Mercado

“O Brasil tem tudo para aumentar sua liderança no mercado mundial de cafés”, diz Eduardo Carvalhaes

Para o sócio do tradicional Escritório Carvalhaes, de análises, corretagem e serviços no comércio e exportação de café, o país reúne clima, história, conhecimento, pesquisa e técnica, mas corre riscos se não investir em pesquisa, visão estratégica e legislação clara

Eduardo Carvalhaes – Foto: Agência Ophelia

Por Cristiana Couto e Caio Alonso

Com mais de 40 anos no setor cafeeiro e à frente, com o irmão Nelson, do centenário Escritório Carvalhaes, em Santos, Eduardo Carvalhaes é uma das vozes mais respeitadas da cafeicultura brasileira. Na conversa com a Espresso, ele analisa as mudanças que transformaram o comércio do café, o novo papel do exportador e os impactos das novas tecnologias e novas exigências globais. Testemunha ocular da história recente do grão no país, ele acompanhou o fim do Instituto Brasileiro do Café, o surgimento do mercado livre, os anos de inflação alta e a estabilização da economia com o Plano Real.

Entre dados, memórias e visão de futuro, Carvalhaes comenta sobre o Brasil, seu papel como liderança mundial e seus desafios, e revela o sonho de ver os 300 anos da chegada do café ao Brasil sendo devidamente comemorados. Para ele, o país reúne clima, cultura, pesquisa e técnica, mas corre riscos se não investir em pesquisa, leis claras e visão estratégica para enfrentar a realidade do mercado atual. Confira a entrevista a seguir, feita ao vivo em Santos.

Espresso: O Escritório Carvalhaes tem mais de cem anos. Como começou essa história?

Eduardo Carvalhaes: Na década de 1880, meu tio-tataravô, produtor de café no sul de Minas, montou uma comissária exportadora em Santos. Meu bisavô, José Ildefonso Carvalhaes, tornou-se sócio da Vicente Carvalhaes Comissária e Exportadora em 1887. Por volta de 1914, com uma grande inundação no Porto de Santos, o negócio quebrou, e não havia seguro nem nada. Meu avô e seus irmãos, então, entraram na história. Já tinham conhecimento, um nome no mercado de café, e a economia do Brasil era o café. Eles começaram a trabalhar com prestação de serviço, em corretagem, porque não tinham capital para serem exportadores. Foi assim que nós começamos.

Quais são as linhas de negócio do Escritório Carvalhaes?

Hoje, atuamos principalmente com corretagem especializada em cafés de qualidade, com exportação, prestação de serviços para exportadores e cooperativas e com análise de café. Nosso Boletim Semanal circula desde 1933, sem interrupção. Fazemos amostragem, análise sensorial e física de café. Nosso Lab Carvalhaes possui certificação ISO 9001 desde 2003, auditado anualmente pela Fundação Vanzolini, e é credenciado pela Abic [Associação Brasileira da Indústria de Café] para seu Programa de Qualidade de Café. Orientamos, técnica e comercialmente, produtores e compradores de café que buscam um produto diferenciado.

Eduardo Carvalhaes em seu escritório, consultando antigas publicações da empresa – Foto: Agência Ophelia

Como você começou a trabalhar com café?

Sou engenheiro químico e trabalhei por oito anos em um escritório de projetos industriais em São Paulo. Vim para o café em razão da hiperinflação dos anos 1980, que prejudicou a engenharia de projetos industriais brasileira. Na época, 1983, o café estava indo bem e decidi experimentar. Acabei gostando e fiquei.

Eu e meus dois irmãos, Sergio e Nelson, que já estavam no Escritório Carvalhaes, começamos a trabalhar juntos. No final dos anos 1980, o sistema de cotas de exportação acabou, e foi possível registrarmos uma exportadora de café. A nossa foi uma das primeiras, e se chamava Porto de Santos.

Como construíram a parceria com a illycaffè?

No início de 1990, recebemos a visita de Ernesto Illy, presidente da illycaffé, que queria montar um negócio de café diferente. A illy, em termos mundiais, não era grande, mas era muito respeitada pela qualidade de seus cafés. Ernesto disse que comprava café brasileiro, um dos melhores para espresso. Ele vinha ao Brasil, experimentava o café, comprava, e o que chegava lá era diferente. Disse que pretendia fazer um concurso de qualidade para café no Brasil, para localizar e estimular a produção de cafés de qualidade para espresso, e que precisava de uma empresa que comprasse esses cafés.

Naquela época, já trabalhávamos no mercado de café gourmet. Inicialmente, fizemos um contrato para comprar os cafés do concurso e Nelson ficou à frente da nossa exportadora. Paralelamente, enviávamos amostras de cafés brasileiros finos para ele, e o negócio cresceu. A illy foi a primeira a comprar cafés descascados brasileiros, ainda nos anos 1990. Comprávamos pequenos lotes, pagando um preço acima do pago para os naturais. Embarcávamos tudo separadamente, e eles faziam os blends. Com os bons preços, a produção de CD foi aumentando, e o Ernesto, comprando, e outros compradores começaram a adquirir os nossos CDs, e produção e exportação cresceram rapidamente. Dos anos 1990 aos 2000, a illy pagava os maiores preços do mercado, estimulando a produção de cafés finos no Brasil.

Qual foi a grande transformação que aconteceu no mercado nas últimas décadas?

Foi o fim do Instituto Brasileiro do Café [IBC], em 1989, no dia da posse do Fernando Collor como presidente. Até 1960, mais de 50% da nossa receita vinha do café. O fim do IBC desmanchou uma rede de armazéns e técnicos de qualidade. A parte boa é que liberou o comércio de café no Brasil, e nossa produção e exportação cresceram exponencialmente. Muitos quebraram, gente que vendia seus estoques e produção para o governo, e muito cafeicultor saiu do negócio. Mas quem se adaptou, cresceu. Houve força para extinguir o IBC porque o Brasil já não dependia mais só do café. A industrialização avançava e a produção agrícola e a economia diversificavam. Essa decisão do Collor mudou tudo. Em 1999, o Brasil atingiu 20 milhões de sacas exportadas, depois 30 milhões em 2009, em 2019, 40 milhões e, no ano passado, mais de 50 milhões. Isso mostra como a liberdade de mercado e a qualidade do café elevaram a competitividade dos cafés do Brasil.

Foto: Agência Ophelia

Santos já foi uma grande praça de comercialização. Hoje, esses lugares estão mais próximos das plantações?

Digo que a história do comércio de café é a história da evolução da comunicação e sua velocidade. Temos uma fotografia de Santos, do início da década de 1950, na rua XV [de Novembro], lotada de gente durante o dia. Era assim porque era na rua que a gente tinha a informação. A comunicação com o interior era feita somente por telegrama, que demorava para chegar e para voltar – levava uma semana, no mínimo, para completar. Só então podíamos vender o café. Às vezes, o mercado já tinha mudado.

Nós tínhamos uma ordem para vender por X e o valor já estava em “X mais dois”; vendíamos por “X mais dois” e entregávamos o dinheiro para o produtor. Mas havia quem vendesse por X e embolsas se o “mais dois”. Muitos fizeram fortuna assim. Também, não havia cooperativas no interior, mas existia o maquinista, alguém com capital que fazia esse papel. Ele comprava o café de produtores pequenos, rebeneficiava, fazia um lote grande e mandava para o corretor dele.

Só produtores maiores negociavam diretamente com o exportador. Na praça santista, o exportador era o primeiro a ter a informação, e comprava. Levava um tempo para a notícia se espalhar. O maquinista punha um rádio nos escritórios dos corretores, ficava sabendo o que acontecia no mercado e comprava. Me lembro de acordar e dormir com meu pai ao telefone, porque as linhas eram poucas e viviam congestionadas. Depois, vieram o DDD, o aparelho de telex, o computador, o fax, o e-mail, o whatsapp, a comunicação em rede, instantânea e a custo quase zero. Agora, convivemos com a inteligência artificial. Na pandemia, descobri que só preciso estar fisicamente no escritório para provar e analisar café. Fomos pioneiros no mercado de café no uso do computador, do telex, do fax, do celular. A cada ano, a grande praça de comercialização de café é a internet, as redes sociais. Hoje, trabalhamos com produtores e compradores de café de todo o Brasil. A nova rua XV do comércio de café é a internet.

E aí, com essa movimentação toda…

Naquela época, os sindicatos eram fortes. Tinha sindicato para quem carregava as sacas de café, para quem costurava as sacas, para quem fazia as sacas… Os sindicatos não perceberam que as coisas mudavam com as mudanças na comunicação. Esses serviços começaram a ficar caros, e as cidades do interior queriam fazer esses serviços. Já tínhamos as ferrovias e a via Anchieta. E, um por um, os armazéns foram embora da praça de Santos.

O que mais interfere no preço do café? Clima, câmbio ou política?

Tudo. O mundo globalizou. Se Donald Trump insistir na tentativa de desglobalização, pode tirar os Estados Unidos da liderança do mundo. Acho que não vai acontecer. A globalização, com esse nível de comunicação, não anda para trás.

O clima também mudou. São tantas variáveis que não é possível enxergar a resultante delas. Como toda essa mudança na economia mundial, por exemplo, vai influenciar o consumo? No tempo do IBC, o Brasil tinha estoques enormes. Quando houve a geada de 1975, nós tínhamos mais de uma safra estocada. Mas era outro mundo, não adianta olhar para trás e querer repetir a mesma coisa.

Com o consumo crescendo, o que vai acontecer a médio e longo prazos com os preços?

A produção de café no Brasil tem concorrência e disputa por terras com outros produtos agrícolas. E ele é muito mais trabalhoso do que outras culturas. Você não pode ser produtor de café como há 40 anos, morando na cidade e indo à fazenda só no fim de semana. Tem que estar presente, senão vai perder dinheiro. Por isso, acho que se não tivermos bons preços para o café, muitos podem migrar para outras culturas. O investimento em café é alto, e a maioria dos produtores está diversificando.

Tem também o clima. Termos saído de 20 milhões para 50 milhões de sacas em 25 anos acabou com nossos estoques de café. Nesse tempo, tivemos safras boas e ruins, e sempre crescemos porque havia estoque. Agora não temos mais. E quanto temos de estoque de passagem da safra 2024? Os exportadores acham que existe mais do que eu acredito, e as cooperativas reconhecem que os armazéns nunca estiveram tão vazios.

Antes, havia café de 10 anos guardado. Hoje em dia, é raro. O produtor vende tudo na safra, ou guarda um pouco se a próxima for pequena. O problema é que não temos estoques, nem aqui nem no restante do mundo, e o clima está irregular. Todo o resto deriva disso.

Além disso, não existe mais aquele pregão tradicional, nem nas bolsas de valores, nem nas de café. Tudo é eletrônico. E o que interessa para as bolsas é gerar corretagem: para isso, facilitam o giro. Existem milhares de pequenos investidores no mundo, e não dá para prever como vão reagir. Sai uma notícia nas redes sociais de que o Trump vai fazer algo e já começa a mudança de posição para garantir os lucros. Isso é novo.

Vejo análises com gráficos e projeções de mercado em bolsa, mas acho isso perigoso. O mundo mudou. As análises atuais consideram padrões que já não servem mais, ou servem muito pouco.

Foto: Agência Ophelia

Como você vê o papel do Brasil nessas próximas décadas?

Há uma grande oportunidade para o Brasil. Nós temos terra, temos clima. Temos que continuar investindo em pesquisa. Vamos continuar crescendo. Se trabalharmos direito, vamos chegar a 50% da produção mundial. Não vejo, nos outros países, um movimento assim. Temos novas regiões, novos produtores, como em Rondônia. Existem, claro, barreiras. Há dificuldade de fazer com que os filhos voltem para o campo, e temos, também, que resolver os problemas da legislação trabalhista. Agora, se resolvermos esses problemas, vamos continuar sendo o celeiro do mundo. O mundo vai precisar de alimento. E o Brasil tem tudo para estar entre os principais produtores. No café, sabemos produzir, temos a cultura de produção, conhecimento e história.

Qual a sua opinião sobre os efeitos globais da EUDR?

Isso é uma guerra econômica. A grande maioria dos nossos cafeicultores segue a lei. O Cecafé [Conselho dos Exportadores de Café do Brasil] divulga regularmente no mercado uma lista denunciando produtores que não seguem a lei, para que exportadores não comprem deles, mostrando que está trabalhando nisso. São poucos, se considerarmos o universo de produtores. A EUDR vai ficar mais branda, mas temos que mostrar números. Sempre falamos em agregar valor ao café brasileiro. Mas até para prova de café e selo de qualidade, estamos mandando dinheiro para fora do Brasil.

Temos de reunir todos os segmentos – indústria, produção, comércio, exportação – e atualizar as provas e normas da Classificação Oficial Brasileira, para provas do tipo SCA, com notas. Outra coisa é selo de qualidade. Temos as leis trabalhistas mais rigorosas do mundo, e elas precisam ser claras. Também temos as leis ambientais mais rigorosas. Temos que criar um selo dizendo que aquele café que embarcamos é de um produtor que segue as leis brasileiras. Com a informatização, ficou muito fácil fazer rastreabilidade, já estamos fazendo. No começo, podem não aceitar os selos, mas com o tempo, trazendo compradores e imprensa para as fazendas, isso mudará. Mas precisamos de leis claras.

Então, no fundo, a EUDR é uma oportunidade para o Brasil.

Acho que é. Temos que ver quais são as intenções deles. Estamos numa situação boa em relação a nossos concorrentes, e temos que mostrar isso para o mundo.

Mas precisamos melhorar, sempre. E temos condições. Todo café embarcado passa por agências que emitem certificado de origem, comprovando que o café foi produzido no Brasil. Se montarmos um sistema de fiscalização, essas agências podem emitir o certificado de sustentabilidade, com rastreamento.

O que me entusiasma é ver as regiões produtoras começando a montar certificações de origem. Embora o prêmio ainda seja pequeno, estão construindo algo sólido para a próxima geração. É um movimento mais demorado, mas acho que o Brasil tem tudo para liderar nessa área.

A sustentabilidade no café é só um movimento de marketing ou é uma necessidade?

Alguns fazem por necessidade, mas as novas gerações acreditam nisso. Há um movimento, de uma geração para outra. As fazendas estão mantendo áreas de proteção. E o rigor da lei é bom, é um estímulo a mais. Temos exemplos belíssimos, como a Daterra. Conhecemos bem a Daterra, cuidamos, desde o início, dos serviços em Santos para suas exportações. Eles são um exemplo de sustentabilidade de verdade, de vontade. Eles exportam pacotes de 20 quilos para pequenas torrefações e cafeterias. É um modelo muito bom. E existem outros. Sustentabilidade é uma necessidade, não pode ser só discurso. É prática, no dia a dia, é fiscalização, é clareza nas regras e princípios.

Como você vê o papel do exportador no futuro?

Acho que as rápidas mudanças nas comunicações devem mudar a arquitetura comercial do café. Para grandes torrefações do mundo, o exportador sempre vai ser importante, porque é ele quem compra grandes volumes de café, monta os blends, cuida do embarque. O exportador de café, hoje, está preparando os embarques de daqui a três meses. Mas, com a facilidade de comunicação, surgem produtores que se transformam em pequenos exportadores, e isso está crescendo. Se você tem uma pequena torrefação dominando uma região ou uma pequena rede de cafeterias, você tem que ter um produto diferenciado, para os clientes irem até você e não até uma grande rede como a Starbucks. A cada dia ouve-se falar mais de pequenas indústrias de fora que estão estabelecendo contatos com produtores no Brasil. Esse movimento, de ir atrás de exclusividade, deve continuar. Nesse sentido, os concursos de qualidade de cafés foram muito importantes, e os de barista também. Levaram a imagem de qualidade do café brasileiro para fora.

Você tem algum sonho que ainda gostaria de realizar com o café?

Minha preocupação maior hoje é com a sucessão nas entidades de que faço parte, como o Museu do Café. Passar o bastão para as novas gerações. É preciso treinar as próximas gerações. Isso vale também para as fazendas. Em algumas regiões, há dificuldades para convencer os filhos a voltarem para o campo. Em outros setores, houve renovação.

Se quero algo, é ver essa transição acontecer. Outro sonho de curto prazo é comemorarmos dignamente os 300 anos da chegada do café no Brasil [em 2027]. Já estamos trabalhando nisso.

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TEXTO Cristiana Couto e Caio Fontes • FOTO Agência Ophelia

Barista

Daniel Vaz, da Five Roasters (RJ), é bicampeão na 9ª Copa Barista

O São Paulo Coffee Festival reuniu baristas e apaixonados por café em três dias de Copa Barista, na Bienal do Ibirapuera, na capital paulista. A competição, que chegou à sua nona edição entre 27 e 29 de junho, contou com 20 profissionais de diferentes cidades do Brasil e teve como campeão o carioca Daniel Vaz, da Five Roasters (RJ).

Este ano o desafio foi entregar, em 14 minutos, uma dupla de filtrado no método Melitta, uma dupla de cappuccino na xícara Stanley e uma dupla de um drinque autoral feito com espresso e Licor 43 Original. Além do sensorial, os competidores também foram avaliados tecnicamente durante suas apresentações.

Vaz, que agora é bicampeão da Copa Barista (2023 e 2025), escolheu grãos de catuaí 785 amarelo, da Fazenda Vista do Brigadeiro, nas Matas de Minas, para preparar os cafés entregues na competição – inclusive a dose de espresso de seu drinque de assinatura, composto também por 20 ml de Licor 43 Original, 20 ml de cordial de cogumelo, 20 ml de mel de cacau e 5 ml de limão siciliano.

“Para mim, ganhar a Copa Barista é muito importante, porque é um campeonato dinâmico e desafiador. Você está lidando com os maiores baristas do Brasil, em um duelo que não tem meio termo, ou a sua bebida é a melhor ou não é”, contou Vaz à Espresso. “E, como proprietário de uma torrefação, ser campeão agrega muito valor”, destacou.

O segundo lugar ficou com Renan Dantas, da Dantas Coffee Company, de São Paulo (SP), seguido por André Phillipe dos Santos, da Ristto Coffee, do Rio de Janeiro (RJ), que competiu na Copa Barista pela primeira vez.

“Participar duas vezes e ganhar duas vezes é uma sensação única de dever cumprido”, disse o campeão, que recebeu como premiação R$ 6,5 mil em dinheiro, R$ 550 em vale-compras no site da Café Store, uma Melitta Amano, uma cafeteira espresso Oster Perfect Brew Máxima, um kit da Licor 43 e uma garrafa Transit e uma mug da Stanley.

A 9ª Copa Barista contou com patrocínio de Melitta, Storm, Licor 43, Stanley e Fonte Platina, e apoio de Café Store e Oster.

TEXTO Redação • FOTO Agência Ophelia/SPCF

Cafezal

Mandaguari conquista selo de origem para seu café especial

Com a Denominação de Origem concedida pelo INPI, região no Noroeste do Paraná torna-se o 18º território reconhecido pela qualidade do café e aposta no turismo rural para fortalecer sua identidade

O Café de Mandaguari, no Noroeste do Paraná, recebeu nesta terça (1) o selo de Indicação Geográfica (IG) na categoria Denominação de Origem (DO), concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O reconhecimento consolida a reputação da região como produtora de cafés especiais e valoriza o trabalho de cerca de 200 propriedades familiares distribuídas nos municípios de Mandaguari, Marialva, Jandaia do Sul, Apucarana, Cambira e Arapongas.

Com mais este selo, o Brasil chega a 137 IGs registradas – 18 delas dedicadas ao café, o produto com mais indicações geográficas. 

O selo é resultado de um trabalho iniciado em 2022, com apoio do Sebrae/PR, do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), da Secretaria da Agricultura (Seab), da UTFPR e da recém-formada Associação dos Produtores de Café de Mandaguari (Cafeman). As Indicações Geográficas (IGs) são instrumentos coletivos que valorizam produtos tradicionais intimamente ligados a um território. No caso de uma denominação de origem, as qualidades ou características do produto são essencialmente atribuídas ao ambiente natural e humano da região — como solo, clima, altitude e saber-fazer local.

A Indicação Geográfica (IG) traz diversas vantagens às regiões produtoras, como o resgate e a valorização da cultura local, estimulando o envolvimento dos agricultores com a atividade e incentivando que as novas gerações permaneçam no campo, garantindo renda e sustentabilidade dentro das propriedades. Além disso, a IG fortalece a articulação entre lideranças locais, produtores e associações na preservação do patrimônio regional, ao mesmo tempo em que amplia o acesso a mercados nacionais e internacionais, promovendo o desenvolvimento econômico e social do território.

Quanto a Mandaguari, a região aposta no turismo rural como forma de consolidar sua imagem no setor cafeeiro, com iniciativas como a Rota do Café, que permite ao visitante conhecer todo o ciclo produtivo do grão.

TEXTO Redação

Mercado

Campinas sedia a partir desta quarta (2) a 10ª edição do Coffee & Dinner Summit

O evento, que acontece a cada dois anos, foca em sustentabilidade, mercado global e protagonismo do café brasileiro

Com o tema “O futuro do fluxo do comércio: protagonismo e liderança dos Cafés do Brasil”, o 10º Coffee Dinner & Summit reunirá representantes de todos os elos da cadeia cafeeira nacional e internacional entre os dias 2 e 4 de julho de 2025, no Royal Palm Hall, em Campinas (SP). Promovido pelo Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), o evento bienal chega à sua 10ª edição propondo reflexões sobre sustentabilidade, desafios logísticos globais, tendências de mercado e o papel estratégico do Brasil como líder confiável no comércio mundial de café.

Após a abertura nesta quarta (2) à noite, o dia 3 será marcado por debates de peso. A palestra técnica “EUDR & ICE Commodity Traceability (ICE CoT) Service” (8h30), discute a plataforma tecnológica que promove a rastreabilidade detalhada das cadeias produtivas do café, e terá a presença de Clive de Ruig (ICE), Toby Brandon (IBA, ICE Group Company), Anthony Mangnall (ICE), o acadêmico Ed Mitchard, da Universidade de Edimburgo, e a engenheira ambiental Camila Marques. 

À tarde, o painel Organizações Globais do Café: EUDR e Novas Regras em Tempos de ESG” (14h) reúne líderes como Marcos Matos (Cecafé), Bill Murray (National Coffee Association), Paul Rooke (British Coffee Association) e Hannelore Beerlandt (European Coffee Federation) para discutir os impactos do regulamento europeu antidesmatamento (EUDR) e as exigências de ESG no comércio global do café. Destaque também para o painel “Futuro da Cafeicultura Sustentável” (15h30) com representantes da Embrapa, OIC, German Coffee Association e a exportadora Guaxupé.

A sexta (dia 4) começa às 8h30 com a palestra técnica “Espírito Santo – novos investimentos para alavancar soluções logísticas”, com os palestrantes Júlio César Lourenço (Portocel), Carla Rios do Amaral (Vports – Autoridade Portuária) e Claudio Pinheiro Melim (Imetame Logística Porto). 

Na sequência, o painel “Desafios Logísticos no Abastecimento de Café” (11h), moderado por Eduardo Heron (Cecafé), contará com a participação de Claudio Oliveira, do Brasil Terminal Portuário (BTP), Elber Justo, da MSC – Mediterranean Shipping do Brasil, Priscila Ceolin, da JDE Peet’s Brazil e Casemiro Tércio, da 4Infra. E, na parte da tarde, vale assistir ao painel “Tendências de Consumo de Café”, com a participação de Pavel Cardoso, da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Bill Murray, da National Coffee Association dos Estados Unidos, Stefan Dierks, do Melitta Group, Ryo Satomi, da UCC Japan, e Marcel Motta, que discutirão as principais tendências e transformações no consumo de café ao redor do mundo. A programação se encerra com um jantar às 19h.

10º Coffee & Dinner Summit
Quando: 2 a 4 de julho de 2025
Onde: Royal Palm Hall – Campinas (SP)
Mais informações e inscrições neste link. 

TEXTO Redação

Mercado

Sobre cafés e cogumelos: conheça essa nova onda

Com promessa de aumentar o foco e a longevidade, a bebida funcional de cogumelos é a aposta da vez

Por Letícia Souza

Quem escuta pela primeira vez o termo “café com cogumelo” pode pensar que se trata de algo ilícito ou secreto – e que deve ser dito em voz baixa. Afinal, o fungo tem propósitos já muito conhecidos, como o de agregar o gosto umami a preparos culinários ou oferecer uma viagem mental intensa e lúdica por meio das variedades alucinógenas.

Nem uma coisa, nem outra: nos últimos anos, essa combinação – um café misturado a um extrato de cogumelo – tem chamado a atenção da indústria de café pelo viés da saúde. Com diversas marcas já disponíveis, os cafés com cogumelo, também chamados cogumelos funcionais, prometem melhorar o foco e dar mais energia aos consumidores, além de reduzir o estresse, regular a imunidade e, até, combater inflamações.

A demanda por esse tipo de produto vem na esteira de tendências saudáveis, de mudanças nas preferências de consumo e do crescimento de bebidas e comidas plant-based ou funcionais.

Para produzir o café funcional de cogumelo, as empresas vêm explorando diversos fungos, o que resulta em produtos finais com características sensoriais distintas na xícara.

As variedades reishi (Ganoderma lucidum) e juba-de-leão (Hericium erinaceus), além das do gênero cordyceps, são as mais usadas no café e são conhecidas como cogumelos adaptógenos. O termo refere-se a substâncias que aumentam a resistência física ao estresse, influenciando o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (eixo HPA), o principal sistema humano de resposta ao estresse. Desde os anos 1970, pesquisadores interessam-se pelos potenciais benefícios à saúde dessas variedades.

O juba-de-leão, por exemplo, é fácil de cultivar e é encontrado em vários países – o que ajuda a reduzir os custos de produção da bebida. Na xícara, o sabor do fungo é descrito como adocicado. Já o chaga (Inonotus obliquus), de sabor terroso, acastanhado e doce, combina bem com café.

Café com cogumelo é uma dupla bem popular nos Estados Unidos e na Coreia do Sul e vem ganhando, também, o mercado brasileiro, impulsionado pelas bebidas alternativas ao café tradicional.

O que diz a ciência

Enquanto cresce a procura por alimentos e bebidas que prometem melhorar a função cognitiva, alguns profissionais da saúde têm visto o consumo de café com cogumelo com ceticismo. “Não há evidências científicas que demonstrem que o café com cogumelos pode melhorar a clareza mental mais do que o café sem cogumelos”, diz o microbiologista Nicholas P. Money, da Universidade de Miami. “É apenas uma trend – mas uma trend lucrativa para algumas empresas’’, destaca.

Em artigo de maio sobre o tema, o Medical News Today, site de saúde reconhecido por publicar conteúdos baseados em estudos científicos revisados por especialistas, destaca que benefícios como suporte ao sistema imunológico e propriedades anti-inflamatórias são promissores, mas reconhece que são necessárias mais pesquisas para confirmar esses efeitos em humanos. Também o Healthline, outro site global de saúde de renome, ressaltou, em texto de 2024, que muitas das alegações de benefícios à saúde dos cafés com cogumelos ainda carecem de evidências científicas robustas.

Money ressalta, porém, que a ciência vem dando atenção aos efeitos dos cogumelos no organismo. “Existem estudos interessantes sobre os efeitos de compostos químicos específicos, extraídos de cogumelos, no desenvolvimento de células nervosas cultivadas em cultura”, conta o microbiologista. Mas esses estudos, alerta, não têm qualquer relação com os benefícios de beber café com cogumelos.

O que reforça ainda mais a desconfiança do microbiologista e de profissionais de saúde é o efeito de outros ingredientes que também podem ser acrescentados à bebida, como canela, gengibre, cardamomo, pimenta-preta e extrato de guaraná em pó — todos com propriedades benéficas reconhecidas, resultantes da presença de ômega-3 e das vitaminas D e B12.

Para Money, a única maneira de saber se gengibre ou cardamomo têm efeitos diferentes dos extratos de cogumelo no café é fazer experimentos nos quais um desses ingredientes esteja ausente. Ainda que taxativo, ele não acha que o uso de café com cogumelos deva ser proibido. “Se o cliente acredita que esse placebo tem efeito positivo sobre ele e se sente melhor após consumi-lo, tudo bem”.

A tendência bilionária do bem-estar

O fato de não haver comprovação científica sobre os efeitos fisiológicos do café com cogumelos parece não ter afetado as finanças dos que investem na sua comercialização. Segundo relatório da Strategic Market Research, em 2023, o segmento de café com cogumelo foi avaliado em US$ 2,3 bilhões e pode atingir US$ 4,5 bilhões até 2030 – o que representa uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 9,8% entre 2024 e 2030.

Outro levantamento, feito em 2024 pela IndustryARC, estima um cenário futuro mais modesto: US$ 4 bilhões até 2030, com crescimento anual de 4,2% no mesmo período.

Lançada em 2024, a marca brasileira Cafellow comercializa cafés com cogumelos sem aditivos. Depois de conhecer o produto nos Estados Unidos, a proprietária Paula Veloso estudou o mercado cafeeiro brasileiro e decidiu comercializá-lo por aqui. À época, conta ela, não havia nenhuma marca do gênero. “Aqui existem diversas marcas de café. Se quisesse me diferenciar delas, teria que criar um produto original – afinal de contas, os cafés da minha família são vendidos lá fora, então eu tinha que pensar em algo que fosse diferente, pra valer a pena’’, conta ela, cujos familiares têm cafezais na região do Cerrado Mineiro.

A ideia da empresária incluiu a comercialização do produto em sachê. “Ele é bem mais prático, você pode fazer dentro do avião, por exemplo. O drip você tem que rasgá-lo, ajustar na borda da xícara e passar o café. O sachê, você mergulha diretamente na água quente’’, diz ela, que processa os saquinhos, feitos à base de milho, na fábrica da família, em Carmo do Paranaíba (MG), e vende-os online em seu site.

“Pessoas que não abrem mão de um bom café ou que estão começando a tomá-lo, depois que provam o nosso, adoram e dizem que o sabor é muito suave, que quase não dá pra notar o cogumelo’’, garante Paula.

As normas regulatórias da Anvisa, porém, permitem apenas extrato da variedade Agaricus bisporus, o popular champignon, como suplemento alimentar.

Entusiasta de um estilo de vida mais saudável, a psicóloga brasileira Marina Camargo, CEO da Mushin,
acompanhou de perto o mercado norte-americano de café com cogumelos ao viver no país e decidiu explorá-lo no Brasil. “A marca surgiu com foco em comunidade, saúde mental e sustentabilidade. Isso precedeu a ideia do produto, que leva outros ingredientes funcionais na composição”, explica ela, que abriu a empresa de suplementos funcionais à base de cogumelos em 2022.

Mas, em lugar de atribuir aos cogumelos uma melhora na concentração humana, a marca prefere atribuir o benefício a outros ingredientes acrescentados à bebida, como cacau, extrato de guaraná e gengibre, além de a própria cafeína do café. “Acredito na ciência”, diz ela, ao concordar que, quanto à maioria das variedades, não há nada que comprove melhora em foco ou concentração. “De acordo
com as pesquisas que estão começando fora, o único cogumelo capaz disso, pois contém uma molécula relacionada a esses dois atributos, é o juba-de-leão. Mas no Brasil, essa variedade não é permitida’’, comenta a CEO. “Os estudos sobre cogumelos estão avançando muito, é só uma questão de tempo para que a gente  tenha mais opções disponíveis no mercado’’, aposta.

O café da Mushin vem de um pequeno produtor no interior de Minas Gerais, e o extrato de cogumelo, de uma empresa da Filadélfia. O processo de refinamento torna seu sabor e aroma praticamente imperceptíveis. Isso ajuda na fabricação de café funcional que, segundo Marina, lembra um cappuccino.

Texto originalmente publicado na edição #88 (junho, julho e agosto de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Letícia Souza

Barista

China e Indonésia vencem os Mundiais de Latte Art e Coffee in Good Spirits

Leo Oliva, representante brasileiro no Coffee in Good Spirits

Chen Zhuohao, da China, e Georgius Audrey Teja, da Indonésia, são, respectivamente, os atuais vencedores dos Campeonatos Mundiais de Latte Art e Coffee in Good Spirits. As disputas aconteceram na World of Coffee, de 26 a 28 de junho, em Genebra, na Suíça.

O barista chinês da Moment Coffee Academy manteve-se na 1ª posição do ranking em todos os rounds, apresentando a maior pontuação entre 36 profissionais. Na final, disputada com outros cinco baristas, Zhuohao levou a melhor com 539 pontos. 

1º lugar Chen Zhuohao – Momento Coffee Academy – China
2º Ryusei Nozawa – Sarutahiko Coffee – Japão
3º Elly (Jiyu Lee) – ONEWAY – Coreia do Sul
4º JiaMin – The Populus Cafe – Singapura
5º Bank Sarawut – CP-Meiji Thailand – Tailândia
6º Ming Wan – Ona Coffee – Austrália

Na categoria Coffee in Good Spirits, que avalia drinques alcoólicos com café, o barista da Omakafé disputou com outros 22 profissionais de diferentes partes do mundo e ganhou com 378 pontos na final. 

1º Georgius Audrey Teja – Omakafé – Indonésia
2º Danny Wilson – ONA Coffee – Austrália
3º Van Lin – GABEE – Taiwan
4º Christos Klouvatos – Taf – Grécia
5º Vladyslav Demonenko – Kolo Coffee – Alemanha
6º Gary Au – Urban Coffee Roasters – Hong Kong

O Brasil contou com representantes nas duas categorias. O bicampeão brasileiro Eduardo Olímpio, da Naveia, de Curitiba (PR), ficou na 27ª posição, com 258 pontos. Já Leo Oliva, do Mykola Lab Bar, também da capital paranaense, terminou a competição em 21º lugar, com 253 pontos.

Os melhores do cupping

Além do preparo de cafés, drinques e desenhos, a World of Coffee Genebra também foi sede do Mundial de Cup Tasters 2025, competição que reúne os melhores provadores de café do mundo. O campeão deste ano foi Chatchalerm (Aka Boss), da Tailândia, que na final acertou os oito trios em um tempo de 3 minutos e 24 segundos. O mineiro Bruno Megda chegou até a semifinal e terminou a competição em 8º lugar, com 5 acertos em 4 minutos e 12 segundos.

1º Chatchalerm (Aka Boss) – Tailândia – 8 acertos em 3:24
2º Max Mak – China – 7 acertos em 3:04
3º Huamin Chen – Canadá – 7 acertos em 3:32
4º Hiroaki Nitta – Japão – 6 acertos em 3:01

TEXTO Redação • FOTO WCC

Mercado

Na corrida pela EUDR

Enquanto Brasil investe em tecnologia para adequar-se às exigências europeias, países africanos pedem apoio na geração de dados para cumprir a nova lei

Por Mariana Grilli

A nova regulamentação da União Europeia para produtos livres de desmatamento (EUDR) está dando novas diretrizes ao comércio global de café. Com a exigência de rastreabilidade e conformidade ambiental, países exportadores como Brasil e Etiópia, e importadores como Itália e Alemanha, estão se mobilizando para garantir a comercialização dentro das novas exigências. 

Vanúsia Nogueira, diretora-executiva da Organização Internacional do Café (OIC), esteve viajando por países da América Central e relata com satisfação as evoluções já conseguidas pelos países da região.  “Cabe salientar que a Costa Rica já trabalha há algum tempo com sistemas de mapeamento e rastreabilidade e tem compartilhado suas experiências com os demais países”, conta Vanúsia à Espresso.   

Ao olhar para a América do Sul, a Colômbia já está bastante bem preparada para cumprir os requisitos da EUDR, por também se tratar de um país onde o mapeamento de áreas de café já existia. O mesmo acontece com o Brasil, maior exportador mundial de café, que tem investido fortemente em tecnologia para garantir conformidade com a EUDR. 

Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé, apresentou os marcos técnicos à Comissão Europeia, em um evento em Bruxelas, na Bélgica, incluindo a Plataforma de Monitoramento Socioambiental Cafés do Brasil, uma iniciativa colaborativa com a Serasa Experian. Essa ferramenta digital aproveita a análise avançada de dados para mapear mais de 300 mil fazendas de café, rastreando riscos de desmatamento, práticas trabalhistas e transparência da cadeia de suprimentos.

“Dessa maneira, o Cecafé terá condições de apresentar mais elementos relacionados à cafeicultura brasileira e contribuir com dados técnicos nas discussões. Os trabalhos estão acelerados e, até junho, deve ser definida a questão do nível de risco por país. A partir daí, o foco será na implementação do EUDR, no final de dezembro deste ano”, diz Matos.

A Europa consome mais café do que qualquer outro país ou bloco no mundo, e especialistas afirmam que a nova regra é uma ferramenta potencialmente poderosa para promover a agricultura sustentável. Ao mesmo tempo, ela representa o que alguns estão chamando de uma “pressão verde” que impõe grandes encargos a milhões de pequenos agricultores em países em desenvolvimento. 

É o caso de países africanos. Os meios de subsistência de quase 12 milhões de pequenos cafeicultores em toda a África estão ameaçados à medida que o continente corre contra o tempo para cumprir o novo regulamento europeu.

Em maio, líderes da indústria cafeeira de toda a África e Europa reuniram-se em Kampala, Uganda, para a Conferência Regional sobre “Prontidão EUDR no setor cafeeiro africano – onde estamos agora e o que resta a fazer?”. O evento, organizado pela GIZ Uganda no âmbito da Iniciativa Equipe Europa (TEI), visa avaliar o progresso da África e preparar as partes interessadas para o pleno cumprimento do EUDR. 

Com cerca de 60% de sua produção destinada ao mercado europeu, Uganda enfrenta desafios para se adequar à nova regulamentação. O país tem trabalhado na criação de mapas detalhados de uso da terra e na implementação de sistemas de rastreabilidade via GPS para garantir que sua produção seja livre de desmatamento. Exportadores devem fornecer coordenadas precisas das fazendas e comprovar que não houve desmatamento após 2020, sob risco de multas e destruição de cargas não conformes.

“Todos os países africanos, em geral, estão buscando se preparar para apoiar os clientes europeus nos cumprimentos da regulação EUDR. Uganda não é um membro da OIC, mas tenho recebido informações de que estão bem organizados para atender aos requerimentos também”, comenta Vanúsia Nogueira, diretora-executiva da OIC.

Embora Angola não esteja entre os maiores exportadores de café, o país vê na EUDR uma oportunidade para reposicionar sua produção no mercado europeu. Pequenos produtores estão sendo incentivados a adotar práticas sustentáveis e a investir em certificações ambientais. O governo angolano tem buscado parcerias internacionais para viabilizar a adaptação às novas exigências, promovendo treinamentos e infraestrutura para rastreabilidade.

Já a Etiópia é o maior produtor de café da África, e o cultivo representa cerca de 35% da receita do país. A variedade arábica é originária de lá, e, não por acaso, mais de um terço do café da Etiópia é exportado para a Europa. O país, portanto, também tem se dedicado a pensar soluções para gerar dados sobre as áreas cafeeiras e atender aos requisitos de transparência aos europeus. No entanto, para isso, os produtores estão alegando necessidade de apoio tecnológico para cumprirem o prazo de dezembro de 2025 para grandes produtores e junho de 2026 para pequenos agricultores. 

“Claro que os dados são muito importantes para nós, mas o que estamos dizendo é que precisamos de apoio. É muito desafiador e caro, e não temos nenhuma ajuda”, afirmou Dejene Dadi, chefe da União das Cooperativas de Produtores de Café de Oromia – a maior cooperativa de café da da Etiópia, localizada na região oeste do país. Apesar desta relevância, a realidade é que provavelmente não será possível preparar todas as propriedades dentro do prazo sem apoio.

Ainda segundo o jornal The New York Times, até março, tinham sido mapeadas 24 mil propriedades, sendo que o custo de mapear uma propriedade é de cerca de US$ 4,50. Autoridades europeias irão verificar as remessas cruzando os dados atuais de geolocalização com imagens de satélite de referência e mapas de cobertura florestal.

Jodie Keane, economista da ODI Global — uma organização de pesquisa com sede em Londres — afirmou que a União Europeia e as grandes redes de café deveriam fazer mais para apoiar os pequenos agricultores. “Todos queremos evitar o desmatamento, mas se você vai aplicar esse padrão a produtores rurais, terá que fazer um grande trabalho de campo, de conscientização. Terá que investir em ensinar a fazer diferente, para que eles não sejam simplesmente excluídos da cadeia de suprimentos”, disse ao jornal americano. 

A perspectiva dos importadores

A União Europeia diz estar comprometida em fornecer todo o apoio necessário aos pequenos produtores, e pediu que cooperativas, empresas e governos também os apoiem. Em um comunicado divulgado em 15 de abril, o bloco informou que, com base no retorno dos países parceiros, alocou 86 milhões de euros para apoiar os esforços de adequação à nova regra.

A Alemanha está aumentando as importações de café após o estabelecimento da lei de produtos livres de desmatamento. Isso porque o próprio país reconhece que pode haver uma defasagem no abastecimento se os países fornecedores de grãos não conseguirem se adequar às exigências da União Europeia a tempo de a EUDR ser implementada. Isto é, a Alemanha precisa garantir os estoques do país, para não correr o risco de ficar impedida de comprar de fornecedores que estejam fora dos novos padrões impostos. 

A Itália desempenha um papel crucial como um dos maiores importadores e torrefadores do mundo. Empresas italianas estão pressionando fornecedores a garantirem conformidade com a EUDR, exigindo certificações e auditorias rigorosas. Grandes marcas de café têm investido em cadeias de suprimento mais transparentes e sustentáveis, garantindo que os grãos utilizados em suas misturas atendam aos novos padrões ambientais.

Andrea Illy, presidente da illycaffè, esteve no Brasil em maio e falou com a imprensa sobre as movimentações de importação, a partir da nova lei. “Houve um momento maior de importação da Europa em antecipação à EUDR”, afirmou ele.

Quando questionado se os estoques da companhia sofreram algum tipo de alteração devido à nova legislação, Andrea disse que não há muita visibilidade de onde estão os estoques de grãos pelo mundo, por isso a estratégia de compra da empresa italiana é diferenciada. “Estoques são fenômenos contingentes, historicamente não se tem muita visibilidade, pois é difícil interpretar os volumes globais, eles não são quantificados, não se sabe onde estão. Alguns estoques são deixados no país produtor, outros no importador”, disse. 

Exatamente para driblar esta adversidade e garantir a origem do café adquirido, a illycaffè compra diretamente dos agricultores, sem intermediários. “Por isso, nossa estratégia é completamente diferente e não houve mudança ou ampliação de fornecedores devido à EUDR”, esclareceu Andrea Illy. 

Com a implementação da EUDR prevista para dezembro de 2025, os países exportadores de café estão em uma corrida para garantir que suas cadeias produtivas sejam sustentáveis e rastreáveis. A adaptação à nova regulamentação não é apenas uma exigência legal, mas também uma oportunidade para fortalecer a imagem do café como um produto ambientalmente responsável no mercado global.

Texto originalmente publicado na edição #88 (junho, julho e agosto de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Mariana Grilli • FOTO Rica Ramos

Mercado

Baianí e criador da Bruta lançam barra inédita de café de origem no São Paulo Coffee Festival

Barra sólida derrete na boca como chocolate; primeiro lote, que será apreciado no evento, terá entre 100 e 150 unidades

Por Cristiana Couto

Imagine uma barra que derrete na boca como chocolate, mas tem sabor de café. Essa é a proposta da Bruta by Baianí, criada a partir da parceria entre a  chocolateria tree to bar Baianí e Eduardo Rodrigues, criador da máquina de espresso manual Bruta. Composta por café, manteiga de cacau e açúcar, a barra inaugura um novo jeito de saborear o café — em pedaços, no formato sólido e com textura aveludada. O lançamento acontece entre 27 e 29 de junho, durante o São Paulo Coffee Festival, em edição limitada de 150 unidades (a R$ 30 cada).

A barra busca unir a intensidade sensorial do café ao refino do processo de fabricação do chocolate. “Com essa qualidade e esse cuidado, acreditamos ser a primeira barra do mundo com café de origem e manteiga de cacau de origem”, afirma Rodrigues, idealizador do projeto.

O primeiro lote da Bruta by Baianí leva café da fazenda Surubi, na  Mantiqueira de Minas – um blend de arara e mundo novo, variedades cultivadas a 1.050 m, e de processamento natural –, fornecido e torrado pela torrefação paulistana Garagem do Café, e manteiga de cacau da fazenda Santa Rita, no Vale Potumuju, sul da Bahia, do casal Tuta e Juliana Aquino, fundadores da Baianí. “Acho que reunir dois produtores com conceitos alinhados em inovação, sustentabilidade e, principalmente, em alto valor sensorial faz toda a diferença — unimos nosso cacau de origem com os cafés especiais escolhidos pelo Edu”, resume Tuta Aquino.

A inspiração surgiu em 2019, quando Rodrigues viu na internet um barista japonês criando uma barra para levar seu espresso ao público sem o uso de máquina de extração. A ideia de Rodrigues amadureceu e, cerca de um ano atrás, o projeto tomou forma em parceria com Baianí, referência na produção de chocolates de origem.

O processo de produção da barra de café (que pesa 40 g) é similar aos chocolates da Baianí: os três ingredientes são refinados por 36 a 48 horas em uma mélanger –   moinho de pedra usado na produção do chocolate bean to bar que tritura e mistura os ingredientes até que eles atinjam textura ultrafina, com granulometria entre 18 e 24 micras. A massa passa, então, por temperagem, processo que confere a ela brilho e estabilidade. “A barra foi pensada para ter um derretimento gostoso, com aquela sensação de algo que você pode deixar no paladar por mais tempo”, explica Aquino.

Cada lote da Bruta by Baianí trará cafés de diferentes origens. A estrutura da barra, segmentada em pequenos pedaços, foi pensada para fácil fracionamento, já que o sabor é mais intenso do que o do chocolate tradicional.

A venda inicial será exclusiva no e-commerce e na loja física da Baianí (rua Américo Brasiliense, 953, Chácara Santo Antônio), com novo valor a ser definido. Após o festival, há planos de estender a distribuição para parceiros selecionados. 

Café & Preparos

Campeonato Torrefação do Ano Brasil 2025 abre inscrições até 26/6

Torrefações de todo o país podem se inscrever; primeira fase da prova é feita na própria empresa e a final acontece na Semana Internacional do Café, em novembro

As inscrições para o Campeonato Torrefação do Ano Brasil 2025 estão abertas até quinta (26/6). O evento, organizado pela Atilla Torradores, busca incentivar a criatividade e estimular a consistência de torra, o aprimoramento da análise sensorial e outras habilidades importantes para a área, além de entregar conhecimento ao público e promover a troca de experiências entre os participantes. A inscrição custa R$ 350.

Na primeira fase, as instituições inscritas recebem dois cafés crus (cada torrefação recebe 1,5 kg de cada café), que serão torrados na própria torrefação. Depois, as amostras torradas são enviadas à Atilla, e um corpo de juízes fará cupping para avaliar os exemplares. As 20 mais bem posicionadas seguem na disputa.

A fase final, com torras feitas em torradores Atilla, acontece na SIC (Semana Internacional do Café), entre 5 e 7 de novembro, no Espaço Torra Experience, no Expominas, em Belo Horizonte. No dia 5/11, os finalistas fazem torras de treino e no dia 6/11, desenvolvem as torras oficiais.

No dia 7, depois que os juízes fizerem as avaliações nas modalidades cupping e espresso, acontece a premiação. A campeã ganha uma Atilla Bancada de 2ª Geração. Os cafés especiais dessa edição vêm da Fazenda Santa Cruz, em Paraguaçu (MG), da produtora Josiani Moraes.

Para informações, inscrições e regulamento, clique aqui.

TEXTO Redação • FOTO Agência Ophelia

Barista

São Paulo Coffee Festival divulga chaveamento da 9ª Copa Barista

A 9ª edição da Copa Barista está chegando! Nos dias 27, 28 e 29 de junho, 20 baristas de diferentes partes do Brasil disputam a competição, que acontece novamente no São Paulo Coffee Festival, na Bienal do Ibirapuera.

Assim como nos anos anteriores, alguns competidores são selecionados como “cabeças de chave”, ou seja, iniciam direto nas oitavas de final. A ordem de chaveamento foi definida por meio de sorteio. Confira os dias e horários de cada chave:

Nesta edição, os competidores têm 14 minutos para apresentar aos juízes, nesta ordem, duas unidades de: café filtrado no método Melitta, cappuccino servido na xícara Stanley (fornecida pela organização) e drink alcoólico e gelado com Licor 43 Original. Confira aqui o regulamento da edição.

O grande vencedor da 9ª Copa Barista será conhecido na tarde no domingo (29) e levará para casa o prêmio em dinheiro no valor de R$ 6.500 e um cupom de vale-compras de R$ 550 no site da Café Store.

TEXTO Redação