Mercado

El Niño preocupa especialistas e reacende debate sobre próxima safra de café

Retorno do fenômeno climático, estoques globais reduzidos e divergências quanto ao volume da safra brasileira marcaram encontro entre especialistas promovido pela Sociedade Rural Brasileira

Por Cristiana Couto

A possibilidade de um El Niño de forte intensidade nos próximos meses dominou as discussões desta terça-feira (23) em encontro promovido pelo Departamento do Café da Sociedade Rural Brasileira (SRB). Para os especialistas, o fenômeno climático é, atualmente, o principal fator de risco para a safra 2027/28, especialmente durante a florada dos cafezais no Brasil e no Vietnã.

Em um cenário de estoques globais historicamente baixos, mesmo as projeções de uma safra recorde não dissipam a apreensão do mercado. “O mercado de café não suportaria outra crise climática. Não temos estoques para absorver um problema adicional”, alertou Albert Scalla, vice-presidente sênior de trading da StoneX, que participou do encontro diretamente de Miami, nos EUA. 

Segundo ele, a intensidade do fenômeno será determinante para o comportamento dos preços e das vendas nos próximos meses. “Hoje, todo mundo tem que ficar de olho na intensidade do El Niño. Se ele estiver mais forte, o produtor deve segurar as vendas por dois, três ou quatro meses. Se enfraquecer, deve acelerá-las.”

Segundo Eduardo Carvalhaes, do Escritório Carvalhaes, o fenômeno costuma provocar veranicos durante o verão brasileiro, cenário que pode atrasar as chuvas e comprometer o desenvolvimento dos cafezais.

A preocupação ganha relevância diante do quadro global de oferta. Segundo Scalla, a redução da demanda causada pela inflação ajudou a equilibrar o mercado em 2025. “Nenhum outro país está tendo aumento de produção: Colômbia e Peru estão diminuindo a oferta, o Vietnã está na casa dos 30 milhões de sacas e a América Central não consegue suprir o mercado.” As exceções, segundo ele, são alguns países africanos e o Brasil, o que amplia a importância dos possíveis efeitos de um “super El Niño” no território nacional.

Para os especialistas, a única certeza é que os estoques globais permanecem apertados. “Se a safra der certo, teremos de 8 a 10 milhões de sacas acima do consumo mundial, mas isso não é nada”, afirmou Carvalhaes. “A única tranquilidade seria ter estoques grandes no mundo, e não há perspectivas disso em dois ou três anos.”

As perspectivas para a safra brasileira também dividiram opiniões. A StoneX projeta uma produção de 75,3 milhões de sacas, enquanto o Conselho Nacional do Café (CNC) trabalha com números mais moderados, próximos de 70 milhões, em linha com as estimativas recentes da Conab (66,7 milhões de sacas) e do USDA (71,9 milhões).

Para Silas Brasileiro, presidente do CNC, parte das estimativas de mercado pode estar superdimensionando o potencial produtivo do país, referindo-se às projeções de 73,3 milhões de sacas do Rabobank e de 75,7 milhões de sacas do Safras & Mercado.

Carvalhaes também demonstrou ceticismo em relação às estimativas mais elevadas. “Não acredito nos números mais altos. Muitos produtores deixaram o café mais tempo no pé para aumentar a proporção de frutos maduros, mas acabaram sendo pegos pelas chuvas, que derrubaram parte dessa produção”, afirmou.

José Braz Matiello, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Procafé, chamou atenção para as limitações metodológicas dos levantamentos. Segundo ele, boa parte das estimativas ainda se baseia mais em área plantada do que em medições efetivas de produtividade. “A maioria dos levantamentos é subjetiva”, afirmou. Ao mesmo tempo, ressaltou que as condições climáticas favoráveis durante a florada e a granação dos frutos contribuíram para uma safra mais robusta. “Estamos vendo o café seco deste ano, e ele está bem pesado.”

Matiello também vê sinais de expansão do parque cafeeiro brasileiro. “Acho que plantamos mais de 400 mil hectares de lavouras novas, e nenhuma delas será deixada no caminho”, afirmou. Segundo ele, os bons preços pagos ao produtor estimularam novos plantios, especialmente em áreas tecnificadas e irrigadas. “O nosso potencial de produção é de muito café. Até quando podemos crescer, porém, não sabemos.”

Apesar do bom desempenho do ciclo atual, Matiello vê sinais de alerta para a próxima temporada. Além da bienalidade natural do cafeeiro, ele destacou o aumento da incidência de doenças associado ao prolongamento das chuvas e avalia que a safra seguinte tende a ser menor.

Já Celso Vegro, pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA), demonstrou maior confiança na capacidade de adaptação do setor. Segundo ele, o avanço da adoção de bioinsumos e das práticas regenerativas deve fortalecer a competitividade da cafeicultura brasileira mesmo diante dos desafios climáticos.

O consenso, porém, é que o comportamento do clima nos próximos meses seguirá como principal variável para o mercado.

TEXTO Por Cristiana Couto

Mercado

São Paulo Coffee Festival leva o público ao universo da torra

No espaço A Torrefação, visitantes acompanham torras ao vivo e participam de workshops sobre perfis sensoriais, fermentação, harmonização e estratégias para negócios de café

A Torrefação é um dos espaços de troca de conhecimento do São Paulo Coffee Festival (SPCF), que acontece a partir desta sexta-feira (26) e vai até domingo (28) na Bienal do Ibirapuera.

Nele, os visitantes acompanham ao vivo a torra do café, conduzida por profissionais da Orfeu Cafés Especiais em torradores da Carmomaq, e aprendem conteúdos teóricos com profissionais do mercado em workshops fechados para até dez pessoas por horário (por ordem de chegada). 

Um dos destaques do primeiro dia é a palestra “Do natural ao fermentado: como revelar o melhor de cada café na torra”, com Guilherme Machado, cofundador e mestre de torra da DROPIT, às 16h. Às 17h, Samuel Baumgart, mestre de torra da Pingado Cafés Especiais, e Pedro Valarini, diretor da empresa, conduzem o conteúdo “A torra como ferramenta sensorial: como destacar terroir e preservar a identidade do café”.

No sábado (27) às 12h, a proprietária da Mission Chocolate, Arcelia Gallardo, apresenta “Os sabores do Brasil: uma experiência sensorial com chocolate”. Uma hora depois, a mestre de torra do Coffee Lab, Antonia Silva, explica perfis sensoriais no workshop “Do torrador à xícara: o papel da torra na construção dos perfis sensoriais”. Para quem quer explorar o café no cardápio do seu negócio, Ana Argenta, fundadora da Argenta Cafés, conduz o tema “Arquitetura de cardápio: os 5 pilares para estruturar receitas de café no seu negócio”, às 17h.

No domingo (28) é a vez de Silvia Magalhães, CEO da Silvia Magalhães Cafés Especiais, explica às 13h o processo da torra durante o workshop “Desmistificando a torra: o que acontece com o grão durante o processo?”. Às 14h, café e queijo dividem o palco na experiência “Descobrindo os segredos da harmonização entre café e queijo”, feita pela gerente de produção da Fazenda Atalaia, Meiri Cardoso.

As vagas para os workshops da sala são preenchidas por ordem de chegada (máximo de dez pessoas). Confira a programação completa do espaço A Torrefação aqui.

SPCF 2026
Quando: de 26 a 28 de junho de 2026
Onde: Bienal do Ibirapuera (Parque Ibirapuera, portão 3 — av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, São Paulo, SP)
Quanto: ingressos a partir de R$ 40 (diário, meia-entrada), à venda no site.

TEXTO Redação • FOTO Agência Ophelia/SPCF

Mercado

São Paulo Coffee Festival conecta café, experiência, gastronomia e negócios

Com programação para profissionais e consumidores, espaço O Laboratório discute tendências, hospitalidade, construção de marcas, gastronomia e o novo mercado de café 

Com ingressos a partir de R$ 40 (diário, meia-entrada), o SPCF, que acontece de 26 a 28 de junho na Bienal do Ibirapuera, na capital paulista, promete uma programação intensa de workshops, palestras e rodas de conversa para profissionais, curiosos e amantes da bebida. No espaço O Laboratório, cujos temas giram em torno de tendências e novas experiências em café, o público poderá acompanhar paineis que vão da lavoura à xícara. 

Na sexta (26, às 17h), um dos destaques é “O café é só o começo: o papel da hospitalidade na experiência do cliente”. No palco, Hélio Roberto Chagas (docente do Centro Universitário Senac), Meiri Cardoso (gerente de produção da Fazenda Atalaia) e Luciana Melo (CEO e sócio-fundadora do Café Cultura), conduzidos pelo barista Juarez Gomes, discutem a importância da hospitalidade na gastronomia e o papel de experiências para o público como eventos, turismo rural e inovação.  

No sábado (27, às 16h), o debate “Além das fronteiras: ideias e movimentos que estão inspirando o café na América do Sul e Europa” é enriquecido com as vivências e visões de mercado de Fernando Pacheco (diretor de produto da Culto Café) e de Luis Fertonani (chief marketing officer da The Coffee), com mediação de Thais Lima (gerente comercial do Grupo Baobá).

Logo depois, às 17h, o palco terá o painel “Produtoras protagonistas: quando a origem vira marca”. Mediado por Nadia Nasr (sócia da torrefação Café Por Elas), o papo conta com a presença de Elda Cardoso (mestre de torra da La Finca Cafés Especiais), Luiza Lacerda (proprietária da Os De Lacerda) e Victoria Veloso (fundadora e CEO da Velvy Coffee), que comentam o papel estratégico dos produtores que, além de qualidade na lavoura, apostam na construção de marcas próprias, agregando valor à origem.

No domingo (às 12h) o painel gastronômico “Cada ingrediente importa: como um bom café pode transformar receitas gastronômicas” discute a importância de um café de qualidade em preparos em que ele não é o ingrediente principal. Participam dele Tuta Aquino (proprietário da  Baianí Chocolates), Telma Shimizu (chef proprietária do Aizomê) e Rosangela Alves (proprietária da Amollis Gelato), com mediação de Letícia Paiva (especialista em café e educação sensorial). Confira a programação completa do espaço O Laboratório aqui.

SPCF 2026
Quando: de 26 a 28 de junho de 2026
Onde: Bienal do Ibirapuera (Parque Ibirapuera, portão 3 — av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, São Paulo, SP)
Quanto: ingressos a partir de R$ 40 (diário, meia-entrada), à venda no site.

TEXTO Redação • FOTO Agência Ophelia/SPCF

Mercado

Rotina sem cafeína: descafeinados conquistam consumidores pelo mundo

Seja por escolha de estilo de vida ou por questão de saúde, o consumo de cafés descafeinados cresceu e pode movimentar mais de US$ 30 bilhões até 2033

Por Kelly Stein

O mercado global de cafés descafeinados avança em ritmo acelerado. A agenda do bem-estar ganhou força: menos excessos, menos estímulos, menos cafeína. Desacelerar, portanto, passou a orientar escolhas de consumo. Nesse contexto, o café descafeinado, relegado a segundo plano por muito tempo, encontrou espaço para se reposicionar.

O antigo jargão “decaf before death” soa cada vez mais deslocado. Popular entre apreciadores de cafés especiais no passado, a expressão ironizava o descafeinado como última escolha, quase uma concessão feita apenas no fim da vida. Durante anos, a bebida foi associada à perda de intensidade e de experiência sensorial. Agora, a narrativa começa a mudar e o mercado confirma essa virada.

De acordo com o relatório Decaf Coffee Market Size, Share, and Growth Analysis, da SkyQuest, empresa norte-americana especializada em inteligência de mercado e inovação, o segmento movimentou US$ 21,3 bilhões em 2024 e pode alcançar US$ 30,29 bilhões até 2033. A pesquisa aponta também uma projeção de crescimento anual composta (CAGR) da categoria de 7,43% nos próximos sete anos. Mais do que uma tendência de consumo, o movimento sinaliza uma mudança cultural na forma de consumir café.

A inflexão ocorre a partir de 2020, com a pandemia de Covid-19, explica a pesquisa. Confinadas em casa, lidando com crises de ansiedade, milhões de pessoas começaram a rever o que colocavam no prato e na xícara.

Para desacelerar

Antes de tudo, é preciso dizer: a cafeína está longe de ser vilã. Consumida para melhorar foco, concentração e desempenho físico, ela também impulsiona o mercado de energéticos.

“A cafeína é um termogênico que melhora o desempenho esportivo”, afirma a nutricionista Fernanda Timerman, idealizadora do Instituto Nutrição Comportamental. “Ela se torna um problema quando é utilizada como muleta para pessoas que têm privação de sono ou que tomam muito café para inibir a fome”, explica.

De fato, muitos consumidores que evitam cafeína tem algum tipo de restrição à saúde, como alta sensibilidade à substância ou questões clínicas associadas ao seu consumo, como insônia, ansiedade ou problemas cardíacos.

Estudos com adultos da América do Norte e da Europa mostram que a resposta à cafeína varia entre indivíduos – 40% a 50% dos europeus, por exemplo, metabolizam a substância mais lentamente. Além disso, estimativas globais apontam que entre 15% e 20% dos adultos apresentam algum transtorno de ansiedade – grupo no qual a cafeína pode intensificar sintomas.

Segundo o relatório da SkyQuest, a Geração Z vem ampliando esse grupo ao consumir versões descafeinadas ou com baixo teor de cafeína em preparos como cold brew e blends, com foco na qualidade sensorial.

No outro extremo, cresce o interesse das pessoas por “desacelerar”. Dados do relatório Spring 2024 NCDT, produzido anualmente pela National Coffee Association (NCA) – entidade que representa o setor cafeeiro dos Estados Unidos – mostram que o consumo de descafeinado aumentou cerca de 20% entre norte-americanos acima de 40 anos e 11% entre aqueles com mais de 60 anos.

A mudança também ganha força com a atuação de nomes influentes do setor. O barista britânico James Hoffmann, campeão mundial e fundador da Square Mile Coffee Roasters, produziu conteúdo nas redes para combater a má reputação dos descafeinados modernos. Nos Estados Unidos, Weihong Zhang venceu em 2024 o US Brewers Cup com um typica descafeinado da Colômbia – que depois entrou no portfólio de sua torrefação, a BlendIn Coffee Club, em Houston.

O descafeinado, portanto, vem deixando de ser um produto de nicho e passa a ganhar escala também como tendência.

E no Brasil?

No Brasil, o segmento de descafeinados pode crescer a uma taxa média anual (CAGR) de 5,2% entre 2026 e 2033, de acordo com relatório da consultoria norte-americana Grand View Research. A projeção da consultoria é a de que o mercado brasileiro movimente US$ 164,1 milhões no período.

A pioneira no processo de descafeinação no Brasil foi a Cocam Cia. de Café Solúvel e Derivados, em Catanduva (SP). Fundada em 1970, a empresa adota o método tradicional, com uso de solventes químicos. Há 56 anos, fornece café descafeinado para marcas no Brasil e no exterior.

Com opção de café descafeinado no portfólio desde 2013, a Orfeu Cafés Especiais optou pelo método de descafeinação Swiss Water Process, que usa apenas água para a retirada da substância e cuja única fábrica fica na província de British Columbia, no Canadá. “A gente separa um café de nossa produção, envia o café para o Canadá e eles fazem o processo de descafeinação, com retorno do mesmo café sem a cafeína para nós. É um processo de quase um semestre”, diz Lucas Franco, agrônomo e gerente responsável pelo Complexo Sertãozinho, que reúne as fazendas da Orfeu.

Franco se alinha ao que as pesquisas apontam. “A gente percebe uma evolução no consumo de café
especial, de um café com novas experiências entre os jovens, que diminuíram o consumo de álcool e
investiram nas coffee parties, que servem drinques com café. Acho que tudo isso, e o fato de que há
aqueles que não têm costume de consumir cafeína ou sentem alguma alteração, acaba atraindo o consumo de descafeinados, que se tornou mais comum”, detalha ele. Em 2025, a venda de café descafeinado da Orfeu foi proporcional à venda de café da linha clássica da marca.

“Observamos um crescimento gradual e consistente no consumo de cafés descafeinados no Brasil”, concorda Denise Ritur, gerente de marketing da Melitta. “Ainda que a categoria represente uma parcela pequena do total de café torrado e moído quando comparada aos demais países, trata-se de um segmento com crescimento de dois dígitos nos últimos anos”, afirma. A Melitta, inclusive, acaba de lançar um café descafeinado – o segundo da marca – para compor sua linha Tradicional.

De olho no crescimento desse mercado consumidor e nas vantagens estratégicas de operar no Brasil, o grupo mexicano Descamex (Descafeinadores Mexicanos) anunciou, em 2025, a formalização de uma joint venture com o Grupo ECOM, por meio da subsidiária Eisa, para investir em uma fábrica no Brasil. A unidade brasileira é a segunda da empresa – cuja matriz fica na cidade de Córdoba, em Veracruz, no México – e está instalada em Sooretama (ES), no centro da maior zona produtora de café conilon do país.

A nova fábrica também é a primeira no Brasil a extrair cafeína exclusivamente com água por meio do protocolo Mountain Water. A operação foi concluída em setembro do ano passado e, no Brasil, passou a se chamar DM Descafeinadores do Brasil.

“Queremos apostar no mercado consumidor do Brasil, mas nossa segunda fábrica foi pensada para atender, também, todos os nossos clientes no mundo”, afirma o diretor comercial da ECOM, Carlos Santana. Ele diz que a escolha pelo Espírito Santo levou em conta fatores estruturais e regionais. “Além de questões com custo de logística e acesso a grandes volumes de café por estar mais próximo de fazendas, os empresários capixabas nos convenceram de que esse era o melhor lugar para receber nossa operação.”

Segundo Santana, a proximidade com o porto de Vitória facilita o escoamento para o exterior e reduz custos logísticos. “Imagine o seguinte cenário: uma torrefação japonesa compra café brasileiro e precisa receber o lote descafeinado. No passado, esse container precisava viajar longas distâncias”, relembra Santana. “Além de economizar tempo, nossa unidade aqui vai diminuir os custos logísticos e de impostos para o cliente final”, explica.

A fábrica tem cerca de 9,5 mil m2, seis pavimentos industriais e, até a conclusão desta edição, operava em caráter de teste. Para 2026, a expectativa é descafeinar cerca de 250 mil sacas de café – 80% desta produção, destinada ao mercado internacional. Segundo a empresa, a unidade brasileira deve atender marcas como Nespresso e 3corações. A DM Descafeinadores do Brasil ainda dá destino à cafeína retirada dos grãos, que é vendida a indústrias de alimentação, bebidas, cosméticos e produtos farmacêuticos.

O que antes era visto como concessão virou escolha. O descafeinado cresce, apoiado por tecnologia e por um consumidor mais atento ao próprio ritmo. A cafeína pode sair de cena, e o mercado, oferecer mais formas de consumir café.

TEXTO Kelly Stein

Mercado

Café: um produto não essencial que vira hábito indispensável

Histórias do Café – Consumo, cultura e alimentação desloca o olhar para um território menos frequentado pela historiografia brasileira: o do consumo, da vida urbana e das sociabilidades que se formaram em torno da bebida.

Partindo da constatação de que o café se tornou um elemento estruturante do cotidiano moderno, presente nas refeições, nos espaços públicos e nos rituais de convivência, o livro propõe entender como um produto não essencial se converteu em hábito indispensável e marcador social.

Organizado pela dupla de historiadores Joana Monteleone, também editora e pesquisadora-colaboradora da Universidade de São Paulo, e Bruno Bortoloto do Carmo, doutor em História Social, que atuou como pesquisador do Museu do Café de Santos por 13 anos, o volume reúne 15 artigos sobre pesquisas recentes de uma série de autores de diferentes linhas historiográficas. O conjunto articula história econômica, urbana e da alimentação e recusa fronteiras rígidas entre esses campos.

No artigo “O consumo de café e as novas sociabilidades paulistanas nas primeiras décadas do século XIX”, a historiadora Rafaela Basso acompanha a bebida desde a produção doméstica até sua incorporação a práticas sociais marcadas por gênero, classe e exclusão.

Por meio de sua análise, afasta a imagem de São Paulo como um núcleo pobre e pacato e a aproxima da de uma cidade já integrada a circuitos modernos de consumo, na qual o café surge como marcador simbólico de pertencimento antes mesmo de sua plena popularização.

Abordagens científicas conduzem os ensaios de Cristiana Couto, doutora em história da ciência e coordenadora de conteúdo da Espresso&CO, que propõe discussões sobre o café como alimento e medicamento no Brasil no século XIX, e de Moisés Stahl, doutor em história econômica, que examina o café como objeto de investigação científica em perspectiva histórica.

Um dos méritos da obra está na ampliação do repertório documental. Romances, folhetins, peças teatrais, menus, discos, almanaques e teses médicas dialogam com atas oficiais e jornais e revelam o café como mercadoria, alimento, estimulante, remédio e símbolo de distinção.

Ao acompanhar a emergência dos cafés, botequins, confeitarias e espaços de consumo nas cidades, sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo, os autores mostram como o cafezinho ajudou a moldar práticas sociais e formas de pertencimento urbano no século XIX.

Ao mesmo tempo, o livro assume suas lacunas como desafio futuro, principalmente no que diz respeito às relações de trabalho e à presença da escravidão no universo do consumo. Essa fricção entre potência analítica e ausência temática reforça o caráter do volume — menos síntese conclusiva e mais convite
a novas investigações sobre comer, beber e conviver no Brasil do café.

TEXTO Luiza Fecarotta

Café & PreparosMercado

USDA projeta safra recorde de 71,9 milhões de sacas para o Brasil

Previsão é de 14% a mais do que no ciclo anterior, o que estimulará, segundo o órgão, um salto de 30% nas exportações

Funcionário em plantação de canéfora em São Gabriel da Palha (ES), em setembro de 2025. REUTERS/Alexandre Meneghini

Reuters, de São Paulo

A safra de café do Brasil deve aumentar 14% em 2026/27, para um recorde de 71,9 milhões de sacas, impulsionando um salto de 30% nas exportações após anos de produção abaixo do potencial, segundo relatório do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

A colheita brasileira no ciclo 2026/27 (julho-junho) deve avançar com impulso da produção de café arábica, cuja safra deve crescer 25% no período, diante da bienalidade positiva, combinada a condições climáticas favoráveis nas principais regiões produtoras e investimentos após anos de preços altos.

Chuvas suficientes durante o período de florada em 2025 e maior regularidade hídrica no início de 2026 garantiram bom desenvolvimento das lavouras, contribuindo para a perspectiva de alta produtividade, disse o USDA. 

Além disso, preços internacionais mais elevados estimularam a expansão de área plantada e maior investimento em manejo, incluindo o uso de tecnologias que aumentam a densidade de plantio por hectare.

A produção de café arábica do Brasil é estimada em 47,5 milhões de sacas em 2026/27, e a de canéfora (robusta e conilon) está projetada em 24,4 milhões de sacas – ligeiramente abaixo das 25 milhões de 2025/26, reflexo, segundo o USDA, dos impactos pontuais de clima mais frio e chuvas excessivas em algumas regiões produtoras após um ano anterior de alta produtividade.    

Outras instituições, como a estatal Conab, e analistas privados também têm afirmado que a produção brasileira será a maior da história.

Exportações

No comércio exterior, prevê-se exportações brasileiras de cerca de 49 milhões de sacas em 2026/27, ante 37,8 milhões no ciclo anterior, refletindo a maior disponibilidade do grão com a safra volumosa. 

Apesar da previsão, as vendas externas poderiam ser ainda maiores, não fossem os estoques baixos. O relatório apontou que as exportações têm sido limitadas no início de 2026 por conta desse limite de estoque, resultado de colheitas menores em anos recentes e de demanda externa forte.

A tendência das exportações, no entanto, é de recuperação ao longo do ano, com a aceleração da colheita a partir de meados de maio e maior entrada de produto no mercado no segundo semestre, disse o USDA.

No plano interno, o USDA apontou que o consumo de café no Brasil deve permanecer relativamente estável em 2026/27, estimado em 22,39 milhões de sacas –  um aumento de cerca de 0,5% em relação ao ciclo anterior, refletindo uma leve recuperação após retração recente causada por preços elevados ao consumidor.

Mercado

Índia: um gigante do café em ascensão

Com a Índia transformando-se rapidamente em uma grande nação consumidora de café, cafeterias, torrefações e produtores se preparam para um crescimento extraordinário

A Índia é um país em plena ascensão. Em abril de 2023, a nação do Sul da Ásia ultrapassou oficialmente a China como o país mais populoso do mundo, com 65% de seus atuais 1,46 bilhão de habitantes abaixo dos 35 anos. Com projeção de crescimento do PIB em torno de 6,6% no ano fiscal de 2025, a maior democracia do planeta segue no rumo de se manter entre as economias de grande porte que mais crescem.

Ganhando protagonismo no cenário global, executivos de origem indiana estão à frente de algumas das empresas mais valiosas e influentes do mundo. É o caso de Satya Nadella, que comanda a Microsoft, Sundar Pichai, CEO do Google e da Alphabet, e Vasant Narasimhan, da Novartis. Até 2024, Laxman Narasimhan também integrou esse grupo, ao ocupar o cargo de CEO da Starbucks.

Um país de oportunidades

Após cinco décadas de rápido desenvolvimento econômico, a sociedade indiana passa por uma mudança profunda rumo à “premiunização”. Jovens, escolarizados, viajados e cada vez mais abastados, os consumidores indianos têm adotado marcas internacionais como estilo de vida enquanto impulsionam, com a mesma intensidade, uma nova era de empreendedorismo local – e o café não fica de fora desse movimento.

“O cenário de café na Índia passou por uma transformação significativa na última década”, afirma Adrit Mishra, diretor de operações da Tata Starbucks, joint venture responsável por administrar a rede norte-americana no país. “À medida que a cultura do café cresce na Índia, a valorização por cafés premium está avançando para além das grandes metrópoles”, completa.

Presente no mercado indiano desde 2012, a Starbucks começou focada em lojas de alto perfil nos centros urbanos mais importantes. Mas, desde então, diversificou sua atuação para cidades de segundo e terceiro porte, ampliando o portfólio com unidades menores e modelos drive-thru. Em entrevista recente ao canal de notícias CNBC TV18, Brian Niccol, CEO da Starbucks, afirmou que a Índia tornou-se um dos mercados internacionais de crescimento mais rápido da Starbucks. Atualmente, a rede sediada em Seattle acelera sua expansão: em agosto, somava 480 lojas em todo o país – e pretendia chegar a 500 em novembro –, detendo cerca de 9% do mercado indiano. Também em novembro, a rede inaugurou a Starbucks Reserve na região metropolitana de Delhi – a segunda unidade Reserve da rede no país. “Os consumidores estão descobrindo as nuances do café e o papel que ele desempenha em seu dia a dia. Oferecemos cafés sazonais de diferentes origens, os melhores single origins e perfis de torra variados – temos tudo”, diz Mishra.

Uma das unidades da joint venture Tata Starbucks, no aeroporto de Bangalore

Com os indianos consumindo um valor estimado em INR 4 trilhões (US$ 53,3 bilhões) em café por ano, fica fácil entender por que as redes internacionais veem um potencial gigantesco no país. Operando no país por meio da licenciada Devyani International Ltd, a Costa Coffee, por exemplo, já tem 225 lojas em território indiano – um dos mercados prioritários da rede britânica.

Outra rede britânica, a Pret a Manger, também avança na Índia. Com a primeira loja aberta em Mumbai em abril de 2023 em parceria com o gigante varejista Reliance Brands, a rede fechou o ano de 2024 com 14 unidades – o plano é chegar a 100 lojas até 2028. Com o crescimento do consumo da bebida também em restaurantes, a Pret a Manger lançou na Índia, em abril deste ano, seu primeiro restaurante com serviço completo do mundo.

Enquanto isso, a canadense Tim Hortons investiu US$ 37 milhões para inaugurar dezenas de unidades ao ano em parceria com a AG Café – em 2023, abriu sua primeira loja em Nova Déli para longas filas de consumidores curiosos e, em agosto de 2025, já contava com 40 unidades no país.

Luxo é acessível?

Redes de café premium há muito se posicionam como um “luxo acessível” nos Estados Unidos e na Europa. Mas essa dinâmica não se repete no mercado indiano.

Para contextualizar: o salário mínimo por hora nos EUA – para trabalhadores que não recebem gorjetas – é de US$ 7,25. Dados da World Coffee Portal indicam que o preço médio de um latte em redes norte-americanas é de US$ 4,92, o que permite que mesmo trabalhadores de baixa renda consumam café fora de casa com alguma regularidade.

Na Índia, porém, redes internacionais chegam a cobrar até US$ 4 por bebida, enquanto o salário mínimo diário é de INR 178 (US$ 1,99) – o que torna o consumo fora de casa um luxo praticamente inacessível para a grande maioria.

A Starbucks lançou o tamanho “picco”, mais barato, abaixo de INR 200 (US$ 2,24) – ainda assim, um gasto elevado e difícil de competir com um copo de chai que custa apenas US$ 0,20 para a maior parte da população.

“Nos EUA e na Europa, marcas populares de café são vistas como redes ‘comuns’, mas na Índia elas são consideradas ultrapremium – há muitas barreiras de entrada para o café como produto de estilo de vida no país”, afirma Abhijeet Anand, CEO e fundador da abCoffee, uma rede de cafés especiais de posicionamento acessível, inaugurada em 2022 e que hoje soma mais de 75 lojas no país.

Anand decidiu criar a abCoffee depois de vivenciar a cultura de cafeterias europeias enquanto trabalhava na Romênia. Ao retornar à Índia, percebeu um crescimento expressivo no consumo de pacotes de café no varejo e identificou uma lacuna no mercado para lançar um conceito de cafeteria de marca com preços realmente acessíveis.

A abCoffee foca na compra de cafés especiais produzidos na Índia, e as bebidas começam com INR 77 (US$ 0,86) por um espresso e chegam a INR 127 (US$ 1,42) por um latte. A empresa consegue praticar esses preços mais baixos ao abastecer-se exclusivamente de produtores nacionais, como as fazendas Harley’s e Barbara, em Karnataka, e ao operar lojas enxutas, voltadas principalmente para take-away.

“A Índia produz muito café, mas os preços praticados no mercado interno estão no mesmo patamar do Reino Unido ou dos EUA – deveriam ser muito mais baixos –, e isso historicamente afastou muitos consumidores indianos do café fresco”, afirma Anand.

Bases sólidas para um crescimento admirável

Apesar de terem entrado no mercado indiano com preços inacessíveis para a maior parte dos consumidores, as redes internacionais de café construíram modelos de negócio viáveis ao mirar o público de alta renda do país. Impulsionadas por uma classe média em rápida expansão, essas redes – e uma nova leva de operadores domésticos – agora estão preparadas para um ciclo acelerado de crescimento.

O avanço de grandes redes internacionais de café em mercados emergentes não é novidade. Mas uma marca criada na própria Índia já demonstrava, há quase 30 anos, que a cultura do café de marca poderia prosperar no país.

Fundada em 1996 pelo empreendedor VG Siddhartha, natural de Karnataka, a Café Coffee Day foi pioneira na cultura de redes de cafeterias na Índia. Com o slogan “muita coisa pode acontecer tomando café”, a marca foi, por muitos anos, uma das únicas do país a servir bebidas à base de espresso em ambientes inspirados no conceito de “terceiro lugar”, e em escala nacional.

Em 2019, a Café Coffee Day já havia alcançado mais de 1,75 mil lojas e operava um negócio de 50 mil máquinas de autoatendimento em 243 cidades indianas, o que gerou US$ 200 milhões em receita anual – um feito impressionante em um mercado de café que, ainda hoje, é classificado como “em desenvolvimento”.

No entanto, o aparente suicídio de VG Siddhartha e a revelação de uma dívida de US$ 840 milhões naquele mesmo ano quase acabaram com a principal rede de cafeterias da Índia. A empresa fechou centenas de lojas durante a pandemia, após uma grande reestruturação. Sob a liderança de Malavika Hegde, viúva de Siddhartha, o negócio voltou a se recuperar e segue com mais de 425 lojas em operação.

Hoje em dia, uma nova geração de operadores locais atende ao público indiano emergente – consumidores muito mais viajados do que as gerações anteriores e cada vez mais inclinados a aderir a marcas associadas a estilo de vida.

Em 2023, estimativas conservadoras situavam a crescente classe média indiana em cerca de 100 milhões de pessoas. No entanto, uma pesquisa no mesmo ano do People Research on India’s Consumer Economy (Price), organização sem fins lucrativos sediada em Udaipur, concluiu que eram cerca de 432 milhões de indianos de “classe média”, definidos como aqueles com renda familiar anual entre INR 500 mil e INR 3 milhões (US$ 5.580 a US$ 33.474).

Com cerca de um em cada três indianos atualmente enquadrados nesse grupo, trata-se de uma definição ampla – mas uma faixa de renda que permite à maioria desses consumidores acessar gastos flexíveis, incluindo o consumo de café fora de casa.

Se apenas 10% desses consumidores de maior renda aderirem à cultura de café de marca, o mercado da Índia se equiparia hoje ao de um país europeu de médio porte – e está preparado para um crescimento extraordinário. Além disso, a pesquisa do Price projetou que esse grupo vai representar quase metade da população indiana, estimada em 1,46 bilhão, em 2047.

Na mesma época, o CEO da Costa Coffee, Philippe Schaillee, estimou em 20 a 25 milhões o tamanho do público indiano que “gravitava” em torno do café especial – números expressivos mesmo sob estimativas conservadoras.

“A Índia, como todos os países produtores de café dessa região do mundo, sempre foi uma economia de baixa renda. Nos últimos 10 a 20 anos, esses países se desenvolveram significativamente e agora há consumidores com renda suficiente para pagar por produtos de melhor qualidade. Isso não é apenas uma tendência no café – ocorre em todas as categorias de bens de consumo”, afirma Matt Chitharanjan, cofundador e CEO da Blue Tokai Coffee Roasters, torrefação e cafeteria de cafés especiais sediada em Gurgaon.

Fundada por Chitharanjan e Namrata Asthana em 2013, a Blue Tokai é exemplo dessa nova geração de operadores locais que elevam o padrão de qualidade enquanto valorizam os cafeicultores indianos.

Unidade da Blue Tokai em Pune

A empresa tornou-se uma das principais forças do movimento de cafés especiais na Índia e hoje opera 189 lojas em dez cidades indianas. Por meio de suas quatro torrefações – três na Índia e uma no Japão, o foco central da marca tem sido tornar o café especial indiano mais acessível, tanto no mercado doméstico quanto no exterior.

“O café indiano é subestimado globalmente. É muito raro entrar em uma cafeteria em outras partes do mundo e ver café indiano no cardápio – mas a qualidade dos grãos produzidos por nossos parceiros e torrados por nós poderia ser servida, sem qualquer problema, em qualquer cafeteria de Melbourne, Nova York ou Londres”, afirma Chitharanjan.

Hoje em dia, a Blue Tokai trabalha com uma rede de 42 produtores de café indianos e já chegou a fazer parceria com mais de 80. No entanto, a ideia de Chitharanjan e Asthana de comercializar café indiano de alta qualidade no mercado doméstico foi inicialmente recebida com ceticismo. Como Asthana descreve, um agricultor de café indiano que eles abordaram inicialmente rejeitou a ideia de vender seu produto.

Made in Índia

abCoffee, Blue Tokai e Subko estão explorando o enorme potencial do café produzido na Índia. A estratégia, economicamente, faz sentido – reduz custos de importação – e, ao mesmo tempo, alinha-se a um forte sentimento de orgulho nacional em torno de marcas locais. Em outubro de 2021, o primeiro-ministro Narendra Modi usou um pronunciamento nacional para incentivar a população a ser “vocal for local” (“valorizar o que é local”, em tradução livre) e priorizar produtos fabricados no país.

Interior da Subko Specialty Coffee Roasters

Quando o assunto é café, a Índia dispõe de recursos consideráveis. Dados do governo indiano apontam que a produção nacional atingiu 374,2 mil toneladas no ano safra 2023/24, volume que coloca o país na sétima posição entre os maiores produtores globais. Cerca de 70% desse total vem do estado de Karnataka, no sudoeste, e toda a cadeia emprega aproximadamente dois milhões de pessoas. Até 80% da produção segue para mercados de exportação de commodities.

Encravado entre as florestas densas de Andhra Pradesh, no leste do país, o Vale de Araku vem se consolidando como um pólo de cafés especiais. O estado produz hoje uma fração da safra indiana – cerca de 14,6 mil toneladas –, mas o cultivo de arábica de alta qualidade na região é considerado estratégico para reposicionar a Índia no mercado global de café.

A produção de café na região integra a iniciativa “One District, One Product” (ODOP, cuja tradução livre é “um distrito, um produto”), que oferece apoio governamental a produtos únicos e de alta qualidade produzidos nos 28 estados da Índia. Seja a cúrcuma de Lakadong, as nozes da Caxemira ou as mangas de Gujarat, “cada distrito na Índia destaca um produto para ser promovido no mercado doméstico e internacional”, afirma Randhir Jaiswal, cônsul-geral do Consulado da Índia em Nova York.

No ano fiscal 2024/25, a exportação total de café da Índia passou de US$ 1,80 bilhão – um salto significativo, se comparado aos US$ 719,42 milhões em 2020/21 e US$ 1,15 bilhão em 2022/23.

Como explica Jaiswal, o café é uma peça importante no desenvolvimento econômico da Índia. Embora muitos consumidores no Ocidente já tenham experimentado café indiano em blends populares, solúveis e cápsulas, o consulado em Nova York vem promovendo cafés de origem única e especiais nos mercados internacionais.

“Exportávamos US$ 1 milhão para os EUA em 2019/20 – mas, em 2022/23, chegamos a US$ 61 milhões”, diz Jaiswal, sobre o crescimento da produção de cafés especiais na Índia dois anos atrás. A contribuição econômica do café para o país é evidente, mas as exportações de alta qualidade também têm ajudado a tirar da pobreza comunidades tribais historicamente de baixa renda no Vale de Araku. Grande parte desse trabalho é conduzida pela organização indiana sem fins lucrativos Naandí Foundation, que há 25 anos atua na promoção de práticas de agricultura regenerativa, no incentivo ao empreendedorismo e na ampliação do acesso à educação, especialmente para mulheres e meninas.

“O objetivo é agregar valor ao café dos produtores e garantir a eles o melhor preço. O melhor disso é que a maior parte da renda vai para pequenos agricultores, produtores com pouca terra e comunidades tribais que precisam de apoio – e isso tem um enorme impacto socioeconômico na base. Por todas essas razões, o café se tornou algo muito especial”, afirma Jaiswal.

Membro da Blue Tokai colhendo café em Karnataka

Uma ascensão irrefreável

A força da Índia no cenário global vem crescendo, como ficou claro ao sediar a World Coffee Conference 2023, em Bengaluru. Coordenado pela Organização Internacional do Café (OIC) em parceria com o Coffee Board of India, o primeiro evento de café da Ásia, realizado ao longo de quatro dias, reuniu representantes dos 75 países-membros da OIC, mais de 1,5 mil delegados inscritos e 10 mil visitantes de negócios de várias partes do mundo.

Do mundo da moda à gastronomia, das viagens à tecnologia, os consumidores indianos, cada vez mais numerosos, buscam experiências de estilo de vida premium muito além do café. Em meio a uma onda crescente de otimismo nacional, o empreendedorismo local tornou-se um forte atrativo para a juventude do país, que hoje lidera a rápida transformação da indústria de cafés especiais na Índia.

Aproveitando esse momento, é apenas uma questão de tempo até que essas empresas locais comecem a deixar sua marca na Europa e nos Estados Unidos.

“Café não é apenas uma bebida, é uma conversa e parte de nossa cultura”, afirma o cônsul-geral Randhir Jaiswal. Quando se trata das ambições cafeeiras da Índia, parece que o céu é realmente o limite para esse gigante emergente.

Reportagem publicada na edição de janeiro de 2024 da 5thWave e atualizada pela Espresso com números e valores de novembro de 2025.

TEXTO Tobias Pearce (5THWAVE)

Mercado

29ª Expocafé começa hoje (26) e movimenta o setor cafeeiro em Três Pontas

Com organização da Cocatrel e Espresso&CO, evento traz programação técnica, demonstrações de tecnologias, debates sobre mercado e exposição de estandes com empresas do setor

Por Gabriela Kaneto, de Três Pontas (MG)

A 29ª edição da Expocafé, realizada entre os dias 26 e 28 de maio, no Aeroporto de Três Pontas (MG), reforça seu posicionamento como uma das principais feiras da cafeicultura nacional. Em mais um ano, a Espresso&CO, um ecossistema de marcas do setor do café, está à frente da organização e promoção da feira ao lado da Cocatrel.

“Estamos aqui no primeiro dia da 29ª Expocafé. Essa é a maior edição, com 170 expositores e dois quilômetros de feira”, comenta Jacques Miari, presidente do conselho administrativo da Cocatrel. “Temos programação para a família toda, além de tenda de eventos, com três dias de palestras sobre reforma tributária, gestão de pessoas, tendências inovadoras como tratores autônomos e elétricos, agricultura regenerativa”, complementa.

Reunindo produtores, empresas, especialistas e lideranças do setor e mais de 170 estandes expositores, o evento apresenta as principais tendências, tecnologias e debates voltados ao agronegócio café. Neste primeiro dia, a programação geral traz conteúdos sobre gestão de riscos, orientações para a safra 2026, perspectivas econômicas e políticas, a importância do agrônomo e os impactos da reforma tributária para o produtor. Já na grade do Simpósio de Mecanização da Lavoura, alguns dos assuntos abordados são pulverização com drone e mecanização eletrificada.

“É uma satisfação trabalhar em mais uma edição da Expocafé ao lado da Cocatrel, contribuindo para um evento que conecta inovação, tecnologia e conhecimento ao produtor rural. Em uma região tão tradicional e estratégica para a cafeicultura, a feira se consolida como um espaço fundamental para apresentar soluções, tendências e informações relevantes para o setor”, diz Caio Fontes, CEO da Espresso&CO.

A 29ª Expocafé é realizada pela Cocatrel, com patrocínio ouro do Crea-MG, patrocínio prata da Unimed, Sicoob, Cemig e Governo de Minas, e patrocínio bronze de Anysort, Basari, Biomix, NetZero e Giro. A organização é da Cocatrel, Ufla e Prefeitura de Três Pontas, com apoio de W Outdoor, Rede Mais, Record e EPR Vias do Café. Promoção e organização é da Espresso&CO.

Confira mais sobre o evento no @cafepointbr.

TEXTO Gabriela Kaneto • FOTO Expocafé

Mercado

Safra recorde, regulação e tensões internacionais marcam o último dia do Seminário Internacional do Café de Santos

Painéis sobre comércio exterior, oferta e demanda e os impactos da geopolítica reuniram lideranças do setor em Santos (SP), com destaque para projeções otimistas da safra brasileira e debates sobre agregação de valor ao café nacional

Por Gabriela Kaneto, de Santos (SP)

Produtores, exportadores, pesquisadores, especialistas e representantes da indústria cafeeira se reuniram em Santos (SP), entre 19 e 21 de maio, para acompanhar a 25ª edição do Seminário Internacional do Café, realizado pela Associação Comercial de Santos.

A programação do último dia do evento contou com debates importantes. Um deles foi o “Painel regulatório”, com com Marcos Matos (Cecafé), Bill Murray (National Coffee Association of USA), Kevin Lardner (Rainforest Alliance) e Augusto Billi (Ministério da Agricultura e Pecuária). Os debates giraram em torno das tarifas impostas pelo presidente Trump, reafirmaram a importância da educação do consumidor sobre os cafés do Brasil e o reposicionamento da União Europeia quanto à EUDR, ao simplificar e diminuir os custos da compliance na regulamentação. 

Outro destaque foi a palestra sobre geopolítica “O fim da hiperglobalização e o Brasil”, do economista Eduardo Giannetti, que explorou as tensões políticas atuais e destacou como esse contexto pode ser uma janela de oportunidades para o Brasil no processo de desglobalização. Potenciais do país, como sua matriz de energia limpa e como player global na produção de alimentos e de reserva de minerais raros são uma vantagem competitiva que o Brasil, deveria usar para se reposicionar globalmente. Além disso, a estratégia do país deve ser a de uma economia mais aberta, aumentando a sua importação e sua exportação de bens manufaturados. “No café, vamos vender menos in natura e mais café processado e industrializado no Brasil, para agregar valor”, pontuou. 

O vice-presidente da Associação Comercial de Santos, Carlos Santana, conduziu o painel “Supply & demand”. Os convidados Claudio Delposte (Rabobank) e Oscar Schaps (StoneX) forneceram estimativas de colheita, clima e consumo de café no Brasil e no mundo, além de questões de logística e volatilidade dos preços internacionais e expectativas das próximas safras nos principais países produtores.

As duas consultorias apostam em uma safra brasileira acima dos 70 milhões de sacas – 73,2 (Rabobank) e 75,3 (StoneX) –, com o arábica alcançando 48,7 milhões de sacas (Rabobank) e 50,2 (StoneX), e o canéfora,  24,6 (Rabobank) e 25,1 milhões de sacas (StoneX). Assim, ambas projetam um superávit do volume de consumo entre 8 e 10 milhões de sacas no mundo.

TEXTO Gabriela Kaneto

Mercado

Consumo de café cresce 2,44% de janeiro a abril 

Vendas no varejo somaram 4,91 milhões de sacas no quadrimestre, segundo a ABIC; indústria vê recuperação gradual após período de pressão sobre oferta e preços

Por Cristiana Couto

Entre janeiro e abril, as vendas de café brasileiro no varejo cresceram 2,44%, informou nesta quinta-feira (21) a Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC). O avanço corresponde a 4,91 milhões de sacas, ante 4,79 milhões no mesmo período de 2025 — ano em que o consumo havia registrado retração de 5,13% em relação a 2024. O resultado representa um sinal relevante de recuperação para o setor.

“Os dados mostram mudança constante, especialmente a partir de março, quando o consumo melhorou de maneira mais forte”, afirmou o diretor-executivo da Abic, Celírio Inácio, em coletiva de imprensa, ao comentar o aumento de 10,25% registrado naquele mês. Em abril, a alta foi de 3,66%.

Embora o crescimento ainda não compense totalmente as perdas do ano passado, o movimento traz alívio para a indústria e o varejo. “Não podemos falar ainda em recuperação total do mercado, pelos desafios relevantes enfrentados nos últimos meses. Mas, com a melhora gradual do abastecimento de matéria-prima, a expectativa de maior volume de produção, a ausência de notícias climáticas desfavoráveis e maior estabilidade do mercado, há sinais de retomada da confiança”, avaliou.

O faturamento da indústria de café torrado — formada por cerca de 1.050 empresas no país — alcançou R$ 46,24 bilhões em 2025, alta de 25,6% frente a 2024, impulsionada pelo aumento dos preços nas gôndolas.

Segundo a ABIC, o abastecimento de matéria-prima para a indústria retomou um ritmo considerado normal. A situação havia se tornado “crítica” a partir do fim de 2024 e ao longo de 2025, devido às dificuldades de acesso ao produto.

Entre as categorias, os preços continuam elevados em alguns segmentos. O café descafeinado acumulou alta de 21% entre abril de 2025 e abril de 2026, alcançando R$ 114,93 por quilo, enquanto os cafés especiais avançaram 16,89%, para R$ 161,26/kg.

Outras categorias registraram queda. O tradicional/extraforte passou para R$ 55,34/kg (-15,51%), o superior caiu para R$ 70,37/kg (-12,65%) e as cápsulas, segmento com maior valor agregado, recuaram 9,49%, para R$ 364,16/kg.