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O Iêmen pode voltar ao centro da cafeicultura mundial
Por Gustavo Paiva
O Iêmen, um dos primeiros territórios a produzir e comercializar café fora da África, pode voltar a desempenhar um papel crucial no cenário da cafeicultura mundial. Mas, infelizmente, não por uma história de sucesso.
No final do período medieval, quando a Europa ainda se arrastava entre pragas, guerras e controle religioso, os povos árabes expandiam sua influência ao redor do mundo, investindo em ciência, comércio e novas tecnologias de navegação.
Foi nesse momento que uma cidade portuária do Iêmen, localizada no sudoeste da Península Arábica, começou a receber, da região do Chifre da África, onde hoje se encontram Etiópia, Djibouti e Somália, um grão que fornecia propriedades energéticas e era utilizado, principalmente, para alimentar animais.
O nome do grão era kaffa e o nome da cidade portuária era Moca. Situada em uma região de grande interesse para o comércio entre África, Ásia e Europa, a cidade de Moca sempre viveu uma grande efervescência cultural, com diversas influências, e era ponto de comércio de vários produtos das principais rotas comerciais do mundo.
Mas justamente por ser um ponto de interesse global, a região sempre teve dificuldades para se manter estável e isenta de invasões militares de diversas nações. A produção de café na região teve dificuldades para prosperar, mas nunca foi de fato abandonada.
Hoje em dia, mais de mil anos depois do provável primeiro comércio de café fora da África, e mais de quinhentos anos depois da abertura do primeiro ponto dedicado à apreciação da bebida, o Iêmen pode voltar ao centro das atenções globais no mercado do café.
Infelizmente, desta vez, por um motivo trágico: a região de Moca se vê, mais uma vez, em convulsão política e econômica, dominada pela milícia dos Houthis, aliada ao governo fundamentalista islâmico do Irã. Com a série de ataques ordenadas ao país do Golfo Pérsico, e o fechamento do Estreito de Hormuz, o fechamento de um novo corredor marítimo, desta vez no Canal de Suez, que passa pelo Mar Vermelho e o Chifre da África, passa a ser uma ameaça real.
A estratégia pode ser levada adiante para forçar o fim dos bombardeios na região ou para obter outros eventuais ganhos, já que, com o fechamento do Estreito de Hormuz, o fluxo de petróleo e de gás pelo Canal de Suez passa a ser ainda mais importante.
Para o mercado do café, o fechamento teria consequências diretas no preço do diesel e dos fertilizantes, bem como no próprio grão, já que o canal é a principal via de acesso dos cafés asiáticos aos portos europeus.
Com estoques historicamente baixos, a Europa aguarda ansiosamente as exportações da última safra do segundo maior exportador mundial, o Vietnã, e do quarto maior, a Indonésia.
Além disso, devido à quantidade de chuvas acima do normal no último ciclo, atrasos já eram esperados. Mas, caso o fechamento do Canal de Suez seja provocado pelos Houthis do Iêmen, os estoques na Europa podem atingir níveis críticos, não havendo nenhuma perspectiva de reposição dos níveis de estoque com cafés de outras regiões.
Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.




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