
Consumo interno e instantâneo em alta
O Vietnã é um dos mercados consumidores que mais cresce no Sudeste Asiático. A previsão de especialistas é que o consumo interno de café cresça a uma taxa média anual de 6,6% até 2030.
Segundo relatório de dezembro do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), em 2025 foram consumidas 4,9 milhões de sacas de café (3 kg per capita por ano), contra 4,2 milhões em 2023. O aumento reflete, segundo o relatório, o crescimento do número de cafeterias instaladas no país, da renda e de jovens em áreas urbanas interessados em novas experiências.
Estilos de vida agitado e jornadas de trabalho mais longas têm impulsionado a demanda por café instantâneo, reforça a USDA. O órgão norte-americano refere-se a um estudo, feito pela Knowledge Sourcing Intelligence, que projeta que o mercado de café instantâneo vietnamita deve crescer a uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) de 12%, totalizando US$ 731 milhões até 2028.
A Tridge, plataforma internacional de inteligência de mercado agrícola, reforça que a rápida expansão global deste mercado reflete-se nos preços médios de exportação: em 2023, eles variaram de US$ 5,80 a US$ 11,85 por quilo; em 2024, saltaram para a faixa de US$ 6,70 a US$ 16,15 por quilo, impulsionados, entre outros fatores, pela expansão das indústrias locais.
Em análise de 4 de dezembro do Vietnam Investment Review (VIR), principal jornal de negócios em língua inglesa do Vietnã, o café processado é, atualmente, o “motor fundamental de crescimento” do país. Até meados de novembro, ele gerou US$ 1,46 bilhão – um aumento de 58% em comparação ao mesmo período de 2024. Para o VIR, a indústria cafeeira do Vietnã está passando por uma “mudança clara em direção à produção com maior valor agregado”.
Grandes empresas do setor têm expandido suas operações, com a instalação de novas unidades de torrefação e fábricas de café solúvel. Em janeiro de 2024, por exemplo, a Nestlé Vietnã investiu US$ 100 milhões na ampliação de sua fábrica em Tri An, na província de Dong Nai, no sul do país.
Importação de cafés
Embora seja um dos maiores exportadores de café do mundo, o Vietnã depende das importações dos grãos para suprir demandas internas, já que grãos do Brasil, por exemplo, são mais baratos. Assim, as indústrias vietnamitas aumentaram as importações de café, especialmente de arábicas e cafés de qualidade. Uma parte do café importado é processada e reexportada misturada ao café nacional para produzir café torrado e solúvel.
Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), os embarques do Brasil, um dos principais exportadores de café para o país, para o Vietnã em 2023 registraram crescimento de 487,7% em comparação a 2022. Em 2024/25, o Vietnã importou 1,2 milhão de sacas, principalmente da Indonésia, do Laos e do Brasil. A previsão para este ano cafeeiro é importar 1,35 milhão de sacas.
Sustentabilidade
A promoção da sustentabilidade na cafeicultura está entre as principais metas do país. Desde o fim de 2023, governo, associações, empresas e parceiros internacionais vêm trabalhando em conjunto para padronizar procedimentos e adquirir dados que atendam à EUDR, de modo à adaptar o setor cafeeiro do país a um novo “padrão verde” de café.
Entre as prioridades estão o fortalecimento da rastreabilidade e da produção com baixa emissão de carbono na cafeicultura, a partir do menor uso de fertilizantes e pesticidas nas plantações e da promoção de técnicas de irrigação econômicas.
Em maio de 2025, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), com financiamento da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) e do Reino Unido e em parceria com a Administração Florestal do Vietnã (Vnforest), lançaram o projeto AIM4Commodities no país, um dos quatro pilotos globais da iniciativa que apoia países em monitoramento florestal, rastreabilidade e transparência das cadeias agrícolas. A iniciativa aposta na implementação de ferramentas digitais de código aberto, que permitem que pequenos agricultores coletem, gerenciem e mapeiem dados geoespaciais de suas propriedades.
O país já criou um banco de dados de rastreabilidade que abrange, segundo o vice-ministro de agricultura e meio ambiente, Hoang Trung, em recente coletiva de imprensa, 137 mil hectares de café. A promessa é expandir a base de dados para 462 mil ha nas Terras Altas Centrais, responsáveis por 92,8% da área de cultivo do grão.
Outras ações incluem projetos para cafés especiais e programas de substituição de plantios antigos por novas variedades. Atualmente, são 74,5 mil hectares replantados, embora o Programa de Replantio de Café do governo tenha previsto 200 mil até o fim de 2025, informa a USDA.
Seja como for, são ações como estas que fizeram com que o país fosse classificado como de baixo risco pela EUDR. Leia mais na parte I desta matéria.
Ao mesmo tempo, elas fortalecem o estabelecimento de uma marca única para o café vietnamita, outro projeto encampado pelo governo do país.
Marca única
A construção de uma marca forte e reconhecida no mercado internacional para o reposicionamento do robusta vietnamita no cenário global foi tema de um fórum, no final de 2025, organizado pela Vicofa em Dak Lak, considerada “capital do café” no Vietnã.
No fórum, informa a cobertura do Viêt Nam News, a associação buscou apoio da SCA e da plataforma Parceria Transpacífica (TPP), coorganizadoras do evento, para ajudar no desenvolvimento de padrões no café para a venda e na obtenção de certificações internacionais, além do auxílio na construção de uma estratégia para a promoção do grão como marca nacional e na criação de centros de formação de especialistas.
A longo prazo, a estratégia visa estimular a elaboração de cafés processados – que representam, hoje, apenas 15% do volume total produzido – e expandir o comércio internacional.
Desafios
Apesar das iniciativas públicas e de parceiros em incentivar sustentabilidade e melhora de qualidade no setor cafeeiro do Vietnã, a adaptação às demandas do mercado global tem se mostrado difícil. Segundo especialistas, mapas de uso da terra para o café são incompletos, e as fronteiras entre terras agrícolas e florestais frequentemente se sobrepõem, o que prejudica um controle mais rigoroso sobre a produção do café.
Muitos agricultores também desconhecem ferramentas tecnológicas e não têm acesso às políticas públicas implementadas. Processos administrativos complexos e recursos orçamentários limitados, associados às rápidas transformações e novos desafios complicam o cenário, analisa um extenso estudo sobre o setor cafeeiro no país feito em 2024 pela Vicofa e pela Forest Trends com apoio dos governos da Noruega e do Reino Unido.
TEXTO Redação