CafezalMercado

Em 2025, SIC amplia possibilidade de negócios para os cafés brasileiros

Com ambiente profissional de networking e rodadas exclusivas de cupping, evento se consolida como uma plataforma global de negócios entre produtores e compradores 

Conhecida como espaço de conexão da cadeia cafeeira, a Semana Internacional do Café, que acontece entre 5 e 7 de novembro em Belo Horizonte, amplia a estratégia este ano com a criação de uma sala dedicada às Rodadas de Negócios, estruturada exclusivamente para gerar parcerias, contratos e novas oportunidades comerciais.

A iniciativa é voltada especialmente para produtores de cafés brasileiros que queiram apresentar seus lotes, dialogar diretamente com compradores nacionais e internacionais e ampliar sua inserção em diferentes mercados. Para participar, é necessário agendamento prévio.

A novidade está conectada aos projetos de convites a compradores internacionais para a SIC, ampliando o alcance dos produtores junto a players do mercado global. Ao mesmo tempo, fortalece o espaço para empreendedores nacionais ampliarem sua atuação, encontrarem novos canais e acessarem informações valiosas sobre tendências e exigências do mercado.

Paralelamente à Rodada de Negócios, a SIC 2025 consolida-se como vitrine dos grãos brasileiros com as tradicionais Salas de Cupping, onde produtores apresentam a safra atual, destacando  a diversidade e a qualidade do café no país.

Neste espaço, classificadores, compradores e torrefadores provam amostras selecionadas, estabelecendo padrões de qualidade e abrindo espaço para negócios que vão do mercado interno às exportações.

Nas Salas de Cupping também são apresentadas as 180 melhores amostras (arábica e canéfora) do Prêmio Coffee of the Year deste ano, oriundas de diferentes regiões brasileiras, o que permite que compradores nacionais e internacionais conheçam a diversidade de origens e perfis sensoriais dos cafés do país. 

Semana Internacional do Café
Quando: 5 a 7 de novembro
Onde: Expominas – Belo Horizonte (MG)
Credenciamento e mais informações: semanainternacionaldocafe.com.br 

TEXTO Redação • FOTO NITRO/Semana Internacional do Café

Cafezal

Rainforest Alliance lança certificação de agricultura regenerativa para o café

Novo selo de agricultura regenerativa, que começará a aparecer em 2026, mede impacto sobre solo, biodiversidade e renda de cafeicultores no Brasil e em três outros países

A Rainforest Alliance anunciou nesta segunda-feira (9) o lançamento de sua nova certificação de agricultura regenerativa (AR), voltada inicialmente para a cafeicultura. O selo começará a aparecer nos produtos a partir de 2026 e já está sendo implementado em fazendas no Brasil, Costa Rica, México e Nicarágua. A organização prevê ainda expandir a certificação, no mesmo ano, para cacau, frutas cítricas e chá.

O objetivo é estimular produtores e empresas a restaurar ecossistemas em paisagens tropicais, em um momento crítico de mudanças climáticas e pressões socioeconômicas que afetam sobretudo pequenos agricultores — responsáveis por 70% do café produzido no mundo.

“É hora de fazermos a transição para um novo modelo de agricultura – em que cada xícara de café devolva mais do que retira da terra e das pessoas que se importam com ela”, afirmou o CEO da Rainforest Alliance, Santiago Gowland, em comunicado à imprensa.

A certificação foi desenvolvida ao longo de anos de pesquisas em conjunto com produtores e empresas. Estudos recentes mostram que práticas regenerativas podem elevar a renda dos agricultores em até 30%. O modelo mede progresso e resultados em cinco áreas: saúde e fertilidade do solo, resiliência climática, biodiversidade, gestão da água e meios de vida. A verificação será feita por auditoria periódica e independente.

Segundo a Rainforest Alliance, o Brasil é estratégico para o avanço da agricultura regenerativa, especialmente no setor cafeeiro. Em entrevista à Espresso, Yuri Feres, diretor da organização no Brasil, afirmou que a nova certificação fortalece a resiliência dos produtores frente às mudanças climáticas, amplia o acesso a mercados internacionais exigentes e gera valor agregado por meio da restauração de ecossistemas e da inclusão de pequenos agricultores e comunidades locais. “Mais do que mitigar impactos, a nova norma busca promover a regeneração do solo, a proteção da biodiversidade e assegurar renda digna aos produtores, posicionando o café certificado como um produto que alia qualidade, sustentabilidade e impacto positivo para as pessoas e o meio ambiente”, disse.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação/Rainforest Alliance

Cafezal

Gesha da La Esmeralda é vendido a R$ 163 mil o quilo, novo recorde

Um lote de gesha lavado da renomada Hacienda La Esmeralda, no Panamá, foi arrematado por US$ 604.080 (cerca de R$ 3,26 milhões) em leilão realizado na quinta (7), durante a 29ª edição do Best of Panama, principal competição de cafés especiais do país.

Com apenas 20 quilos, o lote alcançou o preço de US$ 30.204 por quilo (aproximadamente R$ 163 mil), estabelecendo um novo recorde mundial para vendas de café em leilão. O comprador foi a Julith Coffee, empresa sediada em Dubai.

Além do valor inédito, o lote recebeu 98 pontos na avaliação sensorial — a maior pontuação já registrada na história do Best of Panama. O resultado foi obtido por 22 juízes internacionais durante provas realizadas no Boquete Coffee Festival, em junho.

O evento, criado em 2004 e organizado pela Associação de Cafés Especiais do Panamá (SCAP), também consagrou outros cafés da família Peterson, proprietária da Hacienda La Esmeralda. Entre eles, um geisha natural, com 97 pontos, e um varietal que atingiu 92 pontos.

No total, foram vendidos 50 lotes de cafés no leilão (20 de gesha lavado, 20 de gesha natural e 10 de outras variedades), arrecadando US$ 2,86 milhões — o dobro do recorde anterior, em 2024. Segundo a SCAP, 30 lotes superaram a marca de US$ 1.000 por quilo, consolidando o Panamá como referência mundial na produção de cafés raros e de alto valor.

TEXTO Redação / Fontes: Coffee Magazine, Global Coffee Report e El País Costa Rica

Cafezal

Projeto reúne turismo e cafeicultura no Espírito Santo

Com dezenas de atrativos, Cafés do Espírito Santo divulga as belezas do estado e fomenta o café como destaque turístico

Foto: Camila Luz

Por Gabriela Kaneto, do Espírito Santo

De praias a montanhas, o Espírito Santo vive um momento promissor no turismo e na cafeicultura. Em 2023, segundo o Ministério do Turismo, o estado recebeu 450 mil viagens e gerou R$ 704 milhões. O movimento foi puxado por visitantes em busca de lazer, natureza, cultura e gastronomia. No quarto trimestre de 2024, a Setur (Secretaria de Turismo) registrou alta de 8,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. 

A cafeicultura, principal atividade agrícola capixaba, também avança. Dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) mostram que, em 2024, o Espírito Santo – o segundo maior produtor de café do país e líder em conilon – colheu 13,9 milhões de sacas, 9,8 milhões delas de conilon. Para 2025, a previsão é de alta de 18,2%, chegando a 16,4 milhões de sacas.

Pedra Azul vista da Rota do Lagarto – Foto: Camila Luz

De olho nesse cenário, o empresário Washington Pereira, fundador da De Olho na Rua, criou o projeto Cafés do Espírito Santo, que une café e turismo em roteiros com mais de 180 atrativos. A inspiração veio após uma cliente voltar da Espanha com uma revista sobre pintxos (petisco típico do País Basco) e turismo de vinho. “Tinha uma foto do pessoal pisando nas folhas das parreiras. Rabiscamos por cima: isso poderia ser café. Aí caiu a ficha”, conta.

Em 2021, Pereira passou a estudar a produção local de café e notou que ela era majoritariamente familiar e artesanal. Percebeu ainda que uma mesma lavoura poderia gerar perfis sensoriais distintos, dependendo de fatores como altitude, sombreamento e pós-colheita. “Olhando um saco de juta, li ‘Cafés do Brasil’. Mas de onde do Brasil? O Brasil é muito grande”, lembra. 

Com uma exposição itinerante de mais de 200 embalagens de café, o projeto está em feiras e eventos para mostrar a diversidade da cafeicultura capixaba. Agora, a iniciativa, em estruturação, definiu três roteiros: o Coffee Tour (direcionado às pessoas que querem consumir cafés de qualidade e conhecer sua produção), o Coffee Stay (com hospedagem e vivências em fazendas, incluindo visita às plantações, degustações e oficinas) e o Coffee Tech (voltado ao turismo de negócios).

Washington Pereira e parte de sua exposição situada no Café Hall Sicoob – Foto: Camila Luz

“O café sempre foi a principal fonte de receita da região, mas muitas pessoas passaram a diversificar suas atividades por causa do turismo”, diz Cleto Venturim, presidente da cooperativa Sicoob Sul-Serrano, que mantém o projeto. “Valorizar o pequeno produtor é um trabalho que exige organização. Estamos colocando luz nesse movimento.”

A convite do Cafés do Espírito Santo, a Espresso saiu de São Paulo com destino à Vitória para três dias de imersão na cafeicultura e no turismo capixabas. Guiado por Pereira, o tour começou na capital e subiu as montanhas do Caparaó, nosso destino final. A seguir, nove atrações dessa viagem.

Grande Buda

Grande Buda de Ibiraçu – Foto: Camila Luz

Logo pela manhã, a primeira parada foi em Ibiraçu, a cerca de 70 km de Vitória. À beira da BR-101, ergue-se a monumental escultura de 35 metros inaugurada em 2021, que une arte, espiritualidade e paisagem natural. Parte do Mosteiro Zen Morro da Vargem, o espaço abriga ainda o Portal Torii, o Jardim Zen, o Lago da Serenidade e o Bosque da Sabedoria, além de sorveteria, cafeteria e loja de souvenirs. Ao lado da estátua principal, outras 15 esculturas de 2,5 m do Buda em meditação simbolizam serenidade e perseverança. É a maior representação do Buda na América Latina.

Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) – Centro de pesquisa

No Campus Goiabeiras, em Vitória, um centro de pesquisa se dedica a estudar a química do café, explorando desde a composição do solo até as transformações na torra. Coordenado pela professora Emanuele Oliveira, que também dá aulas no Ifes (Instituto Federal do Espírito Santo), o laboratório analisa os compostos que influenciam o perfil sensorial da bebida, conectando ciência e sabor.

Emanuele Oliveira, coordenadora do laboratório (à esq.), e estudante do projeto (à dir.) – Fotos: Camila Luz

Criado em 2021, o laboratório faz parte do Coffee Design — grupo de pesquisa do Ifes, em Venda Nova do Imigrante, com 11 anos de atuação e 50 bolsistas, entre alunos da Ufes, Ifes e UFV (Universidade Federal de Viçosa). Cada polo foca em uma área: a Ufes se dedica à química, a UFV à microbiologia e o Ifes ao processamento, torra e análise sensorial. O objetivo é aprimorar as etapas por qual passa o café, até a xícara. “No café, tudo interfere, mas aqui tentamos entender os fatores para poder contornar situações”, explica Emanuele. Além de trabalhar com produtores parceiros no Espírito Santo, o grupo também coleta amostras de cafés de várias regiões do Brasil para pesquisa.

Terrafé

Nossa próxima parada foi na unidade conceito da Terrafé, na capital capixaba. Recebidos por Raul Guizeline, fundador da rede, e por Francisco Siqueira, barista, instrutor e responsável pelo marketing, conhecemos o espaço inaugurado há pouco mais de um ano. A marca atua desde 2014 e soma 14 unidades no Espírito Santo — com outras três previstas para abrir neste segundo semestre.

Loja conceito da Terrafé – Foto: Camila Luz

“Entendemos que o consumidor de cafés especiais não quer repetir sempre o mesmo café”, afirma Guizeline, ao explicar a carta de microlotes, que varia de 15 a 20 opções rotativas. Torrados pela própria Terrafé, os grãos vêm de regiões como Montanhas do Espírito Santo, Sul de Minas, Matas de Minas e Caparaó. “Nossa proposta é propagar o café capixaba, trazendo os melhores grãos e criando diversidade na prateleira”, completa Siqueira.

Foto: Camila Luz

Entre os destaques recentes está a caixa do campeão do Coffee of the Year: um arábica catuaí 785, lavado, cultivado por Paulo Roberto Alves, em Divino de São Lourenço (ES). Além da cafeteria, a loja conceito abriga um coffee bar para drinques, sala de cursos e workshops, espaço para reuniões e lounge para eventos sob reserva.

Khas Café

O segundo dia começou cedo. Pela Rota do Lagarto — trajeto turístico repleto de pousadas e que contorna a icônica Pedra Azul — chegamos à Khas Café. Há oito anos, a fazenda pertence a Roberta e Júlio Aguilar, que trocaram a vida na cidade para cultivar café nas montanhas. “Sou de Vitória e o Júlio é do norte do estado. Ele estudava agronomia na UFV e passava sempre por aqui para chegar à faculdade. Foi assim que se apaixonou pelo lugar”, conta a publicitária. Depois de adquirir a propriedade, o casal se especializou em cafés especiais e turismo de experiências. “Comecei a estudar o fruto e fiz curso de barista. O Júlio ficou com a produção, enquanto eu e a Dani [Daniela Aguilar, cunhada de Roberta] cuidamos da cafeteria e do turismo”, explica.

Roberta explicando sobre os processamentos de pós-colheita (à esq.) e degustação de cafés com quitutes regionais (à dir.) – Fotos: Camila Luz

Além da plantação de arábica, a Khás Café tem uma lavoura experimental com 25 clones (distribuídos em 500 pés) de conilon de altitude (1.100 m) – a variedade é, tradicionalmente, cultivada em baixa altitude – ideia do amigo e engenheiro agrônomo Fábio Partelli, da Ufes. “A partir desses clones será lançada uma nova cultivar, para ajudar os produtores a produzir um café bom tanto em produtividade quanto em bebida”, comemora Roberta. “Muitos já produzem conilon de altitude, mas o fazem empiricamente”, ressalta. “Quando lançamos uma cultivar, garantimos que o café vai ter qualidade. É bom para a ciência”.

Experimentos com conilon de altitude – Foto: Camila Luz

Na parte mais alta da fazenda, a cafeteria chama atenção pelo visual excêntrico e pela estrutura construída com materiais reaproveitados (upcycling). É o ponto final do roteiro Alquimia do Café, que atrai visitantes de todo o país para conhecer lavouras, etapas do pós-colheita e participar de harmonizações entre os dois tipos de café e comidas locais, de forma lúdica e pedagógica. “O objetivo é ensinar as pessoas a tomarem um bom café e mostrar as diferenças entre a produção de um especial e de um tradicional”, diz Roberta. “Queremos transformar o estado em um polo de experiência, pois produzimos de norte a sul”, afirma.

Fazenda Camocim

Reconhecida mundialmente pelos cafés especiais, a Fazenda Camocim, com mais de 150 hectares em Pedra Azul, distrito de Domingos Martins (ES), está ativa desde meados dos anos 1990, quando o empresário Olivar Araújo, superintendente do Grupo Sloper, iniciou o cultivo de cafés orgânicos na região. Hoje, a propriedade é administrada por seu neto, Henrique Sloper. “Vimos que o orgânico era o futuro da agricultura — e do café também”, diz.

Henrique Sloper, à frente da Fazenda Camocim – Foto: Camila Luz

A busca pela preservação ambiental fez da propriedade um refúgio para mais de 40 espécies de pássaros, entre elas o jacu, que prefere matas preservadas para se alimentar, fazer ninho e repousar. “Sem querer, viramos uma área de reprodução do jacu”, brinca o empresário. Inspirada no café kopi luwak da Indonésia, a Camocim adotou o jacu como parceiro e lançou o Jacu Bird Coffee, que ganhou fama no Brasil e no mundo.

Foto: Camila Luz

Desde 2023, a fazenda oferece turismo de experiência com visitas guiadas que acompanham todo o ciclo do café — do plantio ao envase —, culminando em degustação na Casa do Café, cafeteria moderna da propriedade. “Além de clima, altitude, conhecimento, tecnologia e pesquisa, aqui tem uma infinidade de ingredientes. Tem muita agricultura”, destaca Sloper sobre a região. “O Espírito Santo ainda está aprendendo a se vender. Juntando tudo isso, há uma solução para o turismo”, acrescenta.

Fazenda Carnielli

“O Espírito Santo ainda é relativamente pouco conhecido”, avalia Lorenzo Carnielli, quinta geração à frente da Fazenda Carnielli. Com mais de 100 anos no cultivo do café, a propriedade aprimorou sua produção a partir dos anos 1990. “Foi quando chegou a tecnologia, principalmente para o cereja descascado. Em 2001, ganhamos o primeiro concurso de cafés especiais do estado”, relembra.

Fachada da Fazenda Carnielli e Lorenzo Carnielli – Fotos: Camila Luz

Hoje, a fazenda cultiva seis variedades, entre elas catucaí, catuaí, mundo novo, arara e 785SL. “Fomos os primeiros malucos a colocar cafés especiais na prateleira do supermercado”, brinca ele. Desde 1987 recebe turistas, mas só em 2021 passou a agendar experiências. “Aqui o visitante conhece todo o processo: do pé de café ao descascamento, secagem, estoque, torra, degustação e produtos da fazenda — queijos, doce de leite, fubá e embutidos, como o socol, famoso na região”, conta. “O café está no centro da experiência. Tem coisa melhor que um queijinho com café?”.

Pousada Vovô Nininho

Após pegar a estrada rumo ao Caparaó, chegamos ao destino e passamos a noite em um dos charmosos chalés da Pousada Vovô Nininho. Situados no meio do cafezal, os dormitórios, inaugurados em 2021, combinam aconchego e design moderno, com café especial disponível para preparo no quarto e uma linda vista da plantação.

Chalés em meio ao cafezal na Pousada Vovô Nininho – Foto: Camila Luz

“Meu pai sempre foi apaixonado por café. Produzia um bom produto, mas vendia como commodity”, conta Roberta Medeiros. Após a morte do pai, ela e o marido, Nilton Martins, deixaram a vida de escritório para continuar a produção, criando a marca Vovô Nininho em homenagem ao patriarca.

Com estudos e aprimoramentos, passaram a cultivar café especial em 2017. “Decidimos que seria o melhor caminho. Fizemos cursos e unimos teoria e prática”, diz a produtora. Hoje são 10 mil plantas das variedades catucaí 2SL amarelo e catuaí 44 amarelo e vermelho, em uma lavoura a 1.350 metros de altitude. Todo o café produzido é comercializado na própria cafeteria da pousada e vendido para o Brasil pelo Instagram.

Foto: Camila Luz

Associação de Produtores de Cafés Especiais do Caparaó (Apec)

O Caparaó tem ganhado destaque nos últimos anos. Berço de produtores premiados em concursos de qualidade — como Afonso Lacerda, Deneval Miranda Vieira e o mais recente campeão do Coffee of the Year, Paulo Roberto Alves —, a região, com produção majoritariamente familiar, é denominação de origem para cafés especiais desde 2021.

Foto: Camila Luz

Localizada entre Espírito Santo e Minas Gerais, abrange 16 municípios — dez capixabas e seis mineiros — e produz cerca de 2,4 milhões de sacas de café, das quais apenas 10% são especiais. Criada em 2016, a Apec tem entre seus objetivos a gestão dessa Indicação Geográfica (IG).  “A função da associação é a proteção da marca não só no Brasil, mas no exterior também”, diz a cafeicultora Cecília Nakao, presidente da Apec. “Viramos referência em indicações geográficas. Muita gente quer vir conhecer nossa experiência. Somos muito criteriosos. Claro que ainda existem coisas amadoras, mas levamos a sério o que fazemos”.

Cecília Nakao, presidente da Apec – Foto: Camila Luz

Com cerca de 160 associados, há expectativa de crescimento. “Estamos fortalecendo a associação, entregando valor aos produtores para que eles estejam mais perto de nós, até para termos mais controle da qualidade do que estamos produzindo”, destaca a cafeicultora Ana Carolina Malta, da equipe administrativa da Apec. “A grande importância da IG é conscientizar e capacitar o produtor quanto ao produto, o mercado e mostrar a evolução dele a quem comercializa seu café”, salienta Gustavo Vilas Boas, também produtor e integrante da equipe. 

Ana Carolina Malta e Gustavo Vilas Boas na sede da Apec – Foto: Camila Luz

Parque Nacional do Caparaó

A última parada da jornada foi o Parque Nacional do Caparaó, uma das principais unidades de conservação do país. Criado em 1961, o parque abriga o Pico da Bandeira, com 2.891 metros, o terceiro ponto mais alto do Brasil.

Além das cachoeiras, mirantes e trilhas, o local oferece estrutura para camping e um centro de visitantes. A biodiversidade e a vista da cordilheira, com destaque para a famosa Pedra Menina, completam o cenário.

Entrada do Parque Nacional do Caparaó e vista para Pedra Menina – Fotos: Camila Luz

Entre a metrópole e as montanhas, o Espírito Santo se destaca como produtor de café de qualidade e destino turístico em ascensão. “Aqui está a maior variedade sensorial em um só território. Nosso objetivo é promover o café como atrativo turístico”, diz Pereira. Afinal, em cada xícara e paisagem capixaba, uma história é contada.

TEXTO Gabriela Kaneto • FOTO Camila Luz

Cafezal

Inscrições abertas para o Coffee of the Year 2025

As inscrições para o Coffee of the Year 2025 estão oficialmente abertas a partir desta segunda (4). O prêmio busca reunir os melhores cafés do Brasil, reconhecer os grandes destaques do ano e incentivar tanto o aprimoramento da produção nacional, quanto a valorização de novas origens.

Produtores de todas as regiões do Brasil podem inscrever seus melhores cafés nas categorias arábica e canéfora, mediante o pagamento de R$ 190. Cada CPF pode realizar apenas uma inscrição. As amostras de 03 kg cada devem ser enviadas até 6 de outubro para o Centro de Excelência em Cafeicultura – Senar (endereço abaixo). Confira aqui o regulamento completo da edição e o link de inscrição.

Importante: a ficha da amostra – devidamente preenchida (digitada), assinada pelo produtor – deve ser enviada junto com os 03 kg de café para o endereço indicado abaixo.

Centro de Excelência em Cafeicultura – Senar
A/C Professor Leandro Paiva
Concurso Coffee of the Year 2025/Semana Internacional do Café
Rua Luiz Dominghetti, 115 – Residencial Alto do Vale
Varginha (MG) – CEP: 37048-854 

Sobre o COY

A dinâmica do concurso começa com o recebimento das amostras, que passarão por um processo de avaliação conduzido por uma Comissão de Julgadores formada por especialistas de todo o país. Serão selecionadas as 180 melhores amostras, sendo 150 da categoria arábica e 30 da canéfora.

As amostras selecionadas serão apresentadas na sala Cupping & Negócios da Semana Internacional do Café, que este ano será realizada de 5 a 7 de novembro, em Belo Horizonte (MG). Dentre elas, os 10 melhores cafés arábica e os 5 melhores canéfora participam da votação popular, por meio de degustação às cegas com método filtrado, em garrafas térmicas disponíveis nos dois primeiros dias do evento. A cerimônia de premiação acontece na tarde do último dia da SIC.

TEXTO Redação • FOTO NITRO/Semana Internacional do Café

Cafezal

“Novo rearranjo da exportação de café é liderado pelo Brasil e isso está na mão das cooperativas”

Marco Valério Brito, presidente da Coccamig, deseja profissionalizar ainda mais as cooperativas de café e alçá-las como referência em ESG, compliance, rastreabilidade e carbono zero

Marco Valério Brito, presidente da Coccamig

Por Mariana Grilli

A Organização das Nações Unidas (ONU) consagrou 2025 como o Ano das Cooperativas, com o objetivo de reafirmar a importância do cooperativismo para a sociedade. Segundo o órgão internacional, são três milhões de cooperativas no mundo todo, que funcionam com o trabalho de um bilhão de cooperados. No Brasil, a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) considera 4.509 cooperativas, sendo a maior concentração no ramo agropecuário, com 1.179 delas. Destas, 97 trabalham com café.

Esta sinergia entre cooperativismo e cafeicultura marca a vida de Marco Valério Brito, presidente da Coccamig (Cooperativa Central de Cafeicultores e Agropecuaristas de Minas Gerais). Nascido em Três Pontas (MG), ele respira café desde a infância, já que um lado da família contribuiu para a implantação da cafeicultura no município mineiro, enquanto o outro lado trabalhou com a comercialização dos grãos.

Depois da adolescência, Marco Valério se afastou do café por alguns anos para trabalhar no mercado financeiro, mas logo estava envolvido com exportações da commodity. Em 2015, optou por seguir os passos do pai e do avô, tornando-se produtor. Foi presidente da Cocatrel (Cooperativa dos Cafeicultores da Zona de Três Pontas) por nove anos e, em seguida, assumiu a liderança da Coccamig, que em 2025 completa 40 anos.

Em entrevista para a Espresso, ele avalia que a cafeicultura tem passado por uma sofisticação nas operações, e que o papel dele à frente da presidência é elevar o nível de profissionalização das cooperativas que integram a Coccamig para um crescimento contínuo e conjunto, desde o campo até a comercialização.

Espresso: Quando começa a sua história com o café?

Marco Valério: Nasci em Três Pontas (MG) e até a adolescência vivi na fazenda, já acompanhando o café. Depois, fui estudar em Belo Horizonte e trabalhar com o mercado financeiro. Naturalmente, comecei a olhar a bolsa de Nova Iorque, a ficar curioso e passei a trabalhar com o mercado futuro. Aí, trabalhei com várias operações do mercado financeiro ligado ao café. Mais tarde, surgiu a oportunidade de trabalhar em Brasília, no Ministério da Indústria e Comércio, e um dos assuntos era o recém-fundado Departamento Nacional de Café que, teoricamente, substituiria o Instituto Brasileiro de Café (IBC), extinto pelo [então ex-presidente] Collor em 1990. Então, tomei mais conhecimento do mercado de café exportador. Em 2014/15, decidi sair do mercado financeiro, comprar uma fazenda de café e voltei a frequentar mais Três Pontas. Alguns meses depois, surgiu o convite de assumir a Cocatrel em três mandatos consecutivos. Foram surgindo outros convites, para o Conselho Nacional do Café, Sescoop [Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo no Estado de São Paulo], conselho do Cecafé e, então, o de presidir a Coccamig.

Como você vê a relação entre café e cooperativismo?

É difícil desassociar cafeicultura e cooperativismo, que estão muito entrelaçados, juntamente com o mercado financeiro, e as pessoas têm pouco conhecimento disso. Diferentemente de outras commodities, o café tem um lado muito grande de profissionalização, como os processos de sofisticação de hedge, além do trabalho com as cooperativas de crédito. É muito difícil desassociar ambos, porque a cafeicultura é feita por pequenos produtores, e uma empresa multinacional tem dificuldade de obter café em lugares distantes. Então, essa intermediação é difícil e esse gap tem sido ocupado pelas cooperativas. As pessoas falam que querem ter a própria produção e torrefação, mas isso é muito romântico. É preciso ter uma logística de indústria, há questões jurídicas, e as cooperativas foram se sofisticando e se profissionalizando para preencher esta lacuna. Então, essa união entre cafeicultura e cooperativismo profissionaliza produtores de todos os tamanhos.

Na sua avaliação, quais as premissas de uma cooperativa?

Ser transparente, profissionalizar e falar de sucessão são passos importantes, e quem não fizer isso não sobrevive. Nessa era de geração de dados e acessibilidade, as distâncias estão menores e as cooperativas isoladas vão sentir. Se você não tiver bons números financeiros nem padrões de medição, se não implantar sistemas e trabalhar com grandes auditorias não irá demorar para estar fora do mercado. Quando cheguei na Coccamig trouxe muitos cursos e seminários, disseminando informações e capacitando os colaboradores. Antes, os produtores estavam afastados [uns dos outros] e a cooperativa fazia esse papel de intermediária, mas é importante aproximar os cafeicultores dessa necessidade de honrar compromissos e compreender o mercado financeiro.

A Coccamig tem 17 associadas e mais duas devem entrar em breve. Qual é o perfil destas cooperativas?

A Coccamig é formada por três grupos distintos de cooperativas, com diversificação de faturamento, regiões, tamanho, área, terroir e produções distintas de café. É importante dizer que estes perfis diferenciados enriquecem a cafeicultura brasileira e que todas, independentemente do tamanho, têm seu valor.

O que deve ser feito para evitar que a cafeicultura fique concentrada apenas na mão das grandes cooperativas?

Ao longo dos anos, em todas as áreas, o mundo vem reduzindo o número de empresas compradoras, exportadoras e cooperativas. Com essa consolidação do mercado, a gente percebeu, no passado, que as cooperativas maiores estavam comprando e fazendo fusões com as menores, e estas cooperativas pequenas estavam com dificuldades nas operações por questões de escala. E, às vezes, as cooperativas de nicho, de uma região muito específica, como Canastra ou Mantiqueira, estavam sendo encapadas por uma cooperativa grande, e aquelas histórias estavam se perdendo. Então, um dos objetivos da Coccamig é dar viabilidade para negócios de menor porte. Por isso, as feiras e exportações em conjunto e as missões internacionais dão escala e visibilidade a elas, e isso perpetua a singularidade daquela pequena cooperativa. Nos últimos cinco anos, a gente vem percebendo que esse esforço ajuda a preservar as pequenas cooperativas que dão particularidade ao café brasileiro.

Como isso está organizado? Os cooperados interagem de maneira interdependente?

Muitas vezes o cooperado faz parte de duas, três cooperativas. Há uma concentração de cooperativas no Sul de Minas, mas há na Zona da Mata, no Cerrado, então, naturalmente, há uma intercooperação. Tem todo um processo de estimular a intercooperação, e percebemos um avanço grande, até porque o cooperado observa modelos de gestão e acaba levando novas práticas para as outras. A Coccamig está sistematizando isso por meio de informação e nivelamento de capacitação. Estamos indo para a World of Coffee na Indonésia [que acontece em maio], propondo rodadas de negócios, parametrizando o programa de desenvolvimento de gestão das cooperativas, inclusive dando prêmios às melhores. Não é fácil, mas estamos avançando e percebemos que há uma cobrança dos próprios dirigentes de adotar práticas que são boas para todo mundo.

Quais práticas? Dê um exemplo.

Uma cooperativa sozinha consegue uma determinada condição para insumos, mas 17 cooperativas reunidas com uma central de compras conseguem outras condições. Por exemplo, temos uma central de compras de fertilizantes que já conseguiu cerca de 18% de redução do preço. Isso acaba impactando os negócios. É possível transpor isso para sistemas operacionais, aluguel de carros, área jurídica, o que torna as coisas mais fáceis, e as cooperativas percebem que isso traz resultados.

Ao longo destas quatro décadas da Coccamig, como você vê os avanços nas cooperativas afiliadas?

Sou um entusiasta do café, me sinto honrado em trabalhar com algo que é fascinante e delicioso. O Brasil tem cafés de todas as qualidades, ele resume o mundo da cafeicultura. O país tem todas as características de café do mundo, tem volume, segurança, geralmente cumpre as entregas, muito porque as cooperativas fazem esse papel. Sem dúvida, a governança das cooperativas melhorou muito, com cursos de capacitação, oficinas técnicas, gestão estatutária, processos mais bem definidos. Essa complexidade a cada ano nos faz olhar mais para o futuro, atentos a tendências.

Ao final de 2025, a lei antidesmatamento da União Europeia (EUDR) deve começar a valer e o café é uma das cadeias envolvidas. Como isso influencia o trabalho de vocês?

Ano passado fizemos um seminário sobre a EUDR e o próximo, em meados de abril, será sobre carbono zero. O papel da Coccamig não é gerenciar o cooperado, mas dar o tom dos negócios com base nos mercados internacionais. É papel nosso popularizar novos conceitos, e o quesito de rastreabilidade também entra nessa discussão. Já a agenda do carbono está sendo atropelada pelo papel do Brasil na nova ordem de exportação do café, e as cooperativas têm hoje a capacidade de liderar este movimento. Hoje, o trabalho que estamos fazendo é o de conseguir mostrar o valor real da retenção de carbono que a cafeicultura tem.

O que é esta nova ordem de exportação?

As cooperativas fizeram o dever de casa nas últimas décadas. Dos anos 1990 até 2000, o preço do café caiu, o Brasil perdeu espaço, a Colômbia ganhou espaço e o mercado ficou à deriva. De 2000 a 2010, surgiram os cafés especiais, que se consolidam. De 2010 até agora, houve uma grande profissionalização das cooperativas, e, nos últimos três anos, houve uma inversão de mercado com as guerras da Ucrânia e Rússia, a covid-19 e a logística ruim. Agora estamos vivendo uma fase de ESG, compliance, rastreabilidade e carbono zero. Esse novo rearranjo da exportação de café é liderado pelo Brasil e isso está na mão das cooperativas, mas para isso elas têm que trabalhar em sintonia.

Como o preço atual do café pode contribuir para o crescimento das cooperativas?

Eu sinto que, a partir da pandemia, as cooperativas passaram a ter mais poder por terem o controle dos estoques. Com o pós-pandemia, está acontecendo uma mudança de preços nominais, e as cooperativas estão sabendo aproveitar este momento com propriedade. Com esse aumento histórico de preços, é claro que torna o ambiente mais “perigoso”, o hedge, mais perigoso. As proteções estão muito alavancadas, mas, naturalmente, as cooperativas devem se colocar como players mais importantes. Elas entraram definitivamente como peça-chave para todo o mercado.

Você acredita que os preços se mantenham em alta ao longo de 2025?

Temos que entender que o mercado está trabalhando sem referências do passado. Isso porque o mercado está invertido há muito tempo, ou seja, os cafés que existem no mundo ainda estão na origem, há pouco café nos terminais dos países consumidores em comparação aos níveis históricos. Ainda entram nessa conjunção fatores como inflação e juros, os problemas climáticos dos últimos anos e uma oferta mais reduzida. O produtor está mais capitalizado e administrando melhor a oferta de venda. E ainda existe o problema logístico mundial. Então, nos próximos seis meses vamos observar o câmbio, a especulação de novas geadas e a nova safra entrando. A partir da entrada da safra, pode ser que o mercado comece a se acomodar aos poucos, encontre novos patamares de preços mais reduzidos, mas é uma análise dinâmica que pode mudar, inclusive por conta das safras da Colômbia, do Vietnã e da África.

E quanto ao consumidor brasileiro, os preços elevados podem prejudicar a “reputação” do café?

O consumidor de hoje é muito diferente, os millenials aprenderam a tomar café de uma nova maneira, como a monodose e o movimento de home baristas. Tudo isso teve impacto na redução de consumo, e agora teremos que ficar atentos ao preço desse café extraforte tradicional, porque pode haver uma acomodação no consumo. É importante dizer que as cooperativas têm se colocado nesta discussão, fazendo o que chamamos de “cafetequização”, ou seja, temos condições de ter cafés muito bons com preços acessíveis sendo oferecidos por novos entrantes no mercado. Esta também é uma possibilidade que as cooperativas vêm explorando, de lançar cafés com margens menores, colocando no mercado local e atendendo esse público que quer cafés melhores. Também precisamos falar da escalada de consumo de cafés especiais, cafés com novos atributos e origens. Então, temos um momento de abertura de movimento e de modelo de consumo diferente, inclusive a retomada das cafeterias. Também vemos isso na Ásia.

Falando em Ásia, a China tem se mostrado cada vez mais interessada na importação de café. Como você avalia o cenário?

É claro que estamos acompanhando este comportamento, e é de interesse do Brasil atender a esta demanda. Mas também é importante observar que alguns países concorrentes optaram por assinar a Nova Rota da Seda com a China, como Peru e Uganda, que estão produzindo bem e têm investimento externo. Hoje, há muitas origens de café, principalmente na África, pois estão tendo muito investimento, a tecnologia está vindo forte com novas variedades e novos terroirs, então, daqui para frente, a competição vai ser muito mais acirrada.

Quem acompanha o mercado de café sabe que a questão logística é um ponto sensível. Na sua opinião, há riscos para o Brasil?

A questão dos portos é um problema no Brasil, e não vejo essa política de infraestrutura como prioridade. E esse é um dos maiores problemas do café brasileiro. Nosso café é percebido como complexo, rico, com profundidade de nuances, a governança tem melhorado, mas o problema de logística ainda persiste. Essa logística ainda nos penaliza, e vejo o Estado ainda muito moroso e sem capacidade de investir. Esse é o nosso maior desafio. E os nossos concorrentes estão avançando: a China, por exemplo, vem controlando muitos portos na África e acabou de inaugurar portos no Peru também, ou seja, ela já está aqui, na América do Sul.

Aos 40 anos de Coccamig, como é renovar a força do cooperativismo entre os colaboradores jovens?

A gente participa de feiras e eventos, reposicionando a cooperativa para os jovens, saindo de uma visão “cringe”, fora de moda. É essencial modernizar a forma de se comunicar, repaginar, tirar essa percepção de que cooperativismo é só para a velha guarda. Há cinco anos, a Coccamig não tinha redes sociais. Fizemos uma mudança para trazer pessoas alinhadas a esse novo momento, uma comunicação mais moderna, sem perder a essência do cooperativismo. O papel da Coccamig é ter interlocução com os cooperados, e por isso é importante dinamizar, estar nas redes sociais e mostrar que cooperativismo tem uma base de contribuição mútua que se estende por diferentes gerações.

Quais são seus objetivos como presidente da Coccamig?

Meus principais objetivos são ter a possibilidade de colocar o café brasileiro em outro patamar de preço, para ser benéfico ao produtor e à sociedade. Quando a cooperativa vai bem, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da cidade melhora, a vida do produtor melhora, as cidades têm mais negócios e turismo. O cooperativismo possibilita expandir e perpetuar a cultura do café. Outro objetivo é fazer com que as cooperativas tenham capacidade maior de interlocução, porque se elas organizarem isso vão alavancar o café brasileiro, o que vai ser ótimo para o país e para o produtor. Meus objetivos são holísticos e meu mandato dura mais um ano e meio, e ainda posso me reeleger.

Para 2025, alguma meta específica?

Pela primeira vez na história, o setor está unido, porque percebeu que é possível dar um salto em posicionamento e preço, além de avançar na percepção do mercado lá fora e do próprio mercado interno. Então, para 2025, o foco é manter o profissionalismo, e mostrar, com evidências, a sustentabilidade do café brasileiro e de nossa região. Não adianta o agricultor fazer a própria auditoria, mas é preciso uma chancela de quem está comprando, então a parte de governança, rastreabilidade e auditorias externas seguirá sendo prioridade. Além disso, no trânsito mundial, a complexidade é ampla, com origens e storytellings, por isso temos que reforçar e contar nossas boas histórias.

Texto originalmente publicado na edição #87 (março, abril e maio de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Mariana Grilli

Cafezal

Mandaguari conquista selo de origem para seu café especial

Com a Denominação de Origem concedida pelo INPI, região no Noroeste do Paraná torna-se o 18º território reconhecido pela qualidade do café e aposta no turismo rural para fortalecer sua identidade

O Café de Mandaguari, no Noroeste do Paraná, recebeu nesta terça (1) o selo de Indicação Geográfica (IG) na categoria Denominação de Origem (DO), concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O reconhecimento consolida a reputação da região como produtora de cafés especiais e valoriza o trabalho de cerca de 200 propriedades familiares distribuídas nos municípios de Mandaguari, Marialva, Jandaia do Sul, Apucarana, Cambira e Arapongas.

Com mais este selo, o Brasil chega a 137 IGs registradas – 18 delas dedicadas ao café, o produto com mais indicações geográficas. 

O selo é resultado de um trabalho iniciado em 2022, com apoio do Sebrae/PR, do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), da Secretaria da Agricultura (Seab), da UTFPR e da recém-formada Associação dos Produtores de Café de Mandaguari (Cafeman). As Indicações Geográficas (IGs) são instrumentos coletivos que valorizam produtos tradicionais intimamente ligados a um território. No caso de uma denominação de origem, as qualidades ou características do produto são essencialmente atribuídas ao ambiente natural e humano da região — como solo, clima, altitude e saber-fazer local.

A Indicação Geográfica (IG) traz diversas vantagens às regiões produtoras, como o resgate e a valorização da cultura local, estimulando o envolvimento dos agricultores com a atividade e incentivando que as novas gerações permaneçam no campo, garantindo renda e sustentabilidade dentro das propriedades. Além disso, a IG fortalece a articulação entre lideranças locais, produtores e associações na preservação do patrimônio regional, ao mesmo tempo em que amplia o acesso a mercados nacionais e internacionais, promovendo o desenvolvimento econômico e social do território.

Quanto a Mandaguari, a região aposta no turismo rural como forma de consolidar sua imagem no setor cafeeiro, com iniciativas como a Rota do Café, que permite ao visitante conhecer todo o ciclo produtivo do grão.

TEXTO Redação

Cafezal

Torrinha (SP) é a nova IP de cafés

O município de Torrinha, no estado de São Paulo, é a mais nova indicação geográfica brasileira para cafés. O anúncio foi publicado hoje pelo INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), e a modalidade concedida é a de Indicação de Procedência (IP).

A IP concedida reconhece Torrinha, que tem cerca de 240 pequenos cafeicultores, como um centro tradicional de produção de café arábica, valorizando sua reputação e o saber fazer local, sem, no entanto, exigir exclusividade de características naturais.

Segundo a documentação apresentada pela Cafenato (Associação dos Produtores de Café Natural do Bairro do Paraíso do Alto de Torrinha), o município produz café desde o século XIX, produção essa intensificada com a imigração europeia e a instalação de ferrovias e crescimento urbano. O cultivo de café se dá em altitude média de 800 m, e a maioria dos produtores da cidade estão há pelo menos três gerações trabalhando com o grão. 

O café é tão importante para a cultura local que todos os anos, no último domingo de novembro, é celebrada a Missa do Cio da Terra, em agradecimento à colheita e quando os produtores oferecem uma saca do café colhido. Torrinha tem cerca de 10 mil habitantes.

A cidade ainda promove, anualmente, um concurso de qualidade, e teve cafés premiados no concurso estadual de qualidade em 2015 e 2023. 

TEXTO Redação

Cafezal

Palestras na Expocafé mostram como o cafezal pode reagir às mudanças climáticas

No segundo dia da feira de Três Pontas (MG), palestras embasadas por pesquisas científicas destacaram estratégias para aumentar a resiliência do cafeeiro, mitigar pragas e reduzir emissões de carbono, em meio aos efeitos do aquecimento global

Por Cristiana Couto

O segundo dia de palestras da Expocafé, principal feira do agronegócio brasileiro voltada à cafeicultura que acontece em Três Pontas (MG), foi de intenso aprendizado. O ponto comum das palestras, feitas durante o simpósio organizado pela Cocatrel (Cooperativa dos Cafeicultores da Zona de Três Pontas) em parceria com a Ufla (Universidade Federal de Lavras), foram as oportunidades e desafios da cafeicultura em meio às mudanças climáticas. Apresentações, baseadas na ciência, para ninguém botar defeito.

Na conversa sobre “Resiliência do café às mudanças climáticas”, conduzida pelo agrônomo e professor titular da Ufla José Donizeti Alves, um dos maiores aprendizados foi o de que, em situação pós-estresse, o cafeeiro se recupera apenas parcialmente. A partir dessa constatação, Donizeti expõe a principal estratégia para aumentar a resiliência do pé de café exposto nos últimos anos “pressões muito grandes” do meio ambiente, que é o aumento da produção de energia. “Existe um descompasso entre a produção de energia e o gasto dela na planta”, sintetiza o especialista. Segundo seus estudos relacionados à fisiologia do café, fornecer energia aos pés de café significa investir no crescimento das folhas e das raízes, que, como pontuou, não se limita mais – em vista do estresse ambiental a que o café vem se submetendo atualmente – a manejos como nutrição balanceada e sanidade da cultura. “Esqueça o calendário tradicional e olhe para o calendário fenológico da planta”, ensinou o especialista.

Em “Manejo do cafeeiro em condições climáticas adversas”, o agrônomo Geraldo Andrade Carvalho explicou como tecnologias mais sustentáveis ajudam a diminuir populações de pragas na lavoura cafeeira e mitigar as mudanças climáticas. Exemplos são a utilização de cercas vivas e de fertilizantes foliares. “Controlar pragas é trabalhar com técnicas de forma integrada, não só inseticidas”, lembrou Guimarães, referindo-se à boa adubação e ao uso de variedades mais resistentes a pragas. 

Expocafé 2025 – Foto: Isa Cunha

Rubens José Guimarães também deu uma aula magna, em sua fala sobre “Influência das mudanças climáticas no manejo das principais pragas do cafeeiro”, ao elencar soluções inovadoras – como a utilização de filme de polietileno, como alternativa às coberturas vegetais, e casca de café, que evita o nascimento de plantas daninhas – ao lado de práticas sustentáveis, como adubação de liberação lenta e gesso agrícola, entre outras. “O importante é aproveitar o que já é bom combinado com técnicas modernas”, ensina ele, citando também a utilização de biochar, quitosana (biopolímero obtido de crustáceos que induz a produção de substâncias de defesa na planta) e polímeros retentores de água.

Agricultura regenerativa e sequestro de carbono, claro, não ficaram de fora. Ademir Calegari, engenheiro agrônomo da Faem-Ufpel (Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel da Universidade Federal de Pelotas), contribuiu com um conhecimento profundo sobre cobertura de plantas e o uso de biológicos durante sua exposição sobre Avanços da agricultura regenerativa”. “O melhor jeito de recuperar solos degradados é utilizar múltiplas espécies [de cobertura]”, ensinou ele, referindo-se a estudos que combinam trigo-mourisco, braquiária, crisópide e outras plantas de cobertura com ativos biológicos e o aumento de produtividade em cafezais de diversas fazendas. 

Carlos Eduardo Cerri, professor titular do departamento de ciência do solo da Esalq/USP, também esclareceu qualquer dúvida sobre pegada de carbono que pudesse haver na plateia com sua palestra “Balanço de carbono em cultivo de café”. “O principal desafio da humanidade é o aquecimento global”, lembrou Cerri. Durante sua exposição, o especialista discriminou os diferentes gases de efeito estufa, a capacidade de cada um aquecer a terra e as diferenças do Brasil em relação ao mundo nas taxas dessas emissões a partir de diversas atividades, como a agricultura. “É importante esclarecer os benefícios que a agricultura traz, quando bem conduzida, para as emissões de carbono”. sobre o tema, mostrou, a partir de estudos, que a cafeicultura mineira, sob manejo sustentável, tem um balanço de carbono negativo de 10,5 t CO2eq/ha, ou seja, mais sequestra do que emite gases de efeito estufa (GEE). 

A Expocafé termina nesta quinta (29) com a 5ª edição da Expocafé Mulheres, espaço construído com base nas demandas das produtoras. A programação, que valoriza o papel feminino no campo, terá foco em inovação, tecnologia e equidade na cafeicultura.

A realização e promoção comercial são da Cocatrel e da Espresso&Co, com apoio da Universidade Federal de Lavras (Ufla) e da Prefeitura Municipal de Três Pontas.

TEXTO Cristiana Couto

Cafezal

Tem uma abelha no meu café

Pesquisadores comprovam que a biodiversidade é essencial para a manutenção de colmeias, produtividade e qualidade sensorial do café polinizado

Por Cristiana Couto

Mudanças climáticas, degradação de áreas florestais e o consequente declínio da população de abelhas tem motivado pesquisadores de todo o mundo a debruçar-se, nos últimos anos, sobre os efeitos da polinização no café. Depois do interesse pela influência das abelhas sobre a produtividade, a última década viu um incremento nos estudos com foco na biodiversidade da paisagem e na qualidade do café polinizado.

Para entender a importância desses estudos e sua aplicação no campo, a Espresso conversou com cientistas, startups e produtores. A resposta para os dilemas atuais enfrentados pela cafeicultura em
relação às abelhas – os insetos mais importantes na polinização do café – é uma só: integração de manejos.

“O cafeicultor precisa melhorar a paisagem, manejar abelhas e adotar boas práticas no uso de defensivos químicos para aumentar a sustentabilidade da sua produção”, ensina o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente (SP) e especialista em abelhas e polinização Cristiano Menezes. “Se ele fizer um planejamento ótimo, pode equilibrar o máximo de produção e, ainda, restaurar o habitat natural. É uma vertente importante de mudança”, acrescenta.

O café é um dos cultivos mais bem estudados no mundo em polinização. Há trabalhos acadêmicos no Brasil, na Costa Rica e no México, e no continente africano, berço de arábicas e canéforas.

Publicações recentes destacam, por exemplo, que não só as abelhas melíferas ou africanizadas (Apis mellifera) aumentam a produtividade do café, mas uma diversidade de espécies nativas – no Brasil, existem quase 2 mil espécies de abelhas, e cerca de 20 mil espalhadas pelo planeta.

Outro estudo, concluído no segundo semestre de 2024 sobre a introdução de abelhas manejadas em fazendas de café, reforça as evidências de que a polinização assistida – ou seja, a introdução de colmeias de abelhas durante a floração – aumenta a produtividade e a qualidade do café, elevando o sensorial da bebida em até 6 pontos e o valor da saca, em 13,15% (um ganho de US$ 25,40 por saca).

Colmeias em campo

O trabalho foi feito entre 2021 e 2023 em fazendas de arábica em São Paulo e Minas Gerais. “Esse estudo reforça a integração de ações no campo, ao avaliar o impacto do manejo de abelhas na produtividade do café, crucial para milhões de famílias rurais”, diz Menezes, que liderou a pesquisa e contou com a parceria da Agrobee, empresa brasileira que conecta apicultores, meliponicultores (criadores de abelhas sem ferrão do gênero Melipona) e cafeicultores, da empresa de tecnologia agroquímica Sygenta e da Esalq-USP, entre outras.

Mesmo com dados consistentes na literatura sobre as vantagens da biopolinização, há desafios. “Por muito tempo, negligenciou-se o papel dos polinizadores na cadeia do arábica”, diz Guilherme Sousa,
CEO e sócio da Agrobee. “Nos cursos de agronomia, a polinização não é um tema tão bem trabalhado como é o combate às pragas”, reforça a bióloga Marina Wolowsky, também especialista em polinização. Isso, somado ao fato de que o arábica é uma planta autocompatível, ou seja, capaz de se autofecundar, tornou o assunto, muitas vezes, irrelevante.

Por outro lado, vantagens ambientais, sociais e econômicas da biopolinização, claras aos cientistas, vêm cativando, aos poucos, a atenção do setor. “Ser sustentável no café é rentável para o agricultor”, analisa Guilherme Castellar, jornalista da Associação Brasileira de Estudo das Abelhas, a A.B.E.L.H.A. Pesquisas de mercado pelo mundo indicam, também, que os consumidores de café demandam, cada vez mais, por cafés diferenciados, mais sustentáveis em termos socioambientais.

Uma ferramenta de sustentabilidade

Se a rentabilidade econômica não deixa de pesar na balança do cafeicultor, a vegetação nativa ou a restauração de áreas degradadas é vital para a manutenção – e incremento – sustentável dos seus ganhos. Modelos climáticos indicam que, até 2050, 90% dos municípios brasileiros sofrerão com a perda de polinizadores, comprometendo a polinização de diversas culturas agrícolas – entre elas, o café.

Para mitigar esses efeitos, pesquisas recentes buscam entender as relações entre o ambiente natural, as comunidades de abelhas e a produtividade dos cafezais. Elas geram conhecimento que auxilia projetos como o de Menezes e serviços de aluguel e treinamento de abelhas.

O que os cientistas estudam, ainda, é como são essas complexas relações entre abelhas e plantas em áreas produtoras de arábicas e canéforas do país. Nessa chave, avaliam a polinização da abelha africanizada – que, até até pouco tempo, dominou o conhecimento acadêmico sobre polinização de café – e das espécies nativas.

Produtividade e floresta em pé

Os cientistas já sabem que florestas próximas aos cafezais aumentam a produtividade do plantio. E, se uma revisão acadêmica de 2022, feita por Moureaux e colaboradores e que reuniu publicações científicas sobre vários países produtores, mostrou um incremento de 18% na produção de arábica pela biopolinização, pesquisas brasileiras têm encontrado que a produtividade de uma colheita em sistemas agroflorestais pode chegar a 30% com o apoio delas. “Quanto mais próximo os cafezais estiverem de fragmentos florestais, maior a diversidade de espécies de abelhas e maior a produtividade do café”,
resume Menezes.

Foi o resultado que Marina encontrou ao estudar os cafezais no Sul de Minas. “Descobrimos que quanto mais heterogênea for a paisagem maior será a diversidade de espécies e o número de abelhas que visitam as plantas de café”, explica ela, referindo-se ao termo técnico paisagem como o conjunto composto por área plantada, fontes de água e floresta. “A floresta diversa é importante para que as abelhas se movimentem e explorem outras categorias de paisagem”, detalha.

Mas as abelhas não visitam os cafezais somente na época da florada. Elas ficam de olho, também, nas flores que nascem nas entrelinhas e bordas dos cafezais – prática comum em agricultura regenerativa e manejos orgânicos. “Essas plantas floridas servem de recurso para as abelhas continuarem forrageando na área de cultivo”, diz Marina, referindo-se às plantas tecnicamente chamadas ruderais, que crescem espontaneamente nesses lugares e que muitos costumam tomar por ervas daninhas. “Queríamos entender melhor o manejo do cultivo de café, por isso, não fizemos o estudo apenas durante os dias de florada”, explica ela, que observou o comportamento das abelhas por trinta meses.

Ao todo, 62 espécies de abelhas visitaram 67 espécies de plantas nas entrelinhas dos pés de café. “Há, portanto, um incremento na produção quando há, também, cobertura vegetativa no entorno do cultivo”, conclui a especialista. Isso porque a cobertura das entrelinhas, aliada à manutenção de florestas e ao uso de áreas inúteis, como barrancos, ajuda a melhorar a construção de ninhos e colmeias. “Esse manejo de paisagem é o que o cafeicultor pode fazer para aumentar a riqueza de polinizadores na produção”, explica Menezes.

Outro manejo importante é o de insumos agrícolas. “Não adianta ter uma paisagem perfeita e aplicar um produto incompatível com a vida das abelhas”, pondera ele. Segundo o cientista, é preciso escolher produtos químicos compatíveis, cujas doses, métodos e cronologia de aplicação em campo sejam adequados – antes ou depois da florada, aplicações no pé e não nas folhas das plantas e no fim do dia
ou de noite são alguns desses parâmetros. “Não estamos pregando que o cafeicultor se torne orgânico, mas que ele use da forma mais racional possível os pesticidas para gerar o mínimo de impacto ambiental”, conclui.

A importância da paisagem na cafeicultura aumenta se soubermos um pouco mais da vida das abelhas. “A paisagem serve de abrigo e oferece recursos nutritivos e relacionados à reprodução delas”, ensina Marina. Além do néctar e do pólen, florestas, matas e outras coberturas vegetais são fonte de resinas e óleos que elas usam para a construção de seus ninhos. Além disso, a distância que elas têm que percorrer para buscar alimento e o tamanho do seu corpo influenciam a visita das abelhas às flores – quase diariamente, elas definem suas rotas. “Mais recursos sustentam maior número de abelhas, e populações maiores polinizam mais”, conclui a pesquisadora.

Abelhas solitárias ou sociais?

Um dos clássicos estudos científicos sobre biopolinização, feito em 2003 por Alexandra-Maria Klein, da Universidade de Friburgo, na Alemanha, já mostrava que abelhas solitárias – definição para um grupo de abelhas que vive em turmas menores e têm comportamentos específicos – são mais eficientes que as africanizadas na polinização dos cafezais. “Esse trabalho foi importante porque a gente tinha uma visão de que as abelhas africanizadas resolveriam tudo”, conta Menezes. “Na verdade, as Apis precisam de muitas visitas às flores para deixar nelas o pólen”, detalha ele.

Por outro lado, as abelhas solitárias compensam seu menor número visitando flores mais rapidamente e num fluxo maior entre uma e outra. “Elas fazem seus ninhos e os abandonam ou simplesmente morrem, sem ter contato com as próximas gerações. Daí a importância do manejo da paisagem, já que várias abelhas solitárias não conseguimos manejar”, explica Menezes (mais de 95% das espécies de abelhas polinizadoras não são criadas).

Jataí em flor de café

Um dos estudos mais recentes comprovou a relação direta entre diversidade de abelhas e de paisagem. Foram estudadas 24 áreas de cultivo de café no Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraná e em Minas Gerais e encontradas 50 espécies visitantes em flores de arábica e 45 em flores de canéfora. O estudo, de Maria Cristina Gaglianone e outros pesquisadores, compõe o livro digital A Ciência das Abelhas, publicado este ano pela A.B.E.L.H.A. e que reúne pesquisas de 2019 a 2022, numa iniciativa inédita de financiamento público-privado para esse tipo de investigação.

Outro trabalho, feito em 2016 em regiões cafeicultoras do leste paulista, onde há fragmentos de mata atlântica, chegou a resultados semelhantes. Nele, a ecóloga Fernanda Teixeira Saturni destaca que áreas de café próximas a florestas e matas nativas são mais ricas em espécies de abelhas sem ferrão – cuja presença aumentou em 28% a maturação dos frutos.

Trabalhos como estes são importantes porque mapeiam espécies de abelhas em regiões cafeicultoras e ajudam no planejamento do cultivo nessas áreas. Isso é ainda mais urgente com o impacto atual das variações de clima na cultura do café. “Preservar estas áreas de vegetação nativa tem o potencial de melhorar questões como água e temperatura e outros serviços que a biodiversidade pode agregar”,
analisa Marina. “Isso favorece não só a conservação de áreas, mas ajuda também o produtor”, diz ela, sobre a menor necessidade do uso de fertilizantes e do combate às pragas. “O café é um reduto atrativo para as abelhas”, destaca.

Para integrar manutenção de polinizações, sustentabilidade e produtividade no cultivo do café, Menezes e dois pesquisadores buscam, agora, financiamento público para o desenvolvimento de uma ferramenta que reúne os manejos de paisagem, de insumos e de polinizadores aliados à produção e comercialização de cafés.

“Estamos estruturando esses quatro eixos a partir de indicadores de performance, fáceis de monitorar e que trazem qualidade à produção, para auxiliar o cafeicultor”, explica Menezes. A ferramenta é uma reconfiguração do projeto Apoia-novoRural (Avaliação Ponderada de Impacto Ambiental de Atividades do Novo Rural), criado em 2003 pela Embrapa e que auxilia a gestão agrícola sustentável a partir de indicadores. “Vamos começar pelo café pela robustez dos resultados acadêmicos. É colocar o manejo integrado da polinização em prática”, ressalta ele, que pretende começar, no primeiro semestre de 2025, os primeiros exercícios de campo para testar esses indicadores. “O caminho integrativo é mais complexo, mas vai entregar ao agricultor múltiplos benefícios e atingir a tão sonhada sustentabilidade ambiental, econômica e social”, acredita.

Abelhas de aluguel

A polinização assistida é uma estratégia não apenas viável, mas indicada para aumentar a produtividade, a qualidade e a sustentabilidade do café, especialmente em áreas com monoculturas extensas, onde a diversidade de espécies é baixa.

“A presença desses polinizadores pode incrementar a produtividade, em média, 18%, o equivalente a 3 sacas por hectare, mas já tivemos casos em que a produtividade chegou a 30%”, diz Sousa, que desde 2018 aluga colmeias de abelhas aos cafeicultores.

Nos últimos anos, a Agrobee vem sendo procurada por empresas do setor, como Nescafé e Nespresso, para a polinização assistida. “A agenda de agricultura sustentável está muito ativa”, explica ele. “A polinização é o maior potencial produtivo sustentável a ser desbloqueado na cafeicultura”, reflete.

As vantagens são muitas. Aumentar a presença de abelhas nos cafezais ajuda a diminuir o abortamento das flores, uniformizar o amadurecimento dos frutos, reduzir grãos chochos e aumentar a peneira, gerando frutos mais doces.

Em setembro, a startup fechou um projeto, em parceria com a Expocaccer e com o Banco do Brasil, que oferece incentivo financeiro para os agricultores que queiram conhecer o serviço de polinização. “Queremos inserir as abelhas nas grandes cadeias agrícolas, e gerar mais receitas para o agricultor e para os criadores de abelhas”, diz Sousa, que já trabalhou em mais de 100 áreas de cultivo em regiões como Sul de Minas, Cerrado Mineiro e Alta Mogiana e tem mais de 60 mil colmeias cadastradas. A startup oferece, inclusive, um selo de café polinizado para que os produtores os estampem em suas embalagens.

Só para se ter uma ideia da potencialidade do serviço de polinização assistida, cada hectare de café recebe quatro colmeias de abelhas. Se a decisão (sempre baseada em polinizadores que já existem na área de manejo) for pela Apis mellifera – a mais comum na polinização assistida de cafés no Brasil –, as colmeias podem abrigar, até, 200 mil abelhinhas por hectare, que permanecem na lavoura entre 12 e 15 dias. Já seis colmeias da mandaguari (gênero Scaptotrigona), menores, liberam por hectare cerca de 180 mil indivíduos.

Sousa desenvolve seus protocolos de manejo no campo, como número e posicionamento das colmeias, baseado em estudos acadêmicos. O norteador da polinização assistida são os talhões com maior potencial para a bebida. “Precisamos adequar o serviço de polinização à realidade de cada produtor”, explica ele, que já trabalhou com mais de seis espécies, cujas colmeias são monitoradas com um aplicativo combinado à Inteligência Artificial.

Como treinar sua abelha

Abelhas podem ser ensinadas. É isso o que faz o ecólogo e neurocientista João Marcelo Robazzi, da startup brasileira pollintech, criada há três anos. O treinamento de abelhas (denominado polinização guiada) torna a polinização mais eficaz e pode ser uma ajuda e tanto para a polinização assistida.

“Criamos a empresa na esperança de que as abelhas polinizem mais e melhor”, conta Robazzi, que tem como sócias a entomóloga Marcela Barbosa, especialista em polinização, e Maria Imaculada Zucchi, pesquisadora da Apta, e que trabalha com genética de plantas. “É um processo de ganha-ganha: o produtor aumenta a produtividade sem aumentar a área plantada e as abelhas encontram mais alimento e de forma mais rápida”, emenda Marcela. “Usamos a natureza para resolver o problema da produtividade”, completa ela.

Apis mellifera em flor de café

Para conseguir alimento, as abelhas se guiam pelo perfume, formato e cor das flores, criando uma memória olfativa. Mas não é nova a ideia de treinar abelhas: pesquisadores fazem isso desde a década de 1970 e há empresas no Brasil que treinam esses insetos para polinizar culturas de clima temperado. A particularidade da pollintech é treinar abelhas para uma cultura tropical como o café. “A ideia é treinar esse estímulo de odor associado ao açúcar”, explica o neurocientista. “Depois de algum tempo, ela aprende que aquele odor representa alimento”.

Para desenvolver a “isca” para a abelha africanizada – a primeira espécie que pretendem treinar –, a equipe desenvolveu biomoléculas, com odor semelhante ao perfume da flor do cafeeiro, e treinou as abelhas em laboratório. Agora, eles investem nos testes de campo com a biomolécula em duas fazendas no Sul de Minas – Santa Amélia, em Guaxupé, e Três Meninos, em Passos.

As áreas experimentais somam cinco hectares. Ao todo, estão sendo observadas 30 colmeias de Apis, com cerca de 20 mil abelhas cada uma. Até o fechamento desta edição, a equipe aguardava a frutificação dos pés de arábica. O próximo passo é medir a eficiência das abelhas treinadas a partir do número de indivíduos que visitam as flores, da frutificação (pelo tamanho, peso e formato das sementes) e, ainda, fazer a análise química do grão de pólen e do mel.

A expectativa é a de que, nas áreas que tiverem abelhas treinadas, colham-se frutos mais densos, refletindo, consequentemente, na qualidade da bebida. “A ideia é oferecer abelhas treinadas às fazendas para que, quando as flores de café abrirem, elas já saibam o que procurar”, explica o ecólogo.

O apicultor Edson Henrique de Souza, da Fazenda Quilombo, em Altinópolis (MG), que participa do experimento com suas caixas de abelhas, notou a mudança no peso das colônias – sinal de aumento da quantidade de pólen e mel – e no comportamento das abelhas. “Depois de vinte minutos soltas no cafezal, as abelhas campeiras [operárias] já estavam buscando especificamente a flor do café, num ritmo maior de trabalho”, relata ele.

A qualidade na xícara

Até pouco tempo atrás, os efeitos da atividade das abelhas sobre a qualidade do café na xícara não eram explorados pela pesquisa acadêmica. No entanto, os cafeicultores que já utilizavam a biopolinização sabiam que ela resultava em frutos maiores e mais densos, o que dá qualidade à bebida.

Mas essa história vai além. Cafés polinizados por esses insetos têm sua composição química alterada – positivamente. Dois trabalhos brasileiros pioneiros sobre o tema foram feitos em 2022 e 2023 pelas cientistas Solange Cristina Araújo, Aline Theodoro Toci e outros pesquisadores-colaboradores. “Estes são os primeiros trabalhos desse tipo que encontrei na literatura acadêmica”, garante Aline, química especialista em aromas da Universidade Federal da Integração Latino-Americana em Foz do Iguaçu, Paraná.

As pesquisas mostraram que flores polinizadas por abelhas geram frutos com maior quantidade de compostos bioativos, como ácidos clorogênicos, trigonelina e cafeína, do que as que não foram biopolinizadas. Esses compostos, além de agirem como ferramenta de defesa das plantas, funcionam como precursores de aromas. “Nossa hipótese é que os grãos de café polinizados estão geneticamente melhor preparados para a defesa da cultura contra ataques de agentes externos”, explica ela.

Os resultados obtidos pavimentam o caminho para investigações futuras – avaliar, por exemplo, o efeito da biopolinização na composição dos principais precursores de voláteis e compostos bioativos no café arábica. “O café é uma das bebidas mais aromáticas que existem”, lembra Aline. “Podemos perceber que ele está sendo preparado a 500 metros de distância só pelo aroma”.

Quer ler mais sobre o tema? Clique aqui.

Texto originalmente publicado na edição #86 (dezembro, janeiro e fevereiro de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Cristiana Couto