Coluna Café por Convidado Especial

Do campo à xícara, profissionais convidados refletem sobre o setor

Agricultura e as mudanças climáticas: a esperança da regeneração

O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU apontou que o aquecimento global está se acelerando e a temperatura média da superfície do mundo aumentará a 1,5°C por volta de 2030, uma DÉCADA antes do previsto. E já estamos sentindo os efeitos negativos — não é à toa que o Brasil está passando pela maior seca dos últimos 100 anos na bacia do Rio Paraná (afetando o fornecimento de água para São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná), ao mesmo tempo em que registramos ondas de frio históricas, com geadas intensas, e um aumento dos focos de incêndio na Amazônia e no Cerrado.

Se estes efeitos negativos são sentidos primeiro no campo — produtores de café estimam uma perda de até 35% da lavoura com as geadas de julho passado —, eles também acabam chegando até as prateleiras dos mercados, com uma estimativa de alta de 14% nos preços internacionais do grão.

Mas o que pode ser feito então para evitar (e até prevenir) os prejuízos causados pelas mudanças climáticas?

Por mais de 30 anos, nós da Rainforest Alliance trabalhamos para tornar a agricultura mais sustentável ao fazer com que nossos  produtores rurais parceiros em todo o mundo adotem métodos de cultivos que protegem a terra. E isso, sem abrir mão da produtividade necessária para garantir boas condições de vida no campo. Em outras palavras, a agricultura sustentável é uma prática de redução de danos — o primeiro passo crucial no caminho em direção à criação de sistemas benéficos para as pessoas e a natureza.

Para nós a sustentabilidade é uma jornada de melhoria contínua, e o destino final é a regeneração do meio ambiente. Um produtor pode começar a sua trajetória sustentável ao reduzir o uso de insumos como pesticidas, por exemplo, o que pode estimular uma melhoria na fertilidade do solo. Quando medidas enriquecem a terra — como o plantio de árvores de sombra para proteger e nutrir os solos — são aplicadas em todas as frentes, você tem uma fazenda de fato regenerativa.

Nosso programa de certificação ajuda os produtores a se adaptar às mudanças climáticas ao identificar os desafios específicos da sua região — tais como novos padrões de clima, secas ou chuvas mais intensas — e a encontrar os métodos corretos para superá-las. Esse tipo de adaptação direcionada ajuda os produtores a construir resiliência aos impactos prejudiciais das mudanças climáticas. Por exemplo: um estudo interno com produtores de café na Colômbia mostrou que, em um ano de clima adverso e de várias infestações de doenças fúngicas, os produtores certificados Rainforest Alliance perderam apenas 1% de produtividade, contra 52% de perda do grupo de controle.

Aqui estão algumas áreas onde promovemos a agricultura regenerativa:

Biodiversidade na fazenda e na floresta

Muitos de nós pensamos em tigres e leões quando ouvimos falar em biodiversidade – e de fato, todos os animais são necessários para o equilíbrio da natureza-. Mas as criaturas pequenas, como as 200.000 espécies de polinizadores (como pássaros, morcegos e abelhas), são vitais para os ecossistemas e para a produção de alimentos. Afinal, sem o trabalho gratuito destes pequenos seres, a polinização simplesmente não aconteceria. E sem polinização, ficamos sem todos os tipos de frutos — do café e cacau a laranjas e melões, para citar apenas alguns — que fazem parte da nossa alimentação.

Diversas exigências presentes na nova Norma visam ampliar o impacto positivo e reduzir o impacto negativo da produção sobre a biodiversidade:

  • Manter e ampliar a diversidade de vegetação nativa por meio de práticas agroflorestais (prática de estímulo para árvores existentes e plantação de novas árvores lado a lado com as lavouras) e a criação de corredores ecológicos.
  • Adotar medidas para a diversificação dos tipos de cultivos e de vegetação na fazenda e apoiar a biodiversidade funcional (por exemplo, polinizadores e inimigos naturais de pragas) por meio de uma Estratégia de Manejo Integrado de Pragas.
  • Ajudar na proteção de espécies ameaçadas da flora e fauna nativas, proibindo a caça, reduzindo a propagação de espécies invasoras e tomando medidas para diminuir o conflito entre seres humanos e vida silvestre.
  • Reduzir os impactos negativos da agricultura, melhorando a qualidade do solo por meio de mecanismos como controle de erosão e aumento de matéria orgânica no solo

Adaptação às mudanças climáticas

As mudanças climáticas estão prejudicando todos os aspectos de nossa vida. Padrões climáticos imprevisíveis, períodos de crescimento mais curtos, estiagens, temperaturas extremas e a crescente exposição a pragas e doenças nas lavouras representam desafios assustadores para produtores em todo o mundo. No entanto, esses desafios não são sentidos apenas por agricultores. Eles criam um efeito cascata que pode resultar na instabilidade das cadeias de suprimento, em limitações na disponibilidade dos produtos e no aumento dos preços. Nossa abordagem de agricultura climaticamente inteligente pode ajudar os produtores a se adaptar e se preparar para os impactos, visando preservar, e até mesmo aprimorar, seus meios de subsistência, ao mesmo tempo em que fomenta acesso futuro a cultivos como café, cacau e chá, dos quais todos nós dependemos. Em resumo, tornando as cadeias de suprimento mais resilientes.

Em nosso novo programa de certificação, a agricultura climaticamente inteligente utiliza uma variedade de ferramentas desenvolvidas a partir dessa estrutura internacionalmente estabelecida a fim de avaliar os riscos e vulnerabilidades climáticas de um ambiente/comunidade/residência/sistema, levando em consideração as condições do ecossistema local e as necessidades específicas da plantação. Encontrar a combinação certa de estratégias para lidar com os desafios climáticos específicos de uma fazenda e desenvolver resiliência em relação aos impactos futuros é o que faz de fato a agricultura climática ser “inteligente”

Manejo integrado  de plantas daninhas e pragas (MIP)

O uso indiscriminado dos pesticidas na agricultura é associado a efeitos negativos no meio ambiente e na saúde humana, bem como com a perda de biodiversidade, particularmente no Sul global. A chegada dos pesticidas sintéticos possibilitou a produção de grandes quantidades de alimento, mas também levou à simplificação de ecossistemas, tornando-os menos resistentes e mais dependentes de insumos externos como pesticidas e fertilizantes. A redução do uso de pesticidas na agricultura é urgente, não apenas para evitar os efeitos nos humanos e no meio ambiente, mas também para evitar problemas de resistência das pragas atuais e a criação de novas pragas.

Para a Rainforest Alliance, manejar pragas, doenças e plantas daninhas é parte da agricultura climaticamente inteligente e de uma abordagem holística de gestão de ecossistema, que visa atingir uma redução substancial do uso de pesticidas ao fortalecer e equilibrar as funções do agroecossistema.

Essa abordagem é baseada no aprimoramento das forças contidas nos agroecossistemas para reduzir as populações de pragas para níveis aceitáveis, ao invés de tentar erradicá-las. O uso de pesticidas pode ser reduzido com a adoção de práticas alternativas com base no melhor entendimento do ecossistema. A escolha dos métodos de controle é feita considerando custos e benefícios, bem como os aspectos ecológicos e sociais. Essa abordagem cria benefícios para a conservação em longo prazo do ecossistema e de seus serviços, e do bem-estar das pessoas. Uma redução eficiente em longo prazo no uso de pesticidas não pode ser atingida apenas com regras mais restritivas. É necessário uma mudança de mentalidade, uma mudança nas práticas agronômicas e a melhoria contínua da estratégia de MIP.

Melhoria da produtividade e meios de subsistência

O bem-estar daqueles que trabalham na terra é crucial para qualquer sistema de agricultura regenerativo — e isso significa, em parte, a melhoria da produtividade do cultivo e da renda do produtor rural. Um estudo recente refuta a crença de que a melhoria de biodiversidade nas fazendas compromete a produtividade, e em nosso trabalho, concluímos que a produtividade, na verdade, aumenta. Na região de Junin, nos Andes Peruanos, pesquisadores concluíram que uma cooperativa de café Certificada Rainforest Alliance aumentou a produção anual, o que levou a US$280 adicionais por hectare em renda liquida de café nas fazendas certificadas. Outros estudos concluíram que produtividades mais altas geralmente levam a rendas maiores em fazendas certificadas, e cultivos certificados geralmente possuem preços de mercado mais altos.

Finalmente, reconhecemos que a responsabilidade da melhoria das condições de vida no campo deve ser compartilhada ao longo de toda cadeia de suprimento (que inclui compradores intermediários, empresas de alimentos e varejistas), de forma que os riscos, os custos e a carga da produção sustentável não caia apenas sobre os produtores. Para trazer isso ao dia a dia de fazendas e empresas, a nossa nova norma apresenta o conceito de Responsabilidade Compartilhada com o objetivo de que os agricultores sejam recompensados pelos integrantes da cadeia de suprimentos por meio de investimentos financeiros e não financeiros.

Trabalhamos com mais de 2 milhões de produtores ao redor do mundo que demonstraram o grande potencial da agricultura de gerar impactos positivos na biodiversidade e no clima. A natureza vinha nos perdoando até agora, mas estamos vendo sinais de que ela pode não se recuperar. É por isso que não é mais suficiente apenas reduzir nossos impactos prejudiciais — temos que melhorar a saúde da Terra. E a agricultura oferece uma maravilhosa oportunidade de fazer isso.

Para uma visão mais aprofundada dessas inovações e mais, baixe a introdução da nossa nova Norma de Agricultura Sustentável ou visite o site do Programa de Certificação 2020.

E não deixe de acompanhar a Rainforest Alliance Brasil no Instagram! De 27/09 a 03/10, acontece a campanha Follow The Frog, em que celebramos as jornadas de sustentabilidade nossos parceiros e mostramos aos consumidores como os produtos certificados são melhores para um futuro em que as pessoas e a natureza prosperam em harmonia.

TEXTO Maiara Despontin, especialista em Agricultura Sustentável na Rainforest Alliance Brasil • FOTO Café Editora

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