Personagens

O café é a ferramenta para eu contar minha história

Barista e cafeicultora indígena, Celesty Suruí transforma o café em instrumento de memória, educação e valorização da cultura indígena na Amazônia

Por Cristiana Couto

Celesty Suruí vem ao meu encontro com sorriso largo. Estamos no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, onde acabara de estrear a exposição “Paiter Suruí, Gente de Verdade – Um projeto do Coletivo Lakapoy”. É meu segundo encontro com a jovem de 22 anos e da etnia Paiter Suruí, que vem chamando atenção por produzir café especial na região amazônica e ser, também, barista. A primeira barista indígena, como é conhecida. 

Com postura firme, sustentada por um misto de orgulho e emoção, Celesty abre a porta do espaço do IMS que leva ao seu universo, revelado em 800 fotografias forrando as paredes. As imagens foram registradas pelos Paiter Suruí depois do contato com os brancos, em 1969, quando, no atual território Terra Indígena Sete de Setembro, na fronteira de Rondônia e Mato Grosso, foram deixadas as primeiras câmeras. Atravessamos a porta e o tempo.

“O povo Paiter Suruí é conhecido como gente de verdade”, explica Celesty, dando início ao meu tour particular. “Os Paiter tinham uma regra antes do contato: você não podia matar o próximo, você não pode brigar com uma pessoa, você tem que respeitar o seu próximo. De acordo com essas regras, eles se consideravam como gente de verdade”, continua ela, referindo-se também à espiritualidade dos Paiter. “Era só Paiter antes do contato. Depois, a Funai não soube se a etnia tinha um nome específico, e aí, com a demarcação do território, eles colocaram Suruí. Em respeito a eles, a gente manteve o nome Paiter Suruí”, completa Celesty, referindo-se ao período entre a demarcação do território e o retorno de seu povo a ele, no início dos anos 1980. 

Celesty interrompe o relato para apresentar parentes que vieram à exposição. “Tenho duas mães. Meu pai é casado com duas mulheres”, esclarece, ao apresentá-las. conheço também sua prima, Txai Suruí, “ativista famosa, ‘brabíssima’”, introduz a barista. 

Por quase uma hora, Celesty escolhe fotos que revelam o olhar indígena sobre sua própria história. “A gente vai ver fotos bem recentes, com esta de jovens dançando na igreja, e outras bem mais antigas, que nem eu conheço”, explica ela, apontando uma mulher fazendo tipoia para carregar bebês. “Este é o ex-pajé”, aponta para outro retrato. “Geralmente, os pajés são escolhidos pelos espíritos. Só que o pajé não pode ter uma família, mas ele queria uma e parou.” 

Em outras imagens, identifica as primeiras lideranças a caminho de Brasília, que conseguiram demarcar o território. E a festa mapimaí, que representa a criação do mundo e que persiste até hoje entre seu povo. Os pajés que, todas as manhãs, tocam flautas, chamando os espíritos para fortalecer a aldeia. Os primeiros jovens a estudar, o primeiro casamento religioso, a primeira igreja do território. 

E mostra uma foto sua ainda criança, a dos avós de quem sente saudades, a do irmão. “Ele é o fundador do coletivo Lakapoy”, diz ela de um dos 18 irmãos, o fotógrafo Ubiratan Suruí, que saiu cedo de casa para estudar na cidade e, ao lado de Txai Suruí e Gabriel Ushida, fundou o coletivo organizador da exposição no Moreira Salles. “A gente quer levar esse acervo para a aldeia, para contar para os jovens que ficaram. As crianças têm que saber a história.”

Ela pára diante do primeiro retrato de seu povo: “A gente ainda era nu. Depois do contato, perdemos anciãos, pajés, lideranças, por causa de epidemias [como as de tuberculose e sarampo] e de luta. As pessoas que não morriam por epidemia, morriam por balas”. Paira o silêncio. Entre as décadas de 1940 e 1950, havia mais de cem mil indígenas em Rondônia. Em 1985, restavam apenas 2,5 mil, “vítimas da abertura da fronteira agrícola e das políticas de incentivo à exploração de recursos naturais que visavam principalmente a ocupação da região norte do Brasil”, informa um dos textos de Rondônia em Imagens, livro do fotógrafo goiano Kim-Ir-Sen Pires Leal publicado em 2024. Segundo os Paiter, após o contato, de 5 mil de sua etnia restaram 250 pessoas.

Os Paiter Suruí dividem-se em quatro clãs: namir, nome de um marimbondo amarelo, makor (“o bambu”), gameb (“um grande maribundo preto”) e kaban (“uma frutinha amarela”) – este último, originário da mistura dos Paiter com os Cinta Larga, também falantes de tupi-mondé. Descubro, então, que na cultura Paiter, os casamentos só podem acontecer entre clãs diferentes. 

Ela, porém, não seguiu o destino que lhe foi dado. Nascida na aldeia Lapetanha, Celesty percebeu, com a gigante do café 3corações e a jornalista Kelly Stein, idealizadora da empresa Coffea Trips, a oportunidade de traçar seu caminho como barista e produtora de café. Os detalhes dessa trajetória ela relata na descontraída conversa que tivemos depois da exposição, cujos melhores momentos selecionamos a seguir.  

Plantar significa vida 

A relação da minha família com o café começou antes de eu nascer. Meu pai foi um dos primeiros produtores dentro do território indígena. Ele e meu avô estavam entre os que não quiseram cortar a plantação. Tudo começou em 1969, no primeiro contato com pessoas não indígenas, que chamamos de yara-ey. 

Depois da demarcação do território, em 1983, a Funai retirou os colonizadores para que os indígenas retornassem às áreas roubadas. Voltamos e encontramos plantações deixadas por eles — de soja, milho e café.

Meu pai era novo na época, e meu avô era um dos habitantes da aldeia Pawentigah, a primeira fundada depois do contato. Uma parte adotou o café, porque, como sempre digo, plantar é algo importante para nós, significa vida. Outra parte preferiu derrubar tudo, e eu entendo: como conviver com algo que causou tanta destruição e matou pessoas da família? Os que decidiram manter o café foram muito corajosos. Nós o acolhemos como nosso e, até hoje, trabalhamos com ele.”

A fruta do milagre

“Alguns anos depois, meu povo começou a trabalhar com reflorestamento — e fazemos isso até hoje. Demarcamos apenas metade do território invadido, e essa área tinha muita floresta derrubada e pastagens. Adotamos o café como uma forma de reflorestar.

Com o tempo, vimos que ele dava fruto, e isso tornava o café ainda mais especial. Na época da maturação, os grãos ficavam vermelhos. Então, alguns comentavam: ‘Não é coisa ruim, é coisa boa. É daqui da floresta’. O cacique chamava a comunidade para experimentar. Diziam que era a fruta sarikab, nativa da Amazônia e que hoje é conhecida como fruta do milagre.

A gente acreditou que fosse uma fruta da nossa cultura, da floresta. Anos depois, um produtor próximo ao território viu que estávamos comendo a fruta e jogando o caroço fora.”

Contato com cafeicultor

“Esse produtor ainda tinha medo, porque as pessoas eram muito agressivas naquela época. Ninguém falava português, e os não indígenas também não falavam nossa língua. 

Mas os Paiter e esse cafeicultor criaram amizade, e ele começou a ensinar nosso povo: ‘Não é assim que se trabalha. Existe um processo para transformar essa fruta em bebida’. Ele foi ensinando os homens a trabalhar com café, com a leitura do território. Passaram a cuidar daquela roça — era uma área muito grande. Dividiram o trabalho por clãs: ‘Este clã cuida desta parte; aquele, de outra.’ E assim por diante. Depois de alguns anos, viram que o café que vendiam ajudava na renda das famílias.

Mas, mesmo depois da demarcação do território, havia invasões — gente entrando para pescar, tirar madeira e outras coisas. A primeira aldeia acabou se dividindo em várias outras para proteger a área. Então, todos queriam trabalhar com café. Pegavam as sementes e plantavam, mas era conilon, não o robusta amazônico. Com o tempo, passamos a trabalhar também com cacau nativo e castanha.”

Trabalho sustentável 

“Fizemos um projeto com o apoio da Aquaverde, uma empresa da Suíça, que ajudou os Paiter a reflorestar essas áreas. Esse trabalho começou em 2003, quando eu tinha dois anos. Então, cresci no território vendo meu pai, Agamenon Gamasakaka Suruí, trabalhando com café e reflorestando as áreas que foram degradadas. Até hoje a gente trabalha de forma sustentável, porque usamos o café e o cacau para reflorestar. Hoje, já temos mais de 500 mil plantas no território, que virou uma floresta, com várias espécies frutíferas também.”

Transformação pela qualidade

“Em 2018, três famílias indígenas foram conhecer a SIC [Semana Internacional do Café], e viram que era uma coisa imensa. Voltaram para a aldeia e falaram: ‘a gente tem que fazer alguma coisa, porque é algo com que trabalhamos há muitos e muitos anos’. E tudo começou com a empresa 3corações, que veio nos visitar em 2019, e o projeto Tribos. Com eles, a gente entendeu o que era um café especial, o processo de seleção dos grãos, a fermentação. O projeto começou com três famílias. A empresa enviou profissionais para capacitar os indígenas e isso se expandiu pelo território. Hoje, o projeto trabalha com sete etnias, com mais de 176 agricultores que trabalham café especial de forma agroflorestal, sustentável, e nossos cafés já são premiados. São mais de 38 aldeias aqui no território, e a maioria trabalha com café – outros, com a produção de cacau e castanha. O projeto não só trouxe para nós um jeito diferente de olhar o café, mas trouxe a transformação do território, de vidas. 

Antes do projeto, a gente olhava o café como algo só para ser vendido, não queria qualidade, só quantidade. Hoje a gente quer produzir qualidade, da maneira certa, para não degradar o território porque vai prejudicar não só a comunidade, mas todos. Porque a terra não é só nossa, mas de todos. 

Em 2023, ganhei o terceiro lugar na Florada Premiada [uma das iniciativas do Projeto Florada da 3corações, que valoriza microlotes cultivados por mulheres], com um café do quinto ano de produção. O projeto mudou a minha história.” 

A vontade apareceu

“Depois de ensinar outros produtores de Rondônia, a Kelly, em parceria com a Kanindé [associação de defesa etnoambiental], convidou quatro meninas da aldeia para fazer um curso de café. Eu acompanhei o pessoal, e vi que pessoas da minha cidade não conheciam nossa relação com o café. Imagine pessoas de outro estado, então! Aí, pensei, alguma coisa tem que acontecer, senão a gente vai ficar sempre calado.”

Quero ser barista

“Foi então que pedi ajuda à Kelly para trabalhar com café – é bem estranho pedir ajuda para quem a gente não conhece. Ela falou: ‘Vou levar você para São Paulo, para fazer o curso completo’. Aí eu disse para minha mãe: ‘Quero fazer um curso de barista’. Ela nem sabia o que era, e respondeu: ‘Não, você não pode. O mundo é perigoso, há muita gente ruim. Você ainda é menina’. Eu tinha 18 anos. Na minha cultura, é muito difícil uma mulher sair da aldeia. Para o meu povo, ela deve cuidar da família e educar os filhos. Minha família é muito tradicional — meu pai e minha mãe tinham medo de que algo acontecesse comigo e não queriam que eu saísse.

Falei com meus irmãos, mas eles também acharam muito perigoso sair da aldeia. Então, falei com meu irmão fotógrafo. Ele me apoiou e disse para minha mãe: ‘O mundo não é mais como antes, todos precisam trabalhar para sobreviver’. Uma das minhas cunhadas me deu apoio também. Então, disse para minha mãe que iria, e fui. Estava com medo, porque era a primeira vez que saía da aldeia.

Eu não queria ser a primeira barista, só queria preparar café e ensinar as lideranças, porque já estávamos trabalhando com turismo. Queria trazer mais visibilidade para a aldeia através do café, não queria sair de lá. Mas o destino estava me preparando para outras coisas também.”

A primeira barista indígena

“Digo que a Kelly foi meu ‘anjo da guarda’. Ela tem amigos em Campinas que têm uma cafeteria, a Abigail, e eles me receberam para ensinar todo o processo de preparo e os métodos do café. Essa cafeteria sempre vai fazer parte da minha história, porque fui muito bem recebida por eles. Fiquei um mês morando sozinha em Campinas. Voltei para a aldeia com outra visão, mas tinha medo de não ser bem recebida, porque comecei a dar entrevistas para jornalistas. Eles me disseram: ‘Celesty, você é a primeira indígena barista que conhecemos’, e me chamaram de a primeira indígena barista. Naquele ano, meus irmãos queriam parar de trabalhar com café. Eu falei, agora que comecei a entrar no ramo do café, não vou deixar a gente parar. E comecei a sonhar muito.”

Pensando grande

“Sonhei em ter uma cafeteria na aldeia. Meus irmãos me apoiaram e começamos a construir a cafeteria no fim de 2023. Como a gente está fazendo com o nosso próprio dinheiro, a construção está um pouquinho devagar, mas acho que vai ficar pronta no começo de 2026. Vai ter uma salinha pra fazer cafés, outra sala pra vender os cafés e um espaço com fotos contando a história do café, da família e do povo. 

No começo de 2024, eu também lancei uma marca de café da família, o Café Sarikab, a fruta nativa que comentei. Colocamos esse nome porque uso o café como ferramenta para contar a minha história. A gente começou a trabalhar o nome da marca pensando quais palavras iam ficar certas, quais grafismos a gente ia colocar. Eu e meus irmãos, reunidos com meu pai e minha mãe, para que eles orientassem a gente, porque o ancião tem que orientar os mais jovens para tudo sair mais certo. Eu ganhei uns amigos de Minas, e eles fizeram o desenho do logo, das embalagens, e não precisei pagar.”

O café Sarikab

“A gente faz todo o processo na aldeia e vende por encomenda. Trabalhamos com o tradicional e o especial. Se for um café especial natural, a gente colhe só os frutos maduros, lava esses frutos e depois coloca no terreiro suspenso ou nas lonas para secar. Os fermentados, a gente também colhe os maduros, depois separa – tira o grão verde e o amarelo – e só deixa os cerejas. Depois lavamos e colocamos nas bombonas, onde ele vai passar de 10 até, no máximo, 15 dias por um processo [fermentativo] anaeróbico. Chamamos de café especial fermentado. Os que mais saem são os cafés especiais, o tradicional a gente vende na comunidade. 

Temos vários eventos em Rondônia, onde os produtores divulgam suas marcas. A gente também participa, prepara os cafés e apresenta como eles são produzidos dentro do território, divulgando nossa marca.” 

Na SIC, o Brasil me conheceu

“Em 2022, minha primeira professora, Helga Andrade, que trabalhava para o Sebrae, teve a ideia de eu entrar na equipe que ia para a SIC para preparar os cafés de Rondônia. Eu era a única indígena e falei que não estava preparada ainda. Ela falou: ‘ou é agora ou é nunca. Você sempre tem a primeira vez’. Aí eu fui, e foi a primeira vez que preparei cafés para as pessoas – era muita gente, muitos jornalistas. Fiquei muito nervosa, mas foi bem emocionante. Daí, o Brasil inteiro me conheceu.

Depois, a empresa 3corações entrou em contato comigo e fez uma proposta: ‘você quer preparar os cafés da sua região, do seu território?’ Respondi que iria pensar, porque representar um povo é uma responsabilidade muito grande. Se você errar uma palavra, pode ser julgada. Se falar uma coisa certa, pode se sentir abraçada. É uma coisa bem arriscada. Depois de alguns meses, aceitei a proposta e hoje sou a responsável pelo projeto Tribos.”

Servindo o presidente

“Quando eu estava em processo de fazer a minha marca, o pessoal da Embrapa convidou os produtores para apresentar os cafés robustas no evento [exposição feita em Brasília, em abril de 2024, para comemorar o aniversário da Embrapa]. Então, eu fui como barista, e, como tinha que representar meu povo, levei o café do Projeto Tribos, e apresentei o projeto também. Não sabia que ia apresentar o café para o presidente, mas os meus colegas sabiam. Acho que foi uma surpresa para mim. Quando chegou o dia, o pessoal me falou: ‘ah, você vai preparar o café para o presidente’. Aí fiquei nervosa, mas preparei. Como representante do meu povo, estava com medo de falar ou fazer alguma coisa que não agradasse os produtores. Mas foi uma representação muito simbólica, porque estava representando todos os participantes do projeto. E preparar um café para o nosso presidente, uma pessoa que é importante para o Brasil, foi muito emocionante, um dia muito importante.”

Desafios para indígenas cafeicultores

“Um dos maiores é a valorização do trabalho de um cafeicultor indígena. Isso é muito raro de se ver. E outro é valorizar o trabalho dos pequenos produtores. Muitas empresas querem trabalhar com os grandes produtores, mas não valorizam muito os pequenos. Acessar o mercado é bem difícil, as empresas querem grandes lotes e quantidade, e isso a gente não tem condições de dar, ainda mais no território indígena. Somos pequenos cafeicultores e produzimos pequenos lotes.”

Conselho para os jovens como eu

“Coragem de enfrentar o medo. O medo sempre vai existir, em todas as ocasiões e momentos. A gente precisa enfrentar o medo e saber lidar com o mundo, porque o mundo é grande, e a gente não conhece o bastante. Tem que estar preparado para qualquer coisa que está por vir. Eu já enfrentei bastante desafios, e enfrento ainda, como liderança, como uma fundadora de uma empresa. Tem dias que a gente vai se sentir só. Mas vão ter pessoas para nos apoiar. Na maioria das vezes, acho que isso é coragem, que não pode faltar. Para os jovens indígenas, eu diria para estar preparado mentalmente e fisicamente, porque não sabemos o que pode acontecer. Estar sempre pronto e disposto.”

Sonhos 

“Sonho é uma coisa muito importante para mim. Com a cafeteria que estou construindo, quero trazer mais visibilidade dentro dos territórios indígenas, não só da minha comunidade, trazer mais visibilidade para os jovens. Eu uso o café como forma de me comunicar com o mundo, e pretendo trazer mais pessoas comigo, mulheres e homens, para que a gente possa representar a nossa comunidade inteira. Meus pais, meus avós, já fizeram a parte deles, e quem precisa fazer alguma coisa agora somos nós, jovens, que são as futuras gerações.”

Para os leitores…

“Quando a gente sonha com uma coisa, o impossível se torna possível. Quando a gente acredita em nossas forças e nas forças das pessoas que a gente tem conosco. Isso é o poder do sonho. Quando você sonha muito alto, ele pode se tornar real. Eu sou a prova viva disso. E quero dizer que devemos fazer não só para a gente mesmo, mas para todos. A gente vive para todos.”

Texto originalmente publicado na edição #89 (setembro, outubro e novembro de 2025) da revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Agência Ophelia

Únicos cafezais europeus podem ser inspiradores

Pés de café cultivados nas Ilhas Canárias

Por Gustavo Paiva

Por mais surpreendente que possa parecer, a Europa já cultiva café em seu próprio território. Embora os cultivos se concentrem em duas regiões isoladas do continente — nos Açores e nas Ilhas Canárias —, pode-se dizer que ali estão os cafés mais próximos da Europa continental e os mais ao norte de que se tem notícia.

Com isso, Portugal e Espanha buscam aliar a produção de café ao turismo e, ao mesmo tempo, lançar uma proposta de desenvolvimento econômico para territórios insulares do Atlântico — os Açores e as Canárias, respectivamente.

Obviamente, o conceito “europeu” pode variar muito, já que vários territórios ao redor do globo ainda estão submetidos, com mais ou menos autonomia, às leis formuladas na Europa. Neste caso, porém, os arquipélagos em questão se encontram ao norte do Oceano Atlântico, sob domínio dos seus respectivos países desde o século XIV, antes mesmo da unificação das fronteiras espanholas e da expulsão dos árabes do continente europeu.

Em ambos os lugares, estima-se que o café tenha chegado no fim do século XVIII, por volta de 1780, mais ou menos no mesmo período em que as primeiras mudas desembarcaram no Brasil. No caso das Canárias, considera-se que o cultivo esteve mais associado à curiosidade — por meio de testes e experimentos científicos — do que a qualquer ambição de exploração econômica.

Em Açores, os registros indicam que as plantas cultivadas eram da mesma linhagem da típica, provenientes dos entrepostos portugueses na África, bem como da bourbon, oriundas de Pernambuco, mas que chegaram ao Brasil via Guiana Francesa. Os portugueses cultivaram café na ilha continuamente até o início do século XX, quando crises econômicas sucessivas inviabilizaram o plantio como alternativa de baixa intensidade ou até mesmo como experimento científico. 

O café só voltaria a ganhar certo protagonismo no fim dos anos 1970, quando colonos portugueses expulsos de Angola e de Moçambique carregaram consigo algumas mudas e tentaram relançar a atividade nos Açores. À época, foram introduzidas as variedades caturra e bourbon amarelo, sobretudo nas ilhas de São Jorge e Terceira, mas estima-se que todo o arquipélago tenha potencial para desenvolver a cultura cafeeira.

Recentemente, alguns técnicos ligados ao governo português fizeram um levantamento no arquipélago e contabilizaram 213 cultivos diferentes tocados por 70 produtores. Estima-se que existam nos Açores 12 mil plantas de seis variedades diferentes, porém, todas da espécie arábica. Alguns cafeeiros têm mais de cem anos, mas a maioria – cerca de 7 mil plantas – têm idade inferior a três anos, o que demonstra o investimento em renovação e um certo potencial de produção nos próximos anos. 

Enquanto isso, mais ao sul e sob a tutela do governo espanhol, as Ilhas Canárias buscam lançar seu próprio café como uma alternativa exótica no mercado internacional. Assim como os Açores, a ilha tem solos vulcânicos e férteis, propícios ao cultivo do grão. Os plantios são feitos em pequena escala, com colheita manual e seletiva, o que implica diversos ciclos de coleta ao longo do ano. O cultivo nas Canárias também é feito de forma sombreada e em baixíssimas altitudes, entre 100 e 400 metros.

Apesar de múltiplas, as semelhanças param por aí, já que o arquipélago espanhol tem um clima mais hostil ao cafeeiro do que o dos Açores. As Ilhas Canárias têm temperaturas mais altas e menos umidade, e o café está restrito à região de Agaete. 

Além disso, o café espanhol chegou a ser exportado no final do século XIX, mas desapareceu completamente durante a década de 1950, sendo substituído por outros cultivos, como tomate e banana-da-terra. O café canário renasceu apenas no final do século XX e como uma opção de oferta de café exótico para os consumidores espanhóis. 

Em pequenas ilhas do Atlântico, o grão pode ser considerado uma solução econômica de baixa intensidade, viável em países ou territórios que necessitam diversificar sua produção agrícola. Geralmente, as ilhas atlânticas oferecem clima propício, solo vulcânico extremamente fértil e ampla gama de opções turísticas que podem ser combinadas com visitas e experiências ligadas ao cultivo de café. 

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

Cafeteria & Afins

Breathe CO. – Piracicaba (SP)


Alguns lugares conseguem expressar, em detalhes, o carinho pelo café especial. O Breathe CO. é um desses raros espaços onde a bebida vai além da xícara — ela se torna experiência. Localizada no centro de Piracicaba, interior paulista, a casa une cafeteria, loja e torrefação em um ambiente que abraça modernidade e transparência – literalmente.

Com arquitetura marcada por amplas paredes de vidro, a Breathe CO. se destaca na paisagem urbana regional. Do lado de fora, é possível observar a torra e o manuseio dos grãos em tempo real, o que desperta curiosidade e encantamento antes mesmo da experiência sensorial. 

A loja divide espaço com uma pequena fábrica de chocolates artesanais e tem um ambiente aconchegante — com poucas mesas —, com decoração acolhedora, que aproxima o visitante do grande tema que é o café, da fazenda à xícara. Muitos elementos compõem a beleza do espaço, como sacas de café, móveis rústicos de madeira maciça e prateleiras com diversos produtos, desde café em grãos e bebidas prontas para beber até bolsas feitas de juta reciclada. A música ambiente diverte, com sons conhecidos do indie rock na altura certa, construindo uma ótima atmosfera para quem quer apreciar um café sem pressa. 

O atendimento acontece no balcão, e o cardápio segue uma filosofia quase minimalista: direto, bem pensado, sem excessos. Há opções quentes e geladas, além de três sugestões para comer. Em nossa visita, fomos guiados por um atendente que explicou os grãos disponíveis no dia. Optamos por um catucaí 785/15, de processo natural, produzido por Marcus Valério no Sítio Serra da Campanha (MG). Preparado na v60 e servido em taças de vinho, o café entregou notas florais com finalização doce e delicada.

Provamos também o swell drop, criação autoral que combina espresso e chá verde fermentado (kombucha). Embora o cardápio mencione uma versão clássica feita com limão e gengibre, fomos surpreendidos por um fermentado de uva — que acabou se sobressaindo ao café, embora tenha conseguido entregar uma bebida leve e refrescante, ideal para dias quentes.

Entre as comidas, apenas uma das três opções oferecidas estava disponível. Decidimos então provar o cheese roll, rolinho de massa de pizza recheado com catupiry e coberto com parmesão, produzido por uma pizzaria local. Apesar da apetitosa aparência, o preparo falhou: o interior ainda estava frio ao ser servido, o que comprometeu a experiência.

Apesar deste tropeço, a visita revelou uma cafeteria que merece ser descoberta por quem busca mais do que apenas uma bebida. A Breathe Co reforça que Piracicaba tem muito a oferecer aos apaixonados por café especial.

Informações sobre a Cafeteria

Endereço R. Voluntários de Piracicaba, 806 , 415
Bairro Centro
Cidade Piracicaba
Estado São Paulo
País Brasil
Website http://https://breatheco.com.br/

Cafeteria & Afins

Folk Cafés – São Paulo (SP)

Nossa equipe foi até o bairro da Pompeia para conhecer o Folk Cafés, uma cafeteria com pouco mais de um ano de vida. A fachada de vidro convida a entrar no espaço pequeno e aconchegante, dividido em dois ambientes. No andar de baixo está o balcão, onde são feitos os pedidos e preparados os cafés. Em cima, com vista para a entrada da cafeteria, estão cadeiras, sofás e poltronas para o proveito da xícara.

A casa trabalha com dois grãos, um fixo e outro rotativo. O microlote da vez era um arábica acaiá, fermentado e cultivado por Jean Vilhena Faleiros em Ibiraci (MG). Pedimos este microlote na v60, mas há outras opções de preparo, como o timemore b75 e o espresso. O café chegou à mesa em um becker tampado, para preservar temperatura, e acompanhado de uma xícara delicada, que remete à casa de vó. De corpo médio, a bebida aromática apresentou notas cítricas e refrescantes, com um leve azedinho no final – um ótimo café para qualquer hora do dia.

O cardápio oferece alternativas quentes e geladas com leite, como macchiato, flat white, cappuccino, latte e mocha, além de matcha, mate da casa e cold brew. Para comer, porém, as opções são poucas: pão de queijo, croissant, pain au chocolat, cookie, brownie e sandos (de pesto caprese e de bacon com missô). 

Na manhã da visita, porém, não havia sandos, e a escolha foi croissant e brownie da casa. Leve e de sabor amanteigado, o croissant ficaria melhor se acompanhado de geleia. O brownie, doce na medida certa, combinou bem com as castanhas-do-pará da cobertura. O Folk Cafés é uma boa pedida para quem estiver na região e quiser uma rápida xícara de café especial em um ambiente tranquilo. 

Informações sobre a Cafeteria

Endereço R. Desembargador do Vale, 1.014
Bairro Pompeia
Cidade São Paulo
Estado São Paulo
Website http://www.instagram.com/folk.cafes
Horário de Atendimento Terça a sábado, das 9h às 17h
TEXTO Equipe Espresso • FOTO Equipe Espresso

Mercado

5 novidades para quem não vive sem café

Lançamentos não faltam para quem aprecia café. O mercado segue aquecido com ofertas que prometem praticidade, novos sabores e experiências personalizadas. Entre cápsulas inéditas e cafés recém-chegados às prateleiras, as marcas apostam em diferentes origens, torrefações e combinações para surpreender tanto consumidores regulares quanto os curiosos e exigentes. 

Kit Brasis do Lucca Cafés Especiais

A cafeteria e torrefação de Curitiba (PR) lançou na sexta (19) um kit de cafés de origem. A caixa é composta por 14 cafés de denominação de origem, 14 cartões exclusivos, um exemplar do livro “A Revolução do Café Brasileiro”, três copos de cerâmica feitos à mão, um Manifesto Brasis e um guia de degustação com receitas. O kit está disponível no site do Lucca Cafés Especiais por R$ 600.

Cápsula illy Cerrado Mineiro

A empresa italiana ampliou seu portfólio de cápsulas com o já conhecido Arabica Selection Brasile Cerrado Mineiro, produzido 100% a partir de agricultura regenerativa e certificado pela Regenagri e até então oferecido em grãos. A cápsula, desenvolvida em colaboração com a Federação dos Cafeicultores do Cerrado Mineiro, promete entregar na xícara notas de caramelo e frutas secas. A novidade é compatível com máquinas Nespresso.

Dropit na Café Store

Uma das lojas de café mais completas do país, a Café Store aumentou sua oferta com três opções da Dropit: Gesha, All Day e Palmer. O primeiro café, produzido por Gabriel Lamounier na Fazenda Guariroba (Santo Antônio do Amparo, MG) é um gesha processado por fermentação anaeróbica de 48h. O segundo é um mundo novo natural, cultivado no Sítio Peixoto, em Campanha (MG). Quanto à terceira oferta e como o nome (em inglês) sugere, é um catuaí vermelho fermentado com notas de manga, também produzido na Fazenda Guariroba. Os pacotes, de 250 g, custam entre R$ 60 e R$ 91 e são vendidos no site e na loja física (rua Barão de Tatuí, 387 – Vila Buarque – São Paulo).

Robusta amazônico da 3corações

A 3corações anunciou sua nova cápsula, feita 100% com café robusta amazônico da denominação de origem Matas de Rondônia. De intensidade 9, a bebida é descrita como encorpada, com acidez equilibrada e notas de mel, avelã e leve salgado. Exclusiva para máquinas Tres, custa R$ 22,69 (caixa com 10 cápsulas) no e-commerce da 3corações

Cafellow para o Natal

Para celebrar as festas de fim de ano, a Cafellow acaba de lançar uma edição limitada inspirada no gingerbread, tradicional doce natalino. Feito com arábica de torra média, o Fellow Encantado, em sachês, é aromatizado com notas de cravo, gengibre, cardamomo e canela. O café está à venda no site da marca por R$ 49,90 (caixa com 10 sachês).

 

TEXTO Redação

Mercado

Produção global de café deve bater recorde e alcançar 178,8 milhões de sacas, projeta USDA

Recorde reflete aumento de produção no Vietnã, na Indonésia e na Etiópia, apesar de quedas no Brasil e na Colômbia

A produção mundial de café deve atingir 178,8 milhões de sacas na safra 2025/26, um recorde histórico e alta de 3,5 milhões de sacas em relação ao ciclo anterior. A estimativa consta do relatório semestral sobre o mercado global de café do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), divulgado na quinta-feira (18).

As exportações globais de café em grão também devem crescer, alcançando 123,8 milhões de sacas, aumento de 2,3 milhões. O avanço é impulsionado pela maior oferta do Vietnã, com produção estimada em 30,8 milhões de sacas, e por volumes recordes na Indonésia (11 milhões) e na Etiópia (11,6 milhões), o que, segundo o relatório, compensa as quedas registradas no Brasil, com safra estimada em 63 milhões de sacas, e na Colômbia, com 13,8 milhões.

Com o consumo global em alta, estimado em 173,9 milhões de sacas, os estoques finais devem cair pelo quinto ano consecutivo, para 20,1 milhões de sacas. Diante do aperto entre oferta e demanda, os preços do café, medidos pelo índice composto mensal da Organização Internacional do Café (OIC), quase triplicaram no período.

Confirma o relatório completo aqui.

Para saber mais

Robusta: Indonésia e Vietnã 

A produção de café na Indonésia foi estimada em 11 milhões de sacas, aumento de 1,7 milhão, resultado de maior rendimento das plantas, condições climáticas favoráveis e uso ampliado de mão de obra na colheita. O volume mantém, há 25 anos, o país como terceiro maior produtor global de robusta. A produção de arábica ficou em 1,5 milhão de sacas, enquanto as exportações de café verde devem atingir 7,8 milhões de sacas, alta de 1,7 milhão, destinadas principalmente à União Europeia, aos Estados Unidos (arábica) e ao Egito.

No Vietnã, a produção deve alcançar 30,8 milhões de sacas, sendo 95% de robusta, impulsionada por maior produtividade, atribuída a clima favorável e ao uso intensificado de fertilizantes e insumos. As exportações devem somar 24,6 milhões de sacas, aumento de 2,3 milhões em relação ao ciclo anterior.

Arábica: Etiópia, Brasil e Colômbia

A Etiópia tem produção prevista de 11,6 milhões de sacas, 500 mil a mais do que no ciclo anterior, em novo recorde. O crescimento, observado há três anos, decorre da substituição de mais da metade da área cultivada por variedades mais produtivas e da adoção de podas pós-colheita. As exportações também avançaram, com alta de 400 mil sacas, e devem fechar em 7,8 milhões.

No Brasil, a safra foi estimada em 63 milhões de sacas pela FAS em 11 de dezembro, após revisão negativa de 2 milhões. O volume inclui 38 milhões de sacas de arábica (queda de 6 milhões) e 25 milhões de canéfora (alta de 4 milhões). A redução do arábica é atribuída à seca e às altas temperaturas em Minas Gerais e São Paulo, que afetaram a florada, o pegamento e o desenvolvimento dos frutos. Já o recorde do canéfora resulta de boas chuvas no Espírito Santo e na Bahia. Com a menor oferta, a previsão das exportações brasileiras caiu 4 milhões de sacas, para 37 milhões.

Na Colômbia, a produção também deve recuar, em 1 milhão de sacas, para 13,8 milhões, em razão de condições climáticas desfavoráveis durante a florada. As exportações de café verde, destinadas principalmente aos Estados Unidos e à União Europeia, estão estimadas em 11,5 milhões de sacas, queda de 700 mil frente a 2024/25.

TEXTO Redação

Cafeteria & Afins

Caffè Latte Piccolo – São Paulo (SP)

Em uma sexta-feira ensolarada, nosso time encontrou uma nova cafeteria na cidade de São Paulo. Ao buscar abrigo das altas temperaturas, entramos na galeria térrea do prédio comercial Edifício Barão do Serro Azul, na avenida Paulista, ao lado da estação Trianon Masp. Ali,em meio às lojas, está a nova unidade da Caffè Latte Piccolo.

O lugar é ideal para tomar um bom café em meio à correria do dia. Com opções para viagem e consumo local, a casa oferece cafés, torrados por Silvia Magalhães, no espresso, extraído em uma máquina Rocket, e outros grãos convidados. Em  nossa visita, o escolhido era o Tica Tica Bum, da torrefação paulistana Garagem do Café: um bourbon amarelo cultivado na Fazenda Sertão, na Mantiqueira de Minas, por Francisco Isidro. Se a escolha for um filtrado, há opções pelos métodos v60, french press, aeropress e clever.

O cardápio tem comidas para todos os gostos. Entre os salgados estão o clássico sanduíche de ovos, croissants (com ou sem recheio), pães de queijo e empanadas. Para adoçar o dia, brigadeiros, fatias de bolo, brownies de chocolate, cinnamon rolls, cookies e torta de limão. Pedimos o clássico croissant com um café coado na v60. Enquanto isso, conversamos com os baristas. 

A dupla de baristas Geisa Soares e Alan Costa contam que o movimento da casa – aberta há pouco mais de um mês – está crescendo, com picos por volta das 10h e após o almoço. A clientela, que já entende de café especial, escolhe frequentemente o filtrado extraído na Bunn – até pela praticidade e rapidez no preparo, já que a rotina na principal avenida de São Paulo não para. A casa opera em escala 5×2, acompanhando o ritmo do prédio comercial que a abriga. Para Geisa e Costa, essa escala é uma grande vantagem. 

O Caffè Latte Piccolo é boa opção para quem circula pelos arredores e deseja uma boa xícara de café e um lugar tranquilo e afastado da correria do centro comercial paulistano. 

Informações sobre a Cafeteria

Endereço Avenida Paulista, 1.159 loja 17
Bairro Bela Vista
Cidade São Paulo
Estado São Paulo
Website http://https://www.instagram.com/caffelatteoficial/
TEXTO Equipe Espresso

Cafeteria & Afins

Espresso visita primeira loja da Juan Valdez no Brasil

A Espresso visitou a primeira unidade da rede colombiana Juan Valdez no Brasil, em Ribeirão Preto (SP). A loja-conceito, no interior do RibeirãoShopping, propõe um ambiente clean, decorado com tons pastel, com produtos da marca distribuídos por toda parte. A marca, de forte apelo, atrai o público da região: no dia da visita, as mesas, sempre lotadas, refletiam o alto giro na loja.

O cardápio conta com uma combinação interessante de comidas colombianas,  brasileiras e francesas. A empanada, feita à base de fubá e frita em vez de assada, figura ao lado de arepas de pernil e frango e de almojabanas (um tipo de pão de queijo colombiano), ao mesmo tempo que são servidos pão de queijo, pain au chocolat e croissants, tanto doces quanto salgados.

O filtrado do dia, feito em máquinas Bunn e com diluição alta (um para 18), era da região de Cumbre, e foi servido em famosas xícaras Loveramics. Com perfil de torra escura, ele entregou notas de chocolate amargo, nozes, acidez baixa e corpo leve. Na falta das empanadas e arepas  no dia da visita, optamos pela almojabana e por um pão de queijo. Levemente adocicada e de estrutura mais firme, a versão colombiana tem o sabor pronunciado da farinha de milho, mais do que o de queijo. Já o pão de queijo é leve e saboroso, mas ambos fizeram bom par com o coado – que apresentou resíduos de pó de café no fundo da xícara. 

O espresso, feito com grãos de Huila e extraído em máquina La Spaziale – a loja oferece duas opções de café diariamente – não foi melhor. Com notas de pêssego, apresentou pouco corpo e um amargor dominante, que se sobrepôs à doçura e à acidez média. A companhia para o espresso foi a típica sobremesa latina,  o tres leches,  que chega à mesa coberto com marshmallow, com textura cremosa mas calda pouco saborosa. 

O grão da casa, da região de Volcán e com perfil de torra escura, veio no cappuccino. Com latte art bem executado (o leite escolhido foi o tradicional, embora haja oferta de leite vegetal), apresentou textura leve e gosto doce, que remeteu a castanhas caramelizadas. 

A oferta de bebidas é ampla: há cafés gelados como o  grazinado (um sorbet à base de café e leite), lattes, smoothies de frutas e nevados (espressos aromatizados com chantilly), além de matchá e chai. Também é vasta a oferta de pacotes – os mesmo oferecidos globalmente –, com grãos de várias regiões produtoras tradicionais, como Cumbre, Collina e Huila, e um blend de cafés cultivados por mulheres. Neles, informações como descrição sensorial e perfil de torra escolhido (somente torra média e escura) facilitam a decisão dos clientes. Pena que não há menção às variedades, apenas à altitude em que o grão, “100% arábica de origem colombiana”, foi produzido. Há, ainda, uma linha de solúveis aromatizados para levar para casa, com diversos sabores (chocolate, doce de leite e avelãs) e doces em lata, como merengues feitos com café. 

Informações sobre a Cafeteria

Endereço Av. Cel. Fernando Ferreira Leite, 1.540
Bairro Jardim Califórnia
Cidade Ribeirão Preto
Estado São Paulo
Website http://www.instagram.com/juanvaldez.br
TEXTO Juarez Gomes

Café & Preparos

“A cafeicultura é política: a voz da base pode mudar decisões globais”, diz Adriana Mejía, da GCP

Em seu segundo ano à frente da Plataforma Global do Café, Adriana Mejía defende que só haverá sustentabilidade de fato quando renda digna, governança inclusiva e agricultura regenerativa alcançarem milhões de produtores

Por Cristiana Couto

Da quarta geração de uma família de cafeicultores de Manizales, no eixo cafeeiro da Colômbia, Adriana Mejía Cuartas – primeira mulher a presidir o conselho da Plataforma Global do Café – construiu uma carreira discreta em exposição, mas decisiva na defesa de um futuro sustentável para todos os produtores.

Criada num território marcado pela cafeicultura de sobrevivência, pela tradição e pela forte presença da Federação Nacional de Cafeicultores (FNC), Adriana só compreendeu a complexidade do setor quando, no decorrer da carreira, passou a percorrer regiões produtoras, lutar pela dignidade financeira de cafeicultores em países mais pobres e participar de debates globais sobre os rumos da cadeia.

“As conversas em casa eram só sobre café, para mim, um produto vulnerável, exposto ao sol e à chuva. Só depois entendi em que consistia o imaginário cafeeiro”, lembra.

Formada em administração de empresas, com mestrado na Espanha, ela acumulou experiência internacional ao representar a FNC na Europa e, depois, ao trabalhar na UTZ Certified (hoje incorporada à Rainforest Alliance), onde acompanhou a evolução dos padrões de sustentabilidade e o papel das certificações na transformação da cadeia de valor do café.

Sua experiência aumentou em 2017, quando criou, na Holanda, a empresa Herencia – Value Your Legacy, que articula investimentos de impacto, ESG e inovação nas cadeias de café, cacau e óleo de palma na América Latina e na África. À frente do conselho da Plataforma Global do Café desde 2024, e ao lado de mais de 170 membros, Adriana busca reduzir até 2030 a lacuna de renda de mais de um milhão de pequenos produtores em mais de dez países. “O desafio é superar ilhas de sustentabilidade e alcançar um oceano em que a regra seja produzir café sob condições dignas, resilientes e livres de desmatamento – e que isso seja um bom negócio para todos”, acredita.

A seguir, a entrevista, realizada por videoconferência diretamente da Colômbia.

Você vem de uma família de cafeicultores. Como isso moldou sua visão sobre sustentabilidade e governança no café?

Em casa, a palavra sustentabilidade nem existia, mas estava presente em tudo o que meus pais faziam. O café nunca foi altamente rentável, mas nos deu educação, pertencimento e amor pela terra.

Meu pai é agrônomo e tem a sabedoria de quem valoriza a terra e a tradição. Minha mãe, María Mercedes Cuartas, foi a primeira mulher a representar sua região no Congresso Nacional de Cafeicultores, [a instância deliberativa máxima do setor no país]. Hoje, aos 75 anos, ela continua atuante no comitê regional da FNC, e isso me ensinou que a cafeicultura é profundamente política: a voz da base pode mudar decisões nacionais e até globais.

Quem produz café sabe que sustentabilidade não é discurso, selo ou marketing. Hoje, não se trata de “sustentar”, mas de regenerar – garantir que famílias produtoras continuem a produzir café pelos próximos 20, 30 anos.

Por isso, minha visão de sustentabilidade e governança coloca o produtor e sua comunidade no centro das ações. A pergunta-chave é: que modelo de negócio, de instituições e de alianças permitirá que a próxima geração continue a cuidar da terra e produzir o café que queremos consumir?

Você foi a primeira mulher convidada a participar da eleição para a diretoria geral da Federação Nacional de Cafeicultores da Colômbia (FNC) e a primeira diretora para a Europa, além de ter sido a primeira mulher a integrar o conselho da antiga UTZ. Que desafios enfrentou e como vê a presença das mulheres em cargos de liderança na cafeicultura?

Em um setor historicamente masculino, meu primeiro desafio foi simbólico: que deixassem de me ver como “a filha de María Mercedes” ou “a jovem do eixo cafeeiro” e passassem a enxergar uma profissional com critério próprio, conhecimento de origem e capacidade de representar o setor.

Quando concorri à direção geral da Federação, viajei pelas 15 regiões cafeeiras conversando com comitês, líderes, produtores e governos. Muitas vezes, a primeira reação era de surpresa. Isso me ensinou a transformar o ceticismo em diálogo e o preconceito em oportunidade.

Ser a primeira não foi fácil, e percebi a dimensão disso quando ouvi de uma cafeicultora: “Obrigada por mostrar às nossas meninas que elas também podem sonhar, estudar e liderar mudanças.”

Sobre a presença feminina, avançamos, mas ainda pouco. Há mais mulheres em posições importantes no setor mas, quando olhamos para a propriedade da terra, o acesso ao crédito e a voz nas negociações, estamos longe da equidade.

Precisamos mudar as regras do jogo para que mulheres e homens tenham as mesmas oportunidades de decidir o futuro do café. Liderar exige preparação, mas também exige um setor disposto a abrir espaço e criar oportunidades realmente inclusivas.

Em março de 2024 você assumiu a presidência do conselho da GCP. O que conseguiu implementar neste primeiro ciclo de mandato?

Neste primeiro ciclo, buscamos tornar a sustentabilidade algo concreto para os cafeicultores. Não medimos sucesso pelo número de projetos, mas pela redução da lacuna rumo a uma renda digna e pela regeneração das paisagens cafeeiras.

A Meta GCP 2030 foi convertida em uma rota operacional: transformar a cafeicultura e reduzir em ao menos 25% a lacuna de renda digna para mais de um milhão de pequenos produtores em mais de dez países. Já temos ações estruturadas no Brasil, Honduras, Indonésia, Quênia, Uganda e Vietnã, onde cada plataforma nacional define metas de impacto alinhadas às políticas públicas e às possibilidades de investimentos privados.

Em 2025, lançamos o RegenCoffee, guia global de agricultura regenerativa da GCP, que estabelece uma linguagem comum, princípios e indicadores para restaurar solos, proteger a água e a biodiversidade, aumentar a resiliência climática e melhorar a vida dos produtores. A plataforma no Brasil foi pioneira em traduzir os sete elementos de implementação da agricultura regenerativa nas fazendas, integrando-os ao Plano Plataforma Global do Café Brasil 2030, que busca aumentar a resiliência e a prosperidade de 95 mil cafeicultores até 2030. O aprendizado brasileiro orienta o nosso trabalho em outras origens.

Reforçamos ainda a sustentabilidade setorial com o Código de Referência de Sustentabilidade do Café, o Mecanismo de Equivalência e marcos de dados usados para alinhar programas corporativos, padrões e plataformas nacionais, reduzindo exigências duplicadas e trazendo mais clareza ao produtor. Em países como o Brasil, estudos sobre renda e projetos derivados desses diagnósticos já orientam investimentos, serviços de extensão rural e compras responsáveis.

Em resumo, aproximamos discurso e prática para fazer da cafeicultura um bom negócio para quem produz.

Quais são os principais gargalos para alcançar a Meta GCP 2030?

O primeiro é a escala de financiamento. Para avançar na agenda de renda digna, precisamos de bilhões de dólares em investimentos públicos, privados e filantrópicos, com metas claras e coordenação. Recursos existem, mas estão dispersos em projetos pequenos e pouco conectados entre si.

O segundo ponto crítico é o alinhamento entre países e empresas. O desafio é manter uma ambição global sem perder as relevâncias locais – não se trata de copiar e colar soluções, mas de transferir aprendizagens, adaptando tecnologias e modelos ao contexto de cada país.

O terceiro gargalo está na capacidade de medir e obter dados com transparência. Precisamos de informação clara e confiável, com sistemas de monitoramento que não sobrecarreguem o produtor e que permitam comparar avanços entre países e regiões.

O quarto ponto é a governança inclusiva. Se as decisões sobre prioridades e investimentos não incorporarem as vozes de organizações e produtores, corremos o risco de criar soluções elegantes no PowerPoint, mas irrelevantes no campo.

A GCP não executa projetos diretamente – ela é uma arquiteta de alinhamento, cria uma linguagem comum. Nossa tarefa é usar essa posição para enfrentar esses gargalos com diálogo e com a participação do maior número possível de atores.

Como você avalia o atual cenário global de cafés sustentáveis?

Há várias maneiras de olhar para isso. Certificações e padrões de boas práticas agrícolas foram uma base importante para globalizar conceitos, criar consciência e estabelecer um idioma comum para o setor.

Mas vivemos um paradoxo: nunca se falou tanto de sustentabilidade, ESG, neutralidade climática, novas regulações, desmatamento zero e ciência do clima aplicada à cafeicultura – e, ao mesmo tempo, a vulnerabilidade climática e a fragilidade econômica de milhões de pequenos cafeicultores nunca foram tão evidentes. Precisamos ir além: boas práticas precisam cobrir toda a cadeia de suprimentos e todos os atores da cadeia precisam ser sustentáveis. Além disso, precisamos escalar essas ambições e garantir que elas se traduzam em resultados concretos na vida do produtor.

Que regiões produtoras no mundo mais precisam de apoio na transição para práticas sustentáveis e por quê?

Eu as agrupo em três grandes corredores estratégicos. O primeiro abrange boa parte da África subsaariana, onde há baixa produtividade, infraestrutura limitada, pouco acesso ao crédito e alta exposição à variabilidade climática. O potencial é enorme, mas os recursos financeiros precisam ser desenhados respeitando os ciclos de produtividade, indo além de soluções que ofereçam retorno apenas em um ano. Também é essencial fortalecer as instituições que prestam serviços aos cafeicultores, incluindo inclusão digital e financeira, para atrair as novas gerações.

O segundo corredor inclui a América Central e o Caribe, regiões com alta migração rural, propriedades pequenas e forte exposição a furacões e secas. Nelas, as ações sustentáveis precisam combinar adaptação climática, inclusão financeira e mecanismos atrativos para jovens e mulheres que estão herdando a terra.

O terceiro corredor são as fronteiras agrícolas de canéforas, como Brasil, Vietnã e Indonésia, com alto risco de desmatamento, degradação do solo e conflitos socioambientais. A expansão dessas áreas precisa ser sólida e de incentivos claros para manter sistemas agroflorestais e promover a cafeicultura regenerativa. Nesse sentido, a liderança do Brasil tem sido importante.

Falamos de liderança adaptativa: resolver desafios técnicos – como extensão rural de qualidade, crédito adequado e acesso a dados de clima e mercado – e, ao mesmo tempo, enfrentar desafios adaptativos, redistribuindo poder nas cadeias de fornecimento e revendo incentivos que só premiam o curto prazo.

Além do Brasil, que é uma liderança muito importante, Vietnã e Colômbia têm avançado nesses temas. Mas esses avanços não são “receitas” exportáveis: cada país é um laboratório vivo, do qual outros podem aprender, não copiando, e sim adaptando.

Você acredita que governos e a indústria do café podem “equilibrar” essas regiões produtoras mais pobres?

Não só acredito como já vivi muitos projetos assim. Quando há cooperação e transferência estruturada de conhecimento, o aprendizado é rápido, erros são evitados e, em pouco tempo, é possível alcançar resultados muito positivos.

É o que acontece com a GCP em países como Uganda, onde vários atores e governos locais participam. Não se trata de substituir o governo, mas de apoiar a construção de políticas públicas, investimentos em infraestrutura e gestão hídrica que permitam às famílias continuar produzindo café.

Se somarmos ainda a experiência da sociedade civil e de grandes organizações ou ONGs que oferecem treinamentos, capacitações e métricas, tudo isso ajudará a transferir conhecimento para regiões que podem se beneficiar do que já foi feito em outros lugares.

Modelos de cofinanciamento no Brasil, com políticas públicas claras, servem como referência para países africanos. Na Colômbia, o Fundo Nacional do Café oferece uma “garantia de compra” que considero um dos maiores ativos do país: qualquer cafeicultor, a qualquer hora, pode vender seu café por esse mecanismo, e a FNC tem a obrigação de comprá-lo ao preço de referência do dia. Isso oferece transparência de preço e de mercado – algo que ainda não é realidade em muitos países africanos ou no México, por exemplo.

Que barreiras culturais e estruturais dificultam a adoção de práticas sustentáveis em países produtores?

Identificamos quatro barreiras recorrentes. A primeira é o olhar de curto prazo. Quando uma família cafeicultora não tem renda estável, poupança ou seguro, é difícil pedir a ela que invista em práticas cujo benefício só virá cinco ou dez anos depois. A pobreza é, em si, uma barreira à sustentabilidade.

A segunda são as assimetrias de poder e de informação: o produtor nem sempre sabe como se forma o preço do café, o que o mercado de fato valoriza ou quais riscos climáticos está enfrentando na sua própria região. Essas lacunas de informação e transparência limitam a adoção de novas práticas.

A terceira barreira são instituições que falham ou que não se coordenam. Quando isso acontece, o produtor recebe mensagens contraditórias e não constrói confiança no longo prazo. Por isso, as mensagens precisam ser coerentes, corretas e demonstráveis, e as instituições, críveis.

Por fim, há as questões culturais de que falamos – decisões concentradas em homens e mulheres e jovens cujas vozes não são ouvidas. Por isso, é fundamental falar em “arquitetura da sustentabilidade”: não bastam boas práticas agronômicas, é preciso redesenhar o funcionamento das instituições e a forma como interesses diferentes podem se combinar para gerar mais impacto nessas regiões.

Apesar de avanços em compras responsáveis, a maior parte dos cerca de 12,5 milhões de produtores no mundo continua a viver perto ou abaixo da linha da pobreza. Como você analisa esse cenário?

Esse é o centro do grande desafio da cafeicultura. A cadeia do café tem sido capaz de gerar muito valor, mas não de distribuí-lo de forma justa. Estudos mostram que, mesmo quando o produtor cumpre critérios ambientais e sociais e é considerado “sustentável”, sua renda total continua abaixo de um nível de vida digno no seu contexto. Há também um risco desigualmente distribuído: clima, pragas, volatilidade de preços e aumento de custos recaem sobre quem tem menos capacidade de gerir esses fatores – o pequeno produtor. Se não encontrarmos mecanismos para compartilhar e assegurar esse risco, a pobreza continuará sendo estrutural.

Por fim, o poder de negociação limitado dos cafeicultores, que não têm informação de mercado ou voz na definição de seus parâmetros e contratos. Não se trata apenas de um problema moral, mas de desenho de sistema. A boa notícia é que os sistemas podem ser redesenhados, com alianças diferentes, novos modelos comerciais e métricas que coloquem renda e prosperidade do produtor no centro do debate.

Em que medida o “S” – trabalho justo e renda digna – do ESG tem sido incorporado na prática?

Durante muitos anos, o “E” de ambiente [environmental, em inglês] recebeu quase toda a atenção. Agora, o “S” começa a sair do discurso e entrar no desenho de modelos de negócio. A Meta 2030 da GCP, por exemplo, é explicitamente socioeconômica. E isso é apoiado pelo que chamamos de teoria de mudança, que conecta a prosperidade do produtor à sustentabilidade ambiental – porque não existe uma sem a outra.

No Brasil, iniciativas coletivas lideradas pela GCP com parceiros e organizações locais têm se concentrado no tema e, globalmente, cada vez mais empresas assumem compromissos com renda digna, salários justos e devida diligência em direitos humanos.

Não estamos ainda onde deveríamos, mas, pela primeira vez, a conversa dominante é sobre se o café permite uma vida digna para quem o produz. Isso é uma grande oportunidade para garantir que o que fazemos tenha impacto real para os produtores.

Como falamos, o Brasil avançou muito em sustentabilidade no café. Quais ações brasileiras mais se destacam diante das mudanças climáticas?

O Brasil entendeu algo fundamental: que, por ser grande, a sustentabilidade do café depende de uma arquitetura sólida entre políticas públicas e inovação produtiva – e isso vem sendo construído há anos. Há marcos ambientais sofisticados, como o Código Florestal e o Cadastro Ambiental Rural, que permitem compatibilizar produção e conservação.

Há também uma aposta consistente em agricultura de baixo carbono, boas práticas agrícolas, uso eficiente de insumos e, cada vez mais, sistemas agroflorestais, além de respostas estruturadas ao estresse hídrico.

Destaco ainda a capacidade de organização do setor, que consegue reunir diferentes atores para definir prioridades e construir políticas, e a vontade de inovar e medir. De estudos de renda a iniciativas de agricultura regenerativa, o país produz evidências que podem ser escaladas e adaptadas em outros contextos.

Também percebo que a cafeicultura no Brasil é, em geral, menos apegada à tradição do que em outros países, o que abre espaço para inovação constante, um dos fatores que explica, em parte, por que o Brasil é o maior produtor de café do mundo. O Brasil não é apenas um competidor, mas um parceiro estratégico para definir como pode ser uma cafeicultura sustentável em grande escala.

E quais dessas práticas podem servir de modelo para outros países?

A primeira é a agricultura regenerativa com enfoque prático. O trabalho da GCP no Brasil e de seus parceiros, ao definir elementos de agricultura regenerativa no café – desde cobertura do solo até diversificação e manejo da biodiversidade –, criou um marco claro que outros países podem adaptar às suas realidades. A segunda são os estudos de renda e o uso de dados para orientar a tomada de decisão – tanto de políticas públicas quanto de investimentos privados e compras responsáveis.

Também destaco a integração de padrões e o reconhecimento internacional. O fato de mecanismos brasileiros serem reconhecidos como equivalentes a marcos globais de sustentabilidade mostra um caminho importante para que outros países criem instrumentos próprios que também se conectem a essas referências. Em síntese, o Brasil tem muitas lições a oferecer.

Que mensagem você gostaria de dar aos produtores brasileiros que buscam alinhar qualidade, sustentabilidade e negócios de longo prazo?

Vocês já são uma referência mundial, e as decisões que tomam hoje estão definindo o padrão do que o mundo entende como café sustentável em grande escala.

A sustentabilidade não é um custo, mas um investimento em liberdade: liberdade para decidir o futuro da propriedade, negociar melhor e fazer com que a próxima geração veja no café uma oportunidade e um bom modelo de negócio. As práticas regenerativas, a adoção de tecnologias adequadas e a participação em plataformas coletivas são estratégias para ganhar poder de decisão.

Também é importante não caminhar sozinho. A agenda climática e regulatória é complexa demais para ser enfrentada de fazenda em fazenda. A força de vocês está na capacidade de organização – cooperativas, associações, plataformas –, que sempre dará vantagem competitiva e comparativa.

O futuro do café está sendo escrito – e, em boa medida, nas zonas cafeeiras do Brasil. Meu desejo é que essa história de liderança esteja sempre acompanhada de prosperidade para quem está no início da cadeia: as famílias produtoras. E, no Brasil, felizmente, isso já começa a ser uma realidade.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Divulgação

Café & Preparos

Parlamento Europeu aprova adiamento e simplificação da EUDR

Texto segue para aval do Conselho e deve ser publicado até o fim do ano

O Parlamento Europeu aprovou nesta quarta-feira (11) o adiamento e a simplificação de pontos-chave da Lei do Desmatamento da União Europeia (EUDR), que estabelece regras para garantir que produtos vendidos no bloco, como o café, não venham de áreas desmatadas. O texto, aprovado por 405 votos a 242, agora segue para endosso do Conselho e deve ser publicado no Jornal Oficial da UE até o fim do ano para entrar em vigor.

Pelo acordo, todas as empresas terão mais um ano para se adequar às exigências. Grandes operadores passarão a cumprir a lei a partir de 30 de dezembro de 2026, enquanto micro e pequenas empresas terão prazo até 30 de junho de 2027. O objetivo é garantir uma transição mais suave e permitir melhoras no sistema digital obrigatório para as declarações de devida diligência.

A revisão também simplifica exigências: pequenos operadores primários deverão apresentar apenas uma declaração simplificada, e só as empresas que colocam o produto no mercado europeu pela primeira vez serão responsáveis por enviar as declarações de conformidade. Produtos impressos, como livros e jornais, foram retirados do escopo do regulamento.

Para a relatora Christine Schneider (PPE, Alemanha), o acordo “mantém o coração da lei intacto”, ao mesmo tempo em que responde às preocupações de agricultores, empresas e governos sobre viabilidade prática e custos de implementação.

A Comissão Europeia deverá, até abril de 2026, apresentar um relatório avaliando o impacto da EUDR, especialmente sobre pequenos produtores e operadores — tema sensível para países exportadores como Brasil, Vietnã e Costa do Marfim.

Fonte: europarl.europa.eu

TEXTO Redação
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