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Quantos Marcelos e Antônios são necessários para produzir o café da sua xícara?
Por Bruno Conrado
Que o café faz parte da vida dos brasileiros, não é novidade. Ainda criança, lembro de tomar as primeiras canecas de café com leite e não gostar nem um pouco — o achocolatado era bem mais saboroso. Na adolescência, passei a tomá-lo puro, sem leite, porque, para mim, era elegante ser visto com um copo americano fumegando nas mãos.
Mas foi durante uma edição do São Paulo Coffee Week, organizado por Flavia Pogliani, do The Little Coffee Shop, que, já adulto, conheci os cafés especiais – e as cervejas artesanais também. Ambos criaram uma explosão de sabores e sensações para meu paladar ainda inexperiente.
Foi na mesma época que resolvi mudar de profissão – e a fotografia, que era um hobby, ocupou o lugar da música e virou sustento. Por conta, talvez, desse meu hiperfoco, comprei Perfume de Sonho, o livro do fotógrafo Sebastião Salgado sobre café.
Foi questão de tempo para eu decidir fazer o mesmo tipo de trabalho. Assim como ele, quis fotografar colheitas e, de quebra, aprender o que pudesse sobre a pequena fruta.
Com a ajuda de Samuel, produtor do Café Tequila, visitei desde plantações a perder de vista até pequenos produtores no Sul de Minas Gerais. De moto e mochila nas costas, cruzei as montanhas frias da Mantiqueira, de estradas sinuosas cercadas por araucárias. As seriemas, quando não corriam desengonçadas, pareciam gargalhar da boa vida que levavam ali.
Em Baependi, cidade de Nhá Chica, a primeira mulher negra brasileira declarada beata pela igreja católica, conheci Antônio e Marcelo, pequenos produtores que compartilham o trabalho com seus familiares. Ali, tudo é feito de maneira simples, totalmente manual – um cenário diferente daquele de fazendas com colheitadeiras ou ônibus para transportar funcionários. Naquele ano, Antônio e Marcelo venderam microlotes para cafeterias de São Paulo.
Quando voltei para casa, longe daquela beleza bucólica, preparei um coado e estudei as fotos da viagem. Uma delas, inclusive, estampou a embalagem do café do Antônio, vendidos na cafeteria Pato Rei. Mas um detalhe curioso não me saiu da cabeça: aqueles produtores nunca provaram o próprio café. Com o dinheiro que recebiam, compravam o café tradicional extraforte no mercado. O que me intrigava é que eles não sabiam o gosto do que produziam.
No ano seguinte, fui revê-los e descobri que Antônio tinha desistido de plantar café. “O milho vai me dar mais dinheiro”, disse. Então, encontrei Marcelo, que não só seguia trabalhando com café, como tinha aumentado sua produção. “Plantei até no campo de futebol, ninguém mais jogava ali mesmo”, contou ele.
Assim como fizera com Antônio, pedi para tirar seu retrato. Marcelo sentou-se à mesa e, quando fui bater a primeira foto, ele levantou subitamente, gritando: “Peraí!”. Em seguida, colocou um pacote sobre a mesa. “Mandei torrar e moer meu café. Agora estou vendendo pra turma aqui poder tomar uma coisinha um pouco melhor”, comentou. No retrato, ele aparece orgulhoso com seu café empacotado, segurando um copo do que produziu com a família.
Por conta do trabalho, não voltei a Baependi com a frequência de antes, mas as fotos seguem guardadas com as histórias que conheci por lá.
Certo dia, perguntei a Samuel como estavam as coisas na região. “Seu Antônio agora planta abacaxi, mas Marcelo segue firme”, atualizou-me. “Ano passado, inclusive, ficou em segundo lugar na premiação da cooperativa para os melhores cafés.”
Por passar por muitos processos, vários produtores acabam vendendo sua produção no beneficiamento e, não chegam a ver o produto final. O café dá muito trabalho.
Marcelo continua tomando o café que produz e, por conta da alta no preço, agora vende só para a cooperativa. Já Antônio segue tomando o tradicional extraforte – mas, agora, em sua mesa, não falta abacaxi.
Bruno Conrado é fotógrafo profissional. Criou o podcast Sessão de Fotografia, e consolidou-se como retratista. Reconhecido por seu trabalho em retrato e fotografia documental, atuou no mercado comercial com grandes empresas, produções artísticas e podcasts, e já fotografou personalidades do cenário nacional, entre eles Débora Secco e Alex Atala.







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