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Safra de café do Vietnã deve ficar estável

Maior produtor mundial de robusta, país tem lavouras renovadas para compensar prováveis perdas climáticas provocadas por El Niño em 2026/27

Por Reuters (Hanói)

A produção de café do Vietnã deve permanecer estável na safra 2026/27, segundo representantes do setor. O aumento da produtividade de lavouras jovens e replantadas deve compensar as perdas provocadas por chuvas excessivas e pragas em algumas áreas do Planalto Central, principal região cafeeira do país, o maior produtor mundial de canéfora.

Segundo Trinh Duc Minh, presidente da Associação de Café de Buon Ma Thuot, na província de Dak Lak, as condições climáticas afetaram desigualmente as áreas produtoras da variedade robusta, e os melhores resultados de algumas lavouras ajudam a equilibrar a oferta.

A avaliação é mais cautelosa que a previsão divulgada em maio pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). O órgão estimou uma colheita de 32,5 milhões de sacas – alta de 2,5% em relação ao ciclo anterior. Desse total, 31,4 milhões seriam de robusta, avanço de 3%.

Além da renovação das lavouras, o USDA apontou que os preços elevados de 2024/25 estimularam a expansão da área plantada e dos investimentos de empresas privadas.

A preocupação do setor, porém, é quanto à safra 2027/28. O El Niño, que costuma provocar secas no Sudeste Asiático, pode reduzir a disponibilidade de água para irrigação e comprometer a próxima colheita, embora seja cedo ainda para dimensionar as perdas.

Na província de Gia Lai, a produtora Tran Thi Mai, que cultiva 2 hectares de café, teme dificuldades para irrigar já em fevereiro. Minh também prevê abastecimento insuficiente de água e alerta para o impacto de um El Niño severo sobre a produção.

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Conheça os campeonatos e premiações da SIC 2026

Do Coffee of the Year ao Campeonato Brasileiro de Barista, o evento sedia algumas das principais competições do universo do café no Brasil

Entre os maiores destaques da Semana Internacional do Café (SIC) este ano, estarão algumas das principais competições do universo do grão no Brasil. O evento, que acontece na Expominas, em Belo Horizonte (MG), volta a reconhecer na edição de 2026 produtos e profissionais que integram toda a cadeia produtiva e comercial do café.

Ao longo da programação, entre os dias 11 e 13 de novembro, produtores, baristas, torrefadores, classificadores, além de marcas e profissionais do setor, terão oportunidades para demonstrar excelência, compartilhar conhecimento e ampliar sua visibilidade no mercado nacional e internacional.

Veja a seguir as principais premiações que acontecem na SIC este ano e que, além de revelar novos talentos e consolidar projetos de sucesso, ajudam a valorizar diferentes origens e a fortalecer a inovação na cafeicultura brasileira.

Coffee of the Year

A premiação reconhece alguns dos melhores cafés do Brasil, que se destacam pela qualidade e diversidade, valorizando diferentes origens e produtores brasileiros. Criado em 2012, o Coffee of the Year contempla arábica e canéfora, as duas principais espécies produzidas no país, aproximando os cafés finalistas de compradores, torrefadores e profissionais do mercado por meio das Salas de Cupping da SIC.

Premiação Coffee of the Year em 2025

Espresso Design

Em sua 8ª edição, o concurso de embalagens destaca a importância do design na construção e na promoção da identidade das marcas de café. Promovida pela Revista Espresso, a iniciativa valoriza criatividade, conceito, identidade visual e soluções que contribuem para a experiência do consumidor. Ao longo dos dois primeiros dias da SIC, o público poderá votar em uma das 20 embalagens expostas no evento, aproximando profissionais de café e design e apresentando ao mercado tendências para a comunicação do produto.

Golden Cup Brasil

O evento premia os melhores cafés Fairtrade de pequenos produtores e produtoras de diferentes regiões do país, que seguem padrões de comércio justo. Realizado pela Coordenadora Latino-Americana e do Caribe de Pequenos Produtores e Trabalhadores de Comércio Justo (CLAC), em parceria com a BRFAIR, o concurso dá visibilidade às pequenas cadeias produtivas de cafés arábica e canéfora, estimulando a melhoria contínua da qualidade, a sustentabilidade e a agregação de valor à produção.

Florada Premiada

No Ano Internacional da Mulher Agricultora, a SIC sedia um dos principais concursos do país dedicados às mulheres cafeicultoras, promovido pelo Grupo 3corações, em parceria com a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA). Ao reconhecer a qualidade dos cafés arábica e canéfora produzidos por mulheres, a premiação chega à sua 9ª edição fortalecendo o protagonismo delas na produção brasileira, com mais de 50 pontos de coleta de amostras em regiões produtoras do Brasil.

Premiação Florada Premiada em 2025

Torrefação do Ano Brasil

A competição dedicada à qualidade e consistência da atividade propõe aos participantes desenvolver um perfil próprio de torra a partir de um mesmo lote de café verde. Organizada pela Attila, a 5ª edição do Torrefação do Ano Brasil reúne representantes de diferentes regiões do país em uma etapa decisiva, que acontece durante a SIC.

Campeonato Brasileiro de Blends de Café

A competição valoriza o conhecimento técnico e a criatividade de profissionais envolvidos na criação de blends, destacando o trabalho de classificadores, degustadores e mestres de torra. A final do campeonato, criado pela Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), ocorre na SIC e vai avaliar o trabalho dos profissionais na combinação de diferentes cafés para a construção de perfis sensoriais equilibrados e consistentes.

Campeonato Brasileiro de Barista

Maior competição de baristas do Brasil, o evento realizado pela BSCA reúne na SIC profissionais de diferentes regiões do país. Os participantes precisarão preparar espressos, bebidas com leite e drinques autorais, em uma disputa que reconhece os profissionais de destaque do barismo nacional. O campeonato funciona como etapa de qualificação internacional, levando o campeão brasileiro ao Mundial de Barista.

Premiação Campeonato Brasileiro de Barismo (categoria Latte Art) em 2025

Concurso NossoCafé

A iniciativa destaca produtores que dedicam atenção específica à qualidade e ao cuidado na produção de cafés especiais, valorizando o trabalho no campo e a adoção de boas práticas de manejo e nutrição, que contribuem para o desenvolvimento sustentável da cafeicultura. Promovido pela Yara, empresa global de nutrição mineral de plantas e soluções agrícolas sustentáveis, o concurso, além de premiar os produtores, fortalece a conexão entre qualidade, conhecimento técnico e valorização da origem.

Prêmio ATeG

A premiação, promovida pelo Sistema CNA/Senar e destacada pelo Sistema Faemg Senar, reconhece todo ano produtores rurais, técnicos de campo e supervisores que se destacam pelos resultados de produtividade e gestão no campo. O objetivo é valorizar a transformação de propriedades rurais, por meio da orientação técnica e gerencial, em negócios mais eficientes e sustentáveis.

Serviço
Semana Internacional do Café
Quando: 11 a 13 de novembro, das 10h às 19h
Onde: Expominas (avenida Amazonas, 6.200 — Gameleira — Belo Horizonte, MG)
Mais informações e credenciamento: https://semanainternacionaldocafe.com.br/

TEXTO Equipe Espresso • FOTO NITRO/Semana Internacional do Café

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Itália e Banco Mundial lançam Iniciativa Global do Café

Parceria pretende mobilizar US$ 500 milhões; Espresso Fund, primeiro fundo global público-privado dedicado à cadeia cafeeira, terá contribuição italiana de € 40 milhões

Por Cristiana Couto

A Itália e o Grupo Banco Mundial lançaram nesta quarta-feira (14), em Roma, a Global Coffee Initiative (Iniciativa Global do Café), uma plataforma para atrair investimentos públicos e privados, ampliar a renda dos produtores e fortalecer a cadeia cafeeira diante das mudanças climáticas.

A iniciativa inclui o Espresso Fund (Fundo Espresso), primeiro fundo global público-privado dedicado à cadeia do café, para o qual o país aprovou € 40 milhões (R$ 226,5 milhões) em contribuições entre 2025 e 2027.

Promovida pelo Ministério das Relações Exteriores e da Cooperação Internacional da Itália e pela Cassa Depositi e Prestiti (CDP), em parceria com o banco, a iniciativa pretende mobilizar pelo menos US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões) em sua fase inicial.

O lançamento da GCI aconteceu na Farnesina, sede do ministério italiano, e foi transmitido ao vivo pelo YouTube durante o evento “Estratégia Internacional da Itália para o Café: Desenvolvimento, Valor, Parcerias”, dedicado a apresentar a estratégia para o setor e fortalecer parcerias com países produtores, organizações internacionais, instituições financeiras e representantes da indústria.

Lançamento da Iniciativa Global do Café na sede do Ministério das Relações Exteriores da Itália, em Roma

Em participação ao vivo pela internet, o presidente do Grupo Banco Mundial, Ajay Banga, explicou que o propósito é ajudar os cafeicultores a obterem mais valor para seus cafés, com ganhos de produtividade e renda. “Mas também significa criar empregos além das propriedades rurais: no processamento, na logística, na indústria, nas finanças, nas exportações e no varejo”, afirmou. 

O Espresso Fund financiará estudos, assistência técnica e preparação de projetos. Uma plataforma de cofinanciamento buscará recursos públicos e privados para viabilizar as operações. Entre as frentes de atuação do fundo estão variedades adaptadas às mudanças climáticas, práticas regenerativas, rastreabilidade e capacitação dos produtores para que possam melhorar a produtividade, atender às exigências regulatórias e fortalecer conexões com o mercado.

O fundo está alinhado ao AgriConnect, principal plataforma do Grupo Banco Mundial para ampliar soluções que geram empregos e fortalecem as cadeias de valor agrícolas.

A GCI é resultado do compromisso assumido pelo G7 durante a presidência italiana, em 2024. Na cúpula de junho daquele ano, em Puglia, no sul da Itália, os líderes apoiaram uma parceria público-privada para fortalecer a sustentabilidade da cadeia cafeeira e avaliar a criação de um fundo global para o setor.

O encontro reuniu Vanusia Nogueira, diretora-executiva da Organização Internacional do Café (OIC), Giuseppe Lavazza, presidente do Comitê Italiano do Café e do Grupo Lavazza, e Andrea Illy, presidente da illycaffè. Também participaram representantes dos governos de Uganda, Quênia e Colômbia e Maurizio Martina, vice-diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Illy avaliou o lançamento como “o início da fase operacional desse sonho”, em referência à mobilização internacional pelo futuro do café. Segundo ele, agricultura regenerativa, sistemas agroflorestais e renovação dos cafezais com variedades mais produtivas e de melhor qualidade podem fortalecer a adaptação ao clima e aumentar a rentabilidade dos agricultores.

Vanusia destacou a necessidade de transformar os compromissos em ações e investimentos. “Seu sucesso dependerá de uma forte colaboração entre governos, instituições financeiras internacionais, parceiros de desenvolvimento, produtores de café e suas organizações”, afirmou.

A estratégia italiana inclui ainda o ACT Coffee, programa da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO), desenvolvido em colaboração com a OIC e parceiros do setor. Vinculado ao Plano Mattei, de cooperação italiana com a África, e ao Global Gateway, estratégia europeia de investimentos internacionais, o programa atua inicialmente na Etiópia, no Quênia, em Uganda, na Tanzânia e no Maláui.

Segundo o Banco Mundial, o café é fonte de renda para mais de 100 milhões de pessoas e um importante produto de exportação para mais de 50 países.

TEXTO Cristiana Couto

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SIC 2026 terá Summit dedicado às mulheres do agro e do café

Programação acontece no último dia do evento e integra as ações do Ano Internacional da Mulher Agricultora

Sandra Lelis, do Sítio Caminho da Serra, em Araponga (MG), que estará no talk “Excelência que inspira: as histórias das produtoras de cafés campeões”

A Semana Internacional do Café (SIC) deste ano terá, entre as novidades, o Summit Mulheres, programação temática dedicada à atuação feminina na cafeicultura e no agronegócio. O encontro acontece em 13 de novembro, terceiro e último dia do evento, a partir das 10h, na Arena SIC, no Expominas, em Belo Horizonte (MG).

A iniciativa, composta por palestras, painéis e talks com produtoras, pesquisadoras e lideranças do agro e do café, integra as ações do Ano Internacional da Mulher Agricultora, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) para 2026. A mobilização busca dar visibilidade à participação das mulheres nos sistemas agroalimentares e ampliar seu acesso a recursos como terra, financiamento, tecnologia, capacitação e espaços de decisão.

A palestra magna de abertura do Summit, “As mulheres que estão transformando o agro brasileiro”, será feita por Tania Zanella, primeira mulher a assumir a presidência-executiva do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), que reúne e representa as cooperativas brasileiras.

Entre os destaques do dia está o painel “Histórias e lideranças femininas do grão à xícara”, às 11h40, com Isabela Raposeiras, fundadora do Coffee Lab, em São Paulo; Poliana Perrut, cafeicultora e engenheira agrônoma que atua com assistência técnica nas Matas de Rondônia; e Mariselma Sabbag, presidente da Aliança Internacional das Mulheres do Café (IWCA Brasil).

Às 14h20, produtoras premiadas no Coffee of the Year participam do talk “Excelência que inspira: as histórias das produtoras de cafés campeões”. Participam Sandra Lelis, do Sítio Caminho da Serra, em Araponga (MG), vencedora na categoria arábica em 2017 e em fermentação induzida em 2021; Carolinna Bridi Gomes, da Fazenda São Bento, em Santa Teresa (ES), campeã entre os canéforas em 2025; e Larissa Sodré de Paula, do Sítio Café da Sophia, em Alto Jequitibá (MG), vencedora na categoria arábica em 2022.

A programação inclui ainda painéis sobre ciência, tecnologia e sustentabilidade; sucessão, gestão e empreendedorismo; e os impactos de acontecimentos globais sobre os negócios do café.

Serviço
Semana Internacional do Café
Quando: 11 a 13 de novembro, das 10h às 19h
Onde: Expominas (avenida Amazonas, 6.200 — Gameleira — Belo Horizonte, MG)
Mais informações e credenciamento: https://semanainternacionaldocafe.com.br/

TEXTO Equipe Espresso

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“Precisamos mudar a pesquisa do café de uma lógica de projetos para uma lógica de resultados”

O novo chefe-geral da Embrapa Café, Rodolfo Osorio de Oliveira, defende uma revisão do modelo de gestão da pesquisa cafeeira, maior previsibilidade dos recursos do Funcafé e programas permanentes de capacitação para aproximar a ciência do campo

Por Lívia Andrade

“O potencial da cafeicultura está no Brasil inteiro”. Esta frase define o desafio que Rodolfo Osorio de Oliveira, novo gestor da Embrapa Café, tem pela frente. Para isso, o engenheiro agrônomo quer mudar o modelo que orienta a pesquisa cafeeira brasileira, hoje focado em projetos, para uma lógica baseada em resultados. Seu foco é alavancar a sustentabilidade e o desenvolvimento de territórios por meio de um programa de capacitação continuada para técnicos, responsáveis por disseminar o conhecimento porteira adentro. Entre os territórios, destaca-se o Nordeste, onde estudos recentes identificaram potencial para a cafeicultura em sete dos nove estados da região.

A seguir, a entrevista com Oliveira, concedida por videoconferência a partir de Brasília.

Espresso: Sua chegada é vista como um novo ciclo para a Embrapa Café. O que muda a partir daqui?

Rodolfo Osorio de Oliveira: Quero transformar a Embrapa Café numa referência forte em café dentro da própria empresa e para o país. Vou aproveitar os 43 centros de pesquisa que a instituição tem, com equipes que trabalham com genética, solos e agroindústria, para contribuir com a cafeicultura sustentável e resiliente às mudanças climáticas, sempre olhando os pilares econômico, social e ambiental. Mas é preciso fortalecer o [pilar] econômico. Se o produtor não tiver renda, fica difícil exigir mais dele. Hoje existem tecnologias para arábica e canéfora que permitem produzir bem, ganhar dinheiro e, ao mesmo tempo, reduzir impactos ambientais e emissões de gases de efeito estufa.

E: O que é a Embrapa Café e qual a relação dela com o Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café (CBP&D/Café)?

R: O consórcio é um acordo de cooperação técnica, criado em 1997, que reúne instituições estaduais de pesquisa [Epamig, IAC, Incaper, IDR-PR e Pesagro-Rio], universidades [UFLA, UFV e Uesb], a Embrapa e o MAPA. Essa cooperação surge para organizar a pesquisa cafeeira após a extinção do Instituto Brasileiro do Café (IBC), em 1990. Neste arranjo, a Embrapa faz a gestão, o repasse de recursos para pesquisa e é responsável por uma estratégia nacional de desenvolvimento da cafeicultura, garantindo continuidade às pesquisas.

E: Em quase três décadas de atuação, quais as principais entregas do CBP&D/Café?

R: A principal foi a formação de equipes técnicas qualificadas para a cafeicultura. Uma parte dos pesquisadores que atuam com café nas instituições brasileiras passou por programas apoiados pelo consórcio. Além da formação de pessoal, o consórcio contribuiu para o desenvolvimento de diversas cultivares de café arábica adaptadas às diferentes regiões produtoras, com maior produtividade e resistência a altas temperaturas, pragas e doenças.

Outro avanço foi a criação de um ambiente de trabalho em rede entre instituições de pesquisa, fortalecendo a cooperação, a troca de conhecimento e a busca conjunta por recursos.

E: Como são definidos os temas da agenda de pesquisa?

R: Os temas de pesquisa são avaliados e aprovados por um comitê técnico de representantes da cadeia no CDPC. O consórcio apresenta uma proposta inicial de temas, construída a partir de consultas ao próprio setor, buscando identificar os obstáculos e demandas da cafeicultura. A partir disso, são estruturadas as agendas de pesquisa, que têm funcionado por meio de editais com duração média de quatro anos.

E: As pesquisas do CBP&D/Café são financiadas por recursos do Funcafé. Como tem sido o financiamento das pesquisas nos últimos anos?

R: Não existe pesquisa sem dinheiro e, principalmente, sem previsibilidade. Há uma tendência de queda nos repasses do Funcafé para pesquisa, algo que preocupa o consórcio e a Embrapa. Mais do que o volume de recursos, o problema é a instabilidade dos repasses, já que pesquisa é um processo de médio e longo prazo. Um projeto dura pelo menos quatro anos; no caso do desenvolvimento de cultivares, pode levar até 25 anos. Prefiro trabalhar com menos recursos, mas com garantia e previsibilidade ao longo do tempo. Os projetos são planejados para ciclos de quatro anos, mas os recursos dependem do orçamento anual do MAPA, que varia de ano para ano. Ou seja, o planejamento da pesquisa é de médio prazo, enquanto a lógica do financiamento é de curto prazo. Isso não é má vontade do ministério nem do consórcio, mas uma dificuldade do modelo atual.

Também é preciso olhar para os próximos 20 anos, entendendo como as mudanças climáticas vão afetar a cafeicultura, especialmente a do arábica, mais sensível ao calor. O consórcio administra cerca de 100 projetos. Talvez seja necessário discutir se não há projetos demais e entregas de menos, buscando direcionar melhor os recursos limitados.

Precisamos de mais recursos e de uma mudança na gestão das pesquisas, saindo de um modelo focado em projetos para uma lógica baseada em resultados, que permita direcionar melhor os investimentos e concentrar esforços naquilo que a ciência pode resolver no médio e longo prazo.

E: Uma de suas propostas é fortalecer a Embrapa Café por meio de novas parcerias. Como isso deve ocorrer?

R: O primeiro passo é fortalecer as parcerias que a Embrapa Café já mantém no consórcio – iniciamos conversas para melhorar a eficiência e ampliar os ganhos dessas relações. Também é preciso aproximar a Embrapa de outros elos da cadeia, especialmente da indústria e dos consumidores. Temas como sustentabilidade e rastreabilidade vêm justamente das demandas de quem consome café. Por isso, estamos em diálogo com a ABIC e a Abics para buscar soluções para os desafios da cadeia.

Outra frente é usar o café como instrumento de desenvolvimento de territórios. Queremos fortalecer parcerias com grupos de agricultores, cooperativas e federações para desenvolver programas de inovação e capacitação continuada em regiões com grande potencial de crescimento, como o Norte.

E: Entre os temas que mencionou – territórios, rastreabilidade e sustentabilidade –, qual é hoje a prioridade?

R: Sustentabilidade e desenvolvimento de territórios. Sustentabilidade significa produzir café com qualidade, rentabilidade e respeito às questões ambientais e sociais, gerando prosperidade ao cafeicultor. Para isso, a ciência precisa sair do laboratório e chegar ao campo. A prioridade é criar programas de capacitação continuada para técnicos e profissionais que trabalham com os produtores, com metodologias adaptadas às diferentes realidades da cafeicultura brasileira.

Também queremos criar espaços de interação entre pesquisadores, produtores e mercado. Esse trabalho passa mais por construção conjunta do que pela imposição de modelos prontos. Temos muito material genético disponível e é preciso entender como ele se comporta em novas condições climáticas e regiões. Já estamos iniciando testes de adaptação de robustas amazônicos em diferentes regiões do Ceará e acompanhando experiências em locais antes improváveis para o plantio de café, como áreas próximas ao litoral do Nordeste.

E: Onde estão hoje as novas fronteiras da cafeicultura brasileira?

R: O potencial da cafeicultura está no Brasil inteiro. Rondônia é um exemplo disso. O robusta já existia no estado, mas era visto como um café de baixa qualidade. A partir da seleção de materiais genéticos identificados pelos próprios produtores, a Embrapa ajudou a desenvolver o que hoje é reconhecido como um café amazônico brasileiro com identidade própria. Pesquisas mostram ainda que, em Rondônia, um hectare de café pode sequestrar mais carbono do que emitir.

Os robustas amazônicos estão sendo levados para Amazonas, Pará, Roraima e Acre. Além da adaptação climática, apresentam diferenciais de mercado que ajudaram a mudar a percepção sobre o canéfora.

Nossos primeiros levantamentos na região Nordeste, por exemplo, identificou potencial em sete dos nove estados da região, mas com cenário diferente. Os cafezais do Maciço de Baturité, no Ceará, existem há mais de 200 anos e eram cultivados sob a sombra da Mata Atlântica. Quando o IBC incentivou a substituição desse modelo pelo sistema a pleno sol, boa parte da produção desapareceu. Os produtores que permaneceram mantiveram uma cafeicultura com valor histórico, ambiental e turístico. A proposta é desenvolver modelos em que o café seja parte de uma estratégia de turismo e valorização territorial, capaz de gerar renda mesmo sem altas produtividades.

E: Que oportunidades existem para o aproveitamento do café além do consumo como bebida?

R: O Núcleo de Estudos Avançados do Café (NEAC), uma estrutura em fase de implantação, vai ser um laboratório voltado à química e bioquímica de alimentos, com foco em biomoléculas do café e no desenvolvimento de produtos de alto valor agregado, como fármacos e alimentos nutracêuticos.

O NEAC trabalha com economia circular, ao aproveitar subprodutos e cafés impróprios para consumo, como grãos verdes ou ardidos.

Já existem, por exemplo, pesquisas [em fase inicial] da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia que conseguiram isolar uma molécula com potencial analgésico, por exemplo.

O projeto, prioritário para a Embrapa, conta com recursos do Programa de Aceleração e Crescimento [PAC]. A ideia é mostrar aos potenciais parceiros o que a Embrapa Café pode agregar aos projetos deles e, a partir disso, ampliar a captação de recursos nacionais e internacionais, especialmente junto a instituições com histórico de parceria com a Embrapa.

Oliveira com a cafeicultora Cristiane Zancanaro durante a Agrobrasília 2026

E: Qual seria o impacto de uma molécula do café com potencial analgésico chegar ao mercado?

R: É importante frisar que a pesquisa está na sua fase inicial. Se essa molécula se mostrar viável primeiro em laboratório, e depois em escala, o impacto pode ser enorme para a cafeicultura. Mesmo porque podem ser usados cafés verdes ou ardidos para a extração dessas substâncias, o que poderia mudar a lógica de parte do setor. Por isso, é um tema que precisa ser tratado com cuidado e analisado em profundidade. O potencial de disrupção é grande para a pesquisa e o mercado de café.

E: Como pretende revitalizar os bancos de germoplasma de café?

R: Para ser um Banco Ativo de Germoplasma (BAG), não basta manter plantas ou sementes guardadas. É preciso conservar o material genético, seja in situ, com plantas em campo, ou ex situ, com sementes em câmaras frias ou materiais preservados em cultura de tecidos. Também é preciso registrar, catalogar, caracterizar geneticamente e disponibilizar esse material para intercâmbio entre programas de pesquisa.

Muitas instituições do consórcio tem coleções genéticas de café, mas nem todas são BAGs, pois não passaram por todo esse processo. Hoje, os principais desafios são o registro e a gestão. Manter um BAG custa caro, exige equipe, estrutura e recursos contínuos. Perder esse material significa perder parte do futuro da cafeicultura, principalmente a possibilidade de desenvolver plantas mais resistentes a pragas, doenças e mudanças climáticas.

Uma das propostas é integrar o café à estrutura nacional de conservação genética da Embrapa, organizando primeiramente os materiais nesse sistema e, futuramente, ampliando a estrutura para funcionar como um banco de segurança para o país, recebendo cópias de materiais genéticos de outras instituições. É um tema sensível, ainda em discussão.

E: Na sua avaliação, o melhoramento genético deve priorizar novas variedades de arábica resilientes ao calor, o potencial dos canéforas ou espécies raras de café?

R: O melhoramento genético nunca saiu de pauta. Quanto mais tempo um programa permanece ativo, mais informação e dados ele acumula. Os canéforas vêm ganhando importância pela maior resistência a altas temperaturas e ao déficit hídrico em comparação ao arábica, e a experiência de Rondônia com robustas amazônicos especiais abriu um mercado impensável anos atrás.

Os programas de melhoramento vão continuar trabalhando com arábica, buscando materiais mais resistentes ao calor, a pragas e a doenças. Ao mesmo tempo, existe esse movimento de testar e adaptar materiais em novas regiões, aproveitando variedades desenvolvidas para entender como se comportam em áreas próximas ao mar ou em regiões de altitude por exemplo.

Existe também um olhar atento a outras espécies, como Coffea liberica e Coffea stenophylla. São materiais pouco estudados no Brasil, usados como fonte de resistência genética, mas com potencial diante da crescente demanda mundial por cafés raros. São plantas com menor produtividade, mas que podem atingir alto valor agregado.

Não se trata de substituir arábica ou canéfora, mas de trabalhar várias frentes, como adaptação a novas condições de cultivo e abertura de novos mercados para cafés diferenciados.

E: O que as novas fronteiras cafeeiras podem ensinar às regiões tradicionais?

R: Uma das lições é a necessidade de maior integração. Organizações de produtores, instituições de ensino, assistência técnica, extensão rural, crédito e governo precisam trabalhar de forma integrada, com planejamento para cada território. Existe muita gente fazendo a mesma coisa. Rondônia é um exemplo interessante desse esforço conjunto – construiu um planejamento estratégico para a cafeicultura com entidades públicas e privadas, para entender como a sinergia entre instituições pode gerar desenvolvimento eficiente, beneficiando os produtores, a cadeia e o estado, com geração de riqueza e arrecadação.

Texto originalmente publicado na edição #92 (junho, julho e agosto de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Lívia Andrade

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Conab aumenta previsão para safra recorde de café no Brasil em 2026

Com projeção de 67,6 milhões de sacas, país deve elevar em 19,6% sua produção em relação a 2025; arábica pode ter salto de 34,8% e canéfora, queda de 6,6%

O Brasil deve produzir um total de 67,6 milhões de sacas de café em 2026, aponta o 3º levantamento da safra do grão, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) nesta quinta-feira (24). A estimativa eleva em 900 mil sacas a projeção anterior, registrada em maio.

Segundo a instituição, se confirmado, o montante representa uma alta de 19,6% na comparação com a safra de 2025, o que representaria uma colheita recorde em sua série histórica. O desempenho positivo é puxado pelo crescente uso de tecnologias no manejo e pela combinação de condições favoráveis do clima, além da influência das condições fisiológicas da planta.

Acompanhando o aumento, a área em produção de café no país também deve crescer 5,1%, diz a Conab, estimada em 1,95 milhão de hectares – movimento comum em ano de alta bienalidade, marcado pela produção abundante. Passando de 30,4 sacas por hectare em 2025 para 34,6 este ano, a produtividade média nacional deve ter variação positiva de 13,8%.

Para o arábica, a estimativa é que a colheita este ano alcance 48,2 milhões de sacas, um salto de 34,8% em comparação a 2025, ainda de acordo com o levantamento. Já a produção do canéfora deve sofrer uma redução de 6,6%, com 19,4 milhões de sacas. A queda reflete a menor produtividade nacional da variedade, puxada por uma redução de 14,3% devido às baixas temperaturas no Espírito Santo, principal produtor de conilon no país.

No início de setembro, a corretora StoneX projetou um recorde de 77,2 milhões de sacas na produção brasileira para 2026/2027. Caso confirmada, a estimativa representaria um crescimento de 23,9% em comparação ao ciclo anterior. A empresa também aposta em um novo ciclo favorável para 2027/2028, por conta das condições climáticas positivas no período de enchimento dos grãos.

O Brasil registrou em agosto de 2026 o maior volume de exportações da sua série histórica para o mês, com um total de 3,8 milhões de sacas, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Ainda assim, o país acumula baixa de 6,6% no ano em comparação com 2025, com 24,6 milhões de sacas exportadas.

Fontes: Conab, Reuters e Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC)

TEXTO Redação

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Florada precoce pode antecipar nova safra brasileira

Principal florada do arábica pode adiantar a colheita de 2027, mas maturação desigual e maior risco de doenças preocupam o setor

Por Reuters (São Paulo e Nova York)

Antecipada em cerca de um mês, a principal florada do café arábica, que normalmente ocorre em outubro, pode fazer com que a colheita da safra 2026/27 comece já em maio de 2027. A avaliação consta de levantamento publicado nesta segunda-feira (21) pela Reuters. A agência internacional de notícias ouviu especialistas do Sul de Minas e da Alta Mogiana, no interior de São Paulo. 

A florada precoce apresentou bom desenvolvimento e pode estar relacionada às chuvas incomuns para esta época do ano, sob influência de anomalias associadas ao El Niño. A precipitação manteve a umidade elevada nas lavouras e favoreceu a abertura das flores. Caso as condições climáticas continuem favoráveis, o ciclo mais adiantado poderá antecipar também a chegada do arábica ao mercado. 

As floradas menos intensas registradas em agosto, porém, podem fazer com que os frutos alcancem diferentes estágios de maturação, o que dificultaria a colheita e poderia comprometer a qualidade da safra 2026/27.

“De qualquer forma, teremos essa problemática da diferença de maturação, de estágios dos frutos”, afirmou Lucas Ubiali, engenheiro agrônomo que acompanha lavouras de café em diferentes áreas da Alta Mogiana.

Adriano Rabelo, coordenador técnico da Minasul, cooperativa sediada em Varginha, no Sul de Minas, observa que, neste ano, a ausência do período seco que normalmente antecede as chuvas reduziu a uniformidade das floradas.

Segundo ele, choveu durante praticamente toda a colheita, e uma florada expressiva está agora em curso na maioria das regiões acompanhadas pela cooperativa. A expectativa, por enquanto, é que os frutos dessa florada de setembro sejam colhidos em maio, antes do período habitual. “Normalmente, a florada principal é em outubro”, afirmou. “Normalmente, a florada principal é em outubro”, reforçou Rabelo. 

Luiz Eduardo Vilela de Rezende, vice-presidente do Conselho de Administração da Cocatrel, com sede em Três Pontas, no Sul de Minas, também avalia que a ocorrência de várias floradas pode resultar em maturação desigual e dificultar a colheita. 

Ele ressalta que a ocorrência de até três floradas é conhecida e administrável pelos produtores, e não é possível ainda estimar o grau de desuniformidade da próxima safra. Caso a diferença de maturação se confirme durante o desenvolvimento dos frutos, será preciso redobrar a atenção na colheita e na separação dos lotes. “São práticas que o cafeicultor já utiliza para preservar a qualidade diante de diferentes estágios de maturação”, afirmou. 

“Diante da antecipação do ciclo, técnicos alertam que é fundamental ajustar o planejamento agronômico e antecipar os manejos de proteção pré e pós-florada, conforme as condições do clima e de cada lavoura e região”, afirmou a Expocacer.

O Cerrado Mineiro também teve a florada principal antecipada – e expressiva – segundo informação da Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer) nesta segunda (21), diz a Reuters. A recomendação da cooperativa é que os produtores revejam seu planejamento e antecipem os manejos de proteção anteriores e posteriores à florada, de acordo com o clima e as condições de sua lavoura.

Embora favoreça o desenvolvimento dos cafeeiros, mais umidade nas lavouras aumenta o risco de doenças. Segundo o engenheiro agrônomo Jonas Ferraresso, que atende propriedades em São Paulo e Minas Gerais, a incidência de doenças bacterianas e fúngicas em 2026 está elevada e pode persistir até o próximo ciclo caso o tempo continue úmido. 

Outro risco até a colheita é a ocorrência de temperaturas extremas associadas ao El Niño durante o verão brasileiro.

Cafezal •

Colheita da safra principal da Colômbia começa com menor expectativa

Por Reuters

Os cafeicultores colombianos, muitos dos quais ainda se recuperam dos danos causados pelo terremoto em 10 de agosto, vão iniciar a colheita da safra principal de café com qualidade ligeiramente inferior e produção estável, segundo expectativa da Sucafina, informa a Reuters.

A empresa, uma das maiores tradings globais de café e entre as principais exportadoras do grão colombiano, também afirmou à agência que o volume da nova safra (2026/27) deve ser menor, semelhante ao da temporada anterior, sem fornecer números – a colheita principal do país acontece entre setembro e dezembro. “Espera-se que a qualidade se mantenha em nível exportável, embora um pouco abaixo da safra principal anterior”, disse a Sucafina, que espera a entrada de volumes maiores no mercado entre novembro e dezembro.

“Tivemos chuvas intensas ao longo do primeiro trimestre; depois, o padrão mudou para uma seca moderada durante o segundo e o terceiro trimestres. Esse tipo de oscilação não dá à safra muito espaço para se recuperar”, disse Oscar Hurtado, diretor global de pesquisa de produção da Sucafina.

Segundo ele, o “verdadeiro teste” virá com a próxima Mitaca (a colheita intermediária da Colômbia, entre abril e junho), quando o El Niño estiver no auge, influenciando diretamente as principais áreas de cafeicultoras do país.

A nova safra pode alcançar 13,4 milhões de sacas, segundo projeção do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, que calculou a anterior em 12,5 milhões de sacas.

TEXTO Reuters

Cafezal •

A resiliência do robusta ao calor não é um “mito da internet”

Em artigo exclusivo para a Espresso, Fábio DaMatta contesta conclusões de estudo internacional e afirma que genética, manejo e resultados obtidos no Brasil demonstram a capacidade dos robustas de produzir sob temperaturas elevadas

Por Fábio M. DaMatta (colaborou Guilherme Messias Duarte)

Classificar a resiliência climática do café robusta como um “mito da internet”, como fez o botânico inglês Aaron Davis em entrevista recente à Reuters após a publicação de seu artigo científico sobre o tema e sua difusão em veículos de comunicação, é uma generalização que precisa ser contestada. 

O estudo por ele liderado (Davis et al., 2026) tem inúmeros méritos ao apontar riscos associados à escassez de água, à expansão sem planejamento e às limitações dos modelos de previsão. Concordamos com esses alertas. Eles, contudo, não sustentam uma desqualificação ampla da capacidade dos robustas de produzir em ambientes quentes. Nesse aspecto, a realidade da cafeicultura brasileira, particularmente a de Rondônia, oferece um contraponto que não recebeu a devida atenção.

Tolerância ao calor e tolerância à seca são características distintas. Um cafeeiro pode produzir muito bem sob temperaturas relativamente elevadas quando dispõe de água e, ao mesmo tempo, ser vulnerável à falta dela. Usar essa vulnerabilidade para colocar em dúvida sua resiliência ao calor mistura duas questões diferentes e transmite ao público uma interpretação equivocada.

A realidade de Rondônia é bastante clara a esse respeito. Em várias regiões do estado, lavouras bem manejadas ultrapassam 100 sacas por hectare, mesmo sob temperaturas médias anuais superiores a 25°C. Em condições experimentais, há registros de médias superiores a 200 sacas por hectare ao longo de três colheitas. São plantas que florescem, frutificam e produzem abundantemente em ambientes quentes.

Dados medidos em uma propriedade localizada em Nova Brasilândia d’Oeste, uma das principais regiões produtoras de café robusta em Rondônia, ilustram essa realidade. Nos anos agrícolas de 2023/2024 e 2024/2025, as temperaturas médias anuais ficaram em torno de 28°C, muito acima da média histórica regional, situada entre 25 e 26 °C. 

Mesmo sob esse calor, as produtividades alcançaram 120 e 115 sacas por hectare, respectivamente (Tabela 1 abaixo). O resultado de 2023/2024 é particularmente expressivo, pois foi obtido apesar da ocorrência, em 2024, de uma seca severa para os padrões rondonienses, com praticamente quatro meses sem chuvas, entre maio e setembro.

Tabela 1. Médias anuais das temperaturas máximas, médias e mínimas, precipitação acumulada e produtividade de lavouras de cafés robustas em Nova Brasilândia d’Oeste, Rondônia, durante quatro anos agrícolas, de junho a maio.

Ano agrícola Temp. máxima (°C) Temp. média (°C) Temp. mínima (°C) Precipitação (mm) Produtividade (sc/ha)
2021/2022 33,5 26,1 18,6 1.965 95
2022/2023 32,9 25,6 18,9 2.602 132
2023/2024 36,8 28,1 20,4 2.145 120
2024/2025 36,5 28,0 20,7 1.693 115

Esses dados não demonstram que o calor seja inofensivo ou que temperaturas médias próximas de 28°C sejam ótimas para todos os materiais. Tampouco permitem concluir que não tenha havido perda de produtividade causada pelo calor ou pela seca. 

Demonstram, entretanto, que genótipos selecionados de Coffea canephora podem florescer, frutificar e sustentar produtividades muito elevadas nessas condições. Isso contraria a generalização de que temperaturas médias anuais superiores a 25°C seriam necessariamente deletérias à floração e à frutificação dos robustas, conforme sugeriu Davis. Uma avaliação sobre os limites térmicos da espécie precisa explicar essa realidade, em vez de formular conclusões que não a acomodam.

Ao não atribuir o devido peso a resultados como esses, Davis parece desconhecer aspectos fundamentais da cafeicultura brasileira contemporânea, especialmente os avanços obtidos na seleção de materiais genéticos e no manejo das lavouras. A questão não é desconsiderar sua contribuição científica, mas questionar a abrangência de conclusões que não refletem adequadamente a experiência de um dos maiores produtores mundiais de C. canephora.

O mesmo problema aparece na interpretação da temperatura presumivelmente ótima, próxima de 20,5°C, estimada a partir de condições asiáticas. Em experimentos conduzidos em regiões brasileiras de maior altitude, com temperaturas médias anuais em torno de 20°C, muitos clones de C. canephora apresentam crescimento vegetativo vigoroso, mas produzem muito pouco. Alguns genótipos produzem relativamente bem, porém, são minoria (Partelli et al., 2019). Para a maioria dos materiais avaliados nessas condições, portanto, temperaturas mais baixas não se traduzem em maior produtividade. Uma estimativa regional não deveria ser transformada em referência universal sem considerar a origem e a identidade dos materiais genéticos cultivados.

Essas diferenças de comportamento remetem à ampla diversidade genética de C. canephora, espécie alógama que reúne os cafés conhecidos como conilon e robusta, além de numerosos híbridos entre esses grupos. Há diferenças expressivas entre genótipos quanto à produtividade e às respostas ao calor e à seca. Embora os autores reconheçam essa variabilidade intraespecífica, não lhe atribuem o devido peso em suas conclusões. Não basta reconhecer a diversidade ao longo do artigo se, ao final dele, limitações observadas em determinados materiais e ambientes são generalizadas para toda a espécie.

Também é inadequado utilizar as condições encontradas no habitat natural africano como se elas estabelecessem os limites dos materiais atualmente cultivados. A origem florestal da espécie e sua ocorrência natural em ambientes com temperaturas médias geralmente inferiores a 25°C ajudam a compreender sua biologia, mas não encerram sua história. 

Ao longo do processo de domesticação, pesquisadores e produtores selecionaram materiais capazes de se destacar a pleno sol e sob temperaturas mais elevadas. A cafeicultura brasileira contemporânea é resultado desse processo contínuo de seleção, combinado com grandes avanços no manejo.

As generalizações sobre o sistema radicular merecem cuidado semelhante. A concentração de grande parte das raízes nas camadas superficiais não significa incapacidade de explorar camadas mais profundas do solo. Em solos com acidez corrigida e sem impedimentos físicos ao crescimento, observa-se um desenvolvimento muito profuso de raízes até a profundidade avaliada de 1,20 m (DaMatta et al., 2025). É provável que quantidades consideráveis de raízes também ocorram abaixo dessa camada. O desenvolvimento radicular depende do genótipo e, em grande medida, das condições físicas e químicas do solo, não podendo ser tratado como uma limitação fixa e uniforme de todos os robustas.

Quanto à água, o contraste entre as regiões brasileiras é especialmente esclarecedor. No Espírito Santo, principal produtor brasileiro de conilon, a produção é altamente dependente de irrigação, embora as temperaturas médias anuais nas principais regiões produtoras girem em torno de 24°C. Em Rondônia e em outros estados amazônicos nos quais o cultivo vem se expandindo, temperaturas médias anuais superiores a 27°C são compatíveis com produtividades muito elevadas.

Rondônia recebe, geralmente, entre 1.400 e 2.400 mm de chuva por ano, mas apresenta uma estação seca de aproximadamente quatro meses. Uma precipitação anual elevada não garante água em quantidade suficiente durante todas as fases do ciclo produtivo. Por isso, a irrigação continua sendo importante para assegurar altas produtividades. Sua necessidade depende da distribuição das chuvas, da capacidade do solo de armazenar água, da demanda atmosférica e da própria demanda da lavoura. Não constitui, por si só, evidência de intolerância ao calor.

Há uma premissa fisiológica elementar que precisa ser considerada nessa discussão: altas produtividades exigem suprimento de água elevado porque, para incorporar CO₂ pela fotossíntese, a planta inevitavelmente perde água. Os estômatos permitem simultaneamente a entrada de CO₂ e a saída de vapor de água. Em termos simples, a planta troca água por CO₂, do qual retira o carbono utilizado na formação de folhas, caules, raízes e frutos. Essa troca pode ocorrer com maior ou menor eficiência, mas não pode ser eliminada. Quanto maior a produção de biomassa e de frutos, maior tende a ser o consumo de água. Isso não é uma deficiência particular dos robustas, mas uma condição fisiológica comum às plantas terrestres.

É necessário, portanto, distinguir a demanda hídrica associada à produção do desperdício causado por uma irrigação mal dimensionada ou mal manejada. Uma lavoura muito produtiva pode utilizar mais água por hectare e, ainda assim, produzir mais café por unidade de água consumida. Avaliar apenas o volume aplicado, sem considerar a produtividade obtida, fornece uma visão incompleta da eficiência e da sustentabilidade do sistema. Evidentemente, essa eficiência deve ser conciliada com a disponibilidade hídrica da região e com a preservação dos recursos naturais.

Essa distinção é particularmente relevante no contexto das mudanças climáticas. Onde existem recursos hídricos e infraestrutura adequados, os efeitos da irregularidade das chuvas e dos períodos de seca podem ser parcialmente compensados com irrigação eficiente, armazenamento de água e manejo responsável do solo. A disponibilidade de água não é simples nem ilimitada, mas pode, em determinadas condições, ser manejada.

O aumento da temperatura é um desafio muito mais difícil de controlar no campo. Seus efeitos podem ser atenuados pela escolha de genótipos, pela arborização e pelo manejo da cultura, mas o produtor não consegue controlar a temperatura do ar em uma lavoura. Por isso, a capacidade de materiais selecionados produzirem sob temperaturas elevadas representa uma vantagem adaptativa especialmente relevante. A vulnerabilidade dos robustas à seca não elimina sua resiliência relativa ao aquecimento, principalmente porque o suprimento de água é, em muitos contextos, mais manejável do que o calor.

Essa discussão revela outra limitação na abordagem de Davis. Ao enfatizar a sustentabilidade ambiental, o autor parece relegar a segundo plano uma de suas dimensões essenciais: a sustentabilidade econômica e social do produtor. Sustentabilidade não se resume a reduzir o uso de água, fertilizantes ou outros insumos. Para que uma atividade agrícola seja verdadeiramente sustentável, ela também precisa gerar renda, remunerar o trabalho e permitir que o produtor permaneça no campo com condições dignas de vida.

Essa questão é particularmente importante para os pequenos produtores, que constituem parte expressiva da cafeicultura de C. canephora. Eles não cultivam café apenas para conservar recursos naturais, embora essa conservação seja indispensável. Cultivam-no para sustentar suas famílias. Sem produtividade e renda, não há permanência no campo, capacidade de investimento ou adoção duradoura de práticas ambientalmente responsáveis. Uma proposta de sustentabilidade que não incorpore a viabilidade econômica do sistema corre o risco de ser ambientalmente desejável no discurso, mas socialmente inviável na prática.

Os alertas apresentados no estudo permanecem pertinentes. A expansão da cafeicultura deve estar vinculada ao planejamento hídrico, à conservação do solo, ao armazenamento de água e à irrigação eficiente. A busca por produtividade não justifica o desperdício nem o uso de água acima da capacidade das bacias hidrográficas. Da mesma forma, nenhuma tolerância ao calor torna uma lavoura independente desses cuidados. Mas reconhecer tais exigências não autoriza descartar a contribuição dos robustas à adaptação da cafeicultura, nem ignorar que produtividade e renda também integram o conceito de sustentabilidade.

O robusta não oferece uma garantia universal contra as mudanças climáticas. Nenhuma espécie cultivada oferece. Materiais selecionados, contudo, já demonstram capacidade de sustentar produtividades muito elevadas em ambientes quentes. A dimensão dessa contribuição dependerá do genótipo, do ambiente e do manejo, inclusive da disponibilidade sustentável de água.

Questionar promessas exageradas é necessário. Generalizar as vulnerabilidades da espécie, sem dar o devido peso à diversidade genética, aos avanços do manejo e à realidade da cafeicultura brasileira, também é um exagero. A resiliência dos robustas ao calor tem limites e condições. Tratá-la como um mito não esclarece o debate: obscurece uma capacidade demonstrada nas lavouras brasileiras, que o estudo liderado por Aaron Davis não considera com o devido peso em suas conclusões.

Fábio M. DaMatta é Professor Titular de fisiologia vegetal na Universidade Federal de Viçosa (MG). fdamatta@ufv.br

Guilherme Messias Duarte é consultor agronômico e proprietário da GT Agro Pesquisa e Consultoria

TEXTO Fábio DaMatta

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Safra brasileira de café 26/27 alcançará 77,2 milhões de sacas, estima StoneX

Consultoria também vê situação favorável para 2027/28, embora não dê estimativa 

Foto: REUTERS/Alexandre Meneghini

Por Reuters

 A safra de café do Brasil 2026/27 está estimada em 77,2 milhões de sacas pela StoneX. A previsão do recorde – um aumento de 2,6% ante a estimativa de março da consultoria – foi divulgada no fim da tarde desta quarta-feira (2).

A empresa também aposta numa situação favorável para o próximo ciclo (2027/28) até o momento – embora sem cravar um número –, graças às boas condições climáticas no período de enchimento dos grãos, que resultou em arábicas mais pesados e com bom rendimento para esta safra, segundo o técnico de pesquisa em inteligência de mercado da StoneX, João Pena, em apresentação online.

Com a revisão, a consultoria estima um crescimento de 23,9% da safra em comparação com o ciclo anterior, aumento este impulsionado pela alta produtividade dos arábicas – cuja safra esperada é de 51,8 milhões de sacas diante da expectativa anterior de 50,2 milhões pela StoneX. A safra de canéfora também aumentou, de 25,1 milhões de sacas previstas em março para atuais 25,4 milhões de sacas. 

Apesar do grande volume de arábica, as chuvas atrasaram a colheita e trouxeram preocupações sobre a qualidade, diz Leonardo Rossetti, especialista em inteligência de mercado da StoneX. Segundo ele, produtores “bem remunerados” pelos altos preços nos últimos anos seguraram vendas, limitando a oferta e impactando os mercados globais. “O clima foi fator negativo para a qualidade, isso tem preocupado o mercado internacional”, analisa Rossetti.

Safra 2027/28

As chuvas, influenciadas pelo El Niño, tem favorecido e até antecipado a florada dos arábicas para a próxima safra. Especialistas destacam que, nos últimos anos, regiões cafeeiras no Brasil praticamente não viram chuvas entre maio e julho, que atrasaram em agosto e setembro, diferentemente de agora. 

A boa umidade favoreceu o processo vegetativo da espécie, que de modo geral tem condições para entregar uma florada maior este mês. Se o clima continuar úmido em setembro, há espaço para o preço internacional do café ceder, acredita Rossetti. Mesmo assim, a safra 2027/28 depende ainda do clima durante o enchimento de grãos (janeiro e março), embora o Brasil já tenha registrado crescimento na produção em anos de El Niño. Esse potencial será reduzido, porém, se nos primeiros meses de 2027 houver seca com altas temperaturas. 

No caso do canéfora, já com registro de floradas, a próxima safra brasileira poderá ser igual ou maior do que o recorde de 2025/26, diz Pena. quanto ao arábica, cujo próximo ciclo é de baixa bienalidade, a diminuição da safra 2027/28 pode não ser acentuada, resultado de aumento do parque cafeeiro e renovação das lavouras.