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Concurso de embalagens Espresso Design abre inscrições

Estão abertas as inscrições para a 7ª edição da Espresso Design, concurso que premia as melhores embalagens de café disponíveis no mercado. As marcas interessadas em participar podem enviar seus pacotes até 3 de outubro. Acesse aqui o link de inscrição e o regulamento.

O concurso tem o objetivo de fortalecer o setor e destacar a importância do design e da embalagem para promoção de marcas e produtos. A comissão julgadora avalia cada embalagem/coleção considerando os seguintes quesitos: visual/identidade, eficiência, conceito, originalidade e criatividade.

As vinte embalagens mais bem pontuadas ficam expostas nos dois primeiros dias da Semana Internacional do Café (5 e 6 de novembro), para que o público da feira possa votar em sua favorita. As três com mais votos ganham troféus no último dia do evento (7 de novembro), em cerimônia de premiação no Grande Auditório.

TEXTO Redação

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Chás invadem cafeterias

Estabelecimentos brasileiros apostam em chás de origem e blends artesanais para criar experiências sensoriais e conquistar um novo público exigente

Foto: Studio Oz

Por Gabriela Kaneto

O café sempre foi protagonista no paladar dos brasileiros. Mas, nos últimos anos, cafeterias de qualidade têm visto mudanças nos pedidos dos clientes – e o café, que antes reinava absoluto, começa a dividir espaço com uma bebida milenar, que atravessou oceanos para chegar até aqui: o chá.

Variedades como verde, branco e preto, matcha (chá verde em pó) e blends artesanais aparecem cada vez mais nos cardápios – não como substitutos, mas como complementos ao café de qualidade – e despertam o interesse de um consumidor exigente, que busca por novas experiências sensoriais. “De uns tempos pra cá, tenho percebido que alguns clientes, que antes consumiam apenas café, estão começando a se interessar também pelo chá”, conta Rafaela Nascimento, barista e sócia do Coffee Five, no Rio de Janeiro (RJ).

Com uma década de experiência como instrutora, Rafaela começou a servir chá ao público em 2018, mas foi apenas após a pandemia que decidiu educar os consumidores sobre as diversas formas de consumo. “O que me motivou, e ainda motiva, é que o chá tem tudo a ver com o ambiente de café”, explica a barista. Para ela, as técnicas e as características sensoriais dos chás podem ser exploradas da mesma forma que no café. “Foi então que montei um cardápio com a aprovação da Yuri Hayashi e criamos o ‘tea café’, um cardápio de chás onde explico um pouco sobre este universo tão grandioso”, diz ela, referindo-se à sua mestra e fundadora da escola de chá Embahu, em São Bento do Sapucaí, no interior paulista.

Desde então, o menu do Coffee Five tem chás de diferentes origens (China, Japão e Brasil) e tipos (branco, amarelo, verde e preto), criações com ervas e especiarias e blends. “Acho mágico mostrar às pessoas o quanto essa bebida é rica”, anima-se a barista, que selecionou opções a partir de viagens que fez e de acordo com a época de colheita do produto.

Chá servido no Coffee Five, no Rio de Janeiro – Foto: Divulgação

Segundo dados da Euromonitor, entre 2019 e 2023, o mercado global de chás cresceu 43%, chegando a movimentar R$ 1,5 bilhão ao ano. “O interesse por chás vem crescendo consideravelmente, especialmente nos últimos cinco anos, com um impulso ainda maior durante a pandemia”, analisa Benício Coura, especialista em chás e CEO da Chá Dō, e-commerce que fornece o produto para para pessoas e cafeterias. “A busca por hábitos mais saudáveis foi um dos principais motores dessa mudança”, acredita ele. Outro motivo, continua, é a busca por experiências sensoriais diversas. Atualmente, a oferta de chás da Chá Dō passeia por vários países, como Japão, China, África do Sul, Sri Lanka, Alemanha e Brasil.

Para Coura, há hoje em dia mais espaços que destacam a bebida, como casas especializadas, cafeterias, que a incluíram no cardápio, e restaurantes, que passaram a valorizar harmonizações com o produto.

“O mercado de chás no Brasil vem crescendo a cada ano”, concorda Hesli Carvalho, proprietário da cafeteria HM Food Café, que serve a bebida em suas duas unidades paulistanas, nos bairros de Pinheiros e República. “Quando eu era mais jovem, passava boa parte do tempo no sítio dos meus avós, em Minas Gerais. Era bem frio à noite e sempre tínhamos uma bebida quente à mão, ora um leite com açúcar queimado, ora um chá”, lembra. Com o tempo, o hábito virou paixão, e o empresário aprofundou-se cada vez mais no assunto. “Me formei sommelier de chás pela Academia Brasileira de Chá e Mate, da Carla Saueressig, uma das pioneiras no Brasil”, comemora.

Chás servidos no HM Food Café, em São Paulo – Foto: Divulgação

E por que não apresentar esse outro universo aos clientes? “Quando abrimos o café, tinha certeza de que trabalharia com chás e infusões”, diz Carvalho. Hoje, o menu oferece chá verde japonês e chinês, oolong chinês e chá preto do Sri Lanka, além de blends com rooibos (infusão feita com a planta rooibos, popular na África do Sul) e drinques. “Temos uma carta de chás de primavera/verão que atualizamos para o outono/inverno”, comenta ele, destacando drinques como o mocktail (não alcoólico) de rooibos com limão e água com gás e o matcha com leite vegetal e calda de morango, sucessos na casa.

A escolha dos itens contempla o que há disponível no mercado (que, por sua vez, depende da colheita), e o que a cafeteria quer oferecer. “Temos mais de 13 bebidas entre chás e infusões, e isso é motivo de orgulho para nós”, conta Carvalho.

Outra cafeteria que aderiu à tendência é a 002 Café, em Brasília (DF). “O chá sempre esteve no nosso radar como bebida que faz parte da pausa na rotina”, conta Laís de Queiroz, barista, gerente de marketing e co-fundadora da casa. A cafeteria, inclusive, foi originalmente batizada como 002 Café e Chás Especiais. Com o tempo e para tornar o nome mais curto, retirou a menção aos chás, mas os manteve no cardápio. “Nossa ideia é colocar chás e cafés em pé de igualdade. O chá, como bebida, também pode ser estimulante e intrigante”, acredita ela, que oferece um leque de opções que varia entre matchas, blends com chá preto e com genmaicha (chá verde japonês feito com arroz tostado), e puros de oolong e puehr (fermentado), ambos de origem chinesa. “Nossos clientes de chá são diferentes dos clientes de cafés, mas, em sua maioria, também são tão exigentes quanto”, comenta Laís, referindo-se ao nível de conhecimento de seu público com relação aos chás.

Assim, diz Laís, o processo de escolha precisa ser cuidadoso, como acontece com os grãos. “Pensamos no sensorial ou nas opções que combinam mais com as estações. Temos fornecedores tanto para desenhar os blends quanto para selecionar os puros, mas sempre buscamos ter chás de vários lugares do Brasil e do mundo”, explica.

Chá oferecido na cafeteria 002 Café, em Brasília – Foto: Divulgação

Na capital mineira, o Elisa Café oferece opções de chás desde a inauguração, em 2021. “Queremos que as pessoas que ainda não consomem café de especialidade também sejam acolhidas em nossa cafeteria”, explica Ana Elisa Saldanha Alves, CEO e proprietária da cafeteria. A carta atual disponibiliza chás branco, verde e preto, cultivados na China, além de bebidas quentes e geladas com matcha – que, segundo Ana, fazem sucesso entre o público jovem. “O brasileiro tem a cultura do café no dia a dia, em vários momentos. Porém, o matcha vem se desenvolvendo bastante entre o público jovem”, acredita.

A onda verde

Para Laís e Rafaela, o crescimento da oferta de chás em cafeterias começou com o matcha. “A procura por ele só aumenta”, observa Rafaela. “Bebidas com matcha e o próprio matcha ganharam mais espaço nos últimos anos”, reforça Laís. O pó fino, feito com as folhas da Camellia sinensis, caiu recentemente no gosto do público em vários países. Basta olhar o cardápio de qualquer cafeteria de qualidade para achá-lo em versões quentes ou geladas, com leite ou como ingrediente em cookies, bolos e drinques.

A versatilidade do matcha é uma das razões para o aumento acelerado de seu consumo. “O fato de ser pó quer dizer que você pode utilizá-lo na gastronomia, nos ingredientes secos, como farinhas, e nos líquidos”, esclarece Alvaro Dominguez, fundador e diretor da Namu Matcha, marca brasileira dedicada exclusivamente ao produto.

A influência das redes sociais e o crescimento da busca por alternativas funcionais também impulsionam o consumo do matcha. “A cada ano a demanda praticamente triplica”, comenta Dominguez. O matcha tem teor maior de antioxidantes e de cafeína se comparado aos chás infusionados, o que o torna atrativo para quem procura aumentar o foco e ganhar energia de forma natural. “Por ter a folha moída, o matcha tem uma quantidade de antioxidantes ainda maior. Você não está fazendo uma infusão, está basicamente consumindo a folha inteira”, explica ele.

Linha de matchas da Namu Matcha – Foto: Agência Ophelia

Por outro lado, o efeito da cafeína no matcha e nos chás é diferente do obtido quando se toma uma xícara de café. Isso porque as folhas da Camellia sinensis tem, ainda, L-teanina, um aminoácido não essencial que ocorre quase exclusivamente nelas. Estudos científicos recentes sugerem que a L-teanina e a cafeína, quando consumidas juntas, podem ter efeitos sinérgicos na melhora de atenção, foco e desempenho cognitivo, com a L-teanina atenuando os efeitos colaterais estimulantes da cafeína.

Antes de virar tendência no Brasil, o matcha já fazia sucesso na América do Norte e na Europa. De olho neste movimento, o empresário brasileiro Bruno Prieto decidiu atravessar o oceano para explorar esse mercado. “Durante minha viagem pela Europa, percebi que o matcha está inserido na rotina das pessoas, especialmente em cidades com uma cena de cafés mais sofisticada. O consumo não se limita a uma moda passageira, mas vem acompanhado de uma valorização da origem, do tipo de cultivo e da variedade”, diz Prieto.

Em janeiro, Prieto fundou a Kyubu Matcha em Lisboa, marca dedicada ao matcha orgânico japonês. “Portugal tem se mostrado muito receptivo a novas experiências ligadas ao bem-estar, à estética e à alimentação consciente”, analisa o empresário. “Existe uma abertura para produtos que carregam história e sofisticação, o que se alinha com a proposta do matcha cerimonial japonês”, acredita. Para Prieto, a vizinha Espanha já tem marcas e espaços voltados exclusivamente para a venda de bebidas e comidas com o produto. “Daí se vê o grande potencial para isso acontecer também em Portugal”, projeta ele, que apresentou a Kyubu aos brasileiros em junho, durante o São Paulo Coffee Festival.

De acordo com Prieto, o público europeu é mais maduro do que o brasileiro para o consumo de chás. “O mercado europeu trata o chá como uma bebida com identidade própria. Há mais educação, mais opções de preparo e um entendimento maior sobre a diversidade de chás e infusões disponíveis”, explica ele. “Os consumidores estão mais acostumados a pagar por qualidade, entender as origens e explorar novos sabores. E o matcha pode servir como uma ponte para uma cultura mais ampla de chás”, acredita.

Um futuro com mais chá na xícara

Seja pelas características sensoriais, pelos benefícios à saúde ou pela curiosidade por novas experiências, o chá vem conquistando espaço nas cafeterias brasileiras. “Assim como o café evoluiu de uma bebida genérica para um universo de microlotes e perfis sensoriais, o chá pode seguir o mesmo caminho”, afirma Prieto. Ele acredita que, para expandir o mercado, é fundamental investir em comunicação e em experiências bem construídas. “Assim, outras variedades de chá também podem ganhar espaço, principalmente entre um público mais jovem e atento às tendências”.

Rafaela também acha que a educação tem um papel importante, dentro e fora do balcão. “Um dos maiores desafios é encontrar mão de obra qualificada, tanto para explicar bem o produto para o cliente quanto para saber escolher chás realmente bons para servir”, explica. Por outro lado, ela comemora a aproximação das marcas de chás do universo do café. “Até na Semana Internacional do Café [evento de café que acontece anualmente em Belo Horizonte] já vemos estandes de chás, algo que não existia antes da pandemia”, lembra. Para Ana Elisa, os chás são uma oportunidade de negócio, mas, sem conhecimento e treinamento dos colaboradores, não há vendas. “Há oportunidades, desde que a cafeteria se especialize no assunto e crie a rede de educação para levar conhecimento ao consumidor”, pondera.

Carvalho concorda que a falta de conhecimento de empreendedores e baristas é uma barreira a ser ultrapassada para a popularização dos chás nas cafeterias. “O processo operacional é idêntico ao do café: água, temperatura e peso. Não muda nada”, comenta. Para ele, apesar de tímida no Brasil, a tendência veio para ficar. “O futuro já é agora. Pensar em uma cafeteria de especialidade sem pelo menos um bom chá já está no passado”, opina. “Seja do ponto de vista econômico, diferencial de mercado ou de qualidade. Afinal, o mesmo cuidado com o café deveria se refletir em todos os aspectos da cafeteria, não é?”, provoca.

Chás servidos no HM Food Café, em São Paulo – Foto: Divulgação

É por isso que Dominguez investe, também, em workshops e treinamentos sobre o produto, além de participar de bate-papos em eventos de gastronomia. “Com essa educação que nós e outros empreendedores de chás oferecemos para os estabelecimentos de alimentos, está se criando uma categoria de chás nos cardápios, e o dono da cafeteria, o head barista e o público passam a entender o valor de tomar um chá bem feito”, comenta. “Acredito que a perspectiva é positiva não só para o matcha, mas para os chás em geral. Se todo mundo fizer seu trabalho direitinho e educar seus clientes, será algo facilmente integrado à cultura brasileira”, acredita.

“O cliente deve entender que, assim como o café, o chá puro pode oferecer notas sensoriais sem que haja a necessidade de adicionar outros produtos”, diz Laís. Para ela, a tendência daqui para frente é de crescimento e de novas oportunidades, especialmente quando o assunto são bebidas prontas para beber. “Se o mercado de chás caminhar para o mercado de wellness, podemos esperar bastante coisa boa vindo por aí”, aposta ela.

Coura também acredita que as opções ready-to-drink (RTD) são fundamentais para a expansão do mercado. “A tendência é de crescimento, com fórmulas mais naturais, sofisticadas e voltadas ao público que quer praticidade sem abrir mão de qualidade”, diz o especialista, que também menciona pontos como a valorização dos chás nacionais e a criação de blends autorais na personalização da experiência. “Há um resgate do que é nosso, com produtores investindo em qualidade, identidade de origem e métodos mais refinados de processamento”, comenta Coura. “Seja por meio de curadorias mais afinadas ou da conexão direta com o produtor, tudo caminha ao lado de uma exigência cada vez maior por transparência e sustentabilidade em toda a cadeia”.

História milenar

Segundo uma lenda chinesa, foi em 2.737 a.C. que o imperador Shennong, o “divino agricultor”, descobriu os benefícios do chá. Ele aquecia certa quantidade de água, purificando-a para bebê-la, quando folhas de um arbusto caíram no recipiente. Atraído pelo aroma, o imperador provou a infusão e surpreendeu-se com o sabor, a energia e o bem-estar dados pela bebida. Dezenas de séculos depois, esse arbusto seria classificado como Camellia sinensis.

A maneira de se consumir chá na China foi se transformando ao longo do tempo e também chegou ao Japão. “A história do chá no Japão é muito ligada ao intercâmbio cultural entre os dois países”, explica Paula Braga Batista, engenheira agrônoma, especialista em chás e conselheira de chá japonês, título concedido pela Nihon cha Kyokai (Associação de Instrutores de Chá Japonês). Segundo ela, foi por volta de 1.190 que monges japoneses viajaram à China para aprender sobre zen budismo. “Eles viram que os monges chineses conseguiam ficar longas horas meditando sem se cansarem e que, ao lado deles, havia sempre um copo com um líquido verde”, conta a especialista. Os monges japoneses retornaram ao Japão carregando sementes de Camellia sinensis para cultivar no país, propagando, assim, a cultura do chá.

O que define os diferentes chás é seu processamento pós-colheita, que envolve fenômenos como oxidação. O resultado são seis tipos: verde, branco, preto, amarelo, oolong e escuro (fermentado). Segundo Paula, há, também, variações, dependendo das características da região de cultivo, como altitude, temperatura e solo. “Muitas diferenças entre os chás verdes chinês e japonês, por exemplo, vêm do local onde são processados e das técnicas utilizadas. No produto final, o que conta mais é o processamento feito naquele terroir do que o solo”, detalha.

Além da China, maior produtor da Camellia sinensis var. sinensis – uma das variedades mais importantes de chá –, há um cultivo significativo na Índia da variedade assamica (Camellia sinensis var. assamica). No Brasil, há plantações de chá em Registro, no interior paulista. Paula explica que foram duas as tentativas de implementação do chá no país. A primeira com a corte portuguesa em 1808, quando as sementes foram trazidas e plantadas em diferentes regiões (Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais). “Mas eles trouxeram a variedade chinesa, que não se adaptou ao nosso clima”, explica. A segunda ocorreu com a imigração japonesa, em 1908, quando um imigrante, em uma de suas viagens ao Japão, parou no Sri Lanka e conheceu a variedade assamica. Ele começou a cultivá-la em Registro, um dos principais pólos da imigração japonesa no país. “A assamica deu certo, pois ela é mais adaptada à temperatura e ao clima que temos aqui”, conclui.

O Brasil produtor

Hoje em dia, Registro é referência na produção de chás. “Na década de 1980, a cidade chegou a ter mais de 40 fábricas”, relata Paula. O sucesso levou a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo a conceder a Registro, em 1984, o título de Capital Estadual do Chá. A partir dos anos 1990, devido à
concorrência internacional e às mudanças econômicas do país, a cidade do Vale do Ribeira diminuiu sua produção.

Ainda hoje, famílias se dedicam ao cultivo de chá na região, como é o caso da Chás Amaya, uma das empresas familiares mais antigas do segmento no Brasil. Sua história começou em 1919, quando Shutekishi e Nao Amaya, com seus filhos, saíram do Japão e desembarcaram no Rio de Janeiro em busca de oportunidades. A família se estabeleceu em Registro e começou o plantio de chá preto na década de 1930. Atualmente, sob os cuidados da terceira geração, a Chás Amaya produz chás especiais preto e verde da variedade assamica, cuidando desde o plantio até o produto final: colheita, limpeza das folhas, secagem, moagem, oxidação (se necessário), secagem final, seleção e empacotamento. “Nossa técnica de produção é mecanizada no plantio, na colheita e no processamento industrial”, conta André Luis de Freitas, responsável pelo setor comercial da Amaya.

Produção de Camellia sinensis na Chás Amaya – Foto: Chás Amaya

A partir de 2013, a empresa encerrou as exportações e dedicou-se ao mercado interno. “Nosso foco é atender grandes marcas, como Coca-Cola do Brasil, Chás Real e Mandiervas. Mas também temos nossa marca”, explica Freitas, que comenta que a Amaya também fornece para cafeterias e e-commerces, como a Chá Dō. De olho no futuro, ele aposta no aumento da demanda brasileira pela bebida e alimenta boas expectativas para os próximos anos. “O chá é mais do que uma simples bebida, sua versatilidade de preparo atende pessoas de todos os gêneros e idades”, diz ele, que percebe a tendência nas cafeterias. “Vemos um futuro promissor que vai muito além do modelo tradicional do chá apenas nas gôndolas de supermercados”, diz.

Texto originalmente publicado na edição #88 (junho, julho e agosto de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Gabriela Kaneto

Mercado

Presidente dos EUA implementa tarifa de 50% e não isenta o café

A medida entra em vigor em sete dias, e exclui de taxação quase 700 itens

O presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump, assinou nesta quarta (30), dois dias antes da data prevista de 1 de agosto, a ordem executiva que implementa a tarifa adicional de 40% sobre o Brasil – elevando o valor total da tarifa para 50%, conforme comunicado da Casa Branca publicado hoje. O café será taxado e a medida entra em vigor em sete dias.

O decreto isenta 694 itens – mas não o café, que será tarifado. Entre os alimentos, não serão cobradas taxas apenas sobre a castanha-do-pará, o suco e a polpa de laranja.

A medida usa como base jurídica a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, de 1977. O comunicado afirma que o tarifaço imposto ao Brasil está “defendendo empresas americanas da extorsão, protegendo cidadãos americanos da perseguição política, salvaguardando a liberdade de expressão americana da censura e salvando a economia americana de ficar sujeita aos decretos arbitrários de um juiz estrangeiro tirânico”, numa referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, acusado de perseguir o ex-presidente Jair Bolsonaro, citado nominalmente no comunicado.

As tarifas haviam sido anunciadas por Trump em 9 de julho, e são as maiores entre as anunciadas para outros países que exportam para os EUA.

O setor recebeu a notícia com preocupação. Em nota, o Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil) afirmou que seguirá em tratativas com parceiros locais, como a National Coffee Association (NCA), para que o café entre na lista de exceções da nova política. “Entendemos que se faz necessária a revisão da decisão de taxar os cafés do Brasil – ato que implicará elevação desmedida de preços e inflação, uma vez que esses tributos serão repassados à população americana no ato da compra”, afirma o texto.

A BSCA, também em comunicado, disse que “reitera a necessidade de diálogo na tentativa de reverter a taxação apresentada ao produto, de forma que sejam preservados empregos, renda e uma parceria construída ao longo de décadas entre os atores das duas nações”.

Mercado

Fellow lança sua primeira máquina de espresso

A marca californiana Fellow, conhecida pelo design que imprime aos equipamentos de café, apresentou sua primeira máquina de espresso, a Series 1, em abril. Equilibrando simplicidade e customização, o novo modelo permite desde extrações automáticas até configurações manuais detalhadas de pressão, tempo e volume.

Em funcionamento, a máquina atinge a temperatura ideal em cerca de dois minutos, por conta de uma tecnologia própria de aquecimento chamada Boosted Boiler, e traz um vaporizador que indica a temperatura ideal do leite para diferentes bebidas. A estética segue o padrão elegante da marca, com três opções de cores e design pensado para ambientes domésticos.

A Series 1 está disponível no site da Fellow por US$ 1.199,95.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Mercado

Chocolateiras contam a cena tree to bar e bean to bar em livro

Nos livros sobre chocolate, é comum que imperem os processos de manufatura e receitas com o produto. Não é o que acontece no recém-lançado Onde Cresce o Chocolate. Na obra coletiva, escrita por mulheres importantes na cena do chocolate brasileiro, o que prevalece é a divulgação de toda a cadeia produtiva – das amêndoas de cacau ao negócio do chocolate, com boas referências bibliográficas e uma introdução que privilegia contextos.

Mais do que isso, porém, está-se construindo conhecimento sobre cacau e qualidade, que termina na degustação correta dos chocolates finos. A começar pelo alerta necessário de que o que é denominado chocolate nem sempre é o que deveria, de fato, ser – a legislação alimentar brasileira, geralmente permissiva, exige que o produto possa conter apenas um quarto da matéria-prima, qualquer que seja a sua qualidade.

As autoras do livro – as chocolateiras Arcelia Gallardo, da Mission Chocolate, e Gislaine Gallette, da Gallette Chocolates; as cacauicultoras e fazedoras de chocolate Juliana Aquino, da marca Baianí, e Claudia Gamba, da marca Mestiço, ao lado da consultora na área Luciana Monteiro (Ara Cacao), da pesquisadora da EACH/USP Mariana Bueno e de Zélia Fragoni, especialista no produto e desenvolvedora de websites – também discorrem sobre um cacau de origem brasileira, algo praticamente invisível nos livros estrangeiros, e compartilham as práticas bean to bar e tree to bar, o que torna o livro mais interessante. Um pouco deste movimento da semente à barra está no capítulo 4, dos dez que a obra traz.

Tem receitas? Claro que tem. Tem também vassoura-de-bruxa, que devastou as plantações na década de 1990, o complexo fenômeno de fermentação, os trabalhosos processos de secagem e avaliação
das amêndoas e o detalhado fazer do chocolate, a partir de uma escolha acertiva do cacau.

Livro “Onde Cresce o Chocolate”
Edição das autoras – R$ 159 na chocolatrasonline.com

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Mercado

Exportações e consumo de solúvel continuam em alta no Brasil

Dados da Abics (Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel) mostram que, entre janeiro e junho de 2025, o Brasil exportou 1,944 milhão de sacas de café solúvel — um aumento de 1,3% em relação ao mesmo período de 2024, enquanto a receita cambial atingiu US$ 586,9 milhões, um salto de 45,2%. 

Os Estados Unidos lideram as importações, com 361.088 sacas embarcadas, seguidos da Argentina (193. 298 sacas), Rússia (138.492 sacas), Indonésia (75.140 sacas) e Peru (74.069 sacas). Ao todo, 81 países compram café solúvel do Brasil.

Consumo interno também cresce

O mercado brasileiro registrou aumento de 4,2%, com consumo equivalente a 480.578 sacas de café solúvel no primeiro semestre de 2025. Destaque para o tipo freeze-dried (liofilizado), que avançou 18,7%, chegando a 1.557 toneladas — enquanto o spray dried (em pó) subiu 2,5%. 

Segundo Aguinaldo Lima, diretor de relações institucionais da Abics, em comunicado, o desempenho sustentável das exportações mostra que o café solúvel nacional mantém regularidade, mesmo diante das tensões tarifárias no exterior.

Comunicado recente da administração Trump prevê taxa de 50% sobre importações brasileiras no mercado dos EUA a partir de agosto, o que pode reduzir a competitividade do produto frente a concorrentes isentos, como México.

TEXTO Redação • FOTO Felipe Gombossy

Mercado

China vai eliminar últimas tarifas sobre países africanos produtores de café

A medida, estratégica, torna a China um mercado de exportação mais atraente para os cafeicultores africanos, em contraste com as tarifas impostas pelos EUA e os obstáculos legislativos da nova EUDR

A China vai deixar de cobrar tarifas de importação sobre países africanos produtores de café após remover as taxas para mais de 20 nações do continente.

A segunda maior economia do mundo — e maior mercado de cafeterias de marca do planeta — já havia eliminado, em dezembro de 2024, as tarifas sobre todos os produtos tributáveis oriundos dos 33 países africanos menos desenvolvidos, e agora estende a política para incluir também as maiores economias da região.

Com isso, ficam isentas as quatro maiores economias do continente: Nigéria, África do Sul, Egito e Argélia, além de importantes nações produtoras de café como Quênia e Costa do Marfim — respectivamente o quarto e o quinto maiores exportadores africanos do grão. A única exceção é Essuatíni, excluída do acordo de tarifa zero por reconhecer diplomaticamente Taiwan, que a China considera uma província rebelde.

A medida deve reduzir significativamente o custo de envio de café verde da África para a China. Segundo análise da agência chinesa Yicai Global, os importadores vão economizar cerca de US$ 320 em tarifas e US$ 41 em imposto sobre valor agregado por tonelada de café verde, avaliada em US$ 4.000. Antes, o café verde enfrentava uma alíquota de 8% de importação na China.

Essa política contrasta fortemente com a dos Estados Unidos, onde o governo Trump propôs tarifas generalizadas sobre importações de mais de 90 países. Etiópia, Quênia e Uganda enfrentam tarifas-base de 10%, enquanto nações produtoras menores como Madagascar, Maurício e Costa do Marfim enfrentam 47%, 40% e 21%, respectivamente.

Além disso, a legislação europeia EUDR exigirá que produtores de café comprovem que sua produção não está ligada ao desmatamento, por meio de documentação e dados de geolocalização. Cumprir essas exigências pode representar grandes desafios financeiros e logísticos para os pequenos produtores, que compõem a maioria dos cafeicultores africanos.

Com isso, a China pode se tornar um mercado de exportação muito mais atrativo para os principais países africanos produtores de café, diante do aumento da demanda global.

Segundo o GAC (órgão aduaneiro da China), o país importou US$ 973 milhões em café em 2024, sendo o Brasil e a Colômbia responsáveis por mais de 50% desse total. A Etiópia foi o terceiro maior fornecedor, com US$ 102 milhões (10,5%).

A China já havia removido tarifas sobre o café etíope em março de 2023 como parte de uma estratégia para fortalecer a cooperação comercial e acelerar iniciativas de desenvolvimento no país do Leste Africano. Juntas, Uganda, Quênia e Ruanda representaram cerca de 2,5% das importações chinesas de café.

A demanda por café na China tem crescido rapidamente. Pesquisa da World Coffee Portal mostra que o país cresceu 58% nos 12 meses até dezembro de 2023, com as maiores redes mantendo planos ambiciosos de expansão.

Em junho de 2024, a Luckin Coffee, com 24 mil lojas, assinou um acordo de US$ 500 milhões para comprar 120 mil toneladas de café brasileiro em dois anos. Cinco meses depois, firmou um novo contrato para comprar outras 120 mil toneladas, avaliado em RMB 10 bilhões (US$ 1,38 bilhão).

Em maio de 2025, a rede Mixue, que vende sorvetes, bubble tea e café, anunciou uma parceria com a ApexBrasil para adquirir RMB 4 bilhões (US$ 556,3 milhões) em café e frutas nos próximos três a cinco anos.

No mês seguinte, a Cotti Coffee, segunda maior rede chinesa de café, assinou um Memorando de Entendimento (MoU) com o governo de Ruanda para fortalecer a produção local e ampliar as exportações.

A China é hoje o maior parceiro comercial e investidor da África, com o comércio bilateral crescendo 14% em 2024, alcançando RMB 2,1 trilhões (US$ 292,9 bilhões), segundo o GAC.

Em 2023, o governo chinês investiu US$ 21,7 bilhões em projetos de infraestrutura no continente africano, como parte da Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative), focada principalmente em estradas, portos, ferrovias e energia renovável.

TEXTO Originalmente publicado por World Coffee Portal – Tradução equipe CaféPoint • FOTO Zalfa Imani para WCP

Mercado

De volta à terra: como marcas de café apostam em cápsulas compostáveis

Por Gabriela Kaneto

O consumo de café em cápsulas ganhou espaço na rotina moderna pela praticidade, mas também gerou um alerta ambiental devido ao acúmulo de resíduos plásticos e metálicos. De olho no tema, empresas do setor investem em tecnologias para gerar menos lixo e em campanhas que favoreçam o descarte correto do produto.

Sobre o assunto, um dos mais recentes lançamentos é o da italiana Lavazza. Chamado Tablì, o sistema, apresentado durante a Semana de Design de Milão 2025, utiliza uma cápsula feita 100% de café moído compactado, ou seja, sem nenhum tipo de invólucro. Com a liberação da água quente, o café prensado é dissolvido e resulta em um espresso sem resíduos de plástico ou alumínio. 

Novo sistema Tablí, da italiana Lavazza

De acordo com a marca, a novidade estará disponível na Itália a partir de setembro deste ano, exclusivamente no site. Sobre o lançamento em outros países, ainda não foram divulgadas informações.

Apesar de inovadora, a ideia de cápsulas feitas à base de outros materiais sustentáveis já está sendo aplicada há algum tempo. Em 2022, por exemplo, o grupo suíço Migros lançou a CoffeeB, cápsula esférica biodegradável produzida a partir de café comprimido e recoberta por uma fina película à base de algas. Os grãos utilizados são de diferentes tipos, inclusive em parceria com a italiana illycaffè. Comercializada em países como Suíça e França, a máquina do sistema também é produzida, em parte, com materiais recicláveis. 

Sistema CoffeeB, do grupo suíço Migros

Também em 2022, a Nescafé Dolce Gusto, da Nestlé, lançou no mercado brasileiro a sua linha Neo, um sistema que utiliza cápsulas compostáveis feitas à base de papel com uma fina membrana interna de celulose. Com uma tecnologia de leitura automática do código impresso no selo de vedação de cada cápsula (feito de polímero biodegradável), a Neo extrai cafés do tipo espresso, americano e uma opção mais diluída batizada de caseiro.

Nescafé Dolce Gusto Neo, da Nestlé

Compostagem de cápsulas biodegradáveis

Na natureza, este modelo de cápsula da Neo leva de seis meses a um ano para se decompor. Mas, se compostada de forma correta, some em apenas 45 dias. Para conhecer melhor o processo de compostagem, a Nestlé levou a equipe da Espresso para Parelheiros, extremo sul de São Paulo, onde acontece o projeto Planta Feliz, parceiro da marca.

Liderada pelo casal Marina Camargo e Adriano Sgarbi, a iniciativa acontece desde 2019 e hoje atende toda a capital paulista, recolhendo, por mês, cerca de 20 toneladas de resíduos de origem animal e vegetal de casas, colégios, empresas farmacêuticas e instituições, como o SESC Interlagos. 

Cápsulas de Dolce Gusto Neo dispostas na leira para ser compostada – Foto: Gabriela Kaneto

A compostagem é um processo natural de decomposição de matéria orgânica. O processo acontece através de uma mistura de compostos úmidos e secos, que geram transformações biológicas e químicas promovidas por microrganismos. O resultado final é um biofertilizante que pode ser aplicado no solo para melhorar suas características, sem trazer riscos ao meio ambiente.

Para isso, o Planta Feliz conta com quatro “leiras” (espaço onde ocorre o processo) com capacidade para 25 toneladas cada. Todas elas são analisadas por profissionais da Unicamp, que emitem laudos com informações de quais nutrientes são encontrados ali, como o nitrogênio, por exemplo. “De 80 a 90% dos resíduos são água. Parte vira adubo líquido e parte é liberada através do próprio processo gasoso”, explica Sgarbi. 

Leiras para compostagem – Foto: Planta Feliz

A partir do laudo, é possível dar um destino mais assertivo ao adubo proveniente de cada leira, que pode ser categorizado como composto orgânico, húmus de minhoca ou terra vegetal preparada, e vendido pelo Planta Feliz em feiras locais e na plataforma do Mercado Livre para todo o Brasil.

De acordo com o projeto, 55% dos resíduos domésticos poderiam ser mandados para a compostagem – mas, infelizmente, o destino é outro: os aterros sanitários. Depois que o aterro fecha, são mais 35 anos para que o gás de tudo que foi descartado no local seja eliminado. “Se toda empresa tivesse a preocupação de transformar os produtos em compostáveis, teríamos um mundo melhor”, comenta Marina.

TEXTO Gabriela Kaneto

Mercado

Tarifa de 50% sobre o café pelos EUA compromete competitividade brasileira, dizem analistas

Por Cristiana Couto

O anúncio da tarifa de 50% sobre produtos brasileiros como o café nas exportações aos Estados Unidos, a partir de 1º de agosto, já refletiu no mercado global e provocou nova volatilidade no comércio de futuros do café. A nova tarifa também pode afetar o consumo norte-americano do grão. 

Na manhã de quinta (10), os contratos futuros de arábica negociados em Nova York saltaram mais de 3,5%, fechando o dia a 1,3%. Segundo o New York Post, embora os preços de arábica e robusta tivessem recuado levemente com a expectativa de colheitas melhores, o cenário agora está ameaçado pelas tensões comerciais. 

Em nota divulgada na quinta (10), a Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café) afirma que a decisão de Trump foi comunicada de forma unilateral e compromete a competitividade do Brasil. “A medida representa um grave retrocesso nas relações comerciais entre os dois países, que pode gerar impactos extremamente negativos e relevantes para toda a cadeia produtiva do café brasileiro”.

Anunciada por Donald Trump no final da tarde de quarta-feira (9) em carta publicada na rede Truth Social, a sobretaxa está vinculada às acusações, feitas pelo presidente dos EUA, de que o governo brasileiro “ataca a liberdade de expressão” e orquestra uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Isso, de acordo com especialistas do mercado, torna a discussão mais complexa. 

O Brasil é responsável por cerca de 30% das exportações globais de café e por aproximadamente um terço das importações americanas – em 2024, o país  enviou 8,1 milhões de sacas aos Estados Unidos. “Com a nova tarifa, o café brasileiro perde competitividade no mercado americano, uma vez que o aumento de custos para os importadores tende a favorecer outros produtores”, explica Guilherme Morya, analista de café do Rabobank. Para ele, países como Colômbia, Honduras, Etiópia e Vietnã, com taxas menores, devem se beneficiar da nova configuração, especialmente em um contexto de estoques globais apertados.

Os analistas dizem que ainda é cedo para avaliar os efeitos da nova tarifa a longo prazo. “Teremos de aguardar os próximos dias e observar os desdobramentos da imposição de uma taxa que atrapalha e pune os centenários negócios de café entre brasileiros e americanos”, escreveu em seu boletim diário Eduardo Carvalhaes, do Escritório Carvalhaes, sobre a imposição que considera “tecnicamente incompreensível”. “É uma decisão que não tem ganhadores. Certamente os importadores americanos dos nossos cafés irão trabalhar conosco para tentar reverter essa decisão danosa para os cafeicultores brasileiros e para os consumidores americanos”, completa.

De fato, a medida pode reduzir a demanda americana pelos grãos brasileiros (os EUA consomem, anualmente, cerca de 24 milhões de sacas de café). “Apesar da recente queda nos preços, o consumo segue pressionado por fatores inflacionários e econômicos”, analisa Morya. “Um aumento de 50% nos custos pode agravar esse cenário, tornando o café um produto menos acessível ao consumidor final.” 

“Sabemos que quem vai ser onerado é o consumidor norte-americano, e tudo que gera impactos ao consumo é ruim para o fluxo do comércio, é ruim para a indústria, é ruim para o desenvolvimento dos países produtores e consumidores”, afirma Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), que acompanha com atenção as discussões sobre as novas tarifas. 

Matos reforça que o café gera muita riqueza aos Estados Unidos, que agrega valor ao produto no processo de industrialização. O café representa 1,2% do PIB norte-americano e é responsável por 2,2 milhões de empregos no país. Para cada U$ 1 de café importado são gerados US$ 43 na economia americana. 

“Será crucial observar se a tarifa será implementada integralmente e por quanto tempo permanecerá em vigor, pois ela pode reconfigurar os fluxos do comércio internacional de café, com impactos para produtores, exportadores e consumidores”, acrescenta Morya. “Temos esperança de que o bom senso prevaleça”, diz Matos.

TEXTO Cristiana Couto

Mercado

“O Brasil tem tudo para aumentar sua liderança no mercado mundial de cafés”, diz Eduardo Carvalhaes

Para o sócio do tradicional Escritório Carvalhaes, de análises, corretagem e serviços no comércio e exportação de café, o país reúne clima, história, conhecimento, pesquisa e técnica, mas corre riscos se não investir em pesquisa, visão estratégica e legislação clara

Eduardo Carvalhaes – Foto: Agência Ophelia

Por Cristiana Couto e Caio Alonso

Com mais de 40 anos no setor cafeeiro e à frente, com o irmão Nelson, do centenário Escritório Carvalhaes, em Santos, Eduardo Carvalhaes é uma das vozes mais respeitadas da cafeicultura brasileira. Na conversa com a Espresso, ele analisa as mudanças que transformaram o comércio do café, o novo papel do exportador e os impactos das novas tecnologias e novas exigências globais. Testemunha ocular da história recente do grão no país, ele acompanhou o fim do Instituto Brasileiro do Café, o surgimento do mercado livre, os anos de inflação alta e a estabilização da economia com o Plano Real.

Entre dados, memórias e visão de futuro, Carvalhaes comenta sobre o Brasil, seu papel como liderança mundial e seus desafios, e revela o sonho de ver os 300 anos da chegada do café ao Brasil sendo devidamente comemorados. Para ele, o país reúne clima, cultura, pesquisa e técnica, mas corre riscos se não investir em pesquisa, leis claras e visão estratégica para enfrentar a realidade do mercado atual. Confira a entrevista a seguir, feita ao vivo em Santos.

Espresso: O Escritório Carvalhaes tem mais de cem anos. Como começou essa história?

Eduardo Carvalhaes: Na década de 1880, meu tio-tataravô, produtor de café no sul de Minas, montou uma comissária exportadora em Santos. Meu bisavô, José Ildefonso Carvalhaes, tornou-se sócio da Vicente Carvalhaes Comissária e Exportadora em 1887. Por volta de 1914, com uma grande inundação no Porto de Santos, o negócio quebrou, e não havia seguro nem nada. Meu avô e seus irmãos, então, entraram na história. Já tinham conhecimento, um nome no mercado de café, e a economia do Brasil era o café. Eles começaram a trabalhar com prestação de serviço, em corretagem, porque não tinham capital para serem exportadores. Foi assim que nós começamos.

Quais são as linhas de negócio do Escritório Carvalhaes?

Hoje, atuamos principalmente com corretagem especializada em cafés de qualidade, com exportação, prestação de serviços para exportadores e cooperativas e com análise de café. Nosso Boletim Semanal circula desde 1933, sem interrupção. Fazemos amostragem, análise sensorial e física de café. Nosso Lab Carvalhaes possui certificação ISO 9001 desde 2003, auditado anualmente pela Fundação Vanzolini, e é credenciado pela Abic [Associação Brasileira da Indústria de Café] para seu Programa de Qualidade de Café. Orientamos, técnica e comercialmente, produtores e compradores de café que buscam um produto diferenciado.

Eduardo Carvalhaes em seu escritório, consultando antigas publicações da empresa – Foto: Agência Ophelia

Como você começou a trabalhar com café?

Sou engenheiro químico e trabalhei por oito anos em um escritório de projetos industriais em São Paulo. Vim para o café em razão da hiperinflação dos anos 1980, que prejudicou a engenharia de projetos industriais brasileira. Na época, 1983, o café estava indo bem e decidi experimentar. Acabei gostando e fiquei.

Eu e meus dois irmãos, Sergio e Nelson, que já estavam no Escritório Carvalhaes, começamos a trabalhar juntos. No final dos anos 1980, o sistema de cotas de exportação acabou, e foi possível registrarmos uma exportadora de café. A nossa foi uma das primeiras, e se chamava Porto de Santos.

Como construíram a parceria com a illycaffè?

No início de 1990, recebemos a visita de Ernesto Illy, presidente da illycaffé, que queria montar um negócio de café diferente. A illy, em termos mundiais, não era grande, mas era muito respeitada pela qualidade de seus cafés. Ernesto disse que comprava café brasileiro, um dos melhores para espresso. Ele vinha ao Brasil, experimentava o café, comprava, e o que chegava lá era diferente. Disse que pretendia fazer um concurso de qualidade para café no Brasil, para localizar e estimular a produção de cafés de qualidade para espresso, e que precisava de uma empresa que comprasse esses cafés.

Naquela época, já trabalhávamos no mercado de café gourmet. Inicialmente, fizemos um contrato para comprar os cafés do concurso e Nelson ficou à frente da nossa exportadora. Paralelamente, enviávamos amostras de cafés brasileiros finos para ele, e o negócio cresceu. A illy foi a primeira a comprar cafés descascados brasileiros, ainda nos anos 1990. Comprávamos pequenos lotes, pagando um preço acima do pago para os naturais. Embarcávamos tudo separadamente, e eles faziam os blends. Com os bons preços, a produção de CD foi aumentando, e o Ernesto, comprando, e outros compradores começaram a adquirir os nossos CDs, e produção e exportação cresceram rapidamente. Dos anos 1990 aos 2000, a illy pagava os maiores preços do mercado, estimulando a produção de cafés finos no Brasil.

Qual foi a grande transformação que aconteceu no mercado nas últimas décadas?

Foi o fim do Instituto Brasileiro do Café [IBC], em 1989, no dia da posse do Fernando Collor como presidente. Até 1960, mais de 50% da nossa receita vinha do café. O fim do IBC desmanchou uma rede de armazéns e técnicos de qualidade. A parte boa é que liberou o comércio de café no Brasil, e nossa produção e exportação cresceram exponencialmente. Muitos quebraram, gente que vendia seus estoques e produção para o governo, e muito cafeicultor saiu do negócio. Mas quem se adaptou, cresceu. Houve força para extinguir o IBC porque o Brasil já não dependia mais só do café. A industrialização avançava e a produção agrícola e a economia diversificavam. Essa decisão do Collor mudou tudo. Em 1999, o Brasil atingiu 20 milhões de sacas exportadas, depois 30 milhões em 2009, em 2019, 40 milhões e, no ano passado, mais de 50 milhões. Isso mostra como a liberdade de mercado e a qualidade do café elevaram a competitividade dos cafés do Brasil.

Foto: Agência Ophelia

Santos já foi uma grande praça de comercialização. Hoje, esses lugares estão mais próximos das plantações?

Digo que a história do comércio de café é a história da evolução da comunicação e sua velocidade. Temos uma fotografia de Santos, do início da década de 1950, na rua XV [de Novembro], lotada de gente durante o dia. Era assim porque era na rua que a gente tinha a informação. A comunicação com o interior era feita somente por telegrama, que demorava para chegar e para voltar – levava uma semana, no mínimo, para completar. Só então podíamos vender o café. Às vezes, o mercado já tinha mudado.

Nós tínhamos uma ordem para vender por X e o valor já estava em “X mais dois”; vendíamos por “X mais dois” e entregávamos o dinheiro para o produtor. Mas havia quem vendesse por X e embolsas se o “mais dois”. Muitos fizeram fortuna assim. Também, não havia cooperativas no interior, mas existia o maquinista, alguém com capital que fazia esse papel. Ele comprava o café de produtores pequenos, rebeneficiava, fazia um lote grande e mandava para o corretor dele.

Só produtores maiores negociavam diretamente com o exportador. Na praça santista, o exportador era o primeiro a ter a informação, e comprava. Levava um tempo para a notícia se espalhar. O maquinista punha um rádio nos escritórios dos corretores, ficava sabendo o que acontecia no mercado e comprava. Me lembro de acordar e dormir com meu pai ao telefone, porque as linhas eram poucas e viviam congestionadas. Depois, vieram o DDD, o aparelho de telex, o computador, o fax, o e-mail, o whatsapp, a comunicação em rede, instantânea e a custo quase zero. Agora, convivemos com a inteligência artificial. Na pandemia, descobri que só preciso estar fisicamente no escritório para provar e analisar café. Fomos pioneiros no mercado de café no uso do computador, do telex, do fax, do celular. A cada ano, a grande praça de comercialização de café é a internet, as redes sociais. Hoje, trabalhamos com produtores e compradores de café de todo o Brasil. A nova rua XV do comércio de café é a internet.

E aí, com essa movimentação toda…

Naquela época, os sindicatos eram fortes. Tinha sindicato para quem carregava as sacas de café, para quem costurava as sacas, para quem fazia as sacas… Os sindicatos não perceberam que as coisas mudavam com as mudanças na comunicação. Esses serviços começaram a ficar caros, e as cidades do interior queriam fazer esses serviços. Já tínhamos as ferrovias e a via Anchieta. E, um por um, os armazéns foram embora da praça de Santos.

O que mais interfere no preço do café? Clima, câmbio ou política?

Tudo. O mundo globalizou. Se Donald Trump insistir na tentativa de desglobalização, pode tirar os Estados Unidos da liderança do mundo. Acho que não vai acontecer. A globalização, com esse nível de comunicação, não anda para trás.

O clima também mudou. São tantas variáveis que não é possível enxergar a resultante delas. Como toda essa mudança na economia mundial, por exemplo, vai influenciar o consumo? No tempo do IBC, o Brasil tinha estoques enormes. Quando houve a geada de 1975, nós tínhamos mais de uma safra estocada. Mas era outro mundo, não adianta olhar para trás e querer repetir a mesma coisa.

Com o consumo crescendo, o que vai acontecer a médio e longo prazos com os preços?

A produção de café no Brasil tem concorrência e disputa por terras com outros produtos agrícolas. E ele é muito mais trabalhoso do que outras culturas. Você não pode ser produtor de café como há 40 anos, morando na cidade e indo à fazenda só no fim de semana. Tem que estar presente, senão vai perder dinheiro. Por isso, acho que se não tivermos bons preços para o café, muitos podem migrar para outras culturas. O investimento em café é alto, e a maioria dos produtores está diversificando.

Tem também o clima. Termos saído de 20 milhões para 50 milhões de sacas em 25 anos acabou com nossos estoques de café. Nesse tempo, tivemos safras boas e ruins, e sempre crescemos porque havia estoque. Agora não temos mais. E quanto temos de estoque de passagem da safra 2024? Os exportadores acham que existe mais do que eu acredito, e as cooperativas reconhecem que os armazéns nunca estiveram tão vazios.

Antes, havia café de 10 anos guardado. Hoje em dia, é raro. O produtor vende tudo na safra, ou guarda um pouco se a próxima for pequena. O problema é que não temos estoques, nem aqui nem no restante do mundo, e o clima está irregular. Todo o resto deriva disso.

Além disso, não existe mais aquele pregão tradicional, nem nas bolsas de valores, nem nas de café. Tudo é eletrônico. E o que interessa para as bolsas é gerar corretagem: para isso, facilitam o giro. Existem milhares de pequenos investidores no mundo, e não dá para prever como vão reagir. Sai uma notícia nas redes sociais de que o Trump vai fazer algo e já começa a mudança de posição para garantir os lucros. Isso é novo.

Vejo análises com gráficos e projeções de mercado em bolsa, mas acho isso perigoso. O mundo mudou. As análises atuais consideram padrões que já não servem mais, ou servem muito pouco.

Foto: Agência Ophelia

Como você vê o papel do Brasil nessas próximas décadas?

Há uma grande oportunidade para o Brasil. Nós temos terra, temos clima. Temos que continuar investindo em pesquisa. Vamos continuar crescendo. Se trabalharmos direito, vamos chegar a 50% da produção mundial. Não vejo, nos outros países, um movimento assim. Temos novas regiões, novos produtores, como em Rondônia. Existem, claro, barreiras. Há dificuldade de fazer com que os filhos voltem para o campo, e temos, também, que resolver os problemas da legislação trabalhista. Agora, se resolvermos esses problemas, vamos continuar sendo o celeiro do mundo. O mundo vai precisar de alimento. E o Brasil tem tudo para estar entre os principais produtores. No café, sabemos produzir, temos a cultura de produção, conhecimento e história.

Qual a sua opinião sobre os efeitos globais da EUDR?

Isso é uma guerra econômica. A grande maioria dos nossos cafeicultores segue a lei. O Cecafé [Conselho dos Exportadores de Café do Brasil] divulga regularmente no mercado uma lista denunciando produtores que não seguem a lei, para que exportadores não comprem deles, mostrando que está trabalhando nisso. São poucos, se considerarmos o universo de produtores. A EUDR vai ficar mais branda, mas temos que mostrar números. Sempre falamos em agregar valor ao café brasileiro. Mas até para prova de café e selo de qualidade, estamos mandando dinheiro para fora do Brasil.

Temos de reunir todos os segmentos – indústria, produção, comércio, exportação – e atualizar as provas e normas da Classificação Oficial Brasileira, para provas do tipo SCA, com notas. Outra coisa é selo de qualidade. Temos as leis trabalhistas mais rigorosas do mundo, e elas precisam ser claras. Também temos as leis ambientais mais rigorosas. Temos que criar um selo dizendo que aquele café que embarcamos é de um produtor que segue as leis brasileiras. Com a informatização, ficou muito fácil fazer rastreabilidade, já estamos fazendo. No começo, podem não aceitar os selos, mas com o tempo, trazendo compradores e imprensa para as fazendas, isso mudará. Mas precisamos de leis claras.

Então, no fundo, a EUDR é uma oportunidade para o Brasil.

Acho que é. Temos que ver quais são as intenções deles. Estamos numa situação boa em relação a nossos concorrentes, e temos que mostrar isso para o mundo.

Mas precisamos melhorar, sempre. E temos condições. Todo café embarcado passa por agências que emitem certificado de origem, comprovando que o café foi produzido no Brasil. Se montarmos um sistema de fiscalização, essas agências podem emitir o certificado de sustentabilidade, com rastreamento.

O que me entusiasma é ver as regiões produtoras começando a montar certificações de origem. Embora o prêmio ainda seja pequeno, estão construindo algo sólido para a próxima geração. É um movimento mais demorado, mas acho que o Brasil tem tudo para liderar nessa área.

A sustentabilidade no café é só um movimento de marketing ou é uma necessidade?

Alguns fazem por necessidade, mas as novas gerações acreditam nisso. Há um movimento, de uma geração para outra. As fazendas estão mantendo áreas de proteção. E o rigor da lei é bom, é um estímulo a mais. Temos exemplos belíssimos, como a Daterra. Conhecemos bem a Daterra, cuidamos, desde o início, dos serviços em Santos para suas exportações. Eles são um exemplo de sustentabilidade de verdade, de vontade. Eles exportam pacotes de 20 quilos para pequenas torrefações e cafeterias. É um modelo muito bom. E existem outros. Sustentabilidade é uma necessidade, não pode ser só discurso. É prática, no dia a dia, é fiscalização, é clareza nas regras e princípios.

Como você vê o papel do exportador no futuro?

Acho que as rápidas mudanças nas comunicações devem mudar a arquitetura comercial do café. Para grandes torrefações do mundo, o exportador sempre vai ser importante, porque é ele quem compra grandes volumes de café, monta os blends, cuida do embarque. O exportador de café, hoje, está preparando os embarques de daqui a três meses. Mas, com a facilidade de comunicação, surgem produtores que se transformam em pequenos exportadores, e isso está crescendo. Se você tem uma pequena torrefação dominando uma região ou uma pequena rede de cafeterias, você tem que ter um produto diferenciado, para os clientes irem até você e não até uma grande rede como a Starbucks. A cada dia ouve-se falar mais de pequenas indústrias de fora que estão estabelecendo contatos com produtores no Brasil. Esse movimento, de ir atrás de exclusividade, deve continuar. Nesse sentido, os concursos de qualidade de cafés foram muito importantes, e os de barista também. Levaram a imagem de qualidade do café brasileiro para fora.

Você tem algum sonho que ainda gostaria de realizar com o café?

Minha preocupação maior hoje é com a sucessão nas entidades de que faço parte, como o Museu do Café. Passar o bastão para as novas gerações. É preciso treinar as próximas gerações. Isso vale também para as fazendas. Em algumas regiões, há dificuldades para convencer os filhos a voltarem para o campo. Em outros setores, houve renovação.

Se quero algo, é ver essa transição acontecer. Outro sonho de curto prazo é comemorarmos dignamente os 300 anos da chegada do café no Brasil [em 2027]. Já estamos trabalhando nisso.

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TEXTO Cristiana Couto e Caio Fontes • FOTO Agência Ophelia