Cafezal

Testes globais de café arábica mostram a complexa influência de genética e clima na qualidade

Estudos da WCR avaliam potencial de cultivares em diversas regiões para impulsionar programas de melhoramento genético orientados pela demanda do mercado

Após provas sensoriais de dez variedades de café em sete regiões do mundo por três anos (entre 2021 e 2023), pesquisadores da World Coffee Research (WCR) demonstraram de que maneiras a interação entre genótipo e ambiente impacta na qualidade e no perfil de sabor da bebida. Ao mesmo tempo, querem refinar o ensaio, tirando da equação fatores como pós-colheita e torra, que interferem no sensorial da bebida.

Os primeiros resultados do maior teste de variedades do mundo, segundo a própria instituição científica, foram divulgados em junho. O objetivo é compreender o alcance dessas interações entre DNA e condições de cultivo, para que essas informações possam ajudar os países participantes a definir variedades com maior potencial de qualidade. Além disso, os resultados servirão de base para novos experimentos em qualidade.

A pesquisa faz parte do projeto International Multilocation Variety Trial ou IMLVT (Teste Internacional de Variedades em Multilocais, em português) que testa 31 variedades de café de alto desempenho em mais de 15 países, entre eles Peru, Zâmbia e Austrália.

Para isto, participaram Q-Graders de 57 empresas membro, que provaram variedades, como pacamara e batian (veja o rol completo na fig. 1), em regiões específicas da Nicarágua, do Congo, do Peru, do Quênia, da Indonésia, de Ruanda e da Índia. Os caracteres avaliados foram rendimento, resistência a pragas e doenças e qualidade da xícara.

Além de medir o desempenho das plantas em cada lugar, o ensaio também mensurou quão estáveis ou variáveis são essas três características selecionadas nos diferentes ambientes – efeito conhecido como interação GxE.

“Estamos identificando como as principais variedades respondem às variações climáticas e agronômicas e quais são mais amplamente adaptadas ou apresentam melhor desempenho a condições específicas”, explica Jorge Berny, doutor em melhoramento e genômica, no site da WCR. Segundo ele, isso estabelece bases para o melhoramento de variedades mais resilientes, produtivas e de melhor qualidade sensorial e para que o setor cafeeiro tome decisões mais bem informadas sobre quais variedades cultivar e onde as plantar.

Algumas cultivares, como a H1 centroamericano e a marsellesa (sarchimor), tiveram bom desempenho na xícara e se mantiveram estáveis mesmo quando cultivadas em diferentes ambientes.

Figura 1 – Estabilidade estimada de qualidade na xícara de dez variedades cultivadas em sete regiões entre 2021 e 2023

Outras, como SL28 e Batian, adaptam-se melhor a condições de ambiente de cultivo específicas, e, em ambientes semelhantes, produziram resultados de degustação também similares.

Figura 2 – Média de três anos de dados de cupping das 10 variedades cultivadas em sete regiões entre 2021 e 2023

Em média, porém, os dados demonstram que algumas variedades têm maior variação de qualidade (por pontuação) em diferentes ambientes e períodos de avaliação. As causas disso são o pós-colheita e as preferências sensoriais – difíceis de padronizar e controlar em um experimento feito em diversos países.

Se variações de safra podem ser explicadas por fatores biológicos, como idade da planta, outros fatores não biológicos, como método de processamento, podem mascarar essas características inatas no conjunto de dados.

Figura 3 – Médias dos resultados de pontuação de diferentes variedades e regiões

Por isso, o ensaio será reestruturado. Centralizar o processamento dos frutos e a torra dos grãos serão medidas adotadas para produzir resultados mais definitivos.

Os pesquisadores também planejam avaliar as variedades por mais cinco anos em seis países (Indonésia, Nicarágua, Peru, Malawi, Quênia e Índia), para aumentar a confiabilidade nas recomendações de variedades e avaliar o desempenho delas antes e depois da poda das plantas.

Ainda que ajustes neste ensaio se façam necessários, no Peru, a WCR já está plantando lotes de sementes das variedades parainema e IPR107, selecionadas no projeto IMLVT e alinhadas às necessidades dos cafeicultores.

Os resultados também serão cruzados com dados sobre modelagem climática produzidos pelo Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT), para auxiliar essas escolhas no futuro. No redesenho da nova fase das avaliações de qualidade do IMLVT, a pesquisadora brasileira Verônica Belchior, contratada em março pela organização como cientista-pesquisadora para avaliação da qualidade do café, pretende abordar a qualidade do café em escala global, para que os programas de melhoramento em muitas origens atendam às necessidades da indústria. “Os resultados dos atributos sensoriais de nossos experimentos de degustação seguem as mesmas tendências que definem a qualidade no mercado de cafés especiais”, diz Verônica na mesma reportagem. “Mesmo assim, as preferências de sabor em diferentes regiões são muito amplas e é preciso entender isso melhor”.

TEXTO World Coffee Research • FOTO World Coffee Research

Cafezal

Sustentabilidade e ESG: como o café se enquadra nesses temas?

Claudia Leite tem mais de 25 anos no ramo de comunicação e sustentabilidade e se tornou referência no tema, consolidando a estratégia global e catalisando ações relevantes

Claudia Leite – Foto: Wilian Jackson

O café fazia parte da sua vida desde a infância, lá no sudoeste de Minas Gerais. Ela cresceu em meio às produções de café. Dali, Claudia Leite iniciou uma carreira promissora, até se tornar diretora da Hilo Estratégia e Propósito.

“Vim de São Sebastião do Paraíso, e na minha infância e adolescência eu tive contato com a realidade da cafeicultura, com diferentes produtores e produtoras e tudo que eu pude estudar depois, no Brasil e no exterior, foi importante, mas nada se compara a entender o dia a dia desses produtores, saber os desafios que realmente temos. Isso me trouxe afeição e identificação com o café, depois eu consegui me reconectar com isso na minha trajetória profissional, mas no sentido de buscar cada vez mais valorizar as origens dos cafés, as histórias e as pessoas que existem por trás dessa cultura que a gente bebe”, conta a especialista.

Ela que sempre focou a sustentabilidade conta que em 2006 já trabalhava havia dez anos na Nestlé, quando então foi convidada a trazer a Nespresso para a América Latina. O objetivo da marca era ter cafés de alta qualidade, sustentáveis, já porcionados, e ali se dedicou a estudar muito sobre como vender café a quem mais produz café, que é o Brasil.

“De todas as estratégias comerciais e de comunicação que eu recebi como incumbência na época, um dos maiores desafios foi entender e conhecer mais sobre sustentabilidade, e apoiar no desenvolvimento desse conceito considerando a realidade local do Brasil como o maior produtor mundial e o maior fornecedor para a marca, além de saber como isso poderia ser entendido, potencializado e também comunicado. Eu já realizava muitas atividades como cidadã no meu dia a dia, mas isso é distinto de uma abordagem profissional como responsabilidade dentro de uma grande indústria. Entendi como tudo funcionava na prática. É diferente de hoje, que todo mundo fala de sustentabilidade, de ESG (sigla em inglês para responsabilidade social, ambiental e de governança). Na época não tinha toda essa importância e destaque, mas eu consegui mostrar como o tema poderia funcionar na cadeia do café.’’

O tema sustentabilidade é debatido em diversos eventos e palestras. Claudia diz que ele sempre existiu e foi ganhando diferentes contornos ao longo da história, e que é uma nova forma de fazer negócios, atender a demandas e garantir que as próximas gerações possam usufruir de uma sociedade em equilíbrio. A visão é complexa e de longo prazo.

“Isso envolve redução da pegada de carbono, conservação de água, energia e recursos, direitos humanos, responsabilidade social e corporativa, criação de novos produtos e serviços como um diferenciador para os nossos negócios. Já o ESG eu entendo como uma forma muito didática de trazer um conjunto específico de critérios ambientais, sociais e de governança para obter métricas específicas. Seu foco é o impacto, o risco da natureza do nosso negócio e da operação, características do nosso setor. Podemos definir como investimento responsável – já que a sigla veio originalmente do mercado financeiro –, que identifica os retornos ajustados ao risco e a oportunidades de investimentos. Hoje o ESG já é aplicado em outros setores, que estão nessa busca para que seus negócios sejam cada vez mais sustentáveis em termos ambientais, de gestão de pessoas e com boa governança e transparência.’’

E o café?

Claudia destaca que o produtor sabe que tem uma relação muito próxima com o meio ambiente, o solo, pois é de baixo para cima e de dentro para fora que os nutrientes são levados para a planta ter a melhor produção em termos de volume e qualidade, além desse olhar para as condições do entorno. Por manter essa relação de longa data naturalmente, a especialista enxerga a produção do café como favorável a boas práticas de sustentabilidade também.

“Em termos de governança, a propriedade rural é um empreendimento, uma empresa. Então, se não fizer direito, vai haver prejuízos e riscos de dar errado. Recomendo sempre começar pelo básico bem-feito, pois não é algo pedido só pelo café especial ou por fazendas grandes, está sendo demandado por todo mundo, e se a gente conseguir medir esse controle e essa gestão profissional por meio da governança – e sei que isso é um desafio pra quem está no campo –, vamos saber o impacto do trabalho da cafeicultura na geração de renda, no desenvolvimento local, que são benefícios que a gente tem com a produção de café.”

Em relação ao meio ambiente, Claudia destaca o fato de que o Brasil conta com um código florestal bastante claro, mas que, em alguns pontos, ainda pode deixar o produtor receoso do que pode ser feito ou posto em prática. Nesse sentido, o caminho é fazer o melhor uso do meio e restaurar a paisagem na qual você está, cuidando do solo, da água, dos recursos naturais, evitando erosão, e assim manter um ambiente equilibrado.

No que diz respeito ao lado social, a legislação no Brasil é rigorosa. Por isso é importante entendê-la. Some-se a isso a pressão e a restrição de mercados que querem saber como a produção está sendo feita, e que portanto criam barreiras caso as regras não estejam sendo respeitadas. Ter acesso à informação e à assistência técnica é fundamental e ajuda nesse trabalho para que as pessoas sejam tratadas com respeito e tenham seus direitos preservados. Um descuido pode pôr em risco toda a credibilidade do setor.

“O produtor pensa muito na manutenção financeira, mais operacional, e a isso se soma a responsabilidade do seu negócio de garantir formação e capacitação contínua, além de fazer análise do solo, usar corretamente os adubos, reduzir o uso de compostos nitrogenados, manejar matéria orgânica, garantir a ciclagem de nutrientes para ter biomassa de carbono, ter cuidado com erosão – principalmente em regiões de montanhas – e, na parte social, o compromisso que se tem de cuidar das pessoas, antecipar problemas e não ter o produtor como um agente isolado desse problema. Todos são interdependentes e devem contribuir, pois fazem parte da solução: cooperativas, sindicatos, torrefadores, empresas.”

Crédito de carbono

A especialista explica que isso movimenta milhões no mundo hoje e funciona da seguinte maneira: uma organização que emite os gases paga para outra que gera créditos para neutralizá-lo. Assim, o carbono que foi emitido em um lado acaba sendo compensado no outro. Por isso ele tende a se comportar como uma commodity mesmo, trazendo oportunidade de novos negócios e até de fonte de renda para diferentes públicos, como pequenos produtores rurais, comunidades tradicionais, o que fortalece as cadeias produtivas.

E esse mercado deve crescer ainda mais, pois organizações e até mesmo países precisam compensar o que produzem enquanto outros são capazes de sequestrar o carbono. “Tem um estudo da WayCarbon que mostra que há segmentos com grande potencial e oportunidades para o Brasil e que podem movimentar algo entre cerca de 500 milhões de dólares e 100 bilhões de dólares, e gerar 8,5 milhões de empregos até 2050. A regulação no País é de maio de 2022 e estamos entendendo como podemos participar desse mercado’’, pontua.

Agricultura regenerativa

Claudia fala muito de práticas que tenham o olhar para a recuperação de solos empobrecidos e a garantia de bom uso dos mesmos. Ela valoriza os micro-organismos que estão presentes no solo, que são fundamentais para a vida na terra, ainda que não se possa ver essa microbiota a olho nu.

Para o futuro da cafeicultura, Claudia Leite acredita na visibilidade do que já é feito de bom e no fortalecimento do que temos de destaque. “Planejar as ações com intencionalidade e medir o bom impacto gerado pela produção de cafés, seja para as pessoas, seja para o meio ambiente, buscando sempre o equilíbrio na produção. É fundamental melhorar a comunicação da porteira pra dentro e da porteira pra fora, para valorizar o orgulho que a gente tem de produzir café, de estar envolvido em toda essa cadeia, gerando dignidade, bem-estar, autoestima em tantas pessoas que estão envolvidas em todo esse processo, reconhecendo o valor dessa cultura que a gente bebe’’, finaliza.

Atente para:

• Realizar rotação de culturas, evitar o cultivo excessivo de mais uma planta na mesma terra, cobrir a terra de cultivos o ano todo para protegê-la, reduzir a evaporação e a perda de água, e para não haver pouso na entressafra, evitando a erosão.

• Arar menos os campos, reduzir drasticamente o uso de fertilizantes e pesticidas e pensar no bem-estar animal e em práticas justas de trabalho para os produtores.

• Um estudo do Instituto Rodale concluiu que os benefícios são grandes, levando-se em conta somente a produção de alimentos. O agronegócio vai ser capaz de sequestrar 100% das emissões de carbono de todo o mundo, pois o alimento tem a capacidade de reverter as mudanças climáticas.

• Manter boas práticas de cultivo, conhecer as dinâmicas de produção, saber que a planta e o solo são vivos e que as necessidades podem variar entre os anos.

• Fazer correções de nutrientes de um ano para outro pode ser necessário para melhorar a saúde da planta, além de fazer uso eficiente de produtos, manejo de solo e uso racional de recursos hídricos.

• Planejar bem a colheita e o pós-colheita para garantir que não se perca o trabalho de um ano todo.

• Além de tudo isso, trabalhar a possibilidade de redução de custos e de mais qualidade.

Texto originalmente publicado na edição #80 (junho, julho e agosto de 2023) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Natália Camoleze

Cafezal

Práticas sustentáveis ampliam retenção de carbono na cafeicultura capixaba

Estudo liderado pelo Cecafé avalia o impacto das práticas agrícolas conservacionistas no balanço de carbono da produção conilon, demonstrando melhorias significativas na retenção de CO2

Pesquisa sobre a produção de conilon no Espírito Santo mostra que práticas sustentáveis podem aumentar significativamente a retenção de carbono. Se a produção tradicional deste grão no estado já retém mais carbono do que emite – os dados apontaram para uma remoção de 3 toneladas de CO2 por hectare ao ano – com práticas sustentáveis, essa capacidade sobe para 8,24 toneladas.

O estudo “Balanço de GEE do Café Conilon Capixaba”, liderado pelo Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil) e apresentado nesta quarta, 29, analisou as mudanças no manejo agrícola para práticas mais conservacionistas, resultando em um impacto positivo significativo no balanço de carbono.

Em colaboração com o Programa de Desenvolvimento Sustentável da Cafeicultura do ES (a Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca) e sob condução científica do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) e de Carlos Eduardo Cerri, da Esalq, o estudo destaca a eficácia de técnicas como o retorno de resíduos pós-colheita ao solo e o uso de adubos orgânicos, contribuindo ainda mais para um balanço carbono negativo e para um impacto ambiental positivo.

A pesquisa não só demonstra a eficácia das práticas sustentáveis na cafeicultura, como também aborda as mudanças no uso do solo – como a de pastagens para o plantio de conilon –, que ampliam ainda mais a retenção de carbono. O estudo avaliou as emissões de gases de efeito estufa e o sequestro de carbono nas propriedades.

Além de destacar o papel da cafeicultura capixaba na mitigação das mudanças climáticas, a pesquisa sublinha a importância de adaptações nas práticas agrícolas frente às novas regulamentações globais antidesmatamento e às exigências de mercados sustentáveis, como a EUDR.

O estudo reforça, ainda, a relevância do Programa de Desenvolvimento Sustentável da Cafeicultura do Espírito Santo, lançado e tocado pelo estado capixaba desde 2022, e que vem fomentando práticas ESG (ambientais, sociais e de governança) com o objetivo é adequar as propriedades à sustentabilidade. O programa, com 27 projetos, pretende adaptar 8 mil propriedades até 2026 com um investimento de R$ 5,45 milhões, promovendo práticas sustentáveis e ESG. Essas ações buscam melhorar o desempenho econômico dos produtores, conservar recursos naturais e atender à demanda global por produtos sustentáveis, com destaque para a capacidade de sequestro de carbono das fazendas avaliadas.

Para concluir, os resultados do estudo também ressaltam o potencial de sinergia entre a cafeicultura e os investimentos verdes. Iniciativas como a recuperação de pastagens degradadas não apenas reforçam o compromisso ambiental, mas também posicionam o Espírito Santo como um líder em práticas de café sustentável globalmente. Este esforço coletivo demonstra o papel vital do setor agrícola no enfrentamento dos desafios climáticos e na preservação de recursos naturais para as futuras gerações.

Confira a apresentação dos resultados aqui. O texto completo está no site do Cecafé.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Agência Ophelia

Cafezal

“Nosso negócio é uma fábrica a céu aberto, vulnerável ao clima”, diz o cafeicultor Lucas Venturim

Em entrevista à Espresso sobre a quebra de safra no Espírito Santo, o premiado produtor de conilons capixaba diz que os preços de canéfora no mercado têm que subir, senão os cafeicultores terão de “fechar a porteira”

Lucas Venturim, cafeicultor na Fazenda Venturim

O mercado interno e as bolsas internacionais começam a sentir os efeitos das mudanças climáticas na safra 2024/25 no Espírito Santo. Em entrevista à Espresso, Lucas Venturim que, ao lado do irmão Isaac, produz premiados conilons na fazenda que carrega o sobrenome da família, em São Domingos do Norte, traça um panorama dos efeitos das mudanças climáticas na região, por calor e chuva fora de época.  

O que está acontecendo para que haja a quebra de safra no Espírito Santo?

Venturim: Este ano, estamos enfrentando as consequências da quebra de safra. Em julho do ano passado, no final do inverno e durante nossa colheita no Espírito Santo, em lugar do típico inverno seco, as chuvas caíram entre julho e agosto. Isso fez com que os pés de café, já estressados pela seca nos meses mais frios de maio e junho, “pensassem” que a primavera estava começando e iniciaram a floração.

Contudo, as chuvas não pararam, o que é prejudicial para nós que cultivamos conilon. Ao contrário do arábica, o conilon depende fortemente da polinização cruzada, seja por abelhas ou pelo vento. Chuva sobre as flores abertas significa que o pólen é lavado – dizemos que a chuva “mela” a flor. Além disso, as abelhas e outros insetos polinizadores não voam nesse tempo. O resultado é que essa chuva precoce comprometeu a polinização dessas floradas, que foram frequentes devido às chuvas irregulares. Em muitas delas, a chuva causou danos tanto à qualidade do café, por falta de homogeneidade na frutificação, quanto à efetividade da polinização.

Quando esperávamos que começasse a chover, no início da primavera e do verão, não choveu. Parou de chover em um período que, geralmente, é chuvoso. Novembro e dezembro são os meses mais chuvosos do ano para nós, assim como janeiro. E enfrentamos uma grande estiagem, de setembro até meados de dezembro. Foram meses extremamente quentes, sem nenhuma chuva. Isso causou abortamento e má formação dos frutos que tinham sido polinizados. Vimos muitos frutos caindo logo depois, em janeiro. As chuvas voltaram ao normal em janeiro e fevereiro, mas já era tarde demais, pois muitos frutos já haviam sido perdidos ou estavam mal formados. Portanto, o que estamos colhendo agora reflete essas anomalias que tivemos no meio do ano passado, resultando, infelizmente, em uma safra ruim, como esperado.

O que vocês estariam fazendo e obtendo, nessa época do ano, em  uma safra regular?

V: Em termos das atividades, tudo está acontecendo conforme o esperado.

Iniciamos a colheita no período habitual. No entanto, estamos observando uma quantidade significativa de frutos mal formados. Frequentemente, ao colher um fruto aparentemente maduro, descobrimos que ele está sem semente ou com a semente murcha e mal formada, o que é especialmente evidente no processo de descasque do café.

Estamos enfrentando uma perda considerável durante o processamento. Há muitos frutos compostos apenas por casca, sem qualquer semente presente.

Além da má formação, já enfrentávamos problemas com a frutificação e a polinização, o que dificultou a fixação das floradas. 

Trata-se de uma combinação de fatores que está impactando o rendimento de modo negativo.

Quais as consequências para os produtores e para os mercados nacional e internacional?

V: A consequência é isso, a frustração de safra. Nós já vínhamos de uma safra pequena no ano anterior. Então, esperávamos que esse ano a safra fosse boa, porque as plantas estavam descansadas, vamos dizer assim. E realmente a lavoura está bonita, porque choveu bem em janeiro e fevereiro, como disse. Mas não tem realmente muitos frutos. E vamos ter uma quebra de safra considerável na região (eu não saberia dizer em termos de Brasil). Nossa economia gira em torno do café, porque todos aqui produzem o grão.

Essa quebra já começou a refletir nos mercados nacional e internacional. Só este ano, a bolsa de valores em Londres, que é referência para os cafés canéfora, chegou a subir 45%. Acredito que o Vietnã vai enfrentar o mesmo problema, porque o período de florada já passou com a seca forte que enfrentaram. Então, quando eles forem colher os frutos, mais perto da virada do ano, acredito que essas mudanças climáticas irão interferir. 

O pessoal diz que o preço do canéfora subiu. Mas não subiu tanto a ponto de compensar uma frustração de safra nos dois últimos anos. Nós perdemos meia safra. Se somarmos a perda do ano passado e a perda mínima deste ano, que ainda vai ser apurada (pelo que já vimos, será de pelo menos meia safra), é uma quebra considerável. E não temos margem para absorver isso. Então, o preço de mercado tem que subir para compensar o produtor, senão ele terá que fechar a porteira, porque não vai ter mais como tocar a fazenda.

A gente tenta compensar, caprichando nos cafés que conseguimos colher. Vamos tentar fazer o melhor possível quanto à qualidade para poder tirar dos frutos seu melhor potencial. É o que dá para fazer.

Lucas e seu irmão, Isaac Venturim (à esq.)

Quais as soluções para minimizar efeitos assim no futuro?

V: É difícil dizer, principalmente devido à questão climática, sobre a qual temos pouca influência. Mesmo com previsões meteorológicas que não oferecem muita antecedência, as opções de ação são limitadas. Por exemplo, nossa lavoura é totalmente irrigada.

Utilizamos sistemas de irrigação avançados, do tipo israelense, que maximizam o uso da água e otimizam a fertirrigação, com nutrientes aplicados por meio da água, como se fosse uma hidroponia. Também intercalamos árvores entre as culturas para reduzir a temperatura média e a evapotranspiração, além de adotar diversas práticas de preservação de água e sustentabilidade.

Trabalhamos com polinização assistida, introduzindo mais abelhas durante a florada para melhorar a polinização. Mas, frente ao clima, essas medidas apenas mitigam o problema e não oferecem soluções definitivas. Por exemplo, a irrigação melhora a situação em comparação a sistemas não irrigados, mas não substitui a sombra natural das nuvens. Mesmo irrigando os cafezais, se a temperatura atingir 42ºC ou 43ºC, a técnica não fará milagres – os frutos serão danificados de qualquer forma.

Continuamos a trabalhar com limitações como esta, conscientes de que estamos à mercê da natureza. Nosso negócio é como uma fábrica a céu aberto, extremamente vulnerável a fatores climáticos.

“A luta também deve ser por uma política de seguro rural mais robusta no país. Atualmente, ela é insuficiente, e deixa o produtor rural totalmente exposto a essas condições climáticas imprevisíveis.”

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Agência Ophelia

Cafezal

Nescafé e Instituto Biológico realizam 17º Sabor da Colheita no sábado (25)

No próximo sábado, 25 de maio, a Nescafé, em parceria com a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, apresenta a 17ª edição do Sabor da Colheita. O evento, que acontece anualmente no Instituto Biológico, na capital paulista, simboliza o início da colheita cafeeira no estado.

Além da experiência de estar em um cafezal e de colher os frutos com as próprias mãos, os participantes também podem acompanhar workshops e oficinas gratuitas, ministradas por profissionais do mercado, e degustar cafés da Nescafé e de outros produtores regionais. 

Confira a programação da edição:

Oficinas (inscrições aqui)
9h, 11h e 15h30 – Oficina de colheita
10h, 11h, 13h, 14h e 15h – Oficina de abelhas, com Meliponicultura
13h30 – Oficina de compostagem, com Lara Freitas (Ecobairro)
12h – Plantio de mudas, com Francisco de Assis Leitão Moraes
10h, 13h, 14h e 15h – Oficina de bebidas com café
11h30 – Oficina “Coleção AgroSP na mesa – aula demonstrativa de pão e patê de café com degustação”
16h – Projeto “Empreendedorismo inclusivo: vamos beber um café”, com Marcelo Votta

Palestras
10h – “Nematoides do café”, com Claudio Marcelo Gonçalves de Oliveira (Instituto Biológico)
10h30 – “Cafés resistentes a nematoides – novo cultivar IAC Herculândia multirresistente a nematoides”, com Oliveira Guerreiro Filho (Instituto Agronômico – IAC)
11h – “Coleção AgroSP na mesa – Café”, com Camila Kanashiro (Coordenadora Estadual de Segurança Alimentar – Cosali) e Emilio Bocchino Neto (Codeagro)
14h – “Café e saúde”, com prof. Antônio Laurinavicius (Instituto Dante Pazzanese)
14h30 – “Café e as mídias”, com Sergio Parreiras Pereira (IAC)
15h – “A evolução dos hábitos de consumo de café”, com Celso Vegro (IEA)

Exposição
9h às 17h – Exposição e venda de produtos artesanais

Serviço
17ª edição do Sabor da Colheita
Quando: 25 de maio
Horário: das 9h às 17h
Onde: avenida Conselheiro Rodrigues Alves, 1.252 – Vila Mariana – São Paulo (SP)
Informações: www.biologico.agricultura.sp.gov.br
Entrada gratuita

TEXTO Redação • FOTO Agência Ophelia

Cafezal

Conheça a Guatemala cafeeira em números

País é o quarto produtor mundial de arábicas, e tem 97% do café produzido por pequenos agricultores

O mapa das regiões cafeeiras da Guatemala foi atualizado pela Anacafé (Associação Nacional de Café da Guatemala), que apoia cafeicultores com programas e serviços de extensão. Alguns dos dados seguintes constam, também, do relatório anual da FAS/USDA (Foreign Agriculture Service, ou Serviço de Agricultura Estrangeira do  Departamento de Agricultura dos EUA, que, entre outras funções, coleta, analisa e difunde informações sobre mercados globais para produtos agrícolas).

Os resultados mostram mais de 251 mil hectares de plantações e quase 125 mil novos hectares de plantio. Para 2024/25, a previsão é de 376 mil ha plantados, com 1,6 bilhão de cafeeiros maduros. 

Os arábicas são 99% da produção de cafés na Guatemala, e se destacam pela qualidade e sustentabilidade dos grãos. Quase todos os produtores são pequenos (97% do total) e enfrentam custos altos e desafios logísticos, além de reduzirem a fertilização dos cafezais e explorem tecnologias de baixo custo.

Grãos orgânicos selecionados e despolpados por trabalhadores e voluntários na Guatemala

A produção total de café verde do país caiu ligeiramente em 2023/24, para 3,25 milhões de sacas. A falta de mão de obra aumenta problemas como doenças e pragas.

Em 2022/23, o volume de cafés exportados fez com que a Guatemala se tornasse o quarto maior exportador de arábica, com os EUA sendo o seu maior importador. Nesse ano, porém, as exportações até agora caíram 10%. As de café solúvel, porém, aumentaram 6%, e as de café torrado, 11%.

No âmbito local, o consumo de café deve se manter estável em 651 mil sacas em 2024/25. O café solúvel lidera o mercado interno, com 58% do consumo total da bebida no país.

TEXTO Redação / Fonte: Coffee Daily News • FOTO Wikimedia commons

Cafezal

Estudo comprova desmatamento próximo de zero na produção de robustas amazônicos em Rondônia

Resultados de um estudo publicado hoje pela Embrapa comprovam que a cafeicultura atual das Matas de Rondônia (RO) ocupa apenas 0,57% da área que foi desmatada para o plantio dessa cultura – o que representa menos de 195 hectares

O mapeamento, inédito, revela o uso e a cobertura das terras da região – a primeira denominação de origem (DO) de canéforas sustentáveis do mundo –, e tem como objetivo imediato a produção de informações para a exportação dos grãos para a Europa exigidas pelo Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (European Union Deforestation Regulation ou EUDR). A área de plantio dos robustas amazônicos abrange 0,8% das Matas de Rondônia.

Dos 15 municípios que compõem a DO, sete não sofreram desmatamento para o plantio do grão, enquanto em cinco deles, o desmatamento variou de 2,2 a 5,5 hectares (após 2020). 

A Europa é o maior consumidor dos cafés brasileiros, e o mapeamento combinou o uso de geotecnologias e dados de várias instituições (Inpe, Incra, Ministério do Meio Ambiente e Funai) para traçar o panorama da produção cafeeira nesta origem e sua relação com o desmatamento ou degradação florestal entre 2020 e 2023.

A geração dos mapas traz a localização e o tamanho das áreas de pastagens, corpos d’água e floresta –, bem como a quantidade e o tamanho de propriedades produtoras de café, de modo a confirmar se houve desmatamento ou degradação da mata nas zonas cafeicultoras a partir de 31 de dezembro de 2020, como exige a legislação – que incide sobre sete commodities agrícolas produzidas na zonas tropicais.

Para o mapeamento, a análise e o processamento dos dados, foram utilizados o Google Earth Pro e a plataforma Google Earth Pro (GEP). O mapeamento selecionou somente propriedades dedicadas ao cultivo de café, a partir de dados de todas as propriedades rurais declaradas em cada um dos 15 municípios das Matas de Rondônia. Dos 37 mil imóveis registrados, 8,4 mil (22,4 %) dedicam-se à cafeicultura. 

A expectativa dos pesquisadores que conduziram o estudo é, também, que os resultados obtidos estimulem o Estado a restaurar áreas já degradadas e que ampliem a confiança daqueles que investem, comercializam e consumem os robustas amazônicos. 

Sobre as Matas de Rondônia e seus cafés

Matas de Rondônia é uma região com Indicação Geográfica para cafés, e inclui 15 municípios.  O selo IG, concedido em 2021, qualifica a área como Denominação de Origem para Robustas Amazônicos – a primeira DO sustentável de cafés canéfora do mundo. 

Os robustas amazônicos são híbridos das variedades conilon e robusta, com predominância das características desta última, e considerados cafés de qualidade (com 80 pontos ou mais, num total de 100). A base da cafeicultura da região é familiar. Rondônia é o segundo maior produtor de canéfora e o quinto maior produtor de café do Brasil. 

A Europa compra cerca de metade do café brasileiro. Uma das preocupações de Rondônia com a lei europeia é que a maioria dos cafeicultores, que são pequenos proprietários, não consigam atender às exigência da regulamentação, que implica em investimento em tecnologia e custos altos.

A região das Matas de Rondônia é considerada o berço e a origem dos robustas amazônicos. Ela abrange 17% da população agrícola do estado e 20% de toda a mão de obra empregada na agricultura

A cafeicultura ocupa 34 mil dos 4,2 milhões de hectares das Matas de Rondônia (0,8%). Nos últimos anos, a produção dos robustas amazônicos gerou um ganho de produtividade de quase 500% – uma redução de cerca de 80% na área cultivada em relação à década de 1980. Segundo o estudo, a moderna cafeicultura na Amazônia pode ser considerada uma cultura “poupadora de terras“, já que  as boas práticas agronômicas, aplicadas na última década na produção dos robustas amazônicos, foi responsável por essa redução.

Os pesquisadores afirmam que a expansão da cultura do café pode avançar sobre as pastagens localizadas em áreas degradadas. Esses locais são planos (o que possibilita a mecanização) e tem condições climáticas ideais para o plantio do grão. 

Eles calculam que, se a cafeicultura avançar por 25% desses terrenos (que somam 475 mil hectares), Matas de Rondônia será capaz de produzir, em pouco tempo, mais de 26 milhões de sacas de café – o rendimento médio na região é de 52 sacas por hectare, segundo a Conab. “Isso significa que a região das Matas de Rondônia, sem desmatar nem um hectare de floresta, poderia ter uma produção parecida com a do Vietnã”, relatam os cientistas, referindo-se ao maior país produtor de canéforas do mundo.

Diferentemente de outras regiões cafeicultoras do Brasil, mais da metade do território das Matas de Rondônia (56%) é ocupado por florestas nativas primárias, que foram preservadas pelos povos indígenas de seis grandes reservas, localizadas em sete municípios.

Os canéforas da região, por sua vez, beneficiam-se da proximidade da floresta, que fornece um ambiente com umidade elevada e temperaturas constantes, além de entregar abelhas e inimigos naturais das pragas que atingem os cafezais. 

Grande parte da cafeicultura das Matas é manejada em propriedades com até 12 ha, sendo que a lavoura ocupa algo em torno de 3,3 ha. O restante é, geralmente, coberto por áreas de pastagens e florestas. Ainda segundo o levantamento, os cafezais podem gerar créditos de carbono florestal, o que pode encorajar formuladores de políticas públicas a promoverem a restauração ambiental, conservando a biodiversidade da região e, com isso, mitigando os efeitos das mudanças climáticas.

TEXTO Cristiana Couto

Cafezal

Feira da SCA vai arrecadar recursos para o plantio de 6 mil árvores em países produtores de café

O evento começa sexta (12) em Chicago, e busca compensar 2 mil ton de emissões de CO2

Neste ano, o lado verde da Specialty Coffee Expo, que acontece  de 12 a 14 de abril em Chicago, nos Estados Unidos, está mais evidente, informa o site Global Coffee Report. Denominada Expo Sustentável, o evento, que é a maior feira de café B2B da América do Norte, alinhou parcerias para criar uma estratégia diferente de compensação ecológica para promover a distribuição equitativa de valor na cadeia produtiva do café.

A ideia é implementar sistemas agroflorestais para o sequestro de CO2, mirando compensar de 1.600 a 2 mil toneladas de emissões. O plano será apresentado no evento e o apoio financeiro recebido será destinado a 150 fazendas cafeicultoras latinoamericanas para o plantio de 6 mil árvores nativas que contribuam com a saúde do solo, a redução de erosões e o sequestro de carbono. 

As fazendas contempladas estão em países como Colômbia, Equador, El Salvador, Guatemala, México, Nicarágua e Peru, que disporão também de mais acesso a conhecimento e treinamento técnico para enfrentar as mudanças climáticas.

Os parceiros são Caravela Coffee (exportadora e importadora de cafés verdes da América Latina), Pacific Foods Barista Series (fornecedor de alimentos plant-based) e Barista Attitude (fabricante de máquinas de café).  

Brasil

A participação do Brasil também será inovadora. A Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), por exemplo, vai  apresentar seu protocolo de avaliação de cafés torrados em palestra na sexta (12), às 13h. O Protocolo Brasileiro de Avaliação Sensorial de Cafés Torrados, formulado com o uso da Inteligência Artificial, terá como guia a especialista em análise sensorial de cafés e consultora de qualidade da ABIC, Camila Arcanjo. Entre as falas programadas estão as diferenças entre estilos de cafés, principais características de qualidade do grão no pós-torra e as preferências do mercado brasileiro. 

Camila Arcanjo, especialista em análise sensorial de cafés e consultora de qualidade da ABIC

Já o Pavilhão Brasil na Specialty Coffee Expo 2024, da BSCA (Associação Brasileira de Cafés Especiais), participa destacando as origens produtoras do grão no Brasil a partir da exploração dos perfis sensoriais dos cafés de 15 IGs. A degustação acontece no Brew Bar do espaço. Os expositores brasileiros também irão transmitir aos visitantes informações sobre os métodos de cultivo e de processamento dos cafés brasileiros. 

Por fim, vale reforçar a disputa de dois baristas do Brasil nas fases mundiais do World Coffee Championships, Dionatan Almeida (Cup Tasters Championship) e Rubens Vuolo (Brewers Cup).

A expectativa, também, é que a edição de Chicago bata recordes em termos de espaço para expositores e número de participantes. 

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Cafezal

“Há uma distância entre produção científica e sua aplicação industrial”

Referência mundial em pós-colheita de cafés especiais, o pesquisador Flávio Borém aplica tecnologia inovadora não só no campo, mas nos grãos que vende em sua cafeteria, em Lavras (MG)

Com fala mansa e didática nas palestras que profere, o engenheiro agrônomo Flávio Meira Borém, da Universidade Federal de Lavras (UFLA), prende a atenção de um público diverso. Mas o cientista mineiro, doutor em produção vegetal e com quase 30 anos de pesquisas em cafés especiais, também atrai a comunidade científica global com os artigos que publica. Seu trabalho, porém, não fica preso ao papel, já que Borém leva o conhecimento que produziu na universidade para o campo, como consultor especialista em pós-colheita de grãos de qualidade.

Autor de Tecnologia pós-colheita e qualidade de cafés especiais, lançado em 2023, e editor-chefe da Coffee Science, revista técnico-científica de cafeicultura, Borém não para de quebrar paradigmas. Como em 2015, no Re:co Symposium, evento internacional com líderes e especialistas da indústria de especiais. Em sua exposição, o cientista demonstrou que a consistência e a qualidade dos cafés depende da integridade das membranas celulares dos grãos, qualquer que seja o método de processamento, quebrando o paradigma de que cafés naturais são inferiores em qualidade. Entre suas inovações recentes está uma linha de cafés especiais – um, com alto teor de cafeína e outro, com atividade antioxidante (a partir de frutos imaturos) –, que serve na Borém Cafés Especiais, cafeteria e torrefação que abriu há pouco mais de dois anos em Lavras (MG). O próximo projeto é desenvolver um secador para cafés especiais. A seguir, a entrevista remota com Flávio Borém.

Espresso: Em seu livro, você destaca a relevância da composição do solo na qualidade do café. O que descobriu sobre essa relação?

Borém: Não há consenso entre pesquisadores da verdadeira contribuição de fertilidade e nutrição das plantas no sensorial da bebida. O que há de novo é a ampliação da visão do papel dos solos. Recentemente, encontrei trabalhos dos especialistas em solos José Marques Júnior e Diego Siqueira, da Unesp de Jaboticabal, sobre a mineralogia da argila. Argila é uma fração do solo (que tem, ainda, areia e silte) composta por minerais. O que importa não é só a quantidade da argila, mas também a qualidade dela, que cria uma interface entre os sistemas solo e planta, absorvendo fósforo e fazendo trocas catiônicas, por exemplo. Ou seja, tudo passa através dela.

Tradicionalmente, a microbiologia do solo é considerada o ponto mais importante para a qualidade, mas tudo o que existe no solo depende, originalmente, da rocha de origem e dos fenômenos geológicos que a formaram. Com isso, temos a fertilidade e a nutrição do solo.

Fiz um trabalho na Mantiqueira para o pedido da D.O. e esses dados foram disponibilizados para a equipe do Marques – que coletou, novamente, os solos no mesmo ponto geográfico. Cruzamos esses dados e o resultado foi um mapa de qualidade da argila. Descobrimos que a tipologia da argila é o principal componente na distribuição espacial da qualidade do café.

E: O que isso significa, na prática?

B: A partir desse mapeamento tipológico, identificamos em fazendas, ou áreas maiores, terroirs com maior potencial para cafés especiais, além de podermos recomendar variedades – o que não quer dizer, necessariamente, que o café terá mais qualidade, pois essa construção acontece ao longo de todos os processos. Porém, a formação de precursores no café depende da tipologia da argila. Esse conhecimento é uma ferramenta poderosa de precisão nas recomendações agronômicas, permitindo tomadas de decisão melhores. Com ela, ganhamos em manejo, redução de custo de produção e potencialização da qualidade sensorial dos grãos.

Já temos dados reais do uso dessa prática em São Tomé das Letras [Minas Gerais]. Lá, os produtores já conheciam um talhão famoso por produzir especiais. Depois do mapeamento, identificamos outros, dos quais eles nunca imaginaram obter qualidade.

E: Há outra quebra de paradigma sobre a tipologia da argila do solo, não é?

B: É a famosa relação altitude e qualidade. Dependendo da argila, produz-se especiais mesmo em altitudes mais baixas. É aí que a coisa muda: se a argila é favorável, o café bebe bem mesmo em altitudes entre 900 e 1.000 m. A tipologia da argila tornou-se mais relevante do que a latitude, que sempre deve ser considerada. Atualmente, 60% a 70% da resposta sobre porque há áreas melhores e piores para o cultivo está na tipologia da argila.

Até recentemente, a metodologia para conhecer solos vinha dos Estados Unidos e da Europa. Mas os solos de lá são de clima temperado, e a metodologia não era assertiva para climas tropicais como o nosso. O diferencial da equipe do Marques e da empresa parceira Quanticum é ter uma metodologia científica genuinamente brasileira, já patenteada, para aferir a tipologia de solos tropicais. Pode-se com ela, por exemplo, emitir certificados com o tipo de solo em que o café foi produzido, o que é um diferencial de marketing, e usá-la para créditos de carbono.

E: Você diz que análise de risco é uma ferramenta pouco explorada em projetos de pós-colheita. Por quê?

B: Quando produtores e técnicos tomam uma decisão, intuitivamente fazem uma análise de risco. Mas grandes empreendimentos de outros setores já usam uma matriz de análise de risco para tomadas de decisão. Aparentemente assertivas, as decisões na cafeicultura, feitas na base da opinião, têm custo ou risco altos, e não estão sendo claramente avaliadas. Por praticamente 30 anos, as coisas foram assim. Certa vez, ao elaborar respostas sobre que decisões podiam ser tomadas pelos produtores, percebi que estava fazendo uma análise de risco, e coloquei essa lógica no papel. Essa matriz de análise de risco que montei auxilia, simplificadamente, tomadas de decisão mais assertivas.

E: Como funciona essa matriz?

B: Ela é personalizada, pois considera uma fazenda, em tal região, como um sistema. Cada produtor vai responder de uma maneira. A matriz avalia riscos econômicos, riscos biológicos e impactos no aspecto do grão e na qualidade da bebida. Quanto menor for o risco de deterioração do café, do ponto de vista microbiológico e sanitário, e maior for a sua uniformidade, maior a chance de eu recomendar determinada tecnologia. É simples e assertiva.

E: Existem várias nomenclaturas para os processamentos do café, dependendo da região, do país e da literatura consultada. Que saída você encontrou para esclarecer esse conhecimento?

B: As pessoas criam nomes diferentes para os mesmos processamentos. Respeito jargões diferentes, pois isso é cultural. Mas, dependendo para quem se fala, a confusão pode ser enorme. Com base nisso, olhei para a anatomia do fruto. Método de processamento significa como o café chega ao setor de secagem. Há mais de 200 anos, deu-se o nome de via seca ao fruto que ia diretamente da colheita ao terreiro. Se ele chega ao terreiro misturado (verde, maduro, seco), é uma via seca com uma mistura de frutos.

Mesmo que ele passe pelo lavador, que separa o grão pelo estádio de maturação antes da secagem, o método ainda é chamado de via seca. Então, quem entra no mundo do café aprende que via seca é um processo que utiliza água! Daí, tenho que explicar que o processamento ainda carrega esse nome por motivos históricos.

Daí, pensei: e se eu chamar isso de secagem do fruto integral? Independentemente do seu estádio de maturação, um dos processamentos é a secagem da fruta inteira, com todos os seus componentes anatômicos (chamam genericamente esse método de unwashed coffee, dry method, via seca ou café natural). Comercialmente, prevalece a designação café natural. Tecnicamente, seria interessante chamá-lo integral, como arroz integral, porque não se tirou nada do fruto. Tudo começa, então, pelo entendimento da anatomia do fruto. A partir disso, não há discussão: o café integral (maduro, verde, seco ou passa) é levado para secar. Se houve colheita seletiva, ele tem homogeneidade e pode ser um natural de maior qualidade, porque o diferencial está no tipo de colheita.

Na literatura internacional, a maioria refere-se ao natural como café de baixa qualidade. É uma concepção histórica, pela qual o Brasil ficou conhecido – considerando o café natural como a secagem do fruto integral ou a mistura de frutos com diferentes maturações. Mas há naturais tanto de altíssima qualidade quanto de baixíssima qualidade.

E: E como você simplificou essa nomenclatura?

B: O café tem, basicamente, quatro tecidos: a pele, que é epiderme ou exocarpo (e não casca), o mesocarpo, o pergaminho e a semente. Portanto, só há quatro método de processamento, dependendo do que se remove ou se mantém no fruto que vai para a secagem. Se ele chegou ao setor de secagem com semente, pergaminho e um pouco de mel, passou por um método de processamento que removeu o exocarpo e, parcialmente, o mesocarpo, e que leva o nome de honey (CD, semi washed ou semi dry). Esse é o café em pergaminho – ou com mel, mucilagem ou parte do mesocarpo, não importa: tecnicamente, é o mesmo no mundo inteiro.

Pode-se, também, remover todo o mel ou mucilagem, e o café seca só com pergaminho. Como se remove essa mucilagem? Por fermentação ou mecanicamente. Só há esses dois jeitos. Pronto, separamos e descrevemos os processamentos. Na Indonésia, há mais um método: o café chega em pergaminho, há uma meia seca para
retirá-lo e a secagem é finalizada só com a semente. É o quarto processo. Assim, há uma simplificação técnica na comunicação do método de processamento. Ninguém vai discutir o nome daquele tecido – mucilagem, mel ou mesocarpo.

E: Existe, quimicamente, diferença entre polpa e mucilagem?

B: Depende da referência utilizada para descrever a composição química do mesocarpo. O café é uma drupa, parecida com o pêssego e a ameixa, e, por definição, tem por característica um mesocarpo carnoso – a polpa. Há técnicas que removem a polpa (mesocarpo) do café, mas não há como removê-la separadamente da pele (exocarpo) do café, que é muito fina. Então, na prática, o que acontece quando há despolpamento? A remoção do exocarpo, de parte do mesocarpo e dos feixes vasculares. A esse conjunto de tecidos, historicamente, deu-se o nome de polpa, mas, do ponto de vista botânico e anatômico, não é. A rigor, polpa é só mesocarpo.

Quando o fruto é verde, esse mesocarpo é um tecido único. Mas, quando acontece a maturação, há uma ação da pectina do exterior para o interior do fruto que deixa o mesocarpo mais liquefeito na porção externa e mais mucilaginoso, com mais pectina, próximo ao pergaminho. Por isso, muitos acreditam em dois tipos de mesocarpo. Mas o tecido é um só.

Ao analisarmos esta “polpa” (exocarpo, parte do mesocarpo e feixes vasculares), sua composição química é a mesma. Mas, se isolarmos o mesocarpo (que é a “mucilagem”), a composição química é outra. A riqueza da polpa e de suas aplicações abre possibilidades para outros usos além da sua utilização, depois de apodrecida, como adubo. No chá de cáscara, por exemplo, a polpa toda está lá.

E: Você investiga os usos potenciais da polpa?

B: Durante uma de minhas pesquisas, percebi que a polpa tinha uma característica diferente da cáscara. O termo cáscara, ou chá de cáscara, vem da Bolívia. Lá, as mulheres que separam o café vendem as sementes, mas ficam com a polpa, que secam ao sol e bebem. Essa popular infusão da polpa seca ao sol é, tecnicamente, uma infusão desidratada do café cereja. Essa cáscara é preta. Mas com a tecnologia que desenvolvemos e patenteamos, ela fica vermelha. Com ela, faço um chá: quem prova jura que está chupando a cereja do café. Fiz testes e cheguei a uma infusão dessa casca, dessa pele com polpa, que é um chá do café cereja. Já estamos na fase de pré-industrialização para lançá-lo como bebida pronta, um ready to drink.

E: Em 2022, numa parceria público-privada (PPP), você desenvolveu uma técnica para utilizar frutos verdes na produção de cafés especiais. Outra quebra de paradigma?

B: É uma inovação. Desenvolvi na UFLA uma tecnologia para produzir um café especial com maior atividade antioxidante, nutracêutico, com quase 50% de café imaturo. Com essa patente, que está licenciada por uma empresa multinacional [Syngenta], estamos produzindo café com altíssima atividade antioxidante. Além de os frutos imaturos serem benéficos à saúde, como sua ação antioxidante, utilizá-los é aproveitar cafés de uma fazenda, já que nenhuma produz só especiais. Com esse novo manejo pós-colheita, há um upgrade econômico, pois cafés imaturos que iriam para a indústria tradicional passam a ser especiais. Além de adiantarmos a colheita, há perda menor de frutos.

E: Durante muito tempo acreditou-se que secadores mecânicos não produziam qualidade em cafés. Isso já caiu por terra?

B: No meio científico, há muito tempo. A ciência vem trazendo muitas contribuições para o setor, mas há uma distância grande entre a produção do conhecimento científico e sua aplicação industrial. Mas, veja que inovador: recentemente, recebi o convite de uma empresa do Paraná, que faz equipamentos de alto nível, para desenvolver, em parceria, um secador destinado à produção de especiais. Começamos a colocar o projeto no papel.

E: Por que essa concepção mudou?

B: Principalmente pelo desenvolvimento de novos conhecimentos. Na cafeicultura, a inovação nos equipamentos é precária, pois a indústria brasileira investe pouco em secagem de cafés. Os equipamentos são praticamente os mesmos há décadas. Quando muito, há empresas de fora do setor que lançam novidades – como automação em controle do sistema de secagem. Isso ajudou, porque as duas principais causas de perda de qualidade do café na secagem artificial são danos térmicos e os causados por taxa de secagem elevada.

Na secagem em terreiro, leito suspenso ou estufa, o maior risco são as variações climáticas. Umidade relativa muito alta e secagem muito longa podem comprometer a qualidade. Secador pode produzir especiais? A princípio, sim, desde que se compreenda a mecânica, o fluxo de ar e o controle de temperatura (o café deve estar a, no máximo, 40°C), para que a secagem esteja nos parâmetros recomendados. Se a secagem em camas africanas ou estufas for lenta, a chance é bem maior.

Há, assim, sistemas de baixo risco e que precisam de pouco conhecimento e, de outro lado, equipamentos que podem colocar o café em alto risco se não soubermos manejá-los bem. Se o equipamento tem condições técnicas e o produtor sabe usá-lo, pode-se produzir qualidade. Se isso não fosse verdade, países da América Central e a Colômbia, que praticamente não conseguem secar cafés ao sol, não teriam grãos especiais.

Uma boa combinação é fazer uma parte da secagem ao sol, em terreiro, e terminá-la num secador. Nossa vantagem é termos muitas áreas de clima seco e com muito vento. Assim, no início da secagem, a água evapora facilmente com insolação e vento. Depois, economiza-se energia com finalização por secagem artificial, reduzindo o risco de expor o produto a alterações climáticas.

Mas, e se existir um secador que dispense terreiro e produza cafés especiais? Hoje em dia, não há como incentivar grandes áreas de secagem ao sol em terreiro, não é viável. Produtores pequenos, médios ou grandes estão passando por uma crise de sucessão familiar e de disponibilidade de mão de obra. Esse é meu projeto: abrir a mente das pessoas para um secador pensado para especiais, que não vai garantir, mas vai permitir a produção de lotes com qualidade consistente, dispensando terreiro. É o sonho de todo produtor. A previsão é analisar os primeiros protótipos e instalar nas fazendas os primeiros equipamentos para comercializá-los até 2026.

Interior da Borém Cafés Especiais, cafeteria e torrefação da família

E: Em 2021, você abriu uma torrefação e cafeteria em Lavras, a Borém Cafés Especiais. Que cafés você torra e oferece?

B: A Borém é uma forma concreta das pessoas terem acesso a tudo o que aprendi e escrevi. Nossa missão é oferecer saber, sabor e saúde no mesmo lugar. Há dois grandes grupos de café torrado. Um que faz com que externalizemos nossa percepção e outro com o qual buscamos um diálogo conosco. No primeiro grupo estão cafés raros, reservas e microlotes e, no segundo, cafés aconchegantes, adocicados e levemente ácidos. Estes são, respectivamente, nossos cafés das linhas Reserva e Clássica. Temos ainda a linha Saúde, especiais com maior teor antioxidante ou com maior ou menor teor de cafeína, para quem tem questões de saúde com ela. Pessoas que frequentam academia e ciclistas costumam tomar cafeína sintética, que é um perigo para a saúde. Oferecemos, então, um blend de arábica e canéfora com cafeína prontamente disponível. Elas bebem um café de verdade, especial e ganham uma dose considerável de cafeína. Pretendo trazer, em breve, conhecimento acessível sobre torra para desmistificar esse universo, onde há muita informação empírica e sem questionamentos. Minha natureza é questionar: não é à toa que sou pesquisador.

Quer ler mais sobre o assunto? Acesse aqui a continuação da entrevista com Flávio Borém.

Texto originalmente publicado na edição #83 (março, abril e maio de 2024) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Divulgação

CafezalMercado

Nespresso quer gastar US$ 20 milhões para desenvolver cafés no Congo

A Nespresso anunciou hoje (27/3) que pretende gastar US$ 20 milhões entre compras de café e fornecimento de assistência para a República Democrática do Congo, na África. Quer, também, ajudar na arrecadação da mesma quantia  para apoiar o setor cafeeiro na região leste do país. O compromisso faz parte do programa contínuo da Nespresso, “Revivendo Origens”, que assiste áreas produtoras afetadas por desastres naturais ou questões sociais. 

Já houve auxílio da empresa na região em 2021, por meio de aliança financiada pela USAID, a Aliança do Café Gorila. Nessa nova iniciativa, os parceiros, além da USAID e outras instituições, incluem cafeicultores de Kivu, principal área produtora de arábicas, no leste do país. 

Os US$ 20 milhões serão destinados a compras de café cru, a prêmios financeiros relacionados à qualidade e sustentabilidade (AAA da Nespresso) e a projetos em comunidades produtoras de agricultura regenerativa, acesso à água limpa e assistência médica, por exemplo.

TEXTO Fonte: Daily Coffee News • FOTO Daniel Fontes