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“Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”
Por Celso Vegro
A pandemia produziu um novo contexto para a experiência humana na atual quadra histórica. O ambiente de incertezas firmou-se como alicerce das expectativas que foram recentemente radicalizadas pela gestão previsivelmente imprevisível do mandatário estadunidense. Francamente empenhado no desmantelamento do sistema de governança global, construído pelos EUA no pós-guerra, o ambiente para a tomada de decisões econômicas tornou-se extremamente complexo.
Ao final de 2025, foi publicado pela Casa Branca o documento “National Security Strategy of USA” que, em suas premissas, regurgita a doutrina Monroe¹, que diz que a América Latina constitui um território “exclusivo” dos interesses estadunidenses. O esforço explícito de Trump é o de deslocar a presença chinesa dos países latino-americanos e priorizar seus interesses, mas, talvez, nem tanto dos países abaixo do Rio Grande ou Rio Bravo, a depender do ponto de vista.
A estratégia norte-americana já rendeu frutos, como no caso do Panamá – retomada da gestão pública sobre o canal, cancelando a concessão que pertencia a uma empresa de Hong Kong –, o bloqueio das remessas de petróleo venezuelano para a China e para Cuba e, por fim, o pacote financeiro para a Argentina em troca da exclusividade para a exploração das reservas de lítio do país pelos EUA. Outras intervenções virão, sobretudo nas eleições da Colômbia² e do Brasil – por acaso, os dois maiores países produtores de café arábica do mundo.
Pois não foi o café um dos produtos³ que levou o mandatário estadunidense a rever o tarifaço impetrado ao Brasil no final de julho de 2025? A elevação de preços do café no mercado dos EUA, trouxe forte indignação ao seu eleitorado, forçando-o a excluir o produto da lista daqueles taxados em 50% para ingresso no mercado norte-americano4.
Não poderia haver momento mais inoportuno para o mandatário estadunidense impor tarifas ao café brasileiro. Após seguidos anos de produção mundial abaixo das expectativas, associados ao acelerado consumo de estoques, iniciou-se, no último trimestre de 2024, uma escalada nas cotações do café no mercado internacional, que se manteve até fevereiro deste ano, quando, após quatro safras consecutivas no Brasil, previu-se um volume de colheita próximo ao recorde registrado na safra de 2020/21.
A retirada das tarifas impostas pelo presidente norte-americano não promoverá um retorno ao status quo anterior de funcionamento do mercado. Ainda que tenha havido perdas econômicas devido à restrição aos embarques para aquele mercado, houve diversificação dos clientes para os produtos brasileiros, ou seja, um rearranjo dos destinos da oferta que, agora, passará a competir pelo suprimento nacional com mercados tradicionais.
A commodity café tem natureza essencialmente volátil. A espúria intervenção no mercado, afetando sua principal fonte de suprimento global, intensificou movimentos especulativos, trazendo mais imprevisibilidade à formação dos preços do produto. As cotações na Bolsa de Nova York superaram US$ 400 por libra-peso, elevando os preços no mercado interno a patamares acima de R$ 2.500 a saca. A transferência para os preços no varejo foi imediata, com drásticas repercussões sobre a demanda.
Assim, dados recentes da Conab5 indicaram que a colheita para o ano comercial 2026/27 poderá alcançar 66,19 milhões de sacas – representando um incremento de 17,1% frente à safra anterior –, distribuídas em 44,10 milhões de sacas de arábica e 22,09 milhões de sacas de conilon e robusta. Tais resultados estão alinhados às mais destacadas previsões das principais companhias exportadoras, como Stonex (70,70 milhões de sacas) e Itau BBA (69,30 milhões de sacas), para mencionar apenas duas das empresas especializadas em monitorar o andamento da safra brasileira.
Apesar do impacto que essa quantidade de café colhido venha tendo na formação internacional dos preços, o resultado mais relevante dessa campanha de previsão de safra da Conab é a expansão de área de cultivo mensurada em 4,1%. Aquilo que pode parecer pouco consiste em uma área adicional de 76 mil hectares! Considerando o patamar tecnológico em que as novas lavouras são implantadas, podemos imaginar médias de produtividade, relativamente conservadoras, em torno de 35 sacas por hectare, o que significa um adicional de 2,6 milhões de sacas ao total da safra.
Ademais, por imposição da legislação europeia, a cafeicultura brasileira já se apropriou plenamente dos mecanismos de rastreabilidade e certificação, que, aliados ao empreendedorismo característico que permeia a realidade atual da atividade agropecuária do país e, ainda, à sua incessante busca por tecnologias que mesclam produtividade com qualidade, conferem um patamar de fortalecimento à atividade, promovendo tanto a confiança internacional como a capacidade brasileira de suprir, em suas especificidades, à demanda internacional e nacional.
Com essa expansão do plantio forma-se, no Brasil, uma espécie de buffer (colchão) contra as variações cíclicas características do mercado das commodities, sendo o café uma das que exibem esse comportamento mais intensamente. Diante das mudanças climáticas, fenômeno já constatado, é importante que se ampliem as áreas de produção no país para que as periódicas perdas registradas nos últimos anos, tanto aqui como entre concorrentes, possam ser mitigadas pela expectativa de colheita em novas áreas produtivas.
A persistente elevação do consumo mundial de café, associada à tênue recuperação de estoques que se antecipou a partir do aumento da oferta brasileira, não trará alívio ao mercado, ainda que, momentaneamente, os preços tenham exibido fortes baixas ao longo de fevereiro de 2026. Distúrbios climáticos, decisões político-econômicas erráticas e ilegais, escalada de conflitos geopolíticos e comerciais, enfraquecimento da moeda-referência para o comércio internacional e entesouramento privado deixam o mercado em estado de permanente estresse, significando, na prática, um incremento da volatilidade para as cotações.
A revogação das tarifas decretada pela Suprema Corte estadunidense, com imediata imposição de tarifa global de 15%, poderá beneficiar as exportações brasileiras para os EUA. Sob clima de imprevisibilidade, instabilidade e desconfiança, o mercado demandará mais café, pois, diante de tantos estresses, o produto surge como o elixir capaz de descomprimir esse momento de tantas incertezas.
E a música, que inspira o título a desta coluna, continua com a estrofe: “Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu a um segundo”.
(Artigo preparado sob inspiração de recentes análises da estudiosa Mônica de Bolle em seu canal para assinantes no Substack).
Celso Luis Rodrigues Vegro é engenheiro agrônomo, mestre e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.
*Trecho da canção “Como Uma Onda (Nada do Que Foi Será)”, de Lulu Santos, do álbum O Último Romântico (1984).
¹ A Doutrina Monroe tinha como um dos seus preceitos base o slogan “América para os americanos”.
² Pouco após o sequestro do mandatário da Venezuela, o ordenador da ação militar na qual tombaram 100 militares daquele país insinuou que a Colômbia poderia ser o próximo país a experimentar algo similar, sob o argumento de suposto combate ao narcoterrorismo.
³ A carne, especialmente aquela empregada na produção de hambúrgueres, acompanhou o café na elevação dos preços no mercado estadunidense.
4 Em 20 de fevereiro de 2026, os juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos finalizaram seus votos, e a maioria decidiu pela revogação da imposição de tarifas, concluindo que o presidente Trump excedeu sua autoridade ao invocar a lei de emergência econômica. Todavia, o café solúvel brasileiro ainda está no rol de produtos que permanecem sob alíquota de 50%, havendo movimentação diplomática brasileira para sua exclusão do tarifaço.
5 Disponível em https://www.gov.br/conab/pt-br/atuacao/informacoes-agropecuarias/safras/safra-de-cafe/1o-levantamento-de-cafe-safra-2026/1o-levantamento-de-cafe-safra-2026. Acesso em 20/02/2026.



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