Mercado

Produção global de café deve bater recorde e alcançar 178,8 milhões de sacas, projeta USDA

Recorde reflete aumento de produção no Vietnã, na Indonésia e na Etiópia, apesar de quedas no Brasil e na Colômbia

A produção mundial de café deve atingir 178,8 milhões de sacas na safra 2025/26, um recorde histórico e alta de 3,5 milhões de sacas em relação ao ciclo anterior. A estimativa consta do relatório semestral sobre o mercado global de café do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), divulgado na quinta-feira (18).

As exportações globais de café em grão também devem crescer, alcançando 123,8 milhões de sacas, aumento de 2,3 milhões. O avanço é impulsionado pela maior oferta do Vietnã, com produção estimada em 30,8 milhões de sacas, e por volumes recordes na Indonésia (11 milhões) e na Etiópia (11,6 milhões), o que, segundo o relatório, compensa as quedas registradas no Brasil, com safra estimada em 63 milhões de sacas, e na Colômbia, com 13,8 milhões.

Com o consumo global em alta, estimado em 173,9 milhões de sacas, os estoques finais devem cair pelo quinto ano consecutivo, para 20,1 milhões de sacas. Diante do aperto entre oferta e demanda, os preços do café, medidos pelo índice composto mensal da Organização Internacional do Café (OIC), quase triplicaram no período.

Confirma o relatório completo aqui.

Para saber mais

Robusta: Indonésia e Vietnã 

A produção de café na Indonésia foi estimada em 11 milhões de sacas, aumento de 1,7 milhão, resultado de maior rendimento das plantas, condições climáticas favoráveis e uso ampliado de mão de obra na colheita. O volume mantém, há 25 anos, o país como terceiro maior produtor global de robusta. A produção de arábica ficou em 1,5 milhão de sacas, enquanto as exportações de café verde devem atingir 7,8 milhões de sacas, alta de 1,7 milhão, destinadas principalmente à União Europeia, aos Estados Unidos (arábica) e ao Egito.

No Vietnã, a produção deve alcançar 30,8 milhões de sacas, sendo 95% de robusta, impulsionada por maior produtividade, atribuída a clima favorável e ao uso intensificado de fertilizantes e insumos. As exportações devem somar 24,6 milhões de sacas, aumento de 2,3 milhões em relação ao ciclo anterior.

Arábica: Etiópia, Brasil e Colômbia

A Etiópia tem produção prevista de 11,6 milhões de sacas, 500 mil a mais do que no ciclo anterior, em novo recorde. O crescimento, observado há três anos, decorre da substituição de mais da metade da área cultivada por variedades mais produtivas e da adoção de podas pós-colheita. As exportações também avançaram, com alta de 400 mil sacas, e devem fechar em 7,8 milhões.

No Brasil, a safra foi estimada em 63 milhões de sacas pela FAS em 11 de dezembro, após revisão negativa de 2 milhões. O volume inclui 38 milhões de sacas de arábica (queda de 6 milhões) e 25 milhões de canéfora (alta de 4 milhões). A redução do arábica é atribuída à seca e às altas temperaturas em Minas Gerais e São Paulo, que afetaram a florada, o pegamento e o desenvolvimento dos frutos. Já o recorde do canéfora resulta de boas chuvas no Espírito Santo e na Bahia. Com a menor oferta, a previsão das exportações brasileiras caiu 4 milhões de sacas, para 37 milhões.

Na Colômbia, a produção também deve recuar, em 1 milhão de sacas, para 13,8 milhões, em razão de condições climáticas desfavoráveis durante a florada. As exportações de café verde, destinadas principalmente aos Estados Unidos e à União Europeia, estão estimadas em 11,5 milhões de sacas, queda de 700 mil frente a 2024/25.

TEXTO Redação

Cafeteria & Afins

Caffè Latte Piccolo – São Paulo (SP)

Em uma sexta-feira ensolarada, nosso time encontrou uma nova cafeteria na cidade de São Paulo. Ao buscar abrigo das altas temperaturas, entramos na galeria térrea do prédio comercial Edifício Barão do Serro Azul, na avenida Paulista, ao lado da estação Trianon Masp. Ali,em meio às lojas, está a nova unidade da Caffè Latte Piccolo.

O lugar é ideal para tomar um bom café em meio à correria do dia. Com opções para viagem e consumo local, a casa oferece cafés, torrados por Silvia Magalhães, no espresso, extraído em uma máquina Rocket, e outros grãos convidados. Em  nossa visita, o escolhido era o Tica Tica Bum, da torrefação paulistana Garagem do Café: um bourbon amarelo cultivado na Fazenda Sertão, na Mantiqueira de Minas, por Francisco Isidro. Se a escolha for um filtrado, há opções pelos métodos v60, french press, aeropress e clever.

O cardápio tem comidas para todos os gostos. Entre os salgados estão o clássico sanduíche de ovos, croissants (com ou sem recheio), pães de queijo e empanadas. Para adoçar o dia, brigadeiros, fatias de bolo, brownies de chocolate, cinnamon rolls, cookies e torta de limão. Pedimos o clássico croissant com um café coado na v60. Enquanto isso, conversamos com os baristas. 

A dupla de baristas Geisa Soares e Alan Costa contam que o movimento da casa – aberta há pouco mais de um mês – está crescendo, com picos por volta das 10h e após o almoço. A clientela, que já entende de café especial, escolhe frequentemente o filtrado extraído na Bunn – até pela praticidade e rapidez no preparo, já que a rotina na principal avenida de São Paulo não para. A casa opera em escala 5×2, acompanhando o ritmo do prédio comercial que a abriga. Para Geisa e Costa, essa escala é uma grande vantagem. 

O Caffè Latte Piccolo é boa opção para quem circula pelos arredores e deseja uma boa xícara de café e um lugar tranquilo e afastado da correria do centro comercial paulistano. 

Informações sobre a Cafeteria

Endereço Avenida Paulista, 1.159 loja 17
Bairro Bela Vista
Cidade São Paulo
Estado São Paulo
Website http://https://www.instagram.com/caffelatteoficial/
TEXTO Equipe Espresso

Cafeteria & Afins

Espresso visita primeira loja da Juan Valdez no Brasil

A Espresso visitou a primeira unidade da rede colombiana Juan Valdez no Brasil, em Ribeirão Preto (SP). A loja-conceito, no interior do RibeirãoShopping, propõe um ambiente clean, decorado com tons pastel, com produtos da marca distribuídos por toda parte. A marca, de forte apelo, atrai o público da região: no dia da visita, as mesas, sempre lotadas, refletiam o alto giro na loja.

O cardápio conta com uma combinação interessante de comidas colombianas,  brasileiras e francesas. A empanada, feita à base de fubá e frita em vez de assada, figura ao lado de arepas de pernil e frango e de almojabanas (um tipo de pão de queijo colombiano), ao mesmo tempo que são servidos pão de queijo, pain au chocolat e croissants, tanto doces quanto salgados.

O filtrado do dia, feito em máquinas Bunn e com diluição alta (um para 18), era da região de Cumbre, e foi servido em famosas xícaras Loveramics. Com perfil de torra escura, ele entregou notas de chocolate amargo, nozes, acidez baixa e corpo leve. Na falta das empanadas e arepas  no dia da visita, optamos pela almojabana e por um pão de queijo. Levemente adocicada e de estrutura mais firme, a versão colombiana tem o sabor pronunciado da farinha de milho, mais do que o de queijo. Já o pão de queijo é leve e saboroso, mas ambos fizeram bom par com o coado – que apresentou resíduos de pó de café no fundo da xícara. 

O espresso, feito com grãos de Huila e extraído em máquina La Spaziale – a loja oferece duas opções de café diariamente – não foi melhor. Com notas de pêssego, apresentou pouco corpo e um amargor dominante, que se sobrepôs à doçura e à acidez média. A companhia para o espresso foi a típica sobremesa latina,  o tres leches,  que chega à mesa coberto com marshmallow, com textura cremosa mas calda pouco saborosa. 

O grão da casa, da região de Volcán e com perfil de torra escura, veio no cappuccino. Com latte art bem executado (o leite escolhido foi o tradicional, embora haja oferta de leite vegetal), apresentou textura leve e gosto doce, que remeteu a castanhas caramelizadas. 

A oferta de bebidas é ampla: há cafés gelados como o  grazinado (um sorbet à base de café e leite), lattes, smoothies de frutas e nevados (espressos aromatizados com chantilly), além de matchá e chai. Também é vasta a oferta de pacotes – os mesmo oferecidos globalmente –, com grãos de várias regiões produtoras tradicionais, como Cumbre, Collina e Huila, e um blend de cafés cultivados por mulheres. Neles, informações como descrição sensorial e perfil de torra escolhido (somente torra média e escura) facilitam a decisão dos clientes. Pena que não há menção às variedades, apenas à altitude em que o grão, “100% arábica de origem colombiana”, foi produzido. Há, ainda, uma linha de solúveis aromatizados para levar para casa, com diversos sabores (chocolate, doce de leite e avelãs) e doces em lata, como merengues feitos com café. 

Informações sobre a Cafeteria

Endereço Av. Cel. Fernando Ferreira Leite, 1.540
Bairro Jardim Califórnia
Cidade Ribeirão Preto
Estado São Paulo
Website http://www.instagram.com/juanvaldez.br
TEXTO Juarez Gomes

Café & Preparos

“A cafeicultura é política: a voz da base pode mudar decisões globais”, diz Adriana Mejía, da GCP

Em seu segundo ano à frente da Plataforma Global do Café, Adriana Mejía defende que só haverá sustentabilidade de fato quando renda digna, governança inclusiva e agricultura regenerativa alcançarem milhões de produtores

Por Cristiana Couto

Da quarta geração de uma família de cafeicultores de Manizales, no eixo cafeeiro da Colômbia, Adriana Mejía Cuartas – primeira mulher a presidir o conselho da Plataforma Global do Café – construiu uma carreira discreta em exposição, mas decisiva na defesa de um futuro sustentável para todos os produtores.

Criada num território marcado pela cafeicultura de sobrevivência, pela tradição e pela forte presença da Federação Nacional de Cafeicultores (FNC), Adriana só compreendeu a complexidade do setor quando, no decorrer da carreira, passou a percorrer regiões produtoras, lutar pela dignidade financeira de cafeicultores em países mais pobres e participar de debates globais sobre os rumos da cadeia.

“As conversas em casa eram só sobre café, para mim, um produto vulnerável, exposto ao sol e à chuva. Só depois entendi em que consistia o imaginário cafeeiro”, lembra.

Formada em administração de empresas, com mestrado na Espanha, ela acumulou experiência internacional ao representar a FNC na Europa e, depois, ao trabalhar na UTZ Certified (hoje incorporada à Rainforest Alliance), onde acompanhou a evolução dos padrões de sustentabilidade e o papel das certificações na transformação da cadeia de valor do café.

Sua experiência aumentou em 2017, quando criou, na Holanda, a empresa Herencia – Value Your Legacy, que articula investimentos de impacto, ESG e inovação nas cadeias de café, cacau e óleo de palma na América Latina e na África. À frente do conselho da Plataforma Global do Café desde 2024, e ao lado de mais de 170 membros, Adriana busca reduzir até 2030 a lacuna de renda de mais de um milhão de pequenos produtores em mais de dez países. “O desafio é superar ilhas de sustentabilidade e alcançar um oceano em que a regra seja produzir café sob condições dignas, resilientes e livres de desmatamento – e que isso seja um bom negócio para todos”, acredita.

A seguir, a entrevista, realizada por videoconferência diretamente da Colômbia.

Você vem de uma família de cafeicultores. Como isso moldou sua visão sobre sustentabilidade e governança no café?

Em casa, a palavra sustentabilidade nem existia, mas estava presente em tudo o que meus pais faziam. O café nunca foi altamente rentável, mas nos deu educação, pertencimento e amor pela terra.

Meu pai é agrônomo e tem a sabedoria de quem valoriza a terra e a tradição. Minha mãe, María Mercedes Cuartas, foi a primeira mulher a representar sua região no Congresso Nacional de Cafeicultores, [a instância deliberativa máxima do setor no país]. Hoje, aos 75 anos, ela continua atuante no comitê regional da FNC, e isso me ensinou que a cafeicultura é profundamente política: a voz da base pode mudar decisões nacionais e até globais.

Quem produz café sabe que sustentabilidade não é discurso, selo ou marketing. Hoje, não se trata de “sustentar”, mas de regenerar – garantir que famílias produtoras continuem a produzir café pelos próximos 20, 30 anos.

Por isso, minha visão de sustentabilidade e governança coloca o produtor e sua comunidade no centro das ações. A pergunta-chave é: que modelo de negócio, de instituições e de alianças permitirá que a próxima geração continue a cuidar da terra e produzir o café que queremos consumir?

Você foi a primeira mulher convidada a participar da eleição para a diretoria geral da Federação Nacional de Cafeicultores da Colômbia (FNC) e a primeira diretora para a Europa, além de ter sido a primeira mulher a integrar o conselho da antiga UTZ. Que desafios enfrentou e como vê a presença das mulheres em cargos de liderança na cafeicultura?

Em um setor historicamente masculino, meu primeiro desafio foi simbólico: que deixassem de me ver como “a filha de María Mercedes” ou “a jovem do eixo cafeeiro” e passassem a enxergar uma profissional com critério próprio, conhecimento de origem e capacidade de representar o setor.

Quando concorri à direção geral da Federação, viajei pelas 15 regiões cafeeiras conversando com comitês, líderes, produtores e governos. Muitas vezes, a primeira reação era de surpresa. Isso me ensinou a transformar o ceticismo em diálogo e o preconceito em oportunidade.

Ser a primeira não foi fácil, e percebi a dimensão disso quando ouvi de uma cafeicultora: “Obrigada por mostrar às nossas meninas que elas também podem sonhar, estudar e liderar mudanças.”

Sobre a presença feminina, avançamos, mas ainda pouco. Há mais mulheres em posições importantes no setor mas, quando olhamos para a propriedade da terra, o acesso ao crédito e a voz nas negociações, estamos longe da equidade.

Precisamos mudar as regras do jogo para que mulheres e homens tenham as mesmas oportunidades de decidir o futuro do café. Liderar exige preparação, mas também exige um setor disposto a abrir espaço e criar oportunidades realmente inclusivas.

Em março de 2024 você assumiu a presidência do conselho da GCP. O que conseguiu implementar neste primeiro ciclo de mandato?

Neste primeiro ciclo, buscamos tornar a sustentabilidade algo concreto para os cafeicultores. Não medimos sucesso pelo número de projetos, mas pela redução da lacuna rumo a uma renda digna e pela regeneração das paisagens cafeeiras.

A Meta GCP 2030 foi convertida em uma rota operacional: transformar a cafeicultura e reduzir em ao menos 25% a lacuna de renda digna para mais de um milhão de pequenos produtores em mais de dez países. Já temos ações estruturadas no Brasil, Honduras, Indonésia, Quênia, Uganda e Vietnã, onde cada plataforma nacional define metas de impacto alinhadas às políticas públicas e às possibilidades de investimentos privados.

Em 2025, lançamos o RegenCoffee, guia global de agricultura regenerativa da GCP, que estabelece uma linguagem comum, princípios e indicadores para restaurar solos, proteger a água e a biodiversidade, aumentar a resiliência climática e melhorar a vida dos produtores. A plataforma no Brasil foi pioneira em traduzir os sete elementos de implementação da agricultura regenerativa nas fazendas, integrando-os ao Plano Plataforma Global do Café Brasil 2030, que busca aumentar a resiliência e a prosperidade de 95 mil cafeicultores até 2030. O aprendizado brasileiro orienta o nosso trabalho em outras origens.

Reforçamos ainda a sustentabilidade setorial com o Código de Referência de Sustentabilidade do Café, o Mecanismo de Equivalência e marcos de dados usados para alinhar programas corporativos, padrões e plataformas nacionais, reduzindo exigências duplicadas e trazendo mais clareza ao produtor. Em países como o Brasil, estudos sobre renda e projetos derivados desses diagnósticos já orientam investimentos, serviços de extensão rural e compras responsáveis.

Em resumo, aproximamos discurso e prática para fazer da cafeicultura um bom negócio para quem produz.

Quais são os principais gargalos para alcançar a Meta GCP 2030?

O primeiro é a escala de financiamento. Para avançar na agenda de renda digna, precisamos de bilhões de dólares em investimentos públicos, privados e filantrópicos, com metas claras e coordenação. Recursos existem, mas estão dispersos em projetos pequenos e pouco conectados entre si.

O segundo ponto crítico é o alinhamento entre países e empresas. O desafio é manter uma ambição global sem perder as relevâncias locais – não se trata de copiar e colar soluções, mas de transferir aprendizagens, adaptando tecnologias e modelos ao contexto de cada país.

O terceiro gargalo está na capacidade de medir e obter dados com transparência. Precisamos de informação clara e confiável, com sistemas de monitoramento que não sobrecarreguem o produtor e que permitam comparar avanços entre países e regiões.

O quarto ponto é a governança inclusiva. Se as decisões sobre prioridades e investimentos não incorporarem as vozes de organizações e produtores, corremos o risco de criar soluções elegantes no PowerPoint, mas irrelevantes no campo.

A GCP não executa projetos diretamente – ela é uma arquiteta de alinhamento, cria uma linguagem comum. Nossa tarefa é usar essa posição para enfrentar esses gargalos com diálogo e com a participação do maior número possível de atores.

Como você avalia o atual cenário global de cafés sustentáveis?

Há várias maneiras de olhar para isso. Certificações e padrões de boas práticas agrícolas foram uma base importante para globalizar conceitos, criar consciência e estabelecer um idioma comum para o setor.

Mas vivemos um paradoxo: nunca se falou tanto de sustentabilidade, ESG, neutralidade climática, novas regulações, desmatamento zero e ciência do clima aplicada à cafeicultura – e, ao mesmo tempo, a vulnerabilidade climática e a fragilidade econômica de milhões de pequenos cafeicultores nunca foram tão evidentes. Precisamos ir além: boas práticas precisam cobrir toda a cadeia de suprimentos e todos os atores da cadeia precisam ser sustentáveis. Além disso, precisamos escalar essas ambições e garantir que elas se traduzam em resultados concretos na vida do produtor.

Que regiões produtoras no mundo mais precisam de apoio na transição para práticas sustentáveis e por quê?

Eu as agrupo em três grandes corredores estratégicos. O primeiro abrange boa parte da África subsaariana, onde há baixa produtividade, infraestrutura limitada, pouco acesso ao crédito e alta exposição à variabilidade climática. O potencial é enorme, mas os recursos financeiros precisam ser desenhados respeitando os ciclos de produtividade, indo além de soluções que ofereçam retorno apenas em um ano. Também é essencial fortalecer as instituições que prestam serviços aos cafeicultores, incluindo inclusão digital e financeira, para atrair as novas gerações.

O segundo corredor inclui a América Central e o Caribe, regiões com alta migração rural, propriedades pequenas e forte exposição a furacões e secas. Nelas, as ações sustentáveis precisam combinar adaptação climática, inclusão financeira e mecanismos atrativos para jovens e mulheres que estão herdando a terra.

O terceiro corredor são as fronteiras agrícolas de canéforas, como Brasil, Vietnã e Indonésia, com alto risco de desmatamento, degradação do solo e conflitos socioambientais. A expansão dessas áreas precisa ser sólida e de incentivos claros para manter sistemas agroflorestais e promover a cafeicultura regenerativa. Nesse sentido, a liderança do Brasil tem sido importante.

Falamos de liderança adaptativa: resolver desafios técnicos – como extensão rural de qualidade, crédito adequado e acesso a dados de clima e mercado – e, ao mesmo tempo, enfrentar desafios adaptativos, redistribuindo poder nas cadeias de fornecimento e revendo incentivos que só premiam o curto prazo.

Além do Brasil, que é uma liderança muito importante, Vietnã e Colômbia têm avançado nesses temas. Mas esses avanços não são “receitas” exportáveis: cada país é um laboratório vivo, do qual outros podem aprender, não copiando, e sim adaptando.

Você acredita que governos e a indústria do café podem “equilibrar” essas regiões produtoras mais pobres?

Não só acredito como já vivi muitos projetos assim. Quando há cooperação e transferência estruturada de conhecimento, o aprendizado é rápido, erros são evitados e, em pouco tempo, é possível alcançar resultados muito positivos.

É o que acontece com a GCP em países como Uganda, onde vários atores e governos locais participam. Não se trata de substituir o governo, mas de apoiar a construção de políticas públicas, investimentos em infraestrutura e gestão hídrica que permitam às famílias continuar produzindo café.

Se somarmos ainda a experiência da sociedade civil e de grandes organizações ou ONGs que oferecem treinamentos, capacitações e métricas, tudo isso ajudará a transferir conhecimento para regiões que podem se beneficiar do que já foi feito em outros lugares.

Modelos de cofinanciamento no Brasil, com políticas públicas claras, servem como referência para países africanos. Na Colômbia, o Fundo Nacional do Café oferece uma “garantia de compra” que considero um dos maiores ativos do país: qualquer cafeicultor, a qualquer hora, pode vender seu café por esse mecanismo, e a FNC tem a obrigação de comprá-lo ao preço de referência do dia. Isso oferece transparência de preço e de mercado – algo que ainda não é realidade em muitos países africanos ou no México, por exemplo.

Que barreiras culturais e estruturais dificultam a adoção de práticas sustentáveis em países produtores?

Identificamos quatro barreiras recorrentes. A primeira é o olhar de curto prazo. Quando uma família cafeicultora não tem renda estável, poupança ou seguro, é difícil pedir a ela que invista em práticas cujo benefício só virá cinco ou dez anos depois. A pobreza é, em si, uma barreira à sustentabilidade.

A segunda são as assimetrias de poder e de informação: o produtor nem sempre sabe como se forma o preço do café, o que o mercado de fato valoriza ou quais riscos climáticos está enfrentando na sua própria região. Essas lacunas de informação e transparência limitam a adoção de novas práticas.

A terceira barreira são instituições que falham ou que não se coordenam. Quando isso acontece, o produtor recebe mensagens contraditórias e não constrói confiança no longo prazo. Por isso, as mensagens precisam ser coerentes, corretas e demonstráveis, e as instituições, críveis.

Por fim, há as questões culturais de que falamos – decisões concentradas em homens e mulheres e jovens cujas vozes não são ouvidas. Por isso, é fundamental falar em “arquitetura da sustentabilidade”: não bastam boas práticas agronômicas, é preciso redesenhar o funcionamento das instituições e a forma como interesses diferentes podem se combinar para gerar mais impacto nessas regiões.

Apesar de avanços em compras responsáveis, a maior parte dos cerca de 12,5 milhões de produtores no mundo continua a viver perto ou abaixo da linha da pobreza. Como você analisa esse cenário?

Esse é o centro do grande desafio da cafeicultura. A cadeia do café tem sido capaz de gerar muito valor, mas não de distribuí-lo de forma justa. Estudos mostram que, mesmo quando o produtor cumpre critérios ambientais e sociais e é considerado “sustentável”, sua renda total continua abaixo de um nível de vida digno no seu contexto. Há também um risco desigualmente distribuído: clima, pragas, volatilidade de preços e aumento de custos recaem sobre quem tem menos capacidade de gerir esses fatores – o pequeno produtor. Se não encontrarmos mecanismos para compartilhar e assegurar esse risco, a pobreza continuará sendo estrutural.

Por fim, o poder de negociação limitado dos cafeicultores, que não têm informação de mercado ou voz na definição de seus parâmetros e contratos. Não se trata apenas de um problema moral, mas de desenho de sistema. A boa notícia é que os sistemas podem ser redesenhados, com alianças diferentes, novos modelos comerciais e métricas que coloquem renda e prosperidade do produtor no centro do debate.

Em que medida o “S” – trabalho justo e renda digna – do ESG tem sido incorporado na prática?

Durante muitos anos, o “E” de ambiente [environmental, em inglês] recebeu quase toda a atenção. Agora, o “S” começa a sair do discurso e entrar no desenho de modelos de negócio. A Meta 2030 da GCP, por exemplo, é explicitamente socioeconômica. E isso é apoiado pelo que chamamos de teoria de mudança, que conecta a prosperidade do produtor à sustentabilidade ambiental – porque não existe uma sem a outra.

No Brasil, iniciativas coletivas lideradas pela GCP com parceiros e organizações locais têm se concentrado no tema e, globalmente, cada vez mais empresas assumem compromissos com renda digna, salários justos e devida diligência em direitos humanos.

Não estamos ainda onde deveríamos, mas, pela primeira vez, a conversa dominante é sobre se o café permite uma vida digna para quem o produz. Isso é uma grande oportunidade para garantir que o que fazemos tenha impacto real para os produtores.

Como falamos, o Brasil avançou muito em sustentabilidade no café. Quais ações brasileiras mais se destacam diante das mudanças climáticas?

O Brasil entendeu algo fundamental: que, por ser grande, a sustentabilidade do café depende de uma arquitetura sólida entre políticas públicas e inovação produtiva – e isso vem sendo construído há anos. Há marcos ambientais sofisticados, como o Código Florestal e o Cadastro Ambiental Rural, que permitem compatibilizar produção e conservação.

Há também uma aposta consistente em agricultura de baixo carbono, boas práticas agrícolas, uso eficiente de insumos e, cada vez mais, sistemas agroflorestais, além de respostas estruturadas ao estresse hídrico.

Destaco ainda a capacidade de organização do setor, que consegue reunir diferentes atores para definir prioridades e construir políticas, e a vontade de inovar e medir. De estudos de renda a iniciativas de agricultura regenerativa, o país produz evidências que podem ser escaladas e adaptadas em outros contextos.

Também percebo que a cafeicultura no Brasil é, em geral, menos apegada à tradição do que em outros países, o que abre espaço para inovação constante, um dos fatores que explica, em parte, por que o Brasil é o maior produtor de café do mundo. O Brasil não é apenas um competidor, mas um parceiro estratégico para definir como pode ser uma cafeicultura sustentável em grande escala.

E quais dessas práticas podem servir de modelo para outros países?

A primeira é a agricultura regenerativa com enfoque prático. O trabalho da GCP no Brasil e de seus parceiros, ao definir elementos de agricultura regenerativa no café – desde cobertura do solo até diversificação e manejo da biodiversidade –, criou um marco claro que outros países podem adaptar às suas realidades. A segunda são os estudos de renda e o uso de dados para orientar a tomada de decisão – tanto de políticas públicas quanto de investimentos privados e compras responsáveis.

Também destaco a integração de padrões e o reconhecimento internacional. O fato de mecanismos brasileiros serem reconhecidos como equivalentes a marcos globais de sustentabilidade mostra um caminho importante para que outros países criem instrumentos próprios que também se conectem a essas referências. Em síntese, o Brasil tem muitas lições a oferecer.

Que mensagem você gostaria de dar aos produtores brasileiros que buscam alinhar qualidade, sustentabilidade e negócios de longo prazo?

Vocês já são uma referência mundial, e as decisões que tomam hoje estão definindo o padrão do que o mundo entende como café sustentável em grande escala.

A sustentabilidade não é um custo, mas um investimento em liberdade: liberdade para decidir o futuro da propriedade, negociar melhor e fazer com que a próxima geração veja no café uma oportunidade e um bom modelo de negócio. As práticas regenerativas, a adoção de tecnologias adequadas e a participação em plataformas coletivas são estratégias para ganhar poder de decisão.

Também é importante não caminhar sozinho. A agenda climática e regulatória é complexa demais para ser enfrentada de fazenda em fazenda. A força de vocês está na capacidade de organização – cooperativas, associações, plataformas –, que sempre dará vantagem competitiva e comparativa.

O futuro do café está sendo escrito – e, em boa medida, nas zonas cafeeiras do Brasil. Meu desejo é que essa história de liderança esteja sempre acompanhada de prosperidade para quem está no início da cadeia: as famílias produtoras. E, no Brasil, felizmente, isso já começa a ser uma realidade.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Divulgação

Café & Preparos

Parlamento Europeu aprova adiamento e simplificação da EUDR

Texto segue para aval do Conselho e deve ser publicado até o fim do ano

O Parlamento Europeu aprovou nesta quarta-feira (11) o adiamento e a simplificação de pontos-chave da Lei do Desmatamento da União Europeia (EUDR), que estabelece regras para garantir que produtos vendidos no bloco, como o café, não venham de áreas desmatadas. O texto, aprovado por 405 votos a 242, agora segue para endosso do Conselho e deve ser publicado no Jornal Oficial da UE até o fim do ano para entrar em vigor.

Pelo acordo, todas as empresas terão mais um ano para se adequar às exigências. Grandes operadores passarão a cumprir a lei a partir de 30 de dezembro de 2026, enquanto micro e pequenas empresas terão prazo até 30 de junho de 2027. O objetivo é garantir uma transição mais suave e permitir melhoras no sistema digital obrigatório para as declarações de devida diligência.

A revisão também simplifica exigências: pequenos operadores primários deverão apresentar apenas uma declaração simplificada, e só as empresas que colocam o produto no mercado europeu pela primeira vez serão responsáveis por enviar as declarações de conformidade. Produtos impressos, como livros e jornais, foram retirados do escopo do regulamento.

Para a relatora Christine Schneider (PPE, Alemanha), o acordo “mantém o coração da lei intacto”, ao mesmo tempo em que responde às preocupações de agricultores, empresas e governos sobre viabilidade prática e custos de implementação.

A Comissão Europeia deverá, até abril de 2026, apresentar um relatório avaliando o impacto da EUDR, especialmente sobre pequenos produtores e operadores — tema sensível para países exportadores como Brasil, Vietnã e Costa do Marfim.

Fonte: europarl.europa.eu

TEXTO Redação

Cafezal

Brasil lidera oferta de cafés sustentáveis a grandes torrefadoras globais

Relatório da Plataforma Global do Café mostra que empresas líderes compraram mais de 75% de grãos sustentáveis em 2024; Brasil respondeu por mais 664 mil toneladas, o maior volume entre as origens

O Relatório de Compras de Café Sustentável de 2024, publicado este mês pela Plataforma Global do Café (GCP) revelou que mais empresas integrantes da plataforma compram cafés sustentáveis em um volume maior. Os cafés sustentáveis, ​​declarados por 11 torrefadoras e varejistas líderes no mercado, representaram 75,36% do total de compras relatadas –  o equivalente a 21% das exportações globais de café verde em 2023/24 (dados da ICO).

Entre essas 11 empresas integrantes da plataforma – são 176 membros, em sua maioria empresas e entidades do setor – estão JDE Peet’s, Keurig Dr Pepper, Grupo Melitta e Nestlé. Em 2024, nove empresas forneceram informações à plataforma. Constam dos relatórios coletivos do GCP dados que revelam não só o volume total de cafés adquiridos em 2024 (sustentáveis ou não) por cada uma dessas empresas como, em alguns casos, de onde vieram esses cafés. 

“Estamos satisfeitos em ver o número crescente de empresas que adotam a transparência”, comemorou Anette Pensel, diretora-executiva da GCP, em comunicado. “Os consumidores de café, os acionistas corporativos e os investidores esperam ter acesso cada vez maior a informações transparentes sobre as estratégias de sustentabilidade, o progresso e o impacto do nosso setor.”

Com métricas comuns, que permitem comparações, o relatório, que está em sua 6a edição, fornece um panorama sobre a demanda por cafés sustentáveis dessas empresas ao longo dos últimos anos, originários de 34 países. Desde 2018, por exemplo, o volume total de café sustentável adquirido aumentou mais de 170%, passando de quase 64o mil toneladas para cerca de 1,74 milhão de toneladas em 2024. 

Das origens, o Brasil é, de longe, o que mais vendeu cafés sustentáveis (pouco mais de 664 mil toneladas), seguido do Vietnã, com cerca de 446 mil toneladas.

Além do progresso na aquisição de cafés sustentáveis, o relatório mostra transparência nas aquisições, o que, segundo Anette, é um incentivo para a melhora contínua de produtores e de toda a cadeia. Há empresas que avançam de forma consistente na agenda da sustentabilidade, como a torrefadora familiar Julius Meinl, de Viena, na Áustria, que ampliou a participação de cafés adquiridos sob critérios sustentáveis de 21,75% em 2022 para 71% em 2024.

O critério para definir se esses grãos comprados são sustentáveis ou não passa por aval da plataforma, cujas diretrizes fundamentais de sustentabilidade estão expressas em um Código de Referência de Sustentabilidade do Café (Coffee SR Code). 

Ao todo, 26 programas de sustentabilidade são reconhecidos pela GCP. Somados, eles abrangem mais de 2,6 milhões de cafeicultores e 5,8 milhões de hectares plantados. Entre eles estão o Nespresso Programa de Qualidade Sustentável AAA, da Nestlé, o protocolo Gerações, da cooperativa Cooxupé, e o programa Impact, da trader suíça Sucafina.

Confira o relatório completo aqui.

Mercado

Por que o cacau agroflorestal é um aliado para manter a Amazônia em pé?

Por Beatriz Marques

Quem diria que no início dos anos 1970 a ordem do governo era para desmatar a Amazônia? Com a justificativa de povoar a região para impedir a “invasão estrangeira”, a rodovia BR-230, popularmente conhecida como Transamazônica, foi criada pelo regime militar e, a partir da inauguração do primeiro trecho, em 1972, veio também o “convite” aos cidadãos de diferentes pontos do país para habitarem as redondezas e tirarem a floresta da frente. “Quem vinha para cá e desmatava 100 hectares ganhava outros 100”, relembra a engenheira agrônoma Hélia Félix, responsável técnica pela Cacauway, a primeira fábrica de chocolates do Pará. Naquela época, seu marido, Leandro Sotelo, migrou do Paraná para o que é atualmente o município de Medicilândia e viu monocultivos de milho, arroz, feijão e cana-de-açúcar conquistarem seu espaço na Amazônia.

Hoje sabemos que a realidade é outra: agora, a ordem é manter a floresta em pé e recuperar áreas degradadas. Quando a aplicação do Código Florestal passou a ser exigida de forma mais efetiva, em 2008, estabeleceu-se a manutenção de 80% da cobertura de vegetação nativa em áreas de propriedades rurais na Amazônia Legal (que inclui Pará, Acre, Roraima, Rondônia, Amazonas, Mato Grosso, Amapá, Tocantins e uma porção do Maranhão). Na chamada Reserva Legal, é permitida a exploração econômica de manejo sustentável, sem descaracterizar e prejudicar a conservação da vegetação do bioma, assegurando a manutenção da diversidade e, caso seja feito o manejo de espécies exóticas, que seja para favorecer a regeneração das nativas.

Quem acabou desempenhando um papel importante nessa mudança, como alicerce para preservar a biodiversidade amazônica, foi o cacau. “Como é nativo do bioma, os agricultores viram no cacaueiro uma solução para manter a rentabilidade nesses 80% de reserva”, explica Guilherme Salata, coordenador do CocoaAction Brasil, iniciativa público-privada para o desenvolvimento da cadeia sustentável do cacau no país.

Com produção anteriormente tímida – pois, desde os anos 1960, a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) já introduzia sementes híbridas do cacau para o cultivo na região –, hoje a área da Transamazônica transformou-se no grande polo produtor do Pará, colocando o estado em destaque na cena cacaueira nacional. “Na Transamazônica se produz mais de 80% do cacau do Pará, e a terra fértil é um dos diferenciais”, comenta Ivaldo Santana, coordenador do Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva da Cacauicultura (Procacau), que faz parte da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap) em parceria com a Ceplac.

O que faz o cacau tornar-se um aliado na preservação da Amazônia é seu cultivo em sistema agroflorestal (SAF), no qual há um consórcio de culturas agrícolas e florestais que interagem bem e mantêm a diversidade biológica. No caso do cacaueiro, que naturalmente precisa de sombra, o SAF tem desenhos com diferentes espécies florestais nativas, como mogno e andiroba, além de outras árvores frutíferas, como cupuaçu e açaí, e de sombras provisórias, como a banana e a mandioca. “Há uma diversidade imensa de SAFs. Só no município de Tomé-Açu [outra importante região produtora no nordeste paraense], onde cacau e açaí são considerados ‘as joias da coroa’, foram encontrados 409 arranjos distintos”, conta Walkymario Lemos, chefe-geral da Embrapa Amazônia Oriental.

Cacau em SAF e, à direita, em secagem

Esse sistema é um “mundo ideal” para a região amazônica, pois traz inúmeras vantagens ao meio ambiente e aos agricultores. “Temos aqui em torno de 160 mil hectares recuperados em SAFs desde 2006, em um total de 230 mil hectares plantados de cacau”, diz Santana sobre o território paraense. Muitas áreas degradadas, usadas para pastagens, por exemplo, têm sido convertidas para os SAFs. “Temos uma legislação no Pará para dar prioridade às áreas que foram desmatadas no passado”, explica Santana, referindo-se às ações de incentivo da Procacau. Vale também citar que as propriedades agrícolas com cacau desflorestam menos do que as que não plantam o fruto, pois, como é uma cultura perene, usa-se menos o fogo no preparo da área.

Além disso, o manejo dos SAFs é mais vantajoso para os agricultores, pois não necessita de tantos defensivos agrícolas. “Por meio da diversidade que compõe o arranjo, cria-se um microambiente favorável, em que há menos incidência de pragas e doenças”, conta Salata.

Outro ponto importante é o socioeconômico, já que, majoritariamente, os SAFs estão nas mãos de pequenos produtores, da agricultura familiar. “Dos 32,7 mil produtores do Pará, 95% são agricultores familiares, que têm em média cinco hectares. Em Medicilândia, que é o maior produtor do Brasil, a média sobe para sete hectares”, explica Santana.

Além disso, o aumento crescente do preço do cacau tem ajudado não só a permanência das pessoas na terra como atraído novos agricultores. Segundo a Sedap, o preço médio do cacau comercializado no estado em 2024 foi de R$ 40 o quilo, gerando uma renda líquida média mensal de R$ 11,2 mil para propriedades de cinco hectares. E o Pará, líder na produção de cacau no país, com registro de 143.675 toneladas em 2024, é o estado brasileiro que mais cresce em área plantada. “O aumento anual de áreas plantadas com cacaueiro é de 8 mil hectares, com cerca de mil novos produtores. E nós temos a maior produtividade do mundo atualmente, com 847 kg por hectare”, revela Santana.

No ano passado, dos R$ 5,7 bilhões de valor bruto adquirido a partir da comercialização do fruto, R$ 358 milhões foram pagos em impostos ao Pará (via ICMS) – deste montante, R$ 8 milhões foram repassados pelo governo estadual ao Fundo de Desenvolvimento da Cacauicultura (Funcacau), voltado para apoiar várias ações e projetos para o desenvolvimento da produção de cacau. “Os recursos usados vão desde suporte técnico até o custeamento dos nossos produtores em eventos internacionais”, explica o coordenador da Procacau. “Somos o único estado a ter um fundo voltado para o cacau”, completa.

Para quem aposta nos SAFs, além dos benefícios econômicos e ambientais, há outras oportunidades a caminho. “No futuro, será possível capitalizar os produtores com créditos de carbono e, muito em breve, devemos ter também crédito para a biodiversidade, um aspecto muito marcante dos sistemas agroflorestais”, avisa Lemos.

Walkymario Lemos, chefe-geral da Embrapa Amazônia Oriental

Mesmo sendo predominante, os SAFs não são as únicas formas de cultivo do cacau no estado. O chamado cacau de várzea, bastante encontrado no Baixo Tocantins, não faz uso de adubação e aditivos químicos, e suas plantas no meio da floresta são adaptadas às oscilações das águas dos rios amazônicos. Considerado uma iguaria por muitos chocolateiros e premiado internacionalmente, o cacau de várzea tem origem em plantas nativas – diferentemente dos SAFs, que usam sementes híbridas, selecionadas e fornecidas gratuitamente pela Ceplac. “Suas amêndoas possuem bastante manteiga e são muito apreciadas, mas têm produtividade bem baixa, de 250 quilos por hectare”, comenta Santana.

Na outra ponta, surge – ainda de forma tímida – um modelo que começa a se expandir no Pará: o cultivo a pleno sol, já comum em outras regiões do país. Entre suas principais diferenças em relação às versões SAF e de várzea estão o monocultivo de clones em área sem sombreamento, mas com muita adubação e irrigação, e uma produtividade média inicial (nos primeiros anos de cultivo) até quatro vezes maior se comparada a dos sistemas agroflorestais. Mas existem os “poréns”. “O modelo, a nosso ver, carece de informações científicas concretas na Amazônia”, diz Lemos, da Embrapa. “Por mais que se tenha uma alta produtividade, não se conhece com precisão por quanto tempo o cacaueiro a pleno sol mantém-se assim. Se, por um lado, ele pode ser vantajoso, pois, como são clones, eles produzem com mais uniformidade, por outro, a vulnerabilidade da planta é igual para todos. A ciência ainda precisa avançar para gerar informações seguras sobre o modelo”, analisa.

Do lado da Procacau, o cultivo a pleno sol encontra restrições, já que o Funcacau dá prioridade a projetos baseados em sistemas agroflorestais (SAFs). “Se um município pede recursos para cultivo solteiro, o pedido dificilmente será aprovado”, avisa Santana. “A orientação técnica, seja da Ceplac ou da Emater, é que o cacau seja plantado com sombreamento, mas o produtor é livre para escolher”, completa. Para Lemos, “é pouco inteligente buscar apenas o olhar da produtividade e ter essa produção [a pleno sol] constantemente questionada em relação à sustentabilidade.”

A chegada da 30a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), marcada para novembro em Belém, será uma oportunidade para que o mundo conheça os aspectos socioeconômicos e biodiversos das SAFs do cacau. A Embrapa Amazônia Oriental, a cerca de 2 quilômetros dos principais eventos da COP30, será sede da AgriZone, iniciativa para debates sobre agricultura e mudanças climáticas, onde 3 mil hectares, montados como vitrines vivas e virtuais, apresentarão soluções sustentáveis para cadeias produtivas, como as SAFs – e inclui, claro, o cacau. “Queremos tirar a imagem do desmatamento e mostrar para o mundo que somos um estado que recupera as áreas desmatadas e dá boa renda ao produtor com o cacau da Amazônia”, deseja Santana.

Texto originalmente publicado na edição #89 (setembro, outubro e novembro de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Beatriz Marques • FOTO Divulgação

Afinal, qual é o estoque dos EUA?

Por Gustavo Paiva

Há mais de dois anos, a National Green Coffee Association (Associação Nacional de Café Bruto dos Estados Unidos) eliminou uma ferramenta indispensável de informação para a cadeia produtiva. 

Desde então, as estimativas de estoques norte-americanos mais confiáveis têm sido publicadas gratuitamente apenas pelo Departamento de Agricultura do país (a USDA) e mediante pagamento pela Associação Nacional de Café (NCA). Temos, também, as estatísticas da Intercontinental Exchange (ICE), que se referem apenas aos cafés registrados em armazéns certificados nos Estados Unidos e na Europa.

Em agosto, com o início das tarifas impostas pelo governo norte-americano ao Brasil e a outros países produtores, muito se especulou sobre a quantidade disponível de café para consumo imediato nos Estados Unidos, com algumas estimativas apontando para 60 dias de consumo. 

Apesar do fim das tarifas, algumas perguntas ainda estão sem respostas: até quando os estoques atuais aguentam? A quem interessa a falta de informação sobre os estoques no maior mercado consumidor de café do mundo? E quais seriam as instituições com credibilidade suficiente para opinar sobre o tema?

Se a pergunta principal desta coluna, relativa à quantidade e ao prazo de alcance dos atuais estoques nos EUA parece ser inalcançável para a maioria das pessoas, nos resta a pergunta seguinte: a quem interessa o segredo? As instituições norte-americanas têm o direito de proteger os interesses da própria indústria, mas elas devem ser levadas a sério como fornecedoras de dados globais? Qual seria, portanto, a credibilidade de organizações que, agindo em conflito de interesse, se colocam como fornecedoras de estatísticas confiáveis?

Frequentemente, o desencontro de dados entre a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística  (IBGE) é apontado como prova da incapacidade de as instituições brasileiras fornecerem ao mundo dados da produção nacional. Além, é claro, de frequentes acusações de conflito de interesses em relação à própria indústria nacional. 

Interessante lembrar que estas acusações são frequentemente feitas por atores que buscam questionar o profissionalismo e a metodologia das organizações brasileiras. Além de suporem, ainda, um conflito de interesses das nossas instituições, que teriam a intenção de pressionar os preços para cima e beneficiar os  produtores nacionais.

O que vemos, portanto, é o tradicional cabo de guerra de informações com acusações, possíveis erros metodológicos e a suposta falta de credibilidade de organizações nacionais em fornecerem dados concretos de produção. Cabe a reflexão: as acusações feitas às nossas instituições não poderiam ser igualmente aplicadas a instituições similares em países consumidores? 

A liberdade de informação, de comércio e de opinião é um dos pilares da sociedade norte-americana, e existe desde a independência do país (em 1776). Porém, não há liberdade que resista à tentação do protecionismo, cabendo aos agentes de mercado nos países produtores atenção à hipocrisia e à demagogia daqueles que não têm, e nunca tiveram, interesse na prosperidade da cadeia como um todo. 

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi   consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

Barista

Museu do Café abre exposição sobre percurso do café à xícara nesta sexta (12)

Embora a qualidade do café seja difícil de definir, é possível percorrer o caminho que transforma a planta em bebida e compreender como cada etapa influencia o que chega à xícara. Essa é a ideia da exposição “Café à Prova” do Museu do Café (rua XV de Novembro, 95 – Centro Histórico – Santos), que começa sexta  (12) no primeiro andar do edifício.

Correalizada pelo Cafés do Brasil, com apoio da BSCA (Associação Brasileira de Cafés Especiais) e patrocínio da Cooxupé (Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé) e da Ocramar Comércio e Exportação de Café, a mostra temporária promove uma imersão na temática com recursos visuais e interativos.  

A exposição aborda os diversos fatores que impactam a experiência de consumo, da variedade escolhida ao modo de preparo, com destaque para a prova de café. Um dos espaços centrais é a sala de prova, dedicada à experiência sensorial, onde haverá sessões de degustação e demonstrações do procedimento de prova. O objetivo é que os visitantes explorem diferentes métodos de preparo e variedades de grãos, refletindo sobre a qualidade da bebida a partir de suas próprias memórias, percepções e sensações.

“Temos a missão de preservar a história do café, mas também de atualizar essa narrativa, acompanhando as transformações do setor e a evolução dos hábitos do consumidor”, comenta Alessandra Almeida, diretora-executiva do Museu do Café. “Café à Prova vem justamente para ampliar o entendimento dos visitantes sobre as qualidades do café e como todo o percurso do grão à xícara impacta a experiência final de consumo”, aponta.

A mostra fica até agosto de 2026. O Museu do Café funciona de terça a sábado, das 9h às 18h, e aos domingos, das 10h às 18h. A entrada custa R$ 16, sendo gratuita aos sábados.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Barista

Origami Cup acontece no sábado (13) na Casa Osten, em São Paulo

A segunda edição da Origami Cup acontece neste sábado (13) na Casa Osten, no bairro paulistano de Pinheiros. A ideia da competição é divulgar o uso do dripper japonês, feito de cerâmica com relevos verticais laterais. 

“Houve um aumento significativo de competidores e um amadurecimento técnico que fortalece nossa cena de cafés especiais”, comemora Melissa Hsu, diretora da Origami Brasil, que destaca a proximidade do evento brasileiro com as competições internacionais – a primeira delas nasceu em 2019 na Indonésia, e hoje acontece em 14 países.

Neste ano, 36 baristas de vários estados vão disputar o título de melhor preparo no método japonês. Divididos em chaves de três competidores, eles têm cinco minutos para preparar e apresentar, no mínimo, 150 ml de café. O café escolhido para esta edição é de Luiz Paulo Pereira, da Fazenda Irmãs Pereira, em Carmo de Minas (MG), e a torrefação é a 15 Coffee Company, de Sorocaba (SP). 

Os participantes são avaliados tecnica e sensorialmente por júri técnico de Q-Graders e especialistas em cafés especiais, como Caio Alonso Fontes, CEO da Espresso&CO, Camila Arcanjo, coordenadora do Sindicafé-SP, Everton Tales, Coffee Hunter da 3corações, Bruno Megda, campeão brasileiro de Cup Tasters 2024 e Dionathan Almeida, campeão mundial de Cup Tasters 2024.

Além do troféu, os três primeiros lugares recebem prêmio em dinheiro (R$ 5 mil para o primeiro lugar, R$ 2 mil para o segundo e R$ 1 mil para o terceiro) e kit dos patrocinadores e apoiadores.

A 2ª edição da Origami Cup é patrocinada por Fazenda Guariroba, Bioma Café, Larulp, +Mu, Casa Bueno e Mundo Novo. Apoio de Nude, Peneira Alta Armazéns, Pasquali Máquinas, Kaleido, Fazenda Santo Amaro, FNA, Café das Letras e Table Comunicação. A Espresso é mídia oficial.

Serviço
2ª edição da Origami Cup
Quando: 12 de dezembro
Horário: 8h às 17h
Onde: Casa Osten – rua Henrique Schaumann, 170 – Pinheiros – São Paulo (SP)
Mais informações: www.instagram.com/origami_cupbr 

TEXTO Redação
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