Pelo Mundo por Gustavo Paiva

O aquecimento global e os cafés do Himalaia

Por Gustavo Paiva

O aumento das temperaturas no planeta Terra tem provocado desastres ambientais, de diversas formas e em todas as regiões do globo. Recentemente, fotos de flores na Antártida viralizaram, e até mesmo a outrora esquecida Groenlândia passa a ocupar as capas dos jornais, já que o gelo do Ártico está derretendo e novas rotas marítimas vêm sendo abertas. 

O café, tradicionalmente cultivado nos trópicos, corre risco de sobrevivência, especialmente aqueles cultivados em altas altitudes e debaixo de sombra, onde há pouca ou nenhuma margem de manobra para mitigar os efeitos das mudanças climáticas na produção. Algumas previsões, antes consideradas pessimistas, já são realistas.

Entre as medidas de mitigação estão o desenvolvimento de novas variedades, o manejo racional da irrigação e o manejo sustentável do solo e dos recursos hídricos. Mas, além de custosas, leva muito tempo para que mudanças tão radicais sejam implementadas e gerem resultados. 

Diante do contexto climático, aqueles que se situam em montanhas próximas ao Equador acabam ficando com poucas alternativas, como é o caso dos países produtores da América Central e da África. Sem outras áreas de plantio de café no país, nem alternativas de cultivo ou crédito disponíveis para financiar mudanças, ficam ainda mais vulneráveis. Resta, portanto, a migração de pessoas para outros lugares ou a substituição da cultura na mesma terra agrícola.

O Nepal, país encravado entre a China e a Índia e com diversos picos entre os mais altos do mundo – que ultrapassam oito mil metros –, associou-se como membro produtor à Organização Internacional do Café. 

Por um lado, isso não deixa de ser uma boa notícia para a população, que tem um consumo de café surpreendentemente maduro e consistente. É, também, um avanço positivo para os poucos produtores locais, já que o Nepal tende a deixar de ser uma origem exótica e a aumentar a sua produção.

Porém, a novidade pode ser preocupante para a maioria dos produtores ao redor do mundo. Menos pela concorrência e muito mais pelo alerta sobre a mudança climática, já que, até pouco tempo atrás, seria impensável que um país de latitudes e altitudes tão elevadas almejasse aumentar a própria produção cafeeira.

Por ser um país economicamente pobre, com relevo extremamente acidentado e logística difícil, é extremamente improvável que o Nepal possa produzir café em larga escala e se torne um concorrente de peso para os atuais produtores. Além disso, parte considerável da mão de obra jovem e rural do país migra para a vizinha Índia e, até mesmo, para os países do Golfo Pérsico, onde acaba caindo em trabalhos precários, principalmente na construção civil. 

Algumas áreas do oeste do Nepal, principalmente na região onde nasceu Siddhartha Gautama, o Buda, são relativamente baixas e têm vegetação e animais tropicais. Inclusive, o rinoceronte é um dos símbolos do país e mascote da seleção nacional de críquete, o esporte mais popular no local. 

Porém, o aumento da temperatura e o consequente derretimento das geleiras podem gerar novas terras agricultáveis e obrigar a população a fugir dos vales, que serão frequentemente inundados. O principal cultivo do país é o arroz, mas outros, como pimenta, milho, trigo e cevada, também são relevantes para a agricultura local.

Outro vizinho, o Butão, tem um contexto econômico, social e geográfico semelhante e poderia seguir o mesmo caminho. Ali, também, a maioria da população e das terras está em altitudes elevadas, encravada entre Índia e China, no meio da cordilheira do Himalaia, e sujeita a um clima hostil.

Na mesma região, China e Índia já produzem café, mas em áreas distantes das fronteiras nepalesas. Estes sim são gigantes econômicos, populacionais e geográficos, com alto poder de investimento e mão de obra abundante, e podem vir a representar uma concorrência considerável aos países produtores consolidados. 

Portanto, fica cada vez mais claro que as mudanças climáticas são reais e consequência da ação humana. Mesmo que a produção de café esteja ameaçada em alguns lugares, ela encontrará alternativas e continuará em outros. Ao contrário dos seres humanos, o café está neste planeta há quase um milhão de anos, adaptou-se e sobreviveu a períodos bem mais hostis. O mesmo, talvez, não possa ser dito da nossa espécie.

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

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