Mercado

3corações compra Yoki e Kitano por R$ 800 milhões

Negócio amplia atuação da empresa no ramo de alimentos 

 

O Grupo 3corações comunicou à imprensa nesta terça-feira (17) a aquisição das operações da General Mills no Brasil, em um negócio avaliado em R$ 800 milhões. A transação inclui marcas como Yoki e Kitano.

O negócio sinaliza a mudança de posicionamento do grupo para um espectro mais amplo do que o café. No mercado brasileiro, a General Mills, uma das maiores empresas globais de alimentos, foca em alimentos básicos, snacks e temperos. “Este é um passo fundamental em nosso propósito de estar cada vez mais próximos da família brasileira, fazendo-nos presentes em diferentes ocasiões de consumo”, afirma Pedro Lima, presidente do Grupo 3corações, em nota.

O acordo prevê a manutenção das marcas, para um crescimento acelerado do negócio. A conclusão da operação depende da aprovação das autoridades regulatórias competentes e outras condições usuais de fechamento.

TEXTO Redação

Cafezalsustentabilidade

OIC lança campanha para destacar papel do café no combate a desafios globais

Estratégia de comunicação para 2026 busca posicionar o café como vetor de desenvolvimento e parte das respostas a questões sociais e ambientais

A Organização Internacional do Café (OIC) lançou, nesta quinta-feira (26), em Londres, a campanha “O café faz parte da solução”, sua estratégia de comunicação global para 2026. A proposta é destacar a importância do café não apenas como produto comercial, mas como vetor de desenvolvimento socioeconômico nas origens produtoras e ator relevante no enfrentamento de desafios globais, como crise climática, sustentabilidade e desigualdade social.

A campanha também quer incentivar a ação coletiva no setor. Por isso, ao longo do ano, vídeos, dados, estudos de caso e interações entre parceiros e membros da organização vão enriquecer a divulgação, nas plataformas digitais da organização, de projetos, iniciativas e resultados que mostram como a colaboração entre agentes dos setores públicos e privados pode transformar estratégias em resultados. A ação vai chamar atenção, ainda, para o papel do setor na preservação do patrimônio cultural, no incentivo à inovação e no fortalecimento de laços entre países produtores e consumidores.

“Por meio desta campanha, queremos mostrar que, quando o setor trabalha em conjunto, o café pode fortalecer a resiliência, melhorar os meios de subsistência e contribuir de forma significativa para as soluções”, disse Vanúsia Nogueira, diretora-executiva da OIC, em anúncio da iniciativa.

Para estimular a comunidade global do café a divulgar exemplos de projetos com impacto social, a campanha destaca o uso da hashtag #CoffeeIsPartOfTheSolution. O vídeo principal da iniciativa, em quatro idiomas, está no canal da OIC no YouTube.

Para estimular a comunidade global do café a divulgar exemplos projetos com impacto social, a campanha destaca o uso da hashtag #CoffeeIsPartOfTheSolution. O vídeo principal da iniciativa, em quatro idiomas, está disponível no canal da OIC do YouTube.

TEXTO Redação

“Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”

Por Celso Vegro

A pandemia produziu um novo contexto para a experiência humana na atual quadra histórica. O ambiente de incertezas firmou-se como alicerce das expectativas que foram recentemente radicalizadas pela gestão previsivelmente imprevisível do mandatário estadunidense. Francamente empenhado no desmantelamento do sistema de governança global, construído pelos EUA no pós-guerra, o ambiente para a tomada de decisões econômicas tornou-se extremamente complexo. 

Ao final de 2025, foi publicado pela Casa Branca o documento “National Security Strategy of USA” que, em suas premissas, regurgita a doutrina Monroe¹, que diz que a América Latina constitui um território “exclusivo” dos interesses estadunidenses. O esforço explícito de Trump é o de deslocar a presença chinesa dos países latino-americanos e priorizar seus interesses, mas, talvez, nem tanto dos países abaixo do Rio Grande ou Rio Bravo, a depender do ponto de vista.

A estratégia norte-americana já rendeu frutos, como no caso do Panamá – retomada da gestão pública sobre o canal, cancelando a concessão que pertencia a uma empresa de Hong Kong –, o bloqueio das remessas de petróleo venezuelano para a China e para Cuba e, por fim, o pacote financeiro para a Argentina em troca da exclusividade para a exploração das reservas de lítio do país pelos EUA. Outras intervenções virão, sobretudo nas eleições da Colômbia² e do Brasil – por acaso, os dois maiores países produtores de café arábica do mundo.

Pois não foi o café um dos produtos³ que levou o mandatário estadunidense a rever o tarifaço impetrado ao Brasil no final de julho de 2025? A elevação de preços do café no mercado dos EUA, trouxe forte indignação ao seu eleitorado, forçando-o a excluir o produto da lista daqueles taxados em 50% para ingresso no mercado norte-americano4

Não poderia haver momento mais inoportuno para o mandatário estadunidense impor tarifas ao café brasileiro. Após seguidos anos de produção mundial abaixo das expectativas, associados ao acelerado consumo de estoques, iniciou-se, no último trimestre de 2024, uma escalada nas cotações do café no mercado internacional, que se manteve até fevereiro deste ano, quando, após quatro safras consecutivas no Brasil, previu-se um volume de colheita próximo ao recorde registrado na safra de 2020/21. 

A retirada das tarifas impostas pelo presidente norte-americano não promoverá um retorno ao status quo anterior de funcionamento do mercado. Ainda que tenha havido perdas econômicas devido à restrição aos embarques para aquele mercado, houve diversificação dos clientes para os produtos brasileiros, ou seja, um rearranjo dos destinos da oferta que, agora, passará a competir pelo suprimento nacional com mercados tradicionais. 

A commodity café tem natureza essencialmente volátil. A espúria intervenção no mercado, afetando sua principal fonte de suprimento global, intensificou movimentos especulativos, trazendo mais imprevisibilidade à formação dos preços do produto. As cotações na Bolsa de Nova York superaram US$ 400 por libra-peso, elevando os preços no mercado interno a patamares acima de R$ 2.500 a saca. A transferência para os preços no varejo foi imediata, com drásticas repercussões sobre a demanda.

Assim, dados recentes da Conab5 indicaram que a colheita para o ano comercial 2026/27 poderá alcançar 66,19 milhões de sacas – representando um incremento de 17,1% frente à safra anterior –, distribuídas em 44,10 milhões de sacas de arábica e 22,09 milhões de sacas de conilon e robusta. Tais resultados estão alinhados às mais destacadas previsões das principais companhias exportadoras, como Stonex (70,70 milhões de sacas) e Itau BBA (69,30 milhões de sacas), para mencionar apenas duas das empresas especializadas em monitorar o andamento da safra brasileira.

Apesar do impacto que essa quantidade de café colhido venha tendo na formação internacional dos preços, o resultado mais relevante dessa campanha de previsão de safra da Conab é a expansão de área de cultivo mensurada em 4,1%. Aquilo que pode parecer pouco consiste em uma área adicional de 76 mil hectares! Considerando o patamar tecnológico em que as novas lavouras são implantadas, podemos imaginar médias de produtividade, relativamente conservadoras, em torno de 35 sacas por hectare, o que significa um adicional de 2,6 milhões de sacas ao total da safra.

Ademais, por imposição da legislação europeia, a cafeicultura brasileira já se apropriou plenamente dos mecanismos de rastreabilidade e certificação, que, aliados ao empreendedorismo característico que permeia a realidade atual da atividade agropecuária do país e, ainda, à sua incessante busca por tecnologias que mesclam produtividade com qualidade, conferem um patamar de fortalecimento à atividade, promovendo tanto a confiança internacional como a capacidade brasileira de suprir, em suas especificidades, à demanda internacional e nacional. 

Com essa expansão do plantio forma-se, no Brasil, uma espécie de buffer (colchão) contra as variações cíclicas características do mercado das commodities, sendo o café uma das que exibem esse comportamento mais intensamente. Diante das mudanças climáticas, fenômeno já constatado, é importante que se ampliem as áreas de produção no país para que as periódicas perdas registradas nos últimos anos, tanto aqui como entre concorrentes, possam ser mitigadas pela expectativa de colheita em novas áreas produtivas. 

A persistente elevação do consumo mundial de café, associada à tênue recuperação de estoques que se antecipou a partir do aumento da oferta brasileira, não trará alívio ao mercado, ainda que, momentaneamente, os preços tenham exibido fortes baixas ao longo de fevereiro de 2026. Distúrbios climáticos, decisões político-econômicas erráticas e ilegais, escalada de conflitos geopolíticos e comerciais, enfraquecimento da moeda-referência para o comércio internacional e entesouramento privado deixam o mercado em estado de permanente estresse, significando, na prática, um incremento da volatilidade para as cotações.

A revogação das tarifas decretada pela Suprema Corte estadunidense, com imediata imposição de tarifa global de 15%, poderá beneficiar as exportações brasileiras para os EUA. Sob clima de imprevisibilidade, instabilidade e desconfiança, o mercado demandará mais café, pois, diante de tantos estresses, o produto surge como o elixir capaz de descomprimir esse momento de tantas incertezas. 

E a música, que inspira o título a desta coluna, continua com a estrofe: “Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu a um segundo”.

(Artigo preparado sob inspiração de recentes análises da estudiosa Mônica de Bolle em seu canal para assinantes no Substack).

Celso Luis Rodrigues Vegro é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.


*Trecho da canção “Como Uma Onda (Nada do Que Foi Será)”, de Lulu Santos, do álbum O Último Romântico (1984).

¹ A Doutrina Monroe tinha como um dos seus preceitos base o slogan “América para os americanos”.

² Pouco após o sequestro do mandatário da Venezuela, o ordenador da ação militar na qual tombaram 100 militares daquele país insinuou que a Colômbia poderia ser o próximo país a experimentar algo similar, sob o argumento de suposto combate ao narcoterrorismo.

³ A carne, especialmente aquela empregada na produção de hambúrgueres, acompanhou o café na elevação dos preços no mercado estadunidense. 

4 Em 20 de fevereiro de 2026, os juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos finalizaram seus votos, e a maioria decidiu pela revogação da imposição de tarifas, concluindo que o presidente Trump excedeu sua autoridade ao invocar a lei de emergência econômica. Todavia, o café solúvel brasileiro ainda está no rol de produtos que permanecem sob alíquota de 50%, havendo movimentação diplomática brasileira para sua exclusão do tarifaço

5 Disponível em https://www.gov.br/conab/pt-br/atuacao/informacoes-agropecuarias/safras/safra-de-cafe/1o-levantamento-de-cafe-safra-2026/1o-levantamento-de-cafe-safra-2026. Acesso em 20/02/2026.

Cafezal

Safra brasileira de café deve bater recorde em 2026/27, com 66,2 milhões de sacas

Estimativa da Conab aponta alta de 17,1% sobre 2025/26, impulsionada pela bienalidade positiva, aumento de área, maior tecnificação e clima mais favorável

A safra brasileira de café 2026/27 está estimada em 66,2 milhões de sacas, segundo o primeiro levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgado nesta quinta-feira (5). Se confirmada, a produção será superior à safra recorde de 2020 (63,08 milhões de sacas), e representará um crescimento de 17,1% em relação à colheita 2025/26, bem como um avanço de 22,1% na comparação com 2024/25, quando foram colhidas 54,2 milhões de sacas.

Além do ciclo de bienalidade positiva, o desempenho projetado reflete a expansão da área cultivada, o maior uso de tecnologia e insumos no campo e a combinação de condições climáticas mais favoráveis em boa parte das regiões produtoras.

A área total plantada com café no país — somando arábica e canéfora — chega a 2,3 milhões de hectares, alta de 3,4% sobre a safra anterior. Desse total, 1,9 milhão de hectares estão em produção (+4,1%), enquanto 397,3 mil hectares permanecem em formação (+0,2%).

A Conab também projeta ganho de produtividade, estimada em 34,2 sacas por hectare – avanço de 12,4%. No café arábica, a produtividade média deve alcançar 28,5 scs/ha (+18,4%), enquanto, no canéfora, a previsão é de 57,1 scs/ha (+2,3%).

Confira levantamento completo aqui

Produção por estado

Minas Gerais

  • 32,4 milhões de sacas (+25,9%)
  • Alta explicada pela bienalidade positiva e pela melhor distribuição das chuvas antes da floração.

Espírito Santo

  • 19 milhões de sacas (+9%)
  • Produção estimada em 14,9 milhões de sacas de conilon (+5%) e 4,2 milhões de sacas de arábica (+26,5%), beneficiada pelo bom regime de chuvas no norte do estado.

São Paulo

  • 5,5 milhões de sacas (+16%)
  • Resultado associado à bienalidade positiva e à recuperação de áreas afetadas no ciclo 2024/25.

Bahia

  • 4,6 milhões de sacas (+4%)
  • Do total, 1,2 milhão de sacas são de arábica e 3,4 milhões de conilon. Crescimento sustentado por clima mais regular, maior investimento em insumos e entrada de novas áreas em produção.

Rondônia

  • 2,7 milhões de sacas de canéfora (+18,3%)
  • Avanço impulsionado pela renovação de lavouras com clones mais produtivos e por condições climáticas favoráveis.

Goiás

  • 253,2 mil sacas (+17,5%)
  • Produtividade estimada em 42 scs/ha (+8,7%), com expansão da área em produção (+8,1%), bienalidade positiva e chuvas regulares.

Rio de Janeiro

  • 394 mil sacas de arábica (−6,7%)
  • Queda atribuída à elevada carga produtiva registrada na safra anterior.

Paraná

  • 750,6 mil sacas, com predomínio de arábica (+0,3%)
  • Condições climáticas favoráveis sustentam leve crescimento.

Mato Grosso

  • 298,7 mil sacas (+7,2%)
  • Expansão da área produtiva, maior uso de fertilizantes e avanço dos cafezais clonais.

Amazonas

  • 38,7 mil sacas de canéfora
  • Área em produção estimada em 1.043,7 hectares e área total cultivada de cerca de 1,5 mil hectares, com cultivo em expansão apoiado por políticas públicas e distribuição de mudas adaptadas à região.

TEXTO Redação

Mercado

Consumo de café no Brasil cai 2,31% em 2025

Volatilidade dos preços freou o consumo per capita em 2025, mas o faturamento cresceu; a expectativa de uma safra maior em 2025/26 pode estabilizar mercado 

Por Cristiana Couto

O consumo de café torrado e moído no Brasil caiu em 2025, segundo dados divulgados nesta quinta (29) pela Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC). Entre novembro de 2024 e outubro de 2025, o volume passou de 20,85 milhões para 20,24 milhões de sacas, uma retração de 2,92% na comparação com o período anterior.

A queda reflete, sobretudo, a forte volatilidade dos preços da matéria-prima, que atingiu o varejo com atraso, mas de forma significativa. O consumo per capita de café torrado e moído recuou de 5,01 kg para 4,82 kg por habitante/ano (-3,88%)..

Faturamento cresce apesar da retração

Apesar do menor volume, o faturamento da indústria cresceu 25,6% em 2025, alcançando R$ 46,24 bilhões, impulsionado pela alta dos preços nas gôndolas. Nos últimos cinco anos, enquanto o preço do café verde subiu mais de 200%, o repasse ao consumidor ficou em torno de 116%, indicando compressão das margens da indústria.

A ABIC destacou que a escalada e a queda abrupta das cotações do café verde — especialmente entre novembro de 2024 e agosto de 2025 — dificultaram o planejamento industrial e contribuíram para o impacto no consumo. Em alguns momentos do ano, a oferta de matéria-prima chegou a níveis considerados críticos.

Solúvel avança, torrado recua

Na contramão do torrado e moído, o consumo de café solúvel cresceu 9,5% em 2025, beneficiado pela maior participação dos canéforas na matéria-prima e por preços relativamente mais competitivos. Já o consumo total de café (torrado, moído e solúvel) caiu 2,31%, para 21,4 milhões de sacas.

Expectativas da safra 2025/26 

Com boa florada e condições climáticas mais favoráveis, a expectativa da ABIC é de uma safra 2025/26 maior, o que tende a reduzir a volatilidade dos preços. No entanto, os estoques globais seguem historicamente baixos, o que limita quedas expressivas no preço ao consumidor no curto prazo. A entidade projeta recuperação gradual do consumo, apoiada em promoções pontuais e maior estabilidade do mercado.

 

TEXTO Cristiana Couto

Mercado

Solúvel tem queda em volume exportado, mas bate recorde de receita em 2025

Tarifa de 50% dos EUA derruba embarques; valorização da matéria-prima sustenta divisas e mercado interno cresce

O café solúvel brasileiro fechou 2025 com queda de 10,6% no volume exportado, mas alcançou recorde de receita, com US$ 1,099 bilhão, alta de 14,4% ante 2024, segundo relatório da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics).

No total, o Brasil embarcou 3,688 milhões de sacas para 102 países, mantendo o produto como o 13º item da pauta exportadora brasileira. A retração em volume reflete principalmente o impacto da tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos. Entre agosto e dezembro, período de vigência da medida, as exportações para o país caíram 40% em relação ao mesmo intervalo de 2024. Ainda assim, os EUA seguiram como principal destino, com 558.740 sacas em 2025, apesar da queda anual de 28,2%.

Na sequência aparecem Argentina (291.919 sacas, +40,2%) e Rússia (278.050 sacas, +9,8%). Entre os destaques do ano estão mercados que também são grandes produtores de solúvel, como Colômbia (130.029 sacas, +178,2%), além de Indonésia, México e Vietnã.

Segundo a Abics, “a tarifa encarece o produto brasileiro de forma proibitiva”, levando importadores norte-americanos a buscar fornecedores alternativos e reforçando a necessidade de diversificação de mercados.

Nesse contexto, a União Europeia desponta como alternativa relevante. Em 2025, o bloco importou 642 mil sacas, que geraram US$ 184 milhões — 17,5% do volume total embarcado. Atualmente, o café solúvel brasileiro entra na UE com tarifa de 9%. A expectativa em torno do acordo Mercosul–UE é positiva, mas a entrada em vigor deve levar de dois a três anos e prevê desgravação gradual de 25% ao ano, ao longo de quatro anos, sem efeito imediato sobre o escoamento.

Na contramão das exportações, o mercado interno teve desempenho excepcional, com crescimento de 9,5% e consumo de 1.170.356 sacas. Dados do IBGE mostram que, entre 2024 e 2025, o café solúvel acumulou alta de 34,32%, abaixo do café moído (75,25%), o que ajudou a sustentar a demanda.

Para a ABICS, o resultado evidencia a resiliência de um setor que investiu R$ 2,5 bilhões nos últimos seis anos, mas que entra em 2026 diante de um cenário desafiador, marcado por barreiras comerciais, agenda tributária e a urgência de ampliar acordos internacionais.

TEXTO Redação

Mercado

Acordo comercial entre Mercosul e União Europeia é assinado neste sábado

O tratado é um passo histórico para o Mercosul ao ampliar o acesso do bloco a mercados internacionais e criar as bases da maior zona de livre comércio do mundo

Após mais de 25 anos de negociações, foi assinado hoje (17), em Assunção, no Paraguai, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. O acordo marca um momento histórico para o Mercosul ao ampliar o acesso a mercados internacionais e dar origem à maior zona de livre comércio do mundo, que conecta cerca de 722 milhões de pessoas, com economias que juntas somam US$ 22 trilhões, segundo o jornal Folha de S.Paulo.

A parceria estratégica tende a fortalecer os laços econômicos e comerciais entre os blocos, com o aumento das exportações da América do Sul para a UE. Para o Brasil, o acordo traz alívio particularmente em relação ao café solúvel, uma vez que ele segue com as tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos, seu principal mercado consumidor.

Em entrevista à Espresso, Marcos Matos, diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), afirmou que o acordo tem como objetivo zerar a taxação sobre os solúveis e industrializados brasileiros em até quatro anos. “Outro fator que será relevante é o potencial aumento dos investimentos nas indústrias de cafés industrializados no Brasil”, disse.

A assinatura foi o primeiro passo. Para entrar em vigor, o acordo ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu (cujo desacordo de algumas nações pode apertar a votação) e ratificado nos congressos de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. 

TEXTO Redação

Personagens

O café é a ferramenta para eu contar minha história

Barista e cafeicultora indígena, Celesty Suruí transforma o café em instrumento de memória, educação e valorização da cultura indígena na Amazônia

Por Cristiana Couto

Celesty Suruí vem ao meu encontro com sorriso largo. Estamos no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, onde acabara de estrear a exposição “Paiter Suruí, Gente de Verdade – Um projeto do Coletivo Lakapoy”. É meu segundo encontro com a jovem de 22 anos e da etnia Paiter Suruí, que vem chamando atenção por produzir café especial na região amazônica e ser, também, barista. A primeira barista indígena, como é conhecida. 

Com postura firme, sustentada por um misto de orgulho e emoção, Celesty abre a porta do espaço do IMS que leva ao seu universo, revelado em 800 fotografias forrando as paredes. As imagens foram registradas pelos Paiter Suruí depois do contato com os brancos, em 1969, quando, no atual território Terra Indígena Sete de Setembro, na fronteira de Rondônia e Mato Grosso, foram deixadas as primeiras câmeras. Atravessamos a porta e o tempo.

“O povo Paiter Suruí é conhecido como gente de verdade”, explica Celesty, dando início ao meu tour particular. “Os Paiter tinham uma regra antes do contato: você não podia matar o próximo, você não pode brigar com uma pessoa, você tem que respeitar o seu próximo. De acordo com essas regras, eles se consideravam como gente de verdade”, continua ela, referindo-se também à espiritualidade dos Paiter. “Era só Paiter antes do contato. Depois, a Funai não soube se a etnia tinha um nome específico, e aí, com a demarcação do território, eles colocaram Suruí. Em respeito a eles, a gente manteve o nome Paiter Suruí”, completa Celesty, referindo-se ao período entre a demarcação do território e o retorno de seu povo a ele, no início dos anos 1980. 

Celesty interrompe o relato para apresentar parentes que vieram à exposição. “Tenho duas mães. Meu pai é casado com duas mulheres”, esclarece, ao apresentá-las. conheço também sua prima, Txai Suruí, “ativista famosa, ‘brabíssima’”, introduz a barista. 

Por quase uma hora, Celesty escolhe fotos que revelam o olhar indígena sobre sua própria história. “A gente vai ver fotos bem recentes, com esta de jovens dançando na igreja, e outras bem mais antigas, que nem eu conheço”, explica ela, apontando uma mulher fazendo tipoia para carregar bebês. “Este é o ex-pajé”, aponta para outro retrato. “Geralmente, os pajés são escolhidos pelos espíritos. Só que o pajé não pode ter uma família, mas ele queria uma e parou.” 

Em outras imagens, identifica as primeiras lideranças a caminho de Brasília, que conseguiram demarcar o território. E a festa mapimaí, que representa a criação do mundo e que persiste até hoje entre seu povo. Os pajés que, todas as manhãs, tocam flautas, chamando os espíritos para fortalecer a aldeia. Os primeiros jovens a estudar, o primeiro casamento religioso, a primeira igreja do território. 

E mostra uma foto sua ainda criança, a dos avós de quem sente saudades, a do irmão. “Ele é o fundador do coletivo Lakapoy”, diz ela de um dos 18 irmãos, o fotógrafo Ubiratan Suruí, que saiu cedo de casa para estudar na cidade e, ao lado de Txai Suruí e Gabriel Ushida, fundou o coletivo organizador da exposição no Moreira Salles. “A gente quer levar esse acervo para a aldeia, para contar para os jovens que ficaram. As crianças têm que saber a história.”

Ela pára diante do primeiro retrato de seu povo: “A gente ainda era nu. Depois do contato, perdemos anciãos, pajés, lideranças, por causa de epidemias [como as de tuberculose e sarampo] e de luta. As pessoas que não morriam por epidemia, morriam por balas”. Paira o silêncio. Entre as décadas de 1940 e 1950, havia mais de cem mil indígenas em Rondônia. Em 1985, restavam apenas 2,5 mil, “vítimas da abertura da fronteira agrícola e das políticas de incentivo à exploração de recursos naturais que visavam principalmente a ocupação da região norte do Brasil”, informa um dos textos de Rondônia em Imagens, livro do fotógrafo goiano Kim-Ir-Sen Pires Leal publicado em 2024. Segundo os Paiter, após o contato, de 5 mil de sua etnia restaram 250 pessoas.

Os Paiter Suruí dividem-se em quatro clãs: namir, nome de um marimbondo amarelo, makor (“o bambu”), gameb (“um grande maribundo preto”) e kaban (“uma frutinha amarela”) – este último, originário da mistura dos Paiter com os Cinta Larga, também falantes de tupi-mondé. Descubro, então, que na cultura Paiter, os casamentos só podem acontecer entre clãs diferentes. 

Ela, porém, não seguiu o destino que lhe foi dado. Nascida na aldeia Lapetanha, Celesty percebeu, com a gigante do café 3corações e a jornalista Kelly Stein, idealizadora da empresa Coffea Trips, a oportunidade de traçar seu caminho como barista e produtora de café. Os detalhes dessa trajetória ela relata na descontraída conversa que tivemos depois da exposição, cujos melhores momentos selecionamos a seguir.  

Plantar significa vida 

A relação da minha família com o café começou antes de eu nascer. Meu pai foi um dos primeiros produtores dentro do território indígena. Ele e meu avô estavam entre os que não quiseram cortar a plantação. Tudo começou em 1969, no primeiro contato com pessoas não indígenas, que chamamos de yara-ey. 

Depois da demarcação do território, em 1983, a Funai retirou os colonizadores para que os indígenas retornassem às áreas roubadas. Voltamos e encontramos plantações deixadas por eles — de soja, milho e café.

Meu pai era novo na época, e meu avô era um dos habitantes da aldeia Pawentigah, a primeira fundada depois do contato. Uma parte adotou o café, porque, como sempre digo, plantar é algo importante para nós, significa vida. Outra parte preferiu derrubar tudo, e eu entendo: como conviver com algo que causou tanta destruição e matou pessoas da família? Os que decidiram manter o café foram muito corajosos. Nós o acolhemos como nosso e, até hoje, trabalhamos com ele.”

A fruta do milagre

“Alguns anos depois, meu povo começou a trabalhar com reflorestamento — e fazemos isso até hoje. Demarcamos apenas metade do território invadido, e essa área tinha muita floresta derrubada e pastagens. Adotamos o café como uma forma de reflorestar.

Com o tempo, vimos que ele dava fruto, e isso tornava o café ainda mais especial. Na época da maturação, os grãos ficavam vermelhos. Então, alguns comentavam: ‘Não é coisa ruim, é coisa boa. É daqui da floresta’. O cacique chamava a comunidade para experimentar. Diziam que era a fruta sarikab, nativa da Amazônia e que hoje é conhecida como fruta do milagre.

A gente acreditou que fosse uma fruta da nossa cultura, da floresta. Anos depois, um produtor próximo ao território viu que estávamos comendo a fruta e jogando o caroço fora.”

Contato com cafeicultor

“Esse produtor ainda tinha medo, porque as pessoas eram muito agressivas naquela época. Ninguém falava português, e os não indígenas também não falavam nossa língua. 

Mas os Paiter e esse cafeicultor criaram amizade, e ele começou a ensinar nosso povo: ‘Não é assim que se trabalha. Existe um processo para transformar essa fruta em bebida’. Ele foi ensinando os homens a trabalhar com café, com a leitura do território. Passaram a cuidar daquela roça — era uma área muito grande. Dividiram o trabalho por clãs: ‘Este clã cuida desta parte; aquele, de outra.’ E assim por diante. Depois de alguns anos, viram que o café que vendiam ajudava na renda das famílias.

Mas, mesmo depois da demarcação do território, havia invasões — gente entrando para pescar, tirar madeira e outras coisas. A primeira aldeia acabou se dividindo em várias outras para proteger a área. Então, todos queriam trabalhar com café. Pegavam as sementes e plantavam, mas era conilon, não o robusta amazônico. Com o tempo, passamos a trabalhar também com cacau nativo e castanha.”

Trabalho sustentável 

“Fizemos um projeto com o apoio da Aquaverde, uma empresa da Suíça, que ajudou os Paiter a reflorestar essas áreas. Esse trabalho começou em 2003, quando eu tinha dois anos. Então, cresci no território vendo meu pai, Agamenon Gamasakaka Suruí, trabalhando com café e reflorestando as áreas que foram degradadas. Até hoje a gente trabalha de forma sustentável, porque usamos o café e o cacau para reflorestar. Hoje, já temos mais de 500 mil plantas no território, que virou uma floresta, com várias espécies frutíferas também.”

Transformação pela qualidade

“Em 2018, três famílias indígenas foram conhecer a SIC [Semana Internacional do Café], e viram que era uma coisa imensa. Voltaram para a aldeia e falaram: ‘a gente tem que fazer alguma coisa, porque é algo com que trabalhamos há muitos e muitos anos’. E tudo começou com a empresa 3corações, que veio nos visitar em 2019, e o projeto Tribos. Com eles, a gente entendeu o que era um café especial, o processo de seleção dos grãos, a fermentação. O projeto começou com três famílias. A empresa enviou profissionais para capacitar os indígenas e isso se expandiu pelo território. Hoje, o projeto trabalha com sete etnias, com mais de 176 agricultores que trabalham café especial de forma agroflorestal, sustentável, e nossos cafés já são premiados. São mais de 38 aldeias aqui no território, e a maioria trabalha com café – outros, com a produção de cacau e castanha. O projeto não só trouxe para nós um jeito diferente de olhar o café, mas trouxe a transformação do território, de vidas. 

Antes do projeto, a gente olhava o café como algo só para ser vendido, não queria qualidade, só quantidade. Hoje a gente quer produzir qualidade, da maneira certa, para não degradar o território porque vai prejudicar não só a comunidade, mas todos. Porque a terra não é só nossa, mas de todos. 

Em 2023, ganhei o terceiro lugar na Florada Premiada [uma das iniciativas do Projeto Florada da 3corações, que valoriza microlotes cultivados por mulheres], com um café do quinto ano de produção. O projeto mudou a minha história.” 

A vontade apareceu

“Depois de ensinar outros produtores de Rondônia, a Kelly, em parceria com a Kanindé [associação de defesa etnoambiental], convidou quatro meninas da aldeia para fazer um curso de café. Eu acompanhei o pessoal, e vi que pessoas da minha cidade não conheciam nossa relação com o café. Imagine pessoas de outro estado, então! Aí, pensei, alguma coisa tem que acontecer, senão a gente vai ficar sempre calado.”

Quero ser barista

“Foi então que pedi ajuda à Kelly para trabalhar com café – é bem estranho pedir ajuda para quem a gente não conhece. Ela falou: ‘Vou levar você para São Paulo, para fazer o curso completo’. Aí eu disse para minha mãe: ‘Quero fazer um curso de barista’. Ela nem sabia o que era, e respondeu: ‘Não, você não pode. O mundo é perigoso, há muita gente ruim. Você ainda é menina’. Eu tinha 18 anos. Na minha cultura, é muito difícil uma mulher sair da aldeia. Para o meu povo, ela deve cuidar da família e educar os filhos. Minha família é muito tradicional — meu pai e minha mãe tinham medo de que algo acontecesse comigo e não queriam que eu saísse.

Falei com meus irmãos, mas eles também acharam muito perigoso sair da aldeia. Então, falei com meu irmão fotógrafo. Ele me apoiou e disse para minha mãe: ‘O mundo não é mais como antes, todos precisam trabalhar para sobreviver’. Uma das minhas cunhadas me deu apoio também. Então, disse para minha mãe que iria, e fui. Estava com medo, porque era a primeira vez que saía da aldeia.

Eu não queria ser a primeira barista, só queria preparar café e ensinar as lideranças, porque já estávamos trabalhando com turismo. Queria trazer mais visibilidade para a aldeia através do café, não queria sair de lá. Mas o destino estava me preparando para outras coisas também.”

A primeira barista indígena

“Digo que a Kelly foi meu ‘anjo da guarda’. Ela tem amigos em Campinas que têm uma cafeteria, a Abigail, e eles me receberam para ensinar todo o processo de preparo e os métodos do café. Essa cafeteria sempre vai fazer parte da minha história, porque fui muito bem recebida por eles. Fiquei um mês morando sozinha em Campinas. Voltei para a aldeia com outra visão, mas tinha medo de não ser bem recebida, porque comecei a dar entrevistas para jornalistas. Eles me disseram: ‘Celesty, você é a primeira indígena barista que conhecemos’, e me chamaram de a primeira indígena barista. Naquele ano, meus irmãos queriam parar de trabalhar com café. Eu falei, agora que comecei a entrar no ramo do café, não vou deixar a gente parar. E comecei a sonhar muito.”

Pensando grande

“Sonhei em ter uma cafeteria na aldeia. Meus irmãos me apoiaram e começamos a construir a cafeteria no fim de 2023. Como a gente está fazendo com o nosso próprio dinheiro, a construção está um pouquinho devagar, mas acho que vai ficar pronta no começo de 2026. Vai ter uma salinha pra fazer cafés, outra sala pra vender os cafés e um espaço com fotos contando a história do café, da família e do povo. 

No começo de 2024, eu também lancei uma marca de café da família, o Café Sarikab, a fruta nativa que comentei. Colocamos esse nome porque uso o café como ferramenta para contar a minha história. A gente começou a trabalhar o nome da marca pensando quais palavras iam ficar certas, quais grafismos a gente ia colocar. Eu e meus irmãos, reunidos com meu pai e minha mãe, para que eles orientassem a gente, porque o ancião tem que orientar os mais jovens para tudo sair mais certo. Eu ganhei uns amigos de Minas, e eles fizeram o desenho do logo, das embalagens, e não precisei pagar.”

O café Sarikab

“A gente faz todo o processo na aldeia e vende por encomenda. Trabalhamos com o tradicional e o especial. Se for um café especial natural, a gente colhe só os frutos maduros, lava esses frutos e depois coloca no terreiro suspenso ou nas lonas para secar. Os fermentados, a gente também colhe os maduros, depois separa – tira o grão verde e o amarelo – e só deixa os cerejas. Depois lavamos e colocamos nas bombonas, onde ele vai passar de 10 até, no máximo, 15 dias por um processo [fermentativo] anaeróbico. Chamamos de café especial fermentado. Os que mais saem são os cafés especiais, o tradicional a gente vende na comunidade. 

Temos vários eventos em Rondônia, onde os produtores divulgam suas marcas. A gente também participa, prepara os cafés e apresenta como eles são produzidos dentro do território, divulgando nossa marca.” 

Na SIC, o Brasil me conheceu

“Em 2022, minha primeira professora, Helga Andrade, que trabalhava para o Sebrae, teve a ideia de eu entrar na equipe que ia para a SIC para preparar os cafés de Rondônia. Eu era a única indígena e falei que não estava preparada ainda. Ela falou: ‘ou é agora ou é nunca. Você sempre tem a primeira vez’. Aí eu fui, e foi a primeira vez que preparei cafés para as pessoas – era muita gente, muitos jornalistas. Fiquei muito nervosa, mas foi bem emocionante. Daí, o Brasil inteiro me conheceu.

Depois, a empresa 3corações entrou em contato comigo e fez uma proposta: ‘você quer preparar os cafés da sua região, do seu território?’ Respondi que iria pensar, porque representar um povo é uma responsabilidade muito grande. Se você errar uma palavra, pode ser julgada. Se falar uma coisa certa, pode se sentir abraçada. É uma coisa bem arriscada. Depois de alguns meses, aceitei a proposta e hoje sou a responsável pelo projeto Tribos.”

Servindo o presidente

“Quando eu estava em processo de fazer a minha marca, o pessoal da Embrapa convidou os produtores para apresentar os cafés robustas no evento [exposição feita em Brasília, em abril de 2024, para comemorar o aniversário da Embrapa]. Então, eu fui como barista, e, como tinha que representar meu povo, levei o café do Projeto Tribos, e apresentei o projeto também. Não sabia que ia apresentar o café para o presidente, mas os meus colegas sabiam. Acho que foi uma surpresa para mim. Quando chegou o dia, o pessoal me falou: ‘ah, você vai preparar o café para o presidente’. Aí fiquei nervosa, mas preparei. Como representante do meu povo, estava com medo de falar ou fazer alguma coisa que não agradasse os produtores. Mas foi uma representação muito simbólica, porque estava representando todos os participantes do projeto. E preparar um café para o nosso presidente, uma pessoa que é importante para o Brasil, foi muito emocionante, um dia muito importante.”

Desafios para indígenas cafeicultores

“Um dos maiores é a valorização do trabalho de um cafeicultor indígena. Isso é muito raro de se ver. E outro é valorizar o trabalho dos pequenos produtores. Muitas empresas querem trabalhar com os grandes produtores, mas não valorizam muito os pequenos. Acessar o mercado é bem difícil, as empresas querem grandes lotes e quantidade, e isso a gente não tem condições de dar, ainda mais no território indígena. Somos pequenos cafeicultores e produzimos pequenos lotes.”

Conselho para os jovens como eu

“Coragem de enfrentar o medo. O medo sempre vai existir, em todas as ocasiões e momentos. A gente precisa enfrentar o medo e saber lidar com o mundo, porque o mundo é grande, e a gente não conhece o bastante. Tem que estar preparado para qualquer coisa que está por vir. Eu já enfrentei bastante desafios, e enfrento ainda, como liderança, como uma fundadora de uma empresa. Tem dias que a gente vai se sentir só. Mas vão ter pessoas para nos apoiar. Na maioria das vezes, acho que isso é coragem, que não pode faltar. Para os jovens indígenas, eu diria para estar preparado mentalmente e fisicamente, porque não sabemos o que pode acontecer. Estar sempre pronto e disposto.”

Sonhos 

“Sonho é uma coisa muito importante para mim. Com a cafeteria que estou construindo, quero trazer mais visibilidade dentro dos territórios indígenas, não só da minha comunidade, trazer mais visibilidade para os jovens. Eu uso o café como forma de me comunicar com o mundo, e pretendo trazer mais pessoas comigo, mulheres e homens, para que a gente possa representar a nossa comunidade inteira. Meus pais, meus avós, já fizeram a parte deles, e quem precisa fazer alguma coisa agora somos nós, jovens, que são as futuras gerações.”

Para os leitores…

“Quando a gente sonha com uma coisa, o impossível se torna possível. Quando a gente acredita em nossas forças e nas forças das pessoas que a gente tem conosco. Isso é o poder do sonho. Quando você sonha muito alto, ele pode se tornar real. Eu sou a prova viva disso. E quero dizer que devemos fazer não só para a gente mesmo, mas para todos. A gente vive para todos.”

Texto originalmente publicado na edição #89 (setembro, outubro e novembro de 2025) da revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Agência Ophelia

Únicos cafezais europeus podem ser inspiradores

Pés de café cultivados nas Ilhas Canárias

Por Gustavo Paiva

Por mais surpreendente que possa parecer, a Europa já cultiva café em seu próprio território. Embora os cultivos se concentrem em duas regiões isoladas do continente — nos Açores e nas Ilhas Canárias —, pode-se dizer que ali estão os cafés mais próximos da Europa continental e os mais ao norte de que se tem notícia.

Com isso, Portugal e Espanha buscam aliar a produção de café ao turismo e, ao mesmo tempo, lançar uma proposta de desenvolvimento econômico para territórios insulares do Atlântico — os Açores e as Canárias, respectivamente.

Obviamente, o conceito “europeu” pode variar muito, já que vários territórios ao redor do globo ainda estão submetidos, com mais ou menos autonomia, às leis formuladas na Europa. Neste caso, porém, os arquipélagos em questão se encontram ao norte do Oceano Atlântico, sob domínio dos seus respectivos países desde o século XIV, antes mesmo da unificação das fronteiras espanholas e da expulsão dos árabes do continente europeu.

Em ambos os lugares, estima-se que o café tenha chegado no fim do século XVIII, por volta de 1780, mais ou menos no mesmo período em que as primeiras mudas desembarcaram no Brasil. No caso das Canárias, considera-se que o cultivo esteve mais associado à curiosidade — por meio de testes e experimentos científicos — do que a qualquer ambição de exploração econômica.

Em Açores, os registros indicam que as plantas cultivadas eram da mesma linhagem da típica, provenientes dos entrepostos portugueses na África, bem como da bourbon, oriundas de Pernambuco, mas que chegaram ao Brasil via Guiana Francesa. Os portugueses cultivaram café na ilha continuamente até o início do século XX, quando crises econômicas sucessivas inviabilizaram o plantio como alternativa de baixa intensidade ou até mesmo como experimento científico. 

O café só voltaria a ganhar certo protagonismo no fim dos anos 1970, quando colonos portugueses expulsos de Angola e de Moçambique carregaram consigo algumas mudas e tentaram relançar a atividade nos Açores. À época, foram introduzidas as variedades caturra e bourbon amarelo, sobretudo nas ilhas de São Jorge e Terceira, mas estima-se que todo o arquipélago tenha potencial para desenvolver a cultura cafeeira.

Recentemente, alguns técnicos ligados ao governo português fizeram um levantamento no arquipélago e contabilizaram 213 cultivos diferentes tocados por 70 produtores. Estima-se que existam nos Açores 12 mil plantas de seis variedades diferentes, porém, todas da espécie arábica. Alguns cafeeiros têm mais de cem anos, mas a maioria – cerca de 7 mil plantas – têm idade inferior a três anos, o que demonstra o investimento em renovação e um certo potencial de produção nos próximos anos. 

Enquanto isso, mais ao sul e sob a tutela do governo espanhol, as Ilhas Canárias buscam lançar seu próprio café como uma alternativa exótica no mercado internacional. Assim como os Açores, a ilha tem solos vulcânicos e férteis, propícios ao cultivo do grão. Os plantios são feitos em pequena escala, com colheita manual e seletiva, o que implica diversos ciclos de coleta ao longo do ano. O cultivo nas Canárias também é feito de forma sombreada e em baixíssimas altitudes, entre 100 e 400 metros.

Apesar de múltiplas, as semelhanças param por aí, já que o arquipélago espanhol tem um clima mais hostil ao cafeeiro do que o dos Açores. As Ilhas Canárias têm temperaturas mais altas e menos umidade, e o café está restrito à região de Agaete. 

Além disso, o café espanhol chegou a ser exportado no final do século XIX, mas desapareceu completamente durante a década de 1950, sendo substituído por outros cultivos, como tomate e banana-da-terra. O café canário renasceu apenas no final do século XX e como uma opção de oferta de café exótico para os consumidores espanhóis. 

Em pequenas ilhas do Atlântico, o grão pode ser considerado uma solução econômica de baixa intensidade, viável em países ou territórios que necessitam diversificar sua produção agrícola. Geralmente, as ilhas atlânticas oferecem clima propício, solo vulcânico extremamente fértil e ampla gama de opções turísticas que podem ser combinadas com visitas e experiências ligadas ao cultivo de café. 

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

Cafeteria & Afins

Breathe CO. – Piracicaba (SP)


Alguns lugares conseguem expressar, em detalhes, o carinho pelo café especial. O Breathe CO. é um desses raros espaços onde a bebida vai além da xícara — ela se torna experiência. Localizada no centro de Piracicaba, interior paulista, a casa une cafeteria, loja e torrefação em um ambiente que abraça modernidade e transparência – literalmente.

Com arquitetura marcada por amplas paredes de vidro, a Breathe CO. se destaca na paisagem urbana regional. Do lado de fora, é possível observar a torra e o manuseio dos grãos em tempo real, o que desperta curiosidade e encantamento antes mesmo da experiência sensorial. 

A loja divide espaço com uma pequena fábrica de chocolates artesanais e tem um ambiente aconchegante — com poucas mesas —, com decoração acolhedora, que aproxima o visitante do grande tema que é o café, da fazenda à xícara. Muitos elementos compõem a beleza do espaço, como sacas de café, móveis rústicos de madeira maciça e prateleiras com diversos produtos, desde café em grãos e bebidas prontas para beber até bolsas feitas de juta reciclada. A música ambiente diverte, com sons conhecidos do indie rock na altura certa, construindo uma ótima atmosfera para quem quer apreciar um café sem pressa. 

O atendimento acontece no balcão, e o cardápio segue uma filosofia quase minimalista: direto, bem pensado, sem excessos. Há opções quentes e geladas, além de três sugestões para comer. Em nossa visita, fomos guiados por um atendente que explicou os grãos disponíveis no dia. Optamos por um catucaí 785/15, de processo natural, produzido por Marcus Valério no Sítio Serra da Campanha (MG). Preparado na v60 e servido em taças de vinho, o café entregou notas florais com finalização doce e delicada.

Provamos também o swell drop, criação autoral que combina espresso e chá verde fermentado (kombucha). Embora o cardápio mencione uma versão clássica feita com limão e gengibre, fomos surpreendidos por um fermentado de uva — que acabou se sobressaindo ao café, embora tenha conseguido entregar uma bebida leve e refrescante, ideal para dias quentes.

Entre as comidas, apenas uma das três opções oferecidas estava disponível. Decidimos então provar o cheese roll, rolinho de massa de pizza recheado com catupiry e coberto com parmesão, produzido por uma pizzaria local. Apesar da apetitosa aparência, o preparo falhou: o interior ainda estava frio ao ser servido, o que comprometeu a experiência.

Apesar deste tropeço, a visita revelou uma cafeteria que merece ser descoberta por quem busca mais do que apenas uma bebida. A Breathe Co reforça que Piracicaba tem muito a oferecer aos apaixonados por café especial.

Informações sobre a Cafeteria

Endereço R. Voluntários de Piracicaba, 806 , 415
Bairro Centro
Cidade Piracicaba
Estado São Paulo
País Brasil
Website http://https://breatheco.com.br/