Cafezal

Safra brasileira de café 26/27 alcançará 77,2 milhões de sacas, estima StoneX

Consultoria também vê situação favorável para 2027/28, embora não dê estimativa 

Foto: REUTERS/Alexandre Meneghini

Por Reuters

 A safra de café do Brasil 2026/27 está estimada em 77,2 milhões de sacas pela StoneX. A previsão do recorde – um aumento de 2,6% ante a estimativa de março da consultoria – foi divulgada no fim da tarde desta quarta-feira (2).

A empresa também aposta numa situação favorável para o próximo ciclo (2027/28) até o momento – embora sem cravar um número –, graças às boas condições climáticas no período de enchimento dos grãos, que resultou em arábicas mais pesados e com bom rendimento para esta safra, segundo o técnico de pesquisa em inteligência de mercado da StoneX, João Pena, em apresentação online.

Com a revisão, a consultoria estima um crescimento de 23,9% da safra em comparação com o ciclo anterior, aumento este impulsionado pela alta produtividade dos arábicas – cuja safra esperada é de 51,8 milhões de sacas diante da expectativa anterior de 50,2 milhões pela StoneX. A safra de canéfora também aumentou, de 25,1 milhões de sacas previstas em março para atuais 25,4 milhões de sacas. 

Apesar do grande volume de arábica, as chuvas atrasaram a colheita e trouxeram preocupações sobre a qualidade, diz Leonardo Rossetti, especialista em inteligência de mercado da StoneX. Segundo ele, produtores “bem remunerados” pelos altos preços nos últimos anos seguraram vendas, limitando a oferta e impactando os mercados globais. “O clima foi fator negativo para a qualidade, isso tem preocupado o mercado internacional”, analisa Rossetti.

Safra 2027/28

As chuvas, influenciadas pelo El Niño, tem favorecido e até antecipado a florada dos arábicas para a próxima safra. Especialistas destacam que, nos últimos anos, regiões cafeeiras no Brasil praticamente não viram chuvas entre maio e julho, que atrasaram em agosto e setembro, diferentemente de agora. 

A boa umidade favoreceu o processo vegetativo da espécie, que de modo geral tem condições para entregar uma florada maior este mês. Se o clima continuar úmido em setembro, há espaço para o preço internacional do café ceder, acredita Rossetti. Mesmo assim, a safra 2027/28 depende ainda do clima durante o enchimento de grãos (janeiro e março), embora o Brasil já tenha registrado crescimento na produção em anos de El Niño. Esse potencial será reduzido, porém, se nos primeiros meses de 2027 houver seca com altas temperaturas. 

No caso do canéfora, já com registro de floradas, a próxima safra brasileira poderá ser igual ou maior do que o recorde de 2025/26, diz Pena. quanto ao arábica, cujo próximo ciclo é de baixa bienalidade, a diminuição da safra 2027/28 pode não ser acentuada, resultado de aumento do parque cafeeiro e renovação das lavouras.

Cafezal

Painel Café em Números oferece visão integrada do café brasileiro

Ferramenta on-line lançada pela Embrapa reúne uma década de dados de produção e indicadores territoriais, sociais e climáticos; reportagem testa a navegação e analisa o caso de Cacoal (RO) 

Por Cristiana Couto

A Embrapa acaba de lançar o Painel Café em Números, ferramenta on-line e interativa que reúne informações oficiais sobre a cafeicultura brasileira. A plataforma permite acompanhar onde o café é produzido, como a atividade evoluiu ao longo do tempo e quais características sociais, territoriais e produtivas estão associadas a cada região.

Desenvolvido pela Embrapa Café (DF) e pela Embrapa Territorial (SP), o painel integra dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Censo Agropecuário, do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) e da própria Embrapa.

“Faltava um ponto único e integrado de consulta”, afirma Daniela Maciel, analista da Embrapa Territorial responsável pelo desenvolvimento da ferramenta.

O painel reúne informações sobre arábica e canéfora, com recortes nacionais, regionais, estaduais e municipais. A série histórica de produção vai de 2014 a 2024, enquanto dados sobre estabelecimentos agrícolas e produtores são do Censo Agropecuário de 2017. A ferramenta será atualizada à medida que novos dados oficiais forem publicados. 

Sete módulos

O painel está organizado em sete módulos temáticos. Eles abrangem indicadores como produção, área plantada e colhida, produtividade e valor gerado; distribuição territorial e rankings dos estados produtores; e número e perfil dos estabelecimentos, com informações sobre agricultura familiar, gênero, faixa etária e envelhecimento dos cafeicultores. 

A ferramenta também apresenta mapas e períodos de menor risco climático para o cultivo e reúne a produção científica e tecnológica da Embrapa.

“O Painel Café em Números fortalece a capacidade do setor de planejar, antecipar riscos, orientar investimentos e subsidiar decisões e políticas públicas baseadas em evidências”, afirma Renata Silva, chefe de Inovação e Negócios da Embrapa Café.

Primeiro passo para plataforma nacional

O painel é o primeiro passo para a criação da Plataforma Nacional de Inteligência Territorial do Café. Ainda em fase de estruturação, a iniciativa pretende agregar dados georreferenciados, indicadores estratégicos, mapas interativos e análises diversas do setor a partir de ferramentas de IA, sensoriamento remoto e imagens de satélite.

Segundo a Embrapa, a proposta é oferecer ao mercado global um retrato baseado em evidências da cafeicultura nacional, além de orientar políticas públicas, investimentos e ampliar a competitividade no setor. A implementação em escala nacional ainda depende da formação de parcerias e da captação de recursos.

Teste da reportagem

O volume, a diversidade e o detalhamento dos dados, reunidos em uma série histórica de 2014 a 2024, permitem traçar panoramas locais e acompanhar a evolução recente da cafeicultura. 

Para testar essa possibilidade, a reportagem pesquisou a produção de canéfora em Cacoal (RO), município central na produção dos robustas amazônicos. Híbrido de conilon e robusta que ganhou identidade em Rondônia, esse café constitui um fenômeno singular cujo desenvolvimento coincide com o período coberto pelo painel. 

Foram comparados cinco indicadores de 2015, período de emergência dos robustas amazônicos, e de 2024, ano mais recente contemplado pela ferramenta. 

Os dados dimensionam (em nível de município) a importância econômica crescente dos robustas amazônicos: em uma década, a produtividade média avançou 72,8% – enquanto a área colhida no período caiu 28% – e o valor nominal de produção saltou de R$ 40,6 milhões para R$ 339,8 milhões. Além disso, o peso do café na produção agropecuária de Cacoal aumentou 7,37 pontos percentuais.

Navegação ainda exige ajustes

No teste, o painel oferece mapas com dados claros. A plataforma também contempla várias opções de filtros e indicadores e recortes geográficos diversos, que permitem partir de um panorama nacional e chegar a informações municipais.

Em parte dos módulos, a interface parece apenas transpor para o ambiente on-line a estrutura de planilhas, sem explorar recursos de navegação e visualização próprios da web. A navegação nem sempre é intuitiva, sobretudo diante da quantidade de informações e das possibilidades de filtragem — duas qualidades que revelam o amplo patrimônio de dados oficiais do Brasil, particularmente da Embrapa – sobre sua cafeicultura. O painel também ainda não está adaptado à consulta pelo celular, e a ferramenta de tradução para o inglês não funcionou durante o teste.

Por outro lado, por trás dessa interface, houve um extenso trabalho de seleção, padronização e tratamento de bases produzidas com metodologias distintas. Segundo Daniela, as tabelas disponibilizadas por instituições como o IBGE precisaram ser reorganizadas e convertidas para formatos compatíveis com o processamento em bancos de dados antes de serem incorporadas ao painel.

Isso resultou em buscas que não encaminham o usuário às bases de origem, mas fornecem dados já processados e estruturados pela equipe da Embrapa.

A amplitude e a integração das informações são os principais méritos da ferramenta. Ajustes futuros de responsividade, organização visual e fluxos de navegação podem simplificar a consulta e ampliar o potencial desse acervo para produzir conhecimento sobre a cafeicultura brasileira. 

TEXTO Cristiana Couto

Cafezal

Consultoria mantém projeção de safra recorde de café do Brasil

Chuvas atípicas de inverno atrasaram a colheita e afetaram a qualidade do arábica, mas não alteraram a estimativa de volume da Hedgepoint Global Markets

A estimativa da Hedgepoint Global Markets para a safra brasileira de café 2026/27 foi mantida em 75,8 milhões de sacas de 60 kg, volume recorde, apesar das chuvas atípicas registradas durante o inverno, que atrasaram a colheita e afetaram a qualidade dos grãos, sobretudo nas regiões produtoras de arábica.

Em relatório divulgado ontem (19), a consultoria afirmou que os efeitos das condições climáticas não alteraram sua projeção para o volume produzido. “Mantivemos nossos números de produção. Apesar dos impactos na qualidade nas regiões produtoras de arábica, o volume produzido ainda está em linha com nossas expectativas”, afirmou.

A produção de arábica foi estimada em 50,2 milhões de sacas, alta em relação às 37,7 milhões de sacas da temporada anterior. O volume, porém, ficaria abaixo do recorde de 54,2 milhões de sacas registrado em 2020/21.

Para o canéfora, que reúne as variedades robusta e conilon, a projeção é de 25,6 milhões de sacas, ante 27 milhões no ciclo 2025/26. Apesar da queda esperada nesta safra, a produção da variedade vem crescendo nos últimos anos.

Segundo a Hedgepoint, o avanço da colheita mantém a perspectiva de uma safra recorde em volume, embora as condições climáticas tenham trazido impactos sobre a qualidade do café produzido.

Fonte: Reuters

Cafezal

Inscrições abertas para a edição 2026 do concurso Coffee of the Year

Concurso, que premia os melhores cafés arábica e canéfora do Brasil em cerimônia realizada durante a Semana Internacional do Café, recebe amostras até 5 de outubro

Estão abertas a partir desta segunda-feira (17) as inscrições para o Coffee of the Year 2026, premiação que busca mapear e reconhecer os melhores cafés do Brasil, incentivando o aprimoramento da produção nacional e a valorização de novas origens produtoras. Produtores de todo o país podem inscrever amostras de grãos das espécies arábica e canéfora. 

Este ano, cada produtor poderá inscrever apenas uma única amostra no concurso. Conforme o regulamento, será considerada a vinculação simultânea do CPF do produtor e da identificação da propriedade rural. Não serão aceitas inscrições oriundas da mesma propriedade, ainda que realizadas por pessoas distintas, nem múltiplas inscrições de um mesmo produtor vinculadas a propriedades diferentes. O valor da participação é de R$ 200.

As amostras (03 kg), juntamente com a ficha da amostra, devem ser enviadas até o dia 5 de outubro para o Centro de Excelência em Cafeicultura do Senar, no endereço abaixo:

CONCURSO COY – COFFEE OF THE YEAR 2026
SEMANA INTERNACIONAL DO CAFÉ
A/C PROFESSOR LEANDRO PAIVA
CENTRO DE EXCELÊNCIA EM CAFEICULTURA – SENAR
RUA LUIZ DOMINGHETTI, Nº 115 – RESIDENCIAL ALTO DO VALE
VARGINHA (MG) CEP: 37048-854

Sobre o COY

O concurso começa com o recebimento das amostras, que passarão por um processo de avaliação conduzido por uma Comissão de Julgadores formada por especialistas de todo o país. Serão selecionadas as 180 melhores amostras, sendo 150 da categoria arábica e 30 da canéfora.

As amostras selecionadas serão apresentadas na sala Cupping & Negócios da Semana Internacional do Café, que este ano será realizada de 11 a 13 de novembro, em Belo Horizonte (MG). Dentre elas, os 10 melhores cafés arábica e os 5 melhores canéfora participam da votação popular no evento, por meio de degustação às cegas com método filtrado, em garrafas térmicas disponíveis nos dois primeiros dias de SIC. 

A divulgação dos nomes e da ordem dos finalistas, bem como a cerimônia de premiação, acontecem no último dia de SIC, 13 de novembro, às 15h, no Grande Auditório.

Cafezal

Colheita de café 26/27 no Brasil alcança 90%, diz Safras & Mercado

A colheita da safra brasileira de café 2026/27 atingiu 90% da produção até o dia 12 de agosto, marcando um avanço de 6 pontos percentuais em relação à semana anterior, mas ainda com atraso frente ao registrado no ano passado, apontou levantamento da Safras & Mercado nesta sexta (14). De acordo com a consultoria, em igual período de 2025, os trabalhos de colheita alcançavam 97% da produção, enquanto a média dos últimos cinco anos (2021-2025) é de 94%.

Entre as espécies de café, a colheita de canéfora (conilon/robusta) chegou ao fim, “restando apenas alguns poucos repasses e a retirada dos últimos cafés das lavouras”, enquanto a de arábica atinge 86% da produção.

Fonte: Reuters

CafezalMercado

Brasil impulsiona estratégia regenerativa da Nespresso

Em visita a uma fazenda parceira da Nespresso no interior paulista, a Espresso acompanhou como práticas regenerativas, conservação ambiental e assistência agronômica orientam a estratégia da empresa para garantir a qualidade do café no longo prazo

Por Gabriela Kaneto, de São Sebastião da Grama (SP)

Em evento realizado em São Paulo (SP) na terça-feira (28), a Nespresso divulgou novos dados sobre a agricultura regenerativa no Brasil, que complementam a edição de 2025 do The Positive Cup, relatório global anual de sustentabilidade da marca. O documento reúne os principais resultados da companhia em temas como agricultura regenerativa, descarbonização, circularidade e fortalecimento das comunidades cafeeiras. O encontro também contou com o lançamento do Prêmio Regenerativo Avançado e o anúncio de parceria para restauração de paisagens cafeeiras.

Um dos destaques abordados foi o Plano de Qualidade Sustentável Nespresso (chamado anteriormente de Programa AAA), que reúne mais de 130 mil cafeicultores de 18 países e combina assistência técnica, rastreabilidade e incentivo à adoção de práticas regenerativas. 

O Brasil responde por cerca de 30% do café verde utilizado pela marca. No país, o programa reúne 500 produtores e investe R$ 70 milhões por ano em iniciativas como o uso de fertilizantes orgânicos, biochar e monitoramento ambiental. Em 2025, 95% do café brasileiro adquirido pela Nespresso veio de fazendas que adotam essas práticas, em comparação com 84% em 2022. O avanço registrado no país também elevou a média global: no mesmo intervalo, esse índice passou de 76% para 85%, tendo o Brasil como principal responsável por esse crescimento.

Fazenda Cachoeira da Grama, em São Sebastião da Grama (SP) desde 1890

A convite da marca, a equipe da Espresso conheceu de perto uma das propriedades brasileiras que integram o Plano de Qualidade Sustentável. A Fazenda Cachoeira da Grama, do produtor Gabriel Carvalho Dias, fica em São Sebastião da Grama (SP), na região do Vale da Grama, a cerca de 250 km da capital paulista. Fornecedora de cafés para a Nespresso há mais de 15 anos, a propriedade participa do programa com o acompanhamento dos engenheiros agrônomos da empresa, que orientam a adoção de práticas regenerativas.

“Cada talhão tem suas próprias características. Buscamos compreender o solo em todos os seus aspectos – físicos, químicos e biológicos – para enriquecer a saúde do solo e oferecer à planta as melhores condições de desenvolvimento”, explica Rhafael Martins, engenheiro agrônomo do programa, que atua há 13 anos na propriedade. 

Com 85 hectares, a fazenda mantém 40% de sua área preservada – o dobro do mínimo de 20% exigido pelo Código Florestal Brasileiro. O trabalho também inclui a recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APPs), com 22 nascentes restauradas até o momento.

Produção de café na Fazenda Cachoeira da Grama

A ampliação dos sistemas agroflorestais e das iniciativas de remoção de carbono foi outro destaque do relatório The Positive Cup. No ano passado, mais de 2 milhões de árvores foram plantadas em áreas cafeeiras, das quais cerca de 1,9 milhão em projetos voltados à remoção de carbono.

“A ideia do Plano de Qualidade Sustentável é proporcionar esse relacionamento a longo prazo com os produtores”, afirma Tatiana Nakamura, especialista de cafés da Nespresso. “Nosso foco é ajudar o produtor a ter cafés de qualidade com produtividade, cuidando do meio ambiente, do solo e das pessoas para garantir, no futuro, uma xícara de café produzida de forma sustentável.”

Sustentabilidade além da lavoura

Dados da pesquisa Nestlé CUP 2025 Local Insights Report – Brasil: Panorama Geral e Comportamento do Consumidor, realizada com mil consumidores de café de 16 a 75 anos em todas as regiões do país, mostram que, embora o mercado tradicional ainda seja predominante, as cápsulas já respondem por 9% do consumo nacional e seguem em expansão.

A reciclagem das cápsulas também integra a estratégia de sustentabilidade da marca. Presente em 79 países, incluindo o Brasil, o programa conta com mais de 400 pontos próprios de coleta, como as boutiques da Nespresso, além de uma parceria com os Correios que permite aos consumidores enviar gratuitamente as cápsulas usadas ao Centro de Reciclagem da empresa, em Valinhos (SP). Lá, o alumínio e a borra são separados sem uso de água no processo para reaproveitamento.

O alumínio retorna à cadeia produtiva por meio de parceiros, como a Natura, que desenvolve embalagens cosméticas, e a borra é transformada em biometano por biodigestão, utilizado na geração de energia renovável. Com investimento superior a R$ 2 milhões por ano, o projeto processa até 850 toneladas anuais de borra de café e reduz as emissões de carbono em cerca de 900 toneladas por ano.

“Acreditamos no café como uma força capaz de gerar impacto positivo em toda a cadeia, do campo ao pós-consumo”, resume Marina Gargiulo, gerente de branding & sustentabilidade da Nespresso. “O The Positive Cup reflete como estamos avançando nessa jornada”.

TEXTO Gabriela Kaneto

Cafezal

IBGE reduz em 1,2% estimativa da safra brasileira de café

Nova projeção aponta 66 milhões de sacas, com previsão de canéfora, com colheita mais avançada, revisada para baixo

O IBGE revisou para baixo a estimativa da safra brasileira de café 2026/27. Segundo o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) divulgado nesta terça-feira (14), a produção nacional foi estimada em 66 milhões de sacas, queda de 1,2% em relação à projeção de junho. Ainda assim, o volume representa um crescimento de 14,7% frente à safra de 2025.

A produção de café arábica foi mantida praticamente estável na comparação mensal, estimada em 44,4 milhões de sacas. De acordo com o instituto, as condições climáticas têm favorecido as lavouras do Centro-Sul e a safra também é impulsionada pela bienalidade positiva, característica do ciclo produtivo da espécie.

Já a estimativa para o café canéfora (conilon e robusta) foi revisada para baixo. O IBGE passou a projetar uma produção de 21,6 milhões de sacas, redução de 3,6% em relação ao levantamento anterior. Mesmo com o ajuste, o volume permanece 3% acima do registrado em 2025.

A nova projeção reforça a expectativa de uma recuperação da oferta brasileira em 2026/27, embora os ajustes mensais indiquem que o desempenho da safra continua sendo acompanhado de perto à medida que a colheita avança.

FOTO Camila Luz

Cafezal

Por um Espírito Santo (ainda) mais sustentável

Cooperação entre produtores, empresas e instituições públicas busca posicionar o estado no mercado global dos cafés responsáveis

Cafezais na região serrana do Espírito Santo

Por Cristiana Couto, do Espírito Santo

Das montanhas de Brejetuba, com pequenas propriedades produtoras de arábicas especiais, às áreas de conilon no norte capixaba, marcadas por escala e tecnologia, o Espírito Santo reúne uma diversidade de cafés rara de encontrar em outras origens do mundo. Apesar das diferenças, a cafeicultura capixaba enfrenta desafios comuns, como adaptar-se às mudanças climáticas e atender mercados exigentes quanto a rastreabilidade e sustentabilidade dos grãos.

Com o café cultivado em 69,7% das propriedades rurais, o segundo maior estado produtor do grão no país vem articulando empresas, instituições públicas, produtores e cooperativas para fortalecer a competitividade da cafeicultura capixaba.

Para Michel Tesch Simon, subsecretário de Desenvolvimento Rural da Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), a sustentabilidade é um dos pilares dessa agenda. “O posicionamento do Espírito Santo passa pela combinação de diversidade de origens, famílias prosperando no campo, sustentabilidade, qualidade, volume e sucessão”, afirma.

A difusão da irrigação no cultivo de arábicas é uma das apostas desse movimento. Em Brejetuba, a 750 metros de altitude, Sérgio Alexandre Corrêa viu a produtividade de um hectare de café saltar de 40 para 78 sacas por hectare no primeiro ano após a implantação de um sistema fertirrigado. Na safra 2026/27, recém-colhida, foram 80 sacas/ha – mais do que o dobro da registrada nas áreas não irrigadas da propriedade e da produtividade média do arábica capixaba, de 35 sacas/ha, segundo a Conab.

A tecnologia chegou ao Sítio Fazenda Corrêa em 2024, depois que estiagens sucessivas comprometeram a produção. “Até 2020 o clima era mais favorável. Depois vieram quatro anos de seca e resolvemos passar para a irrigação”, diz Corrêa. Ele já ampliou a área irrigada para 14 hectares e pretende levar o sistema para toda a lavoura.

Segundo Fabiano Tristão Alixandre, coordenador estadual de cafeicultura do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), a irrigação de cafés arábica acontece em apenas 2% da área de cultivo da espécie, que ocupa 127,5 mil hectares no estado (Conab, 2026). Historicamente, as regiões de montanha tinham chuvas regulares e temperaturas amenas. “O produtor não via necessidade de irrigar. Mas, nos últimos anos, observamos chuvas irregulares e temperaturas acima da média durante o desenvolvimento dos frutos, o que tem provocado perdas”, explica.

Corrêa (à esq.) com Fabiano Tristão

Pacote tecnológico

Lançado pela Seag em 2024, o projeto Cafeicultura Sustentável, que incentiva o avanço da irrigação em áreas vulneráveis de arábica, é a principal iniciativa do estado para posicionar os grãos capixabas no mercado global. Com investimento de R$ 4,9 milhões até março de 2027, o projeto – que integra o Programa de Desenvolvimento Sustentável da Cafeicultura do Espírito Santo e é executado pelo Incaper – já alcançou 6 mil propriedades das 8 mil esperadas. Já a expectativa do programa é alcançar 35 mil delas até 2030.

Os resultados da iniciativa na propriedade de Corrêa já começaram a se espalhar pela região. “Quase toda semana vem alguém para conhecer o projeto”, diz o produtor. Segundo Tristão, pelo menos dez cafeicultores implantaram sistemas de irrigação como o do Sítio Fazenda Corrêa, selecionado pelo Incaper como uma unidade demonstrativa da tecnologia, que funciona como vitrine da prática para incentivar sua adoção.

O modelo já está sendo replicado em dez outras unidades, instaladas em áreas abaixo de 800 metros de altitude, mais vulneráveis a essas mudanças do clima, nas Montanhas do Espírito Santo e no Caparaó.

Além do aumento de produtividade, Corrêa observou ganhos na qualidade do café. “Estou conseguindo obter peneiras melhores. O café fica mais graúdo”, relata. Mas o desempenho dessa lavoura não está associado apenas à irrigação – cujo projeto é personalizado –, mas também a escolha da cultivar, manejo nutricional e acompanhamento técnico. “Não é só irrigação, é um pacote tecnológico”, reforça.

Sustentabilidade na embalagem

A agenda da sustentabilidade também começa a ganhar espaço na valorização das origens capixabas. Nas Montanhas do Espírito Santo, a Associação dos Produtores de Café Especial das Montanhas do Espírito Santo (Acemes) quer destacar que há critérios socioambientais na produção de café nos 16 municípios que compõem a denominação de origem.

Para receber o selo da DO, os produtores comprovam, além da qualidade e origem do grão, o cumprimento de requisitos de sustentabilidade, avaliados por meio do Currículo de Sustentabilidade do Café (CSC), adotado pelo Cafeicultura Sustentável como base para suas ações. Lançado em 2015 e elaborado com a participação de vários segmentos do setor, o CSC alinha-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU) e reúne 39 indicadores distribuídos entre os eixos ambiental, social e econômico.

Thiago Douro, diretor da Acemes, diz que a ideia é associar a reputação sensorial dos cafés das Montanhas às boas práticas adotadas pelos produtores. “A gente entendeu que não bastava vender apenas qualidade. As Montanhas do Espírito Santo têm uma história ligada à preservação ambiental e queríamos que isso também estivesse refletido na certificação.” Os primeiros selos foram emitidos em maio. Por meio de um QR Code impresso no selo colado à embalagem, os compradores acessam informações sobre aquele lote na plataforma Origem Controlada Café, lançada em 2024 na SIC e que faz a rastreabilidade de cafés com indicação geográfica. “A gente tem um potencial de quase oito mil cafeicultores”, calcula Douro.

Uma propriedade-modelo

Se o selo das Montanhas busca comunicar atributos socioambientais dos grãos, em propriedades como a de Joselino Menegueti esses critérios fazem parte da rotina há anos. Em Brejetuba, a 1.100 m de altitude, o produtor alcançou este ano 95,3 pontos no CSC, o que coloca o Sítio Rancho Dantas entre as referências em sustentabilidade da denominação de origem.

Essa conquista é fruto de uma trajetória iniciada em 2007, quando Menegueti teve dificuldades em manter a lavoura, de baixa produtividade. Com apoio técnico do Incaper, ele renovou os cafezais e apostou em qualidade. Em 2010, começou a conquistar prêmios em concursos. Hoje em dia, o produtor torra e vende on-line o seu café.

Menegueti e o filho, Leidiomar

Entre os indicadores do currículo que foram cumpridos estão a proteção de nascentes, a conservação das áreas de preservação permanente, a destinação adequada de resíduos e a sucessão familiar. “O trabalho familiar foi o mais importante. A gente se reuniu, buscou uma renda sustentável e a tecnologia veio ajudando”, resume o produtor.

Outro destaque é o manejo e conservação do solo. Em vez de eliminar a vegetação espontânea, Menegueti passou a roçá-la com cuidado e regularmente a fim de proteger o terreno contra erosão, conservar a umidade e favorecer a ciclagem de nutrientes. “Antigamente, o mato era visto como inimigo número um”, lembra.

Agora, o Rancho Sítio Dantas é uma das primeiras unidades de referência em cafeicultura regenerativa implantadas no estado em parceria com a Plataforma Global do Café (GCP). O trabalho, que começou este ano, cruza a avaliação da microbiota do solo com análises químicas e de matéria orgânica. A partir daí, surge um índice de saúde do solo.

Para Tristão, a propriedade de Menegueti mostra que sustentabilidade não depende de uma única tecnologia. “É o conjunto: variedade adaptada, nutrição equilibrada, conservação do solo e troca de conhecimento”, afirma. “O Joselino sempre manteve as portas abertas para compartilhar o que aprende, e isso ajuda a difundir essas práticas para outros produtores da região.”

Qualidade em escala

Se nas Montanhas do Espírito Santo a sustentabilidade exige práticas como irrigação, nas regiões produtoras de conilon os desafios têm outra dimensão. Maior produtor brasileiro da variedade – a estimativa da Conab para esta safra é de 13,56 milhões de sacas –, o Espírito Santo busca combinar escala ao aumento de qualidade, especialmente no pós-colheita.

Uma das iniciativas é a substituição gradual da lenha por gás natural nos secadores de café. Desenvolvido em parceria entre a ES Gás e o Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV), o projeto-piloto de secadores a gás está sendo testado nesta safra no município de Linhares, no norte capixaba, para validar a tecnologia. O principal objetivo é reduzir a emissão de fumaça na secagem do grão, um grande desafio na produção do conilon em larga escala no estado. A secagem a gás de cafés também permite controle térmico, que pode melhorar a qualidade da bebida além de oferecer mais segurança aos trabalhadores.

“O pós-colheita é o principal gargalo das propriedades. Perdemos mais de 10% em peso do grão só na secagem”, explica Aldemar Polonini Moreli, coordenador do Coffee Design, centro de pesquisa, desenvolvimento e transferência de tecnologias em café do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes). Segundo ele, um levantamento em 890 propriedades mostrou que 21% dos produtores têm estrutura própria de secagem – o restante depende de terceiros para concluir o processo.

Confiante na tecnologia, Bruno Pessotti, um dos diretores da Frutmel, uma das maiores exportadoras de mamão do país, decidiu converter 11 dos seus 17 secadores de café para gás natural. Com mais de mil hectares de conilon plantados em 16 propriedades entre Linhares e outros quatro municípios, ele espera colher 60 mil sacas nesta safra. A meta é secar 70% desse volume com os novos secadores.

A decisão surgiu em 2025, quando, depois de investir em certificações, vendeu 56% da sua produção para multinacionais. “Para participarmos hoje de um comércio melhor, temos que ter certificações. Além disso, a demanda atual da indústria é por conilon sem defeitos”, acredita Pessotti.

Há trinta anos convivendo com café, Pessotti avalia que o avanço do conilon capixaba nas duas últimas décadas concentrou-se no campo – com novos clones, manejo hídrico, tratos culturais (como a poda) e formação acadêmica de jovens cafeicultores –, e que o pós-colheita não acompanhou essa evolução. “A preocupação era aumentar a potência dos ventiladores e a temperatura dos secadores. Pouco se discutia o que acontecia com o produto”, diz.

Sua aposta no sistema a gás é o controle de temperatura. “Com lenha, você tem picos e quedas de temperatura, de 150°C a 400°C”, explica Pessotti. Sua expectativa é começar a secar os grãos em temperaturas mais baixas e elevar gradualmente o calor, para reduzir danos e ganhar uniformidade e qualidade nos lotes.

Para Michel Tesch Simon, iniciativas como a de Pessotti têm potencial para acelerar transformações na cafeicultura capixaba, já que produtores de grande porte levam pouco tempo para incorporar novas tecnologias. “A gente vai ter volume de conilon de qualidade no mercado rapidamente, enquanto os pequenos produtores vão se adequando gradualmente.”

“Hoje exige-se do produtor rural habilidade e estratégia não só para produzir, mas também comercializar. Tenho certeza de que 2026 será um marco para o conilon”, acredita Pessotti.

Sobre cafés e árvores

Parte da transformação da cafeicultura capixaba também nasce na troca de conhecimento entre gerações de produtores. Em Santa Teresa, Luis Carlos da Silva Gomes decidiu reduzir pela metade a área cultivada da Fazenda São Bento para investir em recuperação ambiental.

Dos 84 hectares com plantas de arábica e conilon, 12 já foram reflorestados e o restante vem seguindo o mesmo destino, em parceria com a Samarco Mineração. A iniciativa, conduzida pela filha Carolinna Bridi Gomes, começou em 2015 por conta da escassez hídrica típica das áreas de topo de morro, onde fica a fazenda, aliada à busca por um sistema produtivo mais resiliente.

Luis Carlos Gomes e Carolinna

Mas houve resistência de Gomes no início. “Eu discutia com meu pai o fato de produzir um bom café num ambiente ruim. E a frustração de ter um bom produto no mercado e ele não ser aceito por isso”, conta Carolinna.

O resultado já aparece no campo, com aumento de 25% na produtividade das áreas remanescentes – auxiliado pelo uso de biofertilizantes e bioinseticidas – e recuperação de nascentes. Gomes acredita que esse percentual aumentará com a renovação de lavouras que vem sendo feitas, já com irrigação.

E não é só o investimento na recuperação ambiental que torna a Fazenda São Bento exemplar. Em 1999, Gomes já olhava para a qualidade do conilon como valor. Em 2010, produziu as primeiras 100 sacas descascadas da variedade. “Foi por nossa conta e risco. Não existia mercado para isso”, lembra.

Pouco depois, liderou um grupo de produtores que exportou 1,6 mil sacas de conilon especial para a Rússia. Hoje, ele acredita que as duas estratégias caminham juntas. “Quem paga mais olha tudo isso: como você produz, como está o solo e como vivem as pessoas envolvidas no processo. O conilon também tem que ir por esse caminho”, afirma.

A Fazenda Camocim é outra referência em boas práticas, quando o termo sustentabilidade nem existia nos manuais ambientais. Em Domingos Martins, o cearense Olivar de Araújo, um dos conselheiros da Aracruz Celulose, começou a plantar árvores e proteger as sete nascentes locais depois de comprar a fazenda, em 1962. O café chegou três décadas depois, quando o negócio da madeira começou a dar prejuízo.

Mundialmente conhecida pelo café jacu, produzido a partir dos frutos digeridos pela ave nativa da Mata Atlântica, a Camocim entrega cafés de alta qualidade em sistema agroflorestal, de forma orgânica e biodinâmica. Isso rendeu à Camocim, entre outras certificações, um selo internacional de práticas regenerativas – o primeiro para café no Brasil, concedido pela norte-americana Regenerative Organic Alliance em 2024.

Com o tempo, as práticas responsáveis ajudaram a aumentar a população de jacu. “Às vezes, vemos duzentos deles. Alguns a gente já conhece, porque moram aqui”, conta Henrique Sloper, neto de Araújo e administrador do negócio. Variedades abandonadas, como a catucaí açu, também foram recuperadas. “É uma planta fraca de produção, porém de qualidade espetacular. Toda a região tem catucaí açu vindo da Camocim”, orgulha-se ele, que dissemina as práticas de agricultura regenerativa entre os produtores da região nas várias reuniões que promove na fazenda. “A regeneração está aqui desde o começo”, resume.

Texto originalmente publicado na edição #92 (junho, julho e agosto de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Cristiana Couto, do Espírito Santo • FOTO Camila Luz

Cafezal

Yara, JDE Peet’s e ofi se unem para colher a primeira safra de café conilon de baixa pegada de carbono

Empresas se aliaram num projeto para alavancar a redução das emissões de carbono e a produtividade em lavouras de conilon do Espírito Santo e Bahia

Por Lívia Andrade, de Eunápolis (BA)

Yara, JDE Peet’s e ofi – três gigantes nas áreas de nutrição, torrefação e originação de café, respectivamente – se uniram, há um ano, num projeto que visa tornar a produção de café conilon mais resiliente climaticamente.

“Precisamos de um produtor resiliente, com uma atividade economicamente rentável”, diz Bruno Ribeiro, gerente de fornecimento responsável da JDE Peet’s. “Só assim ele vai se manter na atividade, produzindo café de maneira responsável para comprarmos e torrarmos para nossas marcas locais e de fora do Brasil”, complementa.

O projeto, focado em cafés da variedade conilon, contempla 20 fazendas do sul da Bahia e do Espírito Santo. Juntas, as três empresas selecionaram propriedades para implantar um talhão de café com o manejo nutricional de fertilizantes, do portfólio Yara Climate Choice,  cujo processo de fabricação tem uma pegada de carbono até 90% menor do que a dos fertilizantes convencionais. “Queremos promover uma cafeicultura mais sustentável, de baixo carbono, mas isso tem que ser rentável para o produtor, senão o projeto não para em pé”, diz Francielle Bertotto, gerente de sustentabilidade e cadeia do alimento da Yara Brasil.

A parceria funciona da seguinte forma: a Yara fornece a tecnologia nutricional de baixo carbono e acompanhamento técnico e coleta de dados em campo; a ofi entra com também com assistência técnica e se compromete a adquirir este café de baixo carbono e a JDE Peet’s, por sua vez, compra este café originado na ofi. 

Além disso, ofi e JDE Peet’s dão subsídio para os cafeicultores comprarem os adubos do portfólio Yara Climate Choice, que têm preço médio superior ao dos convencionais. Mas o produtor não tem obrigação de vender este café para a ofi – é uma opção, caso seja interessante para ele. 

O grande objetivo do projeto, cuja primeira colheita começou no fim de junho, é servir de vitrine para o agricultor entender que o manejo com produtos diferenciados pode gerar um ganho de até 7,6 sacas a mais por hectare, além de reduzir a pegada de carbono do café em cerca de 40%. 

Isso porque fertilizantes nitrogenados são os maiores vilões das emissões de gases do efeito estufa numa propriedade cafeeira – representam cerca de 2/3 das emissões. Mas eles não são os únicos, pois entram na conta os combustíveis dos maquinários, como tratores, colhedoras, transporte dentro da propriedade, entre outros.

O projeto prevê também transferência de conhecimento por meio da assistência técnica rural. Não por acaso, as equipes de campo da Yara e da ofi têm treinado os produtores em fertirrigação. “As áreas de conilon são muito dependentes de água para produzir. Se o cafeicultor não tiver eficiência na irrigação, a atividade está realmente ameaçada”, explica Francielle.

Bruno Ribeiro, Gerente de Sustentabilidade da JDE Peet’s; Rafael Sol e Daiane Sol, produtores; Eduardo Sampaio, Supervisor de Sustentabilidade da ofi; e Francielle Bertotto, Gerente de Cadeia de Alimentos e Sustentabilidade da Yara Brasil

Rafael Sol e a esposa, Daiane, são beneficiários do projeto. Proprietários da fazenda Vitória, com 40 hectares de conilon em Eunápolis (BA), eles já tinham parceria de longa data com a ofi, que os auxiliou na implementação da certificação Rainforest. “Foi uma mudança drástica”, comentou Sol.

Depois desta, as mudanças seguintes foram mais fáceis. “Hoje, tenho produção de micro-organismos on farm e há três anos só uso inseticida biológico”, diz o produtor e engenheiro agrônomo. “A questão da sustentabilidade está vindo junto com nossas mudanças, mas faço as contas para ver se a tecnologia é mais eficiente e menos onerosa”, explica.

Do projeto da Yara, ofi e JDE Peet’s, Sol ainda não colheu café. “Mas meu gerente, que roda toda a fazenda, disse que os cafezais da área do projeto [9,5 hectares] estão nitidamente melhores, com os grãos mais bonitos, mais bem formados”, conta ele. “Entrei no projeto por causa da pegada de carbono. É uma tendência mundial. Vejo a possibilidade de conquistar novos clientes por causa desse diferencial”, acrescenta.

Para a Yara, ofi e JDE Peet’s, o projeto envolve promover a adaptação dos produtores de conilon às mudanças climáticas e, dessa forma, ajudá-los a se manter na atividade. “As três empresas têm este objetivo em comum: apoiar o produtor, promover uma cafeicultura descarbonizada e mais sustentável, trazendo soluções eficientes”, diz Eduardo Sampaio, supervisor de sustentabilidade da ofi.

O projeto também contribui com uma meta maior: atingir a neutralidade de carbono (Net Zero) até 2050 para as três empresas envolvidas. Este compromisso implica tanto na redução das emissões diretas quanto nas emissões indiretas de energia e nas emissões na cadeia de valor (a fase agrícola). 

TEXTO Livia Andrade

Cafezal

Estudo abre caminho para novos cafés adaptados ao clima

Pesquisa publicada na Scientific Reports confirma origem híbrida do grupo conhecido como libex e identifica características que podem contribuir para o desenvolvimento de materiais mais adaptados às mudanças climáticas

Imagem gerada por IA

Por Cristiana Couto

A busca por novas espécies de café não para. Recentemente, pesquisadores confirmaram a origem híbrida de um grupo de plantas cultivadas conhecido como libex (Coffea × libex, no jargão botânico). O libex reúne plantas oriundas do cruzamento entre Coffea dewevrei (conhecida como excelsa) e Coffea liberica – duas das 133 espécies que, atualmente, compõem o gênero Coffea.

Além de confirmar a origem híbrida desse grupo de plantas – mais de 113 materiais genéticos coletados no Sudeste Asiático, na América, na África e na Ásia – o estudo, publicado em maio no periódico Scientific Reports, buscou compreender como a combinação entre C. liberica e C. dewevrei influencia características agronômicas da planta — como o tamanho das sementes e a espessura do pergaminho — e avaliar seu potencial para programas de melhoramento genético.

Liderado pelo botânico Aaron Davis, do Royal Botanic Gardens, em Kew, no Reino Unido – reconhecido pela descoberta de várias espécies de café no mundo –, em colaboração com o SICC Labs (South India Coffee Company) e outros cientistas internacionais, o estudo também concluiu que esses híbridos reúnem características que os tornam promissores para programas de melhoramento e podem ser multiplicados por propagação vegetativa, como a clonagem, técnica já amplamente empregada nos cafés canéfora brasileiros.

Em um cenário de aquecimento global, pesquisas que se debruçam sobre espécies silvestres de café, como Coffea stenophylla, C. racemosa, C. liberica e C. eugenioides, são estratégicas para a sobrevivência da cafeicultura. “O desenvolvimento e o estabelecimento de uma gama mais ampla de espécies e de híbridos de café provavelmente vão se tornar um requisito fundamental para alcançar a sustentabilidade da cafeicultura em uma era de mudanças climáticas aceleradas”, escrevem os autores.

Embora arábica e canéfora respondam por 99,9% da produção mundial de café, em origens onde seu cultivo tende a perder viabilidade com o avanço das mudanças climáticas — como ocorre em algumas regiões da África, por exemplo —, a possibilidade de cultivar novas espécies ou híbridos torna-se uma alternativa atraente, quando não fundamental.

Isso porque desenvolver uma nova variedade de arábica ou de canéfora pode levar mais de uma década, enquanto multiplicar uma espécie ou um híbrido já existente demanda muito menos tempo. No caso dos libex, particularmente, ainda são necessários dados consistentes sobre seu parentesco, experimentos controlados para verificar como suas características são herdadas ao longo das gerações e análises genômicas adicionais (conjunto de técnicas usadas para estudar diretamente o DNA de um organismo em larga escala).

Como foi a pesquisa

Os pesquisadores compararam 7.618 pequenas variações no DNA, chamadas marcadores genéticos, distribuídas pelo genoma de 113 plantas. Esses marcadores funcionam como pontos de referência que permitem reconstruir a história genética de cada indivíduo e identificar quanto de seu DNA foi herdado de C. liberica e quanto de C. dewevrei. Os materiais analisados vieram do Sudeste Asiático, da América Central, da África e da Índia. 

As análises revelaram ainda que não existe um único tipo de híbrido. Alguns têm contribuição genética praticamente equilibrada entre as duas espécies parentais, enquanto outros carregam uma proporção maior de genes de C. liberica ou de C. dewevrei. Segundo os autores, isso indica que o libex surgiu em diferentes cruzamentos ao longo do tempo, e não em um único evento de hibridação. 

Essa combinação de diferentes proporções de DNA também se reflete nas características das plantas. De modo geral, os novos libex reúnem atributos agronômicos das duas espécies parentais, cruzam-se com facilidade e geram descendentes férteis — condições que os tornam elegíveis para programas de melhoramento genético. 

Os indivíduos com maior contribuição genética de C. dewevrei, por exemplo, têm mais flores e frutos por ramo do que C. liberica, característica que pode resultar em maior produção por planta e, potencialmente, em maior renda para os produtores. Também têm polpa e pergaminho mais finos, que podem tornar o processamento pós-colheita mais eficiente ao reduzir o tempo de secagem dos grãos. As primeiras avaliações também sugerem potencial para a produção de cafés de boa qualidade sensorial. 

Os autores também apontam que a herança genética de C. dewevrei pode contribuir para aumentar a resistência de alguns híbridos à ferrugem (Hemileia vastatrix), já que essa espécie apresenta resistência natural à doença. Essa possibilidade, porém, ainda depende de validação experimental. 

O estudo, portanto, amplia o conjunto de recursos genéticos disponíveis para a cafeicultura. Porém, é um trabalho inicial, e são necessários novos experimentos em campo para confirmar o desempenho agronômico, a estabilidade genética e a qualidade sensorial desses híbridos em diferentes condições de cultivo. 

Em um cenário de mudanças climáticas, em que cresce a busca por plantas mais adaptadas ao calor, à seca e a doenças, híbridos como o do grupo libex integram materiais com potencial para diversificar o futuro da produção mundial de café.

Para acessar o artigo gratuitamente, clique aqui.

TEXTO Cristiana Couto