Mercado

Café na onda sul-coreana

O país tem um dos maiores e mais vibrantes mercados de cafeterias focadas em qualidade do mundo. Mas o que está por trás dessa obsessão da nação do Leste Asiático, e quanto tempo os operadores podem sustentar esse crescimento estratosférico?

Por Tobias Pearce (5THWAVE)

Poucas nações no mundo abraçaram o café e sua cultura com tanto entusiasmo quanto a Coreia do Sul. Dados do governo mostram que, no final de 2023, havia mais de 100 mil cafeterias em todo o país, gerando, coletivamente, ₩ 15.5 trilhões (US$ 11,2 bilhões) em vendas e empregando cerca de 270 mil trabalhadores.

Com uma população de 52 milhões de pessoas, há aproximadamente uma cafeteria para cada 520 cidadãos no país. Cerca de um terço desses estabelecimentos são redes de cafés, e dados do World Coffee Portal mostram que o segmento cresceu 6,9% e superou 31.130 pontos de venda nos 12 meses até novembro de 2023 – com uma média de quase 10% de crescimento anual nos últimos cinco anos.

A rede de cafés líder de mercado, Ediya Coffee, abriu centenas de unidades nos últimos 12 meses e, agora, opera mais de 4 mil lojas, seguida pela Mega Coffee, com mais de 3 mil estabelecimentos, e pela Compose Coffee, com 2,6 mil pontos. Com 1,9 mil lojas, a Coreia do Sul é o terceiro maior mercado global da Starbucks, atrás dos EUA e da China. Tal é a popularidade dos cartões-presente da Starbucks, especialmente no Natal, que o governo coreano estima que a rede possua cerca de ₩ 318 bilhões (US$ 230 milhões) em saldos pré-pagos. “Podemos dizer que a Starbucks é um banco não regulamentado”, disse Kim Jung-tai, ex-CEO do Hana Financial Group, em 2020.

Uma loja da Ediya Coffee em Myeongdong, Seul

A posição da Coreia do Sul como um dos maiores consumidores de café do mundo é ainda mais notável quando se considera a adoção relativamente recente do café em massa no país. O lançamento da mistura para cappuccino – sachês de café instantâneo e leite em pó – pela gigante alimentícia Dong-suh Foods, em 1976, é considerado o pontapé inicial da obsessão por cafeína no país.

“Esse lançamento teve um impacto duradouro na indústria, contribuindo para uma cultura em que pessoas de várias idades apreciam o café. Essa tendência influenciou a percepção de que a bebida deve ser rápida e doce, impulsionando com sucesso a cultura do café durante a rápida industrialização da Coreia do Sul”, diz Wonjin Cho, colunista de café e coautor do aclamado Korea Specialty Coffee Guide.

Esse impacto duradouro é evidente na tendência viral do Dalgona, que varreu o mundo em 2020. A mistura batida de café instantâneo, açúcar, leite e água quente, nascida em Busan na década de 1960, cativou milhões durante os confinamentos da Covid-19 e continua sendo a indulgência favorita em cafés e cozinhas caseiras.

Hoje em dia, a Coreia do Sul também é um mercado em expansão de cafés especiais, com pioneiros locais como Coffee Libre, Terarosa, Namusairo e Bean Brothers competindo com marcas internacionais renomadas, incluindo Blue Bottle Coffee e Intelligentsia Coffee (dos EUA), % Arabica (do Japão) e The Barn (da Alemanha).

O amor dos sul-coreanos pela bebida mantém em funcionamento uma enorme quantidade de redes de cafés e operadores independentes – mas o que está por trás dessa obsessão cafeinada, e como as cafeterias podem continuar a prosperar em um mercado tão saturado? As pistas podem ser encontradas na complexa história da nação e em suas ricas tradições culturais.

Fila para pedidos na Starbucks do aeroporto Incheon

Competição e excelência

Para Wonjin Cho, a competição e a busca por excelência caracterizam estruturalmente o sul-coreano. “Esse espírito competitivo impulsionou a concorrência construtiva em várias indústrias, colocando a Coreia do Sul na vanguarda em vários campos”, diz ele.

Cercado pelo Japão a leste, pela China a oeste, e separado da Coreia do Norte pela fronteira mais fortemente militarizada do mundo desde o fim da Guerra da Coreia, em 1953, é fácil deduzir por que a sociedade sul-coreana valoriza ferozmente a independência e uma ética de trabalho fundida em ferro.

Com o hábito de trabalhar por muitas horas, o café e a cultura das cafeterias tornaram-se parte essencial do cotidiano dos sul-coreanos ao oferecer uma maneira prazerosa e econômica de se revigorar. Só em 2011 a Coreia do Sul adotou oficialmente a semana de trabalho de cinco dias, e, em 2018, o máximo de horas de trabalho semanais foi reduzido de 68 para 52.

Mesmo assim, eles ainda trabalham, em média, 1.915 horas por ano, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em comparação com 1.791 horas nos EUA e 1.607 no Japão.

“O termo ‘competitividade’ pode ter uma conotação negativa, mas também pode ser visto como algo que incorpora um senso de responsabilidade e diligência”, diz Cho.

A busca pela excelência teve papel crucial na transformação do país em um dos principais inovadores industriais e culturais do mundo. Nos anos 1960, a renda per capita da Coreia do Sul era inferior à de países como Haiti, Etiópia e Iêmen e 40% abaixo da renda per capita da China.

No entanto, o chamado milagre sul-coreano assistiu ao surgimento de conglomerados empresariais (em coreano, chaebol), incluindo a Lucky Chemical Company (que mais tarde se tornou a gigante da eletrônica LG) e a Samsung na década de 1970. Depois disso, o crescimento econômico foi, em média, de 6,4% até 2022. Hoje, a economia de ₩ 2,24 quatrilhões (US$ 1,72 trilhão) da Coreia é a quarta maior da Ásia e a 14a do mundo.

Seguindo a mesma trajetória ascendente, o mercado de cafeterias do país requer um exército de baristas, torrefadores e Q-Graders qualificados para apoiar essa gigantesca indústria. Por isso, a associação de cafés do país é uma das poucas diretamente financiadas pela Speciality Coffee Association (SCA).

Após o lançamento do sistema de diplomas da SCA na Coreia do Sul, em 2011, existem agora cerca de 400 treinadores SCA autorizados (authorized SCA trainers ou ASTs, em inglês), representando um quinto dos 1,8 mil ASTs no mundo.

O entusiasmo dos sul-coreanos por competições de café é enorme, especialmente depois que Jooyeon Jeon se tornou o primeiro campeão mundial de barista do país, em 2019. Fora das competições, não é incomum ver donos de cafeterias exibindo certificados e prêmios atrás do balcão como símbolos de sua dedicação à excelência.

“Os sul-coreanos estão dispostos a estudar e aprender mais, por isso o interesse na educação sobre café sempre foi muito grande. Mesmo que as pessoas não trabalhem nesta indústria, elas ainda querem saber mais sobre o que estão bebendo todos os dias”, diz Cera Jung, gerente da SCA na Coreia do Sul.

Prateleiras com cafés ready-to-drink na 7-Eleven

A onda sul-coreana

Os fortes laços econômicos e culturais da Coreia do Sul com os EUA e o ocidente continuam a ressoar profundamente entre os consumidores e têm uma influência significativa nos negócios, na moda, na mídia e nas tendências culinárias.

Criado nos EUA, mas agora vivendo na Coreia do Sul como gerente-geral da Blue Bottle Coffee, Ryan Suh é um exemplo de como o mercado de café da Coreia do Sul é um dos mais vibrantes e bem-sucedidos do mundo. Ele concorda que a curiosidade dos sul-coreanos por tendências estrangeiras desempenhou um papel central na ascensão meteórica das cafeterias. “Essa parte do mundo sempre foi fortemente influenciada pela cultura ocidental, e isso se reflete nas décadas em que marcas multinacionais foram recebidas com uma demanda inicial enorme.”

Suh, que abriu a primeira loja da rede da Califórnia em 2019, diz que ela começou a todo vapor, e ao final do primeiro ano já empregava 80 membros de equipe em tempo integral e gerava cerca de ₩ 8 milhões em vendas.

Ao lembrar de sua primeira viagem ao Japão com a Blue Bottle, em 2017, Suh conta que cerca de 40 a 50% dos clientes do Aoyama Café, em Tóquio, eram visitantes sul-coreanos. “Não tivemos escolha a não ser entrar na Coreia do Sul, porque os sul-coreanos nos escolheram”, afirma.

No entanto, o país também está traçando seu próprio caminho cultural. Hallyu, ou “onda sul-coreana”, descreve a difusão internacional da cultura desde os anos 1990, após o fim do regime militar e a liberalização da indústria cultural – um desenvolvimento que permitiu que indústrias criativas como cinema, televisão, moda e, claro, o K-pop prosperassem.

Em 2023, mais de 100 milhões de álbuns físicos de K-pop foram vendidos na Coreia do Sul. Doze anos após o sucesso global de Gangnam Style, o gênero continua atraindo o grande público e gera quase US$ 1 bilhão em vendas internacionais todos os anos.

Em julho de 2023, a Starbucks colaborou com o grupo de K-pop Blackpink ao criar um frappuccino temático e uma linha de mercadorias de edição limitada em nove mercados da Ásia-Pacífico, que, dizem, esgotaram em três horas após seu lançamento on-line. Em 2023, a Mega Coffee lançou uma campanha com o grupo de K-pop ITZY, e a Compose Coffee se uniu a Kim Taehyung, estrela do BTS.

Um pôster promocional do Compose Coffee apresentando V do popular grupo de K-Pop BTS

“Os grupos de K-pop foram projetados desde o início para serem exportados para o mundo. Eles são divertidos, nostálgicos e orientados para a comunidade, e eu já vi a influência cultural do K-pop, dos cosméticos e da comida sul-coreana ao redor do planeta”, observa Suh.

Me encontre para um café

Quando a Starbucks entrou no país, em 1999, o conceito de “terceiro lugar” para socializar, realizar reuniões ou simplesmente recarregar as energias conquistou muitos consumidores, já cativados pelo café instantâneo e ansiosos para dar o próximo passo em direção às bebidas premium e à cultura do espresso.

“Historicamente, os sul-coreanos não tinham muitos lugares para passar o tempo fora de casa, em comparação com a sociedade ocidental. Eles não costumam convidar pessoas para suas casas, então a cafeteria se tornou o local para encontrar amigos ou fazer reuniões – tudo pelo preço acessível de uma xícara de café. Isso também trouxe o consumo diário da bebida, que virou um hábito”, explica Matt Lee, gerente-geral da La Marzocco Korea.

Trabalhando com a La Marzocco desde que a empresa começou suas operações na Coreia do Sul, em 2012, Lee testemunhou de perto o rápido desenvolvimento do mercado de café no país. Nos primeiros anos, a La Marzocco encontrou um nicho entre os operadores de cafés especiais, focados na qualidade e no prestígio de possuir uma máquina da empresa. “La Marzocco era considerada uma ‘máquina dos sonhos’ cara naquela época”, diz ele.

“Contudo, à medida que as pessoas começaram a reconhecer a qualidade que nossas máquinas podiam oferecer, vimos cada vez mais clientes querendo ter uma La Marzocco em suas cafeterias. Agora, até mesmo as empresas de franquia querem servir café especial e mostrar aos clientes que também valorizam a qualidade”, completa.

Lee diz que o mercado de cafeterias da Coreia já parecia saturado 12 anos atrás. No entanto, a enorme escala tornou-se mais complexa, com muitas cafeterias especiais introduzindo torrefação de pequenos lotes e bebidas de café infusionadas para se manterem à frente da concorrência.

“O amor dos coreanos pelo café continua crescendo, e a busca por melhor qualidade também. O mercado está saturado, mas continua em expansão – não sei qual o seu limite”, afirma.

Ao destacar que, em 2023, o número de cafeterias superou o de restaurantes fast-food pela primeira vez desde 2013, Wonjin Cho afirma que a criação de novos distritos comerciais e complexos de apartamentos levou a um excesso de propriedades, que costumam ser ocupadas por cafeterias.

“Esses espaços vagos são frequentemente preenchidos por cafeterias, que são vistas como lucrativas e relativamente fáceis de operar. No entanto, muitas fecham rapidamente se não conseguirem acompanhar as rápidas mudanças nas tendências ou se muitos concorrentes abrirem um estabelecimento nos arredores delas”, diz ele.

Redes focadas em valor

Apesar de sua ascensão aparentemente incontrolável, o mercado de cafeterias da Coreia do Sul não ficou imune aos desafios econômicos mais amplos. O Banco da Coreia do Sul prevê que o crescimento econômico desacelere para uma média de 0,6% na década de 2030 e contraia 0,1% ao ano na década de 2040. Com o envelhecimento da população e o baixo crescimento salarial pressionando as rendas disponíveis, as redes de cafeterias focadas em valor se fortaleceram para garantir que mais coreanos possam continuar consumindo café.

“Muitos previram que o crescimento do café de baixo custo não duraria devido ao aumento dos custos de matérias-primas e mão de obra causados pela inflação. Apesar dessas previsões, a demanda por esse tipo de café aumentou continuamente por causa da crise econômica prolongada. Esse setor viu um crescimento explosivo nos últimos anos, com adolescentes, incluindo estudantes dos ensinos médio e fundamental, agora participando do mercado”, diz Cho.

A rede de cafés Mega Coffee abriu sua primeira loja em 2015, e expandiu-se rapidamente. Segundo dados da Comissão de Comércio Justo da Coreia do Sul, havia, em 2022, 1.184 locais da Mega Coffee no país, mais de 2.150 em 2023 e 3 mil em maio de 2024. O concorrente focado em valor, Compose Coffee, também viu seu portfólio crescer de 725 lojas licenciadas em 2020 para 2.571 atualmente.

Mega Coffee, uma das maiores cadeias de café da Coreia do Sul

Porém, enquanto grandes redes de café se beneficiam da redução de riscos e das taxas de licenciamento para a expansão de franquias, seus operadores, muitas vezes, deparam-se com descontos agressivos impostos pelas sedes. Em julho de 2024, um proprietário de loja licenciada, que preferiu não se identificar, disse a repórteres sul-coreanos que 38% das receitas geradas por um café americano quente de ₩ 1,500 (US$ 1,10) são perdidas por causa dos custos de produção.

“O modelo de franquia muitas vezes se beneficia por meio da expansão agressiva, aumentando a receita com taxas de franquia, design de interiores e custos de treinamento. No entanto, os franqueados sofrem com a diminuição dos lucros e o aumento de lojas fechadas devido à intensa concorrência.”

Do leite saborizado de banana ao café com queijo e grain lattes – uma infusão do popular pó multigrãos coreano, Misutgaru –, a inovação de bebidas na Coreia do Sul tem dado mais do que algumas reviravoltas estranhas e incríveis ao longo dos anos. “Um aspecto único da cultura sul-coreana é a rapidez com que as tendências vêm e vão, então empreendedores, artistas e criadores estão sempre otimizando para o próximo grande sucesso”, diz Ryan Suh, da Blue Bottle.

A bebida mais vendida da Blue Bottle no país é o nola float, uma versão inovadora do café gelado de Nova Orleans com sorvete de máquina por cima, que representa cerca de 10% das vendas totais da marca no país.

Cera Jung também observa que o entusiasmo dos consumidores por novas tendências tem sido um catalisador chave para o desenvolvimento da indústria, ao incentivar a experimentação e a inovação em busca da próxima grande novidade no café. “Mesmo que seja caro, as pessoas no país querem experimentar coisas novas para aprimorar sua experiência. Elas gostam de cafés de origem única e sabores distintos, mas também estão interessadas em novos métodos de processamento, como o café infusionado. Qualquer coisa nova, diferente e que valha a pena experimentar, estamos a par e trabalhando para”, diz Jung.

No entanto, o café gelado é o campeão indiscutível do mercado de cafeterias na Coreia do Sul. A Starbucks Coreia relata que mais de três quartos de todas as bebidas servidas são frias ou com gelo, com esse número ainda em torno de 60% durante os meses de inverno. “Tudo gira em torno de bebidas geladas quando o assunto é café ou até mesmo bebidas não cafeinadas”, afirma Jung.

O trabalho árduo, a competição e o desejo de descobrir as últimas tendências transformou a paixão dos sul-coreanos pelo café em uma indústria de causar inveja no mundo.

Seja como arte a ser dominada, bebida a ser saboreada, marca para inspirar ou uma bebida para construir relações, o café é o ponto focal de inúmeras interações na sociedade coreana – e uma obsessão nacional que não mostra sinais de desacelerar.

Texto originalmente publicado na edição #86 (dezembro, janeiro e fevereiro de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Tobias Pearce (5THWAVE)

Mercado

Marca carioca produz licor de cafés especiais

“O Cabra Lab veio de uma ideia que surgiu há mais de cinco anos”, conta Gabriel Collares, sócio da Degusto Brands, holding de destilados que detém o Cabra Lab e as marcas de cachaça Quero Chuva e Cafuné.

Diferentemente das cachaças, o Cabra Lab produz e comercializa licor de café, feito com grãos de qualidade. “Eu gosto muito de café e achei que faltava no mercado um licor que desse protagonismo a ele, com dulçor equilibrado, sem interferência de notas da base alcoólica e sem adição de aromas”, comenta.

A marca, que começou os testes em 2020 mas só fez seu primeiro lançamento no ano passado, produz o licor com um blend de grãos arábica da Fazenda Tassinari, no Rio de Janeiro, e de canéfora da Fazenda Venturim, no Espírito Santo. “O café é torrado e moído poucos dias antes da extração a frio, o que garante frescor e intensidade”, explica Collares.

A base alcoólica, neutra, é feita com álcool de cereais e possui 25% de álcool, e a doçura do Cabra Lab está bem abaixo da média dos licores de café no mercado. É um produto para ser tomado puro ou em coquetéis. “Se puro, sugerimos que esteja gelado ou em um copo com gelo. Já em coquetéis, é versátil e fica perfeito no Espresso Martini”, recomenda.

O Cabra Lab está em mais de 80 casas de coquetelaria do Rio de Janeiro, mas também é possível encontrá-lo no e-commerce da marca, no Mercado Livre e na Amazon, por R$ 189 (750 ml).

TEXTO Redação • FOTO Umami.mkt

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Ranking internacional de cafeterias cita apenas uma brasileira entre as 100 melhores

Por Cristiana Couto

A paulistana Cupping Café, na Vila Madalena, é a única cafeteria brasileira a integrar a primeira edição do ranking The World’s 100 Best Coffee Shops, organizada pela empresa espanhola NeoDrinks. O anúncio das cem melhores do mundo foi feito nesta segunda (17), em Madri, durante o evento Coffee Fest. A Cupping Café posicionou-se em 92o lugar.

O primeiro lugar ficou com Toby’s State Coffee Roasters, da Austrália, país que emplacou mais três estabelecimentos entre os dez melhores na lista, ao lado dos Estados Unidos, Áustria, Noruega, Singapura, França, Malásia e Colômbia – estes dois últimos, os únicos países produtores de cafés contemplados entre os dez mais bem posicionados. “A Austrália tem uma tradição e uma qualidade enorme de cafés, de serviço de baristas e de equipamentos”, diz Edgard Bressani, CEO da Latitudes Brazilian Estates e autor do Guia do barista – Da origem ao café perfeito. 

O ranking avaliou mais de quatro mil cafeterias, baseando-se nos critérios de qualidade do café, habilidade do barista, práticas sustentáveis, serviço, atmosfera, qualidade dos alimentos, inovação e consistência. Um júri internacional de especialistas e profissionais da indústria (com peso de 70%) e votação pública online (que compõe 30% do peso da nota) determinaram as melhores de uma lista preliminar de 200 cafeterias indicada pelo público ou pelos profissionais. 

Entre os coordenadores de cada região de votação estão nomes como Michalis Dimitrakopoulos, campeão mundial de baristas e chefe do júri para a Europa Oriental, Kat Melheim, fundadora do Coffee People Zine e chefe do júri para a Costa Leste dos EUA, a especialista e educadora Dara Santana, chefe do júri para a Europa Ocidental e Darveris Rivas, especialista em cafés venezuelano e chefe do júri para a América do Sul. O site oficial não revela o número total de jurados. “Há, porém, casas que ficaram de fora, como a Substance [Cafe], em Paris, a Sisu [Coffee Studio], no Panamá, a loja conceito da Espresso Lab, em Istambul”, lembra Bressani. 

“De fato, algumas cafeterias tradicionais do mundo e do Brasil não estão contempladas na lista. Assim como aconteceu com outras premiações de gastronomia, questionamentos sobre rankings parecem fazer parte do negócio”, reforça Caio Alonso Fontes, CEO da Espresso&CO. “Vale considerar que esta é a primeira edição do ranking, e que listas como estas geram visibilidade e impulsionam mercados”, conclui.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Divulgação

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Gesha é vendido por preço recorde de US$ 10.020 o quilo

O café, da Finca Sophia, no Panamá, ultrapassou o recorde da variedade de 2024, de US$ 10.005 o quilo

O valor de US$ 10.020 por quilo pago pelo café geisha da Finca Sophia no leilão inaugural da World of Coffee Dubai 2025, maior feira de café do Oriente Médio que aconteceu entre 10 e 12 de fevereiro, estabeleceu novo recorde para o preço mais alto já pago por essa variedade em leilões internacionais.

O leilão Dubai Multi Commodities Centre (DMCC) Specialty Coffee Auction, realizado pela primeira vez, contou com 16 lotes de 11 produtores de nove países e marcou um novo patamar para o mercado de cafés especiais. Em 2024, durante o Best of Panama, um lote de 25 quilos de gesha da finca Carmen Estates foi vendido por US$ 250.125 – o equivalente a US$ 10.005 por quilo – superando o recorde anterior de 2021.

Além do gesha que estabeleceu um novo recorde de preço para a categoria, outro lote da mesma fazenda panamenha foi vendido por US$ 8.614/kg, confirmando a valorização da variedade geisha entre os apreciadores de cafés especiais.

Destaque, também, foi o kona SL 34, do Havaí, que atingiu US$ 910/kg, oito vezes o valor máximo já pago anteriormente por um café da região, estabelecendo um novo recorde para o café norteamericano.

Outros cafés que quebraram marcas históricas incluem o gesha village oma natural, da  Etiópia, vendido por US$ 1.100 o quilo (novo recorde para cafés etíopes) e o la llama, da produtora Los Rodriguez, da Bolívia, por US$ 350 o quilo (recorde para cafés bolivianos). 

Todos os cafés leiloados receberam notas acima de 92 pontos na escala de 100 pontos da Specialty Coffee Association (SCA).

Os valores recordes são impulsionados por três fatores principais: qualidade excepcional, que são os cafés geralmente acima de 90 em avaliações sensoriais, raridade e terroir exclusivo, que refletem as condições de cultivo únicas e produção em microlotes, e a história do produtor – compradores buscam não apenas qualidade, mas, também, consistência e um storytelling envolvente.

Os principais compradores incluem torrefações boutique e cafeterias especializadas, que vendem esses cafés como edições limitadas. 

TEXTO Fonte: International Comunicaffe

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Museu do Café ganha nova identidade visual

Com papel fundamental na preservação da história do café e na disseminação do conhecimento sobre o grão, o Museu do Café apresentou seu novo posicionamento institucional. 

“O propósito dessa mudança é estabelecer uma conexão emocional e de afetividade com diversos públicos, desconstruindo a imagem intimidante e elitista [do museu]”, explica a diretora-executiva do Museu do Café, Alessandra Almeida.

Em processo desde 2021, o rebranding, desenvolvido em conjunto com o Istituto Superiore per le Industrie Artistiche Roma (ISIA Roma Design), incluiu o lançamento de uma nova identidade visual que destaca o lado humano e social do café além da xícara, trazendo assuntos como gênero, raça e imigração. 

Para isso, os novos atributos adotados pelo Museu do Café nesta fase (vivo, participativo, internacional, socialmente responsável e afetivo) serviram de base para a atualização da identidade visual, que utilizava a mesma logomarca desde a fundação, em 1998.

O novo logotipo foi inspirado em movimentos orgânicos e circulares que fazem parte da cadeia de produção e consumo, influenciado, também, por traços e elementos do prédio que abriga o Museu, como Salão do Pregão, a cúpula, o relógio da torre e as colunas greco-romanas. 

“A forma circular da xícara vista de cima vai ao encontro do sinal dinâmico da gota. O resultado é uma letra C suave”, explica Massimiliano Datii, professor do ISIA. “Os rostos dos produtores e consumidores, os elementos naturais, os rituais nas diversas partes do planeta, as cores do mundo do café, cada detalhe é integrado ao sistema visual e contribui para enriquecer a imagem do Museu”, completa.

A nova identidade pode ser vista pelo público no site do Museu do Café – que foi totalmente reformulado –, nas redes sociais e no vídeo da campanha institucional

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

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Como o preço do café pode impactar o mercado e o consumo

A escalada de preços abre espaço para alternativas de consumo, como as bebidas ready-to-drink e o café solúvel

Foto: Agência Ophelia

Por Gabriela Kaneto

Nos últimos meses, a alta expressiva dos preços do café tem sido um assunto em debate. Em 2024, o custo do grão para o consumidor cresceu 37,4%, de acordo com dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), em coletiva realizada na última quarta (5). Estoques baixos, tanto nos países produtores quanto nos consumidores, problemas climáticos – com projeções de que as condições devem persistir em 2025 – e a alta do dólar são algumas justificativas para essa valorização. 

Estimativas de produção para o próximo ciclo também impactam os preços. Em 28 de janeiro, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou sua primeira estimativa para a safra brasileira de café 2025, indicando uma produção de 51,8 milhões de sacas, queda de 4,4% em relação ao ano anterior. 

Enquanto isso, nas gôndolas, um simples café de mercado está na casa dos R$ 30 – e a previsão não é animadora. “Devemos ter aumento adicional no preço final. A indústria não tem como evitar esse aumento e repassou os valores para os intermediários e consumidores finais”, disse Pavel Cardoso, presidente da Abic, na coletiva. “Nos próximos dois meses, devemos ter um aumento de 25%”, acrescentou.

Foto: Agência Ophelia

Entre a produção e o cliente

Alex Lima, fundador da Torra Fresca Cafés, de Mococa (SP), sente os efeitos da rápida escalada. Em entrevista à Espresso, ele comenta que cerca de 15% dos clientes deixaram de comprar café nos últimos meses. “Fizemos um repasse de 50% entre novembro e janeiro. Os clientes assustam, tentam manobrar e, em alguns casos, deixam de comprar”, explica.

À frente da torrefação há 11 anos, Lima trabalha não apenas com café especial, mas também com gourmet – produto que tem sido uma alternativa para quem busca manter certo padrão de qualidade. “O gourmet apresentou aumento nas vendas. Antes, o cliente comprava dois especiais. Hoje, tem comprado um especial e um gourmet”, relata. 

No norte do país, em Belém, no Pará, o empresário Bruno Wariss, da Alquimista Bebidas Especiais, também se reinventa para driblar a situação. “É importante ser flexível”, pontua. Ele, que vem de família que trabalha com café há décadas, relembra outros momentos difíceis: “Entre 2015 e 2016, em que tivemos impeachment de presidente e caminhões parados, os produtos não chegavam e a gente precisou se adaptar. Depois veio a covid-19, três meses totalmente fechados, sem funcionar, não estávamos vendendo café. Mas precisamos nos adaptar ao mercado”.

Foto: Agência Ophelia

Wariss explica que o repasse para o cliente se faz necessário para manter o negócio funcionando. “Nós tentamos segurar o preço, mas infelizmente tem que repassar. Antes eu vendia, para cafeterias, um café de 82 pontos, para espresso, a R$ 75 o kg. No momento está custando R$ 120, mas vem escalando de dez em dez reais a cada 15 dias. É a nova realidade. Não adianta segurarmos o preço, senão vamos ter que fechar a empresa”, aponta o empresário.

Ele também comenta que o fato de estar longe de grandes centros produtores, como Minas Gerais e Espírito Santo, o obriga a comprar quantidades maiores de café por vez – o que financeiramente não tem sido um negócio fácil. “Há 12 meses, com 100 mil reais, comprávamos 60 sacas de 60 kg. Agora, com 100 mil reais, conseguimos comprar 28 sacas. Antes, o produtor dava 120 dias de prazo, agora ele dá 30”, relata. “Então é uma adaptação completa, até da minha vida pessoal. Meu pró labore diminuiu 30% para que a gente possa se adequar às novas compras de café. É um estudo financeiro, de gerência e de venda, e ao mesmo tempo uma relação com o produtor”, detalha.

Foto: Agência Ophelia

Em contrapartida, para manter o interesse do público nos cafés de qualidade, Weriss tem investido na educação do público com treinamentos que acontecem em seu espaço. “Treinamos de duas a três mil pessoas por ano, entre baristas, coffee lovers e donos de cafeterias, e com isso o consumidor fica cada vez mais esperto sobre o real valor do café, no sentido sensorial, e já sabe reconhecer muito bem o que é o café especial”, destaca. 

Ele também faz parcerias com empresas de consultoria. “Elas oferecem aos meus clientes uma palestra gratuita e depois, caso queiram, eles acabam fechando negócio. Ou seja, essas empresas se aproveitam do meu networking para fechar possíveis contratos, e, ao mesmo tempo, fomentam meus clientes a serem melhores profissionais. Mantemos o terreno fértil aqui”, explica.

Novas formas de se consumir a bebida

Claro que o café filtrado não será substituído, mas a escalada de preços pode impactar a forma de consumo, dando margem para que novas bebidas entrem no jogo, como as bebidas ready-to-drink e o café solúvel. “O solúvel está sendo inserido como mais uma forma de se tomar café em determinados momentos do cotidiano”, afirma Aguinaldo Lima, diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics). 

Café solúvel – Foto: Felipe Gombossy

Nos últimos meses, o produto teve bom desempenho, como indica a atualização do AbicsData, plataforma da Abics, divulgada no final de janeiro. Segundo os dados, o Brasil registrou aumentos recordes tanto nas exportações quanto no consumo interno. Em 2024, os envios de café solúvel somaram 4,093 milhões de sacas – crescimento de 13% na comparação com o ano anterior. No mesmo período, o consumo nacional alcançou o seu maior nível histórico: 1,069 milhão de sacas. Para Lima, a melhora da qualidade e o leque de opções são fatores que justificam a maior demanda pelo produto. “São vários blends de canéforas e arábicas, além da diversificação dos processos, como o aglomerado, o spray dried ou o freeze dried, que tem várias aplicações, e também os muitos tipos de embalagens. Com isso criou-se uma prateleira maior para os consumidores”, explica. 

Na prática, a versatilidade, o preço da dose e sua maior vida útil também são fatores a favor do solúvel, como menciona a consultora da Abics, Eliana Relvas: “no caso do solúvel, não tem desperdício. O consumidor faz doses únicas, geralmente 1g ou 1,5g por xícara, misturado com leite ou água. Além disso, pode durar até dois anos se embalado corretamente. Já o torrado e moído tem uma validade menor, pois oxida mais rápido”, comenta. “Lembrando que o café solúvel é só café e água. Usamos só pressão e temperatura em sua produção”, destaca.

Hoje, o solúvel representa 28% do consumo total global e 5% no cenário brasileiro – número este que vem crescendo nos últimos anos, como mostra a série histórica da Abics (veja imagem abaixo), que os acompanha desde 2016. 

“Como segundo maior consumidor de café, o Brasil tem muito espaço para crescer no consumo do produto, e isso está muito ligado à nossa capacidade de transmitir aos consumidores que o café solúvel não é tudo igual, que tem, sim, várias aplicações”, afirma Lima. “As expectativas são as melhores e devemos seguir crescendo no Brasil a um ritmo bastante interessante”, completa.

TEXTO Gabriela Kaneto

Mercado

O consumo de café no Brasil cresceu 1,11%

Dados coletados pela Abic até outubro do ano passado revelam também que o consumo per capita diminuiu 2,2% no país; quanto à falta de café no mercado, o país está preparado para o enfrentamento

O consumo de café no Brasil cresceu 1,11% em 2024, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) apresentados em coletiva de imprensa nesta quarta (5). Isso significa que os brasileiros consumiram 21,92 milhões de sacas em 2024, contra 21,67 milhões em 2023.

Já o consumo per capita de café torrado e moído entre 2023 e 2024 caiu 2,2% (de 5,12 kg por habitante por ano para 5,01), por conta do crescimento da população (a Abic utilizou a base populacional feita pelo IBGE, que cresceu). Os dados acima foram coletados entre novembro/outubro de 2023 e novembro/outubro de 2024.

Questionado pela Espresso se faltará café no mercado interno por conta da pequena oferta atual, Pavel Cardoso, presidente da Abic, nega que tenhamos problemas. “Sempre há estoques reguladores nos países produtores e exportadores. Por conta da EUDR, as importações europeias foram aceleradas para estoque”, diz ele.

Embora a safra brasileira de 2025 seja “ligeiramente menor”, nas palavras de Cardoso, para Fábio Sato, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) e que também participou da coletiva, a safra brasileira poderá trazer alívio para essa baixa oferta. Segundo Edvaldo Frasson, presidente do Sindicafé-SP, “a indústria está preparada”.

TEXTO Redação • FOTO Agência Ophelia

Mercado

Lançamentos da Carmomaq para torrefação e empacotamento de café

Várias marcas do mercado aproveitam a Semana Internacional do Café para fazer seus lançamentos. A Carmomaq, que atua no setor de equipamentos, apresentou três novidades. Uma delas foi a empacotadora Exatto, que visa facilitar o trabalho de envase de pacotes de café nas microtorrefações e cafeterias. Em vez de realizar um processo manual de dosagem dos grãos, o equipamento, que comporta de 15 a 20 kg de café, permite que o usuário programe a quantidade desejada por pacote e faça um empacotamento sequencial.

Além da Exatto, as outras duas novidades são os torradores Caloratto Pro Roaster e Stratto Lab. O Caloratto, disponível em versões para 5 kg, 10 kg, 15 kg e 30 kg, tem sistema de automação embarcado, que permite ao usuário pernalização e maior controle. Já o Stratto Lab, 100% elétrico, é portátil, com capacidade para 250 g, ideal para torras de amostras e pequenos lotes.

Mais informações: www.carmomaq.com.br

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Mercado

Fundação Mundial do Cacau (WCF) debate desafios do setor em evento em São Paulo

Nos dias 19 e 20 de março, a Fundação Mundial do Cacau (WCF) realiza, em São Paulo (SP), o Partnership Meeting, evento global dedicado ao cacau e ao chocolate. Com o tema “Nosso futuro: resiliência por meio da sustentabilidade”, a edição deste ano (segunda realizada no Brasil) aborda os desafios enfrentados pelo setor. As inscrições para participar já estão abertas no site.

Assuntos como mudanças climáticas, queda de produtividade, doenças do cacaueiro, novas regulações, déficit de oferta e volatilidade de mercado serão debatidos por profissionais do setor e especialistas na área. O objetivo é destacar a necessidade de práticas sustentáveis para desenvolver resiliência – individual e coletiva – e garantir o futuro da produção de cacau e da indústria.

Entre os palestrantes estão confirmados Michel Arrion, diretor-executivo da Organização Internacional do Cacau; Eduardo Bastos, diretor-executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG); Marcello Brito, secretário-executivo do Consórcio Interestadual da Amazônia Legal; Vinicius Ahmar, gerente de Bioeconomia do Instituto Arapyaú; Sarah Dekkiche, diretora de Políticas e Parcerias da Iniciativa Internacional para o Cacau (ICI); Michael Ekow Amoah, diretor adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento do Conselho de Cacau de Gana; e Santiago Gowland, CEO da Rainforest Alliance. Confira a lista completa no site.

“Dado os desafios e o ritmo das mudanças que transformam o setor global de cacau, este é um momento crucial para reunir líderes e buscar soluções em comum”, afirmou Chris Vincent, presidente da WCF, em comunicado sobre o evento. “Estamos entusiasmados por sediar o evento deste ano no Brasil, um país singularmente posicionado para inspirar novas ideias, promover trocas Sul-Sul e apresentar inovações em agricultura sustentável”, completou.

Serviço
Partnership Meeting 2025
Quando: 19 e 20 de março
Onde: Tivoli Mofarrej São Paulo Hotel – Alameda Santos, 1.437 – Cerqueira César – São Paulo (SP)
Ingressos e programação: https://worldcocoafoundation.org/partnership-meeting/join-us#about 

TEXTO Redação

Mercado

Pronto para beber: como marcas nacionais exploram o mercado RTD

Are brazilians ready to drink? Empresas nacionais entram na onda das bebidas com café prontas para beber e surfam em um mercado que já movimenta bilhões. Saiba o que está por trás desse sucesso e as expectativas para o apreciador brasileiro

“Vamos tomar um café?” Para o brasileiro, o convite, tão arraigado à nossa cultura, é a certeza de uma pausa para um momento de comensalidade, acompanhado de uma bebida perfumada e fumegante na xícara. Mas, agora, o mesmo convite pode ter um resultado bem diferente: entra em cena um café gelado com leite (vegetal ou não), prontinho na garrafa descartável, oferecido antes do treino na academia.

Pode soar absurdo para muitos, mas as chamadas bebidas “ready-to-drink” (RTD) já são uma realidade no dia a dia de apreciadores, que chancelam novos formatos de consumo que vão além do nosso tradicional cafezinho.

Consolidado principalmente nos Estados Unidos e na Ásia, com receita que ultrapassou os 36 bilhões de dólares no mundo em 2024, segundo o Statista (plataforma global de dados e inteligência de negócios), o mercado de RTD com café ainda engatinha no Brasil. Enquanto somente o Japão é responsável por 12,12 bilhões de dólares, nosso país tem a receita combinada de 960 mil dólares em 2024, mas tudo caminha a passos largos. Enquanto a expectativa de crescimento mundial é de 3,33% ao ano no período de 2024 a 2029, para o Brasil esse número sobe para 5,53%.

“O Brasil destaca-se como um dos principais mercados globais para as bebidas de café prontas para beber da Nescafé. O país apresenta um crescimento robusto nas vendas dessa categoria, impulsionado pela alta demanda dos consumidores por conveniência e variedade de sabores”, conta Rodrigo Suzuki, gerente de marketing de bebidas da Nestlé.

A marca internacional, que lançou o primeiro RTD de café no Brasil em 2015, reforçou a categoria em 2023 com o relançamento da linha Nescafé Gelado, nos sabores Cappuccino Clássico, Chococino, Latte e Cappuccino sabor Canela, e com a ampliação do portfólio da linha Starbucks RTD com as receitas de Café Clássico, Mocha e Caramelo.

Outra grande empresa cafeeira no país, a 3corações também ampliou sua linha de RTD com dois lançamentos neste ano: Cappuccino sabor Caramelo Salgado e Cappuccino sabor Cookies‘n Cream. Agora, totalizam 11 receitas de bebidas prontas no mercado, incluindo versão zero e com whey protein. “Temos lançado produtos que atendem a novos desejos daqueles que são movidos a café. E uma das tendências que acompanhamos é a de que os consumidores estão cada vez mais atentos a temas relacionados à saúde, ao bem-estar, mas sem abrir mão da indulgência e do sabor”, explica Anderson Spada, head de marketing do Grupo 3corações.

Por trás de todo esse movimento em torno do segmento no país está, sem dúvida, a geração Z (nascidos entre 1997 e 2010). “Tem alguns estudos que mostram que a geração Z não só consome o café quente pela manhã, mas também ao longo do dia e, à tarde, dá preferência para uma bebida gelada. É uma geração que está aberta a novas propostas de consumo”, diz Alex Söderberg, co-fundadora e CMO da Naveia. A empresa, focada em bebidas vegetais à base de aveia, apresentou durante a Semana Internacional do Café, em novembro, sua nova linha de lattes nos sabores Mocha e Cold Brew, ambos com café, e Matcha, com chá-verde, com vendas a partir do início de 2025. “O RTD é um canal novo para nós, passamos do nicho das cafeterias de café especial para um público mais amplo, com uma proposta mais popular e democrática. É um produto perfeito para uma prateleira de ‘grab and go’”, acrescenta Alex.

Embora apenas 7% dos brasileiros tenham o hábito do café gelado segundo a pesquisa da Abic realizada em 2023, a geração Z é, sem dúvida, uma grande aposta para fomentar as RTDs. Conforme pesquisa da Nielsen encomendada pela Nestlé, divulgada em abril deste ano, o consumo de café gelado tem crescido a duplo dígito nos últimos anos, principalmente entre essa geração. Em 2023, esse aumento foi de 45% em relação ao ano anterior, resultado dez vezes maior que o de outras faixas etárias.

“O público da geração Z que consome as bebidas RTDs de café da Nestlé é bastante diverso, refletindo a multiplicidade de drivers de consumo na categoria. Há aqueles que buscam indulgência, com bebidas que oferecem experiências sensoriais diferenciadas e sabores marcantes, outros são atraídos pelos benefícios da cafeína, como energia e foco, enquanto muitos procuram soluções práticas que se alinhem ao estilo de vida dinâmico e conectado dessa geração”, complementa Suzuki, da Nestlé.

A importância do cold brew

Nessa formação de paladar para as bebidas geladas, é inegável a importância do cold brew como porta de entrada do café gelado para quem quer praticidade e a qualidade do café especial. E a extração a frio do grão torrado tem sido um caminho para cafeterias e produtores de cafés engarrafarem suas bebidas. A rede Café Cultura retornou com seu cold brew engarrafado em PET nas geladeiras de suas mais de 45 lojas pelo país. Na sua receita vai somente água e café do blend da casa, com as variedades bourbon amarelo, catuaí vermelho e icatu amarelo.

Já a Fazenda Aliança, em Monte Santo de Minas, no sudoeste do estado, apostou na variedade catuaí amarelo para o lançamento neste ano do cold brew de marca própria. Inicialmente foram fabricadas 8 mil latas, de olho no mercado em academias, empórios e cafeterias. “A decisão veio de uma viagem de nossa família ao Canadá, onde conhecemos o cold brew em lata gaseificado”, conta Juliana Paulino da Costa Mello, que é da 5ª geração da família de cafeicultores e montou o planejamento do novo negócio focado no público jovem.

Com o propósito de tirar o complexo de “bebida esquecida na garrafa” e entregar alta qualidade pronta para beber, Carol Pereira, da torrefação Bixo Café, em São Paulo, leva 25 horas para infusionar seu cold brew, que é colocado em garrafas de vidro de 200 ml e vendido via e-commerce para todo o país. “O brasileiro precisa entender essa complexidade da bebida gelada e dar uma chance”, diz Carol, que produz cerca de 400 garrafas por mês e garante um shelf life de 50 dias sem refrigeração. “E estou fazendo estudos para extrair mais doçura e cafeína na receita final”, completa.

E o gesha, uma das variedades mais desejadas entre os coffee geeks, foi o escolhido para a receita do cold brew do Frescoffee, bebida com lançamento previsto para o primeiro trimestre de 2025. “Fizemos teste com outras variedades e o gesha teve o melhor desempenho em boca, deixando a bebida mais leve” comenta Rodrigo Lucente, um dos sócios da marca. O café vem das fazendas da família de Luiz Paulo Pereira Filho, da CarmoCoffees, que também é sócio da Frescoffe. “Outro diferencial é que a bebida é gaseificada, o que ajuda na ‘drinkabilidade’. E o Frescoffee é para entrar no lugar de quem toma suco, refrigerante. É um novo momento de consumo, não compete com o café”, complementa Pereira.

O poder da cafeína nos RTDs

O universo de RTDs com café está estreitamente conectado ao mercado das chamadas bebidas funcionais (veja reportagem na edição 79 da Espresso) pelo poder da cafeína no organismo. Muitas marcas, como SuperCoffee, +Mu e Dux oferecem produtos prontos para beber que reúnem o benefício da cafeína e a carga proteica do whey protein (proteína do soro do leite). Marcas de laticínios também entram no mesmo jogo, como Piracanjuba, Italac e Danone, com sabores que vão do café espresso ao cappuccino, assim como as bebidas proteicas veganas, como NotCo e Nude, que exploram versões com café e caramelo, baunilha, entre outros.

Ainda há o caminho dos “energéticos naturais”, onde somente a cafeína do café é extraída e associada a outros ingredientes. A recém-lançada Origem, por exemplo, faz um “suco” com a polpa do fruto do café e adiciona frutas como maracujá, uva e limão. “Meu público é cada vez mais de pessoas jovens que estão diminuindo o consumo de álcool e procurando produtos naturais”, comenta Pereira, da CarmoCoffees e sócio da Origem.

Texto originalmente publicado na edição #86 (dezembro, janeiro e fevereiro de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Beatriz Marques (com colaboração de Sandra Racy)