Coluna Café por Convidado Especial

Do campo à xícara, profissionais convidados refletem sobre o setor

A tempestade perfeita no Brasil cria oportunidades para outras origens?

Muito pior do que aconteceu na seca de 1986 e nas geadas de 1994, a combinação de eventos que afetou o agronegócio café brasileiro em 2021 é uma excelente definição de tempestade perfeita: seca, geadas, seca de novo, crise logística, grandes aumentos de preços de fertilizantes e pesticidas, risco de barreiras de acesso aos mercados da UE e excesso de chuvas e inundações primeiro nas áreas de Conilon e agora em Minas Gerais.

Embora a maioria dos componentes desta tempestade seja específica do Brasil, a crise logística e os insumos mais caros afetam todos os países produtores de café. No entanto, os aumentos de frete têm um impacto maior sobre os preços de entrega CIF dos cafés brasileiros porque o país está mais distante dos principais países importadores de café. Também, os preços de fertilizantes e pesticidas subiram para todos os países produtores, mas o Brasil os usa de forma mais intensa por vários motivos.

Foi a tempestade perfeita no Brasil pois afetou o tamanho da safra e o custo de produção e entrega do café de forma que não há paralelo no próprio Brasil no passado e na maioria dos outros países produtores no passado ou no presente. Sendo o Brasil, de longe, o maior país produtor de café, não é de admirar que os preços do café tenham subido de maneira não vista há décadas! Isto pode trazer oportunidades interessantes para todos os outros países produtores de café aumentarem sua participação no mercado porque as geadas podem ter impactos que vão além da safra de 2022, a crise logística – fretes altos – também pode se estender além de 2022 e os preços dos insumos devem permanecer altos no futuro próximo. Ou seja, pode haver uma janela de oportunidade para os concorrentes brasileiros que vai além de 2022.

Origens que não o Brasil podem se beneficiar desta oportunidade de várias maneiras: no curto prazo, melhor processamento de seus cafés – benefício úmido, secagem e benefício seco – para aumentar a eficiência e oferecer cafés de melhor qualidade; na próxima safra, boas práticas agrícolas e aumentos inteligentes no uso de insumos para avançar em direção à produtividade econômica máxima; e, no médio prazo, renovação com variedades resistentes a pragas e doenças e mais produtivas. Estas oportunidades são maiores para grandes produtores e para aqueles que tratam o café como um negócio. Os pequenos produtores, que são a maioria, tendem a se beneficiar menos porque são menos eficientes e geralmente vendem seus cafés por um preço mais baixo porque têm menos acesso à tecnologia e menos poder de barganha.

Como o tamanho médio da fazenda de café no Brasil é 4 a 5 vezes maior do que no resto do mundo, uma forma destes países que competem com o Brasil aproveitarem esta oportunidade e tornarem seus benefícios mais duradouros é fazer com que esses seus pequenos produtores unam forças e trabalhem juntos para ganhar escala e eficiência. Como isso pode ser feito? A primeira etapa pode ser processar café em conjunto, em pequenas centrais de benefício úmido, a fim de reduzir os custos operacionais e os investimentos. O próximo passo pode ser comprar insumos – fertilizantes e pesticidas – em conjunto para reduzir os custos de produção. O último passo pode ser vender café juntos para conseguir preços melhores. Entretanto, isto não é fácil devido a fatores culturais, ao apego a sistemas tradicionais, etc.

O uso de centrais de benefício para processamento de café pode ir além de micro e pequenas unidades centrais de benefício úmido para grupos de pequenos produtores e incluir centrais maiores de secagem, limpeza e descasque dos cafés provenientes de um grupo de centrais de benefício úmido. Isto pode ser um passo adicional para aumentar a eficiência, reduzir custos e aumentar lucros. Esta pode ser uma oportunidade para cooperativas de cafeicultores ou comerciantes de café à medida que mais e mais café é reunido e separação por tamanho, densidade e cor são adicionados juntamente com a liga, para fazer “blends”. Essa consolidação do processamento pode exigir menos pessoas, mas a tecnologia para ganhar mais eficiência de produção pode diminuir muito mais a mão de obra requerida.

Tendo em vista que ao se aproveitar as oportunidades criadas pela tempestade perfeita no Brasil pode sobrar mão de obra nos países concorrentes, cabe aqui uma pergunta muitas vezes ignorada no negócio café: o futuro da produção deve estar a cargo de um grande número de pessoas, cuja renda ou salário não seja suficiente para que tenham uma vida decente e próspera, ou contar com menos pessoas que tenham uma renda ou salário justo? A resposta a essa pergunta incômoda não pode e não deve ser buscada somente dentro do setor cafeeiro, apenas na cadeia de abastecimento do café, como erroneamente se espera. A resposta está no desenvolvimento regional para criar os empregos necessários fora da produção de café, à medida que esta se torna mais eficiente.

É interessante notar que em países com produtividade alta, por exemplo, Brasil, Vietnã, Costa Rica e a própria Colômbia, há disponibilidade de empregos urbanos nas regiões cafeeiras. Valeria a pena estudar melhor o papel da diversificação rural-urbana nestes países, com pequenos cafeicultores e/ou familiares tendo empregos ou negócios nas cidades pequenas e médias de sua região cafeeira, como inclusive ocorre no Brasil.

A tempestade perfeita no Brasil cria oportunidades que as instituições preocupadas com o desenvolvimento nos países produtores de café deveriam olhar com uma visão mais ampla, que inclua políticas de desenvolvimento regional ou mesmo nacional que vão além do próprio agronegócio café. As Boas Práticas Agrícolas (BPA) e as centrais de benefício poderiam ou deveriam desencadear um processo de desenvolvimento econômico que vá além do agronegócio café e seja um dos componentes de planos de desenvolvimento regional ou nacional. É a dificuldade disto ocorrer na maior parte dos países que deverá fazer com que a participação do Brasil no mercado tenha perda efêmera e volte a crescer em poucos anos.

TEXTO Carlos Henrique Jorge Brando

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