Mercado

Concurso de embalagens Espresso Design abre inscrições

Estão abertas as inscrições para a 7ª edição da Espresso Design, concurso que premia as melhores embalagens de café disponíveis no mercado. As marcas interessadas em participar podem enviar seus pacotes até 3 de outubro. Acesse aqui o link de inscrição e o regulamento.

O concurso tem o objetivo de fortalecer o setor e destacar a importância do design e da embalagem para promoção de marcas e produtos. A comissão julgadora avalia cada embalagem/coleção considerando os seguintes quesitos: visual/identidade, eficiência, conceito, originalidade e criatividade.

As vinte embalagens mais bem pontuadas ficam expostas nos dois primeiros dias da Semana Internacional do Café (5 e 6 de novembro), para que o público da feira possa votar em sua favorita. As três com mais votos ganham troféus no último dia do evento (7 de novembro), em cerimônia de premiação no Grande Auditório.

TEXTO Redação

O poder transformador do cooperativismo

Em tempos de rápidas mudanças globais, em que desafios complexos exigem retornos inovadores e colaborativos, o cooperativismo é uma resposta poderosa e necessária. A declaração da ONU de 2025 como o Ano Internacional das Cooperativas, sob o tema inspirador “Cooperativas constroem um mundo melhor”, nos convida a redescobrir um modelo há muito defendido como um bastião de desenvolvimento sustentável e de crescimento socioeconômico. No Brasil, essa declaração ressoa de maneira especial, pois o café está profundamente enraizado na tradição do cooperativismo nacional.

A dimensão global do cooperativismo é impressionante. Mais de 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo estão associadas a cooperativas, uma rede que gera milhões de empregos e sustenta economias em todos os continentes. No Brasil, o impacto é marcante, com mais de 23,4 milhões de associados em 2023, criando um efeito cascata positivo no agronegócio. No café existem em torno de 104 cooperativas que, juntas, respondem por cerca de 55% da produção total de café no país, evidenciando o impacto colossal deste modelo de negócios no setor.

O café tem uma cadeia de produção e comércio dinâmica e multifacetada, e o cooperativismo no setor tem papel fundamental. É por meio delas que pequenos produtores têm acesso a recursos indispensáveis, desde assistência técnica especializada até crédito com juros competitivos, todos elementos críticos para sustentar a qualidade e a robustez do café brasileiro.

Enquanto o cooperativismo continua a promover um desenvolvimento econômico e social harmonioso, torna-se cada vez mais premente que olhemos para o futuro com criatividade e determinação. Conferências globais, como a Aliança Cooperativa Internacional, realizada em Nova Delhi em novembro de 2024, e a COP30, prevista para novembro deste ano em Belém, são plataformas essenciais para discutir e explorar como as cooperativas podem utilizar tecnologias emergentes e práticas sustentáveis para enfrentar os desafios do século XXI. Este é um compromisso compartilhado que demanda nossa atenção contínua.

O Ano Internacional das Cooperativas serve como um convite à celebração e, ainda, como um impulso renovado para ações concretas. Para o setor cafeeiro, essa designação oferece uma oportunidade única de reafirmar compromissos com a inovação e as práticas sustentáveis, e de assegurar a resiliência diante de um cenário global dinâmico e, muitas vezes, volátil. Fortalecer redes de parcerias e ampliar a coesão cooperativa serão essenciais para gerenciar esses desafios.

Que 2025 seja um marco de renovação e crescimento, e que inspire novas iniciativas e solidifique as bases para o futuro. O cooperativismo, com sua capacidade inata de unir e transformar, nos oferece a oportunidade de redefinir o papel do café brasileiro na economia global, transformando sua história em um legado duradouro de progresso e solidariedade. Enquanto nos juntamos em cooperação, temos não só a chance de impactar a nossa geração como, também, as futuras.

Que cada xícara de café seja uma prova do poder do cooperativismo em promover mudanças positivas, ecoando histórias de cuidado, dedicação e visão compartilhada para um mundo melhor. É essa combinação de esforços coletivos que garantirá um futuro forte e sustentável para o café, o Brasil e o mundo.

Caio Alonso Fontes é formado em administração de empresas e é cofundador da Espresso&CO. Coluna publicada na Espresso #87 (março, abril e maio de 2025).

TEXTO Caio Alonso Fontes • FOTO Eduardo Nunes

A próxima crise na produção de café

Por Gustavo Paiva

As mudanças recentes na Etiópia, país de grande relevância no mercado do café, tanto no consumo como na produção, trazem muitas dúvidas para a sua política externa, já que o país vem demonstrando querer influenciar seus vizinhos e, até mesmo, buscar novos territórios.

O primeiro-ministro Ahmed Abiy não nega as ambições expansionistas, como tampouco esconde sua insatisfação com o fato do país não ter acesso ao mar e aos poucos recursos hídricos. A consequência disso é um aumento de tensões com os vizinhos do leste, por conta da saída para o Golfo de Aden, mas também com países ao norte, como Sudão e Egito, pelo controle dos recursos hídricos do Nilo.

Enquanto a Etiópia entende que a construção da Grande Barragem do Renascimento é vital para o seu desenvolvimento econômico, egípcios e sudaneses ficaram extremamente preocupados com a possibilidade de perder uma parte da água proveniente das montanhas etíopes.

Além disso, logo após a vitória do conflito na região do Tigray, novos conflitos internos emergiram nas regiões de Oromia e Amhara – nada menos do que duas das maiores regiões do país. Nestes casos, diferenças étnicas, baixa presença do governo e problemas econômicos são as principais causas de confrontos.

Em um primeiro momento, a desorganização e a instabilidade causadas por esses conflitos terão impacto direto na produção de café local, já que a região de Oromia é uma das principais produtoras do país e conta com uma das maiores cooperativas do mundo em número de associados.

Segundo, há uma grande questão quanto à exportação do café. Com uma logística que já é complicada em tempos relativamente estáveis, levando por volta de três semanas para exportar o café através do país vizinho, o Djibuti, a Etiópia segue dependente de um porto estrangeiro para escoar sua produção.

Terceiro, tanta instabilidade tem como consequência a dificuldade de planejar e investir na produção. A renovação dos cafeeiros do país se mostra urgente. E por último, a inflação, que é uma consequência direta de todos estes problemas. No país, a renda per capita, ajustada pelo poder de compra, é de US$ 3 mil anuais – pouco mais de dez por cento da renda brasileira, que atualmente está em US$ 20.500, segundo dados do Banco Mundial.

Portanto, mais um outro conflito ligado à uma saída etíope para o mar, envolveria Somália, Eritréia, Djibuti e se somaria a outras crises regionais, como as do Iêmen, do Irã e do Sudão, com a totalidade dos Estados da região em algum tipo de instabilidade.

Por ser um conflito aberto contra paramilitares internos em Oromia e Amhara, e um conflito não declarado com os vizinhos, a questão parece não levantar muito interesse internacional, talvez porque ainda não tenha afetado as rotas de navegação pelo mar Vermelho.

Mesmo que algo maior na Etiópia aconteça, o envolvimento de países externos tende a ser menor. Apesar de a Otan possuir três bases militares em Djibuti, o conflito ucraniano é a prioridade no momento. E os Estados Unidos têm se mantido indiferentes à situação na região desde a eleição de Donald Trump.

O presidente norte-americano tem sido enfático ao demonstrar sua falta de interesse em países do continente, com exceção daqueles que possam providenciar recursos naturais como petróleo, gás e terras raras, o que não é o caso da Etiópia.

Até agora, todas estas instabilidades parecem não alterar a cadeia do café etíope, já que, segundo estatísticas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e da Organização Internacional do Café, a produção tem se mostrado resiliente, chegando até mesmo a aumentar nos últimos anos.

Se por um lado parece inevitável que o conflito escale, por outro a cadeia do café local parece se mostrar não só estável como próspera. Pode-se perguntar, portanto, se os agricultores locais possuem uma resistência heróica, se os envolvidos na cadeia local já aprenderam a trabalhar sob a pressão das crises ou se as estatísticas que demonstram um crescimento estão equivocadas. Nada impede que mais de uma alternativa seja correta.

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra e é mestre em economia agroalimentar. Atualmente, é consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Magalhães Paiva

Mercado

Chás invadem cafeterias

Estabelecimentos brasileiros apostam em chás de origem e blends artesanais para criar experiências sensoriais e conquistar um novo público exigente

Foto: Studio Oz

Por Gabriela Kaneto

O café sempre foi protagonista no paladar dos brasileiros. Mas, nos últimos anos, cafeterias de qualidade têm visto mudanças nos pedidos dos clientes – e o café, que antes reinava absoluto, começa a dividir espaço com uma bebida milenar, que atravessou oceanos para chegar até aqui: o chá.

Variedades como verde, branco e preto, matcha (chá verde em pó) e blends artesanais aparecem cada vez mais nos cardápios – não como substitutos, mas como complementos ao café de qualidade – e despertam o interesse de um consumidor exigente, que busca por novas experiências sensoriais. “De uns tempos pra cá, tenho percebido que alguns clientes, que antes consumiam apenas café, estão começando a se interessar também pelo chá”, conta Rafaela Nascimento, barista e sócia do Coffee Five, no Rio de Janeiro (RJ).

Com uma década de experiência como instrutora, Rafaela começou a servir chá ao público em 2018, mas foi apenas após a pandemia que decidiu educar os consumidores sobre as diversas formas de consumo. “O que me motivou, e ainda motiva, é que o chá tem tudo a ver com o ambiente de café”, explica a barista. Para ela, as técnicas e as características sensoriais dos chás podem ser exploradas da mesma forma que no café. “Foi então que montei um cardápio com a aprovação da Yuri Hayashi e criamos o ‘tea café’, um cardápio de chás onde explico um pouco sobre este universo tão grandioso”, diz ela, referindo-se à sua mestra e fundadora da escola de chá Embahu, em São Bento do Sapucaí, no interior paulista.

Desde então, o menu do Coffee Five tem chás de diferentes origens (China, Japão e Brasil) e tipos (branco, amarelo, verde e preto), criações com ervas e especiarias e blends. “Acho mágico mostrar às pessoas o quanto essa bebida é rica”, anima-se a barista, que selecionou opções a partir de viagens que fez e de acordo com a época de colheita do produto.

Chá servido no Coffee Five, no Rio de Janeiro – Foto: Divulgação

Segundo dados da Euromonitor, entre 2019 e 2023, o mercado global de chás cresceu 43%, chegando a movimentar R$ 1,5 bilhão ao ano. “O interesse por chás vem crescendo consideravelmente, especialmente nos últimos cinco anos, com um impulso ainda maior durante a pandemia”, analisa Benício Coura, especialista em chás e CEO da Chá Dō, e-commerce que fornece o produto para para pessoas e cafeterias. “A busca por hábitos mais saudáveis foi um dos principais motores dessa mudança”, acredita ele. Outro motivo, continua, é a busca por experiências sensoriais diversas. Atualmente, a oferta de chás da Chá Dō passeia por vários países, como Japão, China, África do Sul, Sri Lanka, Alemanha e Brasil.

Para Coura, há hoje em dia mais espaços que destacam a bebida, como casas especializadas, cafeterias, que a incluíram no cardápio, e restaurantes, que passaram a valorizar harmonizações com o produto.

“O mercado de chás no Brasil vem crescendo a cada ano”, concorda Hesli Carvalho, proprietário da cafeteria HM Food Café, que serve a bebida em suas duas unidades paulistanas, nos bairros de Pinheiros e República. “Quando eu era mais jovem, passava boa parte do tempo no sítio dos meus avós, em Minas Gerais. Era bem frio à noite e sempre tínhamos uma bebida quente à mão, ora um leite com açúcar queimado, ora um chá”, lembra. Com o tempo, o hábito virou paixão, e o empresário aprofundou-se cada vez mais no assunto. “Me formei sommelier de chás pela Academia Brasileira de Chá e Mate, da Carla Saueressig, uma das pioneiras no Brasil”, comemora.

Chás servidos no HM Food Café, em São Paulo – Foto: Divulgação

E por que não apresentar esse outro universo aos clientes? “Quando abrimos o café, tinha certeza de que trabalharia com chás e infusões”, diz Carvalho. Hoje, o menu oferece chá verde japonês e chinês, oolong chinês e chá preto do Sri Lanka, além de blends com rooibos (infusão feita com a planta rooibos, popular na África do Sul) e drinques. “Temos uma carta de chás de primavera/verão que atualizamos para o outono/inverno”, comenta ele, destacando drinques como o mocktail (não alcoólico) de rooibos com limão e água com gás e o matcha com leite vegetal e calda de morango, sucessos na casa.

A escolha dos itens contempla o que há disponível no mercado (que, por sua vez, depende da colheita), e o que a cafeteria quer oferecer. “Temos mais de 13 bebidas entre chás e infusões, e isso é motivo de orgulho para nós”, conta Carvalho.

Outra cafeteria que aderiu à tendência é a 002 Café, em Brasília (DF). “O chá sempre esteve no nosso radar como bebida que faz parte da pausa na rotina”, conta Laís de Queiroz, barista, gerente de marketing e co-fundadora da casa. A cafeteria, inclusive, foi originalmente batizada como 002 Café e Chás Especiais. Com o tempo e para tornar o nome mais curto, retirou a menção aos chás, mas os manteve no cardápio. “Nossa ideia é colocar chás e cafés em pé de igualdade. O chá, como bebida, também pode ser estimulante e intrigante”, acredita ela, que oferece um leque de opções que varia entre matchas, blends com chá preto e com genmaicha (chá verde japonês feito com arroz tostado), e puros de oolong e puehr (fermentado), ambos de origem chinesa. “Nossos clientes de chá são diferentes dos clientes de cafés, mas, em sua maioria, também são tão exigentes quanto”, comenta Laís, referindo-se ao nível de conhecimento de seu público com relação aos chás.

Assim, diz Laís, o processo de escolha precisa ser cuidadoso, como acontece com os grãos. “Pensamos no sensorial ou nas opções que combinam mais com as estações. Temos fornecedores tanto para desenhar os blends quanto para selecionar os puros, mas sempre buscamos ter chás de vários lugares do Brasil e do mundo”, explica.

Chá oferecido na cafeteria 002 Café, em Brasília – Foto: Divulgação

Na capital mineira, o Elisa Café oferece opções de chás desde a inauguração, em 2021. “Queremos que as pessoas que ainda não consomem café de especialidade também sejam acolhidas em nossa cafeteria”, explica Ana Elisa Saldanha Alves, CEO e proprietária da cafeteria. A carta atual disponibiliza chás branco, verde e preto, cultivados na China, além de bebidas quentes e geladas com matcha – que, segundo Ana, fazem sucesso entre o público jovem. “O brasileiro tem a cultura do café no dia a dia, em vários momentos. Porém, o matcha vem se desenvolvendo bastante entre o público jovem”, acredita.

A onda verde

Para Laís e Rafaela, o crescimento da oferta de chás em cafeterias começou com o matcha. “A procura por ele só aumenta”, observa Rafaela. “Bebidas com matcha e o próprio matcha ganharam mais espaço nos últimos anos”, reforça Laís. O pó fino, feito com as folhas da Camellia sinensis, caiu recentemente no gosto do público em vários países. Basta olhar o cardápio de qualquer cafeteria de qualidade para achá-lo em versões quentes ou geladas, com leite ou como ingrediente em cookies, bolos e drinques.

A versatilidade do matcha é uma das razões para o aumento acelerado de seu consumo. “O fato de ser pó quer dizer que você pode utilizá-lo na gastronomia, nos ingredientes secos, como farinhas, e nos líquidos”, esclarece Alvaro Dominguez, fundador e diretor da Namu Matcha, marca brasileira dedicada exclusivamente ao produto.

A influência das redes sociais e o crescimento da busca por alternativas funcionais também impulsionam o consumo do matcha. “A cada ano a demanda praticamente triplica”, comenta Dominguez. O matcha tem teor maior de antioxidantes e de cafeína se comparado aos chás infusionados, o que o torna atrativo para quem procura aumentar o foco e ganhar energia de forma natural. “Por ter a folha moída, o matcha tem uma quantidade de antioxidantes ainda maior. Você não está fazendo uma infusão, está basicamente consumindo a folha inteira”, explica ele.

Linha de matchas da Namu Matcha – Foto: Agência Ophelia

Por outro lado, o efeito da cafeína no matcha e nos chás é diferente do obtido quando se toma uma xícara de café. Isso porque as folhas da Camellia sinensis tem, ainda, L-teanina, um aminoácido não essencial que ocorre quase exclusivamente nelas. Estudos científicos recentes sugerem que a L-teanina e a cafeína, quando consumidas juntas, podem ter efeitos sinérgicos na melhora de atenção, foco e desempenho cognitivo, com a L-teanina atenuando os efeitos colaterais estimulantes da cafeína.

Antes de virar tendência no Brasil, o matcha já fazia sucesso na América do Norte e na Europa. De olho neste movimento, o empresário brasileiro Bruno Prieto decidiu atravessar o oceano para explorar esse mercado. “Durante minha viagem pela Europa, percebi que o matcha está inserido na rotina das pessoas, especialmente em cidades com uma cena de cafés mais sofisticada. O consumo não se limita a uma moda passageira, mas vem acompanhado de uma valorização da origem, do tipo de cultivo e da variedade”, diz Prieto.

Em janeiro, Prieto fundou a Kyubu Matcha em Lisboa, marca dedicada ao matcha orgânico japonês. “Portugal tem se mostrado muito receptivo a novas experiências ligadas ao bem-estar, à estética e à alimentação consciente”, analisa o empresário. “Existe uma abertura para produtos que carregam história e sofisticação, o que se alinha com a proposta do matcha cerimonial japonês”, acredita. Para Prieto, a vizinha Espanha já tem marcas e espaços voltados exclusivamente para a venda de bebidas e comidas com o produto. “Daí se vê o grande potencial para isso acontecer também em Portugal”, projeta ele, que apresentou a Kyubu aos brasileiros em junho, durante o São Paulo Coffee Festival.

De acordo com Prieto, o público europeu é mais maduro do que o brasileiro para o consumo de chás. “O mercado europeu trata o chá como uma bebida com identidade própria. Há mais educação, mais opções de preparo e um entendimento maior sobre a diversidade de chás e infusões disponíveis”, explica ele. “Os consumidores estão mais acostumados a pagar por qualidade, entender as origens e explorar novos sabores. E o matcha pode servir como uma ponte para uma cultura mais ampla de chás”, acredita.

Um futuro com mais chá na xícara

Seja pelas características sensoriais, pelos benefícios à saúde ou pela curiosidade por novas experiências, o chá vem conquistando espaço nas cafeterias brasileiras. “Assim como o café evoluiu de uma bebida genérica para um universo de microlotes e perfis sensoriais, o chá pode seguir o mesmo caminho”, afirma Prieto. Ele acredita que, para expandir o mercado, é fundamental investir em comunicação e em experiências bem construídas. “Assim, outras variedades de chá também podem ganhar espaço, principalmente entre um público mais jovem e atento às tendências”.

Rafaela também acha que a educação tem um papel importante, dentro e fora do balcão. “Um dos maiores desafios é encontrar mão de obra qualificada, tanto para explicar bem o produto para o cliente quanto para saber escolher chás realmente bons para servir”, explica. Por outro lado, ela comemora a aproximação das marcas de chás do universo do café. “Até na Semana Internacional do Café [evento de café que acontece anualmente em Belo Horizonte] já vemos estandes de chás, algo que não existia antes da pandemia”, lembra. Para Ana Elisa, os chás são uma oportunidade de negócio, mas, sem conhecimento e treinamento dos colaboradores, não há vendas. “Há oportunidades, desde que a cafeteria se especialize no assunto e crie a rede de educação para levar conhecimento ao consumidor”, pondera.

Carvalho concorda que a falta de conhecimento de empreendedores e baristas é uma barreira a ser ultrapassada para a popularização dos chás nas cafeterias. “O processo operacional é idêntico ao do café: água, temperatura e peso. Não muda nada”, comenta. Para ele, apesar de tímida no Brasil, a tendência veio para ficar. “O futuro já é agora. Pensar em uma cafeteria de especialidade sem pelo menos um bom chá já está no passado”, opina. “Seja do ponto de vista econômico, diferencial de mercado ou de qualidade. Afinal, o mesmo cuidado com o café deveria se refletir em todos os aspectos da cafeteria, não é?”, provoca.

Chás servidos no HM Food Café, em São Paulo – Foto: Divulgação

É por isso que Dominguez investe, também, em workshops e treinamentos sobre o produto, além de participar de bate-papos em eventos de gastronomia. “Com essa educação que nós e outros empreendedores de chás oferecemos para os estabelecimentos de alimentos, está se criando uma categoria de chás nos cardápios, e o dono da cafeteria, o head barista e o público passam a entender o valor de tomar um chá bem feito”, comenta. “Acredito que a perspectiva é positiva não só para o matcha, mas para os chás em geral. Se todo mundo fizer seu trabalho direitinho e educar seus clientes, será algo facilmente integrado à cultura brasileira”, acredita.

“O cliente deve entender que, assim como o café, o chá puro pode oferecer notas sensoriais sem que haja a necessidade de adicionar outros produtos”, diz Laís. Para ela, a tendência daqui para frente é de crescimento e de novas oportunidades, especialmente quando o assunto são bebidas prontas para beber. “Se o mercado de chás caminhar para o mercado de wellness, podemos esperar bastante coisa boa vindo por aí”, aposta ela.

Coura também acredita que as opções ready-to-drink (RTD) são fundamentais para a expansão do mercado. “A tendência é de crescimento, com fórmulas mais naturais, sofisticadas e voltadas ao público que quer praticidade sem abrir mão de qualidade”, diz o especialista, que também menciona pontos como a valorização dos chás nacionais e a criação de blends autorais na personalização da experiência. “Há um resgate do que é nosso, com produtores investindo em qualidade, identidade de origem e métodos mais refinados de processamento”, comenta Coura. “Seja por meio de curadorias mais afinadas ou da conexão direta com o produtor, tudo caminha ao lado de uma exigência cada vez maior por transparência e sustentabilidade em toda a cadeia”.

História milenar

Segundo uma lenda chinesa, foi em 2.737 a.C. que o imperador Shennong, o “divino agricultor”, descobriu os benefícios do chá. Ele aquecia certa quantidade de água, purificando-a para bebê-la, quando folhas de um arbusto caíram no recipiente. Atraído pelo aroma, o imperador provou a infusão e surpreendeu-se com o sabor, a energia e o bem-estar dados pela bebida. Dezenas de séculos depois, esse arbusto seria classificado como Camellia sinensis.

A maneira de se consumir chá na China foi se transformando ao longo do tempo e também chegou ao Japão. “A história do chá no Japão é muito ligada ao intercâmbio cultural entre os dois países”, explica Paula Braga Batista, engenheira agrônoma, especialista em chás e conselheira de chá japonês, título concedido pela Nihon cha Kyokai (Associação de Instrutores de Chá Japonês). Segundo ela, foi por volta de 1.190 que monges japoneses viajaram à China para aprender sobre zen budismo. “Eles viram que os monges chineses conseguiam ficar longas horas meditando sem se cansarem e que, ao lado deles, havia sempre um copo com um líquido verde”, conta a especialista. Os monges japoneses retornaram ao Japão carregando sementes de Camellia sinensis para cultivar no país, propagando, assim, a cultura do chá.

O que define os diferentes chás é seu processamento pós-colheita, que envolve fenômenos como oxidação. O resultado são seis tipos: verde, branco, preto, amarelo, oolong e escuro (fermentado). Segundo Paula, há, também, variações, dependendo das características da região de cultivo, como altitude, temperatura e solo. “Muitas diferenças entre os chás verdes chinês e japonês, por exemplo, vêm do local onde são processados e das técnicas utilizadas. No produto final, o que conta mais é o processamento feito naquele terroir do que o solo”, detalha.

Além da China, maior produtor da Camellia sinensis var. sinensis – uma das variedades mais importantes de chá –, há um cultivo significativo na Índia da variedade assamica (Camellia sinensis var. assamica). No Brasil, há plantações de chá em Registro, no interior paulista. Paula explica que foram duas as tentativas de implementação do chá no país. A primeira com a corte portuguesa em 1808, quando as sementes foram trazidas e plantadas em diferentes regiões (Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais). “Mas eles trouxeram a variedade chinesa, que não se adaptou ao nosso clima”, explica. A segunda ocorreu com a imigração japonesa, em 1908, quando um imigrante, em uma de suas viagens ao Japão, parou no Sri Lanka e conheceu a variedade assamica. Ele começou a cultivá-la em Registro, um dos principais pólos da imigração japonesa no país. “A assamica deu certo, pois ela é mais adaptada à temperatura e ao clima que temos aqui”, conclui.

O Brasil produtor

Hoje em dia, Registro é referência na produção de chás. “Na década de 1980, a cidade chegou a ter mais de 40 fábricas”, relata Paula. O sucesso levou a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo a conceder a Registro, em 1984, o título de Capital Estadual do Chá. A partir dos anos 1990, devido à
concorrência internacional e às mudanças econômicas do país, a cidade do Vale do Ribeira diminuiu sua produção.

Ainda hoje, famílias se dedicam ao cultivo de chá na região, como é o caso da Chás Amaya, uma das empresas familiares mais antigas do segmento no Brasil. Sua história começou em 1919, quando Shutekishi e Nao Amaya, com seus filhos, saíram do Japão e desembarcaram no Rio de Janeiro em busca de oportunidades. A família se estabeleceu em Registro e começou o plantio de chá preto na década de 1930. Atualmente, sob os cuidados da terceira geração, a Chás Amaya produz chás especiais preto e verde da variedade assamica, cuidando desde o plantio até o produto final: colheita, limpeza das folhas, secagem, moagem, oxidação (se necessário), secagem final, seleção e empacotamento. “Nossa técnica de produção é mecanizada no plantio, na colheita e no processamento industrial”, conta André Luis de Freitas, responsável pelo setor comercial da Amaya.

Produção de Camellia sinensis na Chás Amaya – Foto: Chás Amaya

A partir de 2013, a empresa encerrou as exportações e dedicou-se ao mercado interno. “Nosso foco é atender grandes marcas, como Coca-Cola do Brasil, Chás Real e Mandiervas. Mas também temos nossa marca”, explica Freitas, que comenta que a Amaya também fornece para cafeterias e e-commerces, como a Chá Dō. De olho no futuro, ele aposta no aumento da demanda brasileira pela bebida e alimenta boas expectativas para os próximos anos. “O chá é mais do que uma simples bebida, sua versatilidade de preparo atende pessoas de todos os gêneros e idades”, diz ele, que percebe a tendência nas cafeterias. “Vemos um futuro promissor que vai muito além do modelo tradicional do chá apenas nas gôndolas de supermercados”, diz.

Texto originalmente publicado na edição #88 (junho, julho e agosto de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Gabriela Kaneto

Cafezal

Inscrições abertas para o Coffee of the Year 2025

As inscrições para o Coffee of the Year 2025 estão oficialmente abertas a partir desta segunda (4). O prêmio busca reunir os melhores cafés do Brasil, reconhecer os grandes destaques do ano e incentivar tanto o aprimoramento da produção nacional, quanto a valorização de novas origens.

Produtores de todas as regiões do Brasil podem inscrever seus melhores cafés nas categorias arábica e canéfora, mediante o pagamento de R$ 190. Cada CPF pode realizar apenas uma inscrição. As amostras de 03 kg cada devem ser enviadas até 6 de outubro para o Centro de Excelência em Cafeicultura – Senar (endereço abaixo). Confira aqui o regulamento completo da edição e o link de inscrição.

Importante: a ficha da amostra – devidamente preenchida (digitada), assinada pelo produtor – deve ser enviada junto com os 03 kg de café para o endereço indicado abaixo.

Centro de Excelência em Cafeicultura – Senar
A/C Professor Leandro Paiva
Concurso Coffee of the Year 2025/Semana Internacional do Café
Rua Luiz Dominghetti, 115 – Residencial Alto do Vale
Varginha (MG) – CEP: 37048-854 

Sobre o COY

A dinâmica do concurso começa com o recebimento das amostras, que passarão por um processo de avaliação conduzido por uma Comissão de Julgadores formada por especialistas de todo o país. Serão selecionadas as 180 melhores amostras, sendo 150 da categoria arábica e 30 da canéfora.

As amostras selecionadas serão apresentadas na sala Cupping & Negócios da Semana Internacional do Café, que este ano será realizada de 5 a 7 de novembro, em Belo Horizonte (MG). Dentre elas, os 10 melhores cafés arábica e os 5 melhores canéfora participam da votação popular, por meio de degustação às cegas com método filtrado, em garrafas térmicas disponíveis nos dois primeiros dias do evento. A cerimônia de premiação acontece na tarde do último dia da SIC.

TEXTO Redação • FOTO NITRO/Semana Internacional do Café

Mercado

Presidente dos EUA implementa tarifa de 50% e não isenta o café

A medida entra em vigor em sete dias, e exclui de taxação quase 700 itens

O presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump, assinou nesta quarta (30), dois dias antes da data prevista de 1 de agosto, a ordem executiva que implementa a tarifa adicional de 40% sobre o Brasil – elevando o valor total da tarifa para 50%, conforme comunicado da Casa Branca publicado hoje. O café será taxado e a medida entra em vigor em sete dias.

O decreto isenta 694 itens – mas não o café, que será tarifado. Entre os alimentos, não serão cobradas taxas apenas sobre a castanha-do-pará, o suco e a polpa de laranja.

A medida usa como base jurídica a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, de 1977. O comunicado afirma que o tarifaço imposto ao Brasil está “defendendo empresas americanas da extorsão, protegendo cidadãos americanos da perseguição política, salvaguardando a liberdade de expressão americana da censura e salvando a economia americana de ficar sujeita aos decretos arbitrários de um juiz estrangeiro tirânico”, numa referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, acusado de perseguir o ex-presidente Jair Bolsonaro, citado nominalmente no comunicado.

As tarifas haviam sido anunciadas por Trump em 9 de julho, e são as maiores entre as anunciadas para outros países que exportam para os EUA.

O setor recebeu a notícia com preocupação. Em nota, o Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil) afirmou que seguirá em tratativas com parceiros locais, como a National Coffee Association (NCA), para que o café entre na lista de exceções da nova política. “Entendemos que se faz necessária a revisão da decisão de taxar os cafés do Brasil – ato que implicará elevação desmedida de preços e inflação, uma vez que esses tributos serão repassados à população americana no ato da compra”, afirma o texto.

A BSCA, também em comunicado, disse que “reitera a necessidade de diálogo na tentativa de reverter a taxação apresentada ao produto, de forma que sejam preservados empregos, renda e uma parceria construída ao longo de décadas entre os atores das duas nações”.

Café & Preparos

Espírito Santo do Pinhal (SP) sedia evento dedicado a cafés, vinhos e gastronomia

Evento, que reúne feira de agronegócios e festival gastronômico, acontece entre quarta (30) e sábado (2) e celebra a singularidade da região, capaz de produzir vinhos e cafés lado a lado

Por Cristiana Couto

A cidade paulista de Espírito Santo do Pinhal sedia, de hoje (30) a sábado (2), o evento TurisAgro: Festival de Inverno e Feira de Agronegócios. O evento reúne tanto feira e sessões de palestras dedicadas ao agronegócio quanto um festival, que começa na sexta (1) e explora a degustação de vinhos, cafés e comidas locais ao som de muita música. Ao todo, serão 124 estandes e 38 vinícolas presentes. 

A singularidade do evento (confira alguns destaques da programação ao final da reportagem) está na alta qualidade dos vinhos e cafés produzidos em ES do Pinhal e arredores, dois produtos cujo cultivo simultâneo, num mesmo território, seria impensável anos atrás em qualquer lugar do mundo. 

O segredo da produção de vinhos numa área antes considerada inadequada, por causa das chuvas de verão – Espírito Santo do Pinhal fica na Serra da Mantiqueira, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais –, foi o manejo inovador das videiras, uma técnica conhecida como dupla poda, que permite que as uvas sejam colhidas no inverno e não no verão, como acontece tradicionalmente nas regiões vitivinícolas brasileiras. 

Esse manejo permitiu a instalação de vinícolas, há cerca de 15 anos, em cidades como Espírito Santo do Pinhal, que já tinha tradição (centenária) na produção de cafés e que, recentemente, dedica-se aos grãos de alta qualidade – ao lado de outros sete municípios, ES do Pinhal compõe a Região do Pinhal, que tem selo de Indicação de Procedência para cafés desde 2016 (confira aqui reportagem sobre a produção de vinhos por cafeicultores brasileiros).

Com terroir adequado para ambas as culturas (dias ensolarados, noites frias e solos secos no outono e no inverno), Espírito Santo do Pinhal compõe, ao lado de Amparo, Jacutinga e Santo Antônio do Jardim, a região denominada Serra dos Encontros. Esta, por sua vez, reúne 81 projetos vitivinícolas e firmou-se como uma das mais promissoras regiões vitivinícolas do país ao receber prêmios relevantes por seus vinhos, como as 18 medalhas angariadas no Decanter World Wine Awards 2025, prestigiada competição internacional de vinhos organizada pela revista britânica Decanter

O que curtir

  • dia 30, às 17h30 – Painel: Mercado de Cafés Especiais de Origem (com Juliano Tarabal, Jean Faleiros e Marcos Kim)
  • dia 31, às 10h – Painel: Viticultura de precisão (Luis Henrique Bassoi, da Embrapa) 
  • dia 31, às 11h30 – Painel: Cafeicultura e viticultura sustentáveis: agregando valor e reduzindo riscos (Jeferson Adorno da Toca do Kaynã, Maria Rita, da Viviens Brasil, e Edvar Silva, da Reversa do Brasil)
  • dia 1, às 16h – Palestra Princípios técnicos de harmonização (Paulo Brammer, Vinícola Guaspari) 
  • dia 2, às 16h – Painel: Cozinha Viva “Regional” (com chefs da região Paulinha Piazentino, Matheus Ramalho e Lúcia Sequeira) 

TurisAgro: Festival de Inverno e Feira de Agronegócios
Quando: 30 de julho a 2 de agosto, a partir das 9h
Onde: Clube de Campo Caco Velho (Rodovia Campinas-Águas da Prata, s/n – Zona Rural, Espírito Santo do Pinhal – SP)
Quanto: gratuito, mediante cadastro e doação de 1 kg de alimento (para a feira de agronegócio) | R$ 150 (festival de inverno)
Informações sobre a Feira do Agronegócio neste link
Programação do Festival de Inverno neste link 

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Divulgação

Mercado

Fellow lança sua primeira máquina de espresso

A marca californiana Fellow, conhecida pelo design que imprime aos equipamentos de café, apresentou sua primeira máquina de espresso, a Series 1, em abril. Equilibrando simplicidade e customização, o novo modelo permite desde extrações automáticas até configurações manuais detalhadas de pressão, tempo e volume.

Em funcionamento, a máquina atinge a temperatura ideal em cerca de dois minutos, por conta de uma tecnologia própria de aquecimento chamada Boosted Boiler, e traz um vaporizador que indica a temperatura ideal do leite para diferentes bebidas. A estética segue o padrão elegante da marca, com três opções de cores e design pensado para ambientes domésticos.

A Series 1 está disponível no site da Fellow por US$ 1.199,95.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Cafeteria & Afins

Ronin Café – São Paulo (SP)

A Espresso visitou a Ronin Café, na Barra Funda, região central de São Paulo, que se autodeclara “uma cafeteria de cozinheiros”, já que foi criada pelos chefs Pedro Nóbrega e Vitor Ribas, que passaram por restaurantes como o premiado Notiê. A fachada simples anuncia um espaço moderno e minimalista, com detalhes inspirados na arte de rua – como o quadro decorativo com grafia de pixo e a própria fonte escolhida para compor a logo da cafeteria. Em sintonia com o espaço, o alto-falante do salão dá voz a raps nacionais.

Fomos bem recebidos pelo atendente Cauê assim que chegamos. Ele nos explicou todo o cardápio, contou quais itens eram os seus favoritos e se certificou para que a experiência fosse leve e informal – mas muito completa. Além das características sensoriais do coado do dia, o atendente nos explicou as dos outros três grãos disponíveis, torrados pela torrefação paulistana Corisco, que poderiam ser preparados na v60, único método da casa.

Cafés filtrados na v60

Escolhemos dois cafés do produtor Alessandro Hervaz, de São Gonçalo do Sapucaí, Mantiqueira de Minas. O primeiro, de variedade acaiá e processamento natural, foi produzido no Sítio AAA. Na xícara, entregou uma bebida encorpada, doce e com notas frutadas, boa opção para qualquer momento do dia. Já o segundo café, um catuaí vermelho também naturalmente processado e cultivado no Sítio Boa Vista, mostrou-se uma bebida doce, menos encorpada, mas com um agradável sensorial que remeteu à torta de maçã.

Nossa expectativa quanto ao também era alta. Pão na chapa, toast de vegetais, queijo quente, pão com tofu, mortadela sando e choripan são algumas das alternativas entre os pratos salgados. Nossa pedida foi o queijo quente, o pão com tofu mexido e o mortadela sando – um dos mais solicitados pelos clientes.

Feito com um mix de queijos e cebolinha, o queijo quente entregou o que se espera dele, mas com a surpresa de um toffee de alho como ingrediente. Já o pão com tofu, feito com uma fatia de pão de fermentação natural, tofu mexido com cebolinha, tem a adição de picles e chilli oil, o que deixa seu sabor agradável e a textura úmida na medida certa. 

Mortadela sando e queijo quente

Ambas as opções estavam gostosas, mas a grande estrela da refeição foi o mortadela sando. Fazendo jus ao posto de “queridinho” da casa, ele vai além de um lanche de mortadela comum, ao combinar mortadela na chapa, queijo, picles e maionese kewpie em um pão francês de fermentação natural numa composição harmônica. Indicamos! 

Perto do fim da manhã, encerramos a visita pedindo banana bread e tiramisú. Bem apresentado, o banana bread leva bolo de banana (com gostinho de caseiro) coberto por uma banana partida ao meio e chapiscada na chapa, canela polvilhada e calda caramelizada de coco, feita na cozinha da Ronin – e que pode ser substituída por doce de leite produzido pela confeitaria parceira, De Mãe Cozinha. A combinação harmonizou bem com o café frutado. 

Pão com tofu mexido, banana bread e café filtrado na v60

O tiramisú, montado em uma xícara de café, vem com um tuille de chocolate por cima, seguido de bolachas levemente molhadas em cold brew, mas ainda crocantes, e creme mascarpone batido com cacau (feito na hora). Diferente dos tradicionais, que são feitos com espresso, o tiramisú do Ronin destacou-se pela leveza e suavidade de sabor do café, além de vir na quantidade certa para te fazer pedir mais um. 

Nossa conta: R$ 151,80 (com a taxa de serviço)
Coado acaiá – R$ 18
Coado catuaí vermelho – R$ 18
Meia porção do mortadela sando – R$ 15
Meia porção do queijo quente – R$ 15
Tofu mexido – R$ 25
Banana bread – R$ 22
Tiramisú – R$ 25

Informações sobre a Cafeteria

Endereço Rua Doutor Albuquerque Lins, 253
Bairro Barra Funda
Cidade São Paulo
Estado São Paulo
Website http://www.instagram.com/ronincafesp
Horário de Atendimento De quarta a domingo, das 10h às 18h
TEXTO Equipe Espresso • FOTO Equipe Espresso

Resposta ao embargo

Por Celso Vegro

Ao contrário do que ocorre com o resto do mundo, os EUA têm longo histórico de obtenção de saldo comercial positivo frente às transações que faz com o Brasil, denotando ainda mais a deformidade que a imposição tarifária contra o país embute. Aparentemente, a possibilidade da instituição do “brix pay” constitui o verdadeiro foco da arbitrariedade contra o Brasil.

Diante da perspectiva de irredutibilidade quanto à revogação e/ou adiamento do pico tarifário instituído pelo mandatário estadunidense sobre uma nação soberana, o agronegócio café brasileiro como um todo deve considerar que o que se impôs foi, verdadeiramente, uma espécie de embargo às exportações brasileiras de café (verde, solúvel e torrado e moído).

Os reflexos sobre a economia cafeeira no Brasil serão relevantes na medida em que os EUA respondem por compras de, aproximadamente, 8 milhões de sacas (considerando em equivalente verde). No primeiro semestre de 2025, o país exportou para os EUA 3,32 milhões de sacas de café, representando declínio de 16,89% frente a igual período de 2024. Ainda assim, o mercado estadunidense respondeu por 17,1% do total das exportações contabilizadas na mesma época. Em contrapartida, as exportações de café brasileiro para todos os destinos somaram 19,41 milhões de sacas, representando receita cambial de US$ 7,52 bilhões (Fonte: Cecafé).

Segmentos econômicos estadunidenses ajuízam ações contra a escalada tarifária às mercadorias brasileiras destinadas ao seu mercado. Os importadores/distribuidores de suco de laranja, por exemplo, já o fizeram. No segmento de café, que responde por cerca de um terço das importações estadunidenses, eles alertam sobre o impacto da medida: aproximadamente 1,2% do PIB nacional, mais de US$ 343 bilhões em negócios ao ano, ocupando 2,2 milhões de trabalhadores. Trata-se, portanto, de dinâmica econômica ímpar que provavelmente se associará ao grupo do suco de laranja no ajuizamento de uma segunda ação contestatória. 

A afronta ao Brasil exige, primeiramente, uma ampla negociação, ao que a diplomacia brasileira, conduzida pelo vice-presidente, está firmemente liderando. Aparentemente, restando poucos dias para o início de vigência do pico tarifário, nenhum avanço foi alcançado junto às autoridades comerciais estadunidenses (revogação e/ou adiamento). Caminhamos para um real embargo das exportações de café brasileiras para esse mercado.

Diante deste cenário, quais as possíveis ações defensivas que o agronegócio café poderia adotar? A mais direta seria, paulatinamente, se desfazer dos contratos futuros em Nova York para privilegiar a B3. O cerceamento do acesso ao mercado estadunidense sinaliza que os negócios (apenas contratos e/ou físico) que o agronegócio Cafés do Brasil movimenta naquela praça são desejáveis. O momento é perfeito para que essa iniciativa ganhe musculatura, convidando, inclusive, outros países produtores (Vietnã e Colômbia) a se associarem a esse movimento.

A bolsa brasileira teve seu início há mais de trinta anos com o contrato futuro do café que, até meados dos anos 2000, vinha numa melhora de desempenho crescente. Questões tributárias (IOF) e a necessidade do contrato casado (futuro de café e cambial) levaram a uma preferência pela praça nova-iorquina. Todavia, dispondo das atuais sofisticadas ferramentas financeiras, tais obstáculos são perfeitamente contornáveis. O governo federal já anunciou a possibilidade de oferecer crédito a cafeicultores, cooperativas, traders e exportadores afetados pelo tarifaço – mas esses créditos podem ser convertidos em isenção do IOF nas operações de contrato futuro e subvenção no prêmio para os contratos de opções privadas.

O risco de as cotações despencarem diante do empoçamento dos cafés que seriam exportados para os EUA – e, ainda, devido à dificuldade momentânea de reordenamento dos destinos – poderia ser minimizado por AGF ou subvenção ao Pepro (Prêmio Equalizador Pago ao Produtor ou à Cooperativa,  mecanismo de apoio à comercialização agrícola criado pelo governo federal), desde que os preços mínimos reflitam a realidade do mercado. Café é produto não perecível e, portanto, armazenável. Numa eventual aquisição do governo federal (via AGF ou Pepro), dado o atual contexto de baixos estoques e demanda crescente pelo produto, existe inclusive a possibilidade de entesouramento público por meio dessa operação (leilão da Conab). (Como sugestão, caberia ao conselho gestor do Funcafé desenhar política para o enfrentamento das questões mencionadas).

Quando a força do poder prevalece sobre a vontade de dialogar, se estabelece o dissenso, ou seja, a imposição do medo como método de sujeição. A política comercial – longamente construída, inclusive, com empenho dos EUA – foi instrumentalizada para fins espúrios e se esfacelou. Sob suas ruínas, erode-se a confiança no mercado estadunidense, alicerce básico para a troca justa entre as nações. O afastamento do mundo desse mercado será o resultado mais concreto dessa guerra comercial estabelecida. 

TEXTO Celso Luis Rodrigues Vegro é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo
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