Café & Preparos

Healing fiction: Por que um bom café está nesses livros asiáticos 

Cena da série Gostaria de uma Xícara de Café?

Por Leonardo Neiva

Boas leituras, conversas profundas com desconhecidos e um refúgio das demandas constantes do mundo real — tudo isso embalado por dezenas de xícaras fumegantes de café. Essa é a receita para o sucesso global do livro Bem-Vindos à Livraria Hyunam-Dong (editora Intrínseca, 2023), da autora sul-coreana Hwang Bo-Reum.

A obra é uma das principais representantes da healing fiction, ou ficção de cura, gênero 100% nascido em países do Extremo Oriente, como a Coreia do Sul e o Japão. Além de ser hoje um sucesso global, em especial na literatura, o gênero também está profundamente ligado à cultura do grão. 

Fenômeno com mais de cinco milhões de cópias vendidas, a série literária japonesa Antes Que o Café Esfrie, de Toshikazu Kawaguchi, apresenta viagens ao passado enquanto a bebida permanece quente. Em O Café Literário de Soyangri, da sul-coreana Kim Jee Hye, a pequena loja do título vira refúgio para almas cansadas. Já no misterioso estabelecimento de Os Gatos do Café da Lua Cheia, felinos ajudam os clientes a encontrar a felicidade.

Mas por que essa conexão tão forte entre um gênero de ficção e a bebida? A resposta para isso pode estar em uma outra pergunta: existe cenário melhor para uma narrativa centrada em momentos de bem-estar e relaxamento do que uma tranquila mesa servida com café?

Afinal, o objetivo da ficção de cura é “contar histórias para confortar e oferecer um senso de acolhimento, recusando suspenses e grandes conflitos e colocando em pauta reflexões sobre a vida cotidiana em meio às estruturas sociais da atualidade”, descreve a professora e pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Daniela Mazur, diretora cultural do Instituto Cultural Brasil-Coreia.

Uma crítica ao capitalismo

O gênero nasceu na primeira metade do século XXI com o intuito de questionar os impactos do capitalismo na vida das pessoas, explica a pesquisadora. Em meio a uma lógica de trabalho e saúde mental cada vez mais precarizadas, ele não só discute essas questões como propõe momentos de pausa para descanso e contemplação. E vem florescendo em um Japão e uma Coreia do Sul em que o café protagonizou pequenas revoluções na virada do milênio, com dezenas de milhares de cafeterias se tornando parte integral do cenário urbano em ambos os países.

“O yiashi, essa ideia de conforto, acolhimento e restauração emocional, não é algo novo na cultura japonesa, mas está ganhando novas formas e aparecendo com mais força”, reforça Anderson Kagawa, brasileiro fundador e head de operações da Eldorado Japan. Segundo ele, as cafeterias e o café surgem com tanta frequência nessas histórias justamente por serem lugares que proporcionam esse tipo de experiência, funcionando como “elementos de conforto” em um país onde a solidão já se tornou até problema social.

“[A cafeteria] é um espaço onde você pode desacelerar, ficar sozinho, apreciar, conversar, criar conexões ou simplesmente ter alguns minutos de tranquilidade no meio da rotina pesada”, conta Kagawa.

Para ele, isso também reflete um momento em que, no Japão, o foco já não está só em quão especial é o café que você está bebendo, mas também naquilo que vem junto com a xícara: “O ambiente, a experiência e a própria cafeteria acabam se tornando tão importantes quanto a bebida.”

Público e íntimo

O café também é capaz de fazer uma ponte até inusitada entre rotina e pausa, na visão de Gustavo Balducci, jornalista que escreve sobre k-pop e dramas asiáticos para a revista Capricho. Ele funciona como companhia perfeita para diferentes situações: pode servir tanto para embalar uma conversa de trabalho quanto como ritual de desaceleração. 

“Nas narrativas de healing fiction, esse tipo de ritual tem bastante importância. Uma xícara de café pode parecer um detalhe pequeno, mas justamente por isso ela ajuda a construir a ideia de que o conforto e o cuidado não precisam estar associados a acontecimentos grandiosos”, afirma Balducci. 

O gênero, aliás, já escapa das fronteiras da literatura e surge no audiovisual, também associado à cultura da bebida, em séries como as coreanas “Gostaria de uma Xícara de Café?”, disponível no streaming Rakuten Viki, e “Irei Quando o Tempo Estiver Bom”, na Netflix.

Para além de todos os aspectos que aproximam a ficção de cura e o universo do café, uma cafeteria guarda também um caráter ao mesmo tempo público e íntimo, acrescenta o jornalista. “Você pode estar cercado de pessoas e permanecer sozinho. Pode encontrar alguém por acaso, começar uma conversa ou só observar o movimento.” Uma  ambiguidade que combina perfeitamente com a trajetória de tantos personagens em busca de se reconectar com o mundo.

Conheça alguns livros

Hwan Bo Reum, Bem-Vindos à Livraria Hyunam-Dong, Intrínseca, 2023. R$ 24,90 no site Estante Virtual.

Kim Jee Hye, O Café Literário de Soyangri, editora Quinta Essência, 2025. R$ 50 no site da Livraria da Vila.

Mai Mochizuki, Os Gatos do Café da Lua Cheia, editora Intrínseca, 2024. R$ 35,91 no site da Amazon.

Michiko Aoyama, Chocolate Quente às Quintas-Feiras, editora Arqueiro, 2024. R$ 39,90 no site da Livraria da Travessa.

Toshikazu Tawaguchi, Antes Que o Café Esfrie, Valentina, 2022. R$ 39,80 no site Mercado Livre.

TEXTO Leonardo Neiva

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