores de academias, que têm na cultura da vida saudável e sem alimentos ultraprocessados e sintéticos um de seus pilares.

TEXTO Celso Luis Rodrigues Vegro é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

Uma bebida resiliente

Por Celso Vegro

No Brasil, o varejo de alimentos é representado por vários perfis de estabelecimentos, sendo os mais emblemáticos os super e hipermercados. Porém, outros tipos também coexistem com essas instalações como: lojas de vizinhança e de conveniência, atacarejo, mercearias e hortifrutis, varejo digital e lojas autônomas em condomínios. Aproximadamente, 424 mil dessas lojas encontram-se distribuídas pelo território brasileiro. Em 2024, o faturamento, considerando as vendas no varejo alimentar para as famílias brasileiras, alcançou R$ 1.067 trilhão, representando evolução de 6,5% em relação ao ano anterior.1

O desempenho das vendas de varejo alimentar, contabilizado em 2024, compôs 9,12% do PIB do país, sendo que os trinta maiores estabelecimentos em faturamento responderam por 77% das vendas totais. Os cinco primeiros perfizeram 26,14% desse total, denotando que o segmento possui baixa concentração econômica, mantendo, portanto, estrutura competitiva.

Dentre os 240 mil SKU’s (Stock Keeping Unit, ou seja, o “CPF” de cada item distribuído pelos supermercados), a participação relativa do café alcançou 2,70% do total das vendas, considerando todos os tipos (torrado e moído, torrado em grãos e solúvel). Em 2024, esse percentual na composição do faturamento do segmento supermercadista brasileiro, de R$10,67 bilhões, representou crescimento de 35,50% no faturamento em relação ao ano anterior.

Há que se reconhecer que esse resultado é, em parte, caudatário de ação realizada, em 2003, quando, então, o Grupo Pão de Açúcar elaborou um protocolo de cooperação com seus fornecedores, abarcando as indústrias responsáveis pela torrefação e moagem do café2 por meio da Associação Brasileira de Supermercados (Abras). Como vetor norteador, o protocolo visava aprimorar a relação comercial, lastreada por princípios de qualidade e de sustentabilidade. 

Assim, foi acordado junto aos fornecedores: a) promover a qualidade e segurança dos produtos oferecidos; b) adoção de práticas sustentáveis ao longo da cadeia de produção e distribuição; c) desenvolvimento da cadeia de suprimentos através do apoio na busca por melhorias contínuas e ampliação do acesso aos mercados e tecnologias; d) promover a ética, a transparência e a responsabilidade social em todas as transações comerciais

Para o caso do café, as mudanças foram muito significativas. Em primeiro lugar, saiu a questão do preço para assumir a qualidade com cuidadosa valorização da categoria. Houve um reposicionamento do produto nas gôndolas, trazendo mais ousadia na exibição das marcas de café, associada a momentos de degustação e de palestras para os clientes apreciadores da bebida. Portanto, tratou-se de um conjunto de ações assertivas que estimularam vendas por meio da educação dos consumidores.

Desde o lançamento desse protocolo do varejo, outras inovações foram cruciais para o incremento da demanda pelo produto. A popularização das máquinas de preparação de cápsulas de café foi, talvez, a mais icônica. Esse formato elevou a um outro patamar a comodidade e praticidade da apreciação da bebida, especialmente entre famílias mononucleadas.

Após esse longo parênteses, voltemos à discussão sobre a explosiva elevação dos preços do café no varejo. Segundo dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA), para a cidade de São Paulo, entre março de 24 a março de 2025, o café torrado e moído exibiu incremento de 85,78%, saltando de R$ 18,17 (pacote de 500g) para R$ 33,75 (pacote de 500g)3. Essa alta nos preços foi a maior registrada no período para o conjunto de 101 itens pesquisados pelo IEA.

Em contrapartida, segundo a mesma fonte, o café solúvel teve uma elevação menos expressiva, contabilizando 44,06%. Frente aos preços do torrado e moído, a alternativa mais factível de substituição do produto tem sido o solúvel. Com menos perdas e muito adequado quando misturado ao leite, o solúvel tem exibido demanda alavancada, conforme noticiou a Associação da Indústria Brasileira de Café Solúvel4 (Abics).

O café é uma bebida, reconhecidamente, de demanda inelástica, ou seja, variações de preços não são acompanhadas na mesma proporção por variações na procura. Segundo os dados apresentados pela Abras, a comercialização do café no primeiro trimestre de 2025, apesar do expressivo aumento nos preços do produto, cresceu 5,1% em volume e 3,6% em quilos. Até 13 de abril, o faturamento do café nos supermercados já alcançava R$ 4,73 bilhões.

Pelo registro das vendas nos check outs dos supermercadistas, os cinco maiores torrefadores em termos de vendas de café em pó foram Melitta, seguida por Pilão/JDE, Três Corações, Santa Clara e Maratá. Juntos, esses torrefadores compuseram 55,6% das vendas totais.

A expansão das vendas de café nos supermercados relaciona-se mais diretamente  ao consumo que ocorre no lar. Já o consumo de café fora do lar (cafeterias, quiosques, lanchonetes, bares, restaurantes, hotéis, consultórios etc.) pode ter caído em decorrência da menor oferta por parte desses estabelecimentos, devido ao incremento dos preços do produto. 

Como perspectivas para a evolução do consumo de café, duas medidas em análise no Congresso Nacional poderão impulsionar a demanda pela bebida. A primeira refere-se à configuração da cesta básica nacional que, com isenção de tributos, poderá promover baixa de preços do produto. Na maior parte dos casos, o café é tributado em 7%, mas, em alguns estados, o ICMS alcança percentuais bem maiores, como 20,5% na Bahia ou 20,0% nos estados do Amazonas, de Roraima e da Paraíba. 

Uma das ações do governo federal, apoiada pela Abras, consiste na revisão para baixo das taxas administrativas das empresas de voucher de alimentação e a possibilidade de concessão do benefício por meio de pix no holerite dos beneficiários, entre outras ações que indicam o incremento de até R$ 10 bilhões ao ano nas contas dos trabalhadores. 

Diante de todo o contexto estatístico exposto, surpreende a capacidade do café em exibir tenaz inelasticidade. Preços nos atuais patamares, associados ao vigoroso crescimento da demanda, constituem parâmetro que vale para o Brasil, assim como para todos os demais países produtores e importadores da bebida.

1 Os dados contidos nesta coluna foram apresentados por João Galassi & Márcio Milan, presidente e vice-presidente de Relações Institucionais e Administrativo da Abas. Encafé 2025 – Campinas/SP. 24 a 26/04/2025.

2 Informação recolhida por meio de consulta de Inteligência Artificial após busca com a seguinte expressão: “protocolo de cooperação GPA 2003”.

3 Os preços médios no varejo da cidade de São Paulo são levantados todos os dias (segunda a sexta-feira), presencialmente, em 370 equipamentos varejistas divididos em: 169 supermercados; 69 feiras-livres; 40 açougues; 79 quitandas, sacolões, hortifrutis e 13 padarias.
Ver: https://iea.agricultura.sp.gov.br/out/varejo.php. Acesso em 06/04/2025.

4 Segundo a associação, no primeiro trimestre de 2025 frente ao mesmo período do ano anterior, houve elevação de 6,2% na demanda por solúvel. Disponível em: https://abics.com.br/continua-escalada-no-consumo-de-cafe-soluvel/

TEXTO Celso Luis Rodrigues Vegro - Eng. Agr., MS, Pesquisador Científico VI do IEA - celvegro@sp.gov.br • FOTO Agência Ophelia

A fatura do caos

“A inflação é o caos em sua forma mais eficiente e arrasadora”
Monica de Bolle

A Torre de Babel, na narrativa bíblica, trata do mito sobre a construção de uma torre que deveria alcançar o céu. Diante dessa arrogância humana, Deus, indignado, criou os diversos idiomas, impedindo-os de continuar a obra proposta, pois se tornaram incapazes de mutuamente se entender. O mito narra o surgimento do caos no seio da civilização, ou melhor, uma imagem de sua barbárie.

Parte dos cidadãos estadunidenses celebram os primeiros dez dias de novo presidente, e a outra parte começa a se posicionar contrariamente aos seus atos iniciais. Entretanto, dois tópicos despertam a atenção de toda a humanidade: a elevação dos impostos para os produtos importados pelos EUA e a radicalização da política imigratória com repatriações em massa.

Ambas as políticas terão impactos significativos no bem-estar dos estadunidenses. Sem a força de trabalho representada pelos imigrantes (documentados ou não), muitos ramos econômicos serão estressados. A agropecuária, os serviços em hotéis, bares e restaurantes, as obras de infraestrutura, a construção civil, entre outros, estão afetados pelo temor dos imigrantes trabalhadores de serem caçados, algemados e repatriados, em algumas situações, com requintes de crueldade e sevícia.

Paralelamente, a imposição de taxas para as mercadorias importadas pode desencadear uma guerra comercial planetária, com enorme potencial de reduzir a expansão econômica das nações, uma vez que o crescimento econômico e o avanço do comércio internacional possuem covariância positiva, ou seja, quando um cresce, o outro também e vice-versa.

A liderança econômica/militar global dos EUA vem, progressivamente, sendo corroída, gerando um sentimento de declínio enquanto potência mundial. Tal sentimento concede ensejo para o surgimento de políticos populistas, oferecendo soluções fáceis, porém erradas, para problemas complexos.

Conjugadas, ambas as políticas tendem a resultar em elevação dos preços, ou seja, mais inflação. O desdobramento de processos inflacionários corroem as capacidades de governabilidade das nações, ou seja, preparando um contexto para a produção do caos.

Quando surgem processos inflacionários generalizados, abrangendo todos os continentes (desdobramento da mútua imposição de tarifas alfandegárias), a riqueza representada pelas moedas é dilapidada, redirecionando o interesse em buscar proteção patrimonial nas mercadorias, especialmente, aquelas negociadas em Bolsa de Valores, como, por exemplo, o café.

Atualmente, o mercado mundial de café atravessa severa restrição de oferta. Decorrentes de problemas originados pelas mudanças climáticas, os principais países produtores exibiram substancial redução de oferta, o que levou a um paulatino consumo dos estoques remanescentes. Porém, para fazer frente a um incessante aumento da demanda, sendo o caso recente mais emblemático a procura por café pelos chineses, os estoques se exauriram e todo o mercado passou a atuar, no jargão comercial, da “mão para a boca”. 

Tal situação foi antecipada pelo mercado de cacau, outro produto tropical que, em menos de vinte e quatro meses, registrou elevação de cinco vezes em sua cotação média histórica. No mercado de café, esse mesmo cenário se repetiu com o registro de cotações em máximas históricas (similares às alcançadas quando da geada negra de 1975). Assim, se soma ao contexto de suprimento limitado e a demanda aquecida o fator econômico da pressão inflacionária.

A Bolsa de Nova York, no ano civil, movimenta em papeis dez safras mundiais de café. A busca por proteção patrimonial por meio da aquisição de contratos representados pelas mercadorias transacionadas será pressionada em detrimento da corroída moeda. A consequência imediata consiste na manutenção das cotações com possíveis novas altas, pressionada pelo crescente número de contratos de compra em aberto.

O ambiente de negócios sempre navegou em cenários de incerteza e de risco. A cafeicultura enfrentou o lockdown imposto pela pandemia; em seguida, houve as três ondas de massa polar com geadas generalizadas pelos cinturões cafeeiros; as altas temperaturas prejudicando o pegamento (ramos banguelas) e diminuindo o tamanho dos grãos e, na atual safra, a longa estiagem de 2024 que, em muitos casos, trouxe perdas de 30% a 40% na produção antes esperada.

Às incertezas e riscos intrínsecos de uma indústria a céu aberto se soma, neste momento, a incerteza de natureza política (uma verdadeira marcha da insensatez) e o medo (repatriação dos imigrantes). Formou-se o caos. A resposta imediata do FED estadunidense será subir juros para conter a inflação. Frente ao caos há somente uma solução, a fatura dos malfadados juros altos. Nisso, as autoridades monetárias brasileiras são useiras e vezeiras. Pois que venham os estadunidenses tomar cá algumas lições.

TEXTO Celso Luis Rodrigues Vegro - Eng. Agr., MS, Pesquisador Científico do IEA - celvegro@sp.gov.br 

Produção de vinho em áreas cafeeiras do Brasil

Inspirado pelo que está acontecendo em Espírito Santo do Pinhal, minha cidade natal, e também pelo livro “Coffee and Wine”, escrito pelo meu amigo Morten Scholer, propus uma reunião híbrida – presencial e online – com o tema Café e Vinho na Sociedade Rural Brasileira (SRB). Abri a reunião do Departamento do Café da SRB, que coordeno junto com o Marcelo Vieira, ex-presidente do conselho da SRB e fundador da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), citando o Morten e dizendo que apesar do café e do vinho serem produzidos na mesma região em alguns países, por exemplo, Brasil, Etiópia, Índia e China, como ele escreveu, e acrescentei o Quênia, o Brasil é o único país onde os dois são produzidos na mesma fazenda, próximos um do outro, e, acrescentei novamente, Pinhal tem sido uma das regiões pioneiras nisto.

O primeiro palestrante foi o enólogo chileno Cristian Sepúlveda, que trabalhou no nordeste do Brasil primeiro e depois com a pioneira vinícola Guaspari, em Pinhal, onde hoje é sócio da vinícola Terra Nossa. Ele explicou como o sistema inovador de dupla poda possibilita a colheita da uva nos meses secos do inverno ao invés dos meses chuvosos do verão, como se faz tradicionalmente no sul do Brasil. O resultado foi a produção de vinhos de alta qualidade, premiados no exterior, numa região que, destaca Cristian, vai da Serra da Mantiqueira, onde Pinhal está localizada e onde se produz café nas regiões Mogiana e Sul de Minas, até áreas tão diversas quanto o Espírito Santo e a Bahia, onde também se produz café.

O segundo palestrante foi Eduardo Sampaio, conhecido agrônomo de café que agora planta uvas para produzir vinho e lidera a Associação dos Vitivinicultores da Serra dos Encontros (AVVINE). Esta associação de produtores de vinho almeja criar uma Indicação Geográfica (IG) que cubra os municípios de Espírito Santo do Pinhal e Santo Antônio do Jardim, no estado de São Paulo, e Jacutinga e Albertina, no estado de Minas Gerais. Como Eduardo explicou, os “terroirs” em Pinhal e região favorecem a produção de cafés e vinhos de alta qualidade, o que qualifica a área para uma IG de vinho. A Região de Pinhal já é uma IG de café e está agora a caminho da Denominação de Origem (DO).

Fabiano Borré, o terceiro palestrante, nos levou à Chapada Diamantina na Bahia, onde é sócio na Fazenda Progresso, grande produtora de café e vizinha do Parque Nacional. Ele explicou como a experiência com cinco áreas de café especiais em altitudes e “terroirs” diferentes ajudou a selecionar o melhor local para plantar uvas e construir a vinícola UVVA, já concebida pensando no turismo que o vinho está atraindo e beneficia também o café. Fabiano salientou a importância de ter um parque de variedades numa região nova de vinhos pois eles constataram que a Syrah, a uva mais comum em projetos de dupla poda, não foi a melhor opção para eles.  

Antonio Sergio Nogueira, o quarto palestrante, é agrônomo com cursos de vinho na Associação Brasileira de Sommeliers (ABS) e presidente do conselho da empresa Amana, que reuniu um grupo de investidores não conectados com o agro para comprar uma fazenda de café e usá-la para a produção de vinho e enoturismo. Ele explicou como áreas de café em altitudes diferentes em Pinhal estão agora produzindo vários tipos de vinho com sua marca. Antonio acrescentou que a diversidade dos sócios, de empresas de áreas diferentes tanto em Pinhal como em outras cidades, contribuiu para conceber um projeto para produzir vinhos de alta qualidade e receber turistas de alto poder aquisitivo, inclusive aproveitando a proximidade com São Paulo e Campinas.

Tiago Pimentel, diretor da vinícola Rio Manso, fechou o programa explicando como se criou um esquema de governança para promover os vinhos de mais de 30 projetos, os cafés que são tradicionalmente produzidos, e também o turismo na cidade histórica de Espírito Santo do Pinhal e região. Como resultado, foram promovidos dois eventos do Turisagro – palestras e paineis – e um Festival de Inverno. De acordo com Tiago, o Festival reuniu mais de 72 vinícolas, ofereceu aulas com especialistas nacionais e internacionais, teve sessões de degustação de vinho, atraiu milhares de pessoas e deve se tornar um marco para a promoção do vinho, café e gastronomia na região de Pinhal. 

O que tenho aprendido em Pinhal e outras regiões que estão produzindo vinho em terras cafeeiras confirma o que meu amigo e autor Morten Scholer geralmente diz em suas apresentações sobre café e vinho, como citado abaixo.

O café tem uma extensa cadeia de valor com muitas pessoas envolvidas em vários países. O produto passa de mão em mão muitas vezes até chegar na xícara. O vinho é plantado, colhido, processado, estocado/envelhecido, embalado e vendido em um único lugar e geralmente consumido nas redondezas. Muito raro para qualquer produto hoje em dia. 

O café pode estragar de várias formas em sua longa jornada, mas a qualidade não pode ser melhorada (com algumas exceções). A qualidade do vinho pode ser melhorada com vários métodos, alguns deles impressionantes.

As duas maiores empresas do setor cafeeiro são grandes e responsáveis por mais de 20% do abastecimento. No vinho, a maior empresa controla menos de 3% do mercado.

O café tem conseguido estabelecer padrões de sustentabilidade e certificações que são iguais no mundo todo. Organic, Fairtrade, 4C, Rainforest Alliance são as mesmas para todos os países: impressionante! No vinho, cada país tem seus próprios padrões e condições para rótulos, às vezes até vários. Confuso. É neste ponto que o vinho poderia aprender com o café…

Café e vinho podem aprender um com o outro, mas parece que o primeiro tem mais a aprender com o segundo!

TEXTO Carlos Henrique Jorge Brando

Em setembro, plataforma global traz primeiras pesquisas da economia circular do café

A economia circular está em crescimento na cafeicultura como uma resposta sustentável aos desafios associados à produção e ao consumo de café. Uma das dificuldades, porém, é a falta de informação e troca de conhecimento entre os elos da cadeia. É o que constatam os especialistas do recém-criado Center for Circular Economy in Coffee (Centro de Economia Circular para o Café).

Lançado em setembro de 2023 durante a 5ª Conferência Mundial do Café (WCC 2023), organizada pela OIC (Organização Internacional do Café) em Bangalore, na Índia, o Centro de Economia Circular para o Café é a primeira plataforma colaborativa global dedicada a aprimorar e acelerar a transição para a economia circular no setor cafeeiro, ou seja, transformar resíduos de café em energia renovável. O objetivo vislumbrado é que a cadeia reduza sua dependência de combustíveis fósseis e se torne um agente ativo na desaceleração do aquecimento global.

Segundo especialistas do Centro entrevistados pela Espresso, há três desafios principais para o setor: falta de conhecimento das possibilidades concretas da economia circular no café, falta de financiamento e apoio (tanto público quanto privado) e pouca coordenação entre os elos da cadeia, especialmente entre o setor privado e a academia.

O Centro é formado por uma rede global de colaboradores, como Fundação Giuseppe e Pericle Lavazza, Politécnico de Turim, Centro de Comércio Internacional (ITC), Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) e Universidade de Ciências Gastronômicas de Pollenzo, além da OIC. A nova plataforma, sediada em Turim, tem como objetivo compartilhar pesquisas com o setor cafeeiro, desenvolvimentos e inovações conduzidas pelas empresas e organizações envolvidas.

Para a enorme tarefa, ele já reuniu mais de 150 pessoas de mais de 25 países por meio da rede colaborativa do Guia do café. Essa rede, por sua vez, é responsável pela publicação da 4ª edição do guia e, também, por fornecer consultorias ao centro.

“É urgente que mais informações sobre economia circular sejam compartilhadas, para ampliar o debate“, alerta Katherine Oglietti, coordenadora de uma rede de especialistas em café do ITC, agência conjunta das Nações Unidas com a Organização Mundial do Comércio.

Esse compartilhamento perpassa a definição de economia circular. Segundo o Guia do café (publicado pelo ITC em 2022 em versão online, gratuita e em português), a economia circular permite que os resíduos do café sejam reutilizados, tanto em termos biológicos quanto técnicos: borras podem virar biocombustíveis, cascas podem se transformar em energia para a seca mecânica do grão, enfim, soluções inteligentes do ponto de vista climático para melhorar a qualidade do produto, a fertilidade do solo e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões de CO2. “Ela é um meio de ampliar a sustentabilidade do setor de forma colaborativa”, acrescenta Katherine. “A inspiração na biologia e na natureza é o cerne da economia circular”, completa Dario Toso, gestor de sustentabilidade e economia circular da Lavazza.

Ao mesmo tempo, é preciso tirar a cadeia do que Katherine chama de “isolamento”, pois, segundo ela, acadêmicos, setor produtivo e consumidor ainda não conversam entre si ou não se informam sobre o que acontece nos outros níveis da cafeicultura. Por isso, a discussão sobre economia circular é crucial, já que o princípio que fundamenta o conceito é o uso eficiente de recursos, reduzindo desperdícios. “Com a diversificação da cultura e dos processos de produção do café, estas metas sustentáveis podem ser atingidas”, garante a especialista.

O processo começa pela transformação da percepção do café em si, que deve deixar de ser considerado apenas um produto e tornar-se algo maior, que represente toda a sociedade. “É uma mudança de mentalidade não somente da nossa relação com o café, mas também com o consumo e sobre o nosso lugar na sociedade”, diz Katherine.

Essa mudança de mentalidade reflete-se, por exemplo, na atribuição de valor para o que antes era visto como lixo. No caso do café, significa valorizar os rejeitos resultantes da produção do grão nas fazendas e, também, o que é abandonado pelos consumidores da bebida. Esta iniciativa, a de agregar valor ao “lixo” gerado pelos países que produzem café (e o consomem), pode ser um grande aliado no combate às mudanças climáticas.

Toso projeta que, se houver uma mudança completa para um modelo de economia circular, o conceito de desperdício não estará mais presente na cadeia de valor do café. “A maioria da biomassa que atualmente é descartada para produzir uma xícara da bebida irá se transformar em novos produtos e oportunidades de negócios, capazes de tornar a cadeia de valor mais resiliente e justa”, explica ele. As embalagens, por exemplo, serão reutilizadas e, depois, recicladas, assim como as borras de café irão produzir cosméticos, produtos farmacêuticos, alimentos e materiais inovadores.

Mas, para isso, é preciso informar. “É urgente que mais informações sobre o tema sejam compartilhadas a fim de ampliar o debate”, resume Katherine que, a partir de enquetes, debates e diálogos com mais de 320 pessoas, descobriu que 75% delas admitem ter pouco ou limitado conhecimento sobre a economia circular no setor. Além disso, apenas um terço afirmou fazer algo ou conhecer alguém que esteja agindo para melhorar a sustentabilidade socioambiental na cadeia cafeeira.

É pela falta de integração entre os elos do setor que Alessandro Campanella, mestre em Design de Sistemas no Politécnico de Turim, na Itália, decidiu pesquisar a economia circular do café. Especialista no estudo de sistemas complexos e das relações entre suas partes, Campanella diz que a chave é entender que indivíduos e empresas são parte de um sistema. “Uma solução geral não responde à complexidade do cenário global hoje em dia”, explica ele. “É urgente encontrar soluções e projetos para cada contexto de produção de café, valorizando a diversidade dos envolvidos”, emenda.

Campanella debruça-se sobre as estratégias e a valorização dos subprodutos do café, e sua investigação envolve startups, pesquisa científica e mapeamento do setor privado. Uma de suas atividades, por exemplo, é colaborar com a Lavazza para projetar novos cenários possíveis relacionados a economia circular e sustentabilidade. O descarte de embalagens e a gestão das borras do grão são os dois fatores de maior impacto ambiental na cadeia em um país consumidor. “Há um novo ‘braço’ dessa cadeia de valor ainda incipiente, mas com muitas oportunidades no futuro”, adianta ele, referindo-se ao pós-consumo do grão.

O Centro planeja para setembro a publicação de um documento com as primeiras conclusões do estudo, assim como as de outras pesquisas, juntamente com o relatório de desenvolvimento da cadeia do café da OIC.

Ao considerar o rápido avanço das mudanças climáticas, o apreço pelo café no mundo e sua quantidade produzida a cada ano, Campanella acredita que essas pesquisas e atividades devem ser vistas como um convite. “É preciso incluir todos os ramos da economia que, direta ou indiretamente, permitem que essa roda continue a girar”, diz ele, referindo-se à falta de capilaridade de iniciativas como estas.

Enquanto os resultados dessas iniciativas não são divulgados, o centro oferece programa de treinamentos em sua sede, com webinars dirigidos por especialistas no assunto e reuniões entre representantes dos mais variados setores da cadeia de valor do café.

TEXTO Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra e é mestre em economia agroalimentar. Atualmente, é consultor das Nações Unidas para o café

Agricultura de precisão reúne técnicas sustentáveis

Produzir café não é tarefa fácil. Afinal, é um produto natural suscetível a inúmeras variáveis econômicas e climáticas. Diversas ferramentas, porém, têm sido desenvolvidas para auxiliar os produtores nesta questão, e a agricultura de precisão é uma delas. A agricultura de precisão é um conjunto de técnicas que buscam aumentar a sustentabilidade do sistema produtivo, ao reduzir desperdícios e minimizar os impactos negativos no meio ambiente.

No final da década de 2010, houve a transição para o que se convencionou chamar agricultura 4.0 ou agricultura digital. Para Marcelo Chan Fu Wei, doutorando em Engenharia de Sistemas Agrícolas na ESALQ e membro do Laboratório de Agricultura de Precisão – LAP em Piracicaba, a adoção de técnicas de agricultura de precisão (ou AP) é difundida em diversas culturas agrícolas, sobretudo no café, o que originou a expressão cafeicultura de precisão.

Quando detecta-se a necessidade de uma planta, como água ou fertilizantes, o produtor atende o talhão como um todo (talhão é uma unidade de cultivo, ou seja, área que foi dividida conforme suas características e peculiaridades em comum). “A agricultura de precisão entende que o desempenho das culturas não é uniforme no talhão”, explica Wei, referindo-se a fatores como manchas de solo, doenças, pragas ou plantas daninhas. “Assim, a AP propõe que o manejo seja feito conforme a demanda específica do local, em vez de aplicado uniformemente, como é feito na agricultura convencional”, explica. A cafeicultura de precisão, portanto, é um conjunto de técnicas adotadas para manejar o cafezal, considerando as suas variações – estas recebem o nome de variabilidade espacial.

A cafeicultura de precisão inclui desde a análise do solo até a colheita. A partir da análise de solo, diz o especialista, identificam-se regiões que necessitem de aplicações de insumos agrícolas, em maior ou menor grau. “Além disso, com os dados de produtividade, é possível obter mapas de dados detalhados que ajudam a otimizar o gerenciamento de recursos, bem como analisar a lucratividade do produtor”, acrescenta ele, referindo-se às técnicas e análises que identificam possíveis causas da heterogeneidade em um talhão para tomadas de decisão mais assertivas.

Desafios para os produtores

A variabilidade espacial nas áreas de cultivo brasileiras são muitas. A maturação uniforme dos frutos nem sempre acontece, devido principalmente à variabilidade climática (aumento das temperaturas, secas imprevisíveis e padrões de chuva irregulares), que gera floradas irregulares e acentuam diferentes maturações, prejudicando as tomadas de decisão no campo.

Essa desuniformidade desafia a determinação do início da colheita. A Fazenda Daterra, em Patrocínio (MG), [onde as colunistas trabalham] criou estratégias: há monitoramento da maturação dos frutos com mais assertividade por meio da subdivisão dos talhões em setores menores, categorizados de acordo com a variedade, o nível de maturação e a qualidade sensorial. As amostras de cada setor são colhidas periodicamente e, no período de colheita, cada setor é avaliado separadamente, até que o café atinja a porcentagem desejada de frutos maduros. A partir daí, a equipe de qualidade inicia a amostragem para avaliação sensorial de cada setor – afinal, o que interessa é o grão e não a fruta: muitas vezes a cereja pode parecer madura, mas os grãos dentro dela ainda não estão no ápice do sabor. Assim, se não estiverem prontos, as amostragens continuam até chegar no ponto certo.

Com isso, além de um mapa de maturação, é possível obter mapas de qualidade, que permitem separar os cafés em nível de talhão, de setor e até de linhas, para que se extraia a melhor qualidade de cada planta. Essas estratégias são aplicadas em diferentes níveis de complexidade e em áreas diversas.

Num mundo cujos recursos naturais estão cada vez mais escassos, a agricultura de precisão é uma opção eficiente e promissora para  aumentar rendimentos e otimizar insumos. Por meio dela, os produtores trabalham com tranquilidade para garantir, continuamente, uma boa xícara aos consumidores.

A reportagem, reeditada, foi publicada na Revista Espresso #78, e deve ser compreendida no contexto em que foi elaborada (entre dezembro de 2022 e fevereiro de 2023)

TEXTO Diulie Moreira é pesquisadora e Juliana Sorati é assessora de marketing na Daterra Coffees, em Patrocínio (MG) • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Concentração da produção mundial de café: Por que vem ocorrendo e a dificuldade de ser revertida

Um comentário recorrente no Coffee Dinner & Forum da SCTA e na Conferência Mundial do Café da OIC, no mês passado, foi a concentração da produção de café no Brasil e no Vietnã. O que está por trás dessa concentração e há formas de revertê-la?

Essa concentração pode ser explicada por pelo menos dois fatores que são comuns aos dois países: alta produtividade e alta porcentagem do preço de exportação FOB recebida pelos produtores. Há um conceito comum por trás desses dois fatores – ambiente facilitador favorável – que deveria ser buscado pelos países que querem aumentar sua participação no mercado para reverter esse processo. Uma vez que a tendência a médio prazo é de aumento do consumo mundial, haverá mercado para esta produção adicional.

Os cafeicultores vietnamitas e brasileiros recebem uma das porcentagens médias mais altas do preço de exportação FOB de qualquer país produtor. Suas porcentagens médias estão no mínimo 30% acima da média dos demais países e apenas um ou dois países se aproximam deste valor médio do Brasil e Vietnã.

Recebendo uma porcentagem do preço de exportação mais alta que seus concorrentes, os produtores brasileiros e vietnamitas tem melhores condições para produzir mais em uma mesma área e/ou plantar mais café e sua cafeicultura tende a atrair outras pessoas ao negócio. Porém, por que os produtores brasileiros e vietnamitas recebem uma das porcentagens médias dos preços de exportação mais altas do mundo?

Isso acontece principalmente porque o ambiente facilitador entre a porteira da fazenda e o porto é mais favorável nesses dois países. Este ambiente facilitador favorável é uma combinação de logística eficiente, mercado de café competitivo e eficiente, custos de transação baixos incluindo impostos e taxas, e outros fatores.

A produtividade média no Vietnã e no Brasil juntos é mais que o dobro da média do resto do mundo onde se produz café. As vantagens comparativas de produzir café nesses dois países vem de um ambiente facilitador diferente do acima e complementar, que inclui disponibilidade de tecnologia e serviços de treinamento e extensão, mercados eficientes para insumos e equipamentos, acesso a financiamento, e acesso ao mercado.

É a melhoria dos itens do ambiente facilitador citados acima que cria condições para os países produzirem mais café de uma maneira mais eficiente e os produtores ganharem mais dinheiro. Fácil de falar mas difícil de fazer! Os itens deste ambiente facilitador podem ser usados como uma lista ou “receita” do que pode ser necessário melhorar e para definir prioridades nos países que estão perdendo participação de mercado.

Isto tudo pode parecer óbvio, especialmente depois que se lê os parágrafos acima, mas explica por que projetos com cafeicultores em muitos países, que atingem suas metas, por exemplo, aumentar a produtividade, podem falhar em manter seus resultados após o término do projeto e também em disseminá-los e incorporá-los regional ou nacionalmente. É comum que esses projetos melhorem o ambiente facilitador para os produtores envolvidos, por exemplo: acesso à tecnologia, treinamento, equipamento, insumos e/ou mercados. No entanto, essas melhorias geralmente não permanecem após o fim do projeto. Além disso, os resultados do projeto e suas melhorias não são nem disseminados e nem incorporados na cafeicultura da própria região e em outros lugares do país. Assim, os resultados não são duráveis e o impacto não é nem regional nem nacional porque a melhoria do ambiente facilitador estava focada no projeto e apenas pelo período que ele durou.

A maior parte dos itens do ambiente facilitador listados acima depende muito do governo, por exemplo, logística, regime fiscal (impostos e taxas), competitividade dos mercados, financiamento, e acesso à tecnologia e treinamento (serviços públicos de extensão). O setor privado pode fazer sua parte com o acesso a insumos e equipamentos, treinamento e financiamento, mas dependerá de uma estrutura reguladora que permita isso, o que novamente depende do governo.

A menos que o setor cafeeiro nos países produtores que estão perdendo participação de mercado trabalhe conjuntamente com os respectivos governos para melhorar o ambiente facilitador, será difícil evitar que a concentração da produção continue. Embora o café seja um negócio privado, os casos do Brasil e do Vietnam mostram que o papel do governo na criação de um ambiente facilitador favorável é essencial para assegurar a competitividade do agronegócio café, sem mencionar a vontade política para apoiá-lo em períodos específicos. Pode valer a pena aprender como o Brasil e o Vietnã fizeram isso. A produção de café é muito diferente nos dois países, o que aumenta as oportunidades de aprendizagem.

TEXTO Carlos Henrique Jorge Brando

Opinião: Café fermentado, concursos de qualidade e preferência do consumidor

À medida que a produção de cafés fermentados aumenta, cresce também o debate sobre tê-los ou não em uma categoria diferente nos concursos de qualidade. O mesmo tipo de debate já aconteceu anteriormente, primeiro quando o Cereja Descascado (CD) foi introduzido no Brasil, nos anos 90, e posteriormente quando chegou aos outros países, onde é conhecido como “honey”.  

Atualmente, existem concursos que tratam os cafés processados por métodos diferentes – Natural, Cereja Descascado (CD)/Honey e Lavado – juntos ou separadamente. Como tratar os cafés fermentados? 

Apesar do que eu chamo de “um novo mundo do processamento”, com naturais sendo  produzidos em países tradicionalmente produtores de café lavado e vice-versa, e cafés  fermentados produzidos em todo lugar, há, ainda, em muitos países, um entendimento de que seus concursos de qualidade devem envolver principalmente cafés naturais ou lavados. Essa  imagem foi primeiro ameaçada com a chegada dos Cerejas Descascados (CDs)/Honeys, que hoje são tratados como uma categoria diferente em muitos concursos de qualidade no Brasil. 

A Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) anunciou que o concurso brasileiro Cup of  Excellence 2023 terá três categorias: via seca, via úmida e experimental, esta última referindo-se a cafés fermentados. No entanto, este ainda é um assunto debatido em outros concursos brasileiros de qualidade, com uma divisão significativa que posiciona organizadores e provadores de café de ambos os lados. 

Com base na minha experiência de observar sessões de prova de café no exterior e no Brasil, e  de conversar com provadores e organizadores nesses lugares, estou mais alinhado com a ideia de ter cafés fermentados como uma categoria própria. Justifico essa opinião baseado na polarização entre “amantes” e “inimigos” dos cafés fermentados que tenho presenciado nesses eventos. Temo que esta polarização possa causar parcialidade na avaliação dos cafés por parte destes provadores em concursos que tenham vários tipos de processos juntos a ponto de suas avaliações serem consideradas “outliers” em casos extremos. 

Os concursos de qualidade são geralmente relacionados ao negócio de cafés especiais e os lotes ganhadores são vendidos principalmente como de origem única aos consumidores que são, antes de tudo, sensíveis às características da xícara, mas podem conhecer os métodos de processamento. Se as características da xícara vêm primeiro, e eu entendo, “de ouvir falar”, que os cafés fermentados têm aromas e sabores próprios, eles deveriam ser identificados como tal e tratados separadamente em concursos de qualidade. Se pode ser mais fácil para um consumidor “inexperiente” identificar um café fermentado que diferenciar entre naturais,  Cerejas Descascados (CDs)/Honeys e cafés lavados, há ainda uma razão mais forte para tratar  os cafés fermentados separadamente em um concurso de qualidade para evitar que a  fermentação oculte as características típicas de outros métodos e confundam o processo de  avaliação… e o consumidor de café especial! 

Extrapolando, hoje existe uma tendência de não esperar que robustas tenham o mesmo sabor que arábicas, ou que o café solúvel tenha o mesmo sabor que o café torrado e moído. Em outras palavras, eles deveriam ser tratados como produtos diferentes com suas próprias características específicas. Não deveriam os cafés fermentados serem tratados da mesma maneira?  

Finalmente, como leigo no assunto, minha pergunta que não quer calar é se alguns tipos de fermentação podem deixar arábicas e robustas parecidos na xícara. Esta pergunta é para os especialistas responderem… embora eu tenha presenciado isto em pelo menos uma sessão de prova de café com alguns deles. Se a resposta for sim, pelo menos em alguns casos, esta é, ainda, outra razão para considerar cafés fermentados uma categoria própria, tanto em concursos de qualidade, como na comunicação aos consumidores. 

TEXTO Carlos Brando

Mais do que entender de café especial, importa entender do que você gosta

Em um setor como o nosso, dependemos de clientes motivados a investir seu tempo e dinheiro em produtos e serviços que estão lá no topo da pirâmide de Maslow – aqueles considerados menos essenciais e que abandonamos quando o orçamento fica apertado. Por isso é mesmo um alívio poder falar com o consumidor sobre a alegria que é descobrir aromas e sabores e ouvir histórias sobre como aquele café chegou à xícara com mais leveza do que o contexto pandêmico permitia. 

O tempo que passamos em casa nos levou para a internet, onde aprendemos que dá pra comprar grão direto de produtores e torrefadores artesanais, montar um cantinho do café cheio de utensílios modernos e falar de café (quase) como um profissional para as visitas. Empurrados porta afora, ávidos por tomar cafés presenciais e acompanhados, os amantes da bebida trazem bagagem pesada para as cafeterias, investigam embalagens, entrevistam baristas e procuram nos cursos a confraternização com seus pares, até mais do que a validação dos seus conhecimentos.

O que muitos consumidores e uma parte significativa dos experts surgidos na pandemia não encontraram no Google é que o café especial é como um jovem entrando na vida adulta, a cada dia num caminho novo para revolucionar o mundo, a cada empreitada descobrindo que as suas verdades podem estar muito equivocadas e que provavelmente desprezou e perdeu seu grande amor porque ele não era o mais popular. Em poucos anos, o café especial foi desconstruído, reconstruído, questionado, relativizado. As histórias passaram a ter mais importância do que o conteúdo da xícara, o que foi ótimo para conseguirmos estourar essa bolha que distanciou nossas palavras sofisticadas do consumidor raiz. Só que, ao mesmo tempo, a reprodução de conhecimentos fragmentados e superficiais sobre o que é “café especial” passa a ser encarada como uma regra para “o que é melhor pra você”. Se o café tem 90 pontos SCA, se é de uma variedade exótica premiada, se a torra é clara, se é 100% arábica – “melhor pra você”. 

Comprar um café só porque um especialista diz que é o melhor não vai necessariamente te proporcionar cafés melhores. E essa conversa começa antes do conceito de café especial, na definição de o que você gosta e o que você quer, de verdade, encontrar na sua xícara? Mas a gente sabe dizer o que a gente quer?

Se você deseja tomar cafés melhores, a primeira “verdade” que precisa encarar é que a pontuação é um mero detalhe e não deve ser utilizada como critério de decisão de compra. A segunda é que ser um café 100% arábica não garante qualidade, e ainda te deixa distante de cafés extremamente interessantes não arábicas que podem, no fim da história, ser exatamente aquele grande amor que você desmereceu porque não era popular. 

Esse conhecimento é autonomia e libertação. Mais que entretenimento para a hora do café, adquirir repertório permite que o consumidor se aproprie da sua escolha e decida os rumos da sua apreciação, sem se sujeitar aos preconceitos de profissionais desatualizados e ao marketing sensacionalista de marcas que se apoiam no desconhecimento do consumidor. O café especial são muitos, e certamente um dia você vai deparar com aquele que preenche a sua lista de desejos. Não vai ser muito mais legal se você souber o que te encanta nele para encontrar outros por aí?

Aprender o que significa acidez, corpo, doçura e equilíbrio na bebida, utilizar o vocabulário técnico com propósito, identificando as características que te dão prazer, são ferramentas que o consumidor pode utilizar para fazer o que realmente importa: descrever as características do café que gosta e identificar, na oferta infinita do mercado, o(s) café(s) que mais te interessa(m).

TEXTO Helga Andrade - Educadora e consultora em serviço de cafés e curadora de experiências cafeinadas no Achega, em Belo Horizonte (MG) • FOTO Agência Ophelia