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Índia: um gigante do café em ascensão
Com a Índia transformando-se rapidamente em uma grande nação consumidora de café, cafeterias, torrefações e produtores se preparam para um crescimento extraordinário
A Índia é um país em plena ascensão. Em abril de 2023, a nação do Sul da Ásia ultrapassou oficialmente a China como o país mais populoso do mundo, com 65% de seus atuais 1,46 bilhão de habitantes abaixo dos 35 anos. Com projeção de crescimento do PIB em torno de 6,6% no ano fiscal de 2025, a maior democracia do planeta segue no rumo de se manter entre as economias de grande porte que mais crescem.
Ganhando protagonismo no cenário global, executivos de origem indiana estão à frente de algumas das empresas mais valiosas e influentes do mundo. É o caso de Satya Nadella, que comanda a Microsoft, Sundar Pichai, CEO do Google e da Alphabet, e Vasant Narasimhan, da Novartis. Até 2024, Laxman Narasimhan também integrou esse grupo, ao ocupar o cargo de CEO da Starbucks.
Um país de oportunidades
Após cinco décadas de rápido desenvolvimento econômico, a sociedade indiana passa por uma mudança profunda rumo à “premiunização”. Jovens, escolarizados, viajados e cada vez mais abastados, os consumidores indianos têm adotado marcas internacionais como estilo de vida enquanto impulsionam, com a mesma intensidade, uma nova era de empreendedorismo local – e o café não fica de fora desse movimento.
“O cenário de café na Índia passou por uma transformação significativa na última década”, afirma Adrit Mishra, diretor de operações da Tata Starbucks, joint venture responsável por administrar a rede norte-americana no país. “À medida que a cultura do café cresce na Índia, a valorização por cafés premium está avançando para além das grandes metrópoles”, completa.
Presente no mercado indiano desde 2012, a Starbucks começou focada em lojas de alto perfil nos centros urbanos mais importantes. Mas, desde então, diversificou sua atuação para cidades de segundo e terceiro porte, ampliando o portfólio com unidades menores e modelos drive-thru. Em entrevista recente ao canal de notícias CNBC TV18, Brian Niccol, CEO da Starbucks, afirmou que a Índia tornou-se um dos mercados internacionais de crescimento mais rápido da Starbucks. Atualmente, a rede sediada em Seattle acelera sua expansão: em agosto, somava 480 lojas em todo o país – e pretendia chegar a 500 em novembro –, detendo cerca de 9% do mercado indiano. Também em novembro, a rede inaugurou a Starbucks Reserve na região metropolitana de Delhi – a segunda unidade Reserve da rede no país. “Os consumidores estão descobrindo as nuances do café e o papel que ele desempenha em seu dia a dia. Oferecemos cafés sazonais de diferentes origens, os melhores single origins e perfis de torra variados – temos tudo”, diz Mishra.
Com os indianos consumindo um valor estimado em INR 4 trilhões (US$ 53,3 bilhões) em café por ano, fica fácil entender por que as redes internacionais veem um potencial gigantesco no país. Operando no país por meio da licenciada Devyani International Ltd, a Costa Coffee, por exemplo, já tem 225 lojas em território indiano – um dos mercados prioritários da rede britânica.
Outra rede britânica, a Pret a Manger, também avança na Índia. Com a primeira loja aberta em Mumbai em abril de 2023 em parceria com o gigante varejista Reliance Brands, a rede fechou o ano de 2024 com 14 unidades – o plano é chegar a 100 lojas até 2028. Com o crescimento do consumo da bebida também em restaurantes, a Pret a Manger lançou na Índia, em abril deste ano, seu primeiro restaurante com serviço completo do mundo.
Enquanto isso, a canadense Tim Hortons investiu US$ 37 milhões para inaugurar dezenas de unidades ao ano em parceria com a AG Café – em 2023, abriu sua primeira loja em Nova Déli para longas filas de consumidores curiosos e, em agosto de 2025, já contava com 40 unidades no país.
Luxo é acessível?
Redes de café premium há muito se posicionam como um “luxo acessível” nos Estados Unidos e na Europa. Mas essa dinâmica não se repete no mercado indiano.
Para contextualizar: o salário mínimo por hora nos EUA – para trabalhadores que não recebem gorjetas – é de US$ 7,25. Dados da World Coffee Portal indicam que o preço médio de um latte em redes norte-americanas é de US$ 4,92, o que permite que mesmo trabalhadores de baixa renda consumam café fora de casa com alguma regularidade.
Na Índia, porém, redes internacionais chegam a cobrar até US$ 4 por bebida, enquanto o salário mínimo diário é de INR 178 (US$ 1,99) – o que torna o consumo fora de casa um luxo praticamente inacessível para a grande maioria.
A Starbucks lançou o tamanho “picco”, mais barato, abaixo de INR 200 (US$ 2,24) – ainda assim, um gasto elevado e difícil de competir com um copo de chai que custa apenas US$ 0,20 para a maior parte da população.
“Nos EUA e na Europa, marcas populares de café são vistas como redes ‘comuns’, mas na Índia elas são consideradas ultrapremium – há muitas barreiras de entrada para o café como produto de estilo de vida no país”, afirma Abhijeet Anand, CEO e fundador da abCoffee, uma rede de cafés especiais de posicionamento acessível, inaugurada em 2022 e que hoje soma mais de 75 lojas no país.
Anand decidiu criar a abCoffee depois de vivenciar a cultura de cafeterias europeias enquanto trabalhava na Romênia. Ao retornar à Índia, percebeu um crescimento expressivo no consumo de pacotes de café no varejo e identificou uma lacuna no mercado para lançar um conceito de cafeteria de marca com preços realmente acessíveis.
A abCoffee foca na compra de cafés especiais produzidos na Índia, e as bebidas começam com INR 77 (US$ 0,86) por um espresso e chegam a INR 127 (US$ 1,42) por um latte. A empresa consegue praticar esses preços mais baixos ao abastecer-se exclusivamente de produtores nacionais, como as fazendas Harley’s e Barbara, em Karnataka, e ao operar lojas enxutas, voltadas principalmente para take-away.
“A Índia produz muito café, mas os preços praticados no mercado interno estão no mesmo patamar do Reino Unido ou dos EUA – deveriam ser muito mais baixos –, e isso historicamente afastou muitos consumidores indianos do café fresco”, afirma Anand.
Bases sólidas para um crescimento admirável
Apesar de terem entrado no mercado indiano com preços inacessíveis para a maior parte dos consumidores, as redes internacionais de café construíram modelos de negócio viáveis ao mirar o público de alta renda do país. Impulsionadas por uma classe média em rápida expansão, essas redes – e uma nova leva de operadores domésticos – agora estão preparadas para um ciclo acelerado de crescimento.
O avanço de grandes redes internacionais de café em mercados emergentes não é novidade. Mas uma marca criada na própria Índia já demonstrava, há quase 30 anos, que a cultura do café de marca poderia prosperar no país.
Fundada em 1996 pelo empreendedor VG Siddhartha, natural de Karnataka, a Café Coffee Day foi pioneira na cultura de redes de cafeterias na Índia. Com o slogan “muita coisa pode acontecer tomando café”, a marca foi, por muitos anos, uma das únicas do país a servir bebidas à base de espresso em ambientes inspirados no conceito de “terceiro lugar”, e em escala nacional.
Em 2019, a Café Coffee Day já havia alcançado mais de 1,75 mil lojas e operava um negócio de 50 mil máquinas de autoatendimento em 243 cidades indianas, o que gerou US$ 200 milhões em receita anual – um feito impressionante em um mercado de café que, ainda hoje, é classificado como “em desenvolvimento”.
No entanto, o aparente suicídio de VG Siddhartha e a revelação de uma dívida de US$ 840 milhões naquele mesmo ano quase acabaram com a principal rede de cafeterias da Índia. A empresa fechou centenas de lojas durante a pandemia, após uma grande reestruturação. Sob a liderança de Malavika Hegde, viúva de Siddhartha, o negócio voltou a se recuperar e segue com mais de 425 lojas em operação.
Hoje em dia, uma nova geração de operadores locais atende ao público indiano emergente – consumidores muito mais viajados do que as gerações anteriores e cada vez mais inclinados a aderir a marcas associadas a estilo de vida.
Em 2023, estimativas conservadoras situavam a crescente classe média indiana em cerca de 100 milhões de pessoas. No entanto, uma pesquisa no mesmo ano do People Research on India’s Consumer Economy (Price), organização sem fins lucrativos sediada em Udaipur, concluiu que eram cerca de 432 milhões de indianos de “classe média”, definidos como aqueles com renda familiar anual entre INR 500 mil e INR 3 milhões (US$ 5.580 a US$ 33.474).
Com cerca de um em cada três indianos atualmente enquadrados nesse grupo, trata-se de uma definição ampla – mas uma faixa de renda que permite à maioria desses consumidores acessar gastos flexíveis, incluindo o consumo de café fora de casa.
Se apenas 10% desses consumidores de maior renda aderirem à cultura de café de marca, o mercado da Índia se equiparia hoje ao de um país europeu de médio porte – e está preparado para um crescimento extraordinário. Além disso, a pesquisa do Price projetou que esse grupo vai representar quase metade da população indiana, estimada em 1,46 bilhão, em 2047.
Na mesma época, o CEO da Costa Coffee, Philippe Schaillee, estimou em 20 a 25 milhões o tamanho do público indiano que “gravitava” em torno do café especial – números expressivos mesmo sob estimativas conservadoras.
“A Índia, como todos os países produtores de café dessa região do mundo, sempre foi uma economia de baixa renda. Nos últimos 10 a 20 anos, esses países se desenvolveram significativamente e agora há consumidores com renda suficiente para pagar por produtos de melhor qualidade. Isso não é apenas uma tendência no café – ocorre em todas as categorias de bens de consumo”, afirma Matt Chitharanjan, cofundador e CEO da Blue Tokai Coffee Roasters, torrefação e cafeteria de cafés especiais sediada em Gurgaon.
Fundada por Chitharanjan e Namrata Asthana em 2013, a Blue Tokai é exemplo dessa nova geração de operadores locais que elevam o padrão de qualidade enquanto valorizam os cafeicultores indianos.
A empresa tornou-se uma das principais forças do movimento de cafés especiais na Índia e hoje opera 189 lojas em dez cidades indianas. Por meio de suas quatro torrefações – três na Índia e uma no Japão, o foco central da marca tem sido tornar o café especial indiano mais acessível, tanto no mercado doméstico quanto no exterior.
“O café indiano é subestimado globalmente. É muito raro entrar em uma cafeteria em outras partes do mundo e ver café indiano no cardápio – mas a qualidade dos grãos produzidos por nossos parceiros e torrados por nós poderia ser servida, sem qualquer problema, em qualquer cafeteria de Melbourne, Nova York ou Londres”, afirma Chitharanjan.
Hoje em dia, a Blue Tokai trabalha com uma rede de 42 produtores de café indianos e já chegou a fazer parceria com mais de 80. No entanto, a ideia de Chitharanjan e Asthana de comercializar café indiano de alta qualidade no mercado doméstico foi inicialmente recebida com ceticismo. Como Asthana descreve, um agricultor de café indiano que eles abordaram inicialmente rejeitou a ideia de vender seu produto.
Made in Índia
abCoffee, Blue Tokai e Subko estão explorando o enorme potencial do café produzido na Índia. A estratégia, economicamente, faz sentido – reduz custos de importação – e, ao mesmo tempo, alinha-se a um forte sentimento de orgulho nacional em torno de marcas locais. Em outubro de 2021, o primeiro-ministro Narendra Modi usou um pronunciamento nacional para incentivar a população a ser “vocal for local” (“valorizar o que é local”, em tradução livre) e priorizar produtos fabricados no país.
Quando o assunto é café, a Índia dispõe de recursos consideráveis. Dados do governo indiano apontam que a produção nacional atingiu 374,2 mil toneladas no ano safra 2023/24, volume que coloca o país na sétima posição entre os maiores produtores globais. Cerca de 70% desse total vem do estado de Karnataka, no sudoeste, e toda a cadeia emprega aproximadamente dois milhões de pessoas. Até 80% da produção segue para mercados de exportação de commodities.
Encravado entre as florestas densas de Andhra Pradesh, no leste do país, o Vale de Araku vem se consolidando como um pólo de cafés especiais. O estado produz hoje uma fração da safra indiana – cerca de 14,6 mil toneladas –, mas o cultivo de arábica de alta qualidade na região é considerado estratégico para reposicionar a Índia no mercado global de café.
A produção de café na região integra a iniciativa “One District, One Product” (ODOP, cuja tradução livre é “um distrito, um produto”), que oferece apoio governamental a produtos únicos e de alta qualidade produzidos nos 28 estados da Índia. Seja a cúrcuma de Lakadong, as nozes da Caxemira ou as mangas de Gujarat, “cada distrito na Índia destaca um produto para ser promovido no mercado doméstico e internacional”, afirma Randhir Jaiswal, cônsul-geral do Consulado da Índia em Nova York.
No ano fiscal 2024/25, a exportação total de café da Índia passou de US$ 1,80 bilhão – um salto significativo, se comparado aos US$ 719,42 milhões em 2020/21 e US$ 1,15 bilhão em 2022/23.
Como explica Jaiswal, o café é uma peça importante no desenvolvimento econômico da Índia. Embora muitos consumidores no Ocidente já tenham experimentado café indiano em blends populares, solúveis e cápsulas, o consulado em Nova York vem promovendo cafés de origem única e especiais nos mercados internacionais.
“Exportávamos US$ 1 milhão para os EUA em 2019/20 – mas, em 2022/23, chegamos a US$ 61 milhões”, diz Jaiswal, sobre o crescimento da produção de cafés especiais na Índia dois anos atrás. A contribuição econômica do café para o país é evidente, mas as exportações de alta qualidade também têm ajudado a tirar da pobreza comunidades tribais historicamente de baixa renda no Vale de Araku. Grande parte desse trabalho é conduzida pela organização indiana sem fins lucrativos Naandí Foundation, que há 25 anos atua na promoção de práticas de agricultura regenerativa, no incentivo ao empreendedorismo e na ampliação do acesso à educação, especialmente para mulheres e meninas.
“O objetivo é agregar valor ao café dos produtores e garantir a eles o melhor preço. O melhor disso é que a maior parte da renda vai para pequenos agricultores, produtores com pouca terra e comunidades tribais que precisam de apoio – e isso tem um enorme impacto socioeconômico na base. Por todas essas razões, o café se tornou algo muito especial”, afirma Jaiswal.
Uma ascensão irrefreável
A força da Índia no cenário global vem crescendo, como ficou claro ao sediar a World Coffee Conference 2023, em Bengaluru. Coordenado pela Organização Internacional do Café (OIC) em parceria com o Coffee Board of India, o primeiro evento de café da Ásia, realizado ao longo de quatro dias, reuniu representantes dos 75 países-membros da OIC, mais de 1,5 mil delegados inscritos e 10 mil visitantes de negócios de várias partes do mundo.
Do mundo da moda à gastronomia, das viagens à tecnologia, os consumidores indianos, cada vez mais numerosos, buscam experiências de estilo de vida premium muito além do café. Em meio a uma onda crescente de otimismo nacional, o empreendedorismo local tornou-se um forte atrativo para a juventude do país, que hoje lidera a rápida transformação da indústria de cafés especiais na Índia.
Aproveitando esse momento, é apenas uma questão de tempo até que essas empresas locais comecem a deixar sua marca na Europa e nos Estados Unidos.
“Café não é apenas uma bebida, é uma conversa e parte de nossa cultura”, afirma o cônsul-geral Randhir Jaiswal. Quando se trata das ambições cafeeiras da Índia, parece que o céu é realmente o limite para esse gigante emergente.
Reportagem publicada na edição de janeiro de 2024 da 5thWave e atualizada pela Espresso com números e valores de novembro de 2025.










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