Café & Preparos

“A cafeicultura é política: a voz da base pode mudar decisões globais”, diz Adriana Mejía, da GCP

Em seu segundo ano à frente da Plataforma Global do Café, Adriana Mejía defende que só haverá sustentabilidade de fato quando renda digna, governança inclusiva e agricultura regenerativa alcançarem milhões de produtores

Por Cristiana Couto

Da quarta geração de uma família de cafeicultores de Manizales, no eixo cafeeiro da Colômbia, Adriana Mejía Cuartas – primeira mulher a presidir o conselho da Plataforma Global do Café – construiu uma carreira discreta em exposição, mas decisiva na defesa de um futuro sustentável para todos os produtores.

Criada num território marcado pela cafeicultura de sobrevivência, pela tradição e pela forte presença da Federação Nacional de Cafeicultores (FNC), Adriana só compreendeu a complexidade do setor quando, no decorrer da carreira, passou a percorrer regiões produtoras, lutar pela dignidade financeira de cafeicultores em países mais pobres e participar de debates globais sobre os rumos da cadeia.

“As conversas em casa eram só sobre café, para mim, um produto vulnerável, exposto ao sol e à chuva. Só depois entendi em que consistia o imaginário cafeeiro”, lembra.

Formada em administração de empresas, com mestrado na Espanha, ela acumulou experiência internacional ao representar a FNC na Europa e, depois, ao trabalhar na UTZ Certified (hoje incorporada à Rainforest Alliance), onde acompanhou a evolução dos padrões de sustentabilidade e o papel das certificações na transformação da cadeia de valor do café.

Sua experiência aumentou em 2017, quando criou, na Holanda, a empresa Herencia – Value Your Legacy, que articula investimentos de impacto, ESG e inovação nas cadeias de café, cacau e óleo de palma na América Latina e na África. À frente do conselho da Plataforma Global do Café desde 2024, e ao lado de mais de 170 membros, Adriana busca reduzir até 2030 a lacuna de renda de mais de um milhão de pequenos produtores em mais de dez países. “O desafio é superar ilhas de sustentabilidade e alcançar um oceano em que a regra seja produzir café sob condições dignas, resilientes e livres de desmatamento – e que isso seja um bom negócio para todos”, acredita.

A seguir, a entrevista, realizada por videoconferência diretamente da Colômbia.

Você vem de uma família de cafeicultores. Como isso moldou sua visão sobre sustentabilidade e governança no café?

Em casa, a palavra sustentabilidade nem existia, mas estava presente em tudo o que meus pais faziam. O café nunca foi altamente rentável, mas nos deu educação, pertencimento e amor pela terra.

Meu pai é agrônomo e tem a sabedoria de quem valoriza a terra e a tradição. Minha mãe, María Mercedes Cuartas, foi a primeira mulher a representar sua região no Congresso Nacional de Cafeicultores, [a instância deliberativa máxima do setor no país]. Hoje, aos 75 anos, ela continua atuante no comitê regional da FNC, e isso me ensinou que a cafeicultura é profundamente política: a voz da base pode mudar decisões nacionais e até globais.

Quem produz café sabe que sustentabilidade não é discurso, selo ou marketing. Hoje, não se trata de “sustentar”, mas de regenerar – garantir que famílias produtoras continuem a produzir café pelos próximos 20, 30 anos.

Por isso, minha visão de sustentabilidade e governança coloca o produtor e sua comunidade no centro das ações. A pergunta-chave é: que modelo de negócio, de instituições e de alianças permitirá que a próxima geração continue a cuidar da terra e produzir o café que queremos consumir?

Você foi a primeira mulher convidada a participar da eleição para a diretoria geral da Federação Nacional de Cafeicultores da Colômbia (FNC) e a primeira diretora para a Europa, além de ter sido a primeira mulher a integrar o conselho da antiga UTZ. Que desafios enfrentou e como vê a presença das mulheres em cargos de liderança na cafeicultura?

Em um setor historicamente masculino, meu primeiro desafio foi simbólico: que deixassem de me ver como “a filha de María Mercedes” ou “a jovem do eixo cafeeiro” e passassem a enxergar uma profissional com critério próprio, conhecimento de origem e capacidade de representar o setor.

Quando concorri à direção geral da Federação, viajei pelas 15 regiões cafeeiras conversando com comitês, líderes, produtores e governos. Muitas vezes, a primeira reação era de surpresa. Isso me ensinou a transformar o ceticismo em diálogo e o preconceito em oportunidade.

Ser a primeira não foi fácil, e percebi a dimensão disso quando ouvi de uma cafeicultora: “Obrigada por mostrar às nossas meninas que elas também podem sonhar, estudar e liderar mudanças.”

Sobre a presença feminina, avançamos, mas ainda pouco. Há mais mulheres em posições importantes no setor mas, quando olhamos para a propriedade da terra, o acesso ao crédito e a voz nas negociações, estamos longe da equidade.

Precisamos mudar as regras do jogo para que mulheres e homens tenham as mesmas oportunidades de decidir o futuro do café. Liderar exige preparação, mas também exige um setor disposto a abrir espaço e criar oportunidades realmente inclusivas.

Em março de 2024 você assumiu a presidência do conselho da GCP. O que conseguiu implementar neste primeiro ciclo de mandato?

Neste primeiro ciclo, buscamos tornar a sustentabilidade algo concreto para os cafeicultores. Não medimos sucesso pelo número de projetos, mas pela redução da lacuna rumo a uma renda digna e pela regeneração das paisagens cafeeiras.

A Meta GCP 2030 foi convertida em uma rota operacional: transformar a cafeicultura e reduzir em ao menos 25% a lacuna de renda digna para mais de um milhão de pequenos produtores em mais de dez países. Já temos ações estruturadas no Brasil, Honduras, Indonésia, Quênia, Uganda e Vietnã, onde cada plataforma nacional define metas de impacto alinhadas às políticas públicas e às possibilidades de investimentos privados.

Em 2025, lançamos o RegenCoffee, guia global de agricultura regenerativa da GCP, que estabelece uma linguagem comum, princípios e indicadores para restaurar solos, proteger a água e a biodiversidade, aumentar a resiliência climática e melhorar a vida dos produtores. A plataforma no Brasil foi pioneira em traduzir os sete elementos de implementação da agricultura regenerativa nas fazendas, integrando-os ao Plano Plataforma Global do Café Brasil 2030, que busca aumentar a resiliência e a prosperidade de 95 mil cafeicultores até 2030. O aprendizado brasileiro orienta o nosso trabalho em outras origens.

Reforçamos ainda a sustentabilidade setorial com o Código de Referência de Sustentabilidade do Café, o Mecanismo de Equivalência e marcos de dados usados para alinhar programas corporativos, padrões e plataformas nacionais, reduzindo exigências duplicadas e trazendo mais clareza ao produtor. Em países como o Brasil, estudos sobre renda e projetos derivados desses diagnósticos já orientam investimentos, serviços de extensão rural e compras responsáveis.

Em resumo, aproximamos discurso e prática para fazer da cafeicultura um bom negócio para quem produz.

Quais são os principais gargalos para alcançar a Meta GCP 2030?

O primeiro é a escala de financiamento. Para avançar na agenda de renda digna, precisamos de bilhões de dólares em investimentos públicos, privados e filantrópicos, com metas claras e coordenação. Recursos existem, mas estão dispersos em projetos pequenos e pouco conectados entre si.

O segundo ponto crítico é o alinhamento entre países e empresas. O desafio é manter uma ambição global sem perder as relevâncias locais – não se trata de copiar e colar soluções, mas de transferir aprendizagens, adaptando tecnologias e modelos ao contexto de cada país.

O terceiro gargalo está na capacidade de medir e obter dados com transparência. Precisamos de informação clara e confiável, com sistemas de monitoramento que não sobrecarreguem o produtor e que permitam comparar avanços entre países e regiões.

O quarto ponto é a governança inclusiva. Se as decisões sobre prioridades e investimentos não incorporarem as vozes de organizações e produtores, corremos o risco de criar soluções elegantes no PowerPoint, mas irrelevantes no campo.

A GCP não executa projetos diretamente – ela é uma arquiteta de alinhamento, cria uma linguagem comum. Nossa tarefa é usar essa posição para enfrentar esses gargalos com diálogo e com a participação do maior número possível de atores.

Como você avalia o atual cenário global de cafés sustentáveis?

Há várias maneiras de olhar para isso. Certificações e padrões de boas práticas agrícolas foram uma base importante para globalizar conceitos, criar consciência e estabelecer um idioma comum para o setor.

Mas vivemos um paradoxo: nunca se falou tanto de sustentabilidade, ESG, neutralidade climática, novas regulações, desmatamento zero e ciência do clima aplicada à cafeicultura – e, ao mesmo tempo, a vulnerabilidade climática e a fragilidade econômica de milhões de pequenos cafeicultores nunca foram tão evidentes. Precisamos ir além: boas práticas precisam cobrir toda a cadeia de suprimentos e todos os atores da cadeia precisam ser sustentáveis. Além disso, precisamos escalar essas ambições e garantir que elas se traduzam em resultados concretos na vida do produtor.

Que regiões produtoras no mundo mais precisam de apoio na transição para práticas sustentáveis e por quê?

Eu as agrupo em três grandes corredores estratégicos. O primeiro abrange boa parte da África subsaariana, onde há baixa produtividade, infraestrutura limitada, pouco acesso ao crédito e alta exposição à variabilidade climática. O potencial é enorme, mas os recursos financeiros precisam ser desenhados respeitando os ciclos de produtividade, indo além de soluções que ofereçam retorno apenas em um ano. Também é essencial fortalecer as instituições que prestam serviços aos cafeicultores, incluindo inclusão digital e financeira, para atrair as novas gerações.

O segundo corredor inclui a América Central e o Caribe, regiões com alta migração rural, propriedades pequenas e forte exposição a furacões e secas. Nelas, as ações sustentáveis precisam combinar adaptação climática, inclusão financeira e mecanismos atrativos para jovens e mulheres que estão herdando a terra.

O terceiro corredor são as fronteiras agrícolas de canéforas, como Brasil, Vietnã e Indonésia, com alto risco de desmatamento, degradação do solo e conflitos socioambientais. A expansão dessas áreas precisa ser sólida e de incentivos claros para manter sistemas agroflorestais e promover a cafeicultura regenerativa. Nesse sentido, a liderança do Brasil tem sido importante.

Falamos de liderança adaptativa: resolver desafios técnicos – como extensão rural de qualidade, crédito adequado e acesso a dados de clima e mercado – e, ao mesmo tempo, enfrentar desafios adaptativos, redistribuindo poder nas cadeias de fornecimento e revendo incentivos que só premiam o curto prazo.

Além do Brasil, que é uma liderança muito importante, Vietnã e Colômbia têm avançado nesses temas. Mas esses avanços não são “receitas” exportáveis: cada país é um laboratório vivo, do qual outros podem aprender, não copiando, e sim adaptando.

Você acredita que governos e a indústria do café podem “equilibrar” essas regiões produtoras mais pobres?

Não só acredito como já vivi muitos projetos assim. Quando há cooperação e transferência estruturada de conhecimento, o aprendizado é rápido, erros são evitados e, em pouco tempo, é possível alcançar resultados muito positivos.

É o que acontece com a GCP em países como Uganda, onde vários atores e governos locais participam. Não se trata de substituir o governo, mas de apoiar a construção de políticas públicas, investimentos em infraestrutura e gestão hídrica que permitam às famílias continuar produzindo café.

Se somarmos ainda a experiência da sociedade civil e de grandes organizações ou ONGs que oferecem treinamentos, capacitações e métricas, tudo isso ajudará a transferir conhecimento para regiões que podem se beneficiar do que já foi feito em outros lugares.

Modelos de cofinanciamento no Brasil, com políticas públicas claras, servem como referência para países africanos. Na Colômbia, o Fundo Nacional do Café oferece uma “garantia de compra” que considero um dos maiores ativos do país: qualquer cafeicultor, a qualquer hora, pode vender seu café por esse mecanismo, e a FNC tem a obrigação de comprá-lo ao preço de referência do dia. Isso oferece transparência de preço e de mercado – algo que ainda não é realidade em muitos países africanos ou no México, por exemplo.

Que barreiras culturais e estruturais dificultam a adoção de práticas sustentáveis em países produtores?

Identificamos quatro barreiras recorrentes. A primeira é o olhar de curto prazo. Quando uma família cafeicultora não tem renda estável, poupança ou seguro, é difícil pedir a ela que invista em práticas cujo benefício só virá cinco ou dez anos depois. A pobreza é, em si, uma barreira à sustentabilidade.

A segunda são as assimetrias de poder e de informação: o produtor nem sempre sabe como se forma o preço do café, o que o mercado de fato valoriza ou quais riscos climáticos está enfrentando na sua própria região. Essas lacunas de informação e transparência limitam a adoção de novas práticas.

A terceira barreira são instituições que falham ou que não se coordenam. Quando isso acontece, o produtor recebe mensagens contraditórias e não constrói confiança no longo prazo. Por isso, as mensagens precisam ser coerentes, corretas e demonstráveis, e as instituições, críveis.

Por fim, há as questões culturais de que falamos – decisões concentradas em homens e mulheres e jovens cujas vozes não são ouvidas. Por isso, é fundamental falar em “arquitetura da sustentabilidade”: não bastam boas práticas agronômicas, é preciso redesenhar o funcionamento das instituições e a forma como interesses diferentes podem se combinar para gerar mais impacto nessas regiões.

Apesar de avanços em compras responsáveis, a maior parte dos cerca de 12,5 milhões de produtores no mundo continua a viver perto ou abaixo da linha da pobreza. Como você analisa esse cenário?

Esse é o centro do grande desafio da cafeicultura. A cadeia do café tem sido capaz de gerar muito valor, mas não de distribuí-lo de forma justa. Estudos mostram que, mesmo quando o produtor cumpre critérios ambientais e sociais e é considerado “sustentável”, sua renda total continua abaixo de um nível de vida digno no seu contexto. Há também um risco desigualmente distribuído: clima, pragas, volatilidade de preços e aumento de custos recaem sobre quem tem menos capacidade de gerir esses fatores – o pequeno produtor. Se não encontrarmos mecanismos para compartilhar e assegurar esse risco, a pobreza continuará sendo estrutural.

Por fim, o poder de negociação limitado dos cafeicultores, que não têm informação de mercado ou voz na definição de seus parâmetros e contratos. Não se trata apenas de um problema moral, mas de desenho de sistema. A boa notícia é que os sistemas podem ser redesenhados, com alianças diferentes, novos modelos comerciais e métricas que coloquem renda e prosperidade do produtor no centro do debate.

Em que medida o “S” – trabalho justo e renda digna – do ESG tem sido incorporado na prática?

Durante muitos anos, o “E” de ambiente [environmental, em inglês] recebeu quase toda a atenção. Agora, o “S” começa a sair do discurso e entrar no desenho de modelos de negócio. A Meta 2030 da GCP, por exemplo, é explicitamente socioeconômica. E isso é apoiado pelo que chamamos de teoria de mudança, que conecta a prosperidade do produtor à sustentabilidade ambiental – porque não existe uma sem a outra.

No Brasil, iniciativas coletivas lideradas pela GCP com parceiros e organizações locais têm se concentrado no tema e, globalmente, cada vez mais empresas assumem compromissos com renda digna, salários justos e devida diligência em direitos humanos.

Não estamos ainda onde deveríamos, mas, pela primeira vez, a conversa dominante é sobre se o café permite uma vida digna para quem o produz. Isso é uma grande oportunidade para garantir que o que fazemos tenha impacto real para os produtores.

Como falamos, o Brasil avançou muito em sustentabilidade no café. Quais ações brasileiras mais se destacam diante das mudanças climáticas?

O Brasil entendeu algo fundamental: que, por ser grande, a sustentabilidade do café depende de uma arquitetura sólida entre políticas públicas e inovação produtiva – e isso vem sendo construído há anos. Há marcos ambientais sofisticados, como o Código Florestal e o Cadastro Ambiental Rural, que permitem compatibilizar produção e conservação.

Há também uma aposta consistente em agricultura de baixo carbono, boas práticas agrícolas, uso eficiente de insumos e, cada vez mais, sistemas agroflorestais, além de respostas estruturadas ao estresse hídrico.

Destaco ainda a capacidade de organização do setor, que consegue reunir diferentes atores para definir prioridades e construir políticas, e a vontade de inovar e medir. De estudos de renda a iniciativas de agricultura regenerativa, o país produz evidências que podem ser escaladas e adaptadas em outros contextos.

Também percebo que a cafeicultura no Brasil é, em geral, menos apegada à tradição do que em outros países, o que abre espaço para inovação constante, um dos fatores que explica, em parte, por que o Brasil é o maior produtor de café do mundo. O Brasil não é apenas um competidor, mas um parceiro estratégico para definir como pode ser uma cafeicultura sustentável em grande escala.

E quais dessas práticas podem servir de modelo para outros países?

A primeira é a agricultura regenerativa com enfoque prático. O trabalho da GCP no Brasil e de seus parceiros, ao definir elementos de agricultura regenerativa no café – desde cobertura do solo até diversificação e manejo da biodiversidade –, criou um marco claro que outros países podem adaptar às suas realidades. A segunda são os estudos de renda e o uso de dados para orientar a tomada de decisão – tanto de políticas públicas quanto de investimentos privados e compras responsáveis.

Também destaco a integração de padrões e o reconhecimento internacional. O fato de mecanismos brasileiros serem reconhecidos como equivalentes a marcos globais de sustentabilidade mostra um caminho importante para que outros países criem instrumentos próprios que também se conectem a essas referências. Em síntese, o Brasil tem muitas lições a oferecer.

Que mensagem você gostaria de dar aos produtores brasileiros que buscam alinhar qualidade, sustentabilidade e negócios de longo prazo?

Vocês já são uma referência mundial, e as decisões que tomam hoje estão definindo o padrão do que o mundo entende como café sustentável em grande escala.

A sustentabilidade não é um custo, mas um investimento em liberdade: liberdade para decidir o futuro da propriedade, negociar melhor e fazer com que a próxima geração veja no café uma oportunidade e um bom modelo de negócio. As práticas regenerativas, a adoção de tecnologias adequadas e a participação em plataformas coletivas são estratégias para ganhar poder de decisão.

Também é importante não caminhar sozinho. A agenda climática e regulatória é complexa demais para ser enfrentada de fazenda em fazenda. A força de vocês está na capacidade de organização – cooperativas, associações, plataformas –, que sempre dará vantagem competitiva e comparativa.

O futuro do café está sendo escrito – e, em boa medida, nas zonas cafeeiras do Brasil. Meu desejo é que essa história de liderança esteja sempre acompanhada de prosperidade para quem está no início da cadeia: as famílias produtoras. E, no Brasil, felizmente, isso já começa a ser uma realidade.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Divulgação

Café & Preparos

Parlamento Europeu aprova adiamento e simplificação da EUDR

Texto segue para aval do Conselho e deve ser publicado até o fim do ano

O Parlamento Europeu aprovou nesta quarta-feira (11) o adiamento e a simplificação de pontos-chave da Lei do Desmatamento da União Europeia (EUDR), que estabelece regras para garantir que produtos vendidos no bloco, como o café, não venham de áreas desmatadas. O texto, aprovado por 405 votos a 242, agora segue para endosso do Conselho e deve ser publicado no Jornal Oficial da UE até o fim do ano para entrar em vigor.

Pelo acordo, todas as empresas terão mais um ano para se adequar às exigências. Grandes operadores passarão a cumprir a lei a partir de 30 de dezembro de 2026, enquanto micro e pequenas empresas terão prazo até 30 de junho de 2027. O objetivo é garantir uma transição mais suave e permitir melhoras no sistema digital obrigatório para as declarações de devida diligência.

A revisão também simplifica exigências: pequenos operadores primários deverão apresentar apenas uma declaração simplificada, e só as empresas que colocam o produto no mercado europeu pela primeira vez serão responsáveis por enviar as declarações de conformidade. Produtos impressos, como livros e jornais, foram retirados do escopo do regulamento.

Para a relatora Christine Schneider (PPE, Alemanha), o acordo “mantém o coração da lei intacto”, ao mesmo tempo em que responde às preocupações de agricultores, empresas e governos sobre viabilidade prática e custos de implementação.

A Comissão Europeia deverá, até abril de 2026, apresentar um relatório avaliando o impacto da EUDR, especialmente sobre pequenos produtores e operadores — tema sensível para países exportadores como Brasil, Vietnã e Costa do Marfim.

Fonte: europarl.europa.eu

TEXTO Redação

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Tarifa sobre o café solúvel brasileiro continua em 50%

A manutenção da sobretaxa sobre o café solúvel — apesar da isenção para o café verde anunciada por Trump — acende alerta no setor

A decisão do governo Donald Trump de zerar, na quinta (20), as tarifas adicionais de 40% impostas ao café brasileiro (e outros produtos) não incluiu o café solúvel. Para o produto, segue em vigor a sobretaxa de 40% somada à tarifa-base de 10% — um custo total de 50% que, segundo o setor, ameaça a posição histórica do Brasil no mercado norte-americano.

Em comunicado divulgado nesta sexta (21), a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) afirmou que “o mercado dos EUA é de vital importância estratégica para o Brasil” e chamou a atenção para um ponto considerado crítico: “A Abics alerta para o risco iminente de que o café solúvel brasileiro seja permanentemente substituído por produtos de outros destinos nas prateleiras dos supermercados americanos”.

A entidade reforça que, se isso ocorrer, “a recuperação futura será uma missão extremamente difícil, com perdas duradouras para toda a cadeia produtiva nacional, desde os cafeicultores até as indústrias e seus trabalhadores.”

Pela primeira vez na série histórica, os EUA deixaram de ser o principal destino do café solúvel brasileiro em outubro, cedendo lugar à Rússia. Desde agosto, início da vigência da tarifa extra, os embarques para o mercado americano caíram mais de 52% em volume.

A dimensão do mercado explica a preocupação. Em 2024, o Brasil respondeu por 38% das importações totais de solúvel dos EUA, um domínio construído ao longo de décadas. O país também representa cerca de 20% do volume total das exportações brasileiras de solúvel, gerando aproximadamente US$ 200 milhões por ano em receitas.

Com o café verde liberado das sobretaxas, mas o solúvel mantido em patamar elevado, o setor agora pressiona Brasília e Washington para uma negociação específica que evite o que classifica como um dano estrutural: perder, em poucos meses, um mercado conquistado ao longo de gerações.

TEXTO Redação

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Exportações de café para os EUA caem 20% em outubro em relação a 2024

As exportações brasileiras de café somaram 4,141 milhões de sacas de 60 kg em outubro, queda de 20% em relação ao mesmo mês de 2024, segundo o relatório mensal do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil). Em valor, porém, houve alta de 12,6%, refletindo preços mais elevados no mercado internacional.

Nos quatro primeiros meses da safra 2025/26, o país embarcou 13,8 milhões de sacas – 20,3% menos que no mesmo período anterior. A receita cambial, por sua vez, cresceu 12,4%, para US$ 5,19 bilhões.

De janeiro a outubro, os embarques totalizam 33,279 milhões de sacas, retração de 20,3% frente aos 41,769 milhões de 2024. No mesmo intervalo, a receita subiu 27,6%, passando de US$ 9,968 bilhões para US$ 12,715 bilhões.

Segundo Márcio Ferreira, presidente do Cecafé, a queda no volume exportado era esperada, diante de entraves logísticos, gargalos portuários e de uma safra menor. “A receita maior reflete, também, maiores cotações no mercado internacional”, afirma.

Entre agosto e outubro – período em que vigora a tarifa de 50% imposta pelos EUA ao café brasileiro –, o país exportou 983.970 sacas ao mercado norte-americano, queda de 51,5% em relação ao mesmo período de 2024 (2,03 milhões). Ferreira explica que “os embarques atuais são de contratos antigos” e alerta que já há blends sendo vendidos nos EUA sem café brasileiro.“Isso muda o paladar do consumidor. Se as tarifas demorarem mais a cair, pode ser difícil o Brasil recuperar sua fatia tradicional no mercado cafeeiro dos EUA, que é de aproximadamente um terço”, analisa.

O café brasileiro está hoje na seção 3 da ordem executiva assinada por Donald Trump, que abrange recursos naturais não produzidos nos EUA. A remoção da tarifa depende de acordo bilateral entre os países, que permitiria transferir o produto para a seção 2, isenta de taxas.

“Para isso, temos intermediado conversas entre os torrefadores americanos e a embaixada brasileira em Washington e, consistentemente, acionado o governo brasileiro”, conta o presidente do Cecafé. “Ontem (11) mesmo enviamos ofícios ao presidente Lula e ao vice Geraldo Alckmin informando das negociações conduzidas pelos importadores americanos com o governo Trump”, completa.

Segundo ele, a Casa Branca sinaliza interesse em retirar a tarifa, diante da necessidade do produto e da alta dos preços internos. Ferreira afirma que o governo Trump está disposto a negociar a isenção do café de forma isolada, sem incluir outros produtos, e diz que agora “a bola está com o governo brasileiro”.

Mesmo com a tarifa em vigor, os Estados Unidos seguem como principal destino do café brasileiro nos dez primeiros meses de 2025, com 4,711 milhões de sacas importadas — uma queda de 28,1% em relação ao mesmo período de 2024. O volume representa 14,2% do total exportado no ano.

Completam o ranking dos cinco maiores importadores: Alemanha, com 4,339 milhões de sacas (-35,4%); Itália, com 2,684 milhões (-19,7%); Japão, com 2,182 milhões (+18,5%); e Bélgica, com 1,912 milhão (-47,5%).

O arábica segue como principal produto exportado, com 26,602 milhões de sacas (79,9% do total), queda de 12,5% ante 2024. Os canéforas (conilon e robusta) somam 3,512 milhões (10,6%), seguidos pelo café solúvel (3,117 milhões, 9,4%) e pelo torrado e moído (48,9 mil sacas, 0,1%).

Os cafés com certificação de sustentabilidade ou qualidade superior responderam por 19,8% das exportações, com 6,58 milhões de sacas – recuo de 11,1%. A receita, porém, saltou 44,1%, para US$ 2,803 bilhões, com preço médio de US$ 426,04 por saca. Os EUA lideram as compras (1,062 milhão de sacas, 16,1%), seguidos por Alemanha, Bélgica, Holanda e Itália.

O relatório completo de exportações do Cecafé, com os números de outubro de 2025, está disponível em www.cecafe.com.br.

TEXTO Redação

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O café veste luxo: grifes apostam em cafeterias para atrair consumidores

Por Luciana Mastrorosa

O que marcas globais de luxo, como Tiffany & Co, Ralph Lauren e Dolce&Gabbana, têm em comum? Além da exclusividade e da aura de sofisticação, elas investem em algo que, à primeira vista, pode soar prosaico: o café. Servido em cafeterias e estabelecimentos gastronômicos que refletem o requinte dessas empresas, o produto surge como uma estratégia de fortalecimento de marca e uma tentativa de estabelecer conexões mais profundas com os consumidores, especialmente jovens adultos urbanos, ávidos por experiências singulares e, por que não, instagramáveis.

Esse movimento que une gigantes da alta costura e do fast fashion ao mundo do café vem crescendo. Começou há poucas décadas, em países particularmente ligados à moda. “França e EUA têm tradições consolidadas no consumo de luxo como estilo de vida: lá, frequentar um café sofisticado é quase um ritual social”, explica o especialista Galileu Nogueira, fundador da Galileo Branding.

A norte-americana Ralph Lauren é um exemplo: em 1999, abriu o The RL Restaurant e, em 2014,
apostou nas cafeterias, com a abertura da Ralph’s Coffee no segundo andar da loja Polo Flagship, em
Nova York. Hoje, a marca tem coffeeshops e grãos próprios em mais de 35 lugares, dos Emirados Árabes Unidos ao Japão.

Prédio da Ralph Lauren em Nova York

Pois, recentemente, a intersecção entre moda e café alcançou mais países da Ásia. Em 2024, a Dolce & Gabbana abriu seu primeiro DG Caffè em Xangai, e a Ralph Lauren, o seu, na Tailândia. Este ano, a americana Coach e a italiana Prada também inauguraram seus primeiros cafés asiáticos, em Singapura. “Na Ásia, especialmente China e Coreia do Sul, existe uma geração jovem consumindo luxo como autoexpressão e status cultural. É um público conectado, aspiracional e digitalizado, o que impulsiona fortemente as marcas a criarem experiências imersivas”, diz Nogueira.

Breakfast at Tiffany’s

A tendência, no entanto, ainda está decolando por aqui. Em 1997, a italiana Armani foi uma das primei-
ras a apostar nessa união, ao abrir o Empório Armani Caffè, nos Jardins, em São Paulo – o empreendimento fazia parte da primeira loja da marca na América Latina, mas fechou alguns anos mais tarde.

O exemplo mais recente foi a chegada do Blue Box Café, da luxuosa joalheria Tiffany & Co.. Em São
Paulo, a marca inaugurou uma loja pop-up em frente à sua nova flagship no Shopping Iguatemi, ícone do
mercado de luxo. De curta duração, entre março e abril, a iniciativa foi “pontual”, segundo a empresa, que não pretende abrir um espaço permanente dedicado ao café por aqui (ao menos por enquanto).

Café pop-up da Tiffany em São Paulo

Mesmo breve, a experiência refletiu todo o glamour da grife, mundialmente conhecida com o lançamento do clássico Bonequinha de Luxo, de 1961, que eternizou a atriz Audrey Hepburn no cinema. O título original do filme, Breakfast at Tiffany’s, nomeou o cardápio, que incluía itens como macarons, pavlovas, croissants, ovo poché e, até, caviar (este, alçando o preço da refeição a R$ 450 por pessoa). Mas a visita podia incluir apenas um espresso (R$ 18) e o desfrute da arquitetura efêmera, assinada pelo Estudio Campana.

Experiência de marca

Para Nogueira, a união de grandes grifes a cafeterias e restaurantes é uma estratégia para ampliar a experiência de marca. “Quando uma marca de luxo abre um café, ela está oferecendo pertencimento. É um jeito de democratizar o acesso simbólico ao seu universo: mesmo quem não pode comprar uma bolsa de R$ 30 mil, pode sentar-se ali e se sentir parte daquele mundo de sofisticação.” Um objetivo importante é conectar grifes a públicos novos. “Principalmente os jovens, que priorizam experiências e momentos compartilháveis nas redes”, acredita.

“Não existe luxo democrático ou acessível”, opina João Braga, professor de história da moda da Faap. “Ele é exclusivo, é raro, é quase que inatingível. No momento em que se torna acessível, deixa de ser luxo”, define. O que essas marcas oferecem são produtos e conceitos que ele chama de “premium” ou “classe A” – algo como um gerador de desejo pelo luxo propriamente dito. Braga também aponta que, com o aumento das falsificações desses produtos, como bolsas e calçados, o luxo passou a valorizar o que é único e intransferível: a experiência, capaz de criar vínculos com as marcas – e, quem sabe, conquistar um possível cliente no futuro. “A experiência não dá para ser falsificada”, reforça.

Alinhada a essa ideia, a Mixed, marca feminina brasileira focada em moda autoral e atemporal, fez uma parceria com a rede de cafeterias Café Zinn. Depois de visitar modelos de negócio no exterior, a sócia-fundadora da Café Zinn, Daniela Coelho, propôs a parceria à Mixed em 2023, época em que a marca de roupas reformulava sua comunicação.

Collab entre Mixed e Café Zinn

Recriando no café uma atmosfera que unisse as duas empresas – como a cor rosa aplicada à decoração, comum a ambas –, a collab durou três meses. “Meu público se interessa por moda. Ele não vem apenas tomar café conosco, vem também para ser visto”, explica Daniela. “Queríamos criar pertencimento. Nosso cliente pode não ter acesso ao casaco da Mixed, mas pode consumir um produto ligado à marca, como o café”, argumenta. Daniela pretende expandir a experiência para o universo wellness. Até o fechamento desta edição, a proprietária já programava, sem adiantar detalhes, parcerias com novas marcas.

Café, moda e bem-estar

Experiências que unem moda e gastronomia chegaram também ao universo fitness e de bem-estar. A New Balance, voltada à moda urbana, lançou em maio deste ano o Grey Café como parte da sua campanha global Grey Days. Os projetos não foram pensados como ativações pontuais, mas como desdobramentos estratégicos. A ativação especial aconteceu na Working Title, na capital paulista, em parceria com a Nude. Durante um fim de semana de maio, a loja recebeu o Grey Café, reunindo sabor, encontros e conversas. O público conheceu os lançamentos da New Balance e provou bebidas exclusivas desenvolvidas pela Nude, o grey latte e o grey iced latte, inspiradas no universo da campanha, com copos personalizados e ambientação temática.

Outra marca que aposta na ligação entre esporte e café é a japonesa Mizuno, que fez parceria com o Studios Coffee, de São Paulo, para oferecer drinques especiais, em edição limitada, que expressam o kissaten (loja de chá, em japonês), conceito que se estendeu aos cafés mais tradicionais do Japão. As bebidas disponíveis na loja inspiram-se na cidade-natal da marca, Osaka. O tiramissu latte, por exemplo, leva leite, creme de mascarpone com baunilha, cold brew e cacau polvilhado, enquanto o cold citrus mescla suco de laranja, cold brew e yuzu, finalizado com casca de laranja.

Mimos da Mizuno no Studios Coffee, em São Paulo

A Track&Field, conhecida pela linha esportiva de alto padrão, aposta desde 2021 no TFC Food & Market, aberto na primeira experience store da marca, no Shopping Iguatemi São Paulo. O porta-voz Fred Wagner, CEO da TFSports, cofundador e VP de novos negócios da Track&Field, explica que a experiência expandiu-se para 15 unidades em vários estados do país, tornando-se parte essencial do “ecossistema” da empresa. Uma dessas unidades, dedicada apenas ao café, fica no edifício da sede da marca, em São Paulo. “A Track&Field sempre foi pioneira em antecipar tendências. Hoje, esse movimento se reflete também na alimentação, no autocuidado e em todas as experiências que criamos. O TFC Food & Market nasceu dessa visão”, conta. A primeira collab da marca, em parceria com a influencer Gisela Saback, resultou no lançamento do pure green, suco verde que foi sucesso de vendas e deve permanecer no cardápio. “Estamos expandindo nossa atuação com influenciadores e prevemos lançar uma nova collab até o final do ano”, afirma Wagner.

Ao que tudo indica, a tendência de unir moda, café – e até, o mundo fitness – veio para ficar, especialmente no formato pop-up, ou seja, com data certa para acabar, o que abre espaço para a renovação de collabs e parcerias. “Testar o público é parte da estratégia”, acredita Nogueira, da Galileo Branding. “Mas o formato pop-up vai além disso. Ele é um mecanismo ágil para gerar desejo imediato, criar senso de urgência e viralizar. Em um mercado onde a atenção é escassa e a audiência é movida por experiências exclusivas e inéditas, o pop-up ativa o desejo de ‘preciso viver isso agora’”.

Texto originalmente publicado na edição #89 (setembro, outubro e novembro de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Luciana Mastrorosa (colaborou Cristiana Couto e Letícia Souza) • FOTO Divulgação

Café & Preparos

Encontros e workshops movimentam a programação da SIC 2025

Painéis, seminários e atividades práticas refletem a diversidade da cadeia cafeeira em debates sobre inovação, sustentabilidade e novos mercados


Palestras, reuniões técnicas e atividades práticas movimentam os espaços da Semana Internacional do Café (SIC) 2025 dentro da atração Encontros & Workshops – um dos eixos que mais refletem a diversidade da cadeia cafeeira no evento, que acontece de 5 a 7 de novembro em Belo Horizonte. A programação conecta produtores, torrefadores, baristas, cooperativas e especialistas em painéis voltados à inovação, sustentabilidade e negócios.

O ano dos canéforas
Este ano, os cafés canéfora se destacam entre as atividades em espaços como a sala Inteligência de Mercado, que promove encontros e debates sobre tendências globais, estratégias de mercado e sustentabilidade, e a Cafeteria Modelo, voltada ao conhecimento prático do cotidiano de uma coffee shop.  

No dia 6, às 17h, haverá o lançamento de clones de conilon de altitude. Apresentado pelo pesquisador Fábio Partelli, da Universidade Federal do Espírito Santo, os novos clones revelam a adaptabilidade, o vigor e a produtividade desta variedade de canéforas em altitudes elevadas. No dia anterior, Leandro Paiva, do Instituto Federal do Sul de Minas, faz uma abordagem profunda sobre a torra dos canéforas (dia 5, às 13h). “Falaremos sobre as diferenças de torra entre arábica e canéfora, mas o mais importante é frisar a diferença entre os clones de robusta e conilon”, explica Paiva. “As diferentes densidades e formatos dos grãos dos clones é que trazem uma diferença significativa para os processos de torra.” 

A diversidade de sabores desta espécie serão, ainda, descortinados na palestra “Apresentando a roda de sabores do canéfora”, fruto de um estudo, divulgado este ano por cientistas brasileiros, que identifica 103 descritores sensoriais para a espécie com o intuito de promover seu valor no mercado de cafés especiais. 

No dia 6, às 17h30, os robustas amazônicos são tema do “COP na SIC: Robusta, a força sustentável do café na Amazônia”, um encontro de mais duas horas que revela o protagonismo desses cafés na região norte do país. A programação reúne especialistas, pesquisadores e produtores que vêm transformando (e espalhando) o cultivo de canéforas na região em termos de qualidade, inovação e sustentabilidade.

Entre os destaques do encontro estão os painéis “Mercado e oportunidades para os cafés amazônicos” – conduzido por especialistas como o especialista em cafés especiais Silvio Leite, Aguinaldo Lima (Abics), Pedro Lima (Grupo 3corações) e Juan Travain, presidente da Associação de Produtores Associados da Região das Matas de Rondônia (Caferon) – e “Ciência e evolução dos robustas brasileiros”, que trata dos avanços em pesquisa, manejo e genética que têm redefinido o cultivo de canéforas no país. Deste último participam os cientistas Lucas Louzada (Mió Coffee Limited), Lívia Lacerda (UnB), Carlos Ronquim (Embrapa Territorial) e Enrique Alves (Embrapa Rondônia). O encontro ainda conta com o lançamento de um minidocumentário sobre os robustas amazônicos e encerra com degustação técnica e coquetel com produtos da Amazônia. 

Por uma cafeicultura mais sustentável
Durante os três dias da SIC (das 8h às 11h), o consórcio Ecoffee – iniciativa internacional de pesquisa pré-competitiva que reúne grandes empresas do setor, como illycaffè, Melitta e JDE Peet’s – promove três workshops para discutir sustentabilidade da cafeicultura, numa aproximação entre ciência e indústria. Os encontros serão restritos a convidados. “O objetivo deste workshop é atrair pessoas da área de sustentabilidade e promover a cooperação entre esses atores em torno da redução da presença de resíduos na cafeicultura”, diz Robert Weingart Barreto, fitopatologista da Universidade Federal de Viçosa, que lidera no Brasil as pesquisas do consórcio, criado em 2020 por iniciativa do Cirad, instituição pública francesa dedicada à pesquisa e à cooperação internacional em agricultura tropical. “Precisamos agir rápido para reduzir a dependência de insumos e tornar a produção de café realmente sustentável, em linha com as exigências cada vez mais rigorosas do mercado”, analisa Barreto. O pesquisador apresentará um diagnóstico sobre o uso de pesticidas na cafeicultura do Brasil, Vietnã, Nicarágua e México, além dos principais entraves e caminhos para reduzir sua aplicação.

Espírito colaborativo
Durante os três dias de SIC também marcam presença encontros que refletem o espírito colaborativo que move o setor, reunindo lideranças, produtores, jovens e mulheres em debates estratégicos sobre o futuro da cafeicultura. Na quinta-feira às 8h, o tradicional Encontro Internacional das Mulheres do Café — promovido pela IWCA Brasil — vai reunir profissionais de toda a cadeia para discutir desafios e conquistas que fortalecem o protagonismo feminino, enquanto às 15h, o Encontro dos Jovens do Café, em sua quarta edição, promoverá o diálogo entre novas gerações e o campo, estimulando a sucessão e a inovação na atividade. 

Já na sexta (7), às 8h, o Encontro Técnico ATeG abre a programação com foco em capacitação e troca de experiências entre técnicos e produtores atendidos pelo Sistema Faemg Senar (o evento é restrito a convidados). Das 13h às 14h30, a reunião do Departamento do Café da Sociedade Rural Brasileira trará, a convite da SIC e pelo segundo ano consecutivo, representantes dos principais elos da cadeia para discutir o rebranding dos cafés do Brasil sob diferentes perspectivas — da produção ao consumo. O encontro será mediado por Carlos Henrique Jorge Brando (P&A Marketing), e contará com Silas Brasileiro (CNC), Raquel Miranda (CNA), Vinicius Estrela (BSCA), Marcos Matos (Cecafé), Celírio Inácio da Silva (Abic) e Aguinaldo José de Lima (Abics). 

Workshops: de drinques com café a mercado emergente
Na Cafeteria Modelo & Barista Jam, patrocinada pelo Grupo 3corações, o público acompanha workshops práticos com baristas — como “Café em competição: sabores para um drinque campeão” (5/11, 10h30), “Matcha & café: sinergia no menu para aumentar vendas” (5/11, 15h30) e “Belo Horizonte na xícara: um papo sobre a cena local de cafés especiais” (7/11, 12h). 

No último dia da SIC, às 12h, três especialistas brasileiros, representantes internacionais da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), comandam o encontro “Oportunidades em novos mercados: China, Dubai e Singapura”, voltado a orientar produtores sobre caminhos para a exportação. A proposta é apresentar tendências, perspectivas e estratégias para ampliar a presença do café brasileiro em mercados emergentes. Antes disso, na quarta-feira (5), das 14h às 16h, cada um dos profissionais ministrará workshops específicos sobre exportação para os respectivos destinos. “A Semana Internacional do Café faz esse investimento com o objetivo de gerar mais oportunidades e ampliar o acesso a novos mercados, potencializando o comércio. São países com alto potencial de crescimento no consumo de cafés”, afirma Caio Alonso Fontes, diretor da Espresso&CO, uma das organizadoras do evento.

Outros grandes encontros
No dia 6, das 8h30 às 12h, o Sicoob e o Sebrae realizam o seminário “Sustentabilidade na Cafeicultura”, constituído por três painéis. O primeiro, às 9h30, aborda o “Impacto do reconhecimento de Indicações Geográficas (IGs) para os territórios”, com casos do Cerrado Mineiro, Matas de Rondônia e Canastra. Às 10h20, o segundo painel discute a “Contribuição da cafeicultura para o desenvolvimento econômico dos municípios”, com a participação de consultores e lideranças regionais, como prefeitos e representantes de conselhos municipais. Encerrando a programação, às 11h20, o terceiro painel destaca as “Contribuições do Sicoob e do Sebrae para a cafeicultura”, com especialistas das duas instituições apresentando iniciativas de apoio ao setor.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) realiza no dia 7, às 11h, o painel “Diálogo global para promover os direitos fundamentais da cadeia produtiva do café”. O encontro apresenta experiências e aprendizados do evento de Cooperação Sul-Sul (SSC), programado para acontecer na semana anterior com representantes do Brasil, Colômbia e Uganda, e busca promover o diálogo entre governos, empregadores e trabalhadores sobre o fortalecimento dos Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho (PDFT) no setor cafeeiro. Além da exibição de um curta-documentário, o painel traz um debate quanto a desafios, boas práticas e papel da cooperação internacional na promoção de trabalho decente nas cadeias globais de café.

Semana Internacional do Café 2025
Quando: De 5 a 7 de novembro de 2025
Onde: Expominas – Belo Horizonte (MG)
Quanto: R$ 75 (para o dia 7) e R$ 150 (com direito aos 3 dias)
Mais informações: www.semanainternacionaldocafe.com.br

TEXTO Redação

Café & Preparos

Você beberia um café no balde?

Cafeterias dos Estados Unidos entram na onda da tendência que nasceu no TikTok

Por Letícia Souza

Aqui no Brasil, muitos profissionais e entusiastas do café usam a expressão “beber de balde” para elogiar a qualidade de um café. Isso significa que foi bem extraída, abraça as papilas gustativas e dá vontade de consumir mais – como em um balde, em largas quantidades. 

Nos últimos meses, pipocou no TikTok uma trend que fez jus a essa fala: café gelado servido em enormes baldes de plástico. A ideia pode parecer um tanto absurda, é claro, mas filas se formaram em cafeterias de diversas cidades dos Estados Unidos. Estabelecimentos na Califórnia, Missouri, Oklahoma e Connecticut passaram a servir cafés de tamanho XXL. 

No Brasil, no entanto, não é costume ter bebidas tão grandes assim, e isso causa até estranhamento em quem vê de maneira desavisada. Para entender mais sobre essa trend, conversamos com Alaina Roberto, proprietária da Last Drop, cafeteria na cidade de Monroe, em Connecticut (EUA), um dos primeiros lugares a se popularizar no TikTok com a trend.

“Vi um TikTok de alguém em outro estado servindo baldes de café e achei legal a ideia, então resolvi testar com os clientes”, escreve a empresária. “Postei uma foto para divulgar e, no dia seguinte, tivemos uma enxurrada de gente querendo experimentar. Tivemos clientes que dirigiram por duas horas só para vir buscar um balde”, conta à Espresso

Sobre a receita, Alaina comenta que varia para os diferentes tamanhos de balde. “No começo, divulgamos apenas como café gelado, mas logo passamos a preparar também todos os nossos lattes especiais no balde, e eles têm feito ainda mais sucesso do que o café comum”.

Ela acredita que o movimento ganhou proporções por ser “diferentão e instagramável”. “As pessoas amam uma nova tendência e, mais ainda, adoram tirar fotos. Todo mundo ama café, então poder dizer que tomou em um ‘balde’ é uma das partes favoritas da experiência”.

A receita servida na Last Drop usa de 700 a 800 ml de leite vaporizado com 120 ml de espresso, e é vendida por $ 10.

TEXTO Letícia Souza • FOTO Divulgação

Café & Preparos

Atlas de James Hoffmann ganha nova edição

A terceira edição do aclamado The World Atlas of Coffee, do barista inglês e campeão mundial James Hoffmann, está prestes a ser lançada. Ampliada, a obra, programada para ser publicada em novembro, é referência no setor ao reunir informações detalhadas sobre variedades, principais regiões produtoras e história do cultivo em mais de 30 países produtores de café, destacando as características que fazem com que cada origem tenha sua qualidade particular.

Além de explorar a produção de café pelo mundo, o livro traz informações básicas sobre cultivo, importância da torra e da água na extração da bebida, métodos de preparo e desenvolvimento das máquinas de espresso. Entre as novidades, capítulos sobre descafeinação e a inclusão de novas origens, como Austrália, Japão e Porto Rico.

A nova edição do livro já está disponível no site da Amazon, em caráter de pré-venda, por US$ 39,99.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Café & PreparosMercado

Amazônia é destaque da edição #89 da revista Espresso

Às vésperas da COP30, que colocará Belém no centro das discussões globais sobre clima e sustentabilidade, esta edição da Espresso traz para a capa a história de Celesty Suruí, jovem barista e cafeicultora indígena de Rondônia. Em entrevista exclusiva, ela mostra como o café se tornou ferramenta de memória e afirmação cultural do povo Paiter Suruí, conectando produção indígena à preservação da floresta e à construção de novos futuros.

Da mesma região amazônica vem outra transformação notável: a revolução dos robustas de Rondônia. A reportagem, assinada por Cristiana Couto, coordenadora de conteúdo da revista, acompanha como grãos antes vistos como comuns alcançaram padrões internacionais de qualidade, com produtividade recorde e reconhecimento sensorial. Uma virada sustentada por ciência e tecnologia, comprovada pelo balanço positivo de carbono e pelo desmatamento zero nas áreas cultivadas. Para mostrar essas mudanças na xícara, organizamos uma degustação inédita com diferentes clones e processamentos.

No mesmo compasso da sustentabilidade, exploramos o cacau agroflorestal do Pará, modelo de recuperação de áreas degradadas que garante renda a milhares de agricultores familiares e reforça o protagonismo da Amazônia em sistemas produtivos resilientes.

A edição também abre espaço para histórias de sucessão familiar, revelando os desafios e estratégias de produtores que planejam o futuro das propriedades. Mostramos ainda a tendência que aproxima moda e café, em iniciativas que unem luxo, experiência e pertencimento. E, em parceria com a revista inglesa 5th Wave, publicamos reportagem de Tobias Pearce sobre a nova revolução cafeeira em Paris.

Que esta edição inspire e provoque reflexões sobre como o café pode ser motor de transformação — na floresta, no campo, nas cidades e nas próximas gerações.

Boa leitura!

TEXTO Redação

Café & Preparos

SIC 2025 discute inovação, sustentabilidade e oferta global de café

Evento que acontece de 5 a 7 de novembro em Belo Horizonte (MG) espera receber 25 mil visitantes e movimentar R$ 150 milhões em negócios

Em sua 13ª edição, a Semana Internacional do Café, maior encontro de café do Brasil, terá como tema “Café em transformação – inovação, sustentabilidade e oferta no mercado global”. A programação inclui painéis, palestras e workshops sobre COP30, ESG, inteligência artificial no agro, genética, bioeconomia, cafeicultura regenerativa e gestão hídrica, entre outros tópicos que vão do campo à xícara.

O evento, realizado no Expominas, em Belo Horizonte (MG)  entre 5 e 7 de novembro, contará com 190 estandes de maquinário, torrefações, métodos de preparo, acessórios e regiões produtoras. O novo espaço Festival Café da Semana reunirá marcas de café, cafeterias e a já conhecida Cafeteria Modelo. Este ano, o evento espera receber 25 mil visitantes de mais de 40 países e tem expectativa de movimentar R$ 150 milhões em negócios. 

Durante os três dias, haverá rodadas de cupping com cafés de origens como Matas de Minas, Mantiqueira de Minas, Região Vulcânica, Sudoeste de Minas, Campo das Vertentes e Chapada de Minas, entre outras. Os finalistas do Coffee of the Year também poderão ser provados pelo público.

Credenciamento

Os dias 5 e 6 são voltados a profissionais do setor. Neste ano, consumidores finais terão acesso apenas no último dia (7). O ingresso custa R$ 70. Já profissionais em formação e entusiastas podem pagar R$ 150 para os três dias. Produtores com CNPJ ou código rural têm entrada gratuita. O credenciamento, individual, pode ser feito pelo site ou no local. A credencial pode ser impressa antes do evento ou nos balcões de autoatendimento no evento.

Premiações Coffee of the Year e Espresso Design

A SIC é palco de diversas premiações, como o tradicional Coffee of the Year, que reune os melhores cafés do Brasil e reconhece os grandes destaques do ano. Produtores brasileiros podem inscrever seus cafés nas categorias arábica e canéfora, por R$ 190. Cada CPF deve fazer apenas uma inscrição. As amostras (3 kg) devem ser enviadas até 6/10 para o Centro de Excelência em Cafeicultura – Senar. Confira aqui o regulamento completo da edição e o link de inscrição. A premiação acontece no último dia de SIC, no Grande Auditório.

Outro destaque é o Espresso Design, que chega à 7ª edição. A competição tem o objetivo de fortalecer o setor e destacar a importância do design e da embalagem para a promoção de marcas e produtos. As inscrições são gratuitas: basta preencher o formulário de inscrição e mandar a embalagem para a comissão do concurso. As 20 embalagens escolhidas pela comissão ficam expostas nos dois primeiros dias de SIC, para votação do público. As três mais bem votadas são premiadas no último dia do evento, no Grande Auditório.

Semana Internacional do Café
Quando: 5 a 7 de novembro
Horário: das 10h às 19h
Onde: Expominas (avenida Amazonas, 6.200 – Gameleira – Belo Horizonte, MG)
Mais informações e credenciamento: www.semanainternacionaldocafe.com.br