Café & Preparos

Cafés à moda turca e árabe ganham destaque e preservam tradições de imigrantes no Brasil

Por Leonardo Neiva

Sobre um recipiente retangular com uma camada de areia quente, a barista movimenta lentamente o cezve (ou ibrik, em árabe). Dentro dessa pequena panela de cobre com cabo longo, o café de moagem extremamente fina se mistura com a água, num método diferente dos espressos e filtrados. Em meio à areia quente, ele recebe o calor de maneira uniforme, desenvolvendo sua espuma e aroma característicos.

Imagens do preparo do café turco vêm ganhando destaque nos cardápios de estabelecimentos pelo Brasil e viralizam com frequência nas redes, devido à sua técnica única. O aquecimento sobre a areia quente, típico da Turquia e de certas regiões do Oriente Médio, se inspira na tradição de povos nômades do deserto, que tinham apenas o sol e a areia como fogão.

Mas “o verdadeiro café turco não está só no preparo, e muito menos numa máquina de areia. Ele está na técnica, no conhecimento e na formação de quem prepara”, afirma Adriana Gomes, proprietária da Tenda Turca, pioneira no preparo da bebida em São Paulo. Inspirada pelos laços familiares e de amizade na Turquia, ela abriu a casa em 2022, onde, além do café e do chá, comercializa produtos e ingredientes importados do país.

A Asmar’s, rede de confeitaria árabe de Foz do Iguaçu (PR) que vem abrindo unidades pelo Brasil, oferece cafés inspirados em regiões diversas da Turquia. O da capital Ankara, por exemplo, leva um blend de pimentas, e o de Izmir, na costa oeste, vai com cardamomo, especiaria tradicional do café árabe.

Foto: Asmar’s

Paul Sapountzakis, que comanda duas unidades da rede em Brasília, conta que o preparo da bebida virou um show à parte. “Muitos clientes se aproximam para assistir, fazem perguntas, fotografam e gravam vídeos. Antes mesmo do primeiro gole, já existe uma conexão com a história e com a tradição da bebida.”

Descendente de gregos e libaneses, o empreendedor cresceu em uma família onde o café era ritual de convivência e gesto de acolhimento. “O café turco não foi criado para ser consumido com pressa. Ele convida as pessoas a desacelerar, conversarem e aproveitarem o momento”, afirma.

Reconhecidos como Patrimônios Culturais Imateriais da Humanidade, tanto o café turco quanto o árabe remontam ao século 15, com seus primeiros usos medicinais e rituais na região do Iêmen. A primeira cafeteria de que se tem registro surgiu nesse mesmo século em Constantinopla, atual Istambul.

No Brasil, há uma confusão histórica entre os imigrantes vindos da região. Do fim do século 19 ao início do 20, viajantes de países que faziam parte do Império Otomano, como Líbano e Síria, eram rotulados pelas autoridades brasileiras como “turcos”, conta o doutor em história social Bruno Bortoloto do Carmo, analista de pesquisa do Theatro Municipal de São Paulo.

Um dos autores do projeto Memórias do Café Árabe, do Museu do Café de Santos, Bortoloto registrou narrativas orais de imigrantes, que resultaram em um artigo e uma exposição focada na tradição do café árabe por aqui.

Por conta da proximidade, há semelhanças – e diferenças importantes – entre os cafés da região. O café fino jogado direto na água e o bule de cabo longo estão presentes tanto na versão árabe quanto na turca. Por outro lado, o café de países árabes quase sempre inclui cardamomo e usa uma torra mais clara, o que o torna leve e floral, enquanto o turco tem um sabor mais encorpado. “O turco não costuma ter tantas especiarias”, aponta o pesquisador.

Foto: Asmar’s

Um exemplo dessa confluência de tradições é o Yummizza, de Curitiba (PR). Apesar de ser inspirado nos sabores de Damasco, capital da Síria, o restaurante traz no cardápio o café turco – ao menos no nome. No entanto, é possível tomá-lo tanto puro quanto com cardamomo, ingrediente tradicional da bebida em solo damasceno.

Vindo da capital síria para recomeçar a vida no Brasil, foi a falta que Ahmad Mnayer sentia dos sabores da terra natal que o inspirou a abrir o estabelecimento, onde também vende esfihas e shawarmas. “Quando sirvo esse café, lembro da minha infância, da família e da cultura. Tem gente que diz que o café os fez lembrar dos pais ou dos avós. Isso é muito bonito.”

Se só agora os cafés turco e árabe passaram a ganhar projeção nas redes e em estabelecimentos daqui, entre comunidades imigrantes já eram presença constante. “[Durante a pesquisa] Todas as pessoas nos receberam com um café feito dessa forma e contaram que mantêm essa tradição em casa”, diz Bortoloto. Segundo ele, restaurantes tradicionais, como o Syria e o Abud Síria, no centro de São Paulo, também servem a bebida, muitas vezes fora do cardápio.

Na visão de Adriana Gomes, da Tenda Turca, ainda são poucos os lugares no Brasil que oferecem uma experiência realmente especializada do café turco. Mas ela já percebe uma mudança. “As pessoas estão mais curiosas, viajam mais e veem conteúdo sobre isso nas redes. Cresce o interesse pelas gastronomias do Oriente Médio e da Turquia.”

Tenda Turca
Endereço: Pão de Açúcar – Av. Brigadeiro Luís Antônio, 2013 – Lj 04 – Bela Vista, São Paulo (SP)
https://www.tendaturca.com.br/

Asmar’s Brasília
Endereço: Unidade ParkShopping – SMAS Trecho 1 Luc 280A – Guará – Brasília (DF)
Unidade Conjunto Nacional – SDN, CNB – Asa Norte, Brasília (DF)
https://asmarsbrasilia.com.br/

Yummizza
Endereço: Av. Sete de Setembro, 4341 – Água Verde – Curitiba (PR)
https://www.instagram.com/yummizza/

TEXTO Leonardo Neiva • FOTO Asmar's

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