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Existe cacau em SP

O cultivo do fruto amazônico, realidade no estado paulista, desperta a atenção das grandes indústrias e dos pequenos chocolateiros

Quando se fala em cacau brasileiro, a primeira região que vem à mente é o Sul da Bahia, imortalizada em obras de Jorge Amado e nos livros de história, que retratam a época áurea do cultivo nos anos 1920 e o
abrupto declínio no fim da década de 1980, quando a vassoura-de-bruxa devastou quase 80% do plantio. Quando parecia que o fruto tinha perdido protagonismo no Brasil, eis que a Bahia volta a tomar fôlego e a região norte dá notoriedade ao cacaueiro em seu berço, a Amazônia, em plantio que reúne volume e qualidade.

Mas como o Brasil está longe de ser autossuficiente em cacau e a disparada de seu valor tem sido motivo de preocupação mundial, novas frentes de produção fora das áreas tradicionais têm sido vistas com ótimos olhos. Aí é que São Paulo entra com força.

Depois de investidas pontuais no cultivo de cacau na década de 1970, o que parecia um sonho duvidoso
tornou-se realidade para cerca de 40 agricultores do estado. As apostas para ver o fruto do chocolate florescer com sotaque paulista vêm principalmente do programa Cacau SP.

O programa é um protocolo de cooperação entre Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA), por meio da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI) e da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), e Ministério da Agricultura e Pecuária. Além de apresentar tecnologia no campo e capacitar produtores e técnicos, o programa se propõe a unir elos da cadeia, aproximando pesquisadores e compradores dos produtores.

Começa no Planalto

Iniciado em 2014 de forma experimental no Planalto Paulista para compensar a perda de valor das seringueiras e trazer o plantio do cacau em formato de consórcio, o programa hoje comemora os cerca de 300 hectares de cacaueiros nesta região, que fica no noroeste do estado.

Conhecido pela pecuária e pela produção de cana-de-açúcar e laranja, o Planalto Paulista tem clima quente e de baixa umidade, o que se torna um desafio ainda maior para um cacau bem-sucedido. Mas é aí que os conhecimentos técnicos entram em cena.

Além das seringueiras, atualmente são as bananeiras que se destacam no modelo consorciado. “Como a região tem insolação muito forte, as bananeiras fazem o sombreamento inicial para entrarmos com as mudas de cacau”, explica Carlos Eduardo Rosa, engenheiro agrônomo da CATI de São José do Rio Preto. “Além disso, as bananeiras auxiliam na proteção do vento e são outra fonte de renda para o agricultor”, completa.

Tão importante quanto esses aspectos é a irrigação, indispensável para tornar o cacau viável no Planalto. “Temos um inverno seco muito bem definido, que coincide com a época de enchimento de fruto, então precisamos de irrigação para suplementar essa falta d’água”, detalha Rosa.

Ainda é cedo para se falar em terroir, mas as variedades mais indicadas pelo programa para o Planalto já são encontradas em grande parte do Brasil: a CCN 51 e a PS 1319. Ainda não se sabe se, em terras paulistas, esses frutos ganham diferentes características. “Por enquanto, não temos um perfil sensorial bem definido, pois as novas áreas plantadas estão começando agora e a produção vai depender da época da colheita. Como tudo é muito novo, vamos devagar”, diz o agrônomo.

Quem está aguardando ansiosamente seus frutos é Mônica Munhoz, produtora agrícola no município de Palmares Paulista que, após quatro anos de plantio, vai poder colher seu próprio cacau este ano. “Optei por uma nova cultura, para não ficar tão dependente da seringueira nem da cana-de-açúcar e que fosse interessante para a família”, revela Mônica, que hoje tem 10 mil pés concentrados em seis hectares (juntamente com bananeiras, claro).

Mesmo ainda sem suas amêndoas em mãos, Mônica já recebeu a visita de grandes indústrias, como Barry Callebaut e Puratos. “A CATI, além da assessoria inicial, tem trazido pessoas importantes do mercado, o que abre inúmeras possiblidades”, relata a produtora que, em paralelo, dedica-se com a família à marca de chocolates Therê. Por enquanto, sua fabricação só leva as amêndoas secas e fermentadas da Bahia. “Mas a partir de agosto teremos nosso chocolate paulista”, diz.

Em direção ao Vale do Ribeira

A nova aposta do Cacau SP é a região do Vale do Ribeira, no sul do estado. Já há cultivos antigos na região – cerca de 300 hectares –, mas a intenção do programa na área, lançado em abril deste ano, é revigorar o que já existe, com conhecimento técnico e tecnológico, além de ampliar a área cacaueira. E potencial não falta.

Diferentemente do Planalto Paulista, o Vale do Ribeira tem clima quente e úmido na maior parte do ano, com grande área de Mata Atlântica, o que dispensa o uso de irrigação. “O Vale é mais parecido com a Bahia, com o sistema cabruca”, conta Bruno Lasevicius, presidente da Associação Bean to Bar, sobre o modelo de plantio do cacaueiro em meio à mata nativa.

Ele, que também é dono da marca de chocolates Casa Lasevicius, em São Paulo, acredita que a região tem vocação para o cacau fino, ideal para chocolates artesanais de qualidade. “No Vale do Ribeira, os materiais são mais antigos, menos produtivos, mas possuem variedades interessantes”, explica ele, que lançou em 2023 cinco chocolates com o fruto paulista, sendo um de Olímpia, no Planalto, e o restante de Itariri e Pariquera-Açu, no Vale. “Deu para ver o potencial do cacau, mesmo sem a experiência do cacau fino”, conta o chocolateiro, que aguarda a nova safra paulista.

Outra chocolateira que deposita suas fichas no Vale do Ribeira é Denise Aruquia, da Pé de Chocolate, também na capital. Uma de suas criações, o chocolate Cacau de São Paulo, é feito com café da Mogiana e cacau cultivado por seu pai, Adenor Luiz, no sítio da família em Itariri. “Ele plantou as sementes trazidas da Bahia por um amigo e, em 2020, teve sua primeira colheita”, relembra.

Foto: Agência Ophelia

Depois de participar de cursos, Denise, que já era chef confeiteira, decidiu aproveitar o rico fruto para
dar vida a chocolates e abriu sua própria marca. “A produção do meu pai é pequena, então, tenho de comprar de outros produtores, mas o chocolate de São Paulo é o mais vendido”, conta Denise, que dá seu palpite sobre as características sensoriais do cacau: “O paulista tem a amêndoa mais escura e cheiro intenso de caramelo. Traz um pouco de adstringência e é mais seco em manteiga de cacau, diferentemente do cacau amazônico, que tem mais acidez e mais manteiga.”

Enquanto o cacau paulista vai tomando corpo, a curiosidade dos chocolateiros paulistanos só aumenta. A chocolatière Priscyla França, de marca homônima de chocolates bean to bar, na zona sul da capital paulista, está em contato com produtores locais. “Já quero começar a usá-lo”, adianta ela.

Arcelia Gallardo, da Mission Chocolates (SP), teve uma bela experiência com o fruto cultivado em Ilhabela, no litoral norte paulista, em 2017, quando fez uma barra 72%. Com notas de bolo de chocolate e acidez cítrica, ganhou medalha de bronze no Academy of Chocolate de 2017. “Só não usei outras vezes porque não tinha produção suficiente, mas gostaria de ter de novo”, revela.

Também vale mencionar as vantagens do cacau paulista frente às produções de outros estados. “A proximidade entre chocolateiro e produtor é algo positivo, assim como a facilidade logística e a questão tributária”, opina Lasevicius.

E, para os produtores, as benesses vão além do chocolate. “O cacau traz crescimento econômico para a região, pois é cultura de alto valor agregado”, pontua Rosa. Além disso, traz benefícios sociais. “São gerados muitos empregos; e há o benefício ambiental, já que é uma planta perene e que permanece vários anos no solo”, ensina.

Ainda há muitos frutos para São Paulo colher pela frente. O programa Cacau SP já tem um projeto de expansão em Caraguatatuba e Ubatuba, no litoral norte, onde existem cultivos da década de 1970 carentes de desenvolvimento.

E nada impede que o cacau apareça em novas áreas do estado. “São Paulo tem uma vocação para a fruticultura, por isso acreditamos que o cacau se adaptará muito bem com outros produtos”, explica
Rosa. Além disso, continua ele, exceto pelas regiões mais frias, o clima do estado é propício, de temperaturas altas e com bons níveis de volume de chuva ao longo do ano. “Esses fatores vão colocar o estado paulista como um dos grandes players de cacau no Brasil”, aposta.

Na merenda

Em parceria com a CATI, a cidade de Mendonça, no Planalto Paulista, criou o projeto Rota do Cacau, no fim de 2023. Além do foco no turismo rural sustentável e no desenvolvimento agrícola da região, o projeto incluiu o chocolate na merenda escolar. Quinzenalmente, as crianças das escolas municipais passaram a receber uma porção de 20 g de chocolate 50% cacau, feito com nibs e açúcar demerara, como um alimento funcional.

Saiba mais

Não é de agora que o Estado de São Paulo se interessa pelo plantio extensivo de cacaueiros. As primeiras tentativas são de 1950, em Caraguatatuba, na propriedade da indústria de chocolates Lacta. “Tentou-se  implantar o cultivo de cacaueiros valendo-se tão somente de técnicas recomendadas a outras regiões cacaueiras do país”, diz Fausto Joaquim Coral, 90 anos, ex-diretor do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e destacado, em 1962 pelo instituto, para dedicar-se integralmente ao cultivo da planta.

A prioridade, por tradição e facilidade, diz ele, foi estudar cientificamente o cacaueiro nas condições de floresta – na Mata Atlântica do Vale do Ribeira e do Litoral Norte. Depois, sob diferentes condições de manejo, na Baixada Santista e, nos anos 1970, no Planalto Paulista, implantando projetos de pesquisa em cidades como Ribeirão Preto, Mococa, Pindorama, Bebedouro, Adamantina e Alvilândia, entre outras. “Os resultados obtidos com essas pesquisas demonstraram fartamente que o plantio tecnificado do cacaueiro em várias áreas potencialmente aptas do Planalto Paulista se justificava como alternativa economicamente viável e promissora”, relembra Fausto.

Em 1984, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo implanta um projeto de cacau para o estado, o PECASP (Plano de Expansão da Cacauicultura em São Paulo), tecnicamente apoiado pelo IAC e pelo CATI. “O Banco do Brasil daria apoio financeiro para financiar as lavouras, como se procedia em outras áreas do território nacional”, explica o cientista, lembrando da desistência posterior do banco no projeto. “Os agricultores paulistas tiveram, a contragosto, que recuar em suas metas e pretensões”, conclui. 

Agora, em 2024, São Paulo retoma as antigas pretensões de poder, também, se projetar como região produtora de cacau. “Acho que agora o estado está mais forte e apto, e espero melhores atenções por parte das instituições financiadoras”, anseia Fausto. (por Cristiana Couto)

Texto (exceção ao box “Saiba mais”) originalmente publicado na edição #85 (setembro, outubro e novembro de 2024) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Beatriz Marques

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Carmem Lucia Chaves de Brito, a “Ucha”, é reeleita presidente da BSCA

Carmem Lucia Chaves de Brito, conhecida como Ucha, foi reeleita nesta quarta (18) presidente da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA). Seu novo mandato – o quarto (Ucha dirigiu a entidade em 2017, 2019 e 2024) – estende-se até dezembro de 2025.

A gestão da presidente da BSCA, eleita este ano uma das 100 personalidades mais influentes do agronegócio pelo Grupo Mídia, segue focada em promover os cafés especiais brasileiros como os melhores e mais sustentáveis do mundo, destacando a governança socioambiental e os critérios ESG como pilares estratégicos. Ucha também pretende ampliar a presença do Brasil em mercados emergentes, como China e Índia, fortalecendo as relações internacionais do setor.

No mercado interno, a presidente reforça a importância de aproximar baristas, provadores e consumidores, além de atrair mais jovens e mulheres para o segmento, promovendo inovação e diversidade. “Manteremos a trajetória de inovação, atraindo mais jovens e mulheres ao segmento de especiais e junto à nossa diretoria, reforçando o dever com a pluralidade e o respeito às pessoas, pensando, dessa forma, na preparação de novos líderes e, por que não, no processo de sucessão da BSCA”, diz ela.

Além da reeleição de Ucha, os associados da BSCA também aprovaram a composição dos Conselhos Diretor e Fiscal da entidade para o biênio 2025/26.

Em junho deste ano, Ucha deu uma entrevista exclusiva à Espresso, para a edição impressa #84. Na conversa, ela comentou sobre os desafios de sua gestão na BSCA, a trajetória ascendente dos cafés especiais, o cenário do Brasil cafeicultor e seus planos para o futuro do mercado. Leia na íntegra:

Espresso: Você comentou que tem ampla formação acadêmica. Como isso contribuiu para sua trajetória até aqui?

Ucha: Como muitos do Sul de Minas, nasci debaixo de um pé de café. Essa frutinha, de certa forma, ajuda a estruturar a própria vida da gente. Fui para o Rio de Janeiro muito cedo para estudar e passei metade da vida na cidade, onde me estruturei profissionalmente. Costumo dizer que naveguei nos mares do Rio, mas era aqui o meu porto, o lugar para construir raízes, ganhar fôlego.

Minha primeira formação foi em educação física, trabalhei com treinamento de atletas. Sempre gostei muito de estudar e fiz pós-graduações, mestrados, doutorados… Comecei, até, a buscar outras áreas para me tornar uma profissional melhor. Acabei me formando em psicologia, fiz física quântica, áreas que me ajudaram a ter um olhar cada vez mais amplo. Trabalhei no meio acadêmico por muitos anos até voltar para a fazenda. Essa experiência me ajudou a trabalhar pelo viés da qualidade, porque o mundo da ciência, da pesquisa, nos coloca na posição de observador, o que me ajudou a mergulhar na essência das coisas.

Há 17 anos voltei e assumi a administração da fazenda com meus irmãos depois que meu pai faleceu. E aí, mergulho numa história completamente diferente. Nossa escolha aqui é trabalhar com agregação de valor, com diferenciação. Tentamos escrever uma nova história, construir uma nova cultura para as pessoas da fazenda. Café não é só um produto, é investir nas pessoas, tentando deixar marcas emocionais positivas na vida delas. E, também, deixar marcas nesse pedacinho de terra que está nas nossas mãos. Conseguimos resultados bacanas para a empresa assentados nesses três pilares. A gente volta de um centro grande com um olhar completamente diferente em relação à importância disso tudo.

Atualmente, como se estrutura a BSCA e como ela se relaciona com os profissionais da área?

São quase 400 membros. A associação começou com produtores de café, e durante anos, ela movimentou-se em prol dos cafeicultores. Hoje em dia, temos toda a cadeia conosco. Somos hoje uma associação que dialoga com todos os segmentos, e uma das ações que buscamos é nos relacionarmos mais com outras instituições. Cada vez mais estabelecemos e buscamos caminhos e meios para estarmos próximos dos profissionais do café. Prova disso são os concursos que apoiamos, porque entendemos a importância de ter conosco esses profissionais. Eles são os grandes embaixadores do grão, que têm diálogo direto com a outra ponta, a do consumo. É o mundo do barismo, são os provadores que realmente entregam o que produzimos aos consumidores. Queremos trabalhar os especiais brasileiros como uma grande engrenagem, conjunta e solidária.

Você já teve dois mandatos seguidos e, em 2024, volta ao comando da BSCA. Quais são seus objetivos como presidente e quais os desafios para o setor?

A BSCA é uma associação em constante transformação. O Brasil, como o maior produtor de cafés do mundo, também vem se transformando no contexto dos especiais. Há 17 anos, falávamos de 200 mil sacas de café especial no Brasil. Hoje, são oito milhões de sacas produzidas. Conseguimos muita coisa num curto período, e não paramos. Crescemos cada vez mais, e cada vez mais o setor produtivo entende a importância da agregação de valor no café.

Há 17 anos, estávamos no início de um forte movimento das mulheres, que queriam assumir posições na cafeicultura brasileira. Hoje, elas estão nela. Estamos criando uma espécie de agregado exclusivamente voltado às mulheres no projeto setorial da BSCA, ao lado de entidades como a Apex, para aumentar sua visibilidade na cafeicultura brasileira, para que cheguem mais perto dos compradores desses cafés. Também vejo a importância de buscarmos tecnologia de inovação, de entregar cada vez mais ao mundo não só quantidade, mas consistência na qualidade do café.

Estamos mais empenhados na valorização das múltiplas microrregiões produtoras do Brasil. Na minha última gestão, isso ainda estava germinando. Queremos também trazer os canéforas para a associação. Já temos associados trabalhando robustas e conilons especiais, e regiões já estabelecidas. Esse processo de transformação, de ampliação de diálogo com o mundo, faz toda a diferença no dia a dia das pessoas na fazenda, para que eles acompanhem os movimentos globais. E a BSCA existe para entregar ao mundo o que ele deseja.

O Brasil como um país produtor de qualidade, sustentabilidade e terroirs diversos já é uma realidade. Você concorda?

Se você olhar para trás, essa página já virou. O Brasil já se reposicionou, já está em outro lugar e isso é claro para nós, embora a gente ainda tenha que evoluir muito. Nos mercados já consolidados, temos que continuar o trabalho que já está sendo feito e entender para onde estão indo as tendências.

A Europa é nosso grande mercado, principalmente de café de padrão de qualidade elevado. Os Estados Unidos também são um país com quem sempre teremos que caminhar, na minha opinião, pois são muito inovadores. Esse mundo dos especiais é muito dinâmico. As pessoas sempre querem saber de inovações e se surpreender. O café que a gente produz tem que ser feito a partir do entendimento do setor de consumo, porque é para esse setor que trabalhamos.

E como você enxerga esses novos mercados consumidores?

Temos um novo mercado imenso chegando, como China, Índia e mundo árabe. Já temos que olhar para a China de um modo diferenciado, porque é um mercado completamente diferente do restante do mundo. A China está interessada em cafés especiais mais ou menos como outros países fizeram no início do movimento dos grãos de qualidade. Eles pensam: “Peraí, café do Brasil com esse preço, não. É o preço do café da Etiópia, da Colômbia…” Estamos assistindo acontecer tudo de novo. Não é simples, temos que ser estratégicos para entender esse jeito deles de caminhar. Discutimos na BSCA como devemos nos comportar com relação à China, e como realmente mostrar o valor dos cafés brasileiros. Fizemos ações em 2023, e vamos continuar a fazê-las, sistematicamente. A China é um mercado em potencial para o mundo todo, imagine para o Brasil. Ou seja, temos que consultar a página virada que comentei antes para saber as estratégias para esses novos mercados.

Recentemente, uma pesquisa mostrou que o consumo atual nos Estados Unidos é o maior dos últimos 20 anos. Aumentamos nossas exportações de cafés especiais para o país?

O que a gente está discutindo é uma produção de especiais que gira em torno de oito milhões de sacas. Isso é muito expressivo, porque há pouco tempo falávamos em produzir 200, depois 600 mil sacas, depois pulamos para 1 milhão, 1,2 milhão de sacas.. De 2023 para cá, são oito milhões. É praticamente toda a produção da Colômbia. E não vejo esse movimento parar. Mas a questão não é essa, mas as pessoas que estão chegando no setor de produção, com outra cabeça, outro olhar. Há, então, uma mudança de mindset. Hoje a pegada é a sustentabilidade, é entregar valor e não apenas produto. Ainda temos que trabalhar muito. Hoje em dia, produzir um café especial com uma boa pontuação ou por ter um certo atributo sensorial para nós já é uma obrigação. Tem muito mais coisa que é preciso colocar na xícara.

Em 2023, a SCA [Specialty Coffee Association] lançou uma versão beta de um novo protocolo de avaliação de cafés de qualidade, em que só a pontuação não é mais suficiente. Você acha que o Brasil já olha para toda a cadeia?

Concordo com esse processo de transformação, e acho incrível que a SCA tenha se mobilizado para isso. Embora algumas pessoas resistam, essa mudança de metodologia é necessária. O mercado amadureceu, é o momento de inovar, não dá mais para pensar o café especial exclusivamente pela qualidade sensorial, pela pontuação. Existem outros valores agregados relevantes e precisam ser, também, avaliados e colocados na xícara. Vamos, em parceria com a BCD, fazer um evento no Brasil com os provadores de café para entendermos a nova metodologia na prática.

Como a BSCA auxilia e apoia as novas práticas agrícolas relacionadas à sustentabilidade, principalmente para a Europa?

É nossa pauta constante. A turma que realmente abraçou os cafés especiais é a que está transformando, há muito tempo, suas unidades de produção. Para termos chegado a esse alto nível de especialidade não tinha como não partir para práticas mais sustentáveis. Você nunca vai ter consistência, volume e alto padrão de qualidade no produto se não tiver pessoas qualificadas, competentes e que sejam valorizadas. Isso é inerente aos cuidados de quem agrega valor ao café. Para estar na BSCA, inclusive, é preciso ter fazendas certificadas. O mundo dos especiais contribui muito para o setor de produção de café no Brasil. Se há um novo mindset, é porque estamos convocando pessoas para produzir café de forma revisitada.

E não é só isso. Nosso país tem leis trabalhistas rigorosas e leis ambientais fortes e bem estabelecidas. Isso levou a produção brasileira de especiais a ser a mais sustentável do mundo. Nós visitamos produtores mundo afora, e é nítido que os outros países não têm essa estrutura de sustentabilidade, nem salários dignos, nem distribuição de renda. No Brasil, onde tem café, não se vê miséria.

A maior fatia de distribuição de ganhos em uma venda de café vai para o setor produtivo, e isso não existe em nenhum outro país produtor. Uma cafeicultura realmente lucrativa, tecnificada, cientificamente inovadora como a nossa é lindo de ser ver. O produtor percebe quantas opções tem, e isso é muito inovador. Temos instituições fortes que fazem trabalhos incríveis pela nossa cafeicultura.

Mas ainda falta construir nossa colcha de retalhos, sentar à mesa com elas e conversar. A BSCA é sobre cafés especiais, e, também, sobre a cafeicultura brasileira. Temos que estar com o Cecafé, com a Abics, com o CNC, o CNA, com as regiões. Temos que nos alinhar em prol da cafeicultura brasileira, um setor que recebe abertamente a tecnologia, a inovação.

Como a associação vê a transformação da tecnologia em termos de rastreabilidade?

Esse é um grande desafio para nós. São tantas demandas, e elas acontecem tão rapidamente, que às vezes pensamos estar atrasados. Creio que temos que ser mais eficientes com relação aos selos [fornecidos pela BSCA e que atestam parâmetros que validam que o café é especial]. Antes, discutíamos um selo com os grandes produtores brasileiros de cafés especiais torrados e moídos. Hoje em dia, temos microtorrefações espalhadas pelo Brasil, nanolotes especiais. Como manter esse selo?

Precisamos rever, encontrar maneiras mais atuais para darmos continuidade a esse importante processo. Vou dar meu próprio exemplo. Na minha fazenda, tenho um café-boutique chamado Paioca. E uma torrefação pequena. Como é que vou enviar esses grãos para certificar pela BSCA, se daqui a pouco os poucos quilos de café que temos vão acabar? Então, levo o meu problema para tentar resolver com a diretoria da associação. Vamos ter que buscar formatos mais ágeis para os selos.

Ano passado, vocês anunciaram uma parceria com a Abic para uma certificação para o mercado interno de cafés. Mas grande parte dele acredita que a produção brasileira segue para o exterior. Como vocês o enxergam?

A BSCA praticamente existia para o mundo lá fora. Quando estive na presidência, costumava dizer para a Vanusia [Nogueira, atualmente presidente da OIC]: “Não sei como é só olhar para o Brasil…

A gente fala da China, mas eu digo para os produtores: “Vocês estão tão preocupados com o mundo, mas olhem o país de vocês, que é o segundo maior consumidor de café do planeta.” Ou seja, o mercado interno tem grande potencial. Por isso, essa parceria com a Abic foi uma conquista. É um respeito ao consumidor brasileiro, para que ele comece a entender um pouco mais do assunto. Ele ainda está muito perdido.

Quantas pessoas chegam pra gente e perguntam a diferença entre o café gourmet e o café especial. “Não é a mesma coisa?”, questionam. Precisamos comunicar essas diferenças melhor. E estamos trabalhando muito nisso. E a Espresso está com a gente também, para comunicar melhor isso ao consumidor brasileiro. Esse é um papel crucial da BSCA: melhorar a nossa comunicação, principalmente interna, levar mais esclarecimento para a nossa grande comunidade consumidora de cafés especiais no Brasil. Quando a Abic topou a parceria, achamos fundamental introduzir o selo de café especial no seu rol de selos.

Queremos chegar cada vez mais perto das instituições para que, juntos, possamos trabalhar pela cafeicultura brasileira, pelo consumo de cafés brasileiros de qualidade, que é o que o consumidor brasileiro merece.

Mas são muitos os desafios. Estamos pensando em reunir as instituições para pensarmos juntos um processo que faça valer o que o Brasil já é. Não adianta sermos uma potência se não conseguirmos comunicar isso ao Brasil, que está, aliás, num bom momento em termos de especiais.

Por fim, qual é o seu sonho para o mercado de cafés?

Ah, não sou muito de ter um sonho só não, tenho um monte deles. Mas pensando globalmente, sonho com um Brasil que, de fato, conheça o Brasil. Um Brasil que valorize o setor de produção de café. Um Brasil que, assim como fazem os estrangeiros, queira vir para o campo nos conhecer. Não tenho medido esforços para abrir a minha fazenda, temos rota turística de café por aqui. Precisamos construir, realmente, narrativas bacanas para levar para a nossa gente, principalmente para os que amam café, as coisas maravilhosas que fazemos.

TEXTO Redação • FOTO Arquivo pessoal

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União para um café do futuro: o impacto da 12ª edição da SIC

Com o tema em torno de clima, ciência e novos consumidores, a 12ª edição da SIC, que teve recorde de público e negócios, debate a necessidade de conectar todo o mercado cafeeiro

Trabalho conjunto. Um conceito consolidado na cafeicultura atual, a união – seja ela de toda a cadeia ou da integração de olhares de sustentabilidade, transparência e valor dos grãos – foi a demanda que marcou debates, palestras e workshops durante os três dias da 12ª edição da Semana Internacional do Café, um dos mais importantes evento de café do mundo. O evento, que aconteceu entre 20 e 22 de novembro no Expominas, em Belo Horizonte, teve como tema “Como o clima, a ciência e os novos consumidores estão moldando o futuro do café”, e atraiu mais de 25 mil pessoas e motivou a geração de cerca de 80 milhões de reais em negócios iniciados – ambos, números recordes.

Clima e sustentabilidade

As questões sobre clima e sustentabilidade foram as mais discutidas no evento – um reflexo de sua relevância nos cenários nacional e global nos últimos tempos. “O Brasil não está conseguindo produzir café suficiente para atender a demanda, mesmo batendo recordes”, alerta o especialista Haroldo Bonfá, da Pharos Consultoria. Há 40 anos no ramo do café, Bonfá abriu o seminário DNA Café – que traz as principais tendências de mercado – na tarde do primeiro dia, com a palestra “Cenários e perspectivas do cenário de cafés”.

A afirmação de Bonfá diz respeito à conjunção desordenada de seca, geada e chuva tardias, tanto no Brasil como em âmbito global. “Acidentes climáticos vão continuar”, continuou Márcio Ferreira, CEO da Tristão, durante o painel “Visão Global: executivos discutem os atuais desafios e oportunidades do setor”. “E medidas isoladas não são a solução”, emenda Marco Valério Brito, presidente da cooperativa Coccamig (MG). Mas, além dos desafios enfrentados pela cadeia cafeeira, foram apontadas possíveis soluções.

Nunca o setor esteve tão unido, relataram vários palestrantes. Exemplo disso é o compartilhamento de
sementes de uma nova variedade de arábica – a star 4 (com período menor de crescimento e alta tolerância à ferrugem) recém-lançada pela Nestlé depois de mais de dez anos de pesquisas – com a cadeia produtiva. “Se antes praticávamos uma agricultura sustentável, hoje incentivamos uma agricultura regenerativa”, diz Valéria Pardal, CEO de cafés da Nestlé Brasil, que participou do mesmo painel, referindo-se aos cuidados com o solo e com a água e à preservação da biodiversidade.

Geografia de consumo

A geografia de consumo também vai mudar – e o Brasil produtor pode ganhar muito com isso. “Essa
mudança será rápida e drástica”, acredita Ferreira, fazendo menção aos mercados emergentes. “E essa geografia vai demandar mais e mais produção, precisão de tecnologia, ciência e bom preço”, conclui ele.

“Temos um potencial tremendo, pois somos competitivos em preço e em qualidade, e temos que valorizar isso nos mercados lá fora”, incentiva Bonfá. O especialista refere-se tanto às oportunidades, como são os mercados emergentes China e Índia (países populosos e que ainda bebem pouco café), quanto à necessidade de manutenção dos países já conquistados. Para se ter uma ideia, a China, por exemplo, bebe 300 g de café per capita ao ano e a Índia, 60 g. Mas o trabalho, frisou ele, é longo. “Temos todo o espectro de café necessário”, anima-se o especialista.

O futuro será gelado

Outro desafio – essencial para o sucesso do setor – é conquistar, também, as novas gerações. “O futuro do café é gelado”, prevê Valéria, referindo-se ao crescente mercado de bebidas geladas. Segundo ela,
para as novas gerações de consumidores brasileiros, os cafés gelados funcionam como fonte de energia e
momento de “indulgência”.

O perfil dos novos consumidores voltou à cena no painel “O impacto das megatendências no consumo de café”, que destacou diversidade de sabores, inovação e qualidade, além da sustentabilidade como grandes termômetros no mercado cafeeiro. “As pessoas hoje em dia buscam saúde, e estão abertas a novas experiências”, acrescenta Celírio Inácio da Silva, CEO da Abic. “Hoje em dia, são pequenas sutilezas que o consumidor busca na origem”, emenda Brito.

Trabalho somado. É essencial compreender o consumidor, que busca conhecimento, novas experiências e, acima de tudo, um café alinhado aos princípios ESG. Rastreabilidade, portanto, também está no centro das discussões atuais.

Mas sustentar o crescimento do mercado e enfrentar a emergência climática requer ações integradas. “A agricultura regenerativa é sistêmica”, afirma Felipe Salomão, gerente-sênior de assuntos públicos da Nestlé Brasil, durante o painel “COP 30: e eu com isso?”. Salomão destaca, também, a importância da gestão: “De caixa, de sucessão, de financiamento – é preciso equilíbrio”. “Não existe revolução verde no vermelho”, lembra ele.

O valor da economia verde

Essa visão balanceada é compartilhada por José Donizeti Alves, professor titular da UFLA, que abordou os impactos climáticos no café sob os aspectos produtivos e sustentáveis no painel “Desafio climático: seus impactos e soluções verdes para uma nova era sustentável”. “A cafeicultura sustentável exige um equilíbrio delicado entre produção e sustentabilidade”, resume o especialista, trazendo à tona o desafio central para o setor.

Integração. Como converter, por exemplo, economia verde em valor? A pergunta motivou a contribuição de Daniel Vargas, professor da FGV RJ e coordenador do Observatório de Bioeconomia da FGV, durante o mesmo painel. Vargas enfatizou a importância de integrar recursos e serviços naturais à economia, atribuindo a eles valor econômico e tornando-os visíveis e precificáveis. Segundo ele, a bioeconomia (como os créditos de carbono) pode ser uma oportunidade econômica para o Brasil – desde que consideradas as particularidades das economias tropicais.

“O futuro é a integração entre saúde e bem estar, sustentabilidade e sabor”, resume Stefan Dierks, diretor de estratégia de sustentabilidade do grupo Melitta da Alemanha, no painel sobre o impacto das megatendências no consumo de café. “E a única forma de alcançarmos isso é trabalhando juntos”.

Dierks em fala durante “O impacto das megatendências no consumo de café”

A ciência dos cafés

A ciência é a grande aliada da sustentabilidade na cafeicultura, e deu o tom do segundo dia de SIC, especialmente nos encontros do Fórum de Agricultura Sustentável, que está em sua 11ª edição. O trabalho conjunto dos agentes da cadeia, a multidisciplinaridade do conhecimento científico e as práticas regenerativas no campo surgiram como aspectos fundamentais para vencer os desafios das mudanças climáticas.

“A ciência tem um poder de transformação gigantesco”, diz Enrique Alves, pesquisador da Embrapa Rondônia e especialista em qualidade dos Robustas Amazônicos, em depoimento à Espresso depois de mediar o painel “A força da ciência nas questões de clima, solo, variedades e consumo”. “Ela envolve tudo que é importante para a produção de cafés, desde commodities até especiais. Envolve questões de solo, de ambiente e de genética, e o domínio desses conhecimentos é importante para extrair o máximo para ter produtividade, qualidade e segurança alimentar”, explica ele.

Regenerar é construir

A tecnologia e a ciência voltadas para o campo como potenciais da cafeicultura brasileira foram debatidos, de fato, ao longo do dia. O destaque do painel “Revolução verde: exemplos da nova economia sustentável”, foram cases de sucesso na redução da pegada de carbono na cafeicultura, como um estudo da potencialidade das práticas regenerativas (em comparação com a agricultura tradicional) em relação ao sequestro de carbono em conilons do Espírito Santo e o desenvolvimento de um fertilizante verde pela empresa Yara, em parceria com a cooperativa Cooxupé (em Guaxupé, Sul de Minas). “A potencialidade da agricultura brasileira, o modo como ela é feita hoje, é uma grande solução nas mudanças climáticas”,
diz Natália Amoedo, fundadora da Pipah e mediadora do painel. “O Brasil tem a oportunidade de dar novos passos, pensando em tecnologia e, principalmente, testando novos modelos de negócios, como os colaborativos”, completa.

“Regenerar significa reconstruir”, ensina Eduardo Sampaio, consultor sênior da Plataforma Global do Café (CGP), que recorreu à história da agricultura para tratar do tema no painel “ABC do Regenerativo: fundamentos e retornos econômicos para o produtor”, em que atuou como mediador. Sampaio destacou, ainda, a necessidade de um pensamento sistêmico e multidisciplinar para encarar os desafios atuais na cafeicultura. “Não há como mudar as mudanças, mas há como minimizar seus impactos através da agricultura regenerativa acoplada à ciência”, completou Alessandro Hervaz, vice-presidente da cooperativa mineira Coopervass, que há um ano criou o projeto Greencoffee, de práticas de cultivo
responsável e que envolve cerca de 30 produtores de café.

“As práticas regenerativas são um caminho sem volta”, pontuou Adriano Ribeiro, coordenador de sustentabilidade da NKG Stockler, no mesmo painel. E “sua reconexão com a academia é um alicerce maior para as mudanças em vigor”.

A agricultura regenerativa não é uma moda passageira. Diversas falas dos palestrantes ao longo dos três dias de evento foram alimentadas por dados científicos, que embasaram os avanços na produção de grãos de cafeicultores que adotam a agricultura regenerativa quando o assunto são os desafios climáticos.

Apesar disso, ainda existem barreiras que precisam ser quebradas, e um dos caminhos é a informação correta, como destacou Sampaio. Além disso, a AR ainda carece de valoração específica, uma demanda dos produtores que há muito a praticam. Isso será compensado em 2025, quando a Rainforest Alliance pretende lançar uma certificação para ela. “Teremos um módulo específico para AR”, promete Yuri Feres, diretor da Rainforest Alliance Brasil. “Não há dúvidas científicas da resiliência dos cafés que têm práticas regenerativas”, reforça Ribeiro.

Outra ferramenta fundamental para enfrentar os desafios climáticos é a genética. É o que apresentaram pesquisadores no painel “Tecnologias genômicas e a transformação da produção de café”, que aconteceu em sala paralela à do fórum.

Segundo eles, desde 2002 projetos vêm estudando o genoma das duas espécies de café de valor econômico. Em 2014, com colaboração internacional, foi desvendado o genoma completo do canéfora. Em 2024, o genoma da espécie arábica foi concluído. A importância disso? Acelerar o trabalho dos melhoristas do café no desenvolvimento de novas variedades com demandas atuais, como tolerância à seca e a doenças e que tenham qualidade sensorial, a partir do uso de marcadores que auxiliam na “construção” de novas variedades. “A pesquisa científica está sempre antenada, e com muita antecedência”, lembra Luiz Filipe Pereira, da Embrapa Café.

“Qualquer variedade pode entregar bebidas acima de 90 pontos”, garante o pesquisador de cafés especiais do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) Gerson Giomo, referindo-se às qualidades intrínsecas dos cafés. “Elas só precisam estar em ambientes favoráveis para expressarem seu potencial genético”, ensina o especialista, no já citado painel sobre ciência, clima e solo.

A ciência do solo também está na ordem do dia. Estudos recentes mostram que ele tem características “invisíveis” (referindo-se aos minerais que compõem a argila do solo), identificadas a partir de procedimentos magnéticos e que “impactam na capacidade das plantas em produzir cafés de qualidade”, diz o especialista em solos Diego Siqueira, CEO da Quanticum.

Mercado sustentável

Outro tema que não pode ficar de fora foi a lei antidesmatamento europeia. As discussões sobre os recentes desdobramentos da EUDR, feitas durante o painel “Brasil e as novas regulamentações da UE: ameaça ou oportunidade?”, apontaram que, apesar dos desafios impostos, o Brasil possui condições favoráveis para consolidar e expandir sua presença no mercado europeu de café, aproveitando a crescente demanda por produtos sustentáveis.“De janeiro a outubro, as empresas já se programaram para as novas regras”, explica Marcos Matos, diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), referindo-se, ainda, ao aumento de 54,5% de exportação de café para União Europeia.

Segundo ele, também, a Alemanha ultrapassou os Estados Unidos como principal importador de cafés brasileiros nesse período. “Para nós, a EUDR tem se mostrado um aspecto positivo, uma oportunidade para mostrarmos, com promoção da imagem, a nossa real sustentabilidade”, completa, não sem destacar a realidade difícil de outros países produtores nesse contexto.

O segundo dia do evento ainda fechou com o lançamento da plataforma de rastreabilidade das Indicações Geográficas (IGs) de café e do livro A Revolução do Café Brasileiro – Regiões com Indicação Geográfica.

A Plataforma de Rastreabilidade das Indicações Geográficas (IGs) de Café, denominada Origem Controlada Café, é uma iniciativa conjunta do Sebrae, da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e do Instituto CNA, e busca fortalecer o controle e a rastreabilidade dos grãos brasileiros com IG no Brasil a partir da reunião e monitoramento de dados das 15 IGs brasileiras de café. Com tecnologias como blockchain e geolocalização, a ferramenta abrange mais de 100 mil produtores em 424 municípios. Por meio dela, é possível acessar informações sobre os produtores, locais de cultivo, qualidade e características sensoriais dos cafés, atendendo às exigências do mercado por transparência e garantia de origem.

A SIC é uma realização de Sistema Faemg, Espresso&CO., Sebrae e Governo de Minas Gerais. Tem o apoio institucional do Sistema OCEMG e patrocínio da CODEMGE, 3corações, Nescafé, Nespresso, SICOOB, Yara, Melitta e Senar.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO NITRO/Semana Internacional do Café

Mercado

Café POR ELAS chega em espresso e coado à Le Jazz Boulangerie (SP)

A padaria franco-paulistana também vende quatro opções em pacote

A torrefação Café POR ELAS acaba de estrear na Le Jazz Boulangerie. A padaria franco-paulistana do Grupo Le Jazz agora serve café nos métodos espresso e coado desenvolvidos pelas irmãs Nadia e Julia Nasr, que torram cafés de mais de 20 produtoras. Outras opções são vendidas no pequeno empório da boulangerie. 

“Escolhemos um café bem doce e encorpado. A ideia é que as casas tenham um espresso redondo e consigam manter a consistência, por isso escolhemos máquina e moinhos de excelente qualidade e estamos investindo em capacitação para a equipe”, diz Nadia.

O espresso, que também é comercializado nas quatro unidades do Le Jazz, a brasserie do grupo, e o coado são da variedade catuaí vermelho da produtora Priscila Mazzarini Cezar do Couto, de Ibitiúra de Minas (MG). No fim de semana e feriados, a unidade do Le Jazz Brasserie no Pátio Higienópolis também serve o mesmo café no método coado ao longo do serviço de brunch. 

Para quem quiser levar os grãos pra casa em pacotes de 250 g, as opções vendidas na boulangerie – todas varietais – são os catucaís vermelhos Ajuda quem cedo madruga (R$ 36) e Bonito por natureza (R$ 51), o catuaí vermelho Pausa pro café (R$ 48) e a variedade arara Se faz feliz, faz café (R$ 52). 

Endereços:
Le Jazz Boulangerie
(R. Joaquim Antunes, 501 – Pinheiros – São Paulo – SP – tel. 11/3085-0576)
Le Jazz Higienópolis (Av. Higienópolis, 618 – Piso Pacaembu – Higienópolis, São Paulo – SP – tel. 11/3823-2684) 

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Mercado

Café torrado vai aumentar até 30% em 2025

Aumento é reflexo dos preços altos do café verde e de estimativas da produção brasileira; para especialista, consumo não cairá no âmbito doméstico 

Com o preço do café verde nas alturas e as expectativas de quebra de produção para a próxima safra causada pelos desafios do clima, empresas como Melitta, 3corações, e JDE Peet’s (fabricante de marcas como a L’Or) decidiram repassar os preços aos consumidores, informa a Reuters

O aumento de preços para o ano que vem alcança 30%, segundo fontes consultadas pela Reuters na quinta (12). De acordo com a agência de notícias, a Melitta já aumentou os preços de seus cafés em 25% em dezembro e a 3corações, em 10%. 

“A aquisição da matéria prima compõe de 40% a 60% do custo de produção das torrefadoras. Devido à sua magnitude, é praticamente impossível postergar repasses”, explica o especialista Celso Vegro, pesquisador científico do Instituto de Economia Agrícola (IEA). “Entretanto, pode-se incrementar o blend com conilon para tentar adiar esse repasse”, sugere ele. “Outra questão é a competição impressa pelas marcas de combate que não tem na qualidade o atributo que mais se destaca”, completa (confira a análise global dos preços do café pelo colunista do CaféPoint aqui).

Na terça-feira (10), o mercado futuro do arábica alcançou o maior valor desde 1977 (consequência da geada negra no norte do Paraná em 1975, então o maior produtor brasileiro de café), rompendo a barreira de US$ 3 a libra peso, num cenário de valorização do grão em torno de 80% este ano. 

Em palestra de abertura da Semana Internacional do Café (SIC), no fim de novembro em Belo Horizonte, Haroldo Bonfá, da Pharos Consultoria e há 47 anos no mercado de café, já alertava: “O Brasil não está conseguindo produzir café suficiente para atender a demanda, mesmo batendo recordes”.

Relatórios recém-divulgados por duas das principais traders de café do mundo refletem o cenário preocupante da oferta de grãos brasileira: a Volcafe previu um déficit global de até 8,5 milhões de sacas em 2025/26 – o quinto déficit consecutivo –, enquanto a alemã Neumann Gruppe GmbH, menos pessimista, projetou o déficit em 2 milhões. A causa apontada foi o pegamento abaixo do ideal das cerejas. 

O relatório da Neumann também destaca uma demanda global de café estanque, semelhante à 2023/24 (que esteve abaixo de 170 milhões de sacas em 2024/25), por conta dos altos custos do café verde, que impactam os preços. No relatório também, a projeção da próxima safra brasileira gira em torno de 40 milhões de sacas de arábica, contra 34,4 milhões projetada pela Volcafe

Estimativas assim divergentes refletem as incertezas atuais no mercado de café, influenciadas pelas condições climáticas do Brasil e pelas flutuações na demanda global pelo grão. Mas há falta de café no mercado? “Criou-se um sentimento de que vai faltar café”, analisa Vegro. “Esse sentimento cresceu e se transformou em pânico. Com minha experiência de várias décadas acompanhando esse mercado, a indução dos preços faz aparecer produto”, continua o especialista. Mas também não posso negar que teremos um 2025 com alguma dificuldade de abastecimento”. 

Nesta semana, também, dados sobre a safra 2024/25 de robusta do Vietnã (entre 26,67 e 28,33 milhões de sacas), divulgados pela Vicofa (Associação de Café e Cacau do Vietnã), indicam um volume abaixo da média prevista por analistas independentes (28,5 milhões de sacas), embora tenha havido, em 2024, um aumento tanto nas exportações, de 9% (23 milhões de sacas), quanto no consumo interno (entre 4,5 e 5 milhões de sacas).

É um momento de oportunidade para os canéforas brasileiros, já que o recorde de exportações de cafés canéfora alcançados este ano, explica o especialista, é um reflexo da incapacidade do Vietnã em honrar seus compromissos de venda de robusta por causa da estiagem severa pela qual passou. “Os importadores voltaram para o Brasil em busca de suprimentos”, diz Vegro. 

“O Brasil vive um momento ímpar de crescimento da economia, com baixo desemprego e alta dos salários”, contextualiza o especialista que acrescenta que, embora a alta dos preços do café possa afetar negativamente o consumo fora do lar, haverá um reforço nas preparações domésticas. “Assim, com mais conilon e preços dentro das margens de possibilidades dos consumidores, passaremos por essa crise sem mortos e feridos”.

TEXTO Cristiana Couto (Fontes: Reuters, Comunicaffe International, Bloomberg)

Mercado

“Premiunização do café deve ser democrática”, diz executiva da Nestlé

Em conversa com a Espresso, a diretora-executiva de cafés da Nestlé Brasil, Valéria Pardal, detalha as ações de sustentabilidade da companhia e as novas tendências de consumo de cafés

Valéria Pardal, diretora-executiva de cafés Nestlé Brasil – Foto: Acervo pessoal

Formada em administração de empresas, a argentina Valéria Pardal encontrou cedo sua vocação. Interessada nas estratégias psíquicas profundas que levam as pessoas a consumir, buscou aprender com grandes players de mercado. Na Nestlé há vinte anos e, desde agosto de 2023, diretora-executiva de cafés Nestlé Brasil, Valéria é reconhecida pelos investimentos em sustentabilidade. “A sustentabilidade é um critério importante de decisão para a geração Z”, garante ela. Nesta entrevista, concedida por email, Valéria comenta amplamente sobre o tema, sobre as novas tendências de consumo em cafés e as inovações da Nestlé, como o desenvolvimento de novas variedades.

Espresso: Valéria, atualmente você é diretora-executiva de cafés Nestlé Brasil. Como começou sua carreira profissional?

Valéria Pardal: Comecei ainda na universidade. Sou formada em administração de empresas e sempre tive interesse e curiosidade especiais sobre psicologia das pessoas quando se trata de consumir ou comprar marcas e produtos. Sempre quis entender como elas pensam, quais necessidades estão satisfazendo e o que realmente motiva suas decisões de compra.

Comecei na área financeira e comercial da Visa e, depois, trabalhando com empreendedores na construção de seus planos de negócios em uma empresa de consultoria para pequenas e médias empresas. Nesse caminho, entendi que minha paixão era ser capaz de criar, desenvolver e promover marcas de consumo. A partir daí, comecei a buscar um caminho em empresas reconhecidas e líderes de mercado. Foi assim que cheguei à Nestlé Argentina, há 20 anos.

Como você iniciou sua jornada profissional na Nestlé e quais seus principais objetivos?

Meus primeiros passos na Nestlé Argentina foram como Jovem Profissional (Programa de Trainee). Desde o primeiro momento, tive oportunidades e desafios constantes nas áreas de vendas, trade e, depois, em marketing de diferentes negócios.

No Brasil, meu principal objetivo é continuar a desenvolver o mercado de café, promovendo a democratização do café premium e de origem sustentável.

Como gestora, você destaca a importância da sustentabilidade na divisão de cafés da Nestlé. A Nescafé estabeleceu a meta de tornar 100% de seu café sustentável até 2025. Quais são os desafios para alcançar esse objetivo e como a empresa garante a eficácia dos programas de certificação envolvidos?

A Nestlé é a maior compradora de cafés no mundo – são mais de 850 mil toneladas de café verde por ano, o equivalente a mais de 14 milhões de sacas, de mais de 20 países –, e a área é uma das prioritárias para a companhia.

Seguimos investindo em inovação e tecnologia para oferecer um café sustentável e de qualidade, com iniciativas em toda a cadeia produtiva. No Brasil, 100% do nosso café já é de origem sustentável e certificado, e mais de 90% das fazendas estão em transição para a agricultura regenerativa.

Enquanto a demanda global pela bebida continua aumentando, eventos climáticos recentes sugerem que a área adequada para cultivar café arábica pode ser reduzida em mais de 50% até 2050. O projeto star 4, nova variedade de arábica desenvolvida pela Nestlé Brasil, visa mitigar o impacto dessas mudanças na cadeia de suprimento de café, por ser uma espécie mais resistente, de alto rendimento e com menor emissão de gases do efeito estufa.

A companhia atua há mais de 13 anos na cadeia por meio do programa global Nescafé Plan, o maior do segmento no Brasil e batizado localmente de Cultivado com Respeito. Além de práticas sustentáveis, ele contempla iniciativas que promovem condições justas e seguras de trabalho e impacta 1,5 mil propriedades. Também garante que 100% dos grãos comprados por nós no país são certificados e que todas as fazendas fornecedoras têm, ao menos, uma prática de agricultura regenerativa.

Além disso, as fazendas credenciadas são auditadas por empresas parceiras e especializadas – uma delas é a certificação 4C (Código Comum para a Comunidade Cafeeira), conjunto de critérios que orientam a produção da cadeia do café, composto por 106 rigorosos itens, divididos em dimensões econômica, social e ambiental.

Há um movimento crescente de práticas de agricultura regenerativa no mundo, embora falte um consenso global quanto ao seu conceito. O que você entende por agricultura regenerativa e quais as estratégias do setor de cafés da Nestlé relacionadas a esse tema?

Agricultura regenerativa significa uma produção mais sustentável, que entrega mais para a natureza do que retira dela, e que inclui práticas que recuperam o solo, os recursos hídricos, a biodiversidade e, ainda, contribuem para a redução da pegada de carbono.

Nós operamos cada vez mais em nossas fábricas para evitar desperdícios de água e de energia, e procuramos desenvolver a conscientização sobre desperdícios e orientar sobre o destino correto de resíduos.

O Cultivado com Respeito promove a agricultura regenerativa por meio de diversas práticas positivas, e cujos pilares são natureza, gente e conhecimento. Ele garante que 100% dos grãos comprados são certificados e que todas as fazendas fornecedoras têm, ao menos, uma prática de agricultura regenerativa.

Ele também possibilita que os produtores tenham uma melhor qualidade de vida por meio do estímulo à capacitação, da aplicação de preços diferenciados e da bonificação por uma matéria-prima mais sustentável e com mais qualidade.

Um exemplo de impulsionamento da agricultura regenerativa é a linha de Nescafé Origens do Brasil, que foi lançada em 2019 e que é destaque em sustentabilidade, pois as práticas no campo dos produtores parceiros são voltadas ao desenvolvimento da agricultura regenerativa.

Além dos benefícios ao meio ambiente, a iniciativa traz mais rentabilidade à produção cafeeira, já que diminui o custo de produção ao mesmo tempo em que aumenta a produtividade por pé de café. A meta é obter, até 2025, 30% das principais matérias-primas, café, cacau e leite, por meio de propriedades que aplicam práticas regenerativas e sustentáveis.

Com o compromisso de atingir a neutralidade de carbono até 2050, como a Nestlé aborda a redução das emissões associadas à produção e ao transporte de café?

Atualmente, 70% das nossas emissões de carbono têm origem na agricultura. Em relação à natureza, por meio do empenho contínuo rumo ao impacto ambiental neutro, a Nestlé trabalha para assegurar recursos para as futuras gerações, além de apostar na agricultura regenerativa como premissa de transformação profunda.

O programa Cultivado com Respeito, que já citei e que é o maior do mundo no segmento de café, promove ações para reduzir a pegada de carbono nas fazendas produtoras.

A linha Origens do Brasil é a primeira a conquistar certificação de produto carbono neutro, de acordo com o The Carbon Neutral Protocol, principal framework global de neutralidade de carbono. A linha, além de representar uma quebra de paradigma importante, ao apresentar um café especial, torrado e moído, busca transformar e ressignificar a cafeicultura brasileira, trazendo o balanço perfeito entre um café de qualidade e de impacto positivo no planeta.

Além das práticas regenerativas que englobam o uso de energia solar, a agrofloresta, o menor uso de agrotóxicos e a preservação das abelhas, também estão a recuperação de áreas florestais desmatadas. Nescafé e a ONG SOS Mata Atlântica se uniram para plantar 1,5 milhões de árvores nativas e regenerar um dos principais biomas brasileiros.

Recentemente, também, fizemos um extenso trabalho de cálculo de carbono em 100% das fazendas de café fornecedoras, a maioria delas no Espírito Santo, mudando a forma de relacionamento com o produtor. Esse é um dos grandes diferenciais da companhia, já que não há no mercado um banco de dados tão extenso e com tanta profundidade.

Quanto à logística, temos um centro de distribuição 100% dedicado ao e-commerce de cafés que utiliza energia otimizada: luz natural, lâmpadas inteligentes e certificação Leed Gold Sustentável. Já os pedidos enviados vão com uma sacolinha para facilitar a reciclagem de cápsulas. Repensamos a nossa frota e implementamos a “entrega verde”: usamos carros e caminhões elétricos, ou a biometano em algumas de nossas rotas.

Como a empresa está implementando a gestão hídrica nas áreas de cultivo e quais resultados já foram observados?

Já trabalhamos com redução e reuso de recursos hídricos nas operações próprias e das cadeias de suprimentos. Esse cuidado com recursos hídricos é um dos principais pilares dos nossos programas de sustentabilidade. Hoje em dia, no Brasil, cerca de 10 mil propriedades rurais de leite, café e cacau trabalham com práticas cuidadosas quanto a isso. Essas propriedades são verificadas pelo menos uma vez por ano, e recebem assistência técnica nossa para operar de maneira sustentável.

Um bom exemplo é a fábrica de Nescafé Dolce Gusto, na cidade mineira de Montes Claros. Ela é a primeira da companhia a receber a certificação Triplo Zero – que não utiliza água extraída da natureza, não envia resíduos para aterros e tem 100% das emissões de gases do efeito estufa neutralizados.

Ela foi estrategicamente construída ao lado da unidade de Leite Moça, que fornece 100% da água utilizada na fábrica do Nescafé Dolce Gusto. Isso evita o uso de água potável vinda da natureza.

Quanto aos resíduos gerados, 100% deles seguem para reciclagem, reaproveitamento e compostagem. A unidade também neutraliza 100% das emissões de gases de efeito estufa por meio de compensações.

A EUDR entra em vigor em 30 de dezembro deste ano. Mas há um debate sobre o tema em torno de seus impactos, especialmente para pequenos produtores, que muitas vezes carecem dos recursos para cumprir as exigências de rastreabilidade por elas imposta. Como a Nestlé vê os impactos da EUDR e se posiciona perante eles, já que trabalha com produtores de todo o planeta?

De forma global, estamos quase atingindo o objetivo de 100% de abastecimento de cafés de compra responsável – com rastreabilidade de produtores que participam de programas de sustentabilidade –, e consideramos estar bem-posicionados para que as ações complementares sejam implementadas e, assim, cumprir com a EUDR.

Recentemente, vocês lançaram a variedade de arábica star 4. Há mais pesquisas desse tipo em andamento em outros países produtores? De que maneira essas novas varietais entram no portfólio da empresa?

Um projeto de desenvolvimento de uma nova espécie demanda, além de alto investimento, muito tempo de dedicação, pesquisas e estudos. A star 4, por exemplo, já tem mais de dez anos, e a expectativa é que sua produção ocorra em 2028.

Essa nova variedade de arábica tem um período menor de crescimento e alta tolerância à ferrugem, uma das principais doenças que atingem o café brasileiro, além de menor emissão de carbono. O projeto foi desenvolvido em São Paulo e em Minas Gerais utilizando métodos tradicionais de melhoramento genético. A variedade foi selecionada no Brasil por sua resiliência, qualidade, produtividade e por ter o sabor característico do café brasileiro.

Esse é nosso primeiro projeto de desenvolvimento de uma nova espécie de arábica no país, e os resultados têm sido satisfatórios. Nossos testes de campo demonstraram que, utilizando insumos semelhantes, os rendimentos da star 4 são substancialmente maiores do que os de duas variedades brasileiras bastante utilizadas, que são a catuaí e a bourbon.

Queremos engajar os agricultores para cultivar a variedade, com um plano de distribuição de mudas que será construído em conjunto com os interessados. Além disso, a companhia não tem o objetivo de tornar essa variedade exclusiva, pois acredita que pesquisa e tecnologia devem ser compartilhadas e o desenvolvimento de uma cafeicultura mais produtiva e sustentável é uma agenda pré-competitiva.

Mas, antes da star 4, desenvolvemos duas variedades de robusta, roubi 1 e roubi 2, ambas produzidas no México e que estão sendo lançadas agora.

Com a consolidação da qualidade dos canéforas produzidos no Brasil, como você vê a participação futura da espécie nos blends produzidos pela Nestlé?

Desde que a Nescafé estreou no segmento de cafés premium, em 2019, apostamos nos canéforas. A segunda edição limitada do Nescafé Origens do Brasil, lançada recentemente, é nosso segundo café especial da espécie canéfora, resultado de um projeto que levou abelhas para as Montanhas Capixabas para favorecer a polinização do cafezal, o que aumenta a produtividade e a qualidade dos grãos.

Em tempos de aquecimento global, a variedade robusta é uma das maiores apostas sustentáveis para o futuro do café. Se, antes, essa variedade era tida como o patinho feio, agora ela vive um boom: a produção de robusta de alta qualidade impulsiona torras mais complexas que dão origem a ótimos cafés especiais. Por isso, temos direcionado investimentos em inovação para os canéforas especiais, desassociando-os da imagem de café de baixa qualidade.

Hoje já existem muitos produtores no Espírito Santo e na Bahia que têm conhecimento na produção de cafés especiais da variedade conilon. Então, há cinco anos contribuímos para capacitar produtores na produção de conilon especial, e o resultado desse trabalho está nesses cafés que lançamos, o Pontões de Capixaba, em 2019, e Montanhas Capixabas, neste ano.

Quais tendências emergentes no setor de café você acredita que terão o maior impacto nos próximos anos e por quê?

Acredito que as principais tendências no mercado de café estão relacionadas às mudanças de comportamento e estilo de vida. Eu destaco a premiunização, o café gelado e a sustentabilidade.

O aumento no interesse pelos cafés especiais está relacionado tanto ao produto em si, como edições limitadas, diferentes terroirs e novos blends, quanto a inovações no setor, como o uso de novos materiais, mais sustentáveis. A tendência é que essa procura pela qualidade seja crescente, afinal, o paladar não retrocede.

Em relação ao café gelado, as tendências começam fora do lar e se replicam em casa. Há um aumento no número de perfis nas redes sociais que ensinam receitas de bebidas com café como ingrediente principal.

O consumidor também está cada vez mais focado em conhecer a procedência do seu alimento e o mesmo acontece com o café. Eu acredito que esse interesse vai desde a origem do grão até a embalagem no ponto de venda. Segundo pesquisas, a sustentabilidade é um critério importante de decisão para a Geração Z. Mais de 70% dos consumidores desta geração estão dispostos a pagar até 10% a mais por produtos sustentáveis.

Visando aumentar a conexão com esse público e destacar os diferenciais da Nestlé em sustentabilidade, recentemente alteramos o rótulo da linha Nescafé, trazendo informações sobre o projeto Cultivado com Respeito.

Como percorremos o caminho da premiunização nestes últimos cinco anos, e em que etapa desse processo você acredita que estão os mercados brasileiro e internacional?

O movimento de valorização da bebida, unido à educação de novos consumidores, têm direcionado a Nestlé nessa premiunização. A categoria tem crescido consideravelmente, e representa, atualmente, 70% do negócio. Há dez anos, essa taxa era de 15%. Estamos em momento de expansão do consumo de café premium, de maior valor agregado, e isso está sofisticando o consumo de café no Brasil. Trabalhamos com a marca Nescafé de consumo massivo para que essa premiunização seja democrática. Os brasileiros consomem entre quatro e seis xícaras de café por dia e a missão da Nestlé é que essa xícara seja de melhor qualidade.

Atualmente, nosso portfólio premium é formado pela linha Nescafé Gold, com opções de café solúvel e, para coar, a linha Nescafé Origens do Brasil.

Nos primeiros seis meses de 2024, o café foi o item da Nestlé que mais cresceu em receita. Como as gerações mais jovens estão consumindo café no Brasil?

Os jovens da Geração Z estão mais dispostos a experimentar novas receitas e procuram por bebidas indulgentes, que geram publicidade orgânica e se encaixam no conceito de comfort food. Para esse público, o café gelado é o grande destaque, como citei, e seu consumo tem aumentado bastante nos últimos anos.

Como comentei, o consumidor aprende a tomar cafés de melhor qualidade, com sabores e métodos de preparação diferentes, e passa a replicar o hábito no âmbito doméstico. Essa tendência foi acelerada pelo aumento das cafeterias no Brasil, que oferecem diversas receitas de café gelado que atraem essa nova geração. Acreditamos no segmento e queremos ser protagonistas na transformação da xícara de café do brasileiro, com o lançamento de produtos e campanhas que potencializam as mensagens focadas na Geração Z. Recentemente, lançamos novos sabores da linha Nescafé Pronto para Beber, para consumo gelado.

A Nestlé Professional, área de food service da companhia, também segue desenvolvendo projetos focados nesse modelo de consumo, por meio de parcerias com lojas de conveniência e cafeterias, com clientes como AmPm, por exemplo.

No Brasil, a estratégia de investimento também mira o mercado de café fora de casa, através de soluções B2B. Quais são os planos para alavancar este mercado?

Recentemente anunciamos, no Brasil, o investimento de um bilhão na área de cafés Nestlé até 2026. Esse montante está voltado, principalmente, para a fábrica localizada em Araras (SP), e para a ampliação do parque de máquinas de Nestlé Professional, atualmente com 22 mil unidades, visando o aumento de 50% no biênio e a liderança no mercado OOH, com novos modelos de negócios e investimentos em equipamentos e tecnologia.

A área vive um momento importante pós-pandemia, com a volta ao trabalho presencial, por conta da alta demanda do mercado corporativo, já que boa parte das ocasiões de consumo fora de casa acontecem no trabalho.

Só no ano passado, foram investidos R$ 60 milhões e, atualmente, vendemos 700 mil xícaras por dia nos canais fora do lar. Estimativas internas da companhia preveem que, em 2024, mais de 250 milhões de xícaras Nescafé serão servidas em todo o país.

Os recursos serão aplicados, principalmente, em novas tecnologias, como curvas de torras, flexibilização das linhas de produção para fazer qualquer tipo de produto, novos sabores. Com isso, a companhia tem o objetivo de acelerar sua jornada de transformação digital, pelo aprimoramento de tecnologias para o desenvolvimento sustentável de produtos inovadores.

Valéria, um consumo interno de café ainda maior vai afetar os preços do café no Brasil? Qual será o impacto no mercado global de café, na sua opinião?

Como em qualquer outra mercadoria, os preços do café estão sujeitos à oferta e demanda e são definidos no mercado aberto. Nesse segmento, o preço não é uma variável que a Nestlé possa determinar ou controlar. A empresa compra o café e adapta seu preço de acordo com as variações do mercado, para garantir que os agricultores recebam um preço competitivo por sua safra.

Temos um compromisso genuíno com a sustentabilidade em toda a cadeia do café no mundo e queremos, até 2025, obter 100% de café rastreável e de origem responsável. Em 2023, esse índice foi de 92,5%, tornando a companhia a maior compradora de café de origem responsável por volume.

A maior parte do café é adquirido indiretamente, por meio de grupos de agricultores, cooperativas e traders. Essa é uma prática comum no setor cafeeiro, devido às exigências locais para a venda de café moído e preparado.

Que conselhos você daria para profissionais que estão começando suas carreiras no mercado de café?

Para qualquer profissional, acho que o primeiro conselho é amar o que faz. Pessoalmente, sinto-me muito grata por ter a oportunidade de trabalhar numa categoria tão empolgante como o café. Seja curioso e adote uma atitude de “aprendiz em série”, cercando-se de profissionais e pessoas experientes para enriquecer seu olhar. O Brasil é o mercado número 1 do mundo! Aqui há muito conhecimento de todas as partes da cadeia de valor e muita ambição em aprender também.

Para fechar essa conversa, como as experiências pessoais e profissionais moldaram sua abordagem para liderar a divisão de cafés da Nestlé?

Compartilho os valores que acredito serem fundamentais para uma liderança inspiradora e o desenvolvimento de negócios. Um deles é a colaboração, o trabalho em equipe: acredito realmente na diversidade de opiniões e em proporcionar autonomia para minha equipe se desenvolver.

Outro valor é a responsabilidade, é atuar como dono. Isso quer dizer não apenas fazer o trabalho, mas transformar o trabalho, agregando valor e inovando. Acredito também no “aprendiz serial”, que tem curiosidade, abertura para dizer “não sei”, que busca investigar e que não acredita que temos que ter todas as respostas. E respeito, o tempo todo.

Texto originalmente publicado na edição #85 (setembro, outubro e novembro de 2024) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Caio Alonso e Cristiana Couto

Mercado

Brasil sediará encontro global sobre sustentabilidade na cadeia do cacau em 2025

O Brasil será palco do Partnership Meeting 2025, evento promovido pela Fundação Mundial do Cacau (WCF) e que reúne líderes globais, grandes players do mercado, especialistas, representantes de governos de países produtores de cacau, investidores e organizações da sociedade civil. Com o tema “Nosso Futuro: Resiliência por meio da Sustentabilidade”, o encontro acontece nos dias 19 e 20 de março, no hotel Tivoli Mofarrej, em São Paulo, e está com inscrições abertas.

A expectativa é receber 450 participantes de 40 países, incluindo representantes de tradicionais produtores africanos, como Costa do Marfim e Gana, além de palestrantes da América Latina, da Europa e dos Estados Unidos. O evento destaca o Sul Global, com discussões sobre as cadeias produtivas da América Latina (Equador, Colômbia e Brasil), da África (Nigéria, Camarões) e da Ásia (Indonésia), além de promover troca de conhecimento com especialistas em outras commodities, como o café.

Entre os palestrantes brasileiros confirmados estão Anna Paula Losi, presidente-executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC); Deborah Faria, professora da UESC e especialista em ecologia e biodiversidade; Jaime Recena, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (ABICAB); Silvino Kruschewsky, engenheiro agrônomo e consultor em cacaicultura; e Vinícius Ahmar, gerente de bioeconomia do Instituto Arapyaú.

Sustentabilidade em foco

Para o Brasil, o evento será uma vitrine da transformação sustentável pela qual passa a cacaicultura nacional, além de um espaço para debater oportunidades e novos planos de fomento ao setor. A programação incluirá também visitas de campo à Bahia, destinadas aos participantes estrangeiros interessados em conhecer de perto a produção brasileira.

O Partnership Meeting 2025, organizado pela Fundação Mundial do Cacau (WCF), tem o apoio do CocoaAction Brasil, uma iniciativa precompetitiva que desde 2018 fomenta o desenvolvimento sustentável na cadeia cacaueira nacional. Entre seus membros financiadores estão grandes nomes da indústria como Barry Callebaut, Cargill, Dengo, Harald, Mars, Mondelēz International, Nestlé e ofi.

Com o objetivo de alinhar ações coletivas e impulsionar práticas sustentáveis, o evento promete ser um marco na consolidação do Brasil como líder na agenda global de sustentabilidade do cacau.

TEXTO Redação

Mercado

China: 1,4 bilhões de razões para vender café

País de proporções colossais, oportunidades múltiplas e complexidade cativante, a China está reescrevendo o manual de negócios do café

Em dezembro de 2023, a plataforma World Coffee Portal revelou que a China tinha ultrapassado os Estados Unidos como o maior mercado de rede de cafeterias do planeta, depois de crescer impressionantes 58% naquele ano e alcançar 49,7 mil pontos de venda.

As enormes oportunidades para negócios que envolvem o grão entre os 1,4 bilhão de cidadãos do país são inegáveis. Mais de 90% dos consumidores chineses pesquisados pela plataforma inglesa bebem café semanalmente, enquanto 64% o consomem gelado pelo menos uma vez por semana. Quanto ao papel das cafeterias no consumo geral do grão no país, 89% dos consumidores consultados visitam cafeterias ou pedem delivery ao menos uma vez por semana, sendo que um quinto deles o fazem diariamente.

O fascínio “neon” do café

Desde que a China abriu sua economia, em 1978, o PIB do país cresce, em média, 9% ao ano. Em 2010, o chamado “milagre econômico” assistiu a ultrapassagem do Japão pela China como a segunda maior economia do mundo por PIB, e, em 2022, um relatório do FMI considerou a economia chinesa 23% maior do que a dos Estados Unidos, considerando a Paridade de Poder de Compra (PPP).

Para muitos chineses, a liberalização econômica trouxe mais prosperidade – e o primeiro contato com o fast food e a cultura do café ocidentais. Em 1987, o KFC abriu a primeira filial no país asiático na Praça da Paz Celestial, no centro de Pequim, seguido, em 1992, da abertura do primeiro McDonald’s, também na capital.

Em 1999, a Starbucks tornou-se a primeira grande cadeia ocidental de cafeterias a lançar-se na China, seguida pela Costa Coffee, em 2006, pela Dunkin’, em 2008, e pela Tim Hortons, em 2019. “A China é o mercado consumidor mais atraente do mundo, não só pelo tamanho, mas porque é o mais exigente, dinâmico e digital de todos,” explica Yongchen Lu, CEO da Tims China, joint venture que gerencia mais de 900 lojas da Tim Hortons no país.

Atualmente, o mercado de cafeterias na China é um caldeirão de operadores internacionais e domésticos, liderado pelas 16,2 mil lojas com pegada digital da chinesa Luckin Coffee e por 7 mil lojas da Starbucks. Os operadores internacionais podem ter preparado o mercado mas, hoje em dia, mais de 80% das redes de cafeterias no país são chinesas.

Apesar de o país asiático ter mantido a estratégia zero-Covid até o começo de 2023 – quase um ano a mais do que a maioria das grandes economias –, o mercado recuperou, desde então, uma pujança significativa. Setenta e dois por cento dos líderes da indústria pesquisados pelo World Coffee Portal em novembro de 2023 indicaram que as negociações melhoraram ou são comparáveis às de 2022. Ao mesmo tempo, 65% deles concordaram que o fluxo de clientes recuperou-se aos níveis pré-pandêmicos.

“O café está se tornando um ritual diário para muitos chineses que consomem a bebida”, diz Felipe Cabrera, gerente-geral da Ad Astra Consulting, com escritório em Xangai, ao comentar sobre a indústria de cafés no país. “Recentemente, com a forte competição de preços no mercado, o café está se tornando mais do que um produto de um estilo de vida idealizado, especialmente nas províncias da costa leste, altamente desenvolvidas, onde o mercado é mais maduro”, completa.

A já ampla e crescente economia chinesa significa que as redes de cafeterias precisam apenas voltar seus olhos para uma das 18 cidades do país com mais de cinco milhões de pessoas – ou para as cinco com mais de 10 milhões. Com 22 milhões de habitantes, Xangai é o epicentro de um mercado promissor. Estima-se que existam mais de oito mil coffee shops na imensa metrópole, segundo relatório de 2022 da Meituan, plataforma chinesa de alimentos e bebidas, o que a torna uma das cidades consumidoras do grão mais densamente povoadas do planeta.

Envie mais café

Apesar do crescimento impressionante de cafeterias, o consumo total de café previsto para 2024 no país – cinco milhões de sacas (60 kg) – é pequeno se comparado às 20 milhões de sacas que os Estados Unidos bebem anualmente. Porém, enquanto o hábito norte-americano e europeu de beber café cresce anualmente em torno de 4%, o consumo chinês da bebida cresceu 57% entre 2019 e 2023, de acordo com o Relatório de Desenvolvimento Urbano da China do ano passado, publicado pela CBN Data (organização chinesa de pesquisa e serviços de comunicação da indústria de consumo).

“Com a alta densidade populacional nas metrópoles, mesmo que os consumidores comprem apenas um espresso por semana e passem o dia inteiro na cafeteria, esses operadores ainda lucram”, diz Martin Pollack, CEO da Torch Coffee, empresa de comércio, abastecimento, torrefação e consultoria, que formou conexões profundas com a indústria cafeeira em franca expansão no país.

Natural dos Estados Unidos, Pollack chegou à China em 2008 e, em 2014, foi morar em Yunnan. Desde então, a Torch Coffee treinou milhares de aspirantes a profissionais, ansiosos por aprender as habilidades de um barista, se tornarem Q-Graders e iniciarem seu próprio negócio. “O ambiente de negócios no país está muito mais direto do que era anos atrás. Agora, é um sistema bem gerenciado e eficiente, com uma estrutura jurídica e empresarial sólida”, acrescenta Pollack.

O efeito Luckin

Com mais de 16 mil lojas, a Luckin Coffee virou notícia no início de 2023 ao ultrapassar a Starbucks como líder de mercado na China em número de estabelecimentos. Mas sua escala é bem diferente do portfólio da Starbucks, com mais de 7 mil unidades, além de ter como característica lojas express, pontos pick up e cozinhas delivery.

Enquanto a Luckin registrou vendas de US$ 986,8 milhões no terceiro trimestre de 2023, as receitas da Starbucks no mesmo período alcançaram US$ 841 milhões, com metade das lojas. Mesmo assim, a estratégia de “novo varejo” da Luckin continua a ser muito influente. A rede acumulou mais de 120 milhões de usuários em seu aplicativo, garantiu a entrega de bebidas em até meia hora e ganhou empatia aplicando preços baixos e descontos promocionais. “Ela teve um papel crucial na democratização da cultura do café na China, graças aos preços acessíveis. Especialmente fora das grandes cidades, onde os consumidores não necessariamente são conhecedores de cafés em busca de bebidas sofisticadas, marcas que oferecem preços competitivos e sabores inovadores estão melhor posicionadas para conquistar clientes”, analisa Antonello Germano, gerente de marketing da Daxue Consulting, consultoria especializada em varejo chinês com sede em Xangai.

A ascensão impressionante da Luckin só se compara ao infame escândalo contábil de US$ 300 milhões que resultou, em 2020, na saída da empresa da NASDAQ (mercado de ações automatizado dos EUA), em uma multa de US$ 180 milhões da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) norte-americana e em outra mais leve, de US$ 9 milhões, do governo chinês.

Embora internacionalmente a reputação da rede tenha sido abalada, a reação chinesa ao episódio foi bem diferente. “Estávamos orgulhosos da empresa, brigando para liderar o mercado e oferecendo preços acessíveis às pessoas. Prefiro café especial, mas estou muito orgulhoso do que a Luckin alcançou para o povo chinês”, diz Kasey Guo, ex-barista do Starbucks Reserve Roastery e professora de barismo em Kunming, capital da província de Yunnan.

O foco incansável da Luckin em preço e conveniência criou um cenário altamente competitivo na China. Lançada pelos ex-executivos da Luckin Charles Lu e Jenny Qian, a Cotti Coffee seguiu o mesmo manual e abriu mais de 6 mil lojas digitais desde 2022. A Cotti geralmente precifica bebidas cerca de US$ 0,15 abaixo da rival Luckin. No início de 2023, ela reduziu o preço dos lattes para US$ 1,38, levando a Luckin a igualar o valor e comprometer-se a mantê-lo por dois anos. A Cotti, então, respondeu, reduzindo ainda mais o valor da bebida (US$ 1,22).

A guerra de preços entre Luckin e Cotti, segundo Cabrera, reformulou as expectativas dos consumidores. “Eles agora esperam pagar de US$ 2,20 a US$ 3,20 por uma xícara de café (cerca de 250 ml) – exceto as servidas por marcas consolidadas, como Starbucks e Costa Coffee, cujos preços permanecem mais altos, entre US$ 4,30 e US$ 5,80.”

Uma economia chinesa lenta também significa que os consumidores estão prestando atenção em seus gastos. Espera-se que o crescimento do PIB desacelere para 4,5% em 2024, enquanto a taxa de desemprego suba, entre os jovens de 16 a 24 anos – público-alvo chave para as redes de café –, de 15,3% em 2022 para 21,3% em 2023.

Como resultado da intensa concorrência de preços, muitas cadeias de café menores têm lutado para se manter no jogo, o que fez com que fechassem lojas ou se convertessem em franquias Luckin ou Cotti. Outros operadores do setor, como Nowwa Coffee, Manner Coffee e M Stand, seguiram com suas estratégias centradas no valor da xícara para continuarem competitivos.

Os operadores de café também sofrem pressão de cadeias de fast-food focadas em preços, como McCafé e KCOFFEE, da KFC – com esta última vendendo espressos de origem única por US$ 1,30, o equivalente a um terço do valor de um produto similar da Starbucks.

Belinda Wong, co-CEO da Starbucks, afirmou no início deste ano que a rede “não está interessada em entrar em uma guerra de preços”. No entanto, a multinacional aproveitou descontos baseados em aplicativos e em vários tamanhos pequenos de xícaras, com preços mais baixos, para manter-se no páreo.

Há, porém, sinais de que a subcotação dos preços vai se revelar insustentável às empresas do setor. Na tentativa de responder a esta realidade mercadológica, a Luckin Coffee reduziu, em fevereiro, sua oferta de bebidas a US$ 1,36 – preço aplicado, até então, a todas as opções da marca – para apenas oito opções, depois que sua margem de lucro no terceiro trimestre de 2023 caiu de 2,6% (em relação ao ano anterior) para 13,4%.

“A experiência da Luckin Coffee mostrou que o sucesso sustentado no mercado exige mais do que preços baixos e agilidade. Para continuar relevante no longo prazo, a cadeia chinesa de café investe, atualmente, em ofertas inovadoras, com preços mais elevados, e em lojas maiores localizadas em áreas-chave”, afirma Germano.

Como as marcas estrangeiras podem ter sucesso na China

O mercado de cafeterias de marca na China deve ultrapassar 86,3 mil pontos de venda até o final de 2028, segundo dados WCP. Isso significa um crescimento de 11,7% ao ano. Mesmo com o aumento da concorrência, a China oferece uma oportunidade formidável de crescimento para as cadeias de cafeterias internacionais.

Mas, com um mercado gigante e em movimento acelerado, e com operadores domésticos em franca expansão, lá se foram os tempos em que marcas ocidentais estabeleciam-se apenas com base em prestígio. “No passado, as cadeias internacionais dominavam o mercado chinês, mas hoje em dia proliferam pelo país cafeterias locais, e que são fortes concorrentes para seus equivalentes internacionais”, analisa Germano. “É crucial entender e se adaptar às preferências dos jovens consumidores, conscientes da sua saúde, além de atender a gostos e preferências locais, que são diversas”, acrescenta.

Além de entender as preferências dos consumidores, os operadores também devem conhecer profundamente a cultura chinesa. “As práticas comerciais são muito enraizadas, tanto na hierarquia corporativa quanto nas redes sociais tradicionais, com uma troca fluida entre as duas”, explica Cabrera, referindo-se ao conceito de “guanxi”, termo chinês para descrever a rede de relacionamentos pessoais e comerciais mutuamente benéficos.

“Para ter sucesso neste ambiente extremamente dinâmico, é necessária uma filosofia cristalina, e a nossa está fundamentada em quatro pilares: relevância local, inovação contínua, comunidade genuína e conveniência absoluta”, diz Yongchen, da Tims China.

Uma complexidade ascendente como esta necessita de uma abordagem estratégica, já que o amadurecimento do mercado chinês exige que as novas marcas sejam respaldadas por investimentos substanciais de capital. “A mobilidade de capital continua sendo um grande obstáculo para as marcas ocidentais no mercado chinês”, observa Pollack, destacando as restrições à transferência internacional do renminbi, a moeda oficial da República Popular da China. Apesar disso, Cabrera acredita que o mercado chinês representa, ainda, uma grande oportunidade aos novos participantes.

A Blue Bottle Coffee, com sede na Califórnia (EUA), busca uma fatia do segmento de superespecialidades premium na China. O operador boutique, apoiado pela Nestlé, abriu sua primeira loja em Hong Kong em 2018, e fez sua estreia no país em 2022, com uma loja em Xangai que inaugurou com filas de sete horas de espera. “Demoramos para entrar na China e ainda estamos no começo da jornada, plantando raízes para o futuro”, diz Karl Strovink, CEO da marca californiana.

Para Strovink, entender a disposição desses consumidores asiáticos para novas experiências dirige o posicionamento da marca no país. “Aqueles familiarizados com o café especial buscam uma experiência consistente e de alta qualidade, mas continuam abertos a novidades”, diz o CEO da marca, ao citar a forte demanda por lattes sazonais, como o latte de açafrão e baunilha.

Assim como nas lojas da Blue Bottle pelo mundo, é essencial integrar o patrimônio local chinês ao design. “Nosso Café Yutong, localizado num edifício histórico dos anos 1920, mescla o antigo e o novo, enquanto o Café Zhang Yuan busca inspiração na herança Shikumen da região”, explica Strovink, referindo-se ao estilo arquitetônico tradicional de Xangai. Segundo ele, embora a marca tenha visão global, as equipes locais são fundamentais para a integração da empresa aos novos mercados, e para oferecer produtos relevantes naquela área. Um exemplo é o waffle de óleo de cebolinha da Blue Bottle, que combina o waffle de Liège, marca registrada da cafeteria, com sabores locais.

O mercado de cafeterias no país dispõe de um amplo ecossistema de aplicativos que facilitam pré-encomendas, entregas, pagamentos e promoções direcionadas. Mais de 85% dos chineses pesquisados pelo World Coffee Portal já tinham pré-encomendado ou pedido delivery em cafeterias nos últimos 12 meses, com 57% deles preferindo a entrega de bebidas em lugar de visitar o estabelecimento.

Operado pela gigante tecnológica Tencent, o WeChat (ou Weixin) é frequentemente descrito como o “aplicativo para tudo” chinês por suas múltiplas funções – desde redes sociais a e-commerce, encontros e mapas. O aplicativo tem mais de 810 milhões de usuários no país e facilita encomendas, entregas, pagamentos e promoções das cafeterias.

O WeChat opera no Meituan, que tem cerca de 75 milhões de usuários ativos mensais e quase três milhões de usuários anuais de cafés takeaway só em Xangai. O Alipay, da gigante do e-commerce chinês Alibaba, é um grande concorrente do WeChat e concentra-se exclusivamente em pagamentos. O Alibaba também oferece um aplicativo rival de alimentos e bebidas, o Ele.me, com cerca de 68 milhões de usuários ativos mensais.

As principais cadeias de cafeterias, incluindo Luckin Coffee, Starbucks, McCafé, NOWWA e Yongpu Coffee, colaboram com a Meituan e a Ele.me para seus pedidos, pagamentos e marketing. Outros apps utilizados pelos operadores de cafeterias são a Baidu Delivery, a plataforma de serviços Koubei, o Amap, provedor de mapas, e a plataforma de e-commerce Taobao. “O digital é uma das características que torna a China o mercado consumidor mais atraente do mundo. A personalização e a digitalização fazem parte da vida cotidiana desses consumidores e a expectativa é que as marcas respondam a isso”, afirma Yongchen.

É comum ver, no país, jovens carregando malas para trocar de roupa e fazendo sessões de fotos para avaliar cafeterias, explica Vivi Wang, Q-Grader e dona de uma delas na província oriental de Zhejiang. Plataformas de mídia social como WeChat, Dianping, Yelp e Xiaohongshu (Pequeno Livro Vermelho) – um aplicativo com foco em lifestyle de luxo com 100 milhões de usuários – transformaram as cafeterias em palcos inspiradores para milhões. Conteúdos assim, acrescenta Vivi, são fundamentais no compartilhamento de avaliações e recomendações dos usuários.

A Geração Z cresceu com a cultura do café como algo cotidiano e que, hoje, alimenta novas tendências que viralizam nas redes, incluindo parcerias entre marcas e receitas extravagantes.

Diferentemente dos Estados Unidos e da Europa, cafés saborizados com infusão de frutas são comuns na China. Outra tendência crescente é a colaboração entre as marcas, como a parceria da Luckin Coffee com a Kweichow Moutai, popular bebida alcoólica chinesa, e o latte de leite de arroz Wuchang, da Cotti Coffee. Em fevereiro deste ano, a Starbucks lançou seu próprio latte com sabor de carne de porco para celebrar o Ano Novo chinês.

Yunnan, entrada do boom do café especial

Em pouco mais de 30 anos, Yunnan, província do sudoeste chinês, passou de uma economia agrária obscura para uma potência da cafeicultura no país. A região começou a produzir grãos nos anos 1900, quando missionários franceses importaram as primeiras plantas do Vietnã.

Mas foi somente em 1988 que o governo chinês, o Banco Mundial, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e a Nestlé iniciaram conjuntamente um programa para modernizar a indústria cafeeira em Yunnan. Desde então, a produção cresceu exponencialmente e a região desenvolveu-se em um polo nacional de treinamento em cafés. Em 1995, a província produziu cerca de 58 mil sacas (60 kg), e, em 2016, as exportações ultrapassaram 1,8 milhão de sacas, o que posicionou a China entre os 20 maiores produtores globais em termos de volume.

Naquele ano, a Nestlé inaugurou o Centro de Café Nescafé em Pu’er, cidade da província. Atualmente, é um centro importante em treinamento e comércio, e disponibiliza cursos de gestão no campo e de processamento de grãos para quase 15 mil agricultores, consolidando ainda mais a economia cafeeira em Yunnan.

“Compramos grãos de Yunnan sistematicamente, garantindo preços justos aos produtores”, diz Sherry Zhao, head de comunicação de marca e inovação para cafés na Nestlé China. “Também estamos muito comprometidos em promover práticas agrícolas regenerativas, garantindo o futuro do café na região”, completa.

Hoje em dia, as oito subregiões cafeicultoras de Yunnan produzem cerca de 113 mil toneladas anuais, mais de 98% da produção total do país. A maioria destina-se ao vasto mercado chinês de cafés instantâneos e de commodities, mas a última década assistiu o café especial da região ganhar destaque. Torrefadores internacionais de especiais buscam cada vez mais grãos de origem Yunnan, incluindo o Nomad de Barcelona (Espanha) e o Cypher de Dubai (Emirados Árabes Unidos). “Torramos cafés de Yunnan em 2023, tivemos ótimos feedbacks dos clientes e os grãos esgotaram-se rapidamente”, diz Carlos Eduardo Bittencourt, CEO da Cafezal, rede de cafeterias de especialidade em Milão, na Itália.

Um novo capítulo na história do café

Com a China estabelecida globalmente como superpotência econômica e cultural, as redes de cafeterias de marca que entram no mercado encontram consumidores bem informados, seguindo fielmente sua agenda e moldando o consumo de café à própria imagem.

Antes recebidos com curiosidade e garantindo filas de curiosos, os operadores ocidentais hoje em dia vão precisar inovar no mesmo ritmo (acelerado) de seus concorrentes chineses – e, também, perguntar-se o que podem aprender com eles. Com gigantes locais como Luckin Coffee, Cotti Coffee, There Was No Coffee e Mellower avançando em direção a um mercado mais amplo no Sudeste Asiático, é só uma questão de tempo até que as marcas chinesas comecem a atrair suas próprias filas de consumidores curiosos no Ocidente.

Texto originalmente publicado na edição #84 (junho, julho e agosto de 2024) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Tobias Pearce (5THWAVE)

Mercado

Bruno Megda é o novo campeão brasileiro de Cup Tasters

Com sete acertos em 4 minutos e 32 segundos, o Q-Grader da Região Vulcânica agora se prepara para o mundial da categoria, que acontece em 2025 em Genebra, na Suíça

Bruno Megda, vencedor do Campeonato Brasileiro de Cup Tasters

“Vencer é a realização de um sonho”, diz Bruno Megda, o novo campeão brasileiro de Cup Tasters, no dia seguinte à competição para a Espresso. O Q-Grader da Região Vulcânica levou a melhor com sete acertos (de oito trios) em 4:32 minutos, na final da competição que aconteceu de 25 a 27 de novembro, em Varginha (MG), e foi realizada pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA). Ele representará o Brasil no mundial da categoria, que acontece de 26 a 28 de junho em Genebra, na Suíça. 

A final foi disputada com outros três competidores: Ellen Martins, de Ervália (MG), que representou a Coopercam e ficou em segundo lugar, Marcos Dominguito, de Varginha, da Unicafé, que finalizou em terceiro, e Felipe Lopes, de Natércia (MG), da empresa Fruto Mineiro Cafés Especiais, que ficou na quarta posição. “Foi uma honra ter participado do campeonato com grandes profissionais”, diz o campeão.

Da esquerda para a direita: Marcos Dominguito, Ellen Martins e Bruno Megda

Filho de produtores de café de Cabo Verde (MG), Megda está no mercado de cafés há 15 anos. “Minha expectativa é trabalhar para trazer novamente o título para o Brasil”, aposta ele, fazendo referência ao último mundial, conquistado pelo brasileiro Dionatan Almeida. “Embora a prova de xícara seja algo rotineiro para mim, quando se coloca em uma competição, o cenário muda”.

Sobre a preparação para a competição, ele destaca o autocontrole e o apoio de pessoas próximas. “O primeiro passo foi entender como funciona o campeonato, e aqui eu cito um amigo e ex-competidor, Rafael Monteiro, que esclareceu as dúvidas que eu tinha sobre o processo”, explica. “Replicamos o método em forma de treino em casa, todos os dias, durante um mês, com a ajuda da minha esposa Daniela, que me incentivou e esteve ao meu lado durante toda a jornada”, agradece.

TEXTO Gabriela Kaneto • FOTO BSCA

Mercado

Último dia de Semana Internacional do Café só teve campeões

Saiba mais sobre as seis competições que fecharam o maior evento de cafés do país 

Paulo Roberto Alves, do Sítio Campo Azul, no Caparaó (ES), levou o troféu COY de melhor café arábica

O Coffee of the Year, que está em sua 13ª edição, foi o grande destaque do dia e a premiação mais aguardada. Este ano deu novamente o estado capixaba no pódio do Grande Auditório, com as regiões Caparaó e Sul do Espírito Santo (clique aqui para ver os campeões). 

O concurso promove e valoriza os melhores cafés produzidos no país, e reconhece a excelência dos produtores nas categorias arábica e canéfora. Foram 570 inscrições de 13 estados, cujas amostras são submetidas à análise sensorial de Q-Graders e R-Graders licenciados pelo Coffee Quality Institute (CQI). Nessa fase, são selecionadas as 180 melhores amostras (150 de arábica e 30 de canéfora) que são oferecidas em rodadas de cupping para geração de negócios e degustação de visitantes. Além disso, os 10 melhores cafés arábica e os 5 melhores canéfora ficaram disponíveis para voto popular, em degustações às cegas, de onde saíram os dois campeões. 

Antônio Cezar Demartini Landi, do Sítio do Pedrão, de Jerônimo Monteiro (ES), vencedor da categoria canéfora do COY 2024

Campeonato Brasileiro de Barista

Logo após a premiação do COY, saíram os resultados do Campeonato Brasileiro de Barista 2024. Desta vez, o título foi para Emerson Nascimento, do Coffee Five, do Rio de Janeiro, que levou a melhor após disputar a final com os baristas Daniel Vaz (2º colocado), Hugo Silva (3º colocado), Juliana Morgado, Giovanna Tonelli e Renan Dantas.

Agora, Emerson Nascimento se prepara para representar o Brasil no World Barista Championship, que será realizado de 17 a 21 de outubro de 2025, em Milão, Itália, onde enfrentará os melhores baristas do mundo.

Pódio do Campeonato Brasileiro de Barista, com Hugo Silva em terceiro (à esq.), Emerson Nascimento em primeiro (centro) e Daniel Vaz em segundo (à dir.)

Espresso Design

A 6ª edição do concurso Espresso Design, que avaliou as melhores embalagens de café de 2024, abriu a tarde de premiações. Após dois dias de exposição das 20 embalagens finalistas na entrada da SIC, onde os visitantes puderam votar em sua favorita, o prêmio foi para o Café da Vaca, com a edição Serra da Canastra. O Café Bazilli, com o Dino Coffee, ficou em segundo lugar, e a Unique Cafés Especiais, com seu Reserva Especial Unique, em terceiro.

Com mais de 80 embalagens inscritas neste ano, o concurso avaliou, na sua primeira fase, aspectos como identidade visual, eficiência, conceito, originalidade e criatividade, análise esta feita pela equipe da Espresso e por especialistas convidados – nesta edição, Camila Arcanjo, consultora para qualidade e certificações da ABIC, e a designer Luiza Kessler. 

Café da Vaca, eleita a melhor embalagem no concurso Espresso Design

Torrefação do Ano Brasil 2024

Na premiação Torrefação do Ano Brasil 2024, da Atilla Torradores, a campeã foi a baiana Café Gourmet CGP, torrefação da Fazenda Divino Espírito Santo, de Piatã. O segundo lugar ficou para o Café Bazilli, de Caconde (SP), e o terceiro para a torrefação Cafetto Company, de São José dos Campos (SP). O concurso, que destaca o trabalho das torrefações de qualidade de todo o país, teve 95 torrefações inscritas, de 18 estados. 

Campeonato Brasileiro de Blends de Café

Novidade na SIC, a final do 2º Campeonato Brasileiro de Blends de Café, realizado pela ABIC (Associação Brasileira da Indústria de Café), premiou Pedro Mestrinier, da cooperativa Coocacer, de  Araguari (MG), e concedeu a segunda e a terceira colocação a Michele Loreto, da Global Way Importex, de Curitiba (PR), e Jovelino Maier, da Café Número Um, em Vitória (ES), respectivamente.

O campeonato promove o conhecimento na criação de blends de café, jogando luz sobre o trabalho de classificadores, degustadores e mestres de torra. É composto por quatro etapas (as três delas, estaduais), e promoveu a final no último dia da SIC. Os blends foram avaliados por um júri técnico a partir do Protocolo Brasileiro de Avaliação Sensorial de Cafés Torrados, desenvolvido pela associação. 

Concurso Florada Premiada

O Concurso Florada Premiada 2024, promovido pelo Grupo 3corações em parceria com a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), reconheceu as melhores produtoras de cafés especiais do Brasil. Na cerimônia de premiação, que aconteceu pela manhã da sexta (22), a Denominação de Origem Matas de Rondônia destacou-se ao ocupar todo o pódio da categoria canéfora.

O primeiro lugar foi para Sueli Berdes, da Chácara Santo Antônio, seguida por Josiele Werneck, do Sítio Bella Vista, e Angélica Alexandrino, do Sítio São Sebastião. O concurso, que está em sua 7ª edição, valoriza o trabalho das mulheres na cafeicultura, promovendo a qualidade e a sustentabilidade na produção de cafés especiais. 

Concurso Florada Premiada 2024, realizado pelo grupo 3corações

Concurso NossoCafé Yara

Além do Concurso Florada Premiada, a SIC também foi palco do 8º Concurso NossoCafé 2024, promovido pela Yara, que consagrou campeões, na quinta-feira (21), a empresa Bioma Café, de Campos Altos (MG), na categoria café natural, e o produtor João Newton Reis Teixeira, de Santo Antônio do Amparo (MG), na categoria cereja descascado. A premiação incentiva a produção nacional de cafés de qualidade cultivados a partir de práticas sustentáveis e nutrição equilibrada. A etapa semifinal, feita por regiões, havia selecionado oito candidatos.

Finalistas do concurso NossoCafé 2024, da Yara, na SIC

A SIC é uma realização de Sistema Faemg, Espresso & Co., Sebrae e Governo de Minas Gerais. Tem o apoio institucional do Sistema OCEMG e patrocínio da CODEMG, 3corações, Nescafé, Nespresso, SICOOB, Yara, Melitta e Senar. O evento também conta com o apoio de ABIC, Abrasel, IWCA, Banco do Brasil, BSCA, Cecafé, Fecomercio, Fiemg, Ministério da Agricultura e Pecuária e Sindicafé-MG.

TEXTO Redação • FOTO NITRO/Semana Internacional do Café