Coluna Café por Convidado Especial

Do campo à xícara, profissionais convidados refletem sobre o setor

Reposicionando o café canéfora (conilon e robusta) no mercado

Conforme afirmado em artigo anterior – Cresce a Produção e o Consumo de Robusta no Mundo –, a melhoria da qualidade do café Robusta é uma forma segura de reter os mercados conquistados durante a pandemia e abrir outros. O artigo acrescentou que existem muitas maneiras de melhorar a qualidade do café Robusta, mas talvez a mais rápida seja por meio do processamento pós-colheita.

O Instituto de Qualidade do Café/Coffee Quality Institute (CQI) realizou um Workshop em junho passado na Fazenda Kaweri, em Uganda, como parte final do desenvolvimento de seu Curso de Processamento 2 Robusta (Q Processing 2 Robusta). Participaram especialistas em processamento de café, instrutores e provadores de 10 países diferentes e com experiência em café em mais de 40 países. Os principais países produtores de Robusta estavam representados: Vietnã, Brasil, Indonésia e Uganda. Os participantes brasileiros foram o produtor capixaba Lucas Venturim e eu, como membro do conselho do CQI. O grupo se reuniu por uma semana sob a liderança da Gerente do Programa de Processamento Pós-Colheita do CQI para discutir e melhorar os materiais do curso. Slides, vídeos, informações técnicas e orientação para instrutores dos módulos que comporão o novo Curso CQI Q Processing 2 Robusta estão sendo agora finalizados.

O Workshop também incluiu visitas às instalações de processamento de café da fazenda, testes de processamento com amostras e sessões de prova de cafés Robusta processados ​​por diferentes métodos: natural, cereja descascado/honey e lavado, fermentado ou não, com ou sem leveduras ou outros produtos. Cafés dos testes, bem como amostras de micro, pequenos e grandes lotes de origens tão diversas, como Brasil, Vietnã e a fazenda anfitriã em Uganda, foram provados e pontuados entre 80 e 89 pontos, o que mostra que ainda há muito a ser desmistificado sobre a qualidade dos cafés Robusta devidamente processados.

Simultaneamente ao Workshop em Uganda, ocorreu o 1º Encontro Brasileiro de Degustadores de Café na região de Rondônia, onde se produz os Robustas Amazônicos. O evento, provavelmente a primeira iniciativa deste porte no mundo, reuniu 130 degustadores brasileiros e estrangeiros que provaram Robustas não só de Rondônia, mas também do Espírito Santo e da Bahia, além de Arábicas de várias regiões brasileiras. Um dos destaques do evento foi a degustação dos cafés Robustas que, segundo especialistas de renome internacional, como Silvio Leite e Edgard Bressani, são cafés diferenciados, excepcionais, com muita personalidade e que são a grande novidade para o mercado, cuja mentalidade deve mudar quanto aos cafés Robusta. Os provadores da nossa exportadora de cafés especiais Qualicafex degustaram alguns dos melhores cafés do Workshop do CQI, inclusive os brasileiros, e, como disse Thais Staut, endossamos as palavras dos companheiros e especialistas acima e acrescentamos que precisamos estabelecer um novo paradigma de qualidade para os cafés Robusta.

Outra atividade liderada pelo CQI para posicionar os cafés Robusta como um produto de qualidade foi a sessão de provas/desgustação realizada no World of Coffee da Specialty Coffee Association, em Milão, no final de junho passado. Mais de 50 pessoas participaram da sessão que incluiu amostras brasileiras, asiáticas e africanas que novamente surpreenderam e impressionaram pela alta qualidade e pontuação dos cafés. Foi comentado que a prova/degustação foi o ponto de partida para a venda de cafés Robusta de alta qualidade com prêmios substanciais de preço.

O processamento pós-colheita é uma maneira importante de enfatizar as principais características de qualidade dos cafés Robusta. O desafio é identificar os sistemas de processamento que melhor se adaptam ao “terroir” e utilizá-los de forma consistente para permitir que qualidades semelhantes sejam obtidas ano após ano, com a variação de pontuação esperada para um produto cuja produção e qualidade dependem do clima.

Há espaço no mercado para micro e pequenos lotes de cafés Robustas especiais de origem única, alta qualidade e alta pontuação, que estão quebrando paradigmas estabelecidos. Há também muito espaço para volumes maiores de cafés Robusta de qualidade diferenciada que podem ocupar espaço adicional em blends já conhecidos dos consumidores de café, desde cápsulas de dose única e “blends” de café da manhã em cafeterias, até marcas tradicionais de café torrado e moído e solúvel oferecidas no varejo. Há muito espaço disponível no mercado para cafés Robustas produzidos e processados ​​adequadamente, com benefícios para todos na cadeia de fornecimento, dos produtores aos consumidores.

Essa revolução da qualidade do Robusta, que começou discretamente na Índia há muitos anos, está ganhando força e se espalhando para outros países produtores de café Robusta. A ideia original para melhorar a qualidade foi despolpar os cafés Robustas; recentemente foram incluídos processos de inoculação e fermentação que também podem alterar a qualidade dos Robustas naturais. O mercado está longe de estar saturado para esses novos produtos que provavelmente sustentarão a continuidade do crescimento histórico da participação dos Robustas na produção mundial de café.

*Neste artigo, originalmente publicado em inglês e expandido nesta versão em português, a palavra Robusta se refere tanto ao Conilon quanto ao Robusta propriamente dito, conforme usado pela Organização Internacional do café (OIC).

TEXTO Carlos Henrique Jorge Brando

Deixe seu comentário