Mercado

Acordo comercial entre Mercosul e União Europeia é assinado neste sábado

O tratado é um passo histórico para o Mercosul ao ampliar o acesso do bloco a mercados internacionais e criar as bases da maior zona de livre comércio do mundo

Após mais de 25 anos de negociações, foi assinado hoje (17), em Assunção, no Paraguai, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. O acordo marca um momento histórico para o Mercosul ao ampliar o acesso a mercados internacionais e dar origem à maior zona de livre comércio do mundo, que conecta cerca de 722 milhões de pessoas, com economias que juntas somam US$ 22 trilhões, segundo o jornal Folha de S.Paulo.

A parceria estratégica tende a fortalecer os laços econômicos e comerciais entre os blocos, com o aumento das exportações da América do Sul para a UE. Para o Brasil, o acordo traz alívio particularmente em relação ao café solúvel, uma vez que ele segue com as tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos, seu principal mercado consumidor.

Em entrevista à Espresso, Marcos Matos, diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), afirmou que o acordo tem como objetivo zerar a taxação sobre os solúveis e industrializados brasileiros em até quatro anos. “Outro fator que será relevante é o potencial aumento dos investimentos nas indústrias de cafés industrializados no Brasil”, disse.

A assinatura foi o primeiro passo. Para entrar em vigor, o acordo ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu (cujo desacordo de algumas nações pode apertar a votação) e ratificado nos congressos de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. 

TEXTO Redação

Personagens

O café é a ferramenta para eu contar minha história

Barista e cafeicultora indígena, Celesty Suruí transforma o café em instrumento de memória, educação e valorização da cultura indígena na Amazônia

Por Cristiana Couto

Celesty Suruí vem ao meu encontro com sorriso largo. Estamos no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, onde acabara de estrear a exposição “Paiter Suruí, Gente de Verdade – Um projeto do Coletivo Lakapoy”. É meu segundo encontro com a jovem de 22 anos e da etnia Paiter Suruí, que vem chamando atenção por produzir café especial na região amazônica e ser, também, barista. A primeira barista indígena, como é conhecida. 

Com postura firme, sustentada por um misto de orgulho e emoção, Celesty abre a porta do espaço do IMS que leva ao seu universo, revelado em 800 fotografias forrando as paredes. As imagens foram registradas pelos Paiter Suruí depois do contato com os brancos, em 1969, quando, no atual território Terra Indígena Sete de Setembro, na fronteira de Rondônia e Mato Grosso, foram deixadas as primeiras câmeras. Atravessamos a porta e o tempo.

“O povo Paiter Suruí é conhecido como gente de verdade”, explica Celesty, dando início ao meu tour particular. “Os Paiter tinham uma regra antes do contato: você não podia matar o próximo, você não pode brigar com uma pessoa, você tem que respeitar o seu próximo. De acordo com essas regras, eles se consideravam como gente de verdade”, continua ela, referindo-se também à espiritualidade dos Paiter. “Era só Paiter antes do contato. Depois, a Funai não soube se a etnia tinha um nome específico, e aí, com a demarcação do território, eles colocaram Suruí. Em respeito a eles, a gente manteve o nome Paiter Suruí”, completa Celesty, referindo-se ao período entre a demarcação do território e o retorno de seu povo a ele, no início dos anos 1980. 

Celesty interrompe o relato para apresentar parentes que vieram à exposição. “Tenho duas mães. Meu pai é casado com duas mulheres”, esclarece, ao apresentá-las. conheço também sua prima, Txai Suruí, “ativista famosa, ‘brabíssima’”, introduz a barista. 

Por quase uma hora, Celesty escolhe fotos que revelam o olhar indígena sobre sua própria história. “A gente vai ver fotos bem recentes, com esta de jovens dançando na igreja, e outras bem mais antigas, que nem eu conheço”, explica ela, apontando uma mulher fazendo tipoia para carregar bebês. “Este é o ex-pajé”, aponta para outro retrato. “Geralmente, os pajés são escolhidos pelos espíritos. Só que o pajé não pode ter uma família, mas ele queria uma e parou.” 

Em outras imagens, identifica as primeiras lideranças a caminho de Brasília, que conseguiram demarcar o território. E a festa mapimaí, que representa a criação do mundo e que persiste até hoje entre seu povo. Os pajés que, todas as manhãs, tocam flautas, chamando os espíritos para fortalecer a aldeia. Os primeiros jovens a estudar, o primeiro casamento religioso, a primeira igreja do território. 

E mostra uma foto sua ainda criança, a dos avós de quem sente saudades, a do irmão. “Ele é o fundador do coletivo Lakapoy”, diz ela de um dos 18 irmãos, o fotógrafo Ubiratan Suruí, que saiu cedo de casa para estudar na cidade e, ao lado de Txai Suruí e Gabriel Ushida, fundou o coletivo organizador da exposição no Moreira Salles. “A gente quer levar esse acervo para a aldeia, para contar para os jovens que ficaram. As crianças têm que saber a história.”

Ela pára diante do primeiro retrato de seu povo: “A gente ainda era nu. Depois do contato, perdemos anciãos, pajés, lideranças, por causa de epidemias [como as de tuberculose e sarampo] e de luta. As pessoas que não morriam por epidemia, morriam por balas”. Paira o silêncio. Entre as décadas de 1940 e 1950, havia mais de cem mil indígenas em Rondônia. Em 1985, restavam apenas 2,5 mil, “vítimas da abertura da fronteira agrícola e das políticas de incentivo à exploração de recursos naturais que visavam principalmente a ocupação da região norte do Brasil”, informa um dos textos de Rondônia em Imagens, livro do fotógrafo goiano Kim-Ir-Sen Pires Leal publicado em 2024. Segundo os Paiter, após o contato, de 5 mil de sua etnia restaram 250 pessoas.

Os Paiter Suruí dividem-se em quatro clãs: namir, nome de um marimbondo amarelo, makor (“o bambu”), gameb (“um grande maribundo preto”) e kaban (“uma frutinha amarela”) – este último, originário da mistura dos Paiter com os Cinta Larga, também falantes de tupi-mondé. Descubro, então, que na cultura Paiter, os casamentos só podem acontecer entre clãs diferentes. 

Ela, porém, não seguiu o destino que lhe foi dado. Nascida na aldeia Lapetanha, Celesty percebeu, com a gigante do café 3corações e a jornalista Kelly Stein, idealizadora da empresa Coffea Trips, a oportunidade de traçar seu caminho como barista e produtora de café. Os detalhes dessa trajetória ela relata na descontraída conversa que tivemos depois da exposição, cujos melhores momentos selecionamos a seguir.  

Plantar significa vida 

A relação da minha família com o café começou antes de eu nascer. Meu pai foi um dos primeiros produtores dentro do território indígena. Ele e meu avô estavam entre os que não quiseram cortar a plantação. Tudo começou em 1969, no primeiro contato com pessoas não indígenas, que chamamos de yara-ey. 

Depois da demarcação do território, em 1983, a Funai retirou os colonizadores para que os indígenas retornassem às áreas roubadas. Voltamos e encontramos plantações deixadas por eles — de soja, milho e café.

Meu pai era novo na época, e meu avô era um dos habitantes da aldeia Pawentigah, a primeira fundada depois do contato. Uma parte adotou o café, porque, como sempre digo, plantar é algo importante para nós, significa vida. Outra parte preferiu derrubar tudo, e eu entendo: como conviver com algo que causou tanta destruição e matou pessoas da família? Os que decidiram manter o café foram muito corajosos. Nós o acolhemos como nosso e, até hoje, trabalhamos com ele.”

A fruta do milagre

“Alguns anos depois, meu povo começou a trabalhar com reflorestamento — e fazemos isso até hoje. Demarcamos apenas metade do território invadido, e essa área tinha muita floresta derrubada e pastagens. Adotamos o café como uma forma de reflorestar.

Com o tempo, vimos que ele dava fruto, e isso tornava o café ainda mais especial. Na época da maturação, os grãos ficavam vermelhos. Então, alguns comentavam: ‘Não é coisa ruim, é coisa boa. É daqui da floresta’. O cacique chamava a comunidade para experimentar. Diziam que era a fruta sarikab, nativa da Amazônia e que hoje é conhecida como fruta do milagre.

A gente acreditou que fosse uma fruta da nossa cultura, da floresta. Anos depois, um produtor próximo ao território viu que estávamos comendo a fruta e jogando o caroço fora.”

Contato com cafeicultor

“Esse produtor ainda tinha medo, porque as pessoas eram muito agressivas naquela época. Ninguém falava português, e os não indígenas também não falavam nossa língua. 

Mas os Paiter e esse cafeicultor criaram amizade, e ele começou a ensinar nosso povo: ‘Não é assim que se trabalha. Existe um processo para transformar essa fruta em bebida’. Ele foi ensinando os homens a trabalhar com café, com a leitura do território. Passaram a cuidar daquela roça — era uma área muito grande. Dividiram o trabalho por clãs: ‘Este clã cuida desta parte; aquele, de outra.’ E assim por diante. Depois de alguns anos, viram que o café que vendiam ajudava na renda das famílias.

Mas, mesmo depois da demarcação do território, havia invasões — gente entrando para pescar, tirar madeira e outras coisas. A primeira aldeia acabou se dividindo em várias outras para proteger a área. Então, todos queriam trabalhar com café. Pegavam as sementes e plantavam, mas era conilon, não o robusta amazônico. Com o tempo, passamos a trabalhar também com cacau nativo e castanha.”

Trabalho sustentável 

“Fizemos um projeto com o apoio da Aquaverde, uma empresa da Suíça, que ajudou os Paiter a reflorestar essas áreas. Esse trabalho começou em 2003, quando eu tinha dois anos. Então, cresci no território vendo meu pai, Agamenon Gamasakaka Suruí, trabalhando com café e reflorestando as áreas que foram degradadas. Até hoje a gente trabalha de forma sustentável, porque usamos o café e o cacau para reflorestar. Hoje, já temos mais de 500 mil plantas no território, que virou uma floresta, com várias espécies frutíferas também.”

Transformação pela qualidade

“Em 2018, três famílias indígenas foram conhecer a SIC [Semana Internacional do Café], e viram que era uma coisa imensa. Voltaram para a aldeia e falaram: ‘a gente tem que fazer alguma coisa, porque é algo com que trabalhamos há muitos e muitos anos’. E tudo começou com a empresa 3corações, que veio nos visitar em 2019, e o projeto Tribos. Com eles, a gente entendeu o que era um café especial, o processo de seleção dos grãos, a fermentação. O projeto começou com três famílias. A empresa enviou profissionais para capacitar os indígenas e isso se expandiu pelo território. Hoje, o projeto trabalha com sete etnias, com mais de 176 agricultores que trabalham café especial de forma agroflorestal, sustentável, e nossos cafés já são premiados. São mais de 38 aldeias aqui no território, e a maioria trabalha com café – outros, com a produção de cacau e castanha. O projeto não só trouxe para nós um jeito diferente de olhar o café, mas trouxe a transformação do território, de vidas. 

Antes do projeto, a gente olhava o café como algo só para ser vendido, não queria qualidade, só quantidade. Hoje a gente quer produzir qualidade, da maneira certa, para não degradar o território porque vai prejudicar não só a comunidade, mas todos. Porque a terra não é só nossa, mas de todos. 

Em 2023, ganhei o terceiro lugar na Florada Premiada [uma das iniciativas do Projeto Florada da 3corações, que valoriza microlotes cultivados por mulheres], com um café do quinto ano de produção. O projeto mudou a minha história.” 

A vontade apareceu

“Depois de ensinar outros produtores de Rondônia, a Kelly, em parceria com a Kanindé [associação de defesa etnoambiental], convidou quatro meninas da aldeia para fazer um curso de café. Eu acompanhei o pessoal, e vi que pessoas da minha cidade não conheciam nossa relação com o café. Imagine pessoas de outro estado, então! Aí, pensei, alguma coisa tem que acontecer, senão a gente vai ficar sempre calado.”

Quero ser barista

“Foi então que pedi ajuda à Kelly para trabalhar com café – é bem estranho pedir ajuda para quem a gente não conhece. Ela falou: ‘Vou levar você para São Paulo, para fazer o curso completo’. Aí eu disse para minha mãe: ‘Quero fazer um curso de barista’. Ela nem sabia o que era, e respondeu: ‘Não, você não pode. O mundo é perigoso, há muita gente ruim. Você ainda é menina’. Eu tinha 18 anos. Na minha cultura, é muito difícil uma mulher sair da aldeia. Para o meu povo, ela deve cuidar da família e educar os filhos. Minha família é muito tradicional — meu pai e minha mãe tinham medo de que algo acontecesse comigo e não queriam que eu saísse.

Falei com meus irmãos, mas eles também acharam muito perigoso sair da aldeia. Então, falei com meu irmão fotógrafo. Ele me apoiou e disse para minha mãe: ‘O mundo não é mais como antes, todos precisam trabalhar para sobreviver’. Uma das minhas cunhadas me deu apoio também. Então, disse para minha mãe que iria, e fui. Estava com medo, porque era a primeira vez que saía da aldeia.

Eu não queria ser a primeira barista, só queria preparar café e ensinar as lideranças, porque já estávamos trabalhando com turismo. Queria trazer mais visibilidade para a aldeia através do café, não queria sair de lá. Mas o destino estava me preparando para outras coisas também.”

A primeira barista indígena

“Digo que a Kelly foi meu ‘anjo da guarda’. Ela tem amigos em Campinas que têm uma cafeteria, a Abigail, e eles me receberam para ensinar todo o processo de preparo e os métodos do café. Essa cafeteria sempre vai fazer parte da minha história, porque fui muito bem recebida por eles. Fiquei um mês morando sozinha em Campinas. Voltei para a aldeia com outra visão, mas tinha medo de não ser bem recebida, porque comecei a dar entrevistas para jornalistas. Eles me disseram: ‘Celesty, você é a primeira indígena barista que conhecemos’, e me chamaram de a primeira indígena barista. Naquele ano, meus irmãos queriam parar de trabalhar com café. Eu falei, agora que comecei a entrar no ramo do café, não vou deixar a gente parar. E comecei a sonhar muito.”

Pensando grande

“Sonhei em ter uma cafeteria na aldeia. Meus irmãos me apoiaram e começamos a construir a cafeteria no fim de 2023. Como a gente está fazendo com o nosso próprio dinheiro, a construção está um pouquinho devagar, mas acho que vai ficar pronta no começo de 2026. Vai ter uma salinha pra fazer cafés, outra sala pra vender os cafés e um espaço com fotos contando a história do café, da família e do povo. 

No começo de 2024, eu também lancei uma marca de café da família, o Café Sarikab, a fruta nativa que comentei. Colocamos esse nome porque uso o café como ferramenta para contar a minha história. A gente começou a trabalhar o nome da marca pensando quais palavras iam ficar certas, quais grafismos a gente ia colocar. Eu e meus irmãos, reunidos com meu pai e minha mãe, para que eles orientassem a gente, porque o ancião tem que orientar os mais jovens para tudo sair mais certo. Eu ganhei uns amigos de Minas, e eles fizeram o desenho do logo, das embalagens, e não precisei pagar.”

O café Sarikab

“A gente faz todo o processo na aldeia e vende por encomenda. Trabalhamos com o tradicional e o especial. Se for um café especial natural, a gente colhe só os frutos maduros, lava esses frutos e depois coloca no terreiro suspenso ou nas lonas para secar. Os fermentados, a gente também colhe os maduros, depois separa – tira o grão verde e o amarelo – e só deixa os cerejas. Depois lavamos e colocamos nas bombonas, onde ele vai passar de 10 até, no máximo, 15 dias por um processo [fermentativo] anaeróbico. Chamamos de café especial fermentado. Os que mais saem são os cafés especiais, o tradicional a gente vende na comunidade. 

Temos vários eventos em Rondônia, onde os produtores divulgam suas marcas. A gente também participa, prepara os cafés e apresenta como eles são produzidos dentro do território, divulgando nossa marca.” 

Na SIC, o Brasil me conheceu

“Em 2022, minha primeira professora, Helga Andrade, que trabalhava para o Sebrae, teve a ideia de eu entrar na equipe que ia para a SIC para preparar os cafés de Rondônia. Eu era a única indígena e falei que não estava preparada ainda. Ela falou: ‘ou é agora ou é nunca. Você sempre tem a primeira vez’. Aí eu fui, e foi a primeira vez que preparei cafés para as pessoas – era muita gente, muitos jornalistas. Fiquei muito nervosa, mas foi bem emocionante. Daí, o Brasil inteiro me conheceu.

Depois, a empresa 3corações entrou em contato comigo e fez uma proposta: ‘você quer preparar os cafés da sua região, do seu território?’ Respondi que iria pensar, porque representar um povo é uma responsabilidade muito grande. Se você errar uma palavra, pode ser julgada. Se falar uma coisa certa, pode se sentir abraçada. É uma coisa bem arriscada. Depois de alguns meses, aceitei a proposta e hoje sou a responsável pelo projeto Tribos.”

Servindo o presidente

“Quando eu estava em processo de fazer a minha marca, o pessoal da Embrapa convidou os produtores para apresentar os cafés robustas no evento [exposição feita em Brasília, em abril de 2024, para comemorar o aniversário da Embrapa]. Então, eu fui como barista, e, como tinha que representar meu povo, levei o café do Projeto Tribos, e apresentei o projeto também. Não sabia que ia apresentar o café para o presidente, mas os meus colegas sabiam. Acho que foi uma surpresa para mim. Quando chegou o dia, o pessoal me falou: ‘ah, você vai preparar o café para o presidente’. Aí fiquei nervosa, mas preparei. Como representante do meu povo, estava com medo de falar ou fazer alguma coisa que não agradasse os produtores. Mas foi uma representação muito simbólica, porque estava representando todos os participantes do projeto. E preparar um café para o nosso presidente, uma pessoa que é importante para o Brasil, foi muito emocionante, um dia muito importante.”

Desafios para indígenas cafeicultores

“Um dos maiores é a valorização do trabalho de um cafeicultor indígena. Isso é muito raro de se ver. E outro é valorizar o trabalho dos pequenos produtores. Muitas empresas querem trabalhar com os grandes produtores, mas não valorizam muito os pequenos. Acessar o mercado é bem difícil, as empresas querem grandes lotes e quantidade, e isso a gente não tem condições de dar, ainda mais no território indígena. Somos pequenos cafeicultores e produzimos pequenos lotes.”

Conselho para os jovens como eu

“Coragem de enfrentar o medo. O medo sempre vai existir, em todas as ocasiões e momentos. A gente precisa enfrentar o medo e saber lidar com o mundo, porque o mundo é grande, e a gente não conhece o bastante. Tem que estar preparado para qualquer coisa que está por vir. Eu já enfrentei bastante desafios, e enfrento ainda, como liderança, como uma fundadora de uma empresa. Tem dias que a gente vai se sentir só. Mas vão ter pessoas para nos apoiar. Na maioria das vezes, acho que isso é coragem, que não pode faltar. Para os jovens indígenas, eu diria para estar preparado mentalmente e fisicamente, porque não sabemos o que pode acontecer. Estar sempre pronto e disposto.”

Sonhos 

“Sonho é uma coisa muito importante para mim. Com a cafeteria que estou construindo, quero trazer mais visibilidade dentro dos territórios indígenas, não só da minha comunidade, trazer mais visibilidade para os jovens. Eu uso o café como forma de me comunicar com o mundo, e pretendo trazer mais pessoas comigo, mulheres e homens, para que a gente possa representar a nossa comunidade inteira. Meus pais, meus avós, já fizeram a parte deles, e quem precisa fazer alguma coisa agora somos nós, jovens, que são as futuras gerações.”

Para os leitores…

“Quando a gente sonha com uma coisa, o impossível se torna possível. Quando a gente acredita em nossas forças e nas forças das pessoas que a gente tem conosco. Isso é o poder do sonho. Quando você sonha muito alto, ele pode se tornar real. Eu sou a prova viva disso. E quero dizer que devemos fazer não só para a gente mesmo, mas para todos. A gente vive para todos.”

Texto originalmente publicado na edição #89 (setembro, outubro e novembro de 2025) da revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Cristiana Couto • FOTO Agência Ophelia

Únicos cafezais europeus podem ser inspiradores

Pés de café cultivados nas Ilhas Canárias

Por Gustavo Paiva

Por mais surpreendente que possa parecer, a Europa já cultiva café em seu próprio território. Embora os cultivos se concentrem em duas regiões isoladas do continente — nos Açores e nas Ilhas Canárias —, pode-se dizer que ali estão os cafés mais próximos da Europa continental e os mais ao norte de que se tem notícia.

Com isso, Portugal e Espanha buscam aliar a produção de café ao turismo e, ao mesmo tempo, lançar uma proposta de desenvolvimento econômico para territórios insulares do Atlântico — os Açores e as Canárias, respectivamente.

Obviamente, o conceito “europeu” pode variar muito, já que vários territórios ao redor do globo ainda estão submetidos, com mais ou menos autonomia, às leis formuladas na Europa. Neste caso, porém, os arquipélagos em questão se encontram ao norte do Oceano Atlântico, sob domínio dos seus respectivos países desde o século XIV, antes mesmo da unificação das fronteiras espanholas e da expulsão dos árabes do continente europeu.

Em ambos os lugares, estima-se que o café tenha chegado no fim do século XVIII, por volta de 1780, mais ou menos no mesmo período em que as primeiras mudas desembarcaram no Brasil. No caso das Canárias, considera-se que o cultivo esteve mais associado à curiosidade — por meio de testes e experimentos científicos — do que a qualquer ambição de exploração econômica.

Em Açores, os registros indicam que as plantas cultivadas eram da mesma linhagem da típica, provenientes dos entrepostos portugueses na África, bem como da bourbon, oriundas de Pernambuco, mas que chegaram ao Brasil via Guiana Francesa. Os portugueses cultivaram café na ilha continuamente até o início do século XX, quando crises econômicas sucessivas inviabilizaram o plantio como alternativa de baixa intensidade ou até mesmo como experimento científico. 

O café só voltaria a ganhar certo protagonismo no fim dos anos 1970, quando colonos portugueses expulsos de Angola e de Moçambique carregaram consigo algumas mudas e tentaram relançar a atividade nos Açores. À época, foram introduzidas as variedades caturra e bourbon amarelo, sobretudo nas ilhas de São Jorge e Terceira, mas estima-se que todo o arquipélago tenha potencial para desenvolver a cultura cafeeira.

Recentemente, alguns técnicos ligados ao governo português fizeram um levantamento no arquipélago e contabilizaram 213 cultivos diferentes tocados por 70 produtores. Estima-se que existam nos Açores 12 mil plantas de seis variedades diferentes, porém, todas da espécie arábica. Alguns cafeeiros têm mais de cem anos, mas a maioria – cerca de 7 mil plantas – têm idade inferior a três anos, o que demonstra o investimento em renovação e um certo potencial de produção nos próximos anos. 

Enquanto isso, mais ao sul e sob a tutela do governo espanhol, as Ilhas Canárias buscam lançar seu próprio café como uma alternativa exótica no mercado internacional. Assim como os Açores, a ilha tem solos vulcânicos e férteis, propícios ao cultivo do grão. Os plantios são feitos em pequena escala, com colheita manual e seletiva, o que implica diversos ciclos de coleta ao longo do ano. O cultivo nas Canárias também é feito de forma sombreada e em baixíssimas altitudes, entre 100 e 400 metros.

Apesar de múltiplas, as semelhanças param por aí, já que o arquipélago espanhol tem um clima mais hostil ao cafeeiro do que o dos Açores. As Ilhas Canárias têm temperaturas mais altas e menos umidade, e o café está restrito à região de Agaete. 

Além disso, o café espanhol chegou a ser exportado no final do século XIX, mas desapareceu completamente durante a década de 1950, sendo substituído por outros cultivos, como tomate e banana-da-terra. O café canário renasceu apenas no final do século XX e como uma opção de oferta de café exótico para os consumidores espanhóis. 

Em pequenas ilhas do Atlântico, o grão pode ser considerado uma solução econômica de baixa intensidade, viável em países ou territórios que necessitam diversificar sua produção agrícola. Geralmente, as ilhas atlânticas oferecem clima propício, solo vulcânico extremamente fértil e ampla gama de opções turísticas que podem ser combinadas com visitas e experiências ligadas ao cultivo de café. 

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

Cafeteria & Afins

Breathe CO. – Piracicaba (SP)


Alguns lugares conseguem expressar, em detalhes, o carinho pelo café especial. O Breathe CO. é um desses raros espaços onde a bebida vai além da xícara — ela se torna experiência. Localizada no centro de Piracicaba, interior paulista, a casa une cafeteria, loja e torrefação em um ambiente que abraça modernidade e transparência – literalmente.

Com arquitetura marcada por amplas paredes de vidro, a Breathe CO. se destaca na paisagem urbana regional. Do lado de fora, é possível observar a torra e o manuseio dos grãos em tempo real, o que desperta curiosidade e encantamento antes mesmo da experiência sensorial. 

A loja divide espaço com uma pequena fábrica de chocolates artesanais e tem um ambiente aconchegante — com poucas mesas —, com decoração acolhedora, que aproxima o visitante do grande tema que é o café, da fazenda à xícara. Muitos elementos compõem a beleza do espaço, como sacas de café, móveis rústicos de madeira maciça e prateleiras com diversos produtos, desde café em grãos e bebidas prontas para beber até bolsas feitas de juta reciclada. A música ambiente diverte, com sons conhecidos do indie rock na altura certa, construindo uma ótima atmosfera para quem quer apreciar um café sem pressa. 

O atendimento acontece no balcão, e o cardápio segue uma filosofia quase minimalista: direto, bem pensado, sem excessos. Há opções quentes e geladas, além de três sugestões para comer. Em nossa visita, fomos guiados por um atendente que explicou os grãos disponíveis no dia. Optamos por um catucaí 785/15, de processo natural, produzido por Marcus Valério no Sítio Serra da Campanha (MG). Preparado na v60 e servido em taças de vinho, o café entregou notas florais com finalização doce e delicada.

Provamos também o swell drop, criação autoral que combina espresso e chá verde fermentado (kombucha). Embora o cardápio mencione uma versão clássica feita com limão e gengibre, fomos surpreendidos por um fermentado de uva — que acabou se sobressaindo ao café, embora tenha conseguido entregar uma bebida leve e refrescante, ideal para dias quentes.

Entre as comidas, apenas uma das três opções oferecidas estava disponível. Decidimos então provar o cheese roll, rolinho de massa de pizza recheado com catupiry e coberto com parmesão, produzido por uma pizzaria local. Apesar da apetitosa aparência, o preparo falhou: o interior ainda estava frio ao ser servido, o que comprometeu a experiência.

Apesar deste tropeço, a visita revelou uma cafeteria que merece ser descoberta por quem busca mais do que apenas uma bebida. A Breathe Co reforça que Piracicaba tem muito a oferecer aos apaixonados por café especial.

Informações sobre a Cafeteria

Endereço R. Voluntários de Piracicaba, 806 , 415
Bairro Centro
Cidade Piracicaba
Estado São Paulo
País Brasil
Website http://https://breatheco.com.br/

Mercado

Produção global de café deve bater recorde e alcançar 178,8 milhões de sacas, projeta USDA

Recorde reflete aumento de produção no Vietnã, na Indonésia e na Etiópia, apesar de quedas no Brasil e na Colômbia

A produção mundial de café deve atingir 178,8 milhões de sacas na safra 2025/26, um recorde histórico e alta de 3,5 milhões de sacas em relação ao ciclo anterior. A estimativa consta do relatório semestral sobre o mercado global de café do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), divulgado na quinta-feira (18).

As exportações globais de café em grão também devem crescer, alcançando 123,8 milhões de sacas, aumento de 2,3 milhões. O avanço é impulsionado pela maior oferta do Vietnã, com produção estimada em 30,8 milhões de sacas, e por volumes recordes na Indonésia (11 milhões) e na Etiópia (11,6 milhões), o que, segundo o relatório, compensa as quedas registradas no Brasil, com safra estimada em 63 milhões de sacas, e na Colômbia, com 13,8 milhões.

Com o consumo global em alta, estimado em 173,9 milhões de sacas, os estoques finais devem cair pelo quinto ano consecutivo, para 20,1 milhões de sacas. Diante do aperto entre oferta e demanda, os preços do café, medidos pelo índice composto mensal da Organização Internacional do Café (OIC), quase triplicaram no período.

Confirma o relatório completo aqui.

Para saber mais

Robusta: Indonésia e Vietnã 

A produção de café na Indonésia foi estimada em 11 milhões de sacas, aumento de 1,7 milhão, resultado de maior rendimento das plantas, condições climáticas favoráveis e uso ampliado de mão de obra na colheita. O volume mantém, há 25 anos, o país como terceiro maior produtor global de robusta. A produção de arábica ficou em 1,5 milhão de sacas, enquanto as exportações de café verde devem atingir 7,8 milhões de sacas, alta de 1,7 milhão, destinadas principalmente à União Europeia, aos Estados Unidos (arábica) e ao Egito.

No Vietnã, a produção deve alcançar 30,8 milhões de sacas, sendo 95% de robusta, impulsionada por maior produtividade, atribuída a clima favorável e ao uso intensificado de fertilizantes e insumos. As exportações devem somar 24,6 milhões de sacas, aumento de 2,3 milhões em relação ao ciclo anterior.

Arábica: Etiópia, Brasil e Colômbia

A Etiópia tem produção prevista de 11,6 milhões de sacas, 500 mil a mais do que no ciclo anterior, em novo recorde. O crescimento, observado há três anos, decorre da substituição de mais da metade da área cultivada por variedades mais produtivas e da adoção de podas pós-colheita. As exportações também avançaram, com alta de 400 mil sacas, e devem fechar em 7,8 milhões.

No Brasil, a safra foi estimada em 63 milhões de sacas pela FAS em 11 de dezembro, após revisão negativa de 2 milhões. O volume inclui 38 milhões de sacas de arábica (queda de 6 milhões) e 25 milhões de canéfora (alta de 4 milhões). A redução do arábica é atribuída à seca e às altas temperaturas em Minas Gerais e São Paulo, que afetaram a florada, o pegamento e o desenvolvimento dos frutos. Já o recorde do canéfora resulta de boas chuvas no Espírito Santo e na Bahia. Com a menor oferta, a previsão das exportações brasileiras caiu 4 milhões de sacas, para 37 milhões.

Na Colômbia, a produção também deve recuar, em 1 milhão de sacas, para 13,8 milhões, em razão de condições climáticas desfavoráveis durante a florada. As exportações de café verde, destinadas principalmente aos Estados Unidos e à União Europeia, estão estimadas em 11,5 milhões de sacas, queda de 700 mil frente a 2024/25.

TEXTO Redação

Café & Preparos

Parlamento Europeu aprova adiamento e simplificação da EUDR

Texto segue para aval do Conselho e deve ser publicado até o fim do ano

O Parlamento Europeu aprovou nesta quarta-feira (11) o adiamento e a simplificação de pontos-chave da Lei do Desmatamento da União Europeia (EUDR), que estabelece regras para garantir que produtos vendidos no bloco, como o café, não venham de áreas desmatadas. O texto, aprovado por 405 votos a 242, agora segue para endosso do Conselho e deve ser publicado no Jornal Oficial da UE até o fim do ano para entrar em vigor.

Pelo acordo, todas as empresas terão mais um ano para se adequar às exigências. Grandes operadores passarão a cumprir a lei a partir de 30 de dezembro de 2026, enquanto micro e pequenas empresas terão prazo até 30 de junho de 2027. O objetivo é garantir uma transição mais suave e permitir melhoras no sistema digital obrigatório para as declarações de devida diligência.

A revisão também simplifica exigências: pequenos operadores primários deverão apresentar apenas uma declaração simplificada, e só as empresas que colocam o produto no mercado europeu pela primeira vez serão responsáveis por enviar as declarações de conformidade. Produtos impressos, como livros e jornais, foram retirados do escopo do regulamento.

Para a relatora Christine Schneider (PPE, Alemanha), o acordo “mantém o coração da lei intacto”, ao mesmo tempo em que responde às preocupações de agricultores, empresas e governos sobre viabilidade prática e custos de implementação.

A Comissão Europeia deverá, até abril de 2026, apresentar um relatório avaliando o impacto da EUDR, especialmente sobre pequenos produtores e operadores — tema sensível para países exportadores como Brasil, Vietnã e Costa do Marfim.

Fonte: europarl.europa.eu

TEXTO Redação

Cafeteria & Afins

Luckin Coffee faz campanha dos cafés brasileiros em dezembro

Batizada de Brazil Season, a ação temática ilustra copos e inclui chaveiros e minicapivaras de pelúcia

Até o fim de dezembro, a rede de cafés chinesa Luckin Coffee terá estampada em seus copos de café a campanha Brazil Season. A ação faz parte da promoção dos grãos brasileiros comprados pela marca asiática. 

A rede de cafeterias tem mais de 30 mil unidades na China, e a ação temática foi mediada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), que pretende fortalecer a marca Brasil entre os chineses.

A estimativa é que sejam vendidos 400 milhões de copos de café. Além deles, a campanha inclui chaveiros e minicapivaras de pelúcia – animal popular no país asiático – com o logo da ApexBrasil para quem comprar o café brasileiro.

Em novembro, a Luckin Coffee comprometeu-se a comprar 240 mil toneladas do grão brasileiro entre 2025 e 2029 a um valor estimado de U$ 2,5 bilhões. Em maio de 2025, nova parceria do Brasil com a gigante chinesa incluiu a abertura de 34 lojas temáticas com identidade brasileira, para ampliar a visibilidade dos produtos nacionais no varejo chinês.

Entre janeiro e outubro deste ano, o Brasil exportou US$ 335,1 milhões de café não torrado para a China – mais de 50% do total vendido ao país em 2024. 

TEXTO Redação

Cafeteria & Afins

Juan Valdez estreia no país com loja em Ribeirão Preto (SP)

Com microlotes e linhas exclusivas, companhia colombiana de cafés quer abrir 100 lojas até 2028 no país 

A Juan Valdez, principal marca de café colombiano, inaugurou na quinta-feira (4), sua primeira loja no Brasil, no RibeirãoShopping, em Ribeirão Preto, no interior paulista. 

A chegada ao mercado brasileiro faz parte do plano global de expansão da empresa, que inclui México, Estados Unidos, Espanha e Oriente Médio. No Brasil, um dos focos de expansão é a capital paulista – a meta é chegar a mais de 100 lojas no Brasil até 2028 e alcançar 300 até 2032, por meio do modelo de franquias. Segundo a empresa que opera a marca Procafecol ao site ColombiaOne, isso permite à Juan Valdez competir com marcas tradicionais no mercado brasileiro.

Hoje em dia, a empresa tem mais de 650 lojas em vinte países, e cerca de 15 mil pontos de venda em 34 mercados. Os cafés comercializados são produzidos por mais de 550 mil famílias agricultoras na Colômbia. De acordo com a Procafecol, 2025 foi um ano de crescimento de 9% nas vendas, desempenho que sustenta a viabilidade e a força de sua expansão internacional.

Com forte tradição cafeeira, Ribeirão Preto é um ponto considerado estratégico pela companhia. A primeira loja física da marca no Brasil vende cafés coados e espressos de grãos 100% colombianos, além de bebidas geladas, e oferece linhas especiais da marca, como Mulheres Cafeicultoras, e microlotes, como o bourbon rosa e gesha. O cardápio de comidinhas é adaptado ao cliente brasileiro, com oferta de pão de queijo e broa de milho, mas não deixa de incluir itens tradicionais colombianos, como as arepas. 

TEXTO Redação

CafezalMercado

Parlamento Europeu adia em um ano aplicação da Lei Antidesmatamento

Emenda retira obrigatoriedade de due diligence para operadores que vendem o produto após a entrada no mercado europeu

O Parlamento Europeu aprovou nesta quarta (26) o adiamento da aplicação da lei antidesmatamento para 30 de dezembro de 2026. O adiamento é uma das diversas emendas que simplificam a EUDR. Para micro e pequenas empresas, a prorrogação segue até junho de 2027.

Segundo comunicado divulgado para a imprensa pelo Parlamento, o prazo adicional busca “garantir uma transição tranquila” e permitir a implementação de medidas para reforçar o sistema de TI (criado pela União Europeia para implementação da lei e utilizado por operadores, comerciantes e representantes para emissão das declarações eletrônicas de diligência).

Além do adiamento, uma das emendas votadas estabelece que a responsabilidade de apresentar a declaração de due diligence recai sobre empresas que colocam o produto no mercado europeu pela primeira vez, retirando essa obrigatoriedade dos operadores que comercializam os produtos posteriormente. Também alivia as exigências para micro e pequenos produtores, que passam a entregar apenas uma declaração simplificada.

O texto foi aprovado por 402 votos a favor, 250 votos contra e 8 abstenções. A negociação segue agora para os representantes dos Estados-Membros no Conselho Europeu, e a versão final deve ser aprovada pelo Parlamento e pelo Conselho e publicada antes do final deste ano para que entre em vigor.

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Café & Preparos

Tarifa sobre o café solúvel brasileiro continua em 50%

A manutenção da sobretaxa sobre o café solúvel — apesar da isenção para o café verde anunciada por Trump — acende alerta no setor

A decisão do governo Donald Trump de zerar, na quinta (20), as tarifas adicionais de 40% impostas ao café brasileiro (e outros produtos) não incluiu o café solúvel. Para o produto, segue em vigor a sobretaxa de 40% somada à tarifa-base de 10% — um custo total de 50% que, segundo o setor, ameaça a posição histórica do Brasil no mercado norte-americano.

Em comunicado divulgado nesta sexta (21), a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) afirmou que “o mercado dos EUA é de vital importância estratégica para o Brasil” e chamou a atenção para um ponto considerado crítico: “A Abics alerta para o risco iminente de que o café solúvel brasileiro seja permanentemente substituído por produtos de outros destinos nas prateleiras dos supermercados americanos”.

A entidade reforça que, se isso ocorrer, “a recuperação futura será uma missão extremamente difícil, com perdas duradouras para toda a cadeia produtiva nacional, desde os cafeicultores até as indústrias e seus trabalhadores.”

Pela primeira vez na série histórica, os EUA deixaram de ser o principal destino do café solúvel brasileiro em outubro, cedendo lugar à Rússia. Desde agosto, início da vigência da tarifa extra, os embarques para o mercado americano caíram mais de 52% em volume.

A dimensão do mercado explica a preocupação. Em 2024, o Brasil respondeu por 38% das importações totais de solúvel dos EUA, um domínio construído ao longo de décadas. O país também representa cerca de 20% do volume total das exportações brasileiras de solúvel, gerando aproximadamente US$ 200 milhões por ano em receitas.

Com o café verde liberado das sobretaxas, mas o solúvel mantido em patamar elevado, o setor agora pressiona Brasília e Washington para uma negociação específica que evite o que classifica como um dano estrutural: perder, em poucos meses, um mercado conquistado ao longo de gerações.

TEXTO Redação