Pelo Mundo por Gustavo Paiva

A pátria de café e de chuteiras

Por Gustavo Paiva

Segundo o escritor Nelson Rodrigues, o Brasil é “a pátria de chuteiras”. A cada quatro anos, o maior torneio de futebol do planeta envolve a população brasileira em torno de um televisor, esperando o pontapé inicial das partidas. De maneira quase invariável, o início da Copa do Mundo de futebol coincide, também, com o da colheita de café no Brasil.  

Ocorre que, há algumas décadas, esta coincidência representou uma relação direta. No final dos anos 1970, a FIFA exigiu de suas associadas a criação de uma organização dedicada exclusivamente ao futebol. Foi assim que a antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD), deu lugar à Confederação Brasileira de Futebol (CBF). 

A Copa na Argentina, disputada em 1978, foi a última da antiga confederação. Depois de uma campanha da seleção brasileira considerada frustrante — com um terceiro lugar, apesar da invencibilidade —, houve uma forte demanda por mudanças dentro e fora de campo.

A junção entre a obrigação das mudanças institucionais e a  pressão por mudanças vindas da sociedade fez com que a nova entidade máxima do futebol brasileiro mudasse não apenas o nome, mas também o escudo, costurando no peito da seleção canarinho as três estrelas do tricampeonato e a taça Jules Rimet, conquistada definitivamente pela seleção. 

Além disso, o Instituto Brasileiro do Café (IBD), extinto em 1990, estava preocupado, à época, com o crescimento da concorrência internacional na produção do grão e com a melhora da imagem do café dos concorrentes. Foi aí que o IBD decidiu ousar: desembolsou 3 milhões de dólares como patrocínio à recém-criada confederação antes do Mundial de 1982. Além do escudo, o patrocínio incluía peças publicitárias com os destaques da seleção – Sócrates, Zico e Telê –, visando o mercado doméstico.

O patrocínio previa, ainda, uma representação gráfica do tradicional ramo do café, impresso nas sacarias brasileiras, em lugar do logotipo da Topper, fornecedora de material esportivo. Ao saber da história, o então presidente da FIFA, João Havelange, ficou furioso e vetou imediatamente o patrocínio escancarado da então única seleção tricampeã mundial, que chegava à Espanha repleta de craques e com amplo favoritismo.

Com pouco tempo para fazer mudanças e um excelente contrato em jogo, o então presidente da CBF, Giulite Coutinho, optou por uma solução tipicamente brasileira: o jeitinho. Aproveitando o momento em que muitas seleções mudaram os logotipos de suas respectivas confederações, a CBF colocou o ramo de café no escudo da própria instituição e, consequentemente, no uniforme da seleção brasileira. 

Como as regras ainda não eram precisas quanto à temática dos escudos e a fiscalização dos uniformes não exigia o profissionalismo de hoje, o Brasil acabou jogando o Mundial de 1982 com um ramo de café no interior do escudo. 

Tanto Havelange quanto a CBF prometeram dobrar a aposta e seguir a briga na Copa do Mundo de 1986. Mas, desta vez, a história teve elementos extras e inusitados. A Colômbia, sede do Mundial de 1986 e principal rival da cafeicultura brasileira à época, enfrentava uma grave crise de segurança em razão dos conflitos ligados ao narcotráfico. Assim, desistiu de sediar o mundial, que acabou transferido para o México. 

Portanto, a tentativa de fazer propaganda do café nacional em território concorrente perdia um pouco o sentido. Além disso, a FIFA aumentou o rigor na fiscalização dos uniformes, buscando vetar quaisquer referências a possíveis patrocinadores. A CBF não deixou barato e levou carregamentos extras de uniformes para tentar burlar a fiscalização. Resultado: o Brasil entrou em campo com alguns uniformes ostentando o ramo de café e outros sem ele. Naquela seleção brasileira, havia um jogador que conhecia muito de café e de futebol: o volante machadense Elzo Coelho, titular em todos os jogos. 

De lá para cá, muita coisa mudou. O Brasil distanciou-se muito dos concorrentes na produção de café, mas nem tanto nos títulos mundiais de futebol. Porém, o que se vê atualmente nos uniformes são algumas referências nacionais que, diferentemente do café, não parecem relacionadas ao cotidiano da maioria dos brasileiros. Além disso, uma estratégia orquestrada e ousada para promover o consumo do café brasileiro durante o Mundial, dentro ou fora do país, não parece ser mais uma prioridade. 

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

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