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Aftertaste por Pedro Cirne

Crônicas sobre a vida, o universo e o tudo mais

Da arte de admitir um erro

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Não sei que horas são neste exato momento em que você lê este texto. Mas posso apostar uma coisa: você já cometeu algum erro hoje. (A menos, claro, que você não seja um ser humano.)

Sim, você errou. Eu também errei. Nós erramos. E daí?

Há erros e erros, bem sei. Alugar um filme que já assistimos por engano, colocar açúcar no lugar do sal e acabar com o prato principal, e virar à direita mesmo com o GPS apitando que era à esquerda, por exemplo, são erros pequenos.

Mas acho que um erro coletivo dos seres humanos é fingir que não erram – ou não admitir o erro, o que dá quase na mesma.

Não estou falando aqui de erros grandes (Nosso aniversário de casamento era hoje? Putz), mas dos pequenos. Se pisamos no pé de outra pessoa, se esquecemos o aniversário de uma pessoa querida, se esquecemos de devolver o CD que ela pediu… Em vez de simplesmente pedirmos desculpas, quantas voltas damos para que não percebam que houve um erro?

“Não esqueci do teu aniversário… Meu celular estava sem crédito!” (Culpa do coitado do objeto.)

“Olha, eu ia chegar na hora, mas o trânsito, viu, nunca imaginei que ia ter trânsito assim em São Paulo!” (Culpa da cidade em que se mora há anos e que, pelo visto, ainda não se conhece.)

“Não, não fui mal-educado. É o meu jeito: sou sincero, autêntico. As pessoas é que não me entendem.” (Culpa do universo. Está todo mundo errado, menos eu.)

Tem também a tática de tentar se transformar de “sujeito que pratica a ação” em “sujeito que sofre a ação” (método eternizado pelo filósofo Homer Simpson e sua frase “a culpa é minha e eu a coloco em quem quiser!”).

“Eu ia te devolver, mas a faxineira arrumou a casa e sei lá onde ela enfiou. Semana que vem eu pergunto para ela e te entrego.” (Culpa da coitada da faxineira.)

“Olha, vou ser sincero: não perdi o seu chaveiro. Ele que desapareceu.” (Culpa de forças ocultas – teoria da conspiração?)

“Te acordei? Mas você também dorme até tarde, hein?” (Culpa sua! Quem mandou dormir até a hora que quer?)

E, claro, se o pior cego é aquele que não quer ver, o pior mentiroso é o que finge que acredita nas próprias desculpas.

“Eu ia à academia. Aí lembrei de uma coisa importante e fiquei em casa.” (É…)

“Segunda, ah! Segunda eu começo a dieta.” (É…)

“Só mais cinco minutos. Aí desligo a TV e vou trabalhar.” (É…)

Acho que deveríamos perder a vergonha de errar. Já perdemos a vergonha de tanta coisa muito pior: de ser egoístas no trânsito; de esquecer em quem votamos; de chegar meia hora atrasados para o que quer que seja. Por que não perder o medo de errar?

Isso não quer dizer, claro, desencanar completamente e chutar o pau da barraca… Apenas, talvez, tentar evitar que o primeiro erro (inevitável – afinal, somos humanos) vire um segundo (a mentira).

Este texto inteiro, claro, pode ter sido um erro. Se foi, você me desculpa?

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Pedro Cirne • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

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