Coluna Café por Convidados Especiais

Do campo à xícara, profissionais convidados refletem sobre o setor

Fermentados: o novo capítulo dos cafés especiais brasileiros

Foto: Agência Ophelia

Por Marcos Kim

Durante décadas, o Brasil construiu sua reputação global com base na consistência: cafés doces, encorpados e limpos, resultado de processos como o natural e o cereja descascado. Mas, nos últimos anos, uma nova camada de complexidade começou a emergir não por acaso, mas por escolha.

A fermentação, antes vista como um fenômeno natural e pouco controlado, passou a ser tratada como uma ferramenta técnica e criativa – e, com isso, abriu-se um novo vocabulário sensorial para o café brasileiro.

Hoje falamos de notas que vão além do tradicional: frutas tropicais maduras, frutas vermelhas intensas, perfis vínicos, licorosos e especiarias. Perfis que, há dez anos, seriam raros ou até considerados defeitos, e que hoje são desejados, estudados e reproduzidos com precisão.

Da inspiração internacional à identidade brasileira

É importante lembrar que o Brasil não iniciou esse movimento isoladamente. Origens como Colômbia e países da América Central sempre apresentaram maior incidência de fermentação natural durante o pós-colheita, principalmente devido à alta umidade relativa do ar no período de colheita. Essa condição favorece a atividade microbiana espontânea, impactando diretamente o perfil sensorial dos cafés.

Ao observar esses resultados, o Brasil passou a olhar para a fermentação não como um risco, mas como uma oportunidade. A diferença é que, ao invés de depender do acaso, começamos a construir processos.

A curva de aprendizado: erro, ajuste e controle

Nos primeiros anos, o cenário era experimental. Faltavam parâmetros, referências e estudos aplicados à realidade brasileira. Muitos processos resultaram em inconsistência e perdas. Mas foi justamente esse período que construiu a base do que temos hoje.

Atualmente, a fermentação no café brasileiro evoluiu para um nível técnico elevado, com controle de variáveis essenciais como: temperatura ambiente, umidade relativa do ar, temperatura da massa de café, pH, tempo de fermentação e presença e tipo de microrganismos. 

Esse avanço permitiu algo fundamental para o mercado: consistência e previsibilidade. Mais do que isso, permitiu repetibilidade. Hoje, produtores conseguem direcionar perfis sensoriais de acordo com o objetivo final. Não se trata apenas de fermentar, mas de desenhar o resultado na xícara.

Fermentação não corrige erros

Apesar de toda a inovação, existe um princípio que permanece inegociável: qualidade se constrói na base. Fermentação não é solução para café de baixa qualidade, pelo contrário: ela amplifica o que já existe.

Por isso, antes de avançar para processos fermentativos mais complexos, é essencial que o produtor tenha domínio sobre: planejamento de pós-colheita, colheita seletiva, higienização rigorosa de equipamentos, organização operacional e rastreabilidade dos lotes. A fermentação deve ser vista como uma etapa de refinamento, não de correção.

De tendência a categoria consolidada

O que antes era nicho, hoje se consolidou como categoria. Os cafés fermentados já ocupam espaço relevante em cardápios de cafeterias especializadas, competições nacionais e internacionais, e leilões e mercados premium.

Além disso, novas abordagens vêm ganhando força, como co-fermentações (com frutas ou outros insumos), uso de leveduras selecionadas e fermentações induzidas com objetivos sensoriais específicos.

Esse movimento aproxima o café de outras bebidas complexas, como vinho e cerveja artesanal, ampliando o repertório do consumidor.

O consumidor e a busca por experiência

O crescimento dos cafés fermentados também está diretamente ligado à transformação do consumidor. Hoje, há uma demanda crescente por produtos com identidade, rastreabilidade, narrativa (storytelling) e experiências sensoriais diferenciadas. É um público mais jovem, explorador e aberto ao novo, que não busca apenas qualidade, ele busca descoberta.

Um fenômeno global

O avanço dos cafés fermentados não é exclusivo do Brasil. Mercados como Ásia e Europa têm demonstrado forte crescimento no consumo desse perfil de café. Países como Coreia do Sul, Japão, China, Indonésia e Tailândia, além de mercados europeus e regiões com restrições ao consumo de álcool, vêm adotando esses cafés com entusiasmo.

Em muitos casos, os perfis sensoriais fermentados que remetem a vinho, licor ou frutas maduras oferecem uma experiência complexa sem qualquer teor alcoólico, ampliando ainda mais seu alcance cultural.

Entre a inovação e o debate

Como toda inovação, a fermentação no café também gera discussões. Há questionamentos sobre limites de intervenção, identidade de origem e até sobre o impacto das co-fermentações na definição do que é, de fato, café.

E esses debates são necessários. Eles ajudam a estabelecer critérios, preservar identidade e garantir transparência ao consumidor. Mas, independentemente das discussões, há um consenso crescente: a fermentação ampliou o potencial do café brasileiro.

O futuro já começou

Se olharmos para os últimos dez anos, a evolução foi significativa. Mas, olhando para frente, é possível afirmar com segurança: ainda estamos no início. Novas tecnologias, novos estudos microbiológicos e novas abordagens sensoriais devem continuar transformando o cenário.

O Brasil, historicamente reconhecido por volume e consistência, passa agora a ocupar também um espaço de protagonismo na inovação – e talvez essa seja a maior transformação de todas.

Não estamos apenas melhorando processos. Estamos expandindo os limites do que o café pode ser.

Marcos Kim (@marcoskim_coffee) é Q-Grader e especialista em pós-colheita e fermentação de cafés especiais. Atuou em grandes fazendas e cooperativas do Brasil, implementando processos, rastreabilidade e controle de qualidade.

TEXTO Marcos Kim • FOTO Agência Ophelia

O império contra-ataca

Por Celso Vegro

Em parte, por responsabilidade da mídia especializada em economia, o debate brasileiro se restringe à trajetória das contas públicas sob permanente ameaça de compressão do espaço fiscal.

Sim, é uma problemática que todos devemos entender e buscar soluções (embora não exista o menor interesse do Congresso Nacional em produzir qualquer solução para a temática), ainda que, na macroeconomia, o endividamento de nações não seja o motor para crises, mas, como bem ensinou John Maynard Keynes, uma ferramenta macroeconômica anticíclica (investimento público como estabilizador da economia). Mas deixo essa controvérsia para os mais bem capacitados.

A imposição de tarifas aos produtos brasileiros, impetrada arbitrariamente pelo mandatário estadunidense (que ainda permanece sobre o café solúvel destinado àquele país), demonstra nitidamente que política internacional é política econômica.

A tentativa de retomada do Canal do Panamá; as ameaças ao México visando o endurecimento no combate ao narcotráfico e às imigrações; o explícito apoio à eleição de um ex-condenado por tráfico à presidência de Honduras; a produção de escassez energética, ruína econômica e crise humanitária em Cuba; o sequestro do presidente venezuelano e de sua esposa com retomada dos investimentos das companhias petrolíferas estadunidenses; as ameaças tarifárias contra a Colômbia;  a instalação de base militar estadunidense no Paraguai; os ataques à ferramenta brasileira de pagamentos instantâneos e o domínio sobre lavras de minerais estratégicos do subcontinente (lítio, nióbio, cobalto, manganês e as argilas iônicas) são posicionamentos que ensaiam uma imposição definitiva da Doutrina Donroe [um amálgama de Donald Trump e Doutrina Monroe] – implementada por Trump a partir de perspectivas da ultradireita que politicamente o sustenta –, que estabelece a Iberoamérica como espaço da influência direta e controle do território.

O momento histórico atual denota a condição particular do sistema internacional. Diante de uma crescente contestação chinesa, vivencia-se o estertor — ou a agonia — da hegemonia estadunidense, caracterizada pela supremacia militar, pelo domínio da fronteira tecnológica e pela hegemonia monetária, hoje sob intensa contestação de outros países, com a criação de sistemas de pagamento que não incluem o dólar.

Nesse contexto, desencadeou-se a perda de protagonismo das organizações multilaterais e do arranjo de regras de funcionamento global construído pelos EUA no pós-guerra. A fragmentação ganha força nas relações entre as nações, exigindo reposicionamentos em que a revalorização dos territórios é crucial.

Forçar alinhamentos político-econômicos dos países iberoamericanos aos interesses estadunidenses reflete o esforço de neutralizar a influência chinesa no subcontinente – aqui, sem juízo de valor sobre se é melhor estar sob influência do dragão ou da águia careca – não existe altruísmo entre as nações mas, apenas, interesses.

Diante dessa constatação, ganha relevância a política econômica pautada por posicionamentos que fortaleçam a soberania nacional vinculados a um projeto hegemônico de desenvolvimento nacional, pois a condição de território colonial não trouxe qualquer benefício a nenhum dos países do chamado sul global.

Retomando o início do artigo, o chamado tarifaço foi revogado pela suprema corte do país em fevereiro de 2026, impondo não apenas uma fragorosa derrota ao governo Trump como, ainda, chancelando a possibilidade de estorno dos montantes pagos às empresas tarifadas. Todavia, esse é um governo que não sabe perder, e outros mecanismos estão em gestação visando driblar a suprema corte e manter as barreiras fiscais revogadas. As alternativas se apoiam nas seções 122, 201, 301 da lei de comércio dos Estados Unidos de 1974.

A seção 122 da referida lei estabelece tarifa de 10%, de forma cumulativa, sobre as atualmente praticadas. A seção permite que a tarifa alcance 15% por 150 dias, sob o argumento de correção dos desequilíbrios da balança de pagamentos. A partir dessa seção, substituiu-se o tarifaço revogado pela suprema corte dos EUA, porém, com limites de vigência e percentual.

A seção 201 prevê a imposição de cotas temporárias de importação. Já a seção 301 trata de um mecanismo para investigar possíveis práticas comerciais desleais de países estrangeiros que afetem o comércio dos EUA. A apuração é conduzida pelo Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) e pode abranger, por exemplo, práticas análogas à escravidão e a ausência de rastreabilidade de produtos importados.

A seção 232, de 1962, permite a imposição de tarifas para produtos que ameacem a segurança nacional e faz parte da legislação de extensão comercial, enquanto a seção 338 pertence à lei tarifária de 1930, que impõe tarifas de até 50% a países que discriminem produtos estadunidenses. Esta última nunca foi aplicada, mas o dedo trumpista está no gatilho.

Adicionalmente, há, ainda, a possibilidade de retaliação aos países que transacionam com o Irã (25% de tarifa adicional), embora exista o consenso de que o principal perdedor da deflagração da “Fúria Épica” sejam os Estados Unidos. O governo continua sob os preceitos da teocracia, enquanto o mundo voltou-se contra o ataque, pois os EUA levaram ao colapso a oferta de energia/vida (petróleo, gás, enxofre e fertilizantes), atendendo mais ao intuito de construção da hegemonia israelense na região e prescindindo da preocupação do avanço do enriquecimento de urânio no Irã.

Como se não bastassem todas essas possibilidades de, novamente, levantarem-se barreiras ao café brasileiro, a possibilidade do governo dos EUA caracterizar como terroristas os grupamentos criminosos PCC e o CV concederá ao país a licença para impor taxas a produtos brasileiros amparados.

Ao longo de cerca de cem dias de vigência do tarifaço, houve perda de US$ 400 milhões exclusivamente nas exportações do agronegócio cafeeiro brasileiro para os EUA1. Apesar da revogação do tarifaço, os 50% atribuídos ao solúvel persistem, retirando, por completo, qualquer possibilidade do produto concorrer no mercado estadunidense.

Em alguma medida, as 23 indicações geográficas de café do Brasil permitem plena rastreabilidade dos produtos procedentes desses territórios. Os cafés dessas procedências têm relativa proteção contra o levantamento de barreiras tarifárias decorrente da alegada impossibilidade de rastreamento. Todavia, outras questões capazes de impedir as transações do café brasileiro no mercado estadunidense podem ser levantadas. Cabe às entidades representativas do segmento apresentarem informações sobre a estrutura produtiva da lavoura cafeeira, considerando, especialmente, tanto as relações sociais quanto os reflexos ambientais de produção.

O encontro programado entre os mandatários do Brasil e seu congênere estadunidense foi antecipadamente pautado por empresários brasileiros com acesso à cúpula do governo Trump. Acertos quanto a taxação sobre o aço e o alumínio concentram o maior interesse do lado brasileiro, enquanto, do lado de lá, são  minerais críticos. Porém, há ainda o problema dos embarques do café solúvel (onerado em 50%), que demanda um equacionamento favorável ao agronegócio Cafés do Brasil. O mais provável é que continue como está, mantendo as mercadorias brasileiras ameaçadas pelos interesses do “império”.

1 SIMÕES, K. Tensão geopolítica e tarifas redesenham ação no exterior. Valor Econômico, Caderno Especial Pequenas Empresas, 21 e 22 abr. 2026, p. F3. 

Celso Vegro (@celsovegro) é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

TEXTO Celso Luis Rodrigues Vegro é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

Quantos Marcelos e Antônios são necessários para produzir o café da sua xícara?

Foto: Bruno Conrado

Por Bruno Conrado

Que o café faz parte da vida dos brasileiros, não é novidade. Ainda criança, lembro de tomar as primeiras canecas de café com leite e não gostar nem um pouco — o achocolatado era bem mais saboroso. Na adolescência, passei a tomá-lo puro, sem leite, porque, para mim, era elegante ser visto com um copo americano fumegando nas mãos.

Mas foi durante uma edição do São Paulo Coffee Week, organizado por Flavia Pogliani, do The Little Coffee Shop, que, já adulto, conheci os cafés especiais – e as cervejas artesanais também. Ambos criaram uma explosão de sabores e sensações para meu paladar ainda inexperiente.

Foi na mesma época que resolvi mudar de profissão – e a fotografia, que era um hobby, ocupou o lugar da música e virou sustento. Por conta, talvez, desse meu hiperfoco, comprei Perfume de Sonho, o livro do fotógrafo Sebastião Salgado sobre café. 

Foi questão de tempo para eu decidir fazer o mesmo tipo de trabalho. Assim como ele, quis fotografar colheitas e, de quebra, aprender o que pudesse sobre a pequena fruta.

Foto: Bruno Conrado

Com a ajuda de Samuel, produtor do Café Tequila, visitei desde plantações a perder de vista até pequenos produtores no Sul de Minas Gerais. De moto e mochila nas costas, cruzei as montanhas frias da Mantiqueira, de estradas sinuosas cercadas por araucárias. As seriemas, quando não corriam desengonçadas, pareciam gargalhar da boa vida que levavam ali. 

Em Baependi, cidade de Nhá Chica, a primeira mulher negra brasileira declarada beata pela igreja católica, conheci Antônio e Marcelo, pequenos produtores que compartilham o trabalho com seus familiares. Ali, tudo é feito de maneira simples, totalmente manual – um cenário diferente daquele de fazendas com colheitadeiras ou ônibus para transportar funcionários. Naquele ano, Antônio e Marcelo venderam microlotes para cafeterias de São Paulo. 

Seu Antônio fotografado por Bruno Conrado

Quando voltei para casa, longe daquela beleza bucólica, preparei um coado e estudei as fotos da viagem. Uma delas, inclusive, estampou a embalagem do café do Antônio, vendidos na cafeteria Pato Rei. Mas um detalhe curioso não me saiu da cabeça: aqueles produtores nunca provaram o próprio café. Com o dinheiro que recebiam, compravam o café tradicional extraforte no mercado. O que me intrigava é que eles não sabiam o gosto do que produziam.

No ano seguinte, fui revê-los e descobri que Antônio tinha desistido de plantar café. “O milho vai me dar mais dinheiro”, disse. Então, encontrei Marcelo, que não só seguia trabalhando com café, como tinha aumentado sua produção. “Plantei até no campo de futebol, ninguém mais jogava ali mesmo”, contou ele. 

Assim como fizera com Antônio, pedi para tirar seu retrato. Marcelo sentou-se à mesa e, quando fui bater a primeira foto, ele levantou subitamente, gritando: “Peraí!”. Em seguida, colocou um pacote sobre a mesa. “Mandei torrar e moer meu café. Agora estou vendendo pra turma aqui poder tomar uma coisinha um pouco melhor”, comentou. No retrato, ele aparece orgulhoso com seu café empacotado, segurando um copo do que produziu com a família. 

O produtor Marcelo fotografado por Bruno Conrado

Por conta do trabalho, não voltei a Baependi com a frequência de antes, mas as fotos seguem guardadas com as histórias que conheci por lá. 

Certo dia, perguntei a Samuel como estavam as coisas na região. “Seu Antônio agora planta abacaxi, mas Marcelo segue firme”, atualizou-me. “Ano passado, inclusive, ficou em segundo lugar na premiação da cooperativa para os melhores cafés.”

Por passar por muitos processos, vários produtores acabam vendendo sua produção no beneficiamento e, não chegam a ver o produto final. O café dá muito trabalho. 

Marcelo continua tomando o café que produz e, por conta da alta no preço, agora vende só para a cooperativa. Já Antônio segue tomando o tradicional extraforte – mas, agora, em sua mesa, não falta abacaxi. 

Bruno Conrado (@br.conrado) é fotógrafo profissional. Criou o podcast Sessão de Fotografia, e consolidou-se como retratista. Reconhecido por seu trabalho em retrato e fotografia documental, atuou no mercado comercial com grandes empresas, produções artísticas e podcasts, e já fotografou personalidades do cenário nacional.

TEXTO Bruno Conrado

Nem caramelo, nem vira-lata

Entre máquinas automáticas e preconceitos geográficos, Cauã Sperling, proprietário da cafeteria paulistana Fora da Lei, relata sua jornada pela Europa e afirma que o barista brasileiro está longe de ser um vira-lata no cenário global do café

Por Cauã Sperling 

Depois de abrir o Fora da Lei de segunda a segunda, atender clientes de humores variados e deixar um cemitério de louças pelo caminho, chegou o dia da minha tão esperada viagem. Foram dez anos acumulando dores na lombar e tirando pó debaixo do moinho para finalmente realizar meu sonho – gritar para o mundo que só hipster gosta de cold brew.

​Para celebrar as férias, decidi fazer um detox em grande estilo e fugi com a família para a Europa para aproveitar o que eu acho que eles têm de melhor, ou seja, eventos de café e cafeterias. Como profissional da área, desembarquei com dívidas e expectativas, pois queria extrair o máximo desse cenário, tomar notas técnicas e importar metodologias inovadoras. 

Visitei cidades como Bruxelas, Estrasburgo, Colmar, Paris, Basileia, Zurique e Copenhague. Não me levem a mal, mas na minha cabeça, de lata, achei que aprenderia muito e me surpreenderia até, mas a realidade foi bem mais fria. Eu estava pronto para o futuro, mas mal sabia que não estava vacinado contra a maior síndrome que atinge o barista brasileiro.

Sim, existe um mundo de diferenças: acesso às melhores tecnologias e equipamentos, alto poder aquisitivo e matérias-primas que, para nós, brasileiros, mais parecem alienígenas. Isso cria um terreno fértil para a diversão, mas, ao mesmo tempo, o conhecimento técnico muitas vezes passa longe. Era comum encontrar baristas de botões: um para moer o café, outro para compactá-lo, outro para extrair o espresso, outro para preparar o coado, outro para vaporizar o leite – sim, fiquei espantado ao descobrir que vaporizadores automáticos existem e estão sendo usados no mundo real.

Foto: Cauã Sperling

Provei diversos cafés, bons na descrição, mas sem graça na boca. Tomei também muitas reviradas de olhos ao pedir uma bebida no v60 e não um batch brew (termo chique de baristas que significa “coado de térmica”).

O desapego pela profissão me pareceu estranho e confuso. Ser barista na Europa é uma escolha profissional comum, não ideológica – ao contrário da nossa cruzada diária, em que acordamos prontos para a guerra, ganhando pouco e tentando converter o maior número possível de infiéis. Ser barista no Brasil é difícil.

Para ilustrar: quando eu queria que percebessem que eu era barista, recorria aos sentidos mais aguçados de um profissional do café: a curiosidade e a fofoca. Vou revelar a mágica: peça o café sem grandes perguntas, passe despercebido e sente-se. Nada de fotos ou selfies. Basta abrir um caderninho e começar a anotar suas impressões sobre a bebida. Pronto: a armadilha está montada. Em poucos minutos, um hipster – ou melhor, alguém da casa – aparece para perguntar se você trabalha com café. Fica a dica: chegar batendo o pé e anunciando que é barista só faz você despertar ranço.

Em Bruxelas, comecei uma conversa sobre torras e extrações com o dono de uma cafeteria. A barista que me serviu decidiu se retirar da conversa, pois disse que não entendia nada de café. Perguntei há quantos meses ela trabalhava como barista. Ela respondeu que estava na profissão havia cinco anos.

Passei a viagem inteira sendo mal atendido e tomando ótimos cafés que estavam mal extraídos – mesmo depois de ser “descoberto”. Para nós, brasileiros, isso chega a ser estranho. Aqui no Brasil, existe um sentimento de cumplicidade imediata quando descobrimos um colega de balcão. É quase como pertencer a uma sociedade secreta – uma Filtratti ou uma Copus Dei. Fazer v60 e aeropress gelada virou paixão nacional. Temos excelentes profissionais que entendem do pé à xícara nos lugares mais simples. E adoramos trocar técnicas; só falta um cumprimento secreto.

Me perdoem se estou soando amargo, e talvez esteja mesmo, mas essa viagem também me abriu os olhos para algo que me pegou de jeito: o preconceito. Quase todas as cafeterias servem café brasileiro – sempre os menos complexos, sempre os mais baratos, sempre com sensorial de caramelo.

Foto: Cauã Sperling

Que fique bem claro: o nosso “caramelo” é motivo de orgulho nacional. Quantidade com qualidade e consistência é algo dificílimo – e praticamente só nós fazemos. Somos potência tecnológica, produtiva e de pesquisa no cultivo – mas, pelo visto, uma lástima no marketing.

É injusta a comparação de um café de 81 pontos com um de 89. É como comparar um bom influencer e um cineasta: um foca no entretenimento de massa, o outro, na técnica para um público específico. Temos cineastas incríveis, mas, se vamos comparar, que seja Kleber Mendonça com Josh Safdie – e não Whindersson com Scorsese. Na Europa, muitos cafés considerados “muito bons” eram apenas fermentados comuns. Quando eu sacava da mochila os cafés que levei do Brasil (sim, não sou bobo), a surpresa era geral.

O auge da estranheza foi ouvir de um campeão mundial que “café lavado é melhor que natural”, e que o Brasil não produz lavados como a África porque “temos menos água”. Sim, você leu certo: ele afirmou que o país com o maior reservatório de água doce do planeta tem menos água que o segundo continente mais seco. Uma afirmação tão rasa que ignora a problemática real da produção africana: a falta de infraestrutura, a exploração e a contaminação de mananciais – porque, sim, café lavado consome água e polui se não houver gestão.

Existiram exceções brilhantes, claro: Mame, Coffee Collective, Dak, Synapse… Todas cafeterias incríveis, consistentes e técnicas. Mas a viagem deixou claro que o barista brasileiro não é nenhum vira-lata, e o nosso café não é “só caramelo”.

Temos amplo conhecimento, mais do que a média dos profissionais pelo mundo. Por que será que ainda não somos reconhecidos?

Cauã Sperling é advogado de formação e apaixonado por cafés especiais. Em 2016, abriu o Fora da Lei (@foradalei_cafe), em São Paulo (SP), que começou como cafeteria itinerante e hoje tem endereço fixo na Vila Mariana.

TEXTO Cauã Sperling

Em Medellín, técnica é hospitalidade

Em dez dias pela cidade colombiana, entre compromissos de trabalho e conversas de balcão, o mixologista da Kerry Thiago Nego descreve uma cena de cafés onde o método é respeito – tanto pelo sabor quanto pelo cliente

Foto: Jimmy Woo/Unsplash

Por Thiago Nego

Cheguei a Medellín, no fim de janeiro, com duas missões. A primeira era montar e inaugurar o centro técnico de cocriação da Kerry na cidade. A segunda era confirmar, pela xícara, o país que formou meu imaginário de bons cafés no início da minha carreira. 

Depois de um voo longo e uma conexão mais longa ainda, tudo o que eu queria era um café em terra firme. Não precisava ser uma bebida de alta qualidade, bastava que fosse bem feita. O primeiro café que peguei, ainda no aeroporto, produziu um sorriso automático: temperatura palatável, aromas nítidos. Primeiro gesto, grande recado: respeito pela extração e pela experiência.

Para um estrangeiro, que passou os últimos 25 anos criando bebidas e se tornou obcecado por temperatura, textura, acidez e dulçor – como um músico que afina seu instrumento – dez dias são insuficientes, parciais. Mas conheci muita coisa, que compartilho a seguir. 

El Laboratorio de Café: quando a xícara explica a casa

A torrefação e cafeteria El Laboratorio de Café, com várias lojas pela cidade, é conhecida por focar em grãos nacionais. Conheci três das unidades: no shopping El Tesoro, na entrada do Museu de Antioquia, na Praça Botero, no centro –  sim, degustar café diante de uma das mais de 20 esculturas de Botero espalhadas pelo espaço funciona – , e numa rua tranquila da zona industrial de Medellín.

Foto: Thiago Nego

Todas mantiveram o padrão da bebida, com várias opções de filtrados e cujas variedades de arábica ficam armazenadas em potes, à vista dos clientes: provei um filtrado da Finca El Tigre, de Urrao, Antioquia (notas suaves que, ao esfriar, remeteram à maçã madura, limão‑siciliano e floral, com cremosidade surpreendente), um café filtrado da Finca La Viviana (dulçor cremoso que lembrou mel e coco) e o Blue Mountain, também filtrado (geleia de frutas vermelhas). 

A temperatura de serviço é correta para as bebidas servidas tanto em copo de papel quanto em porcelana, e o método de preparo é replicado com precisão: aqui, a técnica não aparece como um show, mas é fruto de uma calibragem cuidadosa. Na unidade da zona industrial, o ambiente é simples e funcional, com mesa compartilhada, sacas à vista e vitrine com algumas opções de comidinhas. 

Mesma receita, assinaturas distintas

Ao circular por outras cafeterias e torrefações, notei um padrão interessante: mesmo método, técnicas distintas. Muda-se o ritmo de vertida, turbulência, o tempo de blooming, a moagem e a temperatura e, assim, cada estabelecimento imprime sua assinatura. É o maior marcador de maturidade do setor no país: o processo como linguagem.

No copo, isso se traduz em cítricos limpos, florais sutis e bem delineados, e, algumas vezes, pêssego com aquela suculência cremosa de fruta no ponto. Em paralelo, a cultura do café gelado está assumida: cold brew e afins circulam sem estranhamento, convivendo com o coado da hora e o espresso – realidade que ainda oscila no Brasil, mas em Medellín parece naturalizada.

Um dos exemplos foi a torrefação e cafeteria Típica, que tem uma comunicação bem resolvida e cujas embalagens evidenciam lotes com perfis marcantes. 

Informação de respeito 

Outro ponto alto é o cuidado com as embalagens de café. Texturas agradáveis ao toque, cores que comunicam marca e origem e, o mais importante, informação técnica relevante, como variedade, produtor e perfil de torra, por exemplo, na frente do pacote. Para quem trabalha com educação sensorial, isso empodera o cliente e dá contexto à experiência.

Supermercados surpreendem

Não foram só as cafeterias de Medellín. Mercados de bairro têm gôndolas fortes em cafés, com uma curva de preço-qualidade coerente, inclusive de rótulos populares. Comprei alguns cafés (Juan Valdez e outros de regiões produtoras), e vários viraram meus companheiros de hotel, enquanto trabalhava à noite. Sinal de que a qualidade média do café na cidade é alta e distribuída.

Comuna 13: café como símbolo de recomeço

Foto: Thiago Nego

Visitei a Comuna 13, bairro antes dominado pelo narcotráfico e que se tornou ponto turístico, ou seja, que transformou a dor em acolhimento. Ali, entre escadarias, grafites e música, encontrei uma microtorrefação local, a Waikao de la 13, com cafés especiais e técnica zelosa. Ter torra e o serviço de café como expressão cultural num território que se reergueu explica melhor Medellín do que qualquer slogan. É café como pertencimento.

Cocriação com responsabilidade sensorial

Estive na cidade para inaugurar o centro técnico de cocriação da Kerry, um espaço onde P&D encostam no balcão. Defendo a ideia há décadas: inovação não é aroma por decreto; é responsabilidade sensorial. Medellín reforçou esta tese. Quando temperatura, método e narrativa se alinham, é possível prototipar bebidas – incluindo as sem ou com baixo teor alcoólico, a cáscara, as infusões, nitros e texturas a frio  – sem mascarar o café, mas revelando-o. 

Dez dias e algumas lições

Dez dias é pouco tempo para “mapear a cena” de café em Medellín. Ainda assim, trouxe comigo três aprendizados. O primeiro é o de que temperatura é hospitalidade. A consistência de serviço protege aroma, evita choque térmico e convida ao gole. O segundo é que o método é linguagem: o mesmo v60 carrega assinaturas distintas e isso diferencia marcas sem “pirotecnia”. A terceira lição é a de que informação vende qualidade: embalagem e rotulagem educam, valorizam produtor e destravaram a conversa com o consumidor.

Medellín gosta de receber. Do Museu de Antioquia às ruas cheias de bares e restaurantes, da limonada clássica à limonada de coco, do chocolate com queijo às conversas fáceis, a cidade te envolve. Voltei ao Brasil com vinte pacotes de café na mala, uma degustação memorável com baristas amigos e a vontade de retornar logo à cidade colombiana.

Thiago Nego dos Santos é mixologista sênior da Kerry. Tem 26 anos de experiência no mercado de bebidas e atende redes de alimentação e indústria de bebidas da América Latina. 

TEXTO Thiago Nego

“Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”

Por Celso Vegro

A pandemia produziu um novo contexto para a experiência humana na atual quadra histórica. O ambiente de incertezas firmou-se como alicerce das expectativas que foram recentemente radicalizadas pela gestão previsivelmente imprevisível do mandatário estadunidense. Francamente empenhado no desmantelamento do sistema de governança global, construído pelos EUA no pós-guerra, o ambiente para a tomada de decisões econômicas tornou-se extremamente complexo. 

Ao final de 2025, foi publicado pela Casa Branca o documento “National Security Strategy of USA” que, em suas premissas, regurgita a doutrina Monroe¹, que diz que a América Latina constitui um território “exclusivo” dos interesses estadunidenses. O esforço explícito de Trump é o de deslocar a presença chinesa dos países latino-americanos e priorizar seus interesses, mas, talvez, nem tanto dos países abaixo do Rio Grande ou Rio Bravo, a depender do ponto de vista.

A estratégia norte-americana já rendeu frutos, como no caso do Panamá – retomada da gestão pública sobre o canal, cancelando a concessão que pertencia a uma empresa de Hong Kong –, o bloqueio das remessas de petróleo venezuelano para a China e para Cuba e, por fim, o pacote financeiro para a Argentina em troca da exclusividade para a exploração das reservas de lítio do país pelos EUA. Outras intervenções virão, sobretudo nas eleições da Colômbia² e do Brasil – por acaso, os dois maiores países produtores de café arábica do mundo.

Pois não foi o café um dos produtos³ que levou o mandatário estadunidense a rever o tarifaço impetrado ao Brasil no final de julho de 2025? A elevação de preços do café no mercado dos EUA, trouxe forte indignação ao seu eleitorado, forçando-o a excluir o produto da lista daqueles taxados em 50% para ingresso no mercado norte-americano4

Não poderia haver momento mais inoportuno para o mandatário estadunidense impor tarifas ao café brasileiro. Após seguidos anos de produção mundial abaixo das expectativas, associados ao acelerado consumo de estoques, iniciou-se, no último trimestre de 2024, uma escalada nas cotações do café no mercado internacional, que se manteve até fevereiro deste ano, quando, após quatro safras consecutivas no Brasil, previu-se um volume de colheita próximo ao recorde registrado na safra de 2020/21. 

A retirada das tarifas impostas pelo presidente norte-americano não promoverá um retorno ao status quo anterior de funcionamento do mercado. Ainda que tenha havido perdas econômicas devido à restrição aos embarques para aquele mercado, houve diversificação dos clientes para os produtos brasileiros, ou seja, um rearranjo dos destinos da oferta que, agora, passará a competir pelo suprimento nacional com mercados tradicionais. 

A commodity café tem natureza essencialmente volátil. A espúria intervenção no mercado, afetando sua principal fonte de suprimento global, intensificou movimentos especulativos, trazendo mais imprevisibilidade à formação dos preços do produto. As cotações na Bolsa de Nova York superaram US$ 400 por libra-peso, elevando os preços no mercado interno a patamares acima de R$ 2.500 a saca. A transferência para os preços no varejo foi imediata, com drásticas repercussões sobre a demanda.

Assim, dados recentes da Conab5 indicaram que a colheita para o ano comercial 2026/27 poderá alcançar 66,19 milhões de sacas – representando um incremento de 17,1% frente à safra anterior –, distribuídas em 44,10 milhões de sacas de arábica e 22,09 milhões de sacas de conilon e robusta. Tais resultados estão alinhados às mais destacadas previsões das principais companhias exportadoras, como Stonex (70,70 milhões de sacas) e Itau BBA (69,30 milhões de sacas), para mencionar apenas duas das empresas especializadas em monitorar o andamento da safra brasileira.

Apesar do impacto que essa quantidade de café colhido venha tendo na formação internacional dos preços, o resultado mais relevante dessa campanha de previsão de safra da Conab é a expansão de área de cultivo mensurada em 4,1%. Aquilo que pode parecer pouco consiste em uma área adicional de 76 mil hectares! Considerando o patamar tecnológico em que as novas lavouras são implantadas, podemos imaginar médias de produtividade, relativamente conservadoras, em torno de 35 sacas por hectare, o que significa um adicional de 2,6 milhões de sacas ao total da safra.

Ademais, por imposição da legislação europeia, a cafeicultura brasileira já se apropriou plenamente dos mecanismos de rastreabilidade e certificação, que, aliados ao empreendedorismo característico que permeia a realidade atual da atividade agropecuária do país e, ainda, à sua incessante busca por tecnologias que mesclam produtividade com qualidade, conferem um patamar de fortalecimento à atividade, promovendo tanto a confiança internacional como a capacidade brasileira de suprir, em suas especificidades, à demanda internacional e nacional. 

Com essa expansão do plantio forma-se, no Brasil, uma espécie de buffer (colchão) contra as variações cíclicas características do mercado das commodities, sendo o café uma das que exibem esse comportamento mais intensamente. Diante das mudanças climáticas, fenômeno já constatado, é importante que se ampliem as áreas de produção no país para que as periódicas perdas registradas nos últimos anos, tanto aqui como entre concorrentes, possam ser mitigadas pela expectativa de colheita em novas áreas produtivas. 

A persistente elevação do consumo mundial de café, associada à tênue recuperação de estoques que se antecipou a partir do aumento da oferta brasileira, não trará alívio ao mercado, ainda que, momentaneamente, os preços tenham exibido fortes baixas ao longo de fevereiro de 2026. Distúrbios climáticos, decisões político-econômicas erráticas e ilegais, escalada de conflitos geopolíticos e comerciais, enfraquecimento da moeda-referência para o comércio internacional e entesouramento privado deixam o mercado em estado de permanente estresse, significando, na prática, um incremento da volatilidade para as cotações.

A revogação das tarifas decretada pela Suprema Corte estadunidense, com imediata imposição de tarifa global de 15%, poderá beneficiar as exportações brasileiras para os EUA. Sob clima de imprevisibilidade, instabilidade e desconfiança, o mercado demandará mais café, pois, diante de tantos estresses, o produto surge como o elixir capaz de descomprimir esse momento de tantas incertezas. 

E a música, que inspira o título a desta coluna, continua com a estrofe: “Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu a um segundo”.

(Artigo preparado sob inspiração de recentes análises da estudiosa Mônica de Bolle em seu canal para assinantes no Substack).

Celso Luis Rodrigues Vegro é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.


*Trecho da canção “Como Uma Onda (Nada do Que Foi Será)”, de Lulu Santos, do álbum O Último Romântico (1984).

¹ A Doutrina Monroe tinha como um dos seus preceitos base o slogan “América para os americanos”.

² Pouco após o sequestro do mandatário da Venezuela, o ordenador da ação militar na qual tombaram 100 militares daquele país insinuou que a Colômbia poderia ser o próximo país a experimentar algo similar, sob o argumento de suposto combate ao narcoterrorismo.

³ A carne, especialmente aquela empregada na produção de hambúrgueres, acompanhou o café na elevação dos preços no mercado estadunidense. 

4 Em 20 de fevereiro de 2026, os juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos finalizaram seus votos, e a maioria decidiu pela revogação da imposição de tarifas, concluindo que o presidente Trump excedeu sua autoridade ao invocar a lei de emergência econômica. Todavia, o café solúvel brasileiro ainda está no rol de produtos que permanecem sob alíquota de 50%, havendo movimentação diplomática brasileira para sua exclusão do tarifaço

5 Disponível em https://www.gov.br/conab/pt-br/atuacao/informacoes-agropecuarias/safras/safra-de-cafe/1o-levantamento-de-cafe-safra-2026/1o-levantamento-de-cafe-safra-2026. Acesso em 20/02/2026.

O fracasso da onipotência

Por Celso Vegro

O pensamento verdadeiramente liberal não pode ceder às tentações populistas que, por arbítrio, instauram desgoverno e instabilizam os mercados. Eis o posicionamento de Ronald Reagan, um liberal histórico, em discurso proferido em 1987:

“Quando alguém diz ‘vamos impor tarifas sobre importações estrangeiras’, parece que está fazendo algo patriótico, protegendo os produtos e os empregos americanos. E, às vezes, por um curto período, isso funciona — mas apenas por um tempo. O que eventualmente acontece é que as indústrias nacionais começam a depender da proteção do governo na forma de tarifas altas. Elas param de competir e deixam de fazer as mudanças inovadoras na gestão e na tecnologia de que precisam para ter sucesso nos mercados globais. Enquanto tudo isso está acontecendo, algo ainda pior ocorre: tarifas altas inevitavelmente levam à retaliação por parte de países estrangeiros e ao desencadeamento de intensas guerras comerciais. O resultado são mais e mais tarifas, barreiras comerciais cada vez mais altas e menos concorrência. Então, em pouco tempo, devido aos preços artificialmente elevados pelas tarifas — que subsidiam a ineficiência e a má gestão —, as pessoas param de comprar. E então acontece o pior: os mercados encolhem e colapsam, empresas e indústrias fecham e milhões de pessoas perdem seus empregos. A memória de tudo isso, nos anos 30, me fez determinado, quando cheguei a Washington, a poupar o povo americano da legislação protecionista que destrói a prosperidade. Agora, nem sempre tem sido fácil. Há aqueles no Congresso, assim como havia nos anos 1930, que querem buscar a vantagem política rápida, arriscando a prosperidade da América em prol de um apelo de curto prazo a algum grupo de interesse especial.”

Essa longa digressão corrobora toda a teoria econômica construída em torno do uso de tarifas para proteger a produção interna. O Brasil, no século passado, foi exímio praticante desse tipo de política, por meio do esforço de industrialização baseado na substituição de importações. Essa estratégia desenvolvimentista provocou a chamada década perdida (anos 1980 sem crescimento do PIB) e os conhecidos voos de galinha (anos 1990 e parte dos anos 2010). Ademais, tornou o país um dos mais fechados ao comércio internacional entre as nações de maior corrente de comércio.

Deve-se enaltecer a postura firme do governo brasileiro, que em nenhum momento ameaçou retaliar a escalada tarifária imposta contra o país. Nesse ponto, o mandatário brasileiro cumpriu exatamente o que Nietzsche profetizou: “O que luta com monstros deve ter cuidado para não se tornar um monstro.”

A parcimônia diplomática e o passar do tempo foram decisivos para a revogação das tarifas, parte importante da pauta exportadora brasileira aos EUA. As duas conversas entre os mandatários, seguidas pelos encontros do vice-presidente e do chanceler brasileiro com seus congêneres americanos, representam momentos cruciais na reversão do tarifaço.

Sem dúvida, o mandatário estadunidense compreendeu que comprou uma briga perdida. A pressão inflacionária no mercado doméstico corroeu sua popularidade e colocou em risco a dominância republicana sobre a política interna. 

Enquanto Marco Rubio subsidiou decisões equivocadas para Trump, Richard Grenell (enviado especial do Trump) trouxe outra análise dos fatos do Brasil para seu presidente. O comunicado oficial menciona explicitamente que a reversão do tarifaço constitui um “puxão de orelhas” do mandatário estadunidense sobre sua diplomacia (Rubio), mencionando explicitamente que a retirada do tarifaço foi conquistada pelo excelente diálogo entre as autoridades de ambos os países.

Tudo que os EUA não compraram do Brasil, outros mercados passaram a comprar – uma dança das cadeiras. Ser taxado pelos EUA permitiu ao Brasil diversificar ainda mais seus clientes internacionais e incrementar a presença brasileira no rol das nações cruciais para a estabilidade e paz mundial, algo cada vez mais decisivo na produção maior e mais sustentável de riqueza para a população.

A revogação do tarifaço para 120 itens agrega US$ 5 bilhões às exportações brasileiras. Porém, as negociações ainda durarão ao menos 90 dias para que toda a pauta comercial seja desbloqueada, e dependerá da desoneração de produtos americanos atualmente aqui taxados. 

Há uma expressão latina que diz muito sobre a forma do presidente americano governar: Ad nutum, ou seja, governar segundo a vontade, pelo arbítrio. Estado não é empresa, e a lógica da conciliação por meio da política bem praticada é o caminho para o avanço civilizatório.

Celso Luis Rodrigues Vegro é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

TEXTO Celso Luis Rodrigues Vegro

A ruína das altas cotações

Por Celso Vegro

Nas duas últimas safras de café no Brasil, observou-se cotações do café nas bolsas de mercadorias em contínua elevação, alcançando para arábica, recentemente, patamares acima de US$ 4,00 por libra-peso (em Nova York, oscilando desde então ao redor desse nível de preços. Provocada pela escassez global do produto, houve, também, ascensão dos preços do canéfora no mercado interno, que alcançaram o patamar de R$ 1.500 a saca.

Desde a safra de 2020/21, em que se contabilizou colheita ao redor das 65 milhões de sacas, a rentabilidade na atividade não se mostrava satisfatória, especialmente em decorrência dos distúrbios climáticos que intervieram no andamento da safra (granizo, altas temperaturas, veranico e geada).

Ademais, muitos cafeicultores que praticavam a gestão de risco, contratando hedge de preço –, porém, sem seguro (esse último elemento de garantia de participação do cafeicultor na alta) –, tiveram dificuldades em honrar seus contratos, seja por frustração de safra, como por interesse em se beneficiar dos altos preços que passaram a vigorar após a geada de 2021.

Nesse contexto inicia-se um agravamento da arquitetura financeira desenvolvida, visando pleno funcionamento desse mercado (compartilhamento do risco). Surge um trade-off para os exportadores comprometidos com entregas futuras aos seus clientes, que, devidamente travados tanto na cotação do café como no risco cambial, não apenas ficaram sem o produto, como também, foram ainda demandados pelas corretoras a aportar margem aos contratos não quitados.

As altas cotações também criaram outro comportamento oportunístico. Contratos de compras futuras realizadas por exportadores são quitados com produto de bebida inferior e/ou maior número de defeitos, comparativamente ao previamente estabelecido (adquiriu Fine Cups ou Good Cups e recebeu Rio Minas ou, ainda, contratou com 10% de cata e recebeu produto com o dobro disso). Tal comportamento implica a necessidade de aquisição no mercado spot (que está invertido), exigindo do exportador um desencaixe adicional de recursos para cumprir com seus embarques.

Sim, houve má gestão de poucas empresas exportadoras na condução de seus negócios (construção de pirâmides), mas a maior parte delas encontra-se sob fluxo tenso, ou seja, entre a necessidade de cumprir as entregas internacionais e a insegurança quanto ao recebimento do produto, nos preços e qualidades ajustados entre as partes. Situação agravada pelo encolhimento da oferta de crédito por parte do sistema financeiro, destinado às empresas exportadoras, devido aos riscos atualmente por elas carregados.

O desmonte da arquitetura financeira de gestão do risco da comercialização do café trará desafios econômicos para os cafeicultores. A perda de liquidez por aversão dos investidores a esse mercado torna mais instáveis as cotações (aumento da volatilidade) e os fenômenos incompreensíveis, como preço do físico acima das cotações futuras (inversão mencionada). Sem essa estrutura financeira operando, reduzem-se os horizontes econômicos para o planejamento da atividade.

Bons preços favorecem a expansão da cafeicultura do mundo todo. No Brasil, viveiristas contabilizam como principal destino das mudas os novos plantios frente a talhões em processo de renovação. Ademais, os bons resultados econômicos obtidos permitiram a expansão das tecnologias aportadas às lavouras, como irrigação, nutrição e sanidade de alta eficiência agronômica e podas de condução – que, em conjunto ou isoladamente, prepararão a cultura para incrementar a oferta de curto prazo do produto. Ou seja, o contexto atual prepara o seu oposto, representado pelo inevitável ciclo de baixa.

Tanto o governo capixaba como o rondoniense aceleram seus programas de expansão do plantio de canéfora (conilon e robusta). Em São Paulo, há imenso esforço público, que se soma ao privado, pela expansão da oferta local de robusta. Há estimativas consistentes de que, na próxima década, o Brasil passe a deter também o título de maior produtor de canéfora do mundo, ultrapassando as 30 milhões de sacas vietnamitas.

Ainda que a procura pela bebida seja incrementada por taxas superiores e possibilidades e capacidades de ampliação da oferta (considerando que os distúrbios climáticos já estejam afetando a potencialidade das lavouras), tal ritmo de expansão do cultivo empurrará as cotações para baixo – ainda mais, com a força adicional do segmento canéfora.

Uma marca consolidada dos mercados de commodities está em seu regime cíclico de preços. Sendo uma cultura perene, a lavoura cafeeira exige entre três e quatro anos para que se obtenham colheitas significativas e, considerando o prazo de produção tanto da obtenção das sementes como da formação das mudas, esse ciclo ainda pode contabilizar ondas de cinco a sete anos entre os picos de preços e seu acentuado declínio.

Tanto exportadores como cafeicultores terão que reposicionar suas estratégias e seu planejamento comercial. No primeiro caso, buscar por mecanismos de garantia de suprimento futuro por meio de contratos e por outros mecanismos de aproximação com os cafeicultores. Para o segundo grupo, somente melhorar a qualidade e a produtividade das lavouras para incrementar a competitividade do produto. Felizmente, a cafeicultura brasileira tem sido capaz de dar mostras de que, com tecnologias agronômicas e aplicação de protocolos de sustentabilidade, alcançará patamares produtivos ainda mais robustos.

Como limitação dessa análise, deve-se alertar que a construção de cenários plausíveis a partir das tendências pregressas ficou seriamente comprometida após o surgimento da pandemia de covid-19. Muitos indicadores perderam aderência ao funcionamento real das estruturas socioeconômicas, dificultando muito as possibilidades de projetar o futuro desse ou de qualquer outro mercado.

TEXTO Celso Luis Rodrigues Vegro é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

O rei está nu

Por Celso Vegro

Em 1957, os economistas J. H. Davis e R. Goldberg, ao reconhecerem a estrita interdependência dos segmentos mobilizados para atender os sistemas de produção na agropecuária, cunharam o conceito de agribusiness, dividindo-o em quatro agregados (insumos, produção agropecuária, processamento e distribuição).

O conceito ganhou força no Brasil a partir da liderança do engenheiro agrônomo Ney Bittencourt, então diretor-presidente da Agoceres (sementes, nutrição animal e genética), ao criar a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag). Com a ampla adoção desse conceito, superou-se a repartição econômica clássica entre setores primário, secundário e terciário. Consolida-se, então, a percepção de que os sistemas de produção de alimentos, bebidas, fibras e energia compõem a matriz econômica brasileira enquanto um sistema produtivo integrado (contratualmente ou não), criando-se a partir dessa perspectiva novas estimativas sobre sua participação na criação de riquezas no país.

Fluxograma da cadeia produtiva do café. Fonte: SESSO, et al (2021)1.

Os quatro componentes que formam esse agronegócio comportam distintos atores econômicos com interesses que lhes são próprios, inclusive mutuamente contraditórios. Os segmentos a montante compostos por produtores de sementes/mudas, fabricantes de fertilizantes, combustíveis, defensivos, montadoras de máquinas e equipamentos e serviços financeiros possuem estrutura de mercado em que prevalece a concentração e a centralização do capital (oligopolização), ou seja, capacidade potencial de formar seus preços, ainda que possam, em períodos ocasionais, atuar competitivamente.

Adentrando a porteira, encontramos os responsáveis pela oferta física do produto: os cafeicultores. Trata-se do grupo mais numeroso de agentes econômicos dessa cadeia, contabilizando centenas de milhares de estabelecimentos rurais dedicados à lavoura. A conversão de todos os insumos mencionados em café – após o pagamento dos salários dos trabalhadores envolvidos na atividade e a amortização do crédito concedido – aporta à matriz econômica brasileira incremento líquido na renda nacional de, aproximadamente, R$ 15 bilhões (50% do total apurado pelo segmento)2.

A torrefação, a moagem e a solubilização, a exportação e a distribuição/consumo encerram o fluxo do produto dessa cadeia produtiva. Grandes agentes econômicos atuam neste capítulo, tendo destaque as cooperativas de produção de café, que oferecem equalização das margens praticadas pelo mercado e, ainda, garantem a adoção de padrões de sustentabilidade, qualidade e governança para todo o segmento.

Esse panorama demonstra a relevância do agronegócio café na composição do PIB brasileiro (aproximadamente 0,34% do PIB). Sua importância está em franca evolução diante do avanço da produção de conilon e robustas, encaminhando o Brasil, em futuro próximo, para o posto de maior produtor mundial também desta espécie.

Em agosto de 2025 foi empregada tarifa de 50% sobre as importações de café do Brasil para o mercado estadunidense, criando verdadeiro embargo às exportações para aquele país3. Em ato contínuo, a National Coffee Association (NCA)4, visando reverter a decisão governamental dos Estados Unidos em taxar o café brasileiro, divulgou estudo contabilizando que o mercado doméstico de café no país gira, anualmente, US$ 350 bilhões! Mais especificamente, para cada dólar de importação de café, ocorre efeito multiplicador na economia do país que alcança US$ 435.

Embora a metodologia de matriz insumo-produto empregada para o caso brasileiro e aquela utilizada pela NCA para a apuração do tamanho do mercado de café estadunidense não sejam comparáveis, a dimensão dos valores contabilizados em ambos os casos é chocante. A entidade norte-americana mensurou que o segmento contribui em 1,2% do PIB do país.

Por sua vez, representantes do segmento do café brasileiro, incumbidos de sensibilizar a autoridade comercial estadunidense no sentido de rever a taxa aplicada ao nosso café, sentiram-se prestigiados em seu esforço pela abertura de canais de negociação a partir da divulgação do estudo da NCA, e nele ancoraram suas expectativas de desfecho favorável ao segmento. Ainda que louvável, esse posicionamento deveria instar uma profunda indignação com essa desproporcionalidade que pauta a relação comercial entre os agentes econômicos das contrapartes do hemisfério americano6.

O café, que recebeu valor de US$ 1 (ou R$ 5,33, ao câmbio de 3/10/2025) após todo o trâmite – logístico, de recolhimento de impostos e de retenção de margem do exportador (ou seja, posto FOB porto) –, salta para US$ 43 (ou R$ 229,20) em seus múltiplos desdobramentos no mercado estadunidense.

Essa repartição absolutamente espúria do valor adicionado nessa cadeia precisa ser restabelecida em patamares menos escorchantes aos países produtores. Nesse contexto, é legítimo perguntar: qual a possibilidade de alcance dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODSs) 1 e 2 (respectivamente, erradicação da pobreza e fome zero) entre os 17 estabelecidos pela Agenda 2030 das Nações Unidas?

Recentemente (24/09/2025), um evento promovido pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF), com apoio do Fórum Mundial de Produtores de Café (FMPC) e pautado pelo desenho de estratégias visando a prosperidade dos cafeicultores e o alcance das ODSs, ofereceu palestra do renomado Nobel de Economia Jeffrey Sachs,7 da Columbia University. Sua preleção centrou-se na argumentação de que, ainda que o café seja uma commodity vital para o mundo, muitas comunidades ainda padecem tanto por situação de pobreza multidimensional (econômica, de serviços sociais, discriminação de gênero etc.) quanto de ações/ferramentas para o uso sustentável da terra, uso este capaz de mitigar as mudanças climáticas/aquecimento global e promover a redução das desigualdades.

Não se trata, aqui, de divergir de tão eminente autoridade acadêmica, porém, é preciso despir-se da desfaçatez para uma correta interpretação da realidade e trilhar caminho civilizatório comum. Caso fosse obtida uma melhor partição do valor nessa cadeia – por exemplo, passando de US$ 1:US$ 43 para US$ 1,50:US$ 42,50, o impacto na redução da pobreza e a geração de prosperidade/sustentabilidade nos cinturões cafeeiros do mundo seria muitas vezes superior aos US$ 10 bilhões pleiteados pelo laureado Nobel para consolidar uma cafeicultura mais sustentável e mais próspera.

Essa concentração da riqueza na terça parte da cadeia produtiva demonstrada pela NCA não deve divergir em nada daquela capturada por outros mercados, como Canadá, Japão, Coreia do Sul e União Europeia. O desenvolvimento dos países produtores de café não será alcançado sem que as commodities produzidas (o café entre outras tantas) obtenham patamares menos injustos de remuneração. Todavia, ao não se vislumbrar esse cenário a longo prazo (pelos próximos cinco anos), resta concordar com os economistas latino-americanos, que, na década de 1950, formularam a teoria da dependência, em que o rompimento da relação desigual entre o Norte e o Sul só se daria por meio da industrialização acelerada.

Aderente a esse contexto está a fábula do rei nu. A produção do relatório da NCA trouxe um fato que nossos próceres da inteligência do agronegócio café evitavam, a todo custo, iluminar. Tomados pela vaidade por serem nascidos em berço esplêndido, são, de fato, cúmplices dessa construção de um mercado desigual, em que os perdedores são invariavelmente os cafeicultores e os países que buscam, na cafeicultura, trilhar seu caminho de desenvolvimento.


1 Sesso, P.P., Sesso Filho, U. & Pereira, L.F.P. “Dimensionamento do agronegócio do café no Brasil”. Cadernos de Ciência & Tecnologia. Embrapa, 38, 2, e26901, 2021.
2 Idem.
3 Ver a esse respeito:  https://www.cafepoint.com.br/colunas/cenas-e-fatos-do-agro/resposta-ao-embargo-239026/
4 A National Coffee Association (NCA), fundada em 1911, é a maior e mais antiga organização comercial dos Estados Unidos, representando empresas de café de todos os tipos e tamanhos, incluindo produtores, torrefadores, marcas e outras empresas responsáveis por 90% do comércio de café nos EUA. Adultos americanos bebem café diariamente mais do que qualquer outra bebida (além de água engarrafada), e o café sustenta 2,2 milhões de empregos no país – operando em todos os estados e territórios e contribuindo com quase US$ 350 bilhões para a economia americana todos os anos. Fonte: https://www.ncausa.org/Newsroom/Grounds-for-celebration-Americans-remain-committed-to-coffee  Acesso em 3/10/2025.
5 Traço marcante da construção social brasileira consiste na cultura da subserviência ou, como melhor formulou Nelson Rodrigues, a famosa “síndrome de vira-latas”. Tal mentalidade não se desvincula nem de nossos melhores quadros técnicos e empresariais no trato com os congêneres do norte desenvolvido.
6 Disponível em: https://www.usatoday.com/story/money/2025/04/10/coffee-tariffs-expensive/83029424007/  e https://www.caf.com/pt/presente/eventos/online-prosperidade-para-os-produtores-de-cafe-por-meio-de-planos-nacionais-para-a-sustentabilidade-do-cafe-com-base-nos-ods/ Acesso em 3/10/2025.
7 O economista liderou, em 2019, estudo sobre a problemática da economia cafeeira mundial em que, dentre diversas ações, propunha a criação de um Fundo Mundial do Café com US$ 10 bilhões em depósitos para implementação de um Plano Nacional de Sustentabilidade do Café. Ver: https://scholarship.law.columbia.edu/sustainable_investment_staffpubs/53. Acesso em 3/10/2025.

TEXTO Celso Luis Rodrigues Vegro é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

Marketing pro bono

Por Celso Vegro

Para qualquer agente econômico envolvido no agronegócio café, ao ponderar sobre possíveis estratégias de marketing, a imagem que chega imediatamente à mente é a do mítico personagem Juan Valdez, o exemplo de maior êxito global em favor da excelência do café colombiano. Criado no final dos anos 1950, a imagem do cafeicultor com sua mula (ou burro) tornou-se emblemática para todos os apreciadores da bebida ao redor do mundo. Ademais, por envolver também os demais agentes da cadeia produtiva, consolidou uma identidade do segmento cafeeiro colombiano em seu conjunto.

A estratégia de divulgação da excelência do café colombiano por meio desse personagem tem sido um exemplo estudado pelas agências de marketing e pelos cursos de formação de novos publicitários. Evidentemente, esse êxito somente foi obtido por meio de grande investimento financeiro por parte da Federação Nacional de Cafeicultores de Colômbia (FNC). Desde 2002, o empreendimento é conduzido pela Promotora de Café Colômbia S.A. (Procafecol S.A.), empresa controladora da marca e das franquias e da distribuição varejista de cafés com a marca Juan Valdez.

Segundo o informe de gestão1 publicado pela controladora, existem aproximadamente 103 mil estabelecimentos que oferecem café colombiano em 38 países. Destes, 584 são cafeterias (216 delas em outros países), com equipe composta por 2.762 colaboradores. Em 2023, o faturamento bruto da empresa foi de R$ 286,08 milhões2, representando avanço de 23,5% frente ao ano anterior. Apesar desse expressivo resultado, houve prejuízo operacional de R$13,09 milhões3! De qualquer modo, sem dúvida, ele continua sendo um tremendo exemplo para o caso brasileiro que, ainda, engatinha quando o assunto é o “marketing dos Cafés do Brasil”.

O resultado não poderia ser diferente. Diante dos mais de 60 anos de emprego da marca Juan Valdez na comercialização do café colombiano no mundo, o Brasil constatou que seu reconhecido papel em suprir com o produto a demanda global foi, paulatinamente, substituído em favor de um de seus principais concorrentes.

Todavia, alcançamos o segundo semestre de 2025 com anúncio que sobressaltou o agronegócio Cafés do Brasil. Unilateralmente, o governo estadunidense adicionou ao café brasileiro 40% de tarifa adicional, que se somaram aos 10% anteriormente estipulados. Sendo o Brasil o principal fornecedor de café naquele mercado, tal medida promove uma desorganização dos negócios.

De imediato, os apreciadores locais, ao recorrerem a novas aquisições de café, perceberam elevação dos preços de varejo do produto. Deve-se considerar que processos inflacionários não consistem em aprendizado dos americanos e, por essa razão, há um choque maior quando se constatam variações substantiva de preços.

Apesar do impacto imediato sobre os embarques brasileiros destinados aos EUA (queda de 17,5% em agosto)4, houve crescimento nas vendas para a Colômbia5, entre outros destinos menos usuais para o café brasileiro. Esse movimento de incremento de embarques para destinos não tradicionais deverá se intensificar, sobretudo para o México e o Canadá. Também o Uruguai é forte candidato a aumentar as importações de café brasileiro.

Diante disso, a população estadunidense percebeu que o que garante seu hábito de consumo a preço justo é o café brasileiro, que, por razões de interesses políticos e não comerciais, foi prejudicado em sua competitividade pela imposição dos 50% de taxa aduaneira.

Ocorre então uma significativa redescoberta entre os consumidores daquele país: o café vem do Brasil!!! Sem qualquer investimento da parte de nossas lideranças, com ou sem a parceria com o governo (Funcafé), o agronegócio Cafés do Brasil foi contemplado no mercado estadunidense com um marketing pro bono6.

A evidência decantada de que aquela bebida que acompanha os apreciadores todos os dias tem origem brasileira traz ganhos para o agronegócio Cafés do Brasil. Estando o país em grande evidência, os consumidores enfrentam restrições ao acesso da bebida (por escassez de suprimento) devido a razões que não decorrem de fatores econômicos. Tal cenário coloca a população americana contra seu governo e, em contrapartida, reúne mais e mais simpatizantes para com a democracia brasileira e sua pujante produção de café.

O momento é propício para que nossas lideranças intensifiquem campanhas para estímulo à procura dos Cafés do Brasil. A onda é favorável, e com um tostão em recursos seria possível conseguir firmar a origem brasileira como central na manutenção desse hábito de consumo tão caro ao povo americano. Mangas arregaçadas e trabalhemos o marketing pro bono dos Cafés do Brasil!

1 Disponível em: https://juanvaldez.com/wp-content/uploads/2024/12/Procafecol_-_Informe_Integrado_2023.pdf   (Acesso em 10/09/2025).

2 Para conversão dos valores foi empregada a paridade cambial de 1.000 pesos colombianos = 1,39 reais brasileiros.

3 Em 2022, o resultado líquido operacional foi de R$19,50 milhões.

4 Ver:  https://www.moneytimes.com.br/volume-exportado-de-cafe-despenca-em-agosto-mas-receita-sobe-com-precos-altos-eua-perdem-lideranca-fets/ (Acesso em 10/09/2025)

5 Disponível em: https://agfeed.com.br/economia/por-que-a-colombia-comprou-quase-6-vezes-mais-cafe-do-brasil/ (Acesso em 10/09/2025)

6 A expressão vem do latim pro bono publico, que significa “para o bem público”.

TEXTO Celso Luis Rodrigues Vegro é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.