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Aftertaste por Pedro Cirne

Crônicas sobre a vida, o universo e o tudo mais

O Medo, esse meu amigo

Ok, Confesso. Sou um homem medroso. E sabe o que é curioso? Não conheço nenhum outro, exceto aquele que vejo no espelho.

O medo é um sentimento deveras curioso. Por que passamos tanto tempo a combatê-lo? Negando sua existência? Quantas pessoas não tentam se explicar, quando usam a palavra “medo” em uma frase? “Medo, eu? Não exagera… É cautela/bom senso/prudência.”

Imagine uma humanidade em que ninguém, mas ninguém mesmo, sentisse medo. Conseguiu? Pois é, não… Porque essa humanidade estaria extinta. Crie, na sua imaginação, um destemido e audaz homem pré-histórico encontrando um dentes-de-sabre (nem sei se foram contemporâneos, é só um exemplo). O destemido e audaz gritaria para a família: “Deixa comigo, resolvo sozinho”. Três mordidas depois o dentes-de-sabre já estaria fazendo a digestão e palitando os dentes com a clava do cidadão.

O medo é um instinto de preservação. É o que nos impede de dar um passo rumo ao desconhecido. Se humanos nascemos, é inevitável que cometeremos erros, perderemos disputas, apanharemos (metaforicamente falando). Ser homem ou mulher é conviver com a possibilidade da derrota. E o que o medo nos faz? Pode ajudar para que não apanhemos muito (metaforicamente falando II – o didatismo contra-ataca) ou, o que é melhor, pode nos ajudar a não apanhar. A pegar o caminho mais iluminado, a escolher a fruta que não vá dar congestão, a evitar tentar saltar o penhasco e caminhar um pouco mais para atravessar pela ponte.

Não finjo que ele, o medo, não existe. Pelo contrário: ele, para mim, é um amigo cauteloso, que me dá conselhos. Uma espécie de Grilo Falante (Lembra? Do Pinóquio?), que fica sobre o ombro esquerdo tentando me ajudar a optar por caminhos menos propensos a erros. (Sobre o ombro direito fica o Cupido. E esse só me leva a caminhos onde é impossível não errar.)

Levo tão a sério o meu Grilo Falante particular que até o batizei: ele se chama… Medo. Assim, com M maiúsculo. Nada original, eu sei. Mas é que se eu desse um nome fantasia, como São Jorge Destruidor de Dragões, seria uma maneira de eu fingir que ele não existe, e não é essa a ideia.

Às vezes o Medo me diz: não vá por aí, e eu o desobedeço. Às vezes, não. Qual o critério? Uma pergunta simples: vale a pena?

Se eu adoraria viajar para aquela cidade, mas tenho medo do voo, vou enfrentar? Sim, porque quero muito ir. E se estou com preguiça de caminhar, vou pegar carona com um motorista bêbado? Não, né? Em casos como esse, obedeço ao meu amigo Medo. E conhecidos que tomam a mesma decisão dizem que não é medo, mas cautela/bom senso/ prudência. Que seja!

O Medo é meu amigo e, às vezes, eu o enfrento. Por exemplo: toda vez que devo uma crônica para a Espresso, tenho medo de que não gostem. Mas envio mesmo assim: não o obedeço. Mas o Medo não se magoa facilmente e continua aí, na luta, firme e forte sobre meu ombro. Valeu, Medo, você é um amigão. Obrigado por já ter me livrado de tantas enrascadas!

*Pedro Cirne é chefe de reportagem do UOL Notícias. Fale com o colunista pelo e-mail aftertaste@cafeeditora.com.br

ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

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