A instabilidade na América Latina e o mercado do café

Por Gustavo Paiva

Durante quase toda a segunda metade do século XX, o mundo viveu dividido em dois blocos de superpotências que competiam em várias frentes. A Guerra Fria impactou diversos países e campos da economia, e não foi diferente com os países produtores e consumidores de café.

Entre ações mais ou menos explícitas, variando desde a invasão por terra até o financiamento de grupos de oposição, podemos contar mais de uma dúzia de ações em quinze países latino-americanos desde o final da Segunda Guerra Mundial até os dias de hoje. 

O objetivo não é fazer juízo de valor ou entrar na seara político-ideológica, mas apenas fazer uma avaliação pragmática sobre como essas medidas afetaram a produção, a logística e o consumo de café.

Dos atuais vinte primeiros produtores de café, todos os países, com exceção do Brasil, viveram um conflito armado interno ou externo desde o final da Segunda Guerra Mundial. A maioria desses conflitos esteve relacionada ao contexto da Guerra Fria, à independência de colônias ou a intervenções norte-americanas.

Isso ocorre porque os países produtores se encontram em zonas estratégicas do planeta, com terras ricas tanto para a agricultura quanto para a extração de recursos minerais, e a maioria não tem força militar capaz de fazer frente a ataques de grandes exércitos estrangeiros.

A partir destas instabilidades, os três caminhos possíveis de evolução do preço do café no mercado internacional dependem de diversas variáveis, como o tamanho da produção do país em questão, o tamanho dos estoques internacionais, a duração do conflito e as orientações adotadas no pós-conflito.

Seguindo os fundamentos de mercado, estas instabilidades tendem a pressionar os preços para cima caso os estoques internacionais estejam baixos, a relevância do país em questão e os danos às infraestruturas nacionais. Por outro lado, se ao final do processo de mudança política os produtores estiverem mais desorganizados, forem menos apoiados e ficarem mais dependentes do setor privado, os preços locais – e, dependendo da relevância do país em questão, os internacionais – podem ser pressionados para baixo, como foi o caso dos preços internacionais no final dos anos 1980, depois de diversos conflitos na América Central e na Colômbia e da queda do Muro de Berlim em 1989.

Entretanto, na maioria dos casos, os conflitos são extremamente prejudiciais aos produtores locais e aos exportadores, sem afetar o mercado internacional. 

Um exemplo histórico de como dois conflitos da Guerra Fria alteraram substancialmente os fundamentos do café foram os conflitos em Angola e no Vietnã. Até os anos 70, Angola era o principal produtor de Robusta na África e um dos principais do mundo. A longa guerra civil no país alterou substancialmente o cenário econômico e representou uma tragédia social. 

Portanto, havia a necessidade urgente de buscar uma iniciativa viável para o cultivo de robustas em larga escala. Neste momento havia um país que acabara de sair vitorioso, porém arrasado de um conflito armado entre os blocos capitalista e comunista: o Vietnã.    

Anos de investimentos, planejamento econômico e suporte adequado, renderam os seus frutos. Hoje, o Vietnã é o maior produtor de Robusta do mundo e o segundo maior produtor de cafés em geral, atrás apenas do Brasil. Enquanto isso, Angola ainda luta para retomar pelo menos parte da produção, tendo a sua logística interna danificada e grande parte do conhecimento técnico perdido. 

No continente americano tivemos o caso em que El Salvador, tradicional referência e grande produtor centro americano, acabou perdendo o posto para sua vizinha Honduras. Mas este caso é um pouco mais complexo, já que muitos produtores e investidores hondurenhos possuíam origens e raízes salvadorenhas. Em um típico caso de colonização regional, muito parecido com o que ocorre no Brasil, com produtores do sul do país migrando para o centro e o norte para desenvolver os cultivos com os quais já estavam familiarizados. 

Portanto, é inegável que as instabilidades nos grandes países produtores são danosas no longo prazo para a cultura cafeeira, mesmo que, no curto prazo, isso represente um ganho momentâneo para os produtores que não estejam envolvidos. Mas todo o conflito armado, além de extremamente custoso e sofrido para quem o vive, é como uma caixa de Pandora: sabe-se bem como se abre, mas é difícil de se fechar e impossível de prever todas as possíveis consequências. 

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

Café & Preparos

Bebida milenar: a Espresso provou chás japoneses

A cultura do chá no Japão começou muito antes do Brasil ser chamado de Brasil. Segundo a história, foi por meados do século X que monges japoneses viajaram à China para aprender sobre zen budismo. Na jornada, repararam que os monges chineses meditavam por horas e horas sem se cansarem e, curiosamente, ao lado deles, havia sempre uma xícara com um líquido armazenado, feito a partir de chá verde em pó. A partir daí, os monges japoneses retornaram ao Japão carregando sementes de Camellia sinensis para serem cultivadas no país e, com isso, propagaram a cultura do chá.

Até os dias atuais, o chá verde é o tipo mais popular no Japão, tanto em produção quanto em consumo – além de ser um elemento da cultura japonesa associado à sua identidade e tradição. Ao longo dos anos, o país desenvolveu diversas técnicas de produção, cultivares adequadas, máquinas e equipamentos específicos que resultaram em diferentes tipos de chá verde. De acordo com a Global Japanese Tea Association, atualmente o país é o oitavo maior produtor de chá, com uma produção anual estimada em 89 mil toneladas. Mas, considerando a produção de chá verde, o Japão é o terceiro maior produtor.

A Espresso provou três tipos de chás verdes japoneses, produzidos na província de Ibaraki, e um matcha cultivado em Kyoto. A degustação aconteceu na Mori Chazeria (rua Coronel Oscar Porto, 267 – Paraíso – São Paulo), e o preparo das bebidas foi feito pela proprietária Patrícia Akemi. A especialista em chás japoneses, Paula Braga Batista, também foi convidada para participar da experiência. Confira nossas anotações.

Kabusecha

Chá verde especial. Em sua produção, a planta ficou mais tempo sob cobertura antes de ser colhida, o que propicia características como dulçor e umami. O chá foi preparado com água a 75°C e menos de dois minutos de infusão.

Visual limpo, translúcido
Aroma herbáceo, doce
Sabor refrescante
Corpo leve
Finalização prolongada, agradável
A redação achou um chá muito leve e fresco, agradável para qualquer hora do dia

Genmaicha

Blend de chá verde japonês especial com arroz tostado. Uma das histórias por trás da sua origem é a de que este chá surgiu como solução econômica para tornar o chá verde mais acessível em períodos de escassez. Foi feito a 85°C, com infusão de dois minutos.

Visual turvo, com borra do chá no fundo da xícara
Aroma arroz, pipoca
Sabor herbáceo, arroz, alga
Corpo médio
Finalização presente
A redação achou um chá com sabor mais intenso. As notas foram ressaltadas conforme a temperatura
diminuiu

Kuki Hojicha

Chá verde tostado. Diferentemente do kabusecha, não é feito com as folhas, mas com os talos, uma maneira de aproveitar melhor a planta como um todo. Mas não é qualquer talo – somente os das partes mais nobres da planta. Foi feito com água a 90°C e infusão de cinco minutos.

Visual alaranjado, translúcido
Aroma tostado, amadeirado
Sabor especiarias, castanha, picante
Corpo médio
Finalização presente, picante
A redação achou apesar do sabor mais presente, ainda é um chá leve e fácil de tomar

Matcha

É um chá verde em pó. As folhas são cultivadas delicadamente sob cobertura e, depois de colhidas, são moídas em um pó muito fino. Por não ser uma infusão, há mais concentração de cafeína. A bebida levou 2 g de matcha para 80 ml de água, a 70°C.

Visual turvo, verde intenso, presença de espuma
Aroma vegetal, verde
Sabor adstringente
Corpo alto, encorpado
Finalização presente
A redação achou gostoso e delicado. Por não ser uma infusão, foi o chá mais encorpado da degustação

Made in Brazil

Chá preto da variedade assamica cultivado pelo Sítio Shimada em Registro, interior de São Paulo. Preparado com a água a 95°C, com dois minutos de infusão.

Visual alaranjado forte, turvo
Aroma ameixa, fruta seca, doçura do tomate
Sabor doce, frutado
Corpo médio
Finalização doce, agradável
A redação achou um chá redondo, de sabor mais complexo. Diferentemente do verde, não tem notas herbais. Provamos também com leite, o que resultou em uma bebida doce e cremosa

Texto originalmente publicado na edição #88 (junho, julho, agosto de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Gabriela Kaneto • FOTO Agência Ophelia

O papel social dos primeiros cafés europeus

Por Cristiana Couto

Mais do que uma bebida, o café ajudou a moldar espaços sociais, rotinas urbanas e formas de convivência que atravessaram séculos e continentes. Foi, assim, uma instituição social que espelhou transformações culturais, políticas e intelectuais na modernidade ocidental.

O café, como instituição social, foi inventado pelos otomanos. O historiador William H. Ukers, em All About Coffee (1922), cita Jules Michelet como alguém que teria descrito o advento do café como “uma auspiciosa revolução dos tempos, o grande evento que criou novos costumes, e até modificou o temperamento humano”. Ainda que a origem exata dessa afirmação não seja clara nas obras de Michelet, ela simboliza a percepção do café como agente cultural transformador.

O consumo público da bebida na Europa teve início em meados do século XVII. Inicialmente visto como produto exótico, ao lado do chá e do chocolate, era restrito à elite e valorizado por suas propriedades terapêuticas. O grão vinha da península arábica, embarcado no porto de Mocha, no Iêmen, e chegava às boticas europeias por Veneza. O primeiro carregamento de café desembarcou ali em 1615, marco da entrada da rubiácea na Europa cristã.

O primeiro espaço público voltado exclusivamente à bebida surgiu em 1650, em Oxford, na Inglaterra. Segundo o historiador Brian Cowan, o café foi fundado por Jacob, possivelmente judeu oriundo do Império Otomano ou do Levante. Sua localização próxima à universidade atraiu acadêmicos e estudantes. Em 1652, foi aberta em Londres a primeira coffeehouse da capital, por Pasqua Rosée, armênio a serviço de um mercador inglês. O estabelecimento logo virou modelo para outros empreendimentos. No início do século XIX, Londres contava com cerca de dois mil cafés — número que cairia com o avanço da cultura do chá nas colônias britânicas.

Em Paris, o Café Procope foi inaugurado em 1686 pelo siciliano Procopio dei Coltelli e tornou-se símbolo da cultura do café. Frequentado por iluministas como Voltaire e Diderot, e por Benjamin Franklin durante a Revolução Americana, segue em funcionamento. Em 1720, Paris já somava cerca de 380 cafés.

Roma preserva casas históricas como o Greco e o Aragno; Nápoles, o Gambrinus; Florença, o Gilli e o Giubbe Rosse; Pádua, o Pedrocchi; e Trieste, o Tommaseo. Este, inaugurado como Caffè della Venezia Trionfante por Floriano Francesconi, logo mudou de nome e foi frequentado por personalidades como Casanova, Goethe, Proust e Rousseau.

Nas regiões germânicas, os cafés abriram mais tarde: Viena, em 1685; Berlim, em 1721. Muitos tinham forte influência otomana, com garçons em trajes orientais e cardápios com iguarias como os sorbets turcos. Esse exotismo fazia parte do apelo dos cafés, que se diferenciavam das tabernas e cervejarias ao oferecer um espaço de sociabilidade refinada, debate político e intelectualidade emergente.

Nos séculos XVIII e XIX, os cafés espalharam-se pela Europa e assumiram perfis distintos segundo a cultura local. No século XIX, os cafés vienenses consolidaram-se como centros de reflexão literária e filosófica. Autores como Zweig, Freud, Kraus e Trotsky frequentaram locais como o Café Central e o Landtmann. Segundo Harold Segel, esses espaços foram centrais para a vida intelectual austríaca e influenciaram outras capitais no século XX.

A ascensão do nazismo e a influência americana no pós-guerra transformaram significativamente os cafés europeus no século XX, assim como o surgimento dos bares de café espresso e os cibercafés. Essas transformações, inclusive, foram avaliadas de diferentes maneiras.

A associação entre cafés, sobretudo em Londres e Paris no século XVII, e a cultura da notícia levou estudiosos a vê-los como berço de uma nova política moderna. Nesse modelo, que contrapunha o absolutismo do antigo regime, a opinião pública ganhou papel central como força crítica capaz de influenciar decisões políticas e moldar sociedades.

Essa leitura foi consagrada por Jürgen Habermas, em The Structural Transformation of the Public Sphere (1962). Para ele, as coffeehouses eram espaços igualitários, fora do controle estatal, onde cidadãos livres debatiam racionalmente temas coletivos e formavam a opinião pública. Em sua visão, os cafés seriam o coração da chamada esfera pública burguesa, e sua consolidação, a parte essencial da transição entre o absolutismo feudal e as democracias modernas.

A partir dos anos 2000, essa perspectiva passou a ser revisada por autores como Brian Cowan, em The Social Life of Coffee (2005). Para Cowan, a leitura habermasiana está ligada a uma narrativa marxista de progresso histórico, segundo a qual haveria uma evolução linear do feudalismo ao capitalismo, com o surgimento de espaços públicos emancipatórios, idealizando o papel dos cafés e obscurecendo seu real funcionamento social e político. Nesse sentido, os cafés não foram espaços onde as distinções sociais eram suspensas em nome de uma racionalidade iluminista, mas nasceram da cultura dos virtuosi — colecionadores, acadêmicos e homens cultos — e atraíam a pequena burguesia não por desejo de emancipação, mas por prestígio. As discussões nesses espaços estavam imersas em redes comerciais, disputas partidárias e interesses econômicos. A circulação de impressos, objetos exóticos, panfletos políticos e notícias fazia parte de uma cultura urbana de consumo e curiosidade, voltada ao entretenimento erudito, e não necessariamente à formação de um foro racional público.

Pesquisadores como Markman Ellis, Joan Landes e Dena Goodman reforçam essa crítica, introduzindo aspectos como gênero, hierarquia e influência aristocrática.

Assim, a nova visão vê as coffeehouses como continuidade transformada do antigo regime, e não ruptura. Eram espaços híbridos de sociabilidade e consumo que, mais tarde, dariam origem a instituições modernas como o restaurante.

Essa interpretação também corrige a ideia de que as coffeehouses entraram em declínio após 1930. Estudos como os de Ellis e Jonathan Morris mostram que os cafés se transformaram — tornando-se mais públicos, acessíveis e adaptados aos novos hábitos urbanos, sem perder sua função social como espaços de encontro, leitura, lazer e debate.

Cristiana Couto é jornalista, historiadora e doutora em História da Ciência. É autora, entre outros, de Arte de Cozinha – Alimentação e Dietética em Portugal e no Brasil (séculos XVII-XIX).

TEXTO Cristiana Couto • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Café & PreparosMercado

Hario lança dripper com 72 ranhuras ultrafinas

A japonesa Hario, referência mundial no desenvolvimento do método v60, acaba de lançar o v60 Dripper NEO, uma releitura tecnológica do seu clássico coador voltada para maior controle da extração.

Resultado de dois anos de pesquisas, o novo modelo — disponível em versões para duas e quatro xícaras — traz uma nova estrutura espiral, com 72 ranhuras ultrafinas, que conduz a água de forma mais uniforme pelas paredes do dripper. Na base, nove nervuras convergentes aceleram o fluxo, favorecendo uma extração mais rápida e reduzindo o risco de superextração. Na xícara, a promessa é de um café mais limpo e doce, com menor amargor.

Fabricado em resina Tritan, material leve, resistente e de alta transparência, o equipamento também busca melhorar a retenção de calor e a estabilidade térmica durante o preparo. Compatível com todas as bases v60 Switch, o lançamento está à venda no site global da marca por US$ 23,50 (duas xícaras) e US$ 26,45 (quatro xícaras).

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Mercado

Café da Califórnia estreia em leilão internacional e amplia mapa da produção nos Estados Unidos

Leilão em Dubai também incluiu dois microlotes da brasileira Daterra Coffee

Quando se fala em produção de café nos Estados Unidos, a região de Kona, no Havaí, é a principal referência. Mas, ainda que em pequena escala, o país começa a desenhar uma nova fronteira cafeeira no território continental. Prova disso foi a primeira participação de um café cultivado na Califórnia em um leilão internacional, realizado no âmbito do World of Coffee Dubai 2026, cuja quinta edição ocorreu entre 18 e 20 de janeiro, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

O leilão reuniu lotes de 13 origens produtoras e movimentou cerca de US$ 67,9 mil, com mais de 1,3 mil lances de compradores de cafés especiais de todo o mundo. Entre nomes consagrados, como a panamenha Hacienda La Esmeralda, estreou um lote de 20 kg de gesha lavado da Frinj Coffee, em Ventura, na costa da Califórnia. Cultivado no rancho Condor Ridge, nas colinas de Santa Bárbara, o café foi arrematado por US$ 256 o quilo.

O café californiano dividiu espaço com um lote da variedade SL34 lavado anaeróbico da Kona Farm Direct, localizada nas encostas do vulcão Monte Hualalai, no Havaí, indicando o potencial de qualidade do café especial norte-americano, cujo cultivo já não se restringe ao arquipélago havaiano. O lote, de 12 kg, foi vendido a US$ 150 por quilo.

Além da novidade americana, o leilão incluiu dois cafés brasileiros da Daterra Coffee, de Patrocínio (MG). Um dos lotes, de 12 kg, foi um natural anaeróbico (62 horas) da variedade guarani — exclusiva da Daterra e resultado de seleção de plantas da variedade aramosa em parceria com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) — vendido a US$ 100 por quilo. O outro lote, também de 12 kg, foi um laurina natural anaeróbico, arrematado por US$ 107 por quilo.

TEXTO Redação

Mercado

Exportações brasileiras batem recorde, com US$ 15,6 bilhões em 2025

Mesmo com queda de 20,8% no volume embarcado, preços elevados garantiram receita histórica ao café brasileiro; tarifaço dos EUA e menor oferta marcam o cenário de 2025

O Brasil encerrou 2025 com receita cambial recorde de US$ 15,586 bilhões nas exportações de café, um avanço de 24,1% em relação a 2024, apesar da forte queda de 20,8% no volume embarcado, que somou 40,049 milhões de sacas. Os dados constam do relatório estatístico mensal do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), divulgado na segunda-feira (19).

Segundo o Cecafé, o resultado reflete um ano marcado por menor disponibilidade de café após os embarques recordes de 2024, impactos climáticos sobre a safra e efeitos diretos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos. A entidade avalia que a recuperação das perdas financeiras causadas tanto pelas tarifas quanto pelo cancelamento ou redução de compras por outros países importadores pode ocorrer apenas na próxima safra.

Principais destinos: Alemanha assume liderança

A Alemanha tornou-se o principal destino do café brasileiro em 2025, ultrapassando os Estados Unidos, tradicional líder do ranking. O país europeu importou 5,409 milhões de sacas, o equivalente a 13,5% do total embarcado, embora com queda de 28,8% em relação a 2024.

Principais destinos do café brasileiro em 2025

Entre os dez maiores compradores, apenas três países ampliaram suas compras em 2025: Japão, Turquia (6ª posição), com 1,555 milhão de sacas (+3,3%) e China (10ª posição), com 1,123 milhão de sacas (+19,5%). Segundo o Cecafé, o maior volume adquirido pelo Japão refere-se à recomposição de seus estoques. Já a Turquia fez compras tanto para abastecer o mercado interno quanto para fornecer a países vizinhos.

Cafés diferenciados: menos volume, mais valor

Os cafés diferenciados brasileiros — com certificações de práticas sustentáveis, qualidade superior ou perfil especial — somaram 8,145 milhões de sacas exportadas em 2025, respondendo por 20,3% do total embarcado. O volume foi 10,9% menor do que em 2024, acompanhando a retração geral das exportações brasileiras.

Em valor, porém, o desempenho foi positivo: os embarques desses cafés geraram US$ 3,525 bilhões, o equivalente a 22,6% da receita total – com alta de 39,1% na comparação anual, impulsionada pelos preços médios mais elevados.

Principais destinos dos cafés diferenciados em 2025

Europa segue como mercado-chave

A Europa manteve-se como principal destino do café brasileiro, absorvendo 20,18 milhões de sacas em 2025, o equivalente a 50,4% do volume total exportado. Em receita, os embarques ao continente somaram US$ 8,133 bilhões.

“É um mercado fundamental, e num contexto geopolítico muito forte”, afirmou Marcos Matos, diretor-técnico do Cecafé, em coletiva à imprensa na segunda-feira (19), ao destacar a relevância estratégica do bloco europeu para o café brasileiro.

No médio prazo, o Cecafé avalia que o acordo Mercosul–União Europeia tende a reforçar essa importância, especialmente para os cafés industrializados. Pelo tratado, o café solúvel brasileiro terá desagravação tarifária gradual até zerar em quatro anos, o que colocará o Brasil em igualdade de competitividade com o Vietnã no mercado europeu.

Café solúvel: tarifa mantida nos EUA aprofunda perdas

Apesar do avanço do acordo com a UE, o café solúvel brasileiro segue enfrentando entraves nos Estados Unidos. O relatório do Cecafé destaca que a vigência do tarifaço fez com que os embarques do produto aos EUA caíssem 55% até novembro. 

FOTO Agência Ophelia

Cafezal

Vietnã e o excepcional 2025 para o café – parte II

Consumo interno e instantâneo em alta

O Vietnã é um dos mercados consumidores que mais cresce no Sudeste Asiático. A previsão de especialistas é que o consumo interno de café cresça a uma taxa média anual de 6,6% até 2030.

Segundo relatório de dezembro do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), em 2025 foram consumidas 4,9 milhões de sacas de café (3 kg per capita por ano), contra 4,2 milhões em 2023. O aumento reflete, segundo o relatório, o crescimento do número de cafeterias instaladas no país, da renda e de jovens em áreas urbanas interessados em novas experiências.

Estilos de vida agitado e jornadas de trabalho mais longas têm impulsionado a demanda por café instantâneo, reforça a USDA. O órgão norte-americano refere-se a um estudo, feito pela Knowledge Sourcing Intelligence, que projeta que o mercado de café instantâneo vietnamita deve crescer a uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) de 12%, totalizando US$ 731 milhões até 2028.

A Tridge, plataforma internacional de inteligência de mercado agrícola, reforça que a rápida expansão global deste mercado reflete-se nos preços médios de exportação: em 2023, eles variaram de US$ 5,80 a US$ 11,85 por quilo; em 2024, saltaram para a faixa de US$ 6,70 a US$ 16,15 por quilo, impulsionados, entre outros fatores, pela expansão das indústrias locais.

Em análise de 4 de dezembro do Vietnam Investment Review (VIR), principal jornal de negócios em língua inglesa do Vietnã, o café processado é, atualmente, o “motor fundamental de crescimento” do país. Até meados de novembro, ele gerou US$ 1,46 bilhão – um aumento de 58% em comparação ao mesmo período de 2024. Para o VIR, a indústria cafeeira do Vietnã está passando por uma “mudança clara em direção à produção com maior valor agregado”.

Grandes empresas do setor têm expandido suas operações, com a instalação de novas unidades de torrefação e fábricas de café solúvel. Em janeiro de 2024, por exemplo, a Nestlé Vietnã investiu US$ 100 milhões na ampliação de sua fábrica em Tri An, na província de Dong Nai, no sul do país.

Importação de cafés

Embora seja um dos maiores exportadores de café do mundo, o Vietnã depende das importações dos grãos para suprir demandas internas, já que grãos do Brasil, por exemplo, são mais baratos. Assim, as indústrias vietnamitas aumentaram as importações de café, especialmente de arábicas e cafés de qualidade. Uma parte do café importado é processada e reexportada misturada ao café nacional para produzir café torrado e solúvel.

Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), os embarques do Brasil, um dos principais exportadores de café para o país,  para o Vietnã em 2023 registraram crescimento de 487,7% em comparação a 2022. Em 2024/25, o Vietnã importou 1,2 milhão de sacas, principalmente da Indonésia, do Laos e do Brasil. A previsão para este ano cafeeiro é importar 1,35 milhão de sacas.

Sustentabilidade

A promoção da sustentabilidade na cafeicultura está entre as principais metas do país. Desde o fim de 2023, governo, associações, empresas e parceiros internacionais vêm trabalhando em conjunto para padronizar procedimentos e adquirir dados que atendam à EUDR, de modo à adaptar o setor cafeeiro do país a um novo “padrão verde” de café.

Entre as prioridades estão o fortalecimento da rastreabilidade e da produção com baixa emissão de carbono na cafeicultura, a partir do menor uso de fertilizantes e pesticidas nas plantações e da promoção de técnicas de irrigação econômicas.

Em maio de 2025, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), com financiamento da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) e do Reino Unido e em parceria com a Administração Florestal do Vietnã (Vnforest), lançaram o projeto AIM4Commodities no país, um dos quatro pilotos globais da iniciativa que apoia países em monitoramento florestal, rastreabilidade e transparência das cadeias agrícolas. A iniciativa aposta na implementação de ferramentas digitais de código aberto, que permitem que pequenos agricultores coletem, gerenciem e mapeiem dados geoespaciais de suas propriedades.

O país já criou um banco de dados de rastreabilidade que abrange, segundo o vice-ministro de agricultura e meio ambiente, Hoang Trung, em recente coletiva de imprensa, 137 mil hectares de café. A promessa é expandir a base de dados para 462 mil ha nas Terras Altas Centrais, responsáveis por 92,8% da área de cultivo do grão.

Outras ações incluem projetos para cafés especiais e programas de substituição de plantios antigos por novas variedades. Atualmente, são 74,5 mil hectares replantados, embora o Programa de Replantio de Café do governo tenha previsto 200 mil até o fim de 2025, informa a USDA.

Seja como for, são ações como estas que fizeram com que o país fosse classificado como de baixo risco pela EUDR. Leia mais na parte I desta matéria.

Ao mesmo tempo, elas fortalecem o estabelecimento de uma marca única para o café vietnamita, outro projeto encampado pelo governo do país.

Marca única

A construção de uma marca forte e reconhecida no mercado internacional para o reposicionamento do robusta vietnamita no cenário global foi tema de um fórum, no final de 2025, organizado pela Vicofa em Dak Lak, considerada “capital do café” no Vietnã.

No fórum, informa a cobertura do Viêt Nam News, a associação buscou apoio da SCA e da plataforma Parceria Transpacífica (TPP), coorganizadoras do evento, para ajudar no desenvolvimento de padrões no café para a venda e na obtenção de certificações internacionais, além do auxílio na construção de uma estratégia para a promoção do grão como marca nacional e na criação de centros de formação de especialistas.

A longo prazo, a estratégia visa estimular a elaboração de cafés processados – que representam, hoje, apenas 15% do volume total produzido – e expandir o comércio internacional.

Desafios

Apesar das iniciativas públicas e de parceiros em incentivar sustentabilidade e melhora de qualidade no setor cafeeiro do Vietnã, a adaptação às demandas do mercado global tem se mostrado difícil. Segundo especialistas, mapas de uso da terra para o café são incompletos, e as fronteiras entre terras agrícolas e florestais frequentemente se sobrepõem, o que prejudica um controle mais rigoroso sobre a produção do café.

Muitos agricultores também desconhecem ferramentas tecnológicas e não têm acesso às políticas públicas implementadas. Processos administrativos complexos e recursos orçamentários limitados, associados às rápidas transformações e novos desafios complicam o cenário, analisa um extenso estudo sobre o setor cafeeiro no país feito em 2024 pela Vicofa e pela Forest Trends com apoio dos governos da Noruega e do Reino Unido.

TEXTO Redação

Mercado

Saiba por que o café industrializado ganha com o acordo Mercosul–União Europeia

Tratado prevê tarifa zero para cafés torrado e moído e solúvel em até cinco anos e reconhece indicações geográficas brasileiras, abrindo espaço para maior valor agregado no mercado europeu

Após 26 anos de negociações, a assinatura do acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia pode abrir uma nova frente para os cafés torrado e moído e solúvel do Brasil no mercado europeu — segmentos associados a maior valor agregado.

Segundo comunicado da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) divulgado após a assinatura, no sábado (17), o acordo prevê a eliminação gradual das tarifas de importação hoje aplicadas pela UE, que são, em média, de 7,5% para o café torrado e 9% para o café solúvel. Ao final do processo de desgravação, os produtos brasileiros deverão entrar no bloco com tarifa zero, após cinco anos da entrada em vigor do tratado.

A redução será escalonada: 20% na entrada em vigor do acordo, 40% no ano seguinte, 60% no segundo ano, 80% no terceiro e 100% no quarto ano, criando uma trajetória previsível para a ampliação das exportações brasileiras de café industrializado à Europa.

Valor agregado e indicações geográficas

Além do efeito tarifário, o acordo prevê o reconhecimento de indicações geográficas (IGs) brasileiras, entre elas Cerrado Mineiro, Caparaó e Matas de Rondônia. Para a ABIC, a medida amplia a proteção das denominações de origem no mercado europeu e reforça estratégias de diferenciação e agregação de valor.

O ponto é considerado estratégico para reposicionar o Brasil em uma cadeia global na qual, apesar de responder por cerca de 40% da produção mundial de café, o país fica com apenas 2,7% da receita global do setor — reflexo da predominância das exportações de café verde, como commodity.

“Esse acordo se alinha diretamente ao projeto da ABIC de ampliar as exportações de cafés industrializados, com maior valor agregado, e aumentar a participação do país na renda gerada pelo café no mundo”, afirma Pavel Cardoso, presidente da entidade.

Café fora das salvaguardas europeias

Outro ponto destacado pela ABIC é que o café não foi classificado pela União Europeia como produto sensível. Na política comercial do bloco, produtos sensíveis são aqueles que podem afetar produtores locais se importados em grande volume e, por isso, costumam estar sujeitos a cotas, tarifas mais elevadas ou restrições — caso de itens como carne, açúcar, etanol e lácteos.

Com isso, o café brasileiro fica fora das salvaguardas comerciais que permitem à UE suspender temporariamente preferências tarifárias em situações de pressão sobre o mercado interno. Na prática, a condição confere maior previsibilidade às exportações para a Europa e reduz riscos regulatórios, favorecendo investimentos de médio e longo prazo na industrialização.

Para entrar em vigor, o acordo ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu e ratificado pelos Estados-membros da União Europeia, além de passar pela ratificação dos parlamentos nacionais dos países do Mercosul.

TEXTO Redação

Cafezal

Jamaica investe US$ 120 milhões na recuperação de cafezais após furacão Melissa

Fenômeno de categoria 5 atingiu as lavouras do país em novembro e causou perdas de aproximadamente US$ 6,3 milhões ao setor cafeeiro

No último dia 9, a cafeicultura jamaicana celebrou o Jamaica Blue Mountain Coffee Day, marcado este ano pelo lançamento de uma iniciativa do governo do país que destinará US$ 120 milhões para recuperar cafezais afetados pelo furacão Melissa em novembro do ano passado. Do total, US$ 35 milhões já foram desembolsados.

Segundo o presidente da Associação dos Exportadores de Café da Jamaica (JCEA), Norman Grant, 40% da lavoura pronta para a colheita perdeu-se com o fenômeno climático, classificado na categoria 5 (a mais alta), que causou danos às propriedades rurais e às rotas de acesso ao café, gerando perdas de cerca de J$ 1 bilhão (US$ 6,3 milhões) ao setor.

Apesar das dificuldades, Grant ressaltou, em discurso no evento, que a indústria cafeeira jamaicana continua a contribuir de forma significativa para economia nacional, mantendo sua posição no mercado global e exportando anualmente milhões de dólares em cafés premium. “Essa resiliência diz muito, mas apenas a resiliência não é suficiente. O que se faz necessário agora é um apoio coordenado e contínuo, além de esforços conjuntos para reconstruir uma indústria cafeeira resiliente às mudanças climáticas”, declarou ao jornal Jamaica Observer.

Sobre o Blue Mountain Coffee

O Blue Mountain Coffee é um café cultivado exclusivamente nas Montanhas Azuis (Blue Mountains), no leste da Jamaica, em áreas de alta altitude (entre 900 e 1.700 m), clima fresco, neblina, chuvas regulares e solo vulcânico – condições que proporcionam um café de alta qualidade. 

Por seu terroir único, o Blue Mountain Coffee é protegido por Denominação de Origem concedida pela Autoridade Reguladora de Produtos Agrícolas da Jamaica (Jacra). Atualmente, mais de 80% deste café é exportado.

TEXTO Redação / Fonte: Global Coffee Report e Jamaica Observer 

Mercado

Coca-Cola abandona planos de vender a rede Costa Coffee

Segundo o The Guardian, empresa encerrou leilão após propostas de fundos de private equity ficarem abaixo da expectativa de venda de £ 2 bilhões

A Coca-Cola abandonou os planos de vender sua rede de cafeterias Costa Coffee, após as propostas apresentadas por fundos de private equity não atingirem o valor esperado pela companhia. A informação foi publicada nesta terça-feira (14) pelo jornal britânico The Guardian.

De acordo com o Financial Times, que acompanhou o processo, a empresa americana de bebidas interrompeu as negociações com os licitantes remanescentes em dezembro, encerrando um leilão que se estendeu por vários meses. Entre os participantes da etapa final estava a TDR Capital, gestora britânica de private equity que controla a rede de supermercados Asda, informou o FT.

As primeiras notícias sobre a intenção da Coca-Cola de se desfazer da Costa vieram a público em agosto, quando a multinacional passou a avaliar uma venda por cerca de metade dos £ 3,9 bilhões pagos em 2018 à Whitbread, então controladora da maior rede de cafeterias do Reino Unido, com cerca de 4 mil lojas.

Desde a aquisição, a Costa tem enfrentado pressões de custos — incluindo a alta nos preços do café — e concorrência crescente nas ruas comerciais britânicas. Apesar de ter encerrado o processo atual, a Coca-Cola afirmou não descartar, de forma definitiva, uma eventual venda da Costa no futuro.

TEXTO Redação