Incrustado na Serra da Mantiqueira, o Vale da Grama tem sido destaque nos concursos de cafés especiais desde 1999 e, no final do ano passado, foi reconhecido como a mais nova indicação geográfica cafeeira do estado paulista

Foto: João Barim
Por Lívia Andrade
Quem chega a São Sebastião da Grama logo avista o Cristo Redentor de braços abertos para o Vale da Grama, terra fértil e de clima ameno que, em 1871, atraiu as primeiras famílias interessadas em plantar café na localidade.
A vocação centenária na produção de grãos de qualidade é anterior à fundação do município, em 1925, e acaba de ser reconhecida pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) como a mais nova indicação geográfica do estado de São Paulo, na modalidade indicação de procedência (IP), que atesta que a região tem tradição na produção de cafés especiais.
“O nome Vale da Grama se deve ao fato de os cafezais estarem localizados numa espécie de planalto entre duas cadeias de montanha da Serra da Mantiqueira”, explica o professor Leandro Paiva, referência em cafeicultura do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas (IF Sul de Minas).
Situado a mais de mil metros de altitude, o Vale da Grama tem dias quentes e noites frias, o que implica numa maturação lenta do grão, que favorece a qualidade. Hoje em dia, a região tem cerca de 300 cafeicultores.
Uma das primeiras lavouras de café de que se tem registro é de Benedito Ferreira de Andrade, conhecido como Dito Bandeira pelo fato de haver muitos tamanduás-bandeira em suas terras. “Ele começou a implantar os cafezais em 1878, época que coincide com a construção da casa sede da Fazenda São João de Cima. Já a tulha para armazenar café foi erguida em 1908”, conta Ubirajara Rabello de Andrade Júnior, que hoje está à frente da parte da propriedade em que fica a casa-sede.
“Naqueles tempos, o sistema produtivo era diferente. Plantavam-se várias sementes numa cova profunda, deixavam germinar e selecionavam até quatro mudas”, explica Sérgio Parreiras Pereira, pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Dessa forma, foram plantados os primeiros cafezais na região.
Por muitas décadas, tudo o que acontecia no Vale da Grama tinha relação com o café. O jornal O Desgramado, que conta as histórias das famílias da cidade, traz notícias dos times de futebol das fazendas cafeeiras, do concurso da rainha do café, e escritos literários que abordam a cafeicultura. Na época, o Brasil era um país rural, o desenvolvimento econômico estava no interior e o café era o principal produto da balança comercial nacional, o que atraiu muitos imigrantes europeus.
A família do italiano Fortunato Bernardi foi uma delas. “Em 1900, ele veio da região do Vêneto, comprou uma propriedade no Vale da Grama para cultivar cafés e criar os filhos. Fortunato formou a fazenda, construiu casas de colonos e trouxe outros italianos para trabalhar para ele”, relata Valdir Duarte, atual presidente da Associação dos Cafeicultores do Vale da Grama, que se casou com Lourdes Bernardi, uma das descendentes de Fortunato.

Foto: João Barim
Por volta da mesma época, em 1890, começa a trajetória da família Carvalho Dias, quando a matriarca Ignez Bernardina da Silva Dias compra uma propriedade no Vale da Grama e, com seus quatro filhos, inicia o plantio de café e recebe imigrantes italianos para ajudar nas lavouras.
Os anos passam, a família cresce e um dos filhos de Ignez, Lindolpho Pio da Silva Dias, casa-se com Mathilde e, juntos, têm 11 filhos. Um deles, Joaquim José de Carvalho Dias, se forma agrônomo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e, após trabalhar para outras fazendas, assume os cafezais da família, em 1945.
Com o know-how adquirido na universidade, o jovem reformula o plantio e implanta novas técnicas de manejo e pós-colheita. “Meu pai era muito amigo do pessoal da Pinhalense. Gostava muito de máquinas. Se desse para colocar um motor, colocava. Tanto que trocou o lavador e colocou despolpador para fazer cereja descascado por volta de 1964, 1968”, diz Maria Dias Teixeira de Macedo, filha de Joaquim.
O agrônomo firmou parceria com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) na figura de Alcides Carvalho (1913-1993), agrônomo considerado o maior geneticista de cafés do mundo, que estava selecionando variedades apreciadas pelos compradores, como bourbon amarelo, e resistentes às pragas e doenças, como o icatu amarelo.

Cuidados no pós-colheita são fundamentais para garantir a qualidade na xícara – Foto: João Barim
O primeiro campo experimental do IAC na fazenda foi criado em 1952 e continua ativo até hoje. “Meu pai tinha um viveiro de mudas em parceria com o IAC. Na época, não havia tubetes, as mudas eram plantadas em saquinhos de plástico. As mulheres ficavam enchendo os saquinhos”, conta Maria.
A paixão de Carvalho Dias pelos cafezais contagiou o neto, Diogo Dias, que passava as férias com o avô na roça. Em 2000, ele se forma em agronomia e começa a implantar o que aprendeu na fazenda. “O Diogo começou com a história de lavar todo o café no mesmo dia da colheita [processo que evita a oxidação do grão]. O papai não se conformava em fazer os funcionários trabalharem até à noite. Houve algumas brigas, mas quando começamos a ganhar prêmios [de bom valor em dinheiro], ele entendeu que compensava fazer qualidade”, explica Maria.
A recompensa veio em 2001, quando Carvalho Dias ficou em 3º lugar no Prêmio Ernesto Illy de Qualidade Sustentável de Café para Espresso. De lá para cá, a parede da casa ficou pequena para a quantidade de troféus conquistados.
Sempre à frente do tempo, a família se tornou referência na cafeicultura de montanha. “Lá por 2010, não se falava de terraceamento no Brasil, e o Diogo Dias, da Fazenda Recreio, começa a fazer terraços nos talhões da propriedade para facilitar a entrada de máquinas para adubação e pulverização”, lembra Pereira, do IAC.

A Fazenda Recreio foi precursora no pós-colheita e na busca por qualidade – Foto: João Barim
Partilhando o Vale
Com o decorrer do tempo, as famílias foram aumentando e as sucessões aconteceram naturalmente, com a partilha das terras entre os herdeiros. Na família Meirelles, a divisão se deu em 1977, quando Lourival Vilela Meirelles e a esposa, Célia, transferiram a propriedade para os cinco filhos. Hoje, parte das terras é tocada pela terceira geração.
É o caso da Fazenda Floresta, sob o comando das netas Carolina, Cristina e Camila Meirelles, que decidiram seguir o legado do pai, Jairo. Elas herdaram a empresa Café Fazenda Floresta, que fornece cafés especiais produzidos na propriedade para todo o Brasil, atendendo mercado corporativo, varejo e e-commerce.
Do plantio à torra, tudo acontece na fazenda, preservando a autenticidade do café. Agora, o foco das irmãs é expandir o reconhecimento da marca Café Fazenda Floresta como referência em café especial. Para isso, a empresa passou por reformulação e ampliou sua presença em lojas físicas e on-line. “Mais do que conquistar prêmios de qualidade, nosso objetivo é conquistar o coração de milhares de consumidores”, diz Carolina, CEO da empresa.
A fazenda Santa Alina, de Lucia Maria da Silva Dias, mais conhecida como Tuca Dias, é outra história de sucessão familiar. Quarta geração de cafeicultores, Tuca assumiu a propriedade em 2010 e mantém a Santa Alina de portas abertas para os compradores de café.

Fazenda Santa Alina – Foto: João Barim
“Os japoneses, por exemplo, compram todo o bourbon da nossa lavoura centenária, dois hectares de café que foram plantados em 1901 e estão na propriedade até hoje. Eles têm uma relação muito especial com os mais velhos, com o que vem antes”, diz Tuca.
De acordo com a produtora, a guinada da Santa Alina para os cafés especiais se deve muito ao surgimento de duas exportadoras na região, a Bourbon Specialty Coffees, em 2000, e a Qualicafex, em 2002. À frente da fazenda, Tuca contratou profissionais para fazer o inventário de qualidade dos lotes e treinar a equipe em boas práticas de pós-colheita, o que aumentou a presença da Santa Alina no pódio dos principais concursos – destaque para o Cup of Excellence, Concurso Terroir da Região Vulcânica e Concurso Estadual de Café de São Paulo.
Mas nem tudo são flores. “Em 2021 faltou muita mão de obra, as pessoas não queriam trabalhar registradas”, explica ela, que começou um processo de mecanização para diminuir os problemas na época da colheita manual. Até então, a única mecanização utilizada era a derriçadeira de café, as “mãozinhas mecânicas” que melhoram a produtividade do colhedor de café.
O mesmo movimento foi adotado pela família Taramelli, que tem tradição na produção cafeeira no Vale da Grama. “Estamos mecanizando há oito anos por falta de mão de obra”, diz Rafael Taramelli. A Fazenda São José, que tem uma topografia favorável, é 100% irrigada e mecanizada. “Lá, uma colhedora de café faz o trabalho de cerca de 80 pessoas”, esclarece.
Já na Fazenda São Caetano, com terreno mais íngreme, 40% da colheita ainda é manual. “Estamos fazendo terraços em alguns talhões e tirando o café de áreas onde não é possível mecanizar”, conta ele.
Origem premiada
Um dos primeiros registros de premiação do Vale da Grama é de 1999, quando Lindolpho de Carvalho Dias, um dos descendentes de Dona Mathilde, foi finalista do Cup of Excellence (COE) e ficou em quarto lugar no prêmio da illycaffè.
De lá para cá, a região virou figurinha recorrente nos principais concursos de qualidade: COE, Aroma BSCA, illycaffè, Concurso Estadual de Café de São Paulo, Concurso Florada Premiada e Terroir da Região Vulcânica.
O Vale da Grama foi destaque, por exemplo, no COE 2023. A Fazenda Rainha, da Orfeu Cafés Especiais, onde fica a Capela Santa Clara, projeto de Oscar Niemeyer, conquistou o primeiro lugar na categoria via seca, com um café gesha produzido a 1.560 metros de altitude, que recebeu o maior lance da história, R$ 84,5 mil por saca.

Capela Santa Clara, de Niemeyer, na Fazenda Rainha
Segundo Alexandre Marchetti, engenheiro agrônomo responsável pela fazenda e Q-Grader da Orfeu, a localidade representa 50% do êxito. “Tem tudo a ver com o terroir, com o solo vulcânico, que é um solo diferenciado, bem pedregoso, que faz a planta ter uma melhor absorção de açúcares no fruto, o que resulta num café mais exótico”, diz. “A outra metade está relacionada com a variedade e com o pós-colheita. Nosso trabalho é manter a qualidade que a natureza nos dá”, explica. Na época, 200 garrafas numeradas com 210 gramas do microlote premiado foram vendidas por R$ 450 a unidade.
Cantinho do paraíso
Apelidado de Toscana brasileira por Guilherme Amado, grande referência em cafés e vinhos, o Vale da Grama tem muita semelhança com a famosa região italiana. Além das montanhas, as plantações de oliveiras e uvas viníferas são outro ponto em comum.
Tanta diversidade de paisagem atrai ciclistas, peregrinos (três ramais do Caminho da Fé passam pela cidade) e turistas. Os amantes de pedais em estradas de terra, inclusive, criaram seus roteiros – muitos deles para conhecer igrejas, situadas em fazendas cafeeiras. Entre elas, a Igreja da Pedra, na Fazenda Zarif, a Capela Santa Clara, na Fazenda Rainha e a Igreja São Miguel dos Arcanjos, na Fazenda Floresta.
Há, ainda, o turismo de negócios, compradores que na época da colheita vão visitar as propriedades das quais costumam comprar. E não para por aí. A Associação dos Cafeicultores do Vale da Grama, em parceria com o Sebrae e a Prefeitura Municipal, está começando a estruturar um plano para alavancar o
turismo regional.
Um dos primeiros passos é focar nas crianças e jovens, com palestras sobre café especial nas escolas para que a nova geração (não só aqueles cujos pais trabalham com café) aprenda a tomar café especial e compartilhar a bebida.
Outra estratégia para a região ganhar musculatura é o fortalecimento do associativismo. Desde que o grupo se debruçou no processo para a conquista da IG, muitos produtores entraram para a associação.
Em 2021, o Vale da Grama foi reconhecido como Arranjo Produtivo Local (APL) da Cafeicultura e, no ano seguinte, participou de um edital da Secretaria do Desenvolvimento Econômico de São Paulo, onde conseguiu aprovar o projeto para a construção do laboratório de classificação e análise sensorial dos cafés especiais. A obra permite aos cafeicultores conhecer a qualidade dos grãos e negociar melhor seus cafés.
Todo este movimento envolveu os filhos dos produtores. “A nova geração é antenada, tem feito workshops de torra, cursos do Senar e Sebrae para criar sua marca própria de café torrado, além de participar de feiras e eventos representando o Vale da Grama”, finaliza Duarte, da associação.
Texto originalmente publicado na edição #87 (março, abril e maio de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.
TEXTO Lívia Andrade