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Coluna Café por Convidado Especial

Do campo à xícara, profissionais convidados refletem sobre o setor

Viva a pesquisa nacional!

Estima-se que o Brasil tenha hoje “só” 4 bilhões de pés de café, e 90% deles vêm da mesma casa: Instituto Agronômico de Campinas. Se você não consegue nem imaginar como seria a nossa cafeicultura sem adubação, sem café no Cerrado e sem variedades como mundo novo e catuaí, então precisa conhecer a história desse instituto de pesquisa que modernizou o Brasil.

No fim da era colonial, a agricultura era a principal atividade econômica do Brasil e o café já tinha papel significativo. O problema era que, até então, a cultura do café era nômade, ou seja, o cafezal ia para onde houvesse solos férteis, e, esgotada a vitalidade do mesmo, a plantação mudava para outro lugar. Esse jeito de cultivar café pode parecer impensável nos dias de hoje, mas era muito comum na época, e especialistas já apontavam a necessidade de modernizar o modelo. Para fazer isso, foi criada, por ninguém menos que dom Pedro II, em junho de 1887, a Imperial Estação Agronômica. Em 1892, o instituto ganhou o nome de Instituto Agronômico de Campinas.

No começo, o propósito do instituto ainda era debatido: alguns acreditavam que ele devia se dedicar exclusivamente à pesquisa; outros achavam que ele deveria funcionar também como um centro de ensino, já que a comunidade exigia uma escola de Agronomia. Para organizar a casa, veio da Áustria o químico Franz Dafert que se tornou o primeiro diretor do Instituto. Na opinião de Dafert, o instituto devia se organizar como os institutos agronômicos alemães, que direcionavam esforços exclusivamente para a pesquisa. Sob suas ordens, o instituto começou a trabalhar em estudos de química do solo e a desvendar a demanda de nutrientes das plantas – ele já previa que, com esse conhecimento, seria possível manter e fertilizar constantemente as terras. Em 1920, o IAC já oferecia uma série de recomendações sobre adubação e fertilização, orientações para o controle de pragas e doenças e guias para melhorar a seca, a armazenagem e o beneficiamento dos grãos.

Outra figura essencial na história do IAC foi o engenheiro agrônomo Carlos Arnaldo Krug, que em 1929 deu o pontapé inicial em um grande projeto: o melhoramento genético do café. O programa está em andamento até hoje e causou verdadeiras revoluções na cafeicultura brasileira.

Na época, o maior problema dos produtores era a baixa produtividade das plantas. As pesquisas de melhoramento genético lideradas pelo doutor Krug conseguiram desenvolver o mundo novo, uma variedade de café arábica mais adaptada ao cultivo brasileiro e com alta produtividade. Ela é, ainda hoje, uma das variedades mais cultivadas no País. O mundo novo resolvia uma série de dificuldades do produtor, mas apresentava um problema: o porte alto da planta dificultava muito a colheita. Atento às necessidades do produtor, o IAC passou a desenvolver novas variedades e, em 1970, lançava o catuaí, uma variedade bastante produtiva e resistente a doenças, porém, de porte baixo. Sua baixa estatura facilitou muito a vida dos produtores, em especial os que faziam colheita manual. Ah, vale também mencionar que foi o IAC que realizou os primeiros testes de mecanização de colheita de café no Brasil!

Desde a década de 1950, o IAC já estudava a adequação do cafeeiro às diversas condições climáticas, e hoje o instituto tem um acervo de informações meteorológicas de mais de cem anos. Na década de 1960 o instituto passou a estudar as possibilidades de corrigir solos pobres ‒ esse estudo permitiu, por exemplo, a produção de café no Cerrado. Por muito tempo, acreditou-se que aquela não fosse uma região propícia para o cultivo de café devido aos poucos nutrientes e excessiva acidez do solo. Hoje, o café produzido no Cerrado corresponde a 40% da produção nacional!

A produtividade não é a única dor de cabeça do produtor de café, é claro, por isso as pesquisas do instituto sempre trabalham em duas frentes: a primeira é a eficiência, ou seja, redução de custos para o produtor, proporcionando aumento da produtividade e diminuição das perdas por doenças e pragas; e a segunda é a qualidade dos cafés: que com bebidas superiores têm maior valor agregado, enaltecendo o produto.

Sem a contribuição do IAC, quanto tempo levaria para a cafeicultura no Brasil se profissionalizar? Impossível saber, mas é inegável que, nestes 132 anos de história, o Instituto Agronômico de Campinas fez muito pelo Brasil e pelo nosso café. Na próxima vez em que tomar uma xícara de café, lembre-se de que por trás existem muitas décadas de pesquisa. Viva a pesquisa nacional!

*Juliana Sorati é Assessora de Marketing na Daterra Coffee. Este conteúdo foi desenvolvido em parceria com a empresa.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso referente aos meses dezembro, janeiro e fevereiro de 2020 – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Juliana Sorati • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

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