Personagens do Café

Quantas histórias podem ser contadas em 18 anos? Em comemoração ao aniversário da Espresso, a matéria de capa da edição #72 destaca alguns personagens que, assim como nós, tiveram suas trajetórias de vida marcadas pelo café. Mas os relatos vão muito além das páginas impressas. Por isso, dedicamos este espaço para contar outros depoimentos de pessoas que vivem pelo e para o café. Produtores, torrefadores, pesquisadores, consumidores… Se você também tem uma história marcada por este fruto que nos conecta, conte pra gente!

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Personagens

Silvia Oigman: “Como neurocientista, mergulhei no mundo lúdico do café”

Sou pesquisadora da Unidade Café e Cérebro no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Minha história profissional e afetiva com café começou durante o pós-doutorado, que teve como objetivo avaliar os efeitos do aroma do café no cérebro humano. Além de construir com a equipe o olfatômetro, dispositivo usado para levar os aromas até os voluntários dentro da ressonância magnética, e desenvolver o protocolo da pesquisa, fiquei responsável por escolher o café que seria usado nos experimentos. 

Nesse período mergulhei no mundo lúdico do café, fazendo visitas às fazendas, ganhando experiência na seleção dos grãos, em torra e métodos de preparo, aliando a ciência, a prática e meu cromatógrafo gasoso (olfato), que me ajuda muito no meu dia a dia do trabalho.

Desde 2015 me tornei a primeira empreendedora científica do IDOR, onde faço pesquisas aplicadas que buscam encontrar soluções inovadoras na área de saúde, contribuindo diretamente na qualidade de vida das pessoas, o que para mim é extremamente gratificante.

Silvia Oigman, neurociência no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) – Rio de Janeiro (RJ) @silvia_oigman

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Iandra Vilela: “Esse grão mudou radicalmente a minha vida profissional e faz eu me sentir plenamente realizada”

Sou natural de Ilicinea, no Sul de Minas, e sou formada em nutrição, área que atuei durante 10 anos. O meu envolvimento com o café foi através do meu esposo André. Depois que nos casamos, percebi que precisava de mais sentido na minha profissão. Parecia que estava estagnada. Foi quando meu esposo me fez a proposta de nos mudarmos para Três Pontas, sua terra natal, e ajudá-lo a gerenciar a pequena propriedade da família.

Me senti extremamente confusa, pensando em carreira já consolidada na nutrição e um novo desafio, mas quis arriscar para ver o que dava. Inicialmente, a ideia seria para atuar na parte administrativa, já que a propriedade estava um pouco abandonada, pois ele viajava muito a trabalho e sua irmã mora no exterior. Porém, antes de iniciar esse processo, fui atrás de informações sobre o café, afinal de contas, era um mundo totalmente novo pra mim.

Não sou de família de cafeicultores, mas tenho na lembrança que odiava tomar café na casa da minha tia. Então fui atrás de conhecimento. Fiz muitos cursos de classificação e degustação de café, mas quando fiz o curso de pós colheita, eu me encontrei. Comecei a observar os processos de pós colheita das fazendas e não entendia muito bem quando o café era descarregado no terreiro, as pessoas pisavam em cima dos grãos, tinha cachorro andando em cima dos lotes, etc. Estranhava aquilo tudo, pois o meu olhar era de nutricionista, eu sempre enxerguei o café como um alimento. Todo alimento deve ser processado dentro das normas básicas de higiene e segurança alimentar.

Foi então que tive a certeza que meu lugar era no terreiro. Precisava mudar algumas coisas para mudar a qualidade daquele café. Continuei a minha busca por mais informações e conhecimentos na área. Em 2017, tive a oportunidade de começar a trabalhar no departamento de cafés especiais e exportação da Cocatrel, onde, desde então, atuo no suporte de pós colheita e qualidade para os cooperados. Já em 2018, fiz o curso de Q-processing do CQI, onde tive uma visão ampliada dos processos de pós colheita.

Além do trabalho na cooperativa, continuo responsável pelo pós-colheita na nossa propriedade e em tudo que envolve o café. Sou extremamente apaixonada por esse mundo! Esse grão que mudou radicalmente a minha vida profissional e faz eu me sentir plenamente realizada. O café me trouxe muitos benefícios, mas sem dúvidas as experiências e as novas amizades que me proporcionou e me proporciona a cada dia é imensurável.

Iandra Mendes Vilela, pós colheita e qualidade na Cocatrel – Três Pontas (MG) @iandracoffee

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Abel Martins: “Como todo início difícil, este também foi meu caso”

Depois de nove anos na área de restaurante como ajudante de garçom, chegando até chefe de restaurante, resolvi parar tudo e recomeçar. Foi aí, então, que comecei a fazer um curso de técnico em eletrônica e, para fazer o estágio, fui parar na antiga empresa Libermac, antes na Paula Souza, em São Paulo, e, hoje, Pasquali Máquinas. Aprendi a trabalhar de técnico em máquinas de café espresso com meus amigos Rafael, Fernando e André da Nostro Café. E é isso que faço até hoje.

Em 2011 resolvi verificar se havia alguma chance de abrir meu próprio negócio. O início foi em minha casa, morava em São Mateus, Jardim Colonial, onde na laje de casa, com dois cavaletes e uma tábua de obra, colocava as máquinas em cima delas e ali fazia as manutenções. Iniciamos com dois equipamentos do modelo Jura Ena 3. Hoje temos cerca de 500 máquinas de diversos modelos e marcas.

Como todo início difícil, este também foi meu caso. Depois de dois anos nosso negócio deu um boom e começamos a alugar máquinas para os melhores cafés de São Paulo. Maravilha, estávamos no meio das pessoas mais conceituadas do café. Neste percurso passamos pelos bairros da Vila Formosa, Vila Matilde, Itaquera e hoje nos encontramos na região da Mooca.

As amizades são muitas, não tem como contar. Este ano, depois de completar 10 anos, mudamos nossa identidade visual que fora feita pelas mãos da minha esposa Márcia, companheira, ajudante e minha primeira técnica. Somos a Swiss Coffee Excelência em Cafés. Teria muito mais pra falar, mas vem tomar um café conosco que te conto.

Abel Martins, máquinas de café na Swiss Coffee Brasil – São Paulo (SP) @swisscoffeebrasil

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Daniele Alkmin: “Entendi a dor do produtor de ter um café de excelente qualidade e não ter acesso ao mercado”

Sou a quinta geração trabalhando com cafés. Formei em administração de empresas, fiz pós-graduação na FGV-SP e intercâmbio em Brighton (Reino Unido). Assim que me formei, trabalhei no aeroporto de Viracopos, em Campinas, e na sequência trabalhei por 10 anos na construção civil.

Em 2015 meu pai, Carlos Henrique Moreira Carvalho, me convidou para trabalhar com ele uma vez por semana para entender os negócios da nossa família. Foram dias maravilhosos ao lado dele indo para a fazenda de café.

Em 2016 fomos à feira SCA em Atlanta, nos Estados Unidos. Nessa feira conheci o universo dos cafés especiais e me apaixonei. Voltando, entendi a dor do produtor de ter um café de excelente qualidade e não ter acesso ao mercado que pague bem por esse produto. Percebi também a necessidade de me especializar.

Fiz Q-Grader na BSCA para saber o que produzimos e como direcionar os nossos lotes no mercado. Virei coffee lover, fiz diversos cursos. Em 2016 iniciamos os trabalhos de exportação e enviamos microlotes para o Canadá. Um ano depois, exportamos para os Estados Unidos e, em 2018, para a Austrália.

Em 2019 criamos a Agrorigem – The Coffee ID – uma startup incubada no Inatel com o objetivo de trazer inovação na comercialização de café especial. Atualmente sou CEO e co-fundadora desta plataforma digital multilateral com novas oportunidades de venda de café especial para o produtor. Faço parte de um grupo maravilhoso de Mulheres Empreendedoras do Café aqui em Santa Rita do Sapucaí. Somos unidas, nos impulsionamos e estamos animadíssimas na organização do nosso evento para a edição 2022.

Daniele Alkmin Carvalho Mohallem, produtora e exportadora – Santa Rita do Sapucaí (MG) @dani_alkmin @agrorigem

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Ali El-Khatib: “Aprendi com meus pais a moer para fazer o café à moda árabe das aldeias”

Minha origem no café vem desde 1960 na Fazenda Santa Luzia em Kaloré, Norte do Paraná. Lá, plantava, capinava, derriçava, colhia, secava no terreiro, recolhia na tulha e tudo mais. Em casa, em Jandaia do Sul, ajudava cortando lenha, acendendo fogo para torrar o café no roteador de bola. Aprendi com meus pais a moer para fazer o café à moda árabe das aldeias. Depois, a partir de 1966, já em Campinas, visitava com meu pai outro apaixonado pelo café, a Fazenda Santa Elisa, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). É claro que como de origem árabe, o café está em nosso DNA.

Sempre visitava eventos sobre café e foi em um encontro de produtores na cidade de Botelhos (MG) que apresentei a ideia de realizar um evento completo para divulgar o café da pesquisa até o consumo de uma saborosa xícara. O pesquisador científico do IAC, Dr. Sérgio Parreiras Pereira, aceitou a ideia e a partir das foram sendo construídas parcerias.

O primeiro evento do Campinas Café Festival ocorreu em 2008, na Estação Guanabara. A partir dessa data foram realizados 47 eventos como: seminários, cursos de baristas, certificação de baristas e degustações de cafés em universidades e praças públicas. O grande evento de repercussão nacional é a Corrida e Caminhada do Café e a Corrida Kids do Café.

Ali El-Khatib, promoção e inovação de eventos da cadeia produtiva e de consumo do café – Campinas (SP) @corridadocafe

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Mariselma Sabbag: “Ter atitude e não perder nenhuma oportunidade”

Moro em São Paulo com o pé em Minas. Meu pai era produtor de café, então desde criança tive contato com a cafeicultura. Após me casar, há 24 anos, adquirimos a nossa primeira propriedade na qual passamos a produzir café.

Em 2012, conheci e me tornei associada da IWCA-Brasil. Foi quando comecei a entender o meu valor na produção do nosso café. Ao ver tantas mulheres juntas, unidas com o mesmo propósito, que é capacitar, dar visibilidade e gerar negócios, a mim cabia ter atitude e não perder nenhuma oportunidade. Fiz curso de degustação e classificação de café para conhecer o produto que tenho em minhas mãos. Atualmente, estudo os processos de pós-colheita e de torra.

Após conhecer novas tecnologias, adquiri dois secadores estáticos e, em 2019, construí o primeiro terreiro suspenso com a expectativa de melhorar ainda mais a qualidade do café.

Em 2017, criei a marca de café torrado, o Café Renovo, com o intuito de levar para o consumidor um café de qualidade com preço acessível. Investimos em tecnologia e cuidados no pós colheita para ter cada vez mais um café de melhor qualidade.

Mariselma Sabbag, produção e industrialização no Café Renovo – Conceição da Aparecida (MG). @mari_sabbag