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Café: um produto não essencial que vira hábito indispensável

Histórias do Café – Consumo, cultura e alimentação desloca o olhar para um território menos frequentado pela historiografia brasileira: o do consumo, da vida urbana e das sociabilidades que se formaram em torno da bebida.

Partindo da constatação de que o café se tornou um elemento estruturante do cotidiano moderno, presente nas refeições, nos espaços públicos e nos rituais de convivência, o livro propõe entender como um produto não essencial se converteu em hábito indispensável e marcador social.

Organizado pela dupla de historiadores Joana Monteleone, também editora e pesquisadora-colaboradora da Universidade de São Paulo, e Bruno Bortoloto do Carmo, doutor em História Social, que atuou como pesquisador do Museu do Café de Santos por 13 anos, o volume reúne 15 artigos sobre pesquisas recentes de uma série de autores de diferentes linhas historiográficas. O conjunto articula história econômica, urbana e da alimentação e recusa fronteiras rígidas entre esses campos.

No artigo “O consumo de café e as novas sociabilidades paulistanas nas primeiras décadas do século XIX”, a historiadora Rafaela Basso acompanha a bebida desde a produção doméstica até sua incorporação a práticas sociais marcadas por gênero, classe e exclusão.

Por meio de sua análise, afasta a imagem de São Paulo como um núcleo pobre e pacato e a aproxima da de uma cidade já integrada a circuitos modernos de consumo, na qual o café surge como marcador simbólico de pertencimento antes mesmo de sua plena popularização.

Abordagens científicas conduzem os ensaios de Cristiana Couto, doutora em história da ciência e coordenadora de conteúdo da Espresso&CO, que propõe discussões sobre o café como alimento e medicamento no Brasil no século XIX, e de Moisés Stahl, doutor em história econômica, que examina o café como objeto de investigação científica em perspectiva histórica.

Um dos méritos da obra está na ampliação do repertório documental. Romances, folhetins, peças teatrais, menus, discos, almanaques e teses médicas dialogam com atas oficiais e jornais e revelam o café como mercadoria, alimento, estimulante, remédio e símbolo de distinção.

Ao acompanhar a emergência dos cafés, botequins, confeitarias e espaços de consumo nas cidades, sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo, os autores mostram como o cafezinho ajudou a moldar práticas sociais e formas de pertencimento urbano no século XIX.

Ao mesmo tempo, o livro assume suas lacunas como desafio futuro, principalmente no que diz respeito às relações de trabalho e à presença da escravidão no universo do consumo. Essa fricção entre potência analítica e ausência temática reforça o caráter do volume — menos síntese conclusiva e mais convite
a novas investigações sobre comer, beber e conviver no Brasil do café.

TEXTO Luiza Fecarotta

Café & PreparosMercado

USDA projeta safra recorde de 71,9 milhões de sacas para o Brasil

Previsão é de 14% a mais do que no ciclo anterior, o que estimulará, segundo o órgão, um salto de 30% nas exportações

Funcionário em plantação de canéfora em São Gabriel da Palha (ES), em setembro de 2025. REUTERS/Alexandre Meneghini

Reuters, de São Paulo

A safra de café do Brasil deve aumentar 14% em 2026/27, para um recorde de 71,9 milhões de sacas, impulsionando um salto de 30% nas exportações após anos de produção abaixo do potencial, segundo relatório do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

A colheita brasileira no ciclo 2026/27 (julho-junho) deve avançar com impulso da produção de café arábica, cuja safra deve crescer 25% no período, diante da bienalidade positiva, combinada a condições climáticas favoráveis nas principais regiões produtoras e investimentos após anos de preços altos.

Chuvas suficientes durante o período de florada em 2025 e maior regularidade hídrica no início de 2026 garantiram bom desenvolvimento das lavouras, contribuindo para a perspectiva de alta produtividade, disse o USDA. 

Além disso, preços internacionais mais elevados estimularam a expansão de área plantada e maior investimento em manejo, incluindo o uso de tecnologias que aumentam a densidade de plantio por hectare.

A produção de café arábica do Brasil é estimada em 47,5 milhões de sacas em 2026/27, e a de canéfora (robusta e conilon) está projetada em 24,4 milhões de sacas – ligeiramente abaixo das 25 milhões de 2025/26, reflexo, segundo o USDA, dos impactos pontuais de clima mais frio e chuvas excessivas em algumas regiões produtoras após um ano anterior de alta produtividade.    

Outras instituições, como a estatal Conab, e analistas privados também têm afirmado que a produção brasileira será a maior da história.

Exportações

No comércio exterior, prevê-se exportações brasileiras de cerca de 49 milhões de sacas em 2026/27, ante 37,8 milhões no ciclo anterior, refletindo a maior disponibilidade do grão com a safra volumosa. 

Apesar da previsão, as vendas externas poderiam ser ainda maiores, não fossem os estoques baixos. O relatório apontou que as exportações têm sido limitadas no início de 2026 por conta desse limite de estoque, resultado de colheitas menores em anos recentes e de demanda externa forte.

A tendência das exportações, no entanto, é de recuperação ao longo do ano, com a aceleração da colheita a partir de meados de maio e maior entrada de produto no mercado no segundo semestre, disse o USDA.

No plano interno, o USDA apontou que o consumo de café no Brasil deve permanecer relativamente estável em 2026/27, estimado em 22,39 milhões de sacas –  um aumento de cerca de 0,5% em relação ao ciclo anterior, refletindo uma leve recuperação após retração recente causada por preços elevados ao consumidor.

Mercado

Índia: um gigante do café em ascensão

Com a Índia transformando-se rapidamente em uma grande nação consumidora de café, cafeterias, torrefações e produtores se preparam para um crescimento extraordinário

A Índia é um país em plena ascensão. Em abril de 2023, a nação do Sul da Ásia ultrapassou oficialmente a China como o país mais populoso do mundo, com 65% de seus atuais 1,46 bilhão de habitantes abaixo dos 35 anos. Com projeção de crescimento do PIB em torno de 6,6% no ano fiscal de 2025, a maior democracia do planeta segue no rumo de se manter entre as economias de grande porte que mais crescem.

Ganhando protagonismo no cenário global, executivos de origem indiana estão à frente de algumas das empresas mais valiosas e influentes do mundo. É o caso de Satya Nadella, que comanda a Microsoft, Sundar Pichai, CEO do Google e da Alphabet, e Vasant Narasimhan, da Novartis. Até 2024, Laxman Narasimhan também integrou esse grupo, ao ocupar o cargo de CEO da Starbucks.

Um país de oportunidades

Após cinco décadas de rápido desenvolvimento econômico, a sociedade indiana passa por uma mudança profunda rumo à “premiunização”. Jovens, escolarizados, viajados e cada vez mais abastados, os consumidores indianos têm adotado marcas internacionais como estilo de vida enquanto impulsionam, com a mesma intensidade, uma nova era de empreendedorismo local – e o café não fica de fora desse movimento.

“O cenário de café na Índia passou por uma transformação significativa na última década”, afirma Adrit Mishra, diretor de operações da Tata Starbucks, joint venture responsável por administrar a rede norte-americana no país. “À medida que a cultura do café cresce na Índia, a valorização por cafés premium está avançando para além das grandes metrópoles”, completa.

Presente no mercado indiano desde 2012, a Starbucks começou focada em lojas de alto perfil nos centros urbanos mais importantes. Mas, desde então, diversificou sua atuação para cidades de segundo e terceiro porte, ampliando o portfólio com unidades menores e modelos drive-thru. Em entrevista recente ao canal de notícias CNBC TV18, Brian Niccol, CEO da Starbucks, afirmou que a Índia tornou-se um dos mercados internacionais de crescimento mais rápido da Starbucks. Atualmente, a rede sediada em Seattle acelera sua expansão: em agosto, somava 480 lojas em todo o país – e pretendia chegar a 500 em novembro –, detendo cerca de 9% do mercado indiano. Também em novembro, a rede inaugurou a Starbucks Reserve na região metropolitana de Delhi – a segunda unidade Reserve da rede no país. “Os consumidores estão descobrindo as nuances do café e o papel que ele desempenha em seu dia a dia. Oferecemos cafés sazonais de diferentes origens, os melhores single origins e perfis de torra variados – temos tudo”, diz Mishra.

Uma das unidades da joint venture Tata Starbucks, no aeroporto de Bangalore

Com os indianos consumindo um valor estimado em INR 4 trilhões (US$ 53,3 bilhões) em café por ano, fica fácil entender por que as redes internacionais veem um potencial gigantesco no país. Operando no país por meio da licenciada Devyani International Ltd, a Costa Coffee, por exemplo, já tem 225 lojas em território indiano – um dos mercados prioritários da rede britânica.

Outra rede britânica, a Pret a Manger, também avança na Índia. Com a primeira loja aberta em Mumbai em abril de 2023 em parceria com o gigante varejista Reliance Brands, a rede fechou o ano de 2024 com 14 unidades – o plano é chegar a 100 lojas até 2028. Com o crescimento do consumo da bebida também em restaurantes, a Pret a Manger lançou na Índia, em abril deste ano, seu primeiro restaurante com serviço completo do mundo.

Enquanto isso, a canadense Tim Hortons investiu US$ 37 milhões para inaugurar dezenas de unidades ao ano em parceria com a AG Café – em 2023, abriu sua primeira loja em Nova Déli para longas filas de consumidores curiosos e, em agosto de 2025, já contava com 40 unidades no país.

Luxo é acessível?

Redes de café premium há muito se posicionam como um “luxo acessível” nos Estados Unidos e na Europa. Mas essa dinâmica não se repete no mercado indiano.

Para contextualizar: o salário mínimo por hora nos EUA – para trabalhadores que não recebem gorjetas – é de US$ 7,25. Dados da World Coffee Portal indicam que o preço médio de um latte em redes norte-americanas é de US$ 4,92, o que permite que mesmo trabalhadores de baixa renda consumam café fora de casa com alguma regularidade.

Na Índia, porém, redes internacionais chegam a cobrar até US$ 4 por bebida, enquanto o salário mínimo diário é de INR 178 (US$ 1,99) – o que torna o consumo fora de casa um luxo praticamente inacessível para a grande maioria.

A Starbucks lançou o tamanho “picco”, mais barato, abaixo de INR 200 (US$ 2,24) – ainda assim, um gasto elevado e difícil de competir com um copo de chai que custa apenas US$ 0,20 para a maior parte da população.

“Nos EUA e na Europa, marcas populares de café são vistas como redes ‘comuns’, mas na Índia elas são consideradas ultrapremium – há muitas barreiras de entrada para o café como produto de estilo de vida no país”, afirma Abhijeet Anand, CEO e fundador da abCoffee, uma rede de cafés especiais de posicionamento acessível, inaugurada em 2022 e que hoje soma mais de 75 lojas no país.

Anand decidiu criar a abCoffee depois de vivenciar a cultura de cafeterias europeias enquanto trabalhava na Romênia. Ao retornar à Índia, percebeu um crescimento expressivo no consumo de pacotes de café no varejo e identificou uma lacuna no mercado para lançar um conceito de cafeteria de marca com preços realmente acessíveis.

A abCoffee foca na compra de cafés especiais produzidos na Índia, e as bebidas começam com INR 77 (US$ 0,86) por um espresso e chegam a INR 127 (US$ 1,42) por um latte. A empresa consegue praticar esses preços mais baixos ao abastecer-se exclusivamente de produtores nacionais, como as fazendas Harley’s e Barbara, em Karnataka, e ao operar lojas enxutas, voltadas principalmente para take-away.

“A Índia produz muito café, mas os preços praticados no mercado interno estão no mesmo patamar do Reino Unido ou dos EUA – deveriam ser muito mais baixos –, e isso historicamente afastou muitos consumidores indianos do café fresco”, afirma Anand.

Bases sólidas para um crescimento admirável

Apesar de terem entrado no mercado indiano com preços inacessíveis para a maior parte dos consumidores, as redes internacionais de café construíram modelos de negócio viáveis ao mirar o público de alta renda do país. Impulsionadas por uma classe média em rápida expansão, essas redes – e uma nova leva de operadores domésticos – agora estão preparadas para um ciclo acelerado de crescimento.

O avanço de grandes redes internacionais de café em mercados emergentes não é novidade. Mas uma marca criada na própria Índia já demonstrava, há quase 30 anos, que a cultura do café de marca poderia prosperar no país.

Fundada em 1996 pelo empreendedor VG Siddhartha, natural de Karnataka, a Café Coffee Day foi pioneira na cultura de redes de cafeterias na Índia. Com o slogan “muita coisa pode acontecer tomando café”, a marca foi, por muitos anos, uma das únicas do país a servir bebidas à base de espresso em ambientes inspirados no conceito de “terceiro lugar”, e em escala nacional.

Em 2019, a Café Coffee Day já havia alcançado mais de 1,75 mil lojas e operava um negócio de 50 mil máquinas de autoatendimento em 243 cidades indianas, o que gerou US$ 200 milhões em receita anual – um feito impressionante em um mercado de café que, ainda hoje, é classificado como “em desenvolvimento”.

No entanto, o aparente suicídio de VG Siddhartha e a revelação de uma dívida de US$ 840 milhões naquele mesmo ano quase acabaram com a principal rede de cafeterias da Índia. A empresa fechou centenas de lojas durante a pandemia, após uma grande reestruturação. Sob a liderança de Malavika Hegde, viúva de Siddhartha, o negócio voltou a se recuperar e segue com mais de 425 lojas em operação.

Hoje em dia, uma nova geração de operadores locais atende ao público indiano emergente – consumidores muito mais viajados do que as gerações anteriores e cada vez mais inclinados a aderir a marcas associadas a estilo de vida.

Em 2023, estimativas conservadoras situavam a crescente classe média indiana em cerca de 100 milhões de pessoas. No entanto, uma pesquisa no mesmo ano do People Research on India’s Consumer Economy (Price), organização sem fins lucrativos sediada em Udaipur, concluiu que eram cerca de 432 milhões de indianos de “classe média”, definidos como aqueles com renda familiar anual entre INR 500 mil e INR 3 milhões (US$ 5.580 a US$ 33.474).

Com cerca de um em cada três indianos atualmente enquadrados nesse grupo, trata-se de uma definição ampla – mas uma faixa de renda que permite à maioria desses consumidores acessar gastos flexíveis, incluindo o consumo de café fora de casa.

Se apenas 10% desses consumidores de maior renda aderirem à cultura de café de marca, o mercado da Índia se equiparia hoje ao de um país europeu de médio porte – e está preparado para um crescimento extraordinário. Além disso, a pesquisa do Price projetou que esse grupo vai representar quase metade da população indiana, estimada em 1,46 bilhão, em 2047.

Na mesma época, o CEO da Costa Coffee, Philippe Schaillee, estimou em 20 a 25 milhões o tamanho do público indiano que “gravitava” em torno do café especial – números expressivos mesmo sob estimativas conservadoras.

“A Índia, como todos os países produtores de café dessa região do mundo, sempre foi uma economia de baixa renda. Nos últimos 10 a 20 anos, esses países se desenvolveram significativamente e agora há consumidores com renda suficiente para pagar por produtos de melhor qualidade. Isso não é apenas uma tendência no café – ocorre em todas as categorias de bens de consumo”, afirma Matt Chitharanjan, cofundador e CEO da Blue Tokai Coffee Roasters, torrefação e cafeteria de cafés especiais sediada em Gurgaon.

Fundada por Chitharanjan e Namrata Asthana em 2013, a Blue Tokai é exemplo dessa nova geração de operadores locais que elevam o padrão de qualidade enquanto valorizam os cafeicultores indianos.

Unidade da Blue Tokai em Pune

A empresa tornou-se uma das principais forças do movimento de cafés especiais na Índia e hoje opera 189 lojas em dez cidades indianas. Por meio de suas quatro torrefações – três na Índia e uma no Japão, o foco central da marca tem sido tornar o café especial indiano mais acessível, tanto no mercado doméstico quanto no exterior.

“O café indiano é subestimado globalmente. É muito raro entrar em uma cafeteria em outras partes do mundo e ver café indiano no cardápio – mas a qualidade dos grãos produzidos por nossos parceiros e torrados por nós poderia ser servida, sem qualquer problema, em qualquer cafeteria de Melbourne, Nova York ou Londres”, afirma Chitharanjan.

Hoje em dia, a Blue Tokai trabalha com uma rede de 42 produtores de café indianos e já chegou a fazer parceria com mais de 80. No entanto, a ideia de Chitharanjan e Asthana de comercializar café indiano de alta qualidade no mercado doméstico foi inicialmente recebida com ceticismo. Como Asthana descreve, um agricultor de café indiano que eles abordaram inicialmente rejeitou a ideia de vender seu produto.

Made in Índia

abCoffee, Blue Tokai e Subko estão explorando o enorme potencial do café produzido na Índia. A estratégia, economicamente, faz sentido – reduz custos de importação – e, ao mesmo tempo, alinha-se a um forte sentimento de orgulho nacional em torno de marcas locais. Em outubro de 2021, o primeiro-ministro Narendra Modi usou um pronunciamento nacional para incentivar a população a ser “vocal for local” (“valorizar o que é local”, em tradução livre) e priorizar produtos fabricados no país.

Interior da Subko Specialty Coffee Roasters

Quando o assunto é café, a Índia dispõe de recursos consideráveis. Dados do governo indiano apontam que a produção nacional atingiu 374,2 mil toneladas no ano safra 2023/24, volume que coloca o país na sétima posição entre os maiores produtores globais. Cerca de 70% desse total vem do estado de Karnataka, no sudoeste, e toda a cadeia emprega aproximadamente dois milhões de pessoas. Até 80% da produção segue para mercados de exportação de commodities.

Encravado entre as florestas densas de Andhra Pradesh, no leste do país, o Vale de Araku vem se consolidando como um pólo de cafés especiais. O estado produz hoje uma fração da safra indiana – cerca de 14,6 mil toneladas –, mas o cultivo de arábica de alta qualidade na região é considerado estratégico para reposicionar a Índia no mercado global de café.

A produção de café na região integra a iniciativa “One District, One Product” (ODOP, cuja tradução livre é “um distrito, um produto”), que oferece apoio governamental a produtos únicos e de alta qualidade produzidos nos 28 estados da Índia. Seja a cúrcuma de Lakadong, as nozes da Caxemira ou as mangas de Gujarat, “cada distrito na Índia destaca um produto para ser promovido no mercado doméstico e internacional”, afirma Randhir Jaiswal, cônsul-geral do Consulado da Índia em Nova York.

No ano fiscal 2024/25, a exportação total de café da Índia passou de US$ 1,80 bilhão – um salto significativo, se comparado aos US$ 719,42 milhões em 2020/21 e US$ 1,15 bilhão em 2022/23.

Como explica Jaiswal, o café é uma peça importante no desenvolvimento econômico da Índia. Embora muitos consumidores no Ocidente já tenham experimentado café indiano em blends populares, solúveis e cápsulas, o consulado em Nova York vem promovendo cafés de origem única e especiais nos mercados internacionais.

“Exportávamos US$ 1 milhão para os EUA em 2019/20 – mas, em 2022/23, chegamos a US$ 61 milhões”, diz Jaiswal, sobre o crescimento da produção de cafés especiais na Índia dois anos atrás. A contribuição econômica do café para o país é evidente, mas as exportações de alta qualidade também têm ajudado a tirar da pobreza comunidades tribais historicamente de baixa renda no Vale de Araku. Grande parte desse trabalho é conduzida pela organização indiana sem fins lucrativos Naandí Foundation, que há 25 anos atua na promoção de práticas de agricultura regenerativa, no incentivo ao empreendedorismo e na ampliação do acesso à educação, especialmente para mulheres e meninas.

“O objetivo é agregar valor ao café dos produtores e garantir a eles o melhor preço. O melhor disso é que a maior parte da renda vai para pequenos agricultores, produtores com pouca terra e comunidades tribais que precisam de apoio – e isso tem um enorme impacto socioeconômico na base. Por todas essas razões, o café se tornou algo muito especial”, afirma Jaiswal.

Membro da Blue Tokai colhendo café em Karnataka

Uma ascensão irrefreável

A força da Índia no cenário global vem crescendo, como ficou claro ao sediar a World Coffee Conference 2023, em Bengaluru. Coordenado pela Organização Internacional do Café (OIC) em parceria com o Coffee Board of India, o primeiro evento de café da Ásia, realizado ao longo de quatro dias, reuniu representantes dos 75 países-membros da OIC, mais de 1,5 mil delegados inscritos e 10 mil visitantes de negócios de várias partes do mundo.

Do mundo da moda à gastronomia, das viagens à tecnologia, os consumidores indianos, cada vez mais numerosos, buscam experiências de estilo de vida premium muito além do café. Em meio a uma onda crescente de otimismo nacional, o empreendedorismo local tornou-se um forte atrativo para a juventude do país, que hoje lidera a rápida transformação da indústria de cafés especiais na Índia.

Aproveitando esse momento, é apenas uma questão de tempo até que essas empresas locais comecem a deixar sua marca na Europa e nos Estados Unidos.

“Café não é apenas uma bebida, é uma conversa e parte de nossa cultura”, afirma o cônsul-geral Randhir Jaiswal. Quando se trata das ambições cafeeiras da Índia, parece que o céu é realmente o limite para esse gigante emergente.

Reportagem publicada na edição de janeiro de 2024 da 5thWave e atualizada pela Espresso com números e valores de novembro de 2025.

TEXTO Tobias Pearce (5THWAVE)

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29ª Expocafé começa hoje (26) e movimenta o setor cafeeiro em Três Pontas

Com organização da Cocatrel e Espresso&CO, evento traz programação técnica, demonstrações de tecnologias, debates sobre mercado e exposição de estandes com empresas do setor

Por Gabriela Kaneto, de Três Pontas (MG)

A 29ª edição da Expocafé, realizada entre os dias 26 e 28 de maio, no Aeroporto de Três Pontas (MG), reforça seu posicionamento como uma das principais feiras da cafeicultura nacional. Em mais um ano, a Espresso&CO, um ecossistema de marcas do setor do café, está à frente da organização e promoção da feira ao lado da Cocatrel.

“Estamos aqui no primeiro dia da 29ª Expocafé. Essa é a maior edição, com 170 expositores e dois quilômetros de feira”, comenta Jacques Miari, presidente do conselho administrativo da Cocatrel. “Temos programação para a família toda, além de tenda de eventos, com três dias de palestras sobre reforma tributária, gestão de pessoas, tendências inovadoras como tratores autônomos e elétricos, agricultura regenerativa”, complementa.

Reunindo produtores, empresas, especialistas e lideranças do setor e mais de 170 estandes expositores, o evento apresenta as principais tendências, tecnologias e debates voltados ao agronegócio café. Neste primeiro dia, a programação geral traz conteúdos sobre gestão de riscos, orientações para a safra 2026, perspectivas econômicas e políticas, a importância do agrônomo e os impactos da reforma tributária para o produtor. Já na grade do Simpósio de Mecanização da Lavoura, alguns dos assuntos abordados são pulverização com drone e mecanização eletrificada.

“É uma satisfação trabalhar em mais uma edição da Expocafé ao lado da Cocatrel, contribuindo para um evento que conecta inovação, tecnologia e conhecimento ao produtor rural. Em uma região tão tradicional e estratégica para a cafeicultura, a feira se consolida como um espaço fundamental para apresentar soluções, tendências e informações relevantes para o setor”, diz Caio Fontes, CEO da Espresso&CO.

A 29ª Expocafé é realizada pela Cocatrel, com patrocínio ouro do Crea-MG, patrocínio prata da Unimed, Sicoob, Cemig e Governo de Minas, e patrocínio bronze de Anysort, Basari, Biomix, NetZero e Giro. A organização é da Cocatrel, Ufla e Prefeitura de Três Pontas, com apoio de W Outdoor, Rede Mais, Record e EPR Vias do Café. Promoção e organização é da Espresso&CO.

Confira mais sobre o evento no @cafepointbr.

TEXTO Gabriela Kaneto • FOTO Expocafé

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Safra recorde, regulação e tensões internacionais marcam o último dia do Seminário Internacional do Café de Santos

Painéis sobre comércio exterior, oferta e demanda e os impactos da geopolítica reuniram lideranças do setor em Santos (SP), com destaque para projeções otimistas da safra brasileira e debates sobre agregação de valor ao café nacional

Por Gabriela Kaneto, de Santos (SP)

Produtores, exportadores, pesquisadores, especialistas e representantes da indústria cafeeira se reuniram em Santos (SP), entre 19 e 21 de maio, para acompanhar a 25ª edição do Seminário Internacional do Café, realizado pela Associação Comercial de Santos.

A programação do último dia do evento contou com debates importantes. Um deles foi o “Painel regulatório”, com com Marcos Matos (Cecafé), Bill Murray (National Coffee Association of USA), Kevin Lardner (Rainforest Alliance) e Augusto Billi (Ministério da Agricultura e Pecuária). Os debates giraram em torno das tarifas impostas pelo presidente Trump, reafirmaram a importância da educação do consumidor sobre os cafés do Brasil e o reposicionamento da União Europeia quanto à EUDR, ao simplificar e diminuir os custos da compliance na regulamentação. 

Outro destaque foi a palestra sobre geopolítica “O fim da hiperglobalização e o Brasil”, do economista Eduardo Giannetti, que explorou as tensões políticas atuais e destacou como esse contexto pode ser uma janela de oportunidades para o Brasil no processo de desglobalização. Potenciais do país, como sua matriz de energia limpa e como player global na produção de alimentos e de reserva de minerais raros são uma vantagem competitiva que o Brasil, deveria usar para se reposicionar globalmente. Além disso, a estratégia do país deve ser a de uma economia mais aberta, aumentando a sua importação e sua exportação de bens manufaturados. “No café, vamos vender menos in natura e mais café processado e industrializado no Brasil, para agregar valor”, pontuou. 

O vice-presidente da Associação Comercial de Santos, Carlos Santana, conduziu o painel “Supply & demand”. Os convidados Claudio Delposte (Rabobank) e Oscar Schaps (StoneX) forneceram estimativas de colheita, clima e consumo de café no Brasil e no mundo, além de questões de logística e volatilidade dos preços internacionais e expectativas das próximas safras nos principais países produtores.

As duas consultorias apostam em uma safra brasileira acima dos 70 milhões de sacas – 73,2 (Rabobank) e 75,3 (StoneX) –, com o arábica alcançando 48,7 milhões de sacas (Rabobank) e 50,2 (StoneX), e o canéfora,  24,6 (Rabobank) e 25,1 milhões de sacas (StoneX). Assim, ambas projetam um superávit do volume de consumo entre 8 e 10 milhões de sacas no mundo.

TEXTO Gabriela Kaneto

Mercado

Consumo de café cresce 2,44% de janeiro a abril 

Vendas no varejo somaram 4,91 milhões de sacas no quadrimestre, segundo a ABIC; indústria vê recuperação gradual após período de pressão sobre oferta e preços

Por Cristiana Couto

Entre janeiro e abril, as vendas de café brasileiro no varejo cresceram 2,44%, informou nesta quinta-feira (21) a Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC). O avanço corresponde a 4,91 milhões de sacas, ante 4,79 milhões no mesmo período de 2025 — ano em que o consumo havia registrado retração de 5,13% em relação a 2024. O resultado representa um sinal relevante de recuperação para o setor.

“Os dados mostram mudança constante, especialmente a partir de março, quando o consumo melhorou de maneira mais forte”, afirmou o diretor-executivo da Abic, Celírio Inácio, em coletiva de imprensa, ao comentar o aumento de 10,25% registrado naquele mês. Em abril, a alta foi de 3,66%.

Embora o crescimento ainda não compense totalmente as perdas do ano passado, o movimento traz alívio para a indústria e o varejo. “Não podemos falar ainda em recuperação total do mercado, pelos desafios relevantes enfrentados nos últimos meses. Mas, com a melhora gradual do abastecimento de matéria-prima, a expectativa de maior volume de produção, a ausência de notícias climáticas desfavoráveis e maior estabilidade do mercado, há sinais de retomada da confiança”, avaliou.

O faturamento da indústria de café torrado — formada por cerca de 1.050 empresas no país — alcançou R$ 46,24 bilhões em 2025, alta de 25,6% frente a 2024, impulsionada pelo aumento dos preços nas gôndolas.

Segundo a ABIC, o abastecimento de matéria-prima para a indústria retomou um ritmo considerado normal. A situação havia se tornado “crítica” a partir do fim de 2024 e ao longo de 2025, devido às dificuldades de acesso ao produto.

Entre as categorias, os preços continuam elevados em alguns segmentos. O café descafeinado acumulou alta de 21% entre abril de 2025 e abril de 2026, alcançando R$ 114,93 por quilo, enquanto os cafés especiais avançaram 16,89%, para R$ 161,26/kg.

Outras categorias registraram queda. O tradicional/extraforte passou para R$ 55,34/kg (-15,51%), o superior caiu para R$ 70,37/kg (-12,65%) e as cápsulas, segmento com maior valor agregado, recuaram 9,49%, para R$ 364,16/kg.

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LAP Coffee, de Berlim, é exemplo de polarização na Alemanha

Com cappuccinos a € 2,50 e modelo baseado em retirada rápida, rede desperta críticas e protestos em meio à piora do cenário econômico alemão 

Clientes na cafeteria LAP, em Berlim, Alemanha. Foto: Reuters

Reuters, de Berlim

Há três anos, quando Ralph Hage lançou a LAP Coffee em Berlim com a missão de levar cafés baratos à capital da Alemanha, ele mal imaginava a reação negativa que seus cappuccinos de € 2,50 (US$ 2,91) provocariam.

Embora a startup esteja conquistando consumidores preocupados com os gastos, ela também dividiu os berlinenses, gerando uma campanha online chamada “LapCoffeeScheisse” (“Lap Coffee é uma porcaria”, em tradução livre) e uma onda de vandalismo que, em outubro passado, deixou muitas das lojas de retirada rápida, originalmente pintadas de azul e branco, cobertas de tinta vermelha e pichações com a frase “Boicote à Lap”.

Porém, ignorando os críticos, a LAP – que opera 30 lojas em Berlim, Munique e Hamburgo –, avança pelas maiores cidades da Alemanha, com planos de abrir mais 20 unidades neste ano, mirando Colônia, Düsseldorf e Frankfurt, disse Hage à Reuters.

“Há uma bipolarização de tudo, não apenas do café”, disse Hage, que se mudou de Nova York para Berlim há sete anos. “Isso é apenas uma representação do que a Alemanha está atravessando neste momento enquanto economia, sociedade e país.”

A maior economia da Europa ainda lutava para recuperar o ritmo pré-pandemia quando a guerra com o Irã elevou os preços, adiando mais uma vez uma recuperação há muito esperada. Conhecidos por serem econômicos, os alemães passaram a vigiar seus gastos ainda mais de perto.

Em meio a essa ansiedade econômica, a LAP — sigla para Life Among People (Vida Entre Pessoas) — apresenta-se como um espaço de previsibilidade de preços em tempos incertos.

“Os contratos futuros do café caíram 8,3%, a inflação subiu 2,3%. Os mercados mudam, nossos preços não”, diz um painel, semelhante aos do mercado financeiro, situado na homepage da empresa.

Mas o modelo de negócios da LAP e sua rápida expansão, apoiada por fundos de investimento privados, deixam muitos alemães divididos, afirmou à Reuters Michael Burda, professor de economia da Universidade Humboldt, de Berlim. “É compreensível que as pessoas tentam economizar em todos os lugares”, disse ele. “Acho que elas são mais contrárias ao aspecto corporativo que isso representa (…). É como uma ‘McDonaldização’ do negócio de cafeterias.”

“Café com bolo” X retirada rápida

As tradicionais cafeterias de café e bolo de Berlim evoluíram nos últimos anos para ambientes descontraídos e modernos, onde os clientes podem permanecer por horas tomando bebidas especiais preparadas habilmente pelo grande contingente de baristas da cidade.

Mas essa cultura tem um preço. A torrefação berlinense 19grams, que opera diversas cafeterias pela cidade, cobra € 4,20 (US$ 4,89) por um cappuccino pequeno e € 5,20 (US$ 6,06) por um grande. A 19grams também fornece grãos para a LAP.

“Nas minhas lojas, uma bebida semelhante custa significativamente mais — não por causa do café em si, mas porque tudo ao redor é consideravelmente mais caro”, disse o proprietário Gerrit Peters, da 19grams. Dois fatores compõem grande parte desses custos adicionais: serviço e aluguel.

A estratégia da LAP é o que Hage chama de modelo de microvarejo: lojas pequenas, equipe reduzida e café para viagem em áreas de grande circulação. Ao reduzir os custos por xícara e depender de alta rotatividade em espaços pequenos, a LAP aposta que conveniência e volume podem superar a fórmula tradicional das cafeterias, baseada em longas permanências e tíquete médio maior.

Sentado em uma cafeteria no bairro de Prenzlauer Berg, no leste de Berlim, Ben Jones, professor de inglês natural de Carlisle, Inglaterra, disse que a LAP jamais substituirá seu café dominical com amigos. “Mas, em um momento em que os preços parecem só aumentar em todas as áreas, os preços acessíveis da LAP são uma bênção para minha conta bancária”, disse ele.

Dividindo os berlinenses 

Ainda assim, alguns moradores de Berlim veem o modelo de retirada rápida da LAP como uma ameaça à cultura do café da cidade, com críticos alertando que cafeterias tradicionais não conseguem competir em preço.

No descolado bairro de Kreuzberg, Nikita Jung e uma amiga saíram de uma unidade da LAP Coffee sem comprar nada depois de um súbito sentimento de culpa. “Nós pensamos nisso. Vale mesmo a pena tomar um café barato se isso significar que pequenos cafés podem deixar de existir por causa disso?”, disse ela à Reuters.

Os críticos também argumentam que o apoio de capital de risco significa que a LAP não sofre pressão para gerar lucro no curto prazo, permitindo que ganhe participação no mercado por meio de uma rápida expansão.

A LAP concluiu, de fato, duas rodadas de investimento. Mas isso, segundo Hage, aconteceu somente depois que bancos alemães rejeitaram sua ideia, levando-o inicialmente a recorrer a familiares e amigos em busca de capital.

“O fracasso dos mercados de capital alemães não é que o capital de risco seja excessivamente dominante; é que os bancos locais são extremamente conservadores”, afirmou Burda, da Universidade Humboldt.

Conforme avança com seu plano de expandir a LAP Coffee pela Alemanha, Hage acha graça quando ouve falar do medo de que ele possa dominar o mercado, e refere-se às cerca de 11 mil cafeterias existentes no país. “Se abrirmos duas lojas por mês, levaríamos 450 anos para monopolizar o café na Alemanha.”

TEXTO Reuters • FOTO Reuters/Nadja Wohlleben

Mercado

Andrea Illy diz que agricultura regenerativa virou prática geral em Minas Gerais

Durante as comemorações dos 35 anos do Prêmio Ernesto Illy no Brasil, o empresário italiano destacou a expansão da agricultura regenerativa, o avanço de novas áreas cafeeiras e a capacidade do país de enfrentar a crise climática, embora veja um cenário global ainda cercado de incertezas

Andrea Illy

Por Cristiana Couto

Horas antes de conduzir a tradicional premiação anual dos melhores grãos brasileiros que compõem os produtos da illycaffè, Andrea Illy, presidente da torrefadora italiana, comemorou durante coletiva de imprensa realizada em São Paulo, na quinta-feira (7): “A agricultura regenerativa, em menos de 10 anos, se tornou universal, pelo menos em Minas”.

A reflexão do empresário sobre a cafeicultura brasileira – a partir de Minas Gerais e de São Paulo, de onde sai boa parte do café verde nacional usado pela marca –, provocada pela reportagem da Espresso no encontro com os jornalistas, foi feita na esteira do aniversário do Prêmio Illy de Qualidade Sustentável do Café para Espresso, que teve sua 35ª edição no país em que foi criado (e que hoje também acontece em mais nove países). 

A Minas Gerais a que ele se referiu é, precisamente, regiões do Sul de Minas, Cerrado Mineiro e Matas de Minas. Segundo Illy, a agricultura regenerativa trouxe benefícios aos produtores de todas as ordens — qualidade, lucro e produtividade —, além da resiliência à crise climática, tema que percorreu sua fala, entre perguntas de cunho econômico e geopolítico. 

O empresário também destacou a crescente adoção da compostagem de resíduos e da produção de biocompostos, referidos por ele em português como “compostos”: “A produção de compostos agora, é uma prática quase geral, pelo menos em Minas, o que permite baixar muito o custo de insumos”.

“O futuro do café depende diretamente da saúde do solo e da capacidade de tornar os sistemas produtivos mais resilientes”, ensina ele, que desde os anos 2000 investe em sustentabilidade.

Quanto ao cenário global, Andrea Illy é enfático ao alertar para um “risco climático estrutural”, que, ao lado dos preços elevados, gera um cenário “delicado” e sujeito a crises de preços. 

Considerado por ele um modelo global de produção de café, o Brasil tem vantagens e desafios. “A vantagem estratégica do Brasil é que há produção de café em diferentes estados, com diferentes climas, e um pode compensar o outro. O desafio é a consistência [de qualidade] ao longo do tempo”, acredita. 

Mas os cafés menos atingidos pelas mudanças do clima são, para ele, os de qualidade – que perfazem apenas 2% do mercado mundial. “Muitas vezes, as áreas produtivas para os cafés de alta qualidade, com maior altitude, são as mais protegidas. Consequentemente, o risco é menor”, avalia Illy.

Ainda sobre o desenvolvimento das regiões brasileiras de café que visita anualmente há mais de 30 anos, o empresário afirmou ter observado investimentos em novas variedades e visitado novas áreas produtoras no interior do estado mineiro. “Nós observamos o maior número de sequências de preços mais altos e mais atrativos para crescer a produção. Tem mais gente investindo, cultivando novas plantas”, comenta. “No interior de Minas Gerais, tem novas áreas que estão crescendo de maneira dinâmica, como o triângulo [Mineiro], que visitamos agora também”, completa ele.

Illy também concordou com o comentário de Anna Illy, presidente da Fundação Ernesto Illy e membro do Conselho Administrativo da illycaffè, que participou da coletiva, sobre o aumento da permanência de jovens nas fazendas de café.

Em meio aos preços historicamente elevados do café e à instabilidade climática global, Andrea Illy afirmou que o setor ainda convive com incertezas capazes de sustentar a volatilidade do mercado, mesmo diante da expectativa de uma safra maior. Segundo ele, há mais de 90% de probabilidade de formação de um “super El Niño” no segundo semestre. “Ninguém pode prever os efeitos”, disse. “Esses elementos representam pontos de interrogação para a produção futura e para o mercado”, ressaltou. O executivo ponderou, porém, que episódios anteriores do fenômeno climático não impediram uma boa produção brasileira.

Ainda assim, Illy avalia que “o custo do café este ano será maior do que a média do ano passado, mas a rentabilidade [da illycaffè] deve ser normalizada”.

Os vencedores do prêmio da illycaffè

Nesta edição, Minas Gerais destacou-se mais uma vez ao conquistar os três primeiros lugares entre os 40 finalistas selecionados pela comissão julgadora, formada por especialistas nacionais e internacionais da illycaffè. 

Vencedores do 35º Prêmio Ernesto Illy de Qualidade Sustentável do Café para Espresso e executivos da illycaffè

Agro Fonte Alta (Sul de Minas), Raimundo Dimas Santana Filho (Matas de Minas) e São Mateus Agropecuária (Cerrado Mineiro) receberam prêmios de R$ 10 mil cada e garantiram vaga na disputa do 11º Prêmio Internacional de Café Ernesto Illy, que será realizado no segundo semestre, ainda sem local definido.

A classificação final entre primeiro, segundo e terceiro lugares será anunciada durante a premiação internacional.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Divulgação

Mercado

Nestlé confirma venda da Blue Bottle para acionária da Luckin Coffee

Estratégia faz parte de de reposicionamento da empresa em negócios escaláveis e café, com redução do portfólio e corte de empregos

A Nestlé confirmou a venda da Blue Bottle Coffee para a Centurium Capital Partners, empresa de private equity chinesa e maior acionista da Luckin Coffee. O valor da venda não foi divulgado, e o negócio está previsto para ser concluído neste primeiro semestre, conforme anúncio da multinacional divulgado em seu relatório de vendas trimestrais no fim de abril.

A Nestlé adquiriu participação majoritária na Blue Bottle Coffee em 2017 por cerca de US$ 425 milhões, mas a expectativa do mercado é de que o valor desta próxima venda seja bem menor do que os US$ 700 milhões que a Blue Bottle vale atualmente – especialistas arriscam US$ 400 milhões. 

Notícias recentes informam que a transação inclui os cafés da Blue Bottle e a maior parte de seu negócio em bens de consumo, enquanto a Nestlé manterá direitos sobre as cápsulas da marca.

A venda da Blue Bottle Coffee, com mais de 100 lojas nos EUA e na Ásia, é parte da estratégia de reestruturação da Nestlé, que inclui a redução do portfólio e o foco em marcas globais de maior alcance, particularmente no setor de café, onde Nescafé e Nespresso impulsionam seu crescimento. 

No ano passado, o conglomerado suíço revisou, por exemplo, suas marcas de vitaminas, como a Puritan’s Pride, e, em fevereiro, anunciou sua saída do mercado de sorvetes, e, parcialmente, do negócio de água engarrafada – são dela as marcas Perrier e San Pellegrino, cujo acordo de vendas gira em torno de US$ 5,75 bilhões, segundo informou a Reuters.

A maior empresa de alimentos do mundo também planeja reduzir custos. Em outubro de 2025, o CEO da Nestlé, Philipp Navratil, anunciou o corte de 16 mil empregos como parte de um plano para reestruturá-la. Dias atrás, o sindicato britânico GMB afirmou o corte de 450 empregos no Reino Unido.

O café, porém, continua sendo uma área importante para a Nestlé. Mesmo com queda de 5,7% nas vendas no primeiro trimestre do ano em relação a 2025, a categoria registrou vendas de US$ 7,6 bilhões no período, um valor considerado estável em comparação ao mesmo período do ano anterior, e cresceu 9,3%, superando os demais segmentos. 

O plano de reestruturação concentra-se em quatro pilares principais — café, cuidados com animais de estimação, nutrição e alimentos e snacks. 

Expansão nos EUA

Criada em 2017, a Luckin acaba de abrir, em fevereiro, sua loja número 30 mil, em Shenzen, na China, onde está presente em mais de 300 cidades, além de ter unidades em Singapura, Malásia, Hong Kong e Estados Unidos.  

A transação, portanto, reforça a presença da Centurium na América do Norte, onde existem mais de 70 unidades da Blue Bottle. A aceleração de crescimento da Luckin é atribuída à entrada da Centurium no negócio, em 2022. Uma das novidades recentes é a abertura de um centro de torrefação da rede na cidade chinesa de Qingdao, considerado o maior do país.

TEXTO Fontes: CNN, Reuters, Perfect Daily Grind, Daily Coffee News, Los Angeles Times, FoodNavigator.

Mercado

Café especial ganha força na França e muda reputação histórica do país

Em um país de tradições culinárias e culturais mundialmente famosas, a qualidade do café costuma ser notícia na França — mas, muitas vezes, pelas razões erradas. Porém, os tempos estão mudando. A 5thWave conversou com a nova geração de artesãos que está aproveitando a profunda herança francesa de gastronomia, terroir e savoir-faire para inaugurar uma nova era de excelência no café especial.

Por Tobias Pearce

Poucas coisas são tão importantes para os franceses quanto a excelência culinária – tanto que, em 2010, a gastronomia francesa e suas tradições foram reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. Mas, em um país onde a alta gastronomia é tratada como arte, o café costuma ser uma decepção amarga.

A cultura dos cafés na França pode até ser lendária, mas, como explica Christophe Servell, fundador da inovadora cafeteria e torrefação parisiense Terres de Café, “os franceses não estão acostumados com café bom, mas com café queimado”. Mesmo assim, os tempos estão mudando, e a França está desenvolvendo rapidamente uma abordagem única para o café especial, guiada por sua profunda conexão cultural com a terra, a agronomia e os métodos artesanais de produção.

Inaugurada em 2009, a Terres de Café pertence a uma das primeiras comunidades de negócios voltadas ao café especial – juntamente com Coutume, L’Arbre à Café e Lomi – que desafiaram o status quo do espresso de baixa qualidade servido como mero complemento da refeição.

Fundamentada nos princípios da gastronomia, do terroir, do respeito ao produto e da expertise, a Terres de Café torra cerca de 350 toneladas de café especial por ano e opera 11 lojas em Paris, além de unidades em Lille, Versalhes e até Seul, na Coreia do Sul. O negócio evoluiu bastante desde 2009, quando “não havia mercado para café especial na França”, recorda Servell.

A ascensão do café especial no país acontece em um momento em que muitos dos tradicionais estabelecimentos de hospitalidade franceses estão em declínio. “Assim como os pubs britânicos ou os diners americanos, há uma verdadeira crise dos cafés em Paris, onde dez novas cafeterias abrem enquanto dez cafés tradicionais fecham”, observa ele.

Estima-se que nos últimos 25 anos Paris tenha perdido cerca de 500 cafés e bistrôs tradicionais, restando hoje algo como 1.400 desses estabelecimentos. Esse encolhimento se deve, em parte, à mudança nas expectativas dos consumidores franceses, cada vez mais críticos quanto à preferência nacional por cafés commodities de torra escura. “O espresso sempre fez parte da refeição francesa, mas era mais por seu suposto efeito revigorante do que por prazer. Isso fez com que o café fosse subvalorizado como parte da experiência gastronômica”, afirma o australiano Tom Clark, fundador do grupo de cafeterias parisiense Coutume.

Ofício e precisão: latte art na Terres de Café

Clark apaixonou-se por Paris e por sua mundialmente famosa cultura de cafés quando era estudante de intercâmbio em direito. Mas logo percebeu que o café da cidade não tinha a joie de vivre (alegria de viver) à qual ele estava acostumado em casa. “Até pouco tempo, não havia propriamente uma cena de cafés na França. Não existia a noção de complexidade sensorial ou de diversidade”, diz ele.

A Coutume, que significa “costume” ou “hábito”, foi a primeira em Paris a instalar uma torrefação de cafés especiais no interior de uma loja de varejo ao abrir suas portas em 2011. Para mostrar como o mercado evoluiu, hoje cerca de 45% da receita da Coutume vem de 350 contas de food service, incluindo fornecimento de máquinas e manutenção, e o restante é gerado por suas dez cafeterias. “Saímos de um conceito de nicho, talvez um pouco estranho e anglófono, para algo plenamente adotado – ao menos em Paris”, afirma Clark.

Responsável por cerca de três quartos de todo o café especial vendido na França, a Belco – empresa que comercializa cafés sustentáveis e biodinâmicos – é outro nome que tem reconfigurado a relação dos franceses com o café. Fundada em 2007 por Nicolas e Alexandre Bellangé, a Belco produziu 6 mil toneladas de cafés com alta pontuação em 2024, sendo que cerca de 70% se destinam ao mercado francês e os 30% restantes são exportados para a Europa e o Oriente Médio.

Os negócios vão bem, mas conquistar o público francês não foi tarefa simples. “Os franceses têm muito orgulho de sua comida e da agricultura, mas nem sempre estão abertos à mudança. Leva tempo para mudar mentalidades, mas o café especial na França hoje é mais do que um nicho”, diz Laure Jubert, diretora de relações estratégicas e experiências de produto da Belco.

Esse sentimento é compartilhado por Line Cosmidis, diretora de vendas de cafés especiais da britânica Falcon Coffees. Francesa radicada no Reino Unido, ela observa que, ironicamente, a forte tradição de consumo da bebida na França pode ter dificultado a valorização do produto. “A França é um país com cultura de café, enquanto o Reino Unido sempre foi mais voltado ao chá. Como o café já era um pilar cultural do país, mudar hábitos levou mais tempo – um pouco como acontece no mercado italiano”, afirma.

Ainda assim, com a mudança de mentalidade, especialmente entre consumidores mais jovens, Cosmidis diz que a França é hoje um dos mercados que mais crescem para a Falcon, com sede no Reino Unido. “Agora há mais ênfase no produto em si, e não apenas no contexto social em torno do café”, conclui.

Antigas tradições, novas tendências

Embora historicamente alguns elementos da tradicional culinária francesa possam ter limitado a adoção do café especial, muitos chefs e donos de restaurantes do país estão adotando novas maneiras de servir a bebida.

Quando Servell abriu sua primeira cafeteria em Le Marais, a demanda inicial foi baixa entre os consumidores, para quem o café especial era um conceito desconhecido. A Terres de Café começou como fornecedora do grão para restaurantes parisienses, mas hoje o maior canal de distribuição do negócio é o fornecimento de café para escritórios, seguido por hotéis, com os restaurantes representando uma parcela importante porém bem menor do negócio. De fato, 60% do volume de vendas da Terres de Café são para clientes B2B. “Entre os primeiros a entender a mensagem estavam os chefs e donos de restaurantes em Paris – é graças a eles que o café ainda está vivo”, acredita.

A trajetória do café especial na França também é profundamente influenciada por outra obsessão nacional: o vinho. Para Hippolyte Courty, fundador da L’Arbre à Café, com sede em Paris, as sinergias entre café especial e vinho despertaram uma nova paixão pela torrefação artesanal e pelo terroir. “O café especial é como o vinho – o sabor vem da agricultura”, afirma Courty, explicando porque o terroir e a agricultura são fundamentais para a missão da L’Arbre de criar uma “nova arte francesa do café” baseada no equilíbrio, na complexidade e em um retrogosto longo e fresco – assim como o vinho.

À esquerda, Hippolyte Courty com as sommelières Paz Levinson e Pascaline Lepeltier na Finca Mariposa, do L’Arbre à Café, no Peru. À direita, preparo de café coado na L’Arbre à Café, em Paris

Atualmente, a L’Arbre opera cinco cafeterias em Paris, administra sua própria fazenda de 35 hectares, a Finca Mariposa, no Peru, e importa diretamente 90% de todo o café que vende, proporcionando uma verdadeira experiência da fazenda à xícara. “Descobri o café especial e decidi fundar a L’Arbre para criar uma torrefação de café orgânico e biodinâmico de alta qualidade. Percebi que havia coisas fabulosas acontecendo com o café nos EUA, Reino Unido, Escandinávia e Austrália – em todos os lugares, exceto na França”, acrescenta Courty.

Assim como a França tornou famosas suas 11 principais regiões vinícolas com o sistema de Denominação de Origem Controlada (AOC, abreviação de Appellation d’Origine Contrôlée, no original), Cosmidis, da Falcon, acredita que há uma tremenda oportunidade para os torrefadores franceses liderarem um novo movimento de café especial focado no terroir.

“Definitivamente, há uma oportunidade para o mercado de café francês se tornar mais internacional”, afirma. “Vinho, culinária, chefs, todas essas coisas pelas quais os franceses são conhecidos estão se infiltrando no mercado de café. Há uma enorme oportunidade que não foi totalmente aproveitada”, afirma.

Ao comparar a uva e o grão, Jubert, da Belco, observa que, embora muitas das principais vinícolas francesas tenham reduzido a produção em meio à queda da demanda doméstica e internacional, aquelas focadas em boas práticas agrícolas e processos naturais são agora as mais bem-sucedidas. Ela acredita que a indústria cafeeira francesa poderia seguir uma trajetória semelhante.

“O café especial tem muitas ligações com o mercado gastronômico. Sommeliers poderiam ser treinados para selecionar um bom café. Acredito que esse seja o futuro, e ele está mais próximo do que imaginamos”, afirma.

Muitos artesãos tornam o trabalho leve

Ao ouvir feedbacks e conversas de clientes em suas cafeterias, Clark observou mudanças nas atitudes dos franceses em relação à bebida. Se a Coutume costumava aplicar uma torra mais escura aos grãos para atrair os hesitantes apreciadores de café especial, atualmente, afirma Clark, sua demanda por café no estilo italiano está diminuindo.

Interior da Coutume, na Galeries Lafayette

“Houve uma mudança radical, e as pessoas agora querem consumir de forma autêntica, em vez de serem afastadas por diferentes condicionamentos e canais de distribuição. Há também um segmento mais amplo em busca de uma experiência de alto nível, disposto a pagar um pouco mais por um nanolote ou uma cofermentação exclusiva”, observa ele.

Courty, da L’Arbre, também vê a diversificação do mercado francês de cafés especiais e a busca dos consumidores por novas experiências. “Há dez, quinze anos, ninguém em Paris queria comer ou beber andando na rua, eles queriam sentar-se à mesa ou no balcão. Agora, vemos pessoas caminhando com copos de café para viagem.”

Essa mudança de mentalidade pode representar uma oportunidade significativa para o considerável mercado de padarias e cafés da França. “A boulangerie e a pâtisserie são uma nova fronteira para o café como um mercado para viagem. Os lanches representam cerca de 30 a 50% dos negócios de padaria atualmente, e as bebidas quentes fazem parte disso”, diz Courty. Um dos maiores clientes atacadistas da L’Arbre é o aclamado pâtissier Pierre Hermé, que agora serve cafés especiais em suas 60 lojas pela Europa e Japão.

Dito isso, quando o assunto é café, Paris ainda tem um longo caminho a percorrer antes de atingir o nível de capitais europeias como Londres e Berlim. Após organizar um tour recente por cafeterias para avaliar a situação do mercado, Courty relata que cerca de cinco dos 30 estabelecimentos visitados por sua equipe serviam o que ele considerou um café especial “muito bom”. “Os outros se concentraram mais no estilo de vida, o que me mostrou que as pessoas não vêm apenas pela qualidade da bebida, mas pela qualidade da experiência completa”, diz ele.

Além da cidade-luz

É evidente que o mercado de café parisiense passa por um período de rápida premiunização, mas será que o café especial conseguirá se infiltrar no restante do país? Para Courty, há sinais encorajadores. “Paris é o epicentro do café especial na França, mas também há crescimento em Bordeaux, Lille e Lyon. Em Limoges, uma cidadezinha no centro do país, um amigo meu abriu uma cafeteria e torrefação de cafés especiais chamada La Fabrique du Café”, conta ele.

Exposição de produtos na loja Terres de Café Daguerre, em Paris

Os locais de trabalho também se tornaram embaixadores improváveis do café ​especial na França, principalmente porque muitos empregadores buscam atrair trabalhadores remotos de volta ao escritório. “O mercado corporativo está passando por uma grande mudança, uma guinada completa, deixando de apostar em cápsulas para apostar em grãos”, diz Clark, cujo empreendimento mais recente é um bem sucedido negócio de café corporativo.

Jubert, da Belco’s, destaca que torrefações de grãos especiais estão ganhando cada vez mais espaço nas prateleiras dos grandes supermercados franceses. Ela também observa uma demanda crescente pelo produto em locais não especializados em todo o país. “Isso já está acontecendo, até mesmo em estações ferroviárias e hotéis. Nos últimos dois anos, também vimos marcas de luxo fazendo colaborações com cafés especiais porque entenderam que ele também é um grande construtor de comunidades”, avalia.

Fabricado na França

Muitos países adotaram o café especial, mas a França está aproveitando suas profundas tradições culturais em torno do terroir e da gastronomia para desenvolver sua própria cultura em torno dos grãos de qualidade. “Os franceses realmente valorizam a experiência gastronômica, faz parte de sua arte de viver. Eles são muito agrários, muito conectados à terra e isso agora se reflete na cultura cafeeira. É um mercado empolgante e há uma enorme oportunidade para nós”, diz Clark, que acredita num crescimento do mercado de especiais de 5% para 25% nos próximos cinco anos.

O café pode ter tido um espaço secundário na experiência gastronômica francesa, mas agora está ocupando seu devido lugar nos mais altos escalões das tradições gastronômicas do país. Incluído no prestigiado concurso Meilleur Ouvrier de France (MOF) desde 2018, o status do café como a mais nova instituição culinária da França parece firmemente garantido.

Texto originalmente publicado na edição #89 (setembro, outubro e novembro de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Tobias Pearce (5THWAVE)