Mercado •
Por que o cacau agroflorestal é um aliado para manter a Amazônia em pé?
Por Beatriz Marques
Quem diria que no início dos anos 1970 a ordem do governo era para desmatar a Amazônia? Com a justificativa de povoar a região para impedir a “invasão estrangeira”, a rodovia BR-230, popularmente conhecida como Transamazônica, foi criada pelo regime militar e, a partir da inauguração do primeiro trecho, em 1972, veio também o “convite” aos cidadãos de diferentes pontos do país para habitarem as redondezas e tirarem a floresta da frente. “Quem vinha para cá e desmatava 100 hectares ganhava outros 100”, relembra a engenheira agrônoma Hélia Félix, responsável técnica pela Cacauway, a primeira fábrica de chocolates do Pará. Naquela época, seu marido, Leandro Sotelo, migrou do Paraná para o que é atualmente o município de Medicilândia e viu monocultivos de milho, arroz, feijão e cana-de-açúcar conquistarem seu espaço na Amazônia.
Hoje sabemos que a realidade é outra: agora, a ordem é manter a floresta em pé e recuperar áreas degradadas. Quando a aplicação do Código Florestal passou a ser exigida de forma mais efetiva, em 2008, estabeleceu-se a manutenção de 80% da cobertura de vegetação nativa em áreas de propriedades rurais na Amazônia Legal (que inclui Pará, Acre, Roraima, Rondônia, Amazonas, Mato Grosso, Amapá, Tocantins e uma porção do Maranhão). Na chamada Reserva Legal, é permitida a exploração econômica de manejo sustentável, sem descaracterizar e prejudicar a conservação da vegetação do bioma, assegurando a manutenção da diversidade e, caso seja feito o manejo de espécies exóticas, que seja para favorecer a regeneração das nativas.
Quem acabou desempenhando um papel importante nessa mudança, como alicerce para preservar a biodiversidade amazônica, foi o cacau. “Como é nativo do bioma, os agricultores viram no cacaueiro uma solução para manter a rentabilidade nesses 80% de reserva”, explica Guilherme Salata, coordenador do CocoaAction Brasil, iniciativa público-privada para o desenvolvimento da cadeia sustentável do cacau no país.
Com produção anteriormente tímida – pois, desde os anos 1960, a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) já introduzia sementes híbridas do cacau para o cultivo na região –, hoje a área da Transamazônica transformou-se no grande polo produtor do Pará, colocando o estado em destaque na cena cacaueira nacional. “Na Transamazônica se produz mais de 80% do cacau do Pará, e a terra fértil é um dos diferenciais”, comenta Ivaldo Santana, coordenador do Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva da Cacauicultura (Procacau), que faz parte da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap) em parceria com a Ceplac.
O que faz o cacau tornar-se um aliado na preservação da Amazônia é seu cultivo em sistema agroflorestal (SAF), no qual há um consórcio de culturas agrícolas e florestais que interagem bem e mantêm a diversidade biológica. No caso do cacaueiro, que naturalmente precisa de sombra, o SAF tem desenhos com diferentes espécies florestais nativas, como mogno e andiroba, além de outras árvores frutíferas, como cupuaçu e açaí, e de sombras provisórias, como a banana e a mandioca. “Há uma diversidade imensa de SAFs. Só no município de Tomé-Açu [outra importante região produtora no nordeste paraense], onde cacau e açaí são considerados ‘as joias da coroa’, foram encontrados 409 arranjos distintos”, conta Walkymario Lemos, chefe-geral da Embrapa Amazônia Oriental.
Esse sistema é um “mundo ideal” para a região amazônica, pois traz inúmeras vantagens ao meio ambiente e aos agricultores. “Temos aqui em torno de 160 mil hectares recuperados em SAFs desde 2006, em um total de 230 mil hectares plantados de cacau”, diz Santana sobre o território paraense. Muitas áreas degradadas, usadas para pastagens, por exemplo, têm sido convertidas para os SAFs. “Temos uma legislação no Pará para dar prioridade às áreas que foram desmatadas no passado”, explica Santana, referindo-se às ações de incentivo da Procacau. Vale também citar que as propriedades agrícolas com cacau desflorestam menos do que as que não plantam o fruto, pois, como é uma cultura perene, usa-se menos o fogo no preparo da área.
Além disso, o manejo dos SAFs é mais vantajoso para os agricultores, pois não necessita de tantos defensivos agrícolas. “Por meio da diversidade que compõe o arranjo, cria-se um microambiente favorável, em que há menos incidência de pragas e doenças”, conta Salata.
Outro ponto importante é o socioeconômico, já que, majoritariamente, os SAFs estão nas mãos de pequenos produtores, da agricultura familiar. “Dos 32,7 mil produtores do Pará, 95% são agricultores familiares, que têm em média cinco hectares. Em Medicilândia, que é o maior produtor do Brasil, a média sobe para sete hectares”, explica Santana.
Além disso, o aumento crescente do preço do cacau tem ajudado não só a permanência das pessoas na terra como atraído novos agricultores. Segundo a Sedap, o preço médio do cacau comercializado no estado em 2024 foi de R$ 40 o quilo, gerando uma renda líquida média mensal de R$ 11,2 mil para propriedades de cinco hectares. E o Pará, líder na produção de cacau no país, com registro de 143.675 toneladas em 2024, é o estado brasileiro que mais cresce em área plantada. “O aumento anual de áreas plantadas com cacaueiro é de 8 mil hectares, com cerca de mil novos produtores. E nós temos a maior produtividade do mundo atualmente, com 847 kg por hectare”, revela Santana.
No ano passado, dos R$ 5,7 bilhões de valor bruto adquirido a partir da comercialização do fruto, R$ 358 milhões foram pagos em impostos ao Pará (via ICMS) – deste montante, R$ 8 milhões foram repassados pelo governo estadual ao Fundo de Desenvolvimento da Cacauicultura (Funcacau), voltado para apoiar várias ações e projetos para o desenvolvimento da produção de cacau. “Os recursos usados vão desde suporte técnico até o custeamento dos nossos produtores em eventos internacionais”, explica o coordenador da Procacau. “Somos o único estado a ter um fundo voltado para o cacau”, completa.
Para quem aposta nos SAFs, além dos benefícios econômicos e ambientais, há outras oportunidades a caminho. “No futuro, será possível capitalizar os produtores com créditos de carbono e, muito em breve, devemos ter também crédito para a biodiversidade, um aspecto muito marcante dos sistemas agroflorestais”, avisa Lemos.
Mesmo sendo predominante, os SAFs não são as únicas formas de cultivo do cacau no estado. O chamado cacau de várzea, bastante encontrado no Baixo Tocantins, não faz uso de adubação e aditivos químicos, e suas plantas no meio da floresta são adaptadas às oscilações das águas dos rios amazônicos. Considerado uma iguaria por muitos chocolateiros e premiado internacionalmente, o cacau de várzea tem origem em plantas nativas – diferentemente dos SAFs, que usam sementes híbridas, selecionadas e fornecidas gratuitamente pela Ceplac. “Suas amêndoas possuem bastante manteiga e são muito apreciadas, mas têm produtividade bem baixa, de 250 quilos por hectare”, comenta Santana.
Na outra ponta, surge – ainda de forma tímida – um modelo que começa a se expandir no Pará: o cultivo a pleno sol, já comum em outras regiões do país. Entre suas principais diferenças em relação às versões SAF e de várzea estão o monocultivo de clones em área sem sombreamento, mas com muita adubação e irrigação, e uma produtividade média inicial (nos primeiros anos de cultivo) até quatro vezes maior se comparada a dos sistemas agroflorestais. Mas existem os “poréns”. “O modelo, a nosso ver, carece de informações científicas concretas na Amazônia”, diz Lemos, da Embrapa. “Por mais que se tenha uma alta produtividade, não se conhece com precisão por quanto tempo o cacaueiro a pleno sol mantém-se assim. Se, por um lado, ele pode ser vantajoso, pois, como são clones, eles produzem com mais uniformidade, por outro, a vulnerabilidade da planta é igual para todos. A ciência ainda precisa avançar para gerar informações seguras sobre o modelo”, analisa.
Do lado da Procacau, o cultivo a pleno sol encontra restrições, já que o Funcacau dá prioridade a projetos baseados em sistemas agroflorestais (SAFs). “Se um município pede recursos para cultivo solteiro, o pedido dificilmente será aprovado”, avisa Santana. “A orientação técnica, seja da Ceplac ou da Emater, é que o cacau seja plantado com sombreamento, mas o produtor é livre para escolher”, completa. Para Lemos, “é pouco inteligente buscar apenas o olhar da produtividade e ter essa produção [a pleno sol] constantemente questionada em relação à sustentabilidade.”
A chegada da 30a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), marcada para novembro em Belém, será uma oportunidade para que o mundo conheça os aspectos socioeconômicos e biodiversos das SAFs do cacau. A Embrapa Amazônia Oriental, a cerca de 2 quilômetros dos principais eventos da COP30, será sede da AgriZone, iniciativa para debates sobre agricultura e mudanças climáticas, onde 3 mil hectares, montados como vitrines vivas e virtuais, apresentarão soluções sustentáveis para cadeias produtivas, como as SAFs – e inclui, claro, o cacau. “Queremos tirar a imagem do desmatamento e mostrar para o mundo que somos um estado que recupera as áreas desmatadas e dá boa renda ao produtor com o cacau da Amazônia”, deseja Santana.
Texto originalmente publicado na edição #89 (setembro, outubro e novembro de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.







Deixe seu comentário