Cafezal

Um novo robusta

Fazendas do Espírito Santo mostram que é possível produzir conilon com qualidades sensoriais

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Paisagem das montanhas do Espírito Santo, onde há produtores apostando no conilon especial.

Conhecido como a ovelha negra dos apreciadores de cafés especiais, o café robusta é um tipo de grão com material genético menos complexo, que resulta em bebidas com notas sensoriais menos atraentes, com presença de amargor, menos doçura, menos acidez e salinidade. Como não resulta em xícaras tão adocicadas, geralmente é utilizado como “tempero”, para dar acabamento a blends e bebidas cafeinadas. Também conhecido como conilon (ambos são variedades da espécie Coffea canephora), ganhou essa má fama no mundo dos cafés gourmets não apenas por sua tipicidade, mas pela maneira como é cultivado e tratado após a colheita. Sem cuidados, acaba chegando ao consumidor com características ainda piores, comprovando o preconceito estabelecido.

Há cerca de cinco anos, um pequeno grupo de pessoas está tentando mudar o rumo dessa prosa. E está conseguindo. Trata-se do projeto Conilon Especial, capitaneado pela Conilon Brasil, uma empresa focada no treinamento e na difusão de conhecimento sobre o tema, que também presta consultoria para cafeicultores. O grupo conta com o apoio do Incaper (Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural), das secretarias municipais e estadual de agricultura do Espírito Santo e de alguns cafeicultores que estão acreditando nessa nova fase do robusta. A meta? Mostrar aos produtores de café do Espírito Santo, do restante do Brasil e, quiçá, do mundo, todo o potencial desse tipo de grão quando selecionado geneticamente e cultivado adequadamente.

O grão verde cultivado e tratado adequadamente.

O grão verde cultivado e tratado adequadamente.

Herança de gosto amargo
O desafio dessa turma não é pequeno. O Espírito Santo é atualmente o maior produtor de café robusta do País e o maior produtor em área plantada do mundo. No entanto, o conilon, variedade descoberta pelos agricultores da região há cerca de quarenta anos, é desenvolvido desde então com o foco apenas na produtividade e esse modus operandi parece estar cercado por uma muralha difícil de ser derrubada.

Entenda-se aqui por um cultivo focado na produtividade aquele em que a planta, que já é naturalmente mais resistente, é criada como uma criança na rua, que acaba se virando sozinha. Em geral, o cafezal não é podado nem adubado, não passa por manejo do mato, por controle de pragas e de doenças e é pouco irrigado. Essa maneira de tocar a lavoura, herdada dos primeiros cafeicultores de robusta dali, é também um estímulo para o uso maior de aditivos químicos, fertilizantes e agrotóxicos. A colheita é feita antes de o fruto estar maduro; ele é deixado no terreiro sem cuidados, recebendo umidade excessiva, que costuma causar fermentação. Depois todos os grãos vão para um secador de lenha direta, ambiente que chega a atingir 300ºC. E aí, mesmo aquele vermelhinho que estava doce no pé, depois de passar por tantas intempéries, ficará com o mesmo gosto de fumaça e cinzas, adstringência da fermentação e sensação medicinal e de sujeira na boca que os outros. Esse é um retrato da produção tradicional no Estado. Um café de baixa qualidade, utilizado pela grande indústria para compor blends, café instantâneo, café em sachês, refrigerantes e energéticos.

O casal Laurindo Bride, de 87 anos, e Ághata Loss Bride, de 83 anos, produtor da região.

O casal Laurindo Bride, de 87 anos, e Ághata Loss Bride, de 83 anos, produtor da região.

Nadando contra a corrente
Como, então, convencer o produtor de café de que isso tudo está errado se esse lote malcuidado, que perdeu grande parte de suas características, é comercializado com a facilidade de quem vende água no deserto? Como mostrar que isso é ruim para ele, para a natureza e para o consumidor? “Esse café tem muita liquidez. O mercado compra mesmo com um monte de defeitos, torra tudo bem escuro e vende para o consumidor”, explica Marcelo Cortelletti, proprietário do Sítio Boa Sorte (em Santa Tereza), que possui 70 mil plantas de conilon.

Marcelo é um dos que estão nadando contra a corrente. Começou a ouvir aquela história de café de qualidade em um grupo de que participa, a Associação dos Produtores Rurais do Rio Perdido. A entidade, que reúne 66 pequenos produtores da região norte do Estado, começou uma parceria há cerca de quatro anos com a Conilon Brasil para orientar produtores como Marcelo.

Acima, viveiro onde os clones mais avançados são reproduzidos para a venda; plantações consorciadas com bananeiras, coqueiros e mamoeiros são típicas na região.

Acima, viveiro onde os clones mais avançados são reproduzidos para a venda; plantações consorciadas com bananeiras, coqueiros e mamoeiros são típicas na região.

Como parte do trabalho, que ainda está na fase de conscientização dos cafeicultores, a empresa, com sedes em Jaguaré e em Vitória, promove a cada quinze dias cursos e palestras sobre qualidade do café, além de provas de qualificação em R-Grader (que capacita classificadores e degustadores a provar e avaliar os robustas de qualidade). “A ideia é focar no produtor, para que ele entenda que a forma de produzir o café influencia diretamente na bebida. Se não há cuidados, a xícara perde sabor, doçura, acidez e potencializa a salinidade”, explica Arthur Fiorotti, um dos sócios da empresa.

Em um laboratório bem equipado, Arthur e sua equipe fazem análises de cafés, realizam degustações e oferecem orientação aos cafeicultores. “O cafeicultor tem apenas que manter a qualidade que o grão já tem no pé”, explica Romário Gava Ferrão, pesquisador do Incaper. Doutor em genética e melhoramento de plantas, estuda há 28 anos o tema e é o coordenador estadual do programa de cafeicultura. Para ele, a solução é simples. Por isso, desenvolveu uma cartilha, com os 10 mandamentos para produzir o conilon de qualidade, distribuída gratuitamente aos produtores.

Os frutos podem atingir tamanhos de peneiras altas.

Os frutos podem atingir tamanhos de peneiras altas.

Alguns meses depois da primeira conversa com a Conilon, Marcelo já passou a colher os frutos apenas bem maduros, a fazer uma separação mais criteriosa e aperfeiçoar a secagem. Antes Marcelo levava apenas 22 horas para secar o café e já vendia o lote. Hoje leva em torno de 46 horas. “Tem de ter uma atenção muito maior, é um trabalho mais dedicado”, conta. Dois anos depois, Marcelo não se arrepende: já teve 68% do investimento feito pago apenas com a primeira safra.

Seu compadre Luís Carlos Gomes, de 57 anos, também faz parte da associação e está no mesmo movimento. “Estamos começando a ter uma ligação com o consumidor, o nosso café está deixando de ser apenas uma commodity”, diz. Luís acompanha de perto a produção e apresenta com orgulho cada cafeeiro de sua plantação. “A ideia é melhorar a condição da planta, fazer poda, adubar de forma diferente. Além do cuidado na secagem do café, que faço em terreiro suspenso para ventilar por cima e por baixo”, explica. Chamam atenção também a estufa sobre o terreiro. “Para proteger da chuva e do sereno, pois trabalhar a céu aberto tem umidade alta, muito orvalho”, diz. Ele planta café desde 1999. Hoje se orgulha do café que produz e enche o peito ao oferecê-lo às visitas.

“Na associação, conversamos muito com os outros produtores, mas é uma luta inglória, pois não se conhece ainda o conilon especial. O custo também é um entrave. É preciso investir em equipamentos, secador com fornalha de forno indireto, mas há opções mais baratas, que não requerem estrutura muito sofisticada”, conta Luís. Ele tem consciência das dificuldades de encarar essa novidade. Mas sabe que não há por onde escapar. “A qualidade é um caminho sem volta. No momento, remunera melhor os cafeicultores. Mas, num futuro não muito distante, vai significar a permanência deles no mercado”, acredita Ênio Bergoli, secretário de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca do Espírito Santo.

Arthur Fiorotti e Marcelo Cortelletti analisam café no terreiro suspenso de Luís Carlos Gomes (a esquerda).

Arthur Fiorotti e Marcelo Cortelletti analisam café no terreiro suspenso de Luís Carlos Gomes (a esquerda).

Resultado no bolso e na xícara
Esse empenho, ao final, é recompensado. O valor agregado no preço da saca pode ser de 12,5% a 15%. Uma saca de R$ 280 pode passar a R$ 340. Sem contar as várias portas no mercado externo que já estão abertas, à espera dessa produção. “Existe uma limitação de suprimento de arábica, por isso, há muitas empresas fazendo testes com robustas de qualidade”, explica Arthur Fiorotti. Há ainda um estímulo (moral e financeiro) para quem aposta no novo formato. “Já temos concursos estadual, regionais e municipais de qualidade de conilon, com remuneração adicional para os cafés que se destacam. E, no ano passado, foram realizados os primeiros embarques em escala de conilon de qualidade para o exterior”, explica o secretário Ênio Bergoli.

Essa mudança, que se propõe profunda para o mercado de café, também poderá ser notada pelos consumidores. A produção de conilon especial cria uma série de possibilidades para o apreciador de café, que terá, em breve, a chance de consumir mais blends feitos apenas de grãos qualificados (arábicas e robustas). A Espresso provou o café produzido por Luís Gomes, considerado um café de cerca de 80 pontos, índice bem alto para um café 100% robusta. E notamos aroma doce, com toque de amêndoas, boa doçura, bom corpo, baixa acidez, e salinidade de média para baixa, bastante equilibrado. Uma boa surpresa.

“Há um preconceito muito grande com o blend, mas quem ganha é o consumidor”, defende Evair de Melo, do Incaper. “E só estamos começando. Assim foi com o vinho californiano no início, o da Austrália, o do Vale do São Francisco. E agora são uma realidade. Não existe verdade absoluta. Há muitas coisas para ser encontradas.”

Luís Carlos Gomes, do Sítio São Bento, acredita, porém, que o mais importante é a satisfação pessoal do produtor de café. Todo o esforço, o investimento, a dedicação de mais horas de atenção e cuidados à lavoura e à pós-colheita valem mais quando o cliente gosta da bebida. “Não existe prazer maior que este: alguém tomar a segunda xícara do nosso café”, diz.

Terreiro com estufa onde o café fica protegido da umidade do ar.

Terreiro com estufa onde o café fica protegido da umidade do ar.

Ficha técnica
Sítio São Bento
Localização Santa Tereza (ES)
Região Vales e Serras de Santa Tereza, norte do Espírito Santo
Altitude média 540 m a 820 m
Extensão do cafezal 127 hectares
Número de cafeeiros 350 mil plantas
Colheita seletiva
Processamento natural e cereja descascado
Secagem pátio e terreiros suspensos
Porcentual dos tipos 25% conilon e 75% arábica
Variedades clones de Vitória, e outros selecionados no próprio sítio, como conilon amarelo (espontâneo)

MAIS INFORMAÇÕES www.incaper.es.gov.br

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Giuliana Bastos • FOTO Guilherme Gomes

Mercado

“Temos que incluir o produtor na relação”

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No começo, ela conta, foi bem desafiador participar da SCAA, pois era uma “jovem organização que tinha que treinar os profissionais de cafeterias e pensar em como fazer para as pessoas tomarem café também em casa. Construir esse relacionamento”. E ainda hoje ela vê o mercado como um grande desafio. Em 2005, após visitar o Brasil anos antes, Linda foi convidada para trabalhar como representante nos Estados Unidos dos cafés produzidos na brasileira Fazenda Daterra, no Cerrado Mineiro. Outro desafio na época. “Dizia aos meus amigos do mercado americano que tinha cafés incríveis do Brasil para provar e eles agradeciam e diziam: ‘Não, eu não bebo café do Brasil’.” Aos poucos ela foi introduzindo a ideia e hoje há uma grande mudança na imagem do nosso grão em outros países. Para Linda, “a tendência é que cada vez mais o consumidor queira se conectar com quem está produzindo o café e o caminho que ele percorre”. A seguir, veja a conversa exclusiva que ela teve com a Espresso.

Por que você começou no mercado de café? Eu era uma apreciadora de chá. Não bebia café porque não gostava do sabor. Um dia, em uma cafeteria na Flórida, tomei um café maravilhoso e descobri que tinha um sabor diferente do que eu provava em reuniões de trabalho. Eu sofria nesses momentos. Descobri então que um café de qualidade, com torra fresca, moído na hora e preparado da forma correta, era uma bebida exótica. E então comecei a Susan’s Coffee and Tea, em 1989. Hoje eu só tomo chá quando estou doente, e sempre depois do primeiro café.

Quando começou no conselho da Specialty Coffee Association of America (SCAA)? Em 1990. Um ano depois que abri a cafeteria. A Associação era uma organização jovem e, como eu e meu marido tínhamos um conhecimento de mercado de outras áreas, pudemos contribuir com nossa experiência. Porque a chave do sucesso de uma cafeteria não é só o produto, mas o produto com foco em lucro. Em 1998 me tornei presidente da Associação. E nosso grupo era incrível, mas tínhamos que investir e pagar com recursos próprios nossas viagens e seminários. Tínhamos dois funcionários e nove pessoas no Conselho da SCAA. Todos trabalhavam muito.

Qual era o principal desafio para a SCAA na época? Era levar o conceito de café especial para dentro da casa das pessoas. Porque, com o trabalho de marketing, as pessoas vão até as cafeterias, mas o consumo dentro de casa do café especial sempre é um grande desafio, porque não é conveniente. Quando você vai ao supermercado e compra leite, laranja, carne, café e vegetais, esse café não é fresco e está a milhas de distância do que você toma na cafeteria. De modo que acho que ainda é o grande desafio.

E o que vocês fizeram? Treinamos os profissionais de cafeterias para introduzir o conceito de café especial em casa. Não somente vender o café, mas construir um relacionamento duradouro. Eu acho que o best website for cialis café é tão íntimo que, quando você opta por ir a uma cafeteria e alguém te faz uma recomendação, você confia muito mais. O barista diz: “Você pode fazer um espresso na sua casa, deixa eu te mostrar alguns caminhos”, e você acredita nele. E também investimos muito no treinamento dos baristas, nos métodos e nas mídias sociais, porque a Colômbia, por exemplo, gastou milhões fazendo o marketing de massa. E acho que a mudança hoje vem através das mídias sociais. Falando sobre café com o consumidor diretamente.

E como você avalia hoje o café especial? Hoje cada país tem uma forma única de fazer café. Por exemplo, você vai ao Japão e é uma celebração a forma de eles servirem. É elegante e bonito. Como presidente da SCAA, nos anos 1990, percebi também quanto os Estados Unidos ditavam as tendências e eram uma referência global. Mas hoje acho que os Estados Unidos devem olhar o que está sendo feito também por outros países. Hoje eu penso que a cerimônia do café, o valor da origem desse café é o caminho. Isso é essencial. Temos que incluir o produtor na relação. Não podemos mais dizer: “Ah, é só o produtor”. Se fizermos isso, a indústria de café vai voltar para onde estava. Quando eu fui presidente da SCAA era muito raro os importadores irem conhecer a origem do café, visitarem os países produtores. Cada um que ia voltava com histórias incríveis. Eu fui à Guatemala e quando retornei queria contar para as pessoas, com entusiasmo, o que eu tinha visto, mas era muito difícil passar todas as vivências. Já em 2002, vim ao Brasil pela primeira vez pela SCAA, visitei a região de Minas Gerais. Eu provei cafés incríveis. E todos ficaram impressionados com a qualidade.

E o consumidor nessa mudança? Penso que o consumidor está mais envolvido com o café que ele está bebendo na xícara e está buscando ter mais conhecimento. Estou falando do consumidor de café engajado. Este quer estar mais conectado com quem produz o café que ele toma. Ele passa então a ter um sentimento de afinidade pela origem do produto de que ele gosta. Os métodos de preparo filtrado são muito vastos hoje e também as monodoses apresentam opções diversas.

E qual é a sua rotina para beber café? De manhã meu primeiro café é para acordar. Gosto dele filtrado. Corro para a cozinha e preparo. Na frente da minha casa vejo um lago, então sento calmamente lá e bebo minha xícara. Assim começa meu dia. No meio do dia, adoro preparar o café na Chemex, acho lindas a cerimônia e a apresentação. Tomo espresso fora de casa, em restaurantes, mas pergunto sempre qual é a marca antes de pedir. Gosto de french press também. Normalmente tomo quatro cafés diariamente, mas, se encontro um parceiro para isso, com certeza bebo mais.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Mariana Proença • FOTO Guilherme Gomes

Café & Preparos

Gold Mesh Filter

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Método prático para o preparo individual de até 250 ml de café. Conta com filtro metálico banhado a ouro, que permite que o café seja filtrado sem o uso de papel. Basta pôr o filtro em um copo ou uma xícara, acrescentar o café com uma moagem média, colocar o regulador de água, despejar água quente e tampar. Quando o regulador estiver vazio, o café estará pronto.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO da Redação • ILUSTRAÇÃO Gustavo Lorenzini

Meu elogio será tua ofensa

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Na última vez em que alguém te elogiou, você:

a) ficou sem graça, olhou para o chão, balbuciou algumas sílabas desconexas;

b) se defendeu, negando, como se tivesse ouvido a acusação de algo muito, muito grave;

c) ficou mais petrificado do que se tivesse encarado os cabelos de serpente da Medusa (aquela criatura da mitologia que transformava as pessoas em estátuas);

d) fingiu que não era contigo e mudou de assunto.

Os seres humanos normais escapam das alternativas acima listadas?

Essa é uma questão metafísica e tanto – ao menos, para mim. O desconforto que a congratulação provoca é para lá de desproporcional. Nosso incômodo independe da intensidade do elogio – tanto faz se for um prosaico “você é esperto” ou um hiperbólico “nossa, sua inteligência supera a do Stephen Hawking e a da deusa grega Palas-Atenas somadas e multiplicadas por mil!”. Nós nos contorcemos da mesma maneira em dor emocional e procuramos a saída mais próxima.

Talvez nós não levássemos tão a sério se ganhássemos uma ofensa em vez de um louvor. Por exemplo: se alguém disser a um cara que ele joga futebol muito mal, ele provavelmente vai concordar, dando risada. Se for um elogio, entretanto, a negação será imediata: “De jeito nenhum!”, “Bondade sua”, “Hoje dei sorte, normalmente sou pior que o Coalhada”.

Louvores físicos, sem segundas intenções, são um caso à parte. Experimente, por exemplo, elogiar a beleza de alguém do sexo oposto. Algo como “você está bonito”. Geralmente, elogios como esse são retribuídos com um olhar 43, à la Paulo Ricardo, ou com um olhar em fuga, olhos no chão (ou no teto), qualquer coisa para evitar o contato visual.

Eu entendo essa aversão a elogios. Se você concordar com o interlocutor, passa por arrogante – “chamei de bonito e ele concordou! Tá achando que é o Brad Pitt brasileiro? Humpf!”. Nossa sociedade valoriza a humildade daqueles ao nosso redor. Ídolos (atores, esportistas e afins), claro, estão liberados. Neles, a arrogância não é um defeito, mas uma excentricidade charmosa – seja lá o que for isso.

Não que eu esteja acostumado a receber louvores, mas, cá para mim, tenho que, quando uma pessoa te elogia, ela não está querendo te constranger, te xavecar ou te pedir, indiretamente, um elogio para ela própria. Talvez seja apenas um cumprimento por algo que você, de fato, mereça.

Parece ficção que ainda existam pessoas que não façam comentários apenas para deprimir o próximo, mas o ser humano é uma caixinha de surpresas. São raras, mas ainda há pessoas que gostam de fazer bem a um conhecido – por meio de um sorriso, um gesto educado ou até um elogio sincero. Talvez você seja uma delas. E, se for, obrigado por isso! Você é bacana! (Por favor, sem ofensas, tá? Foi só um elogio…)

*Pedro Cirne é chefe de reportagem do UOL Notícias. Fale com o colunista pelo e-mail aftertaste@cafeeditora.com.br

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Pedro Cirne • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Receitas

Pastel de nata

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Ingredientes
• 1 litro de creme de leite
• 350 g de açúcar
• 16 gemas
• 4 colheres (chá) de amido de milho
• 3 tampinhas de essência de baunilha
• Massa folhada

Preparo
Separe as gemas e, em uma vasilha, bata-as com um garfo. À parte, dissolva o amido de milho em um pouco de água e acrescente a essência de baunilha. Em uma panela, coloque o creme de leite com o açúcar para ferver. Quando levantar fervura, acrescente as gemas já batidas e o amido de milho dissolvido com a essência de baunilha. Mexa bastante. Depois, coloque para esfriar numa vasilha com água e gelo. Reserve. Abra a massa folhada e coloque em forminhas de empada. Em seguida, ponha o creme nas forminhas e leve ao forno.

Rende de 20 a 25 porções

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Ernestino Gomes Pontes • FOTO Daniel Ozana / Studio Oz

Café & Preparos

Marcelo Jeneci

“Curto tomar café quando realmente tenho vontade: para mim, não é simplesmente um hábito, é um querer mesmo.”

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Aos 31 anos, o cantor e compositor nascido em Guaianazes, zona leste de São Paulo, cresceu embalado pelas rádios populares. Seu pai, o pernambucano Manoel, ganhava a vida consertando eletrodomésticos e instrumentos musicais e era fã de Erasmo e Roberto Carlos. Sobre essas influências Jeneci conversou com a Espresso e preparou um café coado regado a muitas histórias. “Gosto de ficar andando pela casa com um copo de café.”

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Eliane Barros • FOTO Guilherme Gomes

Mercado

Xícaras e joias são feitas com borras e grãos de café

Conheça produtos que utilizam o café como matéria-prima

Xícaras feitas com café

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O designer alemão Julian Lechner criou xícaras e pires através de um combinado de borra de café e colas naturais. A marca Kaffeform recicla recursos que seriam descartados. Uma xícara dele, por exemplo, pode ser feita a partir da borra de seis xícaras de espresso. Para tornar o produto durável e próprio para lavar, ele encontrou equilíbrio entre fibras vegetais, borra de café, pedaços de madeira e biopolímeros. Quarenta por cento do composto material é feito a partir da borra de café seca. O designer afirma que pretende lançar o produto para outros países, incluindo o Brasil. 
As xícaras estão disponíveis para 
compra no site www.kaffeeform.com

Joias de café

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Liliane e Simone Santiago, de Londrina (PR), criaram a Biojoias Irmãs Santiago, com produtos artesanais, como colares e brincos. A inspiração veio da visita à cidade de Ibiporã (PR) durante a Rota do Café. Lançada em 2015, a coleção busca traçar um paralelo entre a moda das décadas de 20 e 30 e a atual. Mais informações: www.irmassantiago.com.br

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO da Redação • FOTO Divulgação

Café & Preparos

Clever: filtro prático

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A Clever parece um filtro de café normal, mas é feito de acrílico e tem uma vantagem que o torna bem prático: dispõe de um controle da saída do café. Esse controle se dá por meio de uma trava automática na parte inferior do filtro. Assim, conseguimos preparar o nosso coado com mais tranquilidade, podendo servi-lo diretamente do filtro na xícara. Como a infusão pode ser controlada por alguns minutos, esse preparo é um misto de french press com coador de papel. O método, que já existe desde 2010, foi um dos mais utilizados pelos baristas finalistas no Campeonato Mundial de Barista (WBC) em 2012. O equipamento está sendo comercializado pela Café Store.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Da Redação • ILUSTRAÇÃO Stefan Pastorek

Café & Preparos

Enfim, David Lynch

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“Meu preferido é o espresso com leite quente, o latte.”

Dono de um estilo único, muitas vezes surreal, o cineasta norte-americano já afirmou que um dos seus maiores desejos como artista é conseguir filmar, com precisão, a ondulação formada na superfície do café ao se movimentar a bebida. Bizarrices à parte, o diretor, conhecido por sua obsessão por café (toma desde os 3 anos), gosta mesmo é de se deliciar com a simplicidade de um bom espresso com leite.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Texto Karina Almeida • FOTO Divulgação

O sonho de um imigrante

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Minha visão da evolução da terceira onda tem agricultores, baristas e torrefações trabalhando juntos, fazendo parte do “outro lado” para entender mais sobre o nosso café. A maioria dos cafés de qualidade é exportada. Isso significa que a troca de informações entre torrefadores e produtores sofre, muitas vezes, devido à barreira da língua. Mas não tem desespero! Podemos nos comunicar aqui entre agricultores, baristas e torrefadores que buscam se tornar profissionais, que querem evoluir, que querem ser melhores.

Como fazer isso? Primeiro, precisamos realmente virar profissionais. Existem livros, cursos, empregos, a internet, revistas e campeonatos de café que podem ajudar na nossa pesquisa. Sem deixar de tomar café! Um bom barista pode ajudar o agricultor a conhecer seu próprio café. Uma coisa que atrapalha na venda do grão é que quem o produz não sabe o que o mercado quer. A cultura de tomar café pode ser bem diferente entre países. Melhor, então, fazer um produto específico para vender do que tentar vender o que se tem. Os baristas também têm uma experiência grande com diferentes grãos e podem falar sobre qualidade, aspectos da colheita e pós-colheita, apenas avaliando o sabor e o aroma do café. Isso pode ser um pouco avançado para a maioria dos baristas. Torrefadores têm mais experiência com isso, mas você não deve dizer que não pode. Sim, você pode.

O agricultor (ou os filhos dele) pode se educar a respeito do trabalho dos baristas para saber mais sobre os limites de qualidade do café. Como identificar problemas provenientes da colheita ou da pós-colheita. Nem todo mundo pode viajar para Oslo, Londres ou Nova York para fazer pesquisa. Precisamos cuidar da lavoura. O que é fácil fazer é comprar café de fora, café torrado aqui, talvez de vizinhos, e logo você vai saber mais.

Não é verdade que o melhor café vai para fora. Os melhores lotes de café são pequenos, duas sacas, dez sacas de café bem cuidado, representando tudo o que nós podemos realizar. As torrefações pequenas do País estão fazendo um trabalho muito legal, encontrando caminhos novos, pesquisando sobre torra e pós-colheita. O agricultor, em conjunto com o torrefador, tem facilidade de fazer experimentos pequenos, que podem dar resultados incríveis. Eu já provei muitos cafés dessas experiências que se mostraram impressionantes. Cafés que subiram 3 ou 4 pontos só por causa de uma fermentação benéfica. Grãos que, normalmente, são considerados normais, mas que ganham personalidade e qualidade após apenas uma separação entre maduros e verdes.

Não posso realizar o meu sonho sozinho. Eu acho que podemos melhorar o nosso futuro, o futuro do café, o futuro do País, trabalhando para melhorar a qualidade dos grãos. Isso vem junto com a mudança que estamos vendo. Quem não segue em frente fica atrás, sofrendo com preço baixo, colheita menor, variedades que não toleram a seca, mesmo tendo um produto que pode ser melhorado com pouco investimento.

É isso que eu estou tentando fazer aqui no Brasil. Pouco a pouco, com cursos, aulas, projetos pequenos, divulgando o que eu posso, fazendo a minha parte. Sei que eu não estou sozinho, mas precisamos que todos tomem uma parte da responsabilidade para si. Fazer o melhor com o que você tem, pensar sobre o que é possível. Nesse sentido, vão faltar limites…

*Eystein Veflingstad é norueguês, residente no Brasil, barista, mestre de torra e proprietário da 3ª Onda Consultoria em Café, empresa que tem como foco trabalhar com agricultores e cooperativas na missão de ajudar o cafeicultor a saber mais sobre o próprio café. Fale com o colunista pelo e-mail colunacafe@cafeeditora.com.br

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes