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Aftertaste por Pedro Cirne

Crônicas sobre a vida, o universo e o tudo mais

A história sem fim não acabou

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Recentemente, ouvi de um amigo: “Não entendo por que vocês, gordos, não emagrecem; sei lá, me parece preguiça”. E de outro: “Acho estranha essa busca de vocês por emagrecer, é meio bizarro que se sintam mal acima do peso”. Fiquei com um gosto amargo na boca, de chocolate com data de validade vencida. (Para contextualizar: meu nome é Pedro e eu sou gordo. Muito prazer).

Os dois casos não são exceção na minha vida. Uma fatia considerável dos meusamigos magros atribui à gordurinha extra a “falta de força de vontade”. E ponto. Outrafatia (com queijo extra, pizzaiolo, por favor) é recheada de gente que desdenhanossa busca por dietas suportáveis e uma rotina na academia: “Nunca precisei dissopara ser magro, só sou assim”.

Esses comentários me lembram a minha infância – e não me refiro ao pudim delicioso da minha avó. Tais amigos me remetem ao livro A História sem Fim, de Michael Ende. Ler A História sem Fim é tal qual comer brigadeiro: você sabe o gosto e adora repetir “só mais uma vez”. Mas perdoe possíveis erros de memória (meus neurônios só funcionam para coisas realmente importantes, como o gosto da sopa de capelete da minha outra avó). Salvo engano, um dos personagens do livro sai da Realidade e vai viver aventuras no reino da Fantasia. Tudo o que ele deseja acontece de uma hora para outra. Mas há um preço: ele se esquece, completamente, do que era antes.

Por exemplo: ele almeja ser rico. Não só se esquece de como era quando não tinha dinheiro, como passa a tratar mal os pobres. Ele se cansa de ser feio e se torna uma espécie de Brad Pitt melhorado – mas, até onde eu saiba, o marido da Angelina Jolie não maltrata os não tão belos.

E, claro, emagrece num piscar de olhos. E passa a tratar mal todos os demais gordinhos. Se eu estivesse no livro, degustando uma deliciosa rabanada, seria humilhado por ele apenas por ostentar uma pança considerável.

Não me lembro com detalhes do final do livro (não acredite no título: a história termina, e é maravilhosa). Mas, às vezes, me parece que algumas pessoas fazem o caminho inverso ao dele. Elas vivem num reino que para elas é Realidade, mas, para nós, gordinhos, é Fantasia: aquele em que você não engorda nem se só se alimentar de sorvete de guaraná (anote a receita: uma lata do refrigerante em questão, outra de leite condensado, bata no liquidificador e deixe no congelador por algumas horas). Tal qual o personagem, essas pessoas sofrem da falta de empatia, de se colocar no lugar do outro. E isso, infelizmente, não tem livro que ensine. Pior: para a falta de carinho, não tem banana split que compense. Gosto de pensar que a história sem fim realmente não acabou – nem para eles nem para mim. Só terminará quando aprendermos tudo. Ou seja, nunca. Até lá, vou pegar só mais um pedacinho da sobremesa.

*Pedro Cirne é chefe de reportagem do UOL Notícias. Fale com o colunista pelo e-mail aftertaste@cafeeditora.com.br
O texto deste colunista não reflete necessariamente a opinião da revista.

ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

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