Coluna Café por Convidado Especial

Do campo à xícara, profissionais convidados refletem sobre o setor

Juntos pelo Comércio Justo

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Qualidade de vida. Essa expressão resume o que significa morar em Poços de Caldas. Localizada no sul de Minas Gerais, com cerca de 160 mil habitantes, a cidade é conhecida por suas águas termais, pela temperatura amena e pela produção de cafés especiais. Mas, agora, Poços de Caldas ostenta também o título de Primeira Cidade de Comércio Justo do Brasil.

Comércio Justo (Fair Trade) é um movimento que busca combater a pobreza por meio do apoio à agricultura familiar. Criado há 25 anos por um grupo de voluntários, o movimento dá a consumidores do mundo inteiro o poder da escolha entre um produto sustentável e um produto que pode agravar ainda mais o quadro de degradação socioambiental dos países em desenvolvimento.

Hoje o movimento encampa mais de 27 mil produtos, como café, bola de futebol, chocolate, chá, vinho, entre outros, no mundo todo. Apenas em 2012, o mercado de Comércio Justo movimentou mais de 4,9 bilhões de euros, um aumento de 33% em relação a 2011. Em 2013, mais de 1,3 milhão de agricultores familiares e trabalhadores rurais foram beneficiados diretamente pelo Fair Trade, em mais de setenta países. Números que chamam atenção.

Em 2000, nasceu uma forma de apoio a esse movimento iniciada em Garstang, pequena cidade ao norte da Inglaterra. Ali, Bruce Crowther reuniu um grupo de voluntários (sua mulher e a babá de seu filho) e, aos poucos, conseguiu criar a primeira Cidade de Comércio Justo (Fair Trade Town). Um trabalho que começou como o de uma formiga e hoje já alcança milhares de pessoas.

O objetivo de uma Fair Trade Town é contribuir com o movimento de Comércio Justo no combate à pobreza, devendo para isso atingir seis metas, sendo elas: ter um comitê gestor; ter lojas que comercializam os produtos de Comércio Justo; ter bares, cafeterias e restaurantes que sirvam produtos de Comércio Justo; ter grandes empresas que consumam internamente produtos de Comércio Justo; difundir o conceito nas escolas; e realizar ações na mídia local mantendo a população informada sobre o Fair Trade.

O movimento em torno desse tipo de comércio, que privilegia os pequenos produtores e não os “intermediários”, vem crescendo a cada ano e, em 2013, mais de 1,3 mil cidades de vinte países cumpriram as metas e são consideradas cidades de Comércio Justo. Poços de Caldas se orgulha de estar entre elas desde 2012 e de ser também a primeira cidade em um país em desenvolvimento que, além de produzir itens com o selo, incentiva o consumo desses produtos.

Mas como? A pequena cidade mineira realiza diversas ações, como feiras e palestras, e mobiliza os empresários locais. Atualmente, mais de 120 estabelecimentos aderiram à campanha, estudantes contribuem como voluntários, e uma grande rede de supermercados está desenvolvendo quiosques com produtos Fair Trade em suas cinco lojas.

Merece destaque a atuação com o café, principal produto encontrado em Poços de Caldas. Com grãos de alta qualidade produzidos no próprio município pela Associação dos Agricultores Familiares do Córrego D’antas (Assodantas), a prática do Comércio Justo está incentivando a criação de marcas de café, como o Café Família da Coopfam, de Poço Fundo, e o Café Justo Grão, de Santana da Vargem, além de outros produtos como banana, mel, castanha-de-caju, suco de laranja e até vinho.

O desafio é ver esse exemplo replicado em todo o País e possibilitar que cada vez mais consumidores façam uma compra consciente.

*Ulisses Ferreira de Oliveira é coordenador de Fomento Agropecuário da Prefeitura de Poços de Caldas (MG), consultor em Gestão Sustentável no Agronegócio e um grande defensor do Comércio Justo. Fale com este colunista pelo e-mail colunacafe@revistaespresso.com.br

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

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