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Ninja aposta em automação para o futuro do café doméstico

A Ninja lançou a AutoBarista Pro, máquina de café que combina automação, inteligência artificial e personalização no preparo de bebidas. Apresentado em 27 de maio, o equipamento tem 13 opções de preparo, tecnologia Grind iQ, que ajusta automaticamente a moagem, e programas de vaporização capazes de produzir microespuma para diferentes bebidas.

A empresa aposta na novidade para unir conveniência e qualidade, proporcionando uma experiência próxima à de uma cafeteria. O modelo permite criar até dois perfis de usuários, salvando preferências como intensidade, volume, temperatura e método de vaporização do leite, acompanhando a tendência de integração entre hardware e recursos inteligentes. Conta ainda com dois reservatórios intercambiáveis para grãos, com capacidade de 340 g cada, e função de preparo duplo para extração simultânea de duas doses de espresso.

No mercado europeu, a Ninja AutoBarista Pro custa £ 899,99.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

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Café solúvel brasileiro é isento da nova tarifa de 25% dos EUA

Por Reuters (São Paulo)

O solúvel brasileiro foi incluído na lista de produtos isentos da nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre importações provenientes do Brasil, em decisão aguardada pela indústria do setor. Era o único segmento da cafeicultura brasileira que permanecia sujeito à taxação norte-americana.

Segundo o Conselho dos Exportadores de Café (Cecafé), a medida preserva exportações brasileiras de café para os Estados Unidos entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões por ano, considerando também o café verde, que já era isento da tarifa.

Diferentemente do café verde, o produto havia permanecido sujeito a uma tarifa de 10%, mesmo após o governo norte-americano revogar taxas mais elevadas aplicadas à maior parte dos produtos brasileiros.

A aplicação de uma tarifa de 50% sobre o solúvel brasileiro teve impacto significativo sobre os embarques do produto, que recuaram 28,2% em 2025 na comparação com 2024, para o equivalente a 558.470 sacas g, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics). O volume correspondeu a cerca de 15% das exportações brasileiras de café solúvel no ano passado.

Segundo o diretor-geral do Cecafé, Marcos Matos, a isenção resulta do trabalho conjunto desenvolvido desde o ano passado pela indústria brasileira e pela National Coffee Association (NCA), entidade que representa o setor cafeeiro nos Estados Unidos.

De acordo com Matos, os esforços buscaram demonstrar tecnicamente o valor agregado pela indústria brasileira de café solúvel e sua contribuição para a estabilidade dos preços pagos pelo consumidor norte-americano.

Matos lembrou que os Estados Unidos são o maior consumidor e importador mundial de café, enquanto o Brasil lidera a produção e as exportações globais da commodity. “São parceiros insubstituíveis, é uma relação de ganha-ganha, uma relação de via de mão dupla”, afirmou.

O aumento das tarifas está entre os fatores que contribuíram para a queda das exportações brasileiras de café em 2025, levando a Alemanha a superar os Estados Unidos como principal destino do produto no ano-safra 2025/26 (julho a junho), segundo o Cecafé.

Embora a tarifa de 50% tenha permanecido em vigor por cerca de quatro meses, os embarques totais de café para o mercado norte-americano recuaram 43,2% no ano-safra 2025/26 em relação aos 12 meses anteriores.

No café solúvel, a retração foi ainda mais intensa. Entre agosto e dezembro, período em que vigorou a tarifa de 50%, os embarques caíram 62,8% na comparação com o mesmo intervalo do ano anterior, segundo dados da Abics.

BaristaMercado

Intertorra 2026 discutirá tendências em Poços de Caldas (MG)

Encontro chega à Região Vulcânica em agosto para reunir profissionais da cadeia cafeeira em torno de inovação, tecnologia e tendências 

Sessões de torra, degustações de cafés de diferentes origens, demonstrações de equipamentos e debates sobre tecnologia e qualidade compõem a programação do Intertorra 2026, que será realizado de 28 a 30 de agosto no campus do Instituto Federal do Sul de Minas (IF Sul de Minas), em Poços de Caldas (MG). Voltado aos profissionais da cadeia cafeeira, o encontro reunirá produtores, traders, mestres de torra, proprietários de cafeterias, baristas e especialistas.

Situado na região produtora dos cafés da Região Vulcânica, o evento terá palestras técnicas sobre temas como análise microscópica, torra para cápsulas de cafés especiais, controle de qualidade e inovação, além de showcases de produtos e equipamentos. Os ingressos custam R$ 1,8 mil por pessoa e incluem alimentação durante os três dias e certificado de participação.

O encontro ocorre em um momento de crescimento do mercado de cafés especiais, em que torrefações buscam aumentar a eficiência dos processos e agregar valor ao produto. Segundo Matheus Tinoco, mestre de torra e idealizador do Intertorra, a programação abordará temas como regularização de torrefações, novos protocolos de degustação e padrões de degustação de cafés. “Teremos também bate-papos com especialistas estrangeiros para entender como está o mercado lá fora”, detalha Tinoco. 

Realizado desde 2018, o Intertorra já passou pelas cidades de Machado (MG), Pedregulho (SP), Piumhi (MG), Batatais (SP) e Belo Horizonte (MG). A edição de 2026 tem co-realização da Espresso&CO e apoio da Associação dos Produtores de Café da Região Vulcânica e da Prefeitura de Poços de Caldas.

Serviço
Intertorra 2026
Quando: 28 a 30 de agosto, das 8h às 21h
Onde: Campus do IF Sul de Minas, Poços de Caldas (rua Dirce Pereira Rosa, 300 – Jardim Esperança – Poços de Caldas/MG)
Mais informações: https://evento.intertorra.com.br/2026 

Mercado

Além do matcha: ingredientes asiáticos ganham destaque em cafeterias de SP

Dos já conhecidos shoyu e missô ao yuzu e ube, insumos vindos da Ásia surgem em misturas criativas com café

Por Leonardo Neiva

O matcha não é mais o único ingrediente asiático de destaque nas cafeterias brasileiras. Preparos que levam shoyu, missô, frutas como o yuzu e outros insumos asiáticos menos conhecidos começam a chegar às cafeterias — especialmente em São Paulo, cidade que reúne a maior comunidade de descendentes japoneses do mundo.

No cardápio do Aizomê Café da Japan House, na avenida Paulista, já existem opções como o latte e o chocolate quente com caramelo missô (R$ 29) — pasta de soja fermentada usada na culinária japonesa —, e o shoga cold brew (R$ 25), café extraído a frio com infusão de gengibre.

“Quando a gente traz uma conserva de gengibre, o missô ou o yuzu, é para que os ingredientes valorizem o café e os componentes da bebida”, explica o chef-confeiteiro do Aizomê, Rafael Aoki. “O shoga [gengibre], por exemplo, intensifica o sabor do grão, trazendo o umami.”

Shoga cold brew e latte com caramelo missô, do Aizomê Café

Numa programação alinhada ao São Paulo Coffee Festival, o Aizomê preparou recentemente o asagohan, café da manhã especial que segue as tradições japonesas, e o coffee omakase, menu-degustação harmonizado com café. A curadoria foi da chef Telma Shimizu, do Aizomê, e do barista Cauã Sperling, do Fora da Lei Café.

Na Mirá Padaria Autoral, instalada no bairro de Pinheiros, a bebida mais pedida e à frente do matcha é o mocha shoyu (R$ 32), mistura de leite, café espresso e xarope de shoyu e mel. Mas a fusão com ingredientes nipônicos também surge em outros itens como o yuzu café (R$ 26), refrigerante à base da fruta mesclado a uma dose de espresso.

O sócio Leonardo Akira, que comanda a casa ao lado da companheira Júlia Fraga, deve essa inspiração latino-nipônica à família, de origem japonesa, e à primeira experiência como padeiro no Uruguai. Ele conta que o processo de criação se assemelha ao de um laboratório. “Outro dia, criamos uma bebida com amazake [vinho de arroz japonês doce] de milho. Fizemos um café nesse amazake, que virou uma espécie de bebida junina, unindo milho com café.”

Yuzu café, da Mirá Padaria Autoral

Segundo o especialista em café Ensei Neto, autor da coluna Um Café para Dividir, do Estadão, a tendência dá continuidade a uma longa tradição gastronômica japonesa por aqui, e que traz uma visão quase oposta à dos industrializados dos EUA: “Parece que o que vem da Ásia é mais puro, mais natural.” Assim, o uso de ingredientes como missô ou shissô integra até mesmo a busca pelo wellness. “São produtos que acabam trazendo benefícios e oferecem algo diferente para o café.”

Para Aoki, é também uma resposta do universo do café ao hype da cultura asiática, da música ao audiovisual. “Temos muitas séries e filmes, principalmente coreanos, entrando no Brasil. Todas essas pequenas coisas foram crescendo e se unindo para dar um boom generalizado na cultura oriental.”

Tão perto e tão longe

Em tempos de TikTok, alguns desses ingredientes chegam às mesas após fazer fama nas redes. É o caso do ube ou inhame roxo, das Filipinas, que viralizou nos EUA no início do ano devido à sua coloração e ao sabor puxado para a baunilha. Entre as criações com o produto, destaca-se o ube latte. O ingrediente deu as caras na última edição do São Paulo Coffee Festival, em estandes como o da marca de leite de aveia Nude e o da Namu Matcha, numa bebida que combina o ube com inhame comum, suco de milho e leite vegetal. 

Ele também já aparece no cardápio de estabelecimentos como a cafeteria norte-americana Superwow Coffee, que conta com uma unidade em Moema, bairro da zona sul da capital paulista. “Quando foram competir nas Filipinas, nossos baristas perceberam o produto e trouxeram, criando o xarope de ube”, conta Ricardo Ribeiro, um dos sócios. O público gostou tanto que o ube latte (R$ 25) permanece fixo no cardápio e representa 25% das bebidas vendidas na casa.

Ube latte, do Superwow Coffee

Mas o sucesso de algumas dessas matérias-primas esbarra no desafio de obtê-los. Pouco conhecido no país, o ube do Superwow Coffee precisa ser importado. Por outro lado, Aoki, do Aizomê, reforça que a popularidade facilita o acesso a produtos como o yuzu, hoje cultivado em pequenas quantidades no interior de São Paulo. “Entre fevereiro e abril, a época de yuzu no Brasil, a gente chega a comprar meia tonelada e faz todo o processo de conserva”, conta.

Akira, da padaria Mirá, revela que a fruta é uma das grandes apostas internacionais do governo japonês depois do sucesso do matcha. Em parte, por conta da semelhança com cítricos como o limão taiti, que o aproximam do público, mas com um aroma e sabor próprios. “É um ingrediente que deve ser bem explorado nos próximos anos”, afirma.

Ensei Neto adverte, no entanto, que esse tipo de tendência não pode virar “copia e cola” do que é feito nas cafeterias estrangeiras. “Não podemos basear tudo no que vem de fora e esquecer de criar uma cultura do café essencialmente brasileira.”

Aizomê Café
Endereço: Avenida Paulista, 52 (Japan House) – Bela Vista – São Paulo (SP)
https://japanhousesp.com.br/aizome-cafe/

Mirá Padaria Autoral
Endereço: R. Francisco Leitão, 265 – Pinheiros – São Paulo (SP)
https://linktr.ee/miraspp

Superwow Coffee
Endereço: R. Gaivota, 501 – Moema – São Paulo (SP)
https://superwowcoffee.com.br/ 

TEXTO Leonardo Neiva • FOTO Divulgação

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Rondônia espera safra recorde de 3 milhões sacas de robusta amazônico, apesar do El Niño

Por Reuters, de São Paulo

A associação Cafeicultores Associados da Região Matas de Rondônia (Caferon) espera para 2026 uma safra recorde de robusta amazônico, com 3 milhões de sacas. A expectativa supera os 2,77 milhões de sacas previstos pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), devido às condições climáticas favoráveis na denominação de origem e ao uso disseminado de irrigação.

Se a previsão da Caferon estiver correta, a safra será quase 30% maior do que a produção do ano passado, de 2,32 milhões de sacas, registrada pela Conab em maio.

A perspectiva surge apesar das preocupações de que um “super” El Niño possa atrapalhar o próximo ciclo de produção. As temperaturas e as chuvas no Norte do Brasil permaneceram, em grande parte, dentro das normas sazonais este ano, disse o presidente da Caferon, Juan Travain.

“A safra 2026/27 apresenta um perfil de grãos graúdos, com alta qualidade e rendimento considerável”, disse Travain.

Os rendimentos da safra de robusta amazônico nas Matas de Rondônia, na Amazônia brasileira, estão entre os mais altos do mundo, com média de 64 sacas por hectare, disse Travain, acrescentando que quase todas as plantações são irrigadas por gotejamento, o que as torna menos vulneráveis ao calor e à seca do que as plantações de café arábica em outras regiões do Brasil.

O clima tem sido menos favorável em outras regiões cafeeiras – especialmente no sudeste do Brasil, onde Minas Gerais enfrentou chuvas irregulares, com três dias consecutivos de chuva em junho, que aumentaram o risco de doenças bacterianas e fúngicas.

As altas temperaturas continuam sendo a maior preocupação caso o El Niño se intensifique, disse Travain. O maior risco está entre agosto e outubro, quando o calor excessivo pode queimar as plantas e os galhos frutíferos durante a floração, reduzindo a produção, acrescentou ele.

O robusta e outras variedades de café canéfora — incluindo o conilon — são naturalmente mais bem adaptados a climas quentes, e grande parte do material genético cultivado em Rondônia é resistente à ferrugem do café e aos nematóides, disse Enrique Alves, pesquisador da Embrapa Rondônia.

“De forma geral, o robusta é mais resiliente do que o arábica”, disse ele, sobre a variedade que domina a produção no Estado.

Prevê-se que o El Niño atinja seu pico no final do ano, disse Alves, acrescentando que isso seria melhor do que durante o período de floração de agosto a setembro, que foi o que aconteceu em 2024.

“Não é o ideal, mas talvez o El Niño seja menos prejudicial do que naquele ano, porque o pior cenário seria se ele acontecesse agora, antes da florada”, disse o pesquisador.

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Espresso #92 discute como a geração Z lidera nova era de consumo de café

A geração Z está reescrevendo as regras do consumo. Nativos digitais e conectados em uma escala sem precedentes, esses jovens chegam à vida adulta dispostos a experimentar, compartilhar referências e questionar padrões estabelecidos. E o café faz parte dessa transformação.

Na reportagem de capa desta edição, publicada em parceria com a 5th Wave, investigamos como essa nova geração está redefinindo a relação com a bebida e influenciando modelos de negócio, estratégias de marketing e tendências de consumo.

Mas as mudanças no café contemporâneo não param por aí. No Espírito Santo, segundo maior estado produtor do país, fomos conferir como diferentes perfis de cafeicultores — de pequenos produtores de montanha a grandes grupos empresariais do conilon — convergem para práticas mais sustentáveis. Em comum, iniciativas ligadas à regeneração ambiental, ao uso eficiente dos recursos naturais, à rastreabilidade e à inovação no pós-colheita.

A adaptação às mudanças climáticas também está no centro da reportagem sobre irrigação. Se antes a tecnologia era vista como ferramenta para elevar a produtividade, hoje se consolida como estratégia para garantir estabilidade, distribuir água com precisão e aumentar a resiliência das lavouras diante de eventos extremos.

Voltamos o olhar para o Japão, um dos mercados mais sofisticados do planeta, para entender como o país amplia seu repertório sensorial. Sem abandonar a tradição dos kissatens e das torras escuras, consumidores e profissionais incorporam novas origens, perfis de torra e experiências, revelando tendências importantes para o café especial global.

Encerramos a edição com uma entrevista exclusiva com Rodolfo Osorio de Oliveira, novo chefe-geral da Embrapa Café. Ao defender uma pesquisa mais orientada por resultados, maior aproximação entre ciência e campo e programas permanentes de capacitação, ele aponta caminhos para uma cafeicultura capaz de responder aos desafios das próximas décadas.

Embora tratem de temas distintos, todas essas reportagens dialogam com uma mesma questão: como construir o futuro do café em um mundo que muda cada vez mais rápido.

TEXTO Redação

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El Niño preocupa especialistas e reacende debate sobre próxima safra de café

Retorno do fenômeno climático, estoques globais reduzidos e divergências quanto ao volume da safra brasileira marcaram encontro entre especialistas promovido pela Sociedade Rural Brasileira

Por Cristiana Couto

A possibilidade de um El Niño de forte intensidade nos próximos meses dominou as discussões desta terça-feira (23) em encontro promovido pelo Departamento do Café da Sociedade Rural Brasileira (SRB). Para os especialistas, o fenômeno climático é, atualmente, o principal fator de risco para a safra 2027/28, especialmente durante a florada dos cafezais no Brasil e no Vietnã.

Em um cenário de estoques globais historicamente baixos, mesmo as projeções de uma safra recorde não dissipam a apreensão do mercado. “O mercado de café não suportaria outra crise climática. Não temos estoques para absorver um problema adicional”, alertou Albert Scalla, vice-presidente sênior de trading da StoneX, que participou do encontro diretamente de Miami, nos EUA. 

Segundo ele, a intensidade do fenômeno será determinante para o comportamento dos preços e das vendas nos próximos meses. “Hoje, todo mundo tem que ficar de olho na intensidade do El Niño. Se ele estiver mais forte, o produtor deve segurar as vendas por dois, três ou quatro meses. Se enfraquecer, deve acelerá-las.”

Segundo Eduardo Carvalhaes, do Escritório Carvalhaes, o fenômeno costuma provocar veranicos durante o verão brasileiro, cenário que pode atrasar as chuvas e comprometer o desenvolvimento dos cafezais.

A preocupação ganha relevância diante do quadro global de oferta. Segundo Scalla, a redução da demanda causada pela inflação ajudou a equilibrar o mercado em 2025. “Nenhum outro país está tendo aumento de produção: Colômbia e Peru estão diminuindo a oferta, o Vietnã está na casa dos 30 milhões de sacas e a América Central não consegue suprir o mercado.” As exceções, segundo ele, são alguns países africanos e o Brasil, o que amplia a importância dos possíveis efeitos de um “super El Niño” no território nacional.

Para os especialistas, a única certeza é que os estoques globais permanecem apertados. “Se a safra der certo, teremos de 8 a 10 milhões de sacas acima do consumo mundial, mas isso não é nada”, afirmou Carvalhaes. “A única tranquilidade seria ter estoques grandes no mundo, e não há perspectivas disso em dois ou três anos.”

As perspectivas para a safra brasileira também dividiram opiniões. A StoneX projeta uma produção de 75,3 milhões de sacas, enquanto o Conselho Nacional do Café (CNC) trabalha com números mais moderados, próximos de 70 milhões, em linha com as estimativas recentes da Conab (66,7 milhões de sacas) e do USDA (71,9 milhões).

Para Silas Brasileiro, presidente do CNC, parte das estimativas de mercado pode estar superdimensionando o potencial produtivo do país, referindo-se às projeções de 73,3 milhões de sacas do Rabobank e de 75,7 milhões de sacas do Safras & Mercado.

Carvalhaes também demonstrou ceticismo em relação às estimativas mais elevadas. “Não acredito nos números mais altos. Muitos produtores deixaram o café mais tempo no pé para aumentar a proporção de frutos maduros, mas acabaram sendo pegos pelas chuvas, que derrubaram parte dessa produção”, afirmou.

José Braz Matiello, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Procafé, chamou atenção para as limitações metodológicas dos levantamentos. Segundo ele, boa parte das estimativas ainda se baseia mais em área plantada do que em medições efetivas de produtividade. “A maioria dos levantamentos é subjetiva”, afirmou. Ao mesmo tempo, ressaltou que as condições climáticas favoráveis durante a florada e a granação dos frutos contribuíram para uma safra mais robusta. “Estamos vendo o café seco deste ano, e ele está bem pesado.”

Matiello também vê sinais de expansão do parque cafeeiro brasileiro. “Acho que plantamos mais de 400 mil hectares de lavouras novas, e nenhuma delas será deixada no caminho”, afirmou. Segundo ele, os bons preços pagos ao produtor estimularam novos plantios, especialmente em áreas tecnificadas e irrigadas. “O nosso potencial de produção é de muito café. Até quando podemos crescer, porém, não sabemos.”

Apesar do bom desempenho do ciclo atual, Matiello vê sinais de alerta para a próxima temporada. Além da bienalidade natural do cafeeiro, ele destacou o aumento da incidência de doenças associado ao prolongamento das chuvas e avalia que a safra seguinte tende a ser menor.

Já Celso Vegro, pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA), demonstrou maior confiança na capacidade de adaptação do setor. Segundo ele, o avanço da adoção de bioinsumos e das práticas regenerativas deve fortalecer a competitividade da cafeicultura brasileira mesmo diante dos desafios climáticos.

O consenso, porém, é que o comportamento do clima nos próximos meses seguirá como principal variável para o mercado.

TEXTO Por Cristiana Couto

Mercado

São Paulo Coffee Festival leva o público ao universo da torra

No espaço A Torrefação, visitantes acompanham torras ao vivo e participam de workshops sobre perfis sensoriais, fermentação, harmonização e estratégias para negócios de café

A Torrefação é um dos espaços de troca de conhecimento do São Paulo Coffee Festival (SPCF), que acontece a partir desta sexta-feira (26) e vai até domingo (28) na Bienal do Ibirapuera.

Nele, os visitantes acompanham ao vivo a torra do café, conduzida por profissionais da Orfeu Cafés Especiais em torradores da Carmomaq, e aprendem conteúdos teóricos com profissionais do mercado em workshops fechados para até dez pessoas por horário (por ordem de chegada). 

Um dos destaques do primeiro dia é a palestra “Do natural ao fermentado: como revelar o melhor de cada café na torra”, com Guilherme Machado, cofundador e mestre de torra da DROPIT, às 16h. Às 17h, Samuel Baumgart, mestre de torra da Pingado Cafés Especiais, e Pedro Valarini, diretor da empresa, conduzem o conteúdo “A torra como ferramenta sensorial: como destacar terroir e preservar a identidade do café”.

No sábado (27) às 12h, a proprietária da Mission Chocolate, Arcelia Gallardo, apresenta “Os sabores do Brasil: uma experiência sensorial com chocolate”. Uma hora depois, a mestre de torra do Coffee Lab, Antonia Silva, explica perfis sensoriais no workshop “Do torrador à xícara: o papel da torra na construção dos perfis sensoriais”. Para quem quer explorar o café no cardápio do seu negócio, Ana Argenta, fundadora da Argenta Cafés, conduz o tema “Arquitetura de cardápio: os 5 pilares para estruturar receitas de café no seu negócio”, às 17h.

No domingo (28) é a vez de Silvia Magalhães, CEO da Silvia Magalhães Cafés Especiais, explica às 13h o processo da torra durante o workshop “Desmistificando a torra: o que acontece com o grão durante o processo?”. Às 14h, café e queijo dividem o palco na experiência “Descobrindo os segredos da harmonização entre café e queijo”, feita pela gerente de produção da Fazenda Atalaia, Meiri Cardoso.

As vagas para os workshops da sala são preenchidas por ordem de chegada (máximo de dez pessoas). Confira a programação completa do espaço A Torrefação aqui.

SPCF 2026
Quando: de 26 a 28 de junho de 2026
Onde: Bienal do Ibirapuera (Parque Ibirapuera, portão 3 — av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, São Paulo, SP)
Quanto: ingressos a partir de R$ 40 (diário, meia-entrada), à venda no site.

TEXTO Redação • FOTO Agência Ophelia/SPCF

Mercado

São Paulo Coffee Festival conecta café, experiência, gastronomia e negócios

Com programação para profissionais e consumidores, espaço O Laboratório discute tendências, hospitalidade, construção de marcas, gastronomia e o novo mercado de café 

Com ingressos a partir de R$ 40 (diário, meia-entrada), o SPCF, que acontece de 26 a 28 de junho na Bienal do Ibirapuera, na capital paulista, promete uma programação intensa de workshops, palestras e rodas de conversa para profissionais, curiosos e amantes da bebida. No espaço O Laboratório, cujos temas giram em torno de tendências e novas experiências em café, o público poderá acompanhar paineis que vão da lavoura à xícara. 

Na sexta (26, às 17h), um dos destaques é “O café é só o começo: o papel da hospitalidade na experiência do cliente”. No palco, Hélio Roberto Chagas (docente do Centro Universitário Senac), Meiri Cardoso (gerente de produção da Fazenda Atalaia) e Luciana Melo (CEO e sócio-fundadora do Café Cultura), conduzidos pelo barista Juarez Gomes, discutem a importância da hospitalidade na gastronomia e o papel de experiências para o público como eventos, turismo rural e inovação.  

No sábado (27, às 16h), o debate “Além das fronteiras: ideias e movimentos que estão inspirando o café na América do Sul e Europa” é enriquecido com as vivências e visões de mercado de Fernando Pacheco (diretor de produto da Culto Café) e de Luis Fertonani (chief marketing officer da The Coffee), com mediação de Thais Lima (gerente comercial do Grupo Baobá).

Logo depois, às 17h, o palco terá o painel “Produtoras protagonistas: quando a origem vira marca”. Mediado por Nadia Nasr (sócia da torrefação Café Por Elas), o papo conta com a presença de Elda Cardoso (mestre de torra da La Finca Cafés Especiais), Luiza Lacerda (proprietária da Os De Lacerda) e Victoria Veloso (fundadora e CEO da Velvy Coffee), que comentam o papel estratégico dos produtores que, além de qualidade na lavoura, apostam na construção de marcas próprias, agregando valor à origem.

No domingo (às 12h) o painel gastronômico “Cada ingrediente importa: como um bom café pode transformar receitas gastronômicas” discute a importância de um café de qualidade em preparos em que ele não é o ingrediente principal. Participam dele Tuta Aquino (proprietário da  Baianí Chocolates), Telma Shimizu (chef proprietária do Aizomê) e Rosangela Alves (proprietária da Amollis Gelato), com mediação de Letícia Paiva (especialista em café e educação sensorial). Confira a programação completa do espaço O Laboratório aqui.

SPCF 2026
Quando: de 26 a 28 de junho de 2026
Onde: Bienal do Ibirapuera (Parque Ibirapuera, portão 3 — av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, São Paulo, SP)
Quanto: ingressos a partir de R$ 40 (diário, meia-entrada), à venda no site.

TEXTO Redação • FOTO Agência Ophelia/SPCF

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Rotina sem cafeína: descafeinados conquistam consumidores pelo mundo

Seja por escolha de estilo de vida ou por questão de saúde, o consumo de cafés descafeinados cresceu e pode movimentar mais de US$ 30 bilhões até 2033

Por Kelly Stein

O mercado global de cafés descafeinados avança em ritmo acelerado. A agenda do bem-estar ganhou força: menos excessos, menos estímulos, menos cafeína. Desacelerar, portanto, passou a orientar escolhas de consumo. Nesse contexto, o café descafeinado, relegado a segundo plano por muito tempo, encontrou espaço para se reposicionar.

O antigo jargão “decaf before death” soa cada vez mais deslocado. Popular entre apreciadores de cafés especiais no passado, a expressão ironizava o descafeinado como última escolha, quase uma concessão feita apenas no fim da vida. Durante anos, a bebida foi associada à perda de intensidade e de experiência sensorial. Agora, a narrativa começa a mudar e o mercado confirma essa virada.

De acordo com o relatório Decaf Coffee Market Size, Share, and Growth Analysis, da SkyQuest, empresa norte-americana especializada em inteligência de mercado e inovação, o segmento movimentou US$ 21,3 bilhões em 2024 e pode alcançar US$ 30,29 bilhões até 2033. A pesquisa aponta também uma projeção de crescimento anual composta (CAGR) da categoria de 7,43% nos próximos sete anos. Mais do que uma tendência de consumo, o movimento sinaliza uma mudança cultural na forma de consumir café.

A inflexão ocorre a partir de 2020, com a pandemia de Covid-19, explica a pesquisa. Confinadas em casa, lidando com crises de ansiedade, milhões de pessoas começaram a rever o que colocavam no prato e na xícara.

Para desacelerar

Antes de tudo, é preciso dizer: a cafeína está longe de ser vilã. Consumida para melhorar foco, concentração e desempenho físico, ela também impulsiona o mercado de energéticos.

“A cafeína é um termogênico que melhora o desempenho esportivo”, afirma a nutricionista Fernanda Timerman, idealizadora do Instituto Nutrição Comportamental. “Ela se torna um problema quando é utilizada como muleta para pessoas que têm privação de sono ou que tomam muito café para inibir a fome”, explica.

De fato, muitos consumidores que evitam cafeína tem algum tipo de restrição à saúde, como alta sensibilidade à substância ou questões clínicas associadas ao seu consumo, como insônia, ansiedade ou problemas cardíacos.

Estudos com adultos da América do Norte e da Europa mostram que a resposta à cafeína varia entre indivíduos – 40% a 50% dos europeus, por exemplo, metabolizam a substância mais lentamente. Além disso, estimativas globais apontam que entre 15% e 20% dos adultos apresentam algum transtorno de ansiedade – grupo no qual a cafeína pode intensificar sintomas.

Segundo o relatório da SkyQuest, a Geração Z vem ampliando esse grupo ao consumir versões descafeinadas ou com baixo teor de cafeína em preparos como cold brew e blends, com foco na qualidade sensorial.

No outro extremo, cresce o interesse das pessoas por “desacelerar”. Dados do relatório Spring 2024 NCDT, produzido anualmente pela National Coffee Association (NCA) – entidade que representa o setor cafeeiro dos Estados Unidos – mostram que o consumo de descafeinado aumentou cerca de 20% entre norte-americanos acima de 40 anos e 11% entre aqueles com mais de 60 anos.

A mudança também ganha força com a atuação de nomes influentes do setor. O barista britânico James Hoffmann, campeão mundial e fundador da Square Mile Coffee Roasters, produziu conteúdo nas redes para combater a má reputação dos descafeinados modernos. Nos Estados Unidos, Weihong Zhang venceu em 2024 o US Brewers Cup com um typica descafeinado da Colômbia – que depois entrou no portfólio de sua torrefação, a BlendIn Coffee Club, em Houston.

O descafeinado, portanto, vem deixando de ser um produto de nicho e passa a ganhar escala também como tendência.

E no Brasil?

No Brasil, o segmento de descafeinados pode crescer a uma taxa média anual (CAGR) de 5,2% entre 2026 e 2033, de acordo com relatório da consultoria norte-americana Grand View Research. A projeção da consultoria é a de que o mercado brasileiro movimente US$ 164,1 milhões no período.

A pioneira no processo de descafeinação no Brasil foi a Cocam Cia. de Café Solúvel e Derivados, em Catanduva (SP). Fundada em 1970, a empresa adota o método tradicional, com uso de solventes químicos. Há 56 anos, fornece café descafeinado para marcas no Brasil e no exterior.

Com opção de café descafeinado no portfólio desde 2013, a Orfeu Cafés Especiais optou pelo método de descafeinação Swiss Water Process, que usa apenas água para a retirada da substância e cuja única fábrica fica na província de British Columbia, no Canadá. “A gente separa um café de nossa produção, envia o café para o Canadá e eles fazem o processo de descafeinação, com retorno do mesmo café sem a cafeína para nós. É um processo de quase um semestre”, diz Lucas Franco, agrônomo e gerente responsável pelo Complexo Sertãozinho, que reúne as fazendas da Orfeu.

Franco se alinha ao que as pesquisas apontam. “A gente percebe uma evolução no consumo de café
especial, de um café com novas experiências entre os jovens, que diminuíram o consumo de álcool e
investiram nas coffee parties, que servem drinques com café. Acho que tudo isso, e o fato de que há
aqueles que não têm costume de consumir cafeína ou sentem alguma alteração, acaba atraindo o consumo de descafeinados, que se tornou mais comum”, detalha ele. Em 2025, a venda de café descafeinado da Orfeu foi proporcional à venda de café da linha clássica da marca.

“Observamos um crescimento gradual e consistente no consumo de cafés descafeinados no Brasil”, concorda Denise Ritur, gerente de marketing da Melitta. “Ainda que a categoria represente uma parcela pequena do total de café torrado e moído quando comparada aos demais países, trata-se de um segmento com crescimento de dois dígitos nos últimos anos”, afirma. A Melitta, inclusive, acaba de lançar um café descafeinado – o segundo da marca – para compor sua linha Tradicional.

De olho no crescimento desse mercado consumidor e nas vantagens estratégicas de operar no Brasil, o grupo mexicano Descamex (Descafeinadores Mexicanos) anunciou, em 2025, a formalização de uma joint venture com o Grupo ECOM, por meio da subsidiária Eisa, para investir em uma fábrica no Brasil. A unidade brasileira é a segunda da empresa – cuja matriz fica na cidade de Córdoba, em Veracruz, no México – e está instalada em Sooretama (ES), no centro da maior zona produtora de café conilon do país.

A nova fábrica também é a primeira no Brasil a extrair cafeína exclusivamente com água por meio do protocolo Mountain Water. A operação foi concluída em setembro do ano passado e, no Brasil, passou a se chamar DM Descafeinadores do Brasil.

“Queremos apostar no mercado consumidor do Brasil, mas nossa segunda fábrica foi pensada para atender, também, todos os nossos clientes no mundo”, afirma o diretor comercial da ECOM, Carlos Santana. Ele diz que a escolha pelo Espírito Santo levou em conta fatores estruturais e regionais. “Além de questões com custo de logística e acesso a grandes volumes de café por estar mais próximo de fazendas, os empresários capixabas nos convenceram de que esse era o melhor lugar para receber nossa operação.”

Segundo Santana, a proximidade com o porto de Vitória facilita o escoamento para o exterior e reduz custos logísticos. “Imagine o seguinte cenário: uma torrefação japonesa compra café brasileiro e precisa receber o lote descafeinado. No passado, esse container precisava viajar longas distâncias”, relembra Santana. “Além de economizar tempo, nossa unidade aqui vai diminuir os custos logísticos e de impostos para o cliente final”, explica.

A fábrica tem cerca de 9,5 mil m2, seis pavimentos industriais e, até a conclusão desta edição, operava em caráter de teste. Para 2026, a expectativa é descafeinar cerca de 250 mil sacas de café – 80% desta produção, destinada ao mercado internacional. Segundo a empresa, a unidade brasileira deve atender marcas como Nespresso e 3corações. A DM Descafeinadores do Brasil ainda dá destino à cafeína retirada dos grãos, que é vendida a indústrias de alimentação, bebidas, cosméticos e produtos farmacêuticos.

O que antes era visto como concessão virou escolha. O descafeinado cresce, apoiado por tecnologia e por um consumidor mais atento ao próprio ritmo. A cafeína pode sair de cena, e o mercado, oferecer mais formas de consumir café.

TEXTO Kelly Stein