Café & Preparos

Cafés à moda turca e árabe ganham destaque e preservam tradições de imigrantes no Brasil

Por Leonardo Neiva

Sobre um recipiente retangular com uma camada de areia quente, a barista movimenta lentamente o cezve (ou ibrik, em árabe). Dentro dessa pequena panela de cobre com cabo longo, o café de moagem extremamente fina se mistura com a água, num método diferente dos espressos e filtrados. Em meio à areia quente, ele recebe o calor de maneira uniforme, desenvolvendo sua espuma e aroma característicos.

Imagens do preparo do café turco vêm ganhando destaque nos cardápios de estabelecimentos pelo Brasil e viralizam com frequência nas redes, devido à sua técnica única. O aquecimento sobre a areia quente, típico da Turquia e de certas regiões do Oriente Médio, se inspira na tradição de povos nômades do deserto, que tinham apenas o sol e a areia como fogão.

Mas “o verdadeiro café turco não está só no preparo, e muito menos numa máquina de areia. Ele está na técnica, no conhecimento e na formação de quem prepara”, afirma Adriana Gomes, proprietária da Tenda Turca, pioneira no preparo da bebida em São Paulo. Inspirada pelos laços familiares e de amizade na Turquia, ela abriu a casa em 2022, onde, além do café e do chá, comercializa produtos e ingredientes importados do país.

A Asmar’s, rede de confeitaria árabe de Foz do Iguaçu (PR) que vem abrindo unidades pelo Brasil, oferece cafés inspirados em regiões diversas da Turquia. O da capital Ankara, por exemplo, leva um blend de pimentas, e o de Izmir, na costa oeste, vai com cardamomo, especiaria tradicional do café árabe.

Foto: Asmar’s

Paul Sapountzakis, que comanda duas unidades da rede em Brasília, conta que o preparo da bebida virou um show à parte. “Muitos clientes se aproximam para assistir, fazem perguntas, fotografam e gravam vídeos. Antes mesmo do primeiro gole, já existe uma conexão com a história e com a tradição da bebida.”

Descendente de gregos e libaneses, o empreendedor cresceu em uma família onde o café era ritual de convivência e gesto de acolhimento. “O café turco não foi criado para ser consumido com pressa. Ele convida as pessoas a desacelerar, conversarem e aproveitarem o momento”, afirma.

Reconhecidos como Patrimônios Culturais Imateriais da Humanidade, tanto o café turco quanto o árabe remontam ao século 15, com seus primeiros usos medicinais e rituais na região do Iêmen. A primeira cafeteria de que se tem registro surgiu nesse mesmo século em Constantinopla, atual Istambul.

No Brasil, há uma confusão histórica entre os imigrantes vindos da região. Do fim do século 19 ao início do 20, viajantes de países que faziam parte do Império Otomano, como Líbano e Síria, eram rotulados pelas autoridades brasileiras como “turcos”, conta o doutor em história social Bruno Bortoloto do Carmo, analista de pesquisa do Theatro Municipal de São Paulo.

Um dos autores do projeto Memórias do Café Árabe, do Museu do Café de Santos, Bortoloto registrou narrativas orais de imigrantes, que resultaram em um artigo e uma exposição focada na tradição do café árabe por aqui.

Por conta da proximidade, há semelhanças – e diferenças importantes – entre os cafés da região. O café fino jogado direto na água e o bule de cabo longo estão presentes tanto na versão árabe quanto na turca. Por outro lado, o café de países árabes quase sempre inclui cardamomo e usa uma torra mais clara, o que o torna leve e floral, enquanto o turco tem um sabor mais encorpado. “O turco não costuma ter tantas especiarias”, aponta o pesquisador.

Foto: Asmar’s

Um exemplo dessa confluência de tradições é o Yummizza, de Curitiba (PR). Apesar de ser inspirado nos sabores de Damasco, capital da Síria, o restaurante traz no cardápio o café turco – ao menos no nome. No entanto, é possível tomá-lo tanto puro quanto com cardamomo, ingrediente tradicional da bebida em solo damasceno.

Vindo da capital síria para recomeçar a vida no Brasil, foi a falta que Ahmad Mnayer sentia dos sabores da terra natal que o inspirou a abrir o estabelecimento, onde também vende esfihas e shawarmas. “Quando sirvo esse café, lembro da minha infância, da família e da cultura. Tem gente que diz que o café os fez lembrar dos pais ou dos avós. Isso é muito bonito.”

Se só agora os cafés turco e árabe passaram a ganhar projeção nas redes e em estabelecimentos daqui, entre comunidades imigrantes já eram presença constante. “[Durante a pesquisa] Todas as pessoas nos receberam com um café feito dessa forma e contaram que mantêm essa tradição em casa”, diz Bortoloto. Segundo ele, restaurantes tradicionais, como o Syria e o Abud Síria, no centro de São Paulo, também servem a bebida, muitas vezes fora do cardápio.

Na visão de Adriana Gomes, da Tenda Turca, ainda são poucos os lugares no Brasil que oferecem uma experiência realmente especializada do café turco. Mas ela já percebe uma mudança. “As pessoas estão mais curiosas, viajam mais e veem conteúdo sobre isso nas redes. Cresce o interesse pelas gastronomias do Oriente Médio e da Turquia.”

Tenda Turca
Endereço: Pão de Açúcar – Av. Brigadeiro Luís Antônio, 2013 – Lj 04 – Bela Vista, São Paulo (SP)
https://www.tendaturca.com.br/

Asmar’s Brasília
Endereço: Unidade ParkShopping – SMAS Trecho 1 Luc 280A – Guará – Brasília (DF)
Unidade Conjunto Nacional – SDN, CNB – Asa Norte, Brasília (DF)
https://asmarsbrasilia.com.br/

Yummizza
Endereço: Av. Sete de Setembro, 4341 – Água Verde – Curitiba (PR)
https://www.instagram.com/yummizza/

TEXTO Leonardo Neiva • FOTO Asmar's

Café & Preparos

Cada canéfora, uma torra: a importância de entender as diferenças entre os cafés

À medida que o mercado amplia o olhar para além do arábica e incorpora canéforas de qualidade, entender diferenças técnicas entre as duas espécies e suas variedades no processo torna-se necessidade

Por Gabriela Kaneto (com colaboração de Cristiana Couto)

A produção brasileira de canéfora cresceu no último ano. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que a espécie produziu 20,8 milhões de sacas em 2025 no Brasil – 42,1% a mais do que a safra anterior, enquanto o arábica teve queda de 9,7% em 2025, para 35,76 milhões de sacas.

Esse aumento de volume aliado ao avanço em qualidade – resultado de melhoramento genético e
cuidados pré e pós-colheita – transformaram a percepção e as possibilidades do uso dos canéforas, o que faz com que o olhar sobre a torra destes grãos seja, necessariamente, revisitado.

Atualmente, a espécie entrega uma bebida com identidade própria e desafios específicos – especialmente no momento da torra. E é justamente aí que as comparações com o arábica falham. Pois, embora a torra possa ser resumida como um processo de aplicação de energia térmica sobre o grão, as respostas a ela são variadas e dependem de fatores que alcançam a genética do café.

Entre híbridos, clones e arábicas

As diferenças entre arábicas e canéforas começam bem antes de um grão de café entrar no torrador. “Nos últimos cinco anos, o canéfora mudou da água para o vinho”, resume Leandro Paiva, professor-titular de cafeicultura do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas (IFSULDEMINAS) e diretor do Polo de Inovação em Agroindústria do Café, em Machado (MG).

Segundo ele, o avanço de programas de melhoramento – feitos principalmente pela Embrapa Rondônia e pelo Incaper – e a entrada no mercado de novos clones e híbridos ampliaram a diversidade dos canéforas. A espécie, antes tratada como um bloco relativamente homogêneo, passou a revelar diferenças expressivas de densidade, massa e tamanho do grão, resultando em comportamentos térmicos também distintos. “Mudaram os clones, mudaram as densidades, mudou o sensorial. E isso obrigou a gente a rever tudo o que achava que sabia sobre torra de canéfora”, afirma Paiva.

Antes dessas mudanças, lembra o pesquisador, aplicava-se aos cafés canéfora a mesma lógica de torra usada para o arábica. Mais tarde, mestres de torra passaram a estender a fase de secagem (evaporação da água no interior do grão na etapa inicial do processo) dos canéforas para favorecer a caramelização dos açúcares disponíveis, já que a espécie tende a apresentar menor teor deles que os arábicas. Mas a estratégia não era tão simples.

“Com a chegada desses novos híbridos e clones, vimos que o que achávamos correto não funcionaria para todos. Então, estamos começando de novo”, explica Paiva, que atualmente faz testes sobre o comportamento desses novos grãos no torrador.

As diferenças entre os novos canéforas começa na base genética da espécie. Diferentemente do arábica, que se reproduz por autofecundação e que deriva de um número restrito de cruzamentos – o que resulta em variedades “primas” entre si –, o canéfora é dependente de fecundação cruzada e permite, ainda, uma ampla exploração de híbridos F1 – primeira geração de plantas resultantes do cruzamento entre duas linhagens geneticamente distintas –, a partir da sua propagação pela técnica de clonagem (que produz indivíduos geneticamente iguais). O resultado é uma explosão recente de diversidade genética e fenotípica de canéforas.

“Essa heterogeneidade faz com que a gente encontre canéforas com até o dobro da densidade de um arábica padrão. Isso muda completamente a física no interior do torrador”, pondera ele. “A movimentação de um canéfora mais denso no equipamento é muito mais rápida do que a de um arábica”, exemplifica ele, que há anos coordena a torra dos cafés do Coffee of the Year, premiação dos melhores arábicas e canéforas brasileiros na Semana Internacional do Café, evento que acontece anualmente em Belo Horizonte.

O especialista diz que é por conta dessa heterogeneidade, ainda pouco conhecida, que não há um protocolo consolidado para a torra da espécie – é preciso continuar as investigações. “É a partir desse tipo de teste que vou começar a ter ideias de como fazer uma melhor gestão de todo o processo no torrador”, prevê.

“Essa diversidade dos novos canéforas vai exigir novas tecnologias e, provavelmente, novos torradores”, arrisca Paiva. “Não é só uma questão de velocidade de rotação do torrador, mas de fluxo de ar, profundidade e diâmetro do tambor, quantidade do café utilizado, todos esses fatores”, ilustra, enquanto apresenta um vídeo à reportagem da Espresso para mostrar como o comportamento de um grão no interior do equipamento já varia durante as etapas da torra. “Estamos ainda lidando com hipóteses, começando agora a ver as diferenças e porque elas existem. Diferenças não só em densidade, mas também no tamanho e na composição química dos grãos”, explica o especialista.

A curva do aprendizado

Raphael Brandão, mestre de torra e fundador da torrefação Café di Preto, no Rio de Janeiro (RJ), torra cafés desde 2019, mas passou a trabalhar com canéforas apenas em 2022. Ele, que começou torrando cafés da Fazenda São Bento, em Santa Teresa (ES), nas Montanhas do Espírito Santo – vencedora do Coffee of the Year 2025 na categoria canéfora –, diz que a maior diferença entre as espécies durante a torra está no gerenciamento de energia. “É uma lógica bem diferente. Se aplicarmos a mesma estratégia às duas, estragamos completamente a bebida. Entender a necessidade de mais ou menos energia de cada canéfora é o grande segredo”, comenta.

Raphael Brandão, mestre de torra e fundador da torrefação Café di Preto

Para Samilly Miranda Cunha, fundadora da Torra da Sam, em Belém (PA), a densidade do café é um dos primeiros fatores a orientar as decisões no torrador. “Dependendo da densidade do grão, consigo saber quanto de energia vou aplicar e em quais momentos da curva [de torra]”, explica. Segundo ela, que começou a torrar cafés em 2023, é por isso que os canéforas levam mais tempo para se desenvolver fisicamente (mudar de cor e de tamanho) do que os arábicas. “Não é um padrão fixo, mas tem sido comum”, pondera.

Essa diferença no tempo e na condução da torra foi, para muitos profissionais, um aprendizado construído na prática, por tentativa e erro. Samilly relembra a insegurança que sentiu na primeira torra de canéforas. “Quando provei o café, não gostei e planejei tudo o que ia mudar”, conta. A mudança foi o descanso do café. “Depois de cinco a sete dias, provei de novo e era outro café. Não mudei nada e segui satisfeita com o resultado”. Para ela, a experiência reforçou a importância de respeitar o tempo do grão e de não tirar conclusões precipitadas logo após a torra.

Samilly Miranda Cunha, fundadora da Torra da Sam

“No começo, quando tratei o conilon como um arábica na torra, fiquei intrigada com os resultados”, relata Keiko Sato, da torrefação paulistana Punga Cafés Especiais, que trabalha com canéforas desde 2017. “Sabia que não era uma questão de qualidade da matéria-prima, mas, sim, de condução da torra”. Quase sem referências disponíveis na época, Keiko conta que testou diferentes abordagens de desenvolvimento e aplicação de energia no processo. Os resultados a agradaram. “Não tenha receio de prolongar o desenvolvimento”, aconselha Keiko. “Percebi que torras um pouco mais escuras podem trazer perfis sensoriais muito interessantes, preservando a acidez característica do canéfora”, completa.

Essa abordagem ajuda a explicar por que sabores como malte e chocolate amargo, comuns em canéforas bem trabalhados, não devem ser interpretados como defeitos, mas como expressões da espécie desenvolvidas na etapa da torra. “Até notas florais, como de lavanda, e de maracujá podem aparecer se a torra for bem conduzida”, explica ela.

Ainda assim, profissionais acreditam que, para que os cafés canéforas sejam plenamente aceitos pelo consumidor final, é necessário um trabalho de educação e de ampliação do repertório sensorial, capaz de desconstruir estigmas históricos associados à espécie.

Keiko Sato, da torrefação paulistana Punga Cafés Especiais

Da tentativa ao método

Para quem está começando a torrar canéfora, a orientação é clara: é preciso planejamento, registro e paciência. “Planeje o que vai ser feito, anote tudo, salve as curvas e não faça alterações aleatórias”, orienta Samilly. “Espere o tempo de descanso e só mude algo depois de provar o café descansado”, avisa. “Entenda que são matérias-primas diferentes”, reforça Brandão. “Os compostos são diferentes e exigem conduções distintas. Isso muda muito a percepção de acidez que a bebida pode ter”, completa Keiko.

“Temos que convidar a comunidade acadêmica, as universidades e instituições de ensino e pesquisa a explorar mais esses novos híbridos de canéfora”, incentiva Paiva.

Por dentro do grão

A genética explica por que os cafés canéforas são tão diferentes. Mas é sob o microscópio que essa diferença se materializa.

Toda célula vegetal é envolvida por uma estrutura externa rígida, a parede celular, responsável pela sustentação dos tecidos. No café, ela influencia diretamente a forma como o calor atravessa o grão durante a torra.

A parede celular é composta principalmente por celulose e hemicelulose (na ilustração abaixo) — polissacarídeos, isto é, grandes moléculas formadas por cadeias de açúcares. A celulose, feita de glicose, organiza-se em cadeias longas e lineares. A hemicelulose, formada por diferentes açúcares (que ainda estão sendo investigados), tem cadeias mais curtas e ramificadas. Além da composição química diversa, essas macromoléculas diferem nos tipos de ligação química que as estruturam — mais ou menos suscetíveis à degradação térmica.

“Entre os açúcares da hemicelulose está a glicose, que estabelece outro tipo de ligação química nessa estrutura”, explica Leandro Paiva. Maior teor de hemicelulose implica maior concentração de unidades de glicose na sua estrutura, o que aumenta a massa e contribui para maior densidade do grão.

Nas pesquisas que conduz, Paiva verificou que a celulose é mais abundante em canéforas do que em arábicas – 2o% a 25% do total da massa do grão de arábica contra 22% a 28% em canéforas. Observou também que a quantidade de hemicelulose, medida em miligramas por grama de grão, não só é menor em arábicas (cerca de 16,1 mg/g) do que em canéforas como varia significativamente entre conilons (27,2 mg/g) e robustas (17,7 mg/g).

Outro elemento entra nessa equação: a lignina, polímero fenólico estrutural que se associa à hemicelulose e reforça a parede celular, aumentando sua resistência. “Paredes celulares mais rígidas, como as dos canéforas, dificultam a migração do calor da superfície para o centro do grão”, detalha o pesquisador. O resultado é conhecido dos torrefadores: a parte externa avança com mais rapidez no processo de torra, enquanto o interior do grão ainda está em desenvolvimento. “É como cozinhar robustas em panela de ferro e arábicas em panelas finas de alumínio”, compara.

Conilons, robustas e arábicas diferem também no perfil de proteínas. Na torra, elas se degradam em aminoácidos que reagem com açúcares na reação de Maillard — processo responsável por grande parte dos compostos que formam aroma e sabor. Como genética e clima moldam o perfil proteico do grão, também determinam quais aminoácidos estarão disponíveis para reagir. É uma das razões pelas quais cafés diferentes desenvolvem sabores distintos sob a mesma curva de torra.

Os distintos teores e tipos de açúcar em cafés também interferem no processo. Conforme a temperatura no torrador aumenta, a sacarose, o açúcar mais abundante, decompõe-se em açúcares menores – os açúcares redutores, como frutose e glicose –, que participam da reação de Maillard.

Cafés arábicas, com maior concentração de sacarose, tendem a oferecer maior disponibilidade de açúcares redutores durante a torra, o que favorece o desenvolvimento de aromas mais doces. Já os canéforas, que apresentam menor teor total de açúcares e composição distinta, exigem perfis de torra diferentes para alcançar equilíbrio sensorial. “O manejo adequado da reação de Maillard contribui para reduzir a percepção do amargor característico da cafeína”, aponta o especialista.

Texto originalmente publicado na edição #91 (março, abril e maio de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Gabriela Kaneto (com colaboração de Cristiana Couto)

Café & PreparosMercado

USDA projeta safra recorde de 71,9 milhões de sacas para o Brasil

Previsão é de 14% a mais do que no ciclo anterior, o que estimulará, segundo o órgão, um salto de 30% nas exportações

Funcionário em plantação de canéfora em São Gabriel da Palha (ES), em setembro de 2025. REUTERS/Alexandre Meneghini

Reuters, de São Paulo

A safra de café do Brasil deve aumentar 14% em 2026/27, para um recorde de 71,9 milhões de sacas, impulsionando um salto de 30% nas exportações após anos de produção abaixo do potencial, segundo relatório do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

A colheita brasileira no ciclo 2026/27 (julho-junho) deve avançar com impulso da produção de café arábica, cuja safra deve crescer 25% no período, diante da bienalidade positiva, combinada a condições climáticas favoráveis nas principais regiões produtoras e investimentos após anos de preços altos.

Chuvas suficientes durante o período de florada em 2025 e maior regularidade hídrica no início de 2026 garantiram bom desenvolvimento das lavouras, contribuindo para a perspectiva de alta produtividade, disse o USDA. 

Além disso, preços internacionais mais elevados estimularam a expansão de área plantada e maior investimento em manejo, incluindo o uso de tecnologias que aumentam a densidade de plantio por hectare.

A produção de café arábica do Brasil é estimada em 47,5 milhões de sacas em 2026/27, e a de canéfora (robusta e conilon) está projetada em 24,4 milhões de sacas – ligeiramente abaixo das 25 milhões de 2025/26, reflexo, segundo o USDA, dos impactos pontuais de clima mais frio e chuvas excessivas em algumas regiões produtoras após um ano anterior de alta produtividade.    

Outras instituições, como a estatal Conab, e analistas privados também têm afirmado que a produção brasileira será a maior da história.

Exportações

No comércio exterior, prevê-se exportações brasileiras de cerca de 49 milhões de sacas em 2026/27, ante 37,8 milhões no ciclo anterior, refletindo a maior disponibilidade do grão com a safra volumosa. 

Apesar da previsão, as vendas externas poderiam ser ainda maiores, não fossem os estoques baixos. O relatório apontou que as exportações têm sido limitadas no início de 2026 por conta desse limite de estoque, resultado de colheitas menores em anos recentes e de demanda externa forte.

A tendência das exportações, no entanto, é de recuperação ao longo do ano, com a aceleração da colheita a partir de meados de maio e maior entrada de produto no mercado no segundo semestre, disse o USDA.

No plano interno, o USDA apontou que o consumo de café no Brasil deve permanecer relativamente estável em 2026/27, estimado em 22,39 milhões de sacas –  um aumento de cerca de 0,5% em relação ao ciclo anterior, refletindo uma leve recuperação após retração recente causada por preços elevados ao consumidor.

Café & Preparos

Porque o futuro do café é gelado

Com o café gelado ganhando espaço como escolha favorita entre os consumidores mais jovens em todo o mundo, será que as bebidas quentes estão com os dias contados? Nesta reportagem, Tobias Pearce, editor da revista 5thWave, viajou até as fronteiras congeladas da inovação na indústria do café para descobrir como as bebidas geladas terão um impacto profundo no futuro do setor.

Por Tobias Pearce

Como a maior rede de cafeterias do mundo, com mais de 40 mil lojas, a Starbucks costuma ser vista como um termômetro das tendências globais do café. Mas para os fãs de clássicos quentes – como cappuccinos, lattes e flat whites –, uma nova onda fria vem surgindo.

Em agosto de 2021, o então CEO da Starbucks, Kevin Johnson, revelou que as vendas de bebidas frias tinham superado com folga as de bebidas quentes nas lojas próprias dos Estados Unidos, respondendo por 74% do total de bebidas vendidas no terceiro trimestre fiscal – uma tendência que só se consolidou desde então.

Em 2022, a Starbucks Coreia relatou que 76% de todas as bebidas vendidas foram frias, incluindo 60% durante o inverno de 2021–2022. “Na Europa, o café gelado é a categoria que mais cresce”, afirmou em 2023 Fernando Albarrán, gerente de marca da Starbucks Espanha.

Na região mais ampla do Oriente Médio e Norte da África (MENA), quase 40% de todas as bebidas da Starbucks são servidas frias, e esse número continua a subir.

Nos Estados Unidos, em particular, observou-se uma mudança significativa rumo ao café gelado e às bebidas frias na última década, impulsionada pela popularidade do cold brew e das versões ready-to-drink (RTD). Segundo pesquisa da World Coffee Portal, 42% dos consumidores de cafeterias norte-americanas entrevistados em 2024 compraram café gelado semanalmente, e 18% o fizeram diariamente. Quando convidados a escolher sua bebida favorita em uma cafeteria, 30% dos consumidores dos EUA citaram o café gelado – logo atrás do café puro, com 36%.

Em 2023, os Estados Unidos gastaram cerca de US$ 17,7 bilhões com cafés frios fora de casa – incluindo café gelado, cold brew e drinques de café gelados –, mais que o dobro dos US$ 8,5 bilhões registrados em 2016, segundo a consultoria de food service Technomic.

“Hoje, o RTD é o segmento mais empolgante da indústria do café”, diz Todd Carmichael, fundador visionário da La Colombe Coffee Roasters e inovador em cafés gelados, que percebeu a chegada dessa nova era há mais de uma década. “Quando fundei a La Colombe, em 1994, todo mundo achou que eu estava arruinando a minha vida!”, lembra Carmichael. Trinta anos depois, ele colhe uma fortuna milionária – em grande parte graças ao boom do café gelado que ele ajudou a provocar com o lançamento do cold brew nos Estados Unidos.

“Fui o primeiro cara a fazer cold brew e vendê-lo comercialmente”, recorda. “Lembro de ter enviado umas cinco caixas para uma loja da Whole Foods perto de casa – foi o primeiro cold brew vendido na América. Quando, em poucos dias, o lote acabou, percebi que não seria o único nesse mercado.”

A La Colombe também foi pioneira no latte ready-to-drink, lançado em 2017. “Sabíamos que o leite texturizado seria tendência, e eu queria pegar o cardápio de uma cafeteria e transformá-lo em algo portátil – cappuccinos, lattes, americanos, todos eles.”

Sobre o sucesso comercial das bebidas frias, Carmichael fornece um dado impressionante: “Antes do draft latte [latte tirado sob pressão, criado pela La Colombe] eu diria que a La Colombe valia uns US$ 75 milhões. Alguns anos depois, a oferta foi de US$ 900 milhões – isso foi o que o draft latte trouxe.”

A intuição de Carmichael de que o café gelado viraria um sucesso nos Estados Unidos estava correta. Em julho de 2023, a Keurig Dr Pepper – parceria da JAB Holding criada para impulsionar o café nas categorias de energéticos e refrigerantes – adquiriu uma participação minoritária de US$ 300 milhões na La Colombe, em um acordo que incluía licenciamento de longo prazo para produtos RTD e cápsulas. Menos de seis meses depois, a empresa foi comprada pela gigante americana de laticínios Chobani por US$ 900 milhões.

Nesse mesmo ano, a Westrock Coffee inaugurou em Conway, no Arkansas, uma fábrica de US$ 315 milhões dedicada à produção de café pronto para beber – a maior do tipo no mundo, segundo relatos.

Como observou Nick Stone, fundador da Bluestone Lane, em sua participação no programa Gordon Ramsay’s Food Stars, em 2023: “Se você não tem bebidas frias, está perdendo uma grande oportunidade.”

Efeito bola de neve

As redes sociais desempenharam um papel central na promoção do café gelado entre novos públicos ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, a estrela da internet Emma Chamberlain construiu um império de US$ 22 milhões com sua marca Chamberlain Coffee, impulsionado, sobretudo, pelo enorme apelo do café gelado entre seus 12,1 milhões de assinantes no YouTube.

Enquanto isso, o TikTok já acumula mais de 244 milhões de vídeos sobre café gelado, exaltando as virtudes de tendências virais como café gelado com água de coco, latte gelado de pistache e Biscoff iced coffee.

Mas as bebidas geladas vão muito além de um simples deleite visual para smartphones. Na verdade, essa “compartilhabilidade” está enraizada em uma tendência mais ampla de indulgência entre os consumidores da geração Z, observa Ahmed Mahla, torrefador-chefe do Spicekix Coffee Lab, torrefação de cafés especiais sediada em Roterdã, na Holanda. “Um dos principais motivadores para os jovens consumidores de café é o que chamo de ‘momento de micro-luxo’. Eles podem não ter condições de comprar uma casa ou um carro novo, mas querem se permitir uma bebida especial”, diz Mahla.

A pesquisa da World Coffee Portal também informa que 49% dos líderes da indústria europeia entrevistados em 2025 identificaram o café gelado como o produto com maior potencial de crescimento em seus mercados de cafeterias – e 9% afirmaram que ele possui “potencial máximo”. “Essa bebida social faz parte de um ritual, em que as pessoas querem ver o barista preparar o pedido passo a passo, não apenas apertar um botão. Sim, elas pagam de 8 a 10 euros, mas não é só pela bebida – é por essa experiência de micro-luxo”, completa Mahla.

Um vento que sopra do Leste

Do tradicional café vietnamita à espuma fria e à febre do dalgona coffee, muitas tendências de bebidas geladas nasceram na Ásia – com China, Coreia do Sul e Japão atuando como verdadeiros incubadores de inovação no café frio.

Em 2022, o CEO da Starbucks Coreia, Son Jung-hyun, falou em uma “nova potência das bebidas geladas”, extremamente popular entre consumidores millennials e da geração Z. Naquele ano, o vanilla cream iced coffee [espresso, leite cremoso e toque de baunilha] e o cold brew registraram crescimento de mais de 40% nas vendas da Starbucks Coreia. As infusões geladas também tiveram forte demanda – o aurora chamomile relaxer [chá gelado sazonal, de camomila e frutas] vendeu 10 milhões de copos em dois anos.

Atualmente, tendências como o café infusionado com frutas dominam as redes sociais em todo o planeta. Na China, as redes M Stand e Seesaw Coffee oferecem linhas populares de café com polpa de frutas e café infusionado com grapefruit. A mesma coisa acontece com as redes indonésias Janji Jiwa e Kopi Kenangan, que têm cardápios extensos de cafés infusionados com frutas.

Na ponta mais curiosa desse espectro gelado, o latte gelado com cebolinha é a tendência mais recente na China – dados da World Coffee Portal indicam que mais de 60% dos consumidores do país compram café gelado ao menos uma vez por semana.

Essas bebidas especiais são apenas a ponta do iceberg de uma categoria que há muito domina as vendas das redes de cafeterias em todo o leste asiático. Na Flash Coffee, que opera 60 lojas na Indonésia, cerca de 90% de todas as bebidas vendidas são servidas frias ou geladas, e quase metade do cardápio de cafés está disponível somente na versão gelada.

O CEO da empresa, Bardon Matthew, atua na indústria indonésia de café há mais de 20 anos. Começou a carreira como barista da Starbucks na Indonésia e depois ocupou cargos de gerente regional na Starbucks e na Krispy Kreme, na Malásia. Recentemente, foi vice-presidente de operações da Fore Coffee, onde, como no restante do mercado, as vendas de cafés gelados também predominavam. “Na Fore Coffee, era bem parecido – provavelmente 85% das bebidas eram geladas”, revela Matthew.

“Em um mercado tropical como o indonésio, as bebidas geladas são favoritas o ano inteiro”, conta Tempest Larrichia, diretora de marketing da Flash Coffee. “Diferentemente dos mercados em países de clima temperado, onde a demanda varia conforme as estações, nossas vendas de bebidas frias permanecem altas o tempo todo. Há um pequeno aumento apenas em períodos muito quentes e secos ou em datas festivas, quando lançamos edições limitadas com sabores refrescantes, como nossos drinques de coco para o verão de 2024”, completa.

O sabor do mês?

Seja misturando frutas frescas, álcool ou água tônica, o café gelado abre espaço para uma experimentação de sabores impossível nas preparações quentes convencionais. Em abril de 2025, a competição Lavazza Barista Challenge reuniu 17 baristas e mixologistas de diversos países, desafiando-os a criar, exclusivamente, bebidas frias tendo como base o tradicional espresso.

A bebida vencedora, criada pelo grego George Nikolopoulos, combinava xarope de laranja e tomilho com licor de cereja e vermute, demonstrando o enorme potencial da mixologia no segmento de cafés gelados. “As bebidas frias oferecem muito mais possibilidades: dá para adicionar sabores como manga, morango ou framboesa ao matcha latte, por exemplo. Chai, chás gelados e coquetéis também são mais fáceis de preparar frios. Já com bebidas quentes, geralmente é só o latte”, explica Vicky Ceulemans, fundadora da Bodhi Drinks, fornecedora holandesa de chás, matcha e chai premium.

No Reino Unido, onde o clima frio e úmido prevalece na maior parte do ano, as vendas de bebidas geladas sempre dependeram dos meses mais quentes, entre maio e setembro. Embora o café com gelo ainda não tenha alcançado a popularidade que tem nos EUA, na China ou na Coreia do Sul, a categoria fria está se tornando rapidamente um item essencial para as cafeterias britânicas.

A rede Caffè Nero, que opera mais de 630 lojas no país, mostra como o café gelado deixou de ser apenas uma campanha sazonal de verão para representar 10% do total das vendas de bebidas. “Essa categoria cresceu significativamente nos últimos anos”, afirma o CEO da Caffè Nero, Will Stratton-Morris. “A popularidade do café gelado fez com que ele deixasse de ser um item de verão e se tornasse presença permanente no nosso cardápio o ano todo.”

Para Stratton-Morris, “não há dúvida” de que o café gelado já é a norma para muitos clientes, especialmente os da geração Z e menores de 30 anos. “Saímos na frente com o latte gelado de pistache. Ele foi lançado por tempo limitado, mas fez tanto sucesso que hoje está incorporado ao nosso menu anual”, afirma.

O grupo Caffè Nero também vem surfando essa onda gelada. Em fevereiro de 2024, a rede Coffee#1, com sede em Cardiff, capital do País de Gales (Reino Unido), comemorou o sucesso das bebidas frias, que aumentaram o tíquete médio e impulsionaram em 19% o crescimento semestral das vendas, alcançando £29,5 milhões (US$ 37,3 milhões).

Em outubro de 2024, a Greggs, rede britânica de padarias de preço acessível, atribuiu 10,3% do crescimento em suas vendas do terceiro trimestre à sua linha de bebidas geladas. Da mesma maneira, a rede especializada em robusta especial Black Sheep Coffee e a americana Blank Street colocaram os cafés gelados no centro de suas campanhas no Reino Unido, do início da primavera até o fim do outono, e seguem promovendo essas bebidas até mesmo durante o inverno.

Dados do World Coffee Portal mostram que o gasto médio com bebidas frias em cafeterias do Reino Unido subiu de £3,88 para £3,99 entre 2023 e 2024, o que reforça a disposição dos consumidores britânicos em reservar gastos para bebidas geladas indulgentes. O estudo também destaca a importância dos jovens na expansão da categoria: 66% dos consumidores britânicos com até 35 anos afirmam comprar uma bebida gelada ao menos uma vez por semana.

O conforto do cold brew

Em um mercado globalizado de café, onde os consumidores parecem já ter visto de tudo, o cold brew surge como ponte entre os puristas do café especial e uma nova onda de interesse por adição de sabores. Mas, segundo Todd Carmichael, fundador da La Colombe, embora o cold brew tenha um potencial enorme, a indústria do café ainda não explorou devidamente o que ele tem a oferecer. “Atualmente, ainda vivemos o que chamo de ‘cold brew 1.0’ – extrações básicas, perfis genéricos e pouca diferenciação. É praticamente o mesmo produto que bebíamos há dez anos, só que em outro recipiente. Mas o cold brew é um formato poderoso: limpo, intenso, de baixa acidez e naturalmente propício a inovações funcionais, complexidade de sabor e novos sistemas de preparo.”

Mas será que o café especial, com seu foco em origem e terroir, consegue dialogar com essa nova geração de bebidas aromatizadas e geladas? A julgar pelo debate recente sobre cofermentação, a relação tende a ser complexa. Mesmo o cold brew, que costuma ser uma interseção entre o café especial e as bebidas indulgentes, não escapa das críticas. “Falando honestamente, o cold brew é muito genérico – parece mais uma substância semelhante à cerveja”, disse o lendário especialista George Howell à 5thWave, em 2023. “Não reflete o terroir nem as nuances do grão, e ainda o vendem com ‘baixa acidez’. Tente imaginar um vinho sem acidez, ou um morango sem acidez. É brincadeira!”, exclama.

Ainda assim, é impossível negar o enorme potencial da categoria, tanto para os puristas quanto para os inovadores. Em entrevista à 5thWave, em março de 2025, a barista e influenciadora britânica Celeste Wong expressou sua esperança de que o café especial se torne mais acessível e experimental. “O café especial sempre foi criticado por ser esnobe ou elitista – aquele barista clássico que diz que você não deve colocar açúcar no café ou que só serve o café puro ou com leite. Eu comecei a pensar em outras perspectivas, adicionando novos sabores”, contou ela, ao falar sobre seu novo livro, Coffee Creations.

Essa também é a visão de futuro que Todd Carmichael quer abraçar. “Estou realmente empolgado com o cold brew do futuro, um ponto de encontro entre inovação e propósito. Falo de integrar novos métodos de preparo, cascatas de bolhas de gás que vão além da estética, tecnologias para adoçantes naturais, infusões focadas em sabor e protocolos aprimorados de extração. Há muito espaço a ser ocupado. Falta alguém dar o próximo passo e construir o ‘cold brew 2.0’. Penso nisso todos os dias”, afirma.

Café: mais descolado do que nunca

Com um potencial ilimitado para experimentação de sabores e enorme popularidade entre a nova geração de consumidores de café, o café gelado é a nova fronteira da inovação em bebidas – um território que a indústria do café está apenas começando a explorar.

Seja em frapês, lattes gelados, matcha, bubble tea, cafés com infusão de frutas ou coquetéis servidos em redes de cafeterias, estabelecimentos independentes ou em latas de RTD, o café gelado está em toda parte. Para os negócios no setor que buscam sucesso a longo prazo, a regra é clara: vá de gelado ou vá pra casa.

Texto originalmente publicado na edição #90 (dezembro, janeiro e fevereiro de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Tobias Pearce (5THWAVE)

Café & Preparos

Método feito em titânio promete versatilidade na xícara

O Tinto é um novo sistema de café filtrado em titânio que aposta na versatilidade como principal diferencial. Lançado na plataforma Kickstarter a US$ 199 — valor do kit que inclui dripper, discos, bandeja de serviço e haste para mexer a xícara, todos em titânio —, o modelo ultraleve é fabricado com 99,9% de titânio de grau aeroespacial e adota um sistema de discos intercambiáveis na base, com furos de 0,2 mm, 0,5 mm e 0,8 mm, que permitem controlar a vazão da água de acordo com o perfil de torra e o resultado desejado na xícara.

De design modular, o Tinto também pode ser usado sem filtro de papel, o que favorece maior passagem de óleos e uma bebida mais encorpada, próxima ao estilo da prensa francesa. A campanha já superou em mais de cinco vezes a meta inicial, e as entregas estão previstas para abril deste ano, sinalizando o interesse do mercado por métodos de preparo que combinam controle técnico, leveza e design.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Café & Preparos

Bebida milenar: a Espresso provou chás japoneses

A cultura do chá no Japão começou muito antes do Brasil ser chamado de Brasil. Segundo a história, foi por meados do século X que monges japoneses viajaram à China para aprender sobre zen budismo. Na jornada, repararam que os monges chineses meditavam por horas e horas sem se cansarem e, curiosamente, ao lado deles, havia sempre uma xícara com um líquido armazenado, feito a partir de chá verde em pó. A partir daí, os monges japoneses retornaram ao Japão carregando sementes de Camellia sinensis para serem cultivadas no país e, com isso, propagaram a cultura do chá.

Até os dias atuais, o chá verde é o tipo mais popular no Japão, tanto em produção quanto em consumo – além de ser um elemento da cultura japonesa associado à sua identidade e tradição. Ao longo dos anos, o país desenvolveu diversas técnicas de produção, cultivares adequadas, máquinas e equipamentos específicos que resultaram em diferentes tipos de chá verde. De acordo com a Global Japanese Tea Association, atualmente o país é o oitavo maior produtor de chá, com uma produção anual estimada em 89 mil toneladas. Mas, considerando a produção de chá verde, o Japão é o terceiro maior produtor.

A Espresso provou três tipos de chás verdes japoneses, produzidos na província de Ibaraki, e um matcha cultivado em Kyoto. A degustação aconteceu na Mori Chazeria (rua Coronel Oscar Porto, 267 – Paraíso – São Paulo), e o preparo das bebidas foi feito pela proprietária Patrícia Akemi. A especialista em chás japoneses, Paula Braga Batista, também foi convidada para participar da experiência. Confira nossas anotações.

Kabusecha

Chá verde especial. Em sua produção, a planta ficou mais tempo sob cobertura antes de ser colhida, o que propicia características como dulçor e umami. O chá foi preparado com água a 75°C e menos de dois minutos de infusão.

Visual limpo, translúcido
Aroma herbáceo, doce
Sabor refrescante
Corpo leve
Finalização prolongada, agradável
A redação achou um chá muito leve e fresco, agradável para qualquer hora do dia

Genmaicha

Blend de chá verde japonês especial com arroz tostado. Uma das histórias por trás da sua origem é a de que este chá surgiu como solução econômica para tornar o chá verde mais acessível em períodos de escassez. Foi feito a 85°C, com infusão de dois minutos.

Visual turvo, com borra do chá no fundo da xícara
Aroma arroz, pipoca
Sabor herbáceo, arroz, alga
Corpo médio
Finalização presente
A redação achou um chá com sabor mais intenso. As notas foram ressaltadas conforme a temperatura
diminuiu

Kuki Hojicha

Chá verde tostado. Diferentemente do kabusecha, não é feito com as folhas, mas com os talos, uma maneira de aproveitar melhor a planta como um todo. Mas não é qualquer talo – somente os das partes mais nobres da planta. Foi feito com água a 90°C e infusão de cinco minutos.

Visual alaranjado, translúcido
Aroma tostado, amadeirado
Sabor especiarias, castanha, picante
Corpo médio
Finalização presente, picante
A redação achou apesar do sabor mais presente, ainda é um chá leve e fácil de tomar

Matcha

É um chá verde em pó. As folhas são cultivadas delicadamente sob cobertura e, depois de colhidas, são moídas em um pó muito fino. Por não ser uma infusão, há mais concentração de cafeína. A bebida levou 2 g de matcha para 80 ml de água, a 70°C.

Visual turvo, verde intenso, presença de espuma
Aroma vegetal, verde
Sabor adstringente
Corpo alto, encorpado
Finalização presente
A redação achou gostoso e delicado. Por não ser uma infusão, foi o chá mais encorpado da degustação

Made in Brazil

Chá preto da variedade assamica cultivado pelo Sítio Shimada em Registro, interior de São Paulo. Preparado com a água a 95°C, com dois minutos de infusão.

Visual alaranjado forte, turvo
Aroma ameixa, fruta seca, doçura do tomate
Sabor doce, frutado
Corpo médio
Finalização doce, agradável
A redação achou um chá redondo, de sabor mais complexo. Diferentemente do verde, não tem notas herbais. Provamos também com leite, o que resultou em uma bebida doce e cremosa

Texto originalmente publicado na edição #88 (junho, julho, agosto de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Gabriela Kaneto • FOTO Agência Ophelia

Café & PreparosMercado

Hario lança dripper com 72 ranhuras ultrafinas

A japonesa Hario, referência mundial no desenvolvimento do método v60, acaba de lançar o v60 Dripper NEO, uma releitura tecnológica do seu clássico coador voltada para maior controle da extração.

Resultado de dois anos de pesquisas, o novo modelo — disponível em versões para duas e quatro xícaras — traz uma nova estrutura espiral, com 72 ranhuras ultrafinas, que conduz a água de forma mais uniforme pelas paredes do dripper. Na base, nove nervuras convergentes aceleram o fluxo, favorecendo uma extração mais rápida e reduzindo o risco de superextração. Na xícara, a promessa é de um café mais limpo e doce, com menor amargor.

Fabricado em resina Tritan, material leve, resistente e de alta transparência, o equipamento também busca melhorar a retenção de calor e a estabilidade térmica durante o preparo. Compatível com todas as bases v60 Switch, o lançamento está à venda no site global da marca por US$ 23,50 (duas xícaras) e US$ 26,45 (quatro xícaras).

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Café & Preparos

“A cafeicultura é política: a voz da base pode mudar decisões globais”, diz Adriana Mejía, da GCP

Em seu segundo ano à frente da Plataforma Global do Café, Adriana Mejía defende que só haverá sustentabilidade de fato quando renda digna, governança inclusiva e agricultura regenerativa alcançarem milhões de produtores

Por Cristiana Couto

Da quarta geração de uma família de cafeicultores de Manizales, no eixo cafeeiro da Colômbia, Adriana Mejía Cuartas – primeira mulher a presidir o conselho da Plataforma Global do Café – construiu uma carreira discreta em exposição, mas decisiva na defesa de um futuro sustentável para todos os produtores.

Criada num território marcado pela cafeicultura de sobrevivência, pela tradição e pela forte presença da Federação Nacional de Cafeicultores (FNC), Adriana só compreendeu a complexidade do setor quando, no decorrer da carreira, passou a percorrer regiões produtoras, lutar pela dignidade financeira de cafeicultores em países mais pobres e participar de debates globais sobre os rumos da cadeia.

“As conversas em casa eram só sobre café, para mim, um produto vulnerável, exposto ao sol e à chuva. Só depois entendi em que consistia o imaginário cafeeiro”, lembra.

Formada em administração de empresas, com mestrado na Espanha, ela acumulou experiência internacional ao representar a FNC na Europa e, depois, ao trabalhar na UTZ Certified (hoje incorporada à Rainforest Alliance), onde acompanhou a evolução dos padrões de sustentabilidade e o papel das certificações na transformação da cadeia de valor do café.

Sua experiência aumentou em 2017, quando criou, na Holanda, a empresa Herencia – Value Your Legacy, que articula investimentos de impacto, ESG e inovação nas cadeias de café, cacau e óleo de palma na América Latina e na África. À frente do conselho da Plataforma Global do Café desde 2024, e ao lado de mais de 170 membros, Adriana busca reduzir até 2030 a lacuna de renda de mais de um milhão de pequenos produtores em mais de dez países. “O desafio é superar ilhas de sustentabilidade e alcançar um oceano em que a regra seja produzir café sob condições dignas, resilientes e livres de desmatamento – e que isso seja um bom negócio para todos”, acredita.

A seguir, a entrevista, realizada por videoconferência diretamente da Colômbia.

Você vem de uma família de cafeicultores. Como isso moldou sua visão sobre sustentabilidade e governança no café?

Em casa, a palavra sustentabilidade nem existia, mas estava presente em tudo o que meus pais faziam. O café nunca foi altamente rentável, mas nos deu educação, pertencimento e amor pela terra.

Meu pai é agrônomo e tem a sabedoria de quem valoriza a terra e a tradição. Minha mãe, María Mercedes Cuartas, foi a primeira mulher a representar sua região no Congresso Nacional de Cafeicultores, [a instância deliberativa máxima do setor no país]. Hoje, aos 75 anos, ela continua atuante no comitê regional da FNC, e isso me ensinou que a cafeicultura é profundamente política: a voz da base pode mudar decisões nacionais e até globais.

Quem produz café sabe que sustentabilidade não é discurso, selo ou marketing. Hoje, não se trata de “sustentar”, mas de regenerar – garantir que famílias produtoras continuem a produzir café pelos próximos 20, 30 anos.

Por isso, minha visão de sustentabilidade e governança coloca o produtor e sua comunidade no centro das ações. A pergunta-chave é: que modelo de negócio, de instituições e de alianças permitirá que a próxima geração continue a cuidar da terra e produzir o café que queremos consumir?

Você foi a primeira mulher convidada a participar da eleição para a diretoria geral da Federação Nacional de Cafeicultores da Colômbia (FNC) e a primeira diretora para a Europa, além de ter sido a primeira mulher a integrar o conselho da antiga UTZ. Que desafios enfrentou e como vê a presença das mulheres em cargos de liderança na cafeicultura?

Em um setor historicamente masculino, meu primeiro desafio foi simbólico: que deixassem de me ver como “a filha de María Mercedes” ou “a jovem do eixo cafeeiro” e passassem a enxergar uma profissional com critério próprio, conhecimento de origem e capacidade de representar o setor.

Quando concorri à direção geral da Federação, viajei pelas 15 regiões cafeeiras conversando com comitês, líderes, produtores e governos. Muitas vezes, a primeira reação era de surpresa. Isso me ensinou a transformar o ceticismo em diálogo e o preconceito em oportunidade.

Ser a primeira não foi fácil, e percebi a dimensão disso quando ouvi de uma cafeicultora: “Obrigada por mostrar às nossas meninas que elas também podem sonhar, estudar e liderar mudanças.”

Sobre a presença feminina, avançamos, mas ainda pouco. Há mais mulheres em posições importantes no setor mas, quando olhamos para a propriedade da terra, o acesso ao crédito e a voz nas negociações, estamos longe da equidade.

Precisamos mudar as regras do jogo para que mulheres e homens tenham as mesmas oportunidades de decidir o futuro do café. Liderar exige preparação, mas também exige um setor disposto a abrir espaço e criar oportunidades realmente inclusivas.

Em março de 2024 você assumiu a presidência do conselho da GCP. O que conseguiu implementar neste primeiro ciclo de mandato?

Neste primeiro ciclo, buscamos tornar a sustentabilidade algo concreto para os cafeicultores. Não medimos sucesso pelo número de projetos, mas pela redução da lacuna rumo a uma renda digna e pela regeneração das paisagens cafeeiras.

A Meta GCP 2030 foi convertida em uma rota operacional: transformar a cafeicultura e reduzir em ao menos 25% a lacuna de renda digna para mais de um milhão de pequenos produtores em mais de dez países. Já temos ações estruturadas no Brasil, Honduras, Indonésia, Quênia, Uganda e Vietnã, onde cada plataforma nacional define metas de impacto alinhadas às políticas públicas e às possibilidades de investimentos privados.

Em 2025, lançamos o RegenCoffee, guia global de agricultura regenerativa da GCP, que estabelece uma linguagem comum, princípios e indicadores para restaurar solos, proteger a água e a biodiversidade, aumentar a resiliência climática e melhorar a vida dos produtores. A plataforma no Brasil foi pioneira em traduzir os sete elementos de implementação da agricultura regenerativa nas fazendas, integrando-os ao Plano Plataforma Global do Café Brasil 2030, que busca aumentar a resiliência e a prosperidade de 95 mil cafeicultores até 2030. O aprendizado brasileiro orienta o nosso trabalho em outras origens.

Reforçamos ainda a sustentabilidade setorial com o Código de Referência de Sustentabilidade do Café, o Mecanismo de Equivalência e marcos de dados usados para alinhar programas corporativos, padrões e plataformas nacionais, reduzindo exigências duplicadas e trazendo mais clareza ao produtor. Em países como o Brasil, estudos sobre renda e projetos derivados desses diagnósticos já orientam investimentos, serviços de extensão rural e compras responsáveis.

Em resumo, aproximamos discurso e prática para fazer da cafeicultura um bom negócio para quem produz.

Quais são os principais gargalos para alcançar a Meta GCP 2030?

O primeiro é a escala de financiamento. Para avançar na agenda de renda digna, precisamos de bilhões de dólares em investimentos públicos, privados e filantrópicos, com metas claras e coordenação. Recursos existem, mas estão dispersos em projetos pequenos e pouco conectados entre si.

O segundo ponto crítico é o alinhamento entre países e empresas. O desafio é manter uma ambição global sem perder as relevâncias locais – não se trata de copiar e colar soluções, mas de transferir aprendizagens, adaptando tecnologias e modelos ao contexto de cada país.

O terceiro gargalo está na capacidade de medir e obter dados com transparência. Precisamos de informação clara e confiável, com sistemas de monitoramento que não sobrecarreguem o produtor e que permitam comparar avanços entre países e regiões.

O quarto ponto é a governança inclusiva. Se as decisões sobre prioridades e investimentos não incorporarem as vozes de organizações e produtores, corremos o risco de criar soluções elegantes no PowerPoint, mas irrelevantes no campo.

A GCP não executa projetos diretamente – ela é uma arquiteta de alinhamento, cria uma linguagem comum. Nossa tarefa é usar essa posição para enfrentar esses gargalos com diálogo e com a participação do maior número possível de atores.

Como você avalia o atual cenário global de cafés sustentáveis?

Há várias maneiras de olhar para isso. Certificações e padrões de boas práticas agrícolas foram uma base importante para globalizar conceitos, criar consciência e estabelecer um idioma comum para o setor.

Mas vivemos um paradoxo: nunca se falou tanto de sustentabilidade, ESG, neutralidade climática, novas regulações, desmatamento zero e ciência do clima aplicada à cafeicultura – e, ao mesmo tempo, a vulnerabilidade climática e a fragilidade econômica de milhões de pequenos cafeicultores nunca foram tão evidentes. Precisamos ir além: boas práticas precisam cobrir toda a cadeia de suprimentos e todos os atores da cadeia precisam ser sustentáveis. Além disso, precisamos escalar essas ambições e garantir que elas se traduzam em resultados concretos na vida do produtor.

Que regiões produtoras no mundo mais precisam de apoio na transição para práticas sustentáveis e por quê?

Eu as agrupo em três grandes corredores estratégicos. O primeiro abrange boa parte da África subsaariana, onde há baixa produtividade, infraestrutura limitada, pouco acesso ao crédito e alta exposição à variabilidade climática. O potencial é enorme, mas os recursos financeiros precisam ser desenhados respeitando os ciclos de produtividade, indo além de soluções que ofereçam retorno apenas em um ano. Também é essencial fortalecer as instituições que prestam serviços aos cafeicultores, incluindo inclusão digital e financeira, para atrair as novas gerações.

O segundo corredor inclui a América Central e o Caribe, regiões com alta migração rural, propriedades pequenas e forte exposição a furacões e secas. Nelas, as ações sustentáveis precisam combinar adaptação climática, inclusão financeira e mecanismos atrativos para jovens e mulheres que estão herdando a terra.

O terceiro corredor são as fronteiras agrícolas de canéforas, como Brasil, Vietnã e Indonésia, com alto risco de desmatamento, degradação do solo e conflitos socioambientais. A expansão dessas áreas precisa ser sólida e de incentivos claros para manter sistemas agroflorestais e promover a cafeicultura regenerativa. Nesse sentido, a liderança do Brasil tem sido importante.

Falamos de liderança adaptativa: resolver desafios técnicos – como extensão rural de qualidade, crédito adequado e acesso a dados de clima e mercado – e, ao mesmo tempo, enfrentar desafios adaptativos, redistribuindo poder nas cadeias de fornecimento e revendo incentivos que só premiam o curto prazo.

Além do Brasil, que é uma liderança muito importante, Vietnã e Colômbia têm avançado nesses temas. Mas esses avanços não são “receitas” exportáveis: cada país é um laboratório vivo, do qual outros podem aprender, não copiando, e sim adaptando.

Você acredita que governos e a indústria do café podem “equilibrar” essas regiões produtoras mais pobres?

Não só acredito como já vivi muitos projetos assim. Quando há cooperação e transferência estruturada de conhecimento, o aprendizado é rápido, erros são evitados e, em pouco tempo, é possível alcançar resultados muito positivos.

É o que acontece com a GCP em países como Uganda, onde vários atores e governos locais participam. Não se trata de substituir o governo, mas de apoiar a construção de políticas públicas, investimentos em infraestrutura e gestão hídrica que permitam às famílias continuar produzindo café.

Se somarmos ainda a experiência da sociedade civil e de grandes organizações ou ONGs que oferecem treinamentos, capacitações e métricas, tudo isso ajudará a transferir conhecimento para regiões que podem se beneficiar do que já foi feito em outros lugares.

Modelos de cofinanciamento no Brasil, com políticas públicas claras, servem como referência para países africanos. Na Colômbia, o Fundo Nacional do Café oferece uma “garantia de compra” que considero um dos maiores ativos do país: qualquer cafeicultor, a qualquer hora, pode vender seu café por esse mecanismo, e a FNC tem a obrigação de comprá-lo ao preço de referência do dia. Isso oferece transparência de preço e de mercado – algo que ainda não é realidade em muitos países africanos ou no México, por exemplo.

Que barreiras culturais e estruturais dificultam a adoção de práticas sustentáveis em países produtores?

Identificamos quatro barreiras recorrentes. A primeira é o olhar de curto prazo. Quando uma família cafeicultora não tem renda estável, poupança ou seguro, é difícil pedir a ela que invista em práticas cujo benefício só virá cinco ou dez anos depois. A pobreza é, em si, uma barreira à sustentabilidade.

A segunda são as assimetrias de poder e de informação: o produtor nem sempre sabe como se forma o preço do café, o que o mercado de fato valoriza ou quais riscos climáticos está enfrentando na sua própria região. Essas lacunas de informação e transparência limitam a adoção de novas práticas.

A terceira barreira são instituições que falham ou que não se coordenam. Quando isso acontece, o produtor recebe mensagens contraditórias e não constrói confiança no longo prazo. Por isso, as mensagens precisam ser coerentes, corretas e demonstráveis, e as instituições, críveis.

Por fim, há as questões culturais de que falamos – decisões concentradas em homens e mulheres e jovens cujas vozes não são ouvidas. Por isso, é fundamental falar em “arquitetura da sustentabilidade”: não bastam boas práticas agronômicas, é preciso redesenhar o funcionamento das instituições e a forma como interesses diferentes podem se combinar para gerar mais impacto nessas regiões.

Apesar de avanços em compras responsáveis, a maior parte dos cerca de 12,5 milhões de produtores no mundo continua a viver perto ou abaixo da linha da pobreza. Como você analisa esse cenário?

Esse é o centro do grande desafio da cafeicultura. A cadeia do café tem sido capaz de gerar muito valor, mas não de distribuí-lo de forma justa. Estudos mostram que, mesmo quando o produtor cumpre critérios ambientais e sociais e é considerado “sustentável”, sua renda total continua abaixo de um nível de vida digno no seu contexto. Há também um risco desigualmente distribuído: clima, pragas, volatilidade de preços e aumento de custos recaem sobre quem tem menos capacidade de gerir esses fatores – o pequeno produtor. Se não encontrarmos mecanismos para compartilhar e assegurar esse risco, a pobreza continuará sendo estrutural.

Por fim, o poder de negociação limitado dos cafeicultores, que não têm informação de mercado ou voz na definição de seus parâmetros e contratos. Não se trata apenas de um problema moral, mas de desenho de sistema. A boa notícia é que os sistemas podem ser redesenhados, com alianças diferentes, novos modelos comerciais e métricas que coloquem renda e prosperidade do produtor no centro do debate.

Em que medida o “S” – trabalho justo e renda digna – do ESG tem sido incorporado na prática?

Durante muitos anos, o “E” de ambiente [environmental, em inglês] recebeu quase toda a atenção. Agora, o “S” começa a sair do discurso e entrar no desenho de modelos de negócio. A Meta 2030 da GCP, por exemplo, é explicitamente socioeconômica. E isso é apoiado pelo que chamamos de teoria de mudança, que conecta a prosperidade do produtor à sustentabilidade ambiental – porque não existe uma sem a outra.

No Brasil, iniciativas coletivas lideradas pela GCP com parceiros e organizações locais têm se concentrado no tema e, globalmente, cada vez mais empresas assumem compromissos com renda digna, salários justos e devida diligência em direitos humanos.

Não estamos ainda onde deveríamos, mas, pela primeira vez, a conversa dominante é sobre se o café permite uma vida digna para quem o produz. Isso é uma grande oportunidade para garantir que o que fazemos tenha impacto real para os produtores.

Como falamos, o Brasil avançou muito em sustentabilidade no café. Quais ações brasileiras mais se destacam diante das mudanças climáticas?

O Brasil entendeu algo fundamental: que, por ser grande, a sustentabilidade do café depende de uma arquitetura sólida entre políticas públicas e inovação produtiva – e isso vem sendo construído há anos. Há marcos ambientais sofisticados, como o Código Florestal e o Cadastro Ambiental Rural, que permitem compatibilizar produção e conservação.

Há também uma aposta consistente em agricultura de baixo carbono, boas práticas agrícolas, uso eficiente de insumos e, cada vez mais, sistemas agroflorestais, além de respostas estruturadas ao estresse hídrico.

Destaco ainda a capacidade de organização do setor, que consegue reunir diferentes atores para definir prioridades e construir políticas, e a vontade de inovar e medir. De estudos de renda a iniciativas de agricultura regenerativa, o país produz evidências que podem ser escaladas e adaptadas em outros contextos.

Também percebo que a cafeicultura no Brasil é, em geral, menos apegada à tradição do que em outros países, o que abre espaço para inovação constante, um dos fatores que explica, em parte, por que o Brasil é o maior produtor de café do mundo. O Brasil não é apenas um competidor, mas um parceiro estratégico para definir como pode ser uma cafeicultura sustentável em grande escala.

E quais dessas práticas podem servir de modelo para outros países?

A primeira é a agricultura regenerativa com enfoque prático. O trabalho da GCP no Brasil e de seus parceiros, ao definir elementos de agricultura regenerativa no café – desde cobertura do solo até diversificação e manejo da biodiversidade –, criou um marco claro que outros países podem adaptar às suas realidades. A segunda são os estudos de renda e o uso de dados para orientar a tomada de decisão – tanto de políticas públicas quanto de investimentos privados e compras responsáveis.

Também destaco a integração de padrões e o reconhecimento internacional. O fato de mecanismos brasileiros serem reconhecidos como equivalentes a marcos globais de sustentabilidade mostra um caminho importante para que outros países criem instrumentos próprios que também se conectem a essas referências. Em síntese, o Brasil tem muitas lições a oferecer.

Que mensagem você gostaria de dar aos produtores brasileiros que buscam alinhar qualidade, sustentabilidade e negócios de longo prazo?

Vocês já são uma referência mundial, e as decisões que tomam hoje estão definindo o padrão do que o mundo entende como café sustentável em grande escala.

A sustentabilidade não é um custo, mas um investimento em liberdade: liberdade para decidir o futuro da propriedade, negociar melhor e fazer com que a próxima geração veja no café uma oportunidade e um bom modelo de negócio. As práticas regenerativas, a adoção de tecnologias adequadas e a participação em plataformas coletivas são estratégias para ganhar poder de decisão.

Também é importante não caminhar sozinho. A agenda climática e regulatória é complexa demais para ser enfrentada de fazenda em fazenda. A força de vocês está na capacidade de organização – cooperativas, associações, plataformas –, que sempre dará vantagem competitiva e comparativa.

O futuro do café está sendo escrito – e, em boa medida, nas zonas cafeeiras do Brasil. Meu desejo é que essa história de liderança esteja sempre acompanhada de prosperidade para quem está no início da cadeia: as famílias produtoras. E, no Brasil, felizmente, isso já começa a ser uma realidade.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Divulgação

Café & Preparos

Parlamento Europeu aprova adiamento e simplificação da EUDR

Texto segue para aval do Conselho e deve ser publicado até o fim do ano

O Parlamento Europeu aprovou nesta quarta-feira (11) o adiamento e a simplificação de pontos-chave da Lei do Desmatamento da União Europeia (EUDR), que estabelece regras para garantir que produtos vendidos no bloco, como o café, não venham de áreas desmatadas. O texto, aprovado por 405 votos a 242, agora segue para endosso do Conselho e deve ser publicado no Jornal Oficial da UE até o fim do ano para entrar em vigor.

Pelo acordo, todas as empresas terão mais um ano para se adequar às exigências. Grandes operadores passarão a cumprir a lei a partir de 30 de dezembro de 2026, enquanto micro e pequenas empresas terão prazo até 30 de junho de 2027. O objetivo é garantir uma transição mais suave e permitir melhoras no sistema digital obrigatório para as declarações de devida diligência.

A revisão também simplifica exigências: pequenos operadores primários deverão apresentar apenas uma declaração simplificada, e só as empresas que colocam o produto no mercado europeu pela primeira vez serão responsáveis por enviar as declarações de conformidade. Produtos impressos, como livros e jornais, foram retirados do escopo do regulamento.

Para a relatora Christine Schneider (PPE, Alemanha), o acordo “mantém o coração da lei intacto”, ao mesmo tempo em que responde às preocupações de agricultores, empresas e governos sobre viabilidade prática e custos de implementação.

A Comissão Europeia deverá, até abril de 2026, apresentar um relatório avaliando o impacto da EUDR, especialmente sobre pequenos produtores e operadores — tema sensível para países exportadores como Brasil, Vietnã e Costa do Marfim.

Fonte: europarl.europa.eu

TEXTO Redação

Café & Preparos

Tarifa sobre o café solúvel brasileiro continua em 50%

A manutenção da sobretaxa sobre o café solúvel — apesar da isenção para o café verde anunciada por Trump — acende alerta no setor

A decisão do governo Donald Trump de zerar, na quinta (20), as tarifas adicionais de 40% impostas ao café brasileiro (e outros produtos) não incluiu o café solúvel. Para o produto, segue em vigor a sobretaxa de 40% somada à tarifa-base de 10% — um custo total de 50% que, segundo o setor, ameaça a posição histórica do Brasil no mercado norte-americano.

Em comunicado divulgado nesta sexta (21), a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) afirmou que “o mercado dos EUA é de vital importância estratégica para o Brasil” e chamou a atenção para um ponto considerado crítico: “A Abics alerta para o risco iminente de que o café solúvel brasileiro seja permanentemente substituído por produtos de outros destinos nas prateleiras dos supermercados americanos”.

A entidade reforça que, se isso ocorrer, “a recuperação futura será uma missão extremamente difícil, com perdas duradouras para toda a cadeia produtiva nacional, desde os cafeicultores até as indústrias e seus trabalhadores.”

Pela primeira vez na série histórica, os EUA deixaram de ser o principal destino do café solúvel brasileiro em outubro, cedendo lugar à Rússia. Desde agosto, início da vigência da tarifa extra, os embarques para o mercado americano caíram mais de 52% em volume.

A dimensão do mercado explica a preocupação. Em 2024, o Brasil respondeu por 38% das importações totais de solúvel dos EUA, um domínio construído ao longo de décadas. O país também representa cerca de 20% do volume total das exportações brasileiras de solúvel, gerando aproximadamente US$ 200 milhões por ano em receitas.

Com o café verde liberado das sobretaxas, mas o solúvel mantido em patamar elevado, o setor agora pressiona Brasília e Washington para uma negociação específica que evite o que classifica como um dano estrutural: perder, em poucos meses, um mercado conquistado ao longo de gerações.

TEXTO Redação