Pelo Mundo por Gustavo Paiva

Únicos cafezais europeus podem ser inspiradores

Pés de café cultivados nas Ilhas Canárias

Por Gustavo Paiva

Por mais surpreendente que possa parecer, a Europa já cultiva café em seu próprio território. Embora os cultivos se concentrem em duas regiões isoladas do continente — nos Açores e nas Ilhas Canárias —, pode-se dizer que ali estão os cafés mais próximos da Europa continental e os mais ao norte de que se tem notícia.

Com isso, Portugal e Espanha buscam aliar a produção de café ao turismo e, ao mesmo tempo, lançar uma proposta de desenvolvimento econômico para territórios insulares do Atlântico — os Açores e as Canárias, respectivamente.

Obviamente, o conceito “europeu” pode variar muito, já que vários territórios ao redor do globo ainda estão submetidos, com mais ou menos autonomia, às leis formuladas na Europa. Neste caso, porém, os arquipélagos em questão se encontram ao norte do Oceano Atlântico, sob domínio dos seus respectivos países desde o século XIV, antes mesmo da unificação das fronteiras espanholas e da expulsão dos árabes do continente europeu.

Em ambos os lugares, estima-se que o café tenha chegado no fim do século XVIII, por volta de 1780, mais ou menos no mesmo período em que as primeiras mudas desembarcaram no Brasil. No caso das Canárias, considera-se que o cultivo esteve mais associado à curiosidade — por meio de testes e experimentos científicos — do que a qualquer ambição de exploração econômica.

Em Açores, os registros indicam que as plantas cultivadas eram da mesma linhagem da típica, provenientes dos entrepostos portugueses na África, bem como da bourbon, oriundas de Pernambuco, mas que chegaram ao Brasil via Guiana Francesa. Os portugueses cultivaram café na ilha continuamente até o início do século XX, quando crises econômicas sucessivas inviabilizaram o plantio como alternativa de baixa intensidade ou até mesmo como experimento científico. 

O café só voltaria a ganhar certo protagonismo no fim dos anos 1970, quando colonos portugueses expulsos de Angola e de Moçambique carregaram consigo algumas mudas e tentaram relançar a atividade nos Açores. À época, foram introduzidas as variedades caturra e bourbon amarelo, sobretudo nas ilhas de São Jorge e Terceira, mas estima-se que todo o arquipélago tenha potencial para desenvolver a cultura cafeeira.

Recentemente, alguns técnicos ligados ao governo português fizeram um levantamento no arquipélago e contabilizaram 213 cultivos diferentes tocados por 70 produtores. Estima-se que existam nos Açores 12 mil plantas de seis variedades diferentes, porém, todas da espécie arábica. Alguns cafeeiros têm mais de cem anos, mas a maioria – cerca de 7 mil plantas – têm idade inferior a três anos, o que demonstra o investimento em renovação e um certo potencial de produção nos próximos anos. 

Enquanto isso, mais ao sul e sob a tutela do governo espanhol, as Ilhas Canárias buscam lançar seu próprio café como uma alternativa exótica no mercado internacional. Assim como os Açores, a ilha tem solos vulcânicos e férteis, propícios ao cultivo do grão. Os plantios são feitos em pequena escala, com colheita manual e seletiva, o que implica diversos ciclos de coleta ao longo do ano. O cultivo nas Canárias também é feito de forma sombreada e em baixíssimas altitudes, entre 100 e 400 metros.

Apesar de múltiplas, as semelhanças param por aí, já que o arquipélago espanhol tem um clima mais hostil ao cafeeiro do que o dos Açores. As Ilhas Canárias têm temperaturas mais altas e menos umidade, e o café está restrito à região de Agaete. 

Além disso, o café espanhol chegou a ser exportado no final do século XIX, mas desapareceu completamente durante a década de 1950, sendo substituído por outros cultivos, como tomate e banana-da-terra. O café canário renasceu apenas no final do século XX e como uma opção de oferta de café exótico para os consumidores espanhóis. 

Em pequenas ilhas do Atlântico, o grão pode ser considerado uma solução econômica de baixa intensidade, viável em países ou territórios que necessitam diversificar sua produção agrícola. Geralmente, as ilhas atlânticas oferecem clima propício, solo vulcânico extremamente fértil e ampla gama de opções turísticas que podem ser combinadas com visitas e experiências ligadas ao cultivo de café. 

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

Afinal, qual é o estoque dos EUA?

Por Gustavo Paiva

Há mais de dois anos, a National Green Coffee Association (Associação Nacional de Café Bruto dos Estados Unidos) eliminou uma ferramenta indispensável de informação para a cadeia produtiva. 

Desde então, as estimativas de estoques norte-americanos mais confiáveis têm sido publicadas gratuitamente apenas pelo Departamento de Agricultura do país (a USDA) e mediante pagamento pela Associação Nacional de Café (NCA). Temos, também, as estatísticas da Intercontinental Exchange (ICE), que se referem apenas aos cafés registrados em armazéns certificados nos Estados Unidos e na Europa.

Em agosto, com o início das tarifas impostas pelo governo norte-americano ao Brasil e a outros países produtores, muito se especulou sobre a quantidade disponível de café para consumo imediato nos Estados Unidos, com algumas estimativas apontando para 60 dias de consumo. 

Apesar do fim das tarifas, algumas perguntas ainda estão sem respostas: até quando os estoques atuais aguentam? A quem interessa a falta de informação sobre os estoques no maior mercado consumidor de café do mundo? E quais seriam as instituições com credibilidade suficiente para opinar sobre o tema?

Se a pergunta principal desta coluna, relativa à quantidade e ao prazo de alcance dos atuais estoques nos EUA parece ser inalcançável para a maioria das pessoas, nos resta a pergunta seguinte: a quem interessa o segredo? As instituições norte-americanas têm o direito de proteger os interesses da própria indústria, mas elas devem ser levadas a sério como fornecedoras de dados globais? Qual seria, portanto, a credibilidade de organizações que, agindo em conflito de interesse, se colocam como fornecedoras de estatísticas confiáveis?

Frequentemente, o desencontro de dados entre a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística  (IBGE) é apontado como prova da incapacidade de as instituições brasileiras fornecerem ao mundo dados da produção nacional. Além, é claro, de frequentes acusações de conflito de interesses em relação à própria indústria nacional. 

Interessante lembrar que estas acusações são frequentemente feitas por atores que buscam questionar o profissionalismo e a metodologia das organizações brasileiras. Além de suporem, ainda, um conflito de interesses das nossas instituições, que teriam a intenção de pressionar os preços para cima e beneficiar os  produtores nacionais.

O que vemos, portanto, é o tradicional cabo de guerra de informações com acusações, possíveis erros metodológicos e a suposta falta de credibilidade de organizações nacionais em fornecerem dados concretos de produção. Cabe a reflexão: as acusações feitas às nossas instituições não poderiam ser igualmente aplicadas a instituições similares em países consumidores? 

A liberdade de informação, de comércio e de opinião é um dos pilares da sociedade norte-americana, e existe desde a independência do país (em 1776). Porém, não há liberdade que resista à tentação do protecionismo, cabendo aos agentes de mercado nos países produtores atenção à hipocrisia e à demagogia daqueles que não têm, e nunca tiveram, interesse na prosperidade da cadeia como um todo. 

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi   consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

A China como fiadora do mercado do café

Por Gustavo Paiva

Nas últimas semanas, vivenciamos a escalada das tensões tarifárias impostas pelo presidente Donald Trump a aliados e adversários dos Estados Unidos ao redor do mundo. Entre os quinze maiores produtores de café robusta e arábica, mais da metade sofreu algum tipo de aumento tarifário. Entre os quinze maiores consumidores, em sua maioria países europeus e aliados dos EUA, absolutamente todos sofreram aumento.

Em um momento de níveis historicamente baixos de estoque e de consumo relativamente resiliente ao aumento de preços, pode-se perguntar quem seriam os grandes vencedores e perdedores de tais tarifas. O produtor brasileiro, no momento, tem a preocupação legítima em relação ao final da sua própria safra, e como comercializar o produto que acabou de ser colhido.

Primeiro, os grandes perdedores deste novo sistema tarifário tendem a ser as empresas e consumidores de países não produtores de café. Importante lembrar que as empresas nestes países consumidores estão trabalhando com estoques baixos devido ao aumento na taxa de juros nos países importadores, e ao aumento do preço devido à baixa produção das últimas safras.

Este cenário implicou em um corte na margem de lucro ou no repasse do aumento do preço ao consumidor final. Sem muita margem de manobra, empresas terão de arcar com um novo corte de lucro ou, então, um novo repasse ao consumidor. Importante lembrar que uma parte relevante das exportações de café é feita entre as próprias multinacionais, em que a empresa exportadora faz parte do mesmo conglomerado que a empresa importadora.

Do lado ganhador, até o momento, encontra-se antes de mais ninguém a China. Devido a esta conjunção de fatores, o país tem uma chance histórica: a possibilidade de deixar de ser um promissor mercado emergente, para ser um ator central no presente e detentor de consideráveis níveis de estoques de cafés.

É válido ressaltar que, mesmo que não se consuma uma quantidade importante de café, qualquer país pode ser um agente relevante do mercado, comprando e vendendo contratos e pressionando o preço para cima ou para baixo conforme seus próprios interesses. 

Só neste ano, o governo de Pequim reservou pouco mais de US$ 24 bilhões apenas para estocar cereais, óleos alimentícios e outros itens. A ideia por trás desta medida é implementar uma reserva de produtos alimentares que não são produzidos na China e reduzir a dependência chinesa de outros países como Estados Unidos, Brasil e membros da União Europeia. Ainda não está claro se tal estratégia seria praticada no café, visto que o consumo per capita anda baixo.

Recentemente, a China habilitou diversos exportadores brasileiros a comercializarem com o país. Mesmo que a iniciativa não signifique a certeza de comércio, ela acaba facilitando o fluxo de transação do grão brasileiro e simplifica a burocracia para exportar. As importações de café pela China bateram recordes até 2023, recuando um pouco no ano seguinte.

Ainda no cenário do sudeste asiático, temos grandes países produtores com uma considerável população consumidora, que ainda consome um volume relativamente baixo por questões culturais e financeiras. Com a queda do preço no mercado interno, consumidores locais podem ter um incentivo à mudança cultural e substituir o café pelo chá. 

Ou, ainda, um incentivo ao comércio regional dentro dos países membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático, que conta com dois grandes produtores de café – Indonésia e Vietnã –, um grande consumidor – Filipinas –, e uma população total de 670 milhões de pessoas, três vezes maior do que a população brasileira.

Portanto, se a estratégia do governo de Donald Trump buscava distanciar o Brasil da China e causar prejuízos às empresas daqui, a medida pode estar chegando em um péssimo momento e acabar gerando um efeito reverso. Os estoques de café e outros produtos alimentares estão historicamente baixos nos Estados Unidos, o que pode implicar um aumento de preços e inflação no curto prazo. Além disso, pode acabar aumentando a importância da China em mercados onde os Estados Unidos possuíam hegemonia, fazendo, ainda, o país perder o poder de barganha e de acesso aos estoques de matérias-primas.

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

Setembro incerto nos maiores países produtores de café (me acordem quando ele acabar)

Por Gustavo Paiva

O mês de setembro começou depois de muita oscilação no mercado do café, que culminou com um claro reajuste de preços pagos ao produtor. Se por um lado as quebras na safra estão se confirmando no Brasil, por outro, o produtor começa a se preocupar com um setembro predominantemente seco, assim como aconteceu no mesmo mês em 2024. 

Esta, porém, não é a realidade dos outros maiores produtores de café do mundo – Vietnã, Colômbia e Indonésia –, que até aqui viveram temporadas que variaram da neutralidade ao excesso de chuvas.

Na Colômbia, resquícios da temporada passada do La Niña trouxeram chuvas acima da média na maioria das regiões cafeeiras. As chuvas podem acabar atrasando os embarques, mas a Federação Nacional dos Cafeicultores da Colômbia sinaliza um aumento de dois dígitos na produção até o momento. Com produção e embarques durante todo o ano, a Colômbia, que geralmente produz e embarca pouco mais de um milhão de sacas ao mês, gerou cerca 8,9 milhões de sacas de café e embarcou algo como 8,7 milhões nos primeiros sete meses do ano. 

Ainda é incerto se esta alta se deve a um aumento na produção ou ao atraso acumulado por conta das chuvas. Algumas entidades ligadas aos produtores colombianos defendem que o aumento se dá por conta de uma maior remuneração ao cafeicultor, mas, em 2024, os colombianos já haviam aumentado sua produção em mais de 20% em relação a 2023. Para o restante de 2025, a tendência é que haja, finalmente, uma condição neutra depois de várias temporadas alternadas entre La Niña e El Niño.

Enquanto isso, do outro lado do Pacífico, Vietnã e Indonésia viveram uma situação relativamente similar à da Colômbia durante o ciclo de formação do grão. As chuvas também estiveram um pouco acima da média, mas as temperaturas registradas estiveram ligeiramente abaixo da normalidade. Esta pequena variação dos padrões climáticos não deixa de ser uma surpresa, já que esperava-se um ano totalmente atípico, com padrões climáticos imprevisíveis. 

Isso porque a temporada de tufões, tempestades e depressões tropicais que geralmente ocorrem entre junho e outubro, neste ano começou em fevereiro (!). Este evento, excepcional, gerou apreensão, mas acabou se mostrando um fato isolado. E a tendência, portanto, é que, para o restante do ano, espera-se os mesmos padrões válidos para a Colômbia, ou seja, de atraso nos embarques por causa das chuvas e de neutralidade climática. 

Vale lembrar que, em se tratando do sudeste asiático, neutralidade climática não significa ausência de eventos. A temporada de tufões começou efetivamente no início de junho com a tempestade tropical wutip, que atingiu o Vietnã, as Filipinas e a China. Até o momento, a tempestade mais forte a atingir uma zona cafeeira foi o tufão kajiki, no Vietnã, que afetou milhares de hectares de plantações no centro norte do país, onde se concentra a produção dos cerca de três milhões de sacas de arábica. 

Em uma avaliação geral da Indonésia, os padrões climáticos foram similares aos do Vietnã, embora o país seja um vasto arquipélago com diversas ilhas e podendo vivenciar padrões climáticos desiguais. Isso tende a fazer qualquer previsão ou tentativa de generalização climática da Indonésia um exercício extremamente arriscado. De maneira geral, espera-se um aumento de 5% na produção, levando-se em conta os padrões gerais deste ano, com chuvas ligeiramente acima da média e temperaturas um pouco abaixo do esperado.

Voltando ao Brasil, estamos entrando em um mês sem perspectivas de chuva, muito parecido com o que aconteceu em setembro de 2024 – com a diferença de que os cafeeiros receberam mais chuvas durante a colheita atual. Não se pode negar a hipótese de que parte da quebra de produção deste ano se deve ao setembro seco do ano passado. Levando-se em conta a perspectiva de um padrão climático também neutro para o restante do ano, devemos esperar uma próxima safra parecida com a última? De todo modo, se o restante do mês permanecer sem chuvas, já será praticamente impossível uma safra com volume excedente, capaz de mudar completamente a direção dos preços do mercado.

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi   consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

A próxima crise na produção de café

Por Gustavo Paiva

As mudanças recentes na Etiópia, país de grande relevância no mercado do café, tanto no consumo como na produção, trazem muitas dúvidas para a sua política externa, já que o país vem demonstrando querer influenciar seus vizinhos e, até mesmo, buscar novos territórios.

O primeiro-ministro Ahmed Abiy não nega as ambições expansionistas, como tampouco esconde sua insatisfação com o fato do país não ter acesso ao mar e aos poucos recursos hídricos. A consequência disso é um aumento de tensões com os vizinhos do leste, por conta da saída para o Golfo de Aden, mas também com países ao norte, como Sudão e Egito, pelo controle dos recursos hídricos do Nilo.

Enquanto a Etiópia entende que a construção da Grande Barragem do Renascimento é vital para o seu desenvolvimento econômico, egípcios e sudaneses ficaram extremamente preocupados com a possibilidade de perder uma parte da água proveniente das montanhas etíopes.

Além disso, logo após a vitória do conflito na região do Tigray, novos conflitos internos emergiram nas regiões de Oromia e Amhara – nada menos do que duas das maiores regiões do país. Nestes casos, diferenças étnicas, baixa presença do governo e problemas econômicos são as principais causas de confrontos.

Em um primeiro momento, a desorganização e a instabilidade causadas por esses conflitos terão impacto direto na produção de café local, já que a região de Oromia é uma das principais produtoras do país e conta com uma das maiores cooperativas do mundo em número de associados.

Segundo, há uma grande questão quanto à exportação do café. Com uma logística que já é complicada em tempos relativamente estáveis, levando por volta de três semanas para exportar o café através do país vizinho, o Djibuti, a Etiópia segue dependente de um porto estrangeiro para escoar sua produção.

Terceiro, tanta instabilidade tem como consequência a dificuldade de planejar e investir na produção. A renovação dos cafeeiros do país se mostra urgente. E por último, a inflação, que é uma consequência direta de todos estes problemas. No país, a renda per capita, ajustada pelo poder de compra, é de US$ 3 mil anuais – pouco mais de dez por cento da renda brasileira, que atualmente está em US$ 20.500, segundo dados do Banco Mundial.

Portanto, mais um outro conflito ligado à uma saída etíope para o mar, envolveria Somália, Eritréia, Djibuti e se somaria a outras crises regionais, como as do Iêmen, do Irã e do Sudão, com a totalidade dos Estados da região em algum tipo de instabilidade.

Por ser um conflito aberto contra paramilitares internos em Oromia e Amhara, e um conflito não declarado com os vizinhos, a questão parece não levantar muito interesse internacional, talvez porque ainda não tenha afetado as rotas de navegação pelo mar Vermelho.

Mesmo que algo maior na Etiópia aconteça, o envolvimento de países externos tende a ser menor. Apesar de a Otan possuir três bases militares em Djibuti, o conflito ucraniano é a prioridade no momento. E os Estados Unidos têm se mantido indiferentes à situação na região desde a eleição de Donald Trump.

O presidente norte-americano tem sido enfático ao demonstrar sua falta de interesse em países do continente, com exceção daqueles que possam providenciar recursos naturais como petróleo, gás e terras raras, o que não é o caso da Etiópia.

Até agora, todas estas instabilidades parecem não alterar a cadeia do café etíope, já que, segundo estatísticas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e da Organização Internacional do Café, a produção tem se mostrado resiliente, chegando até mesmo a aumentar nos últimos anos.

Se por um lado parece inevitável que o conflito escale, por outro a cadeia do café local parece se mostrar não só estável como próspera. Pode-se perguntar, portanto, se os agricultores locais possuem uma resistência heróica, se os envolvidos na cadeia local já aprenderam a trabalhar sob a pressão das crises ou se as estatísticas que demonstram um crescimento estão equivocadas. Nada impede que mais de uma alternativa seja correta.

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra e é mestre em economia agroalimentar. Atualmente, é consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Magalhães Paiva

A onda bege: porque o auge do café RTD ainda pode estar por vir

Por Gustavo Paiva

O segmento de café pronto para beber (RTD, da sigla em inglês ready-to-drink) há muito é alvo de debates. Alguns dizem que já é uma realidade, apontando para a inovação do produto nos últimos anos, a quantidade de capital investido em P&D e comunicação e os hábitos de consumo atuais da Geração Z. 

Mas há quem seja ainda mais otimista e considere ainda os mercados emergentes na Ásia e na África, o aumento natural do poder de compra da Geração Z e sua influência sobre a Geração Alfa. Por fim, há os pessimistas, que consideram a alta nos preços, o fato de que gerações mais velhas e países produtores podem não estar abertos a esse tipo de consumo e que os mercados emergentes não tenham aumento substancial na renda para consumir em grande escala o café pronto para beber.

É praticamente impossível pensar em uma lata de café gelado e não pensar em algumas marcas precisas. Algumas empresas promoveram uma revolução na forma como o café é consumido dentro e fora de suas lojas. Mais do que isso, seu sucesso obrigou outras empresas tradicionais a repensarem suas estratégias e desenvolverem novos produtos para o segmento. As prateleiras refrigeradas dos supermercados exibem hoje uma ampla gama de latas de café pronto para beber até mesmo de companhias que nunca tiveram uma cafeteria. Então, podemos confirmar que isso já é uma realidade?

Não para aqueles que apostam que o melhor ainda está por vir. Segundo Caleb Bryant, diretor associado de alimentos e bebidas da Mintel, a Geração Z lidera a tendência de consumo deste produto. Outra pesquisa, da Suntory Boss Coffee, valida a visão de Bryant. De acordo com o levantamento, 88% da Geração Z já consome café pronto para beber, e entre os que ainda não consomem, 61% consideram experimentá-lo no futuro.

Considerando, a partir dos dados da empresa de inteligência de mercado Technavio, que mais de três quartos dos cafés prontos para beber são consumidos em latas ou garrafas de plástico, estas embalagens permitem uma maior customização, inovação e maneiras alternativas de consumo. Estas três características são essenciais para as novas gerações e irrelevantes para as mais vividas.

Segundo dados da National Coffee Association (NCA), existem vários fatores determinantes para que as gerações mais velhas não se aproximem dos cafés prontos para consumo. E isso não necessariamente tem a ver com hábitos antigos e estabelecidos. Para a NCA, os principais fatores para o consumo dos cafés prontos para beber seriam a comodidade, a conveniência e a possibilidade de ‘levar para viagem’. Além disso, os cafés prontos para beber envolvem um marketing ligado à qualidade do grão e à sustentabilidade da produção, fatores que não são decisivos para as gerações mais velhas. Por último, o café como ritual de preparação dentro de casa ainda é decisivo para consumidores Baby Boomers – aqueles nascidos entre 1945 e 1965.

Contudo, ao analisarmos os países produtores de café, especialmente na América Latina, percebemos que o poder de compra vem crescendo pouco e o consumo de café parece mudar a passos bem mais lentos. No Brasil, maior produtor de arábica e segundo maior consumidor de café, a previsão é de que o consumo de café pronto para beber cresça apenas 2,8% entre 2024 e 2029. Ainda, as mudanças climáticas, a inflação e o aumento nos preços do café terão um impacto notável em uma região onde o poder de compra está estagnado e grande parte da população já luta para não reduzir o consumo de café.

Naturalmente, há grandes expectativas para os mercados asiáticos emergentes. Considerando apenas China, Indonésia e Índia, são nada menos que 3,1 bilhões de pessoas com renda crescente e adotando hábitos ocidentais, como o consumo de café.

Se considerarmos outros países asiáticos ou até africanos, com populações menores mas com crescimento econômico igualmente impressionante, não deveríamos ter motivos para o pessimismo. Importante lembrar que países de consumo tardio tendem a absorver as tendências contemporâneas dos mercados estabelecidos. Ou seja, até mesmo as gerações mais velhas que se dispusessem a tomar café nestes novos mercados, começariam a fazê-lo copiando hábitos de consumo das gerações mais novas de consumidores dos países tradicionais, portanto, incluindo em sua cesta de consumo os produtos prontos para beber.

A consultoria Fortune Business Insights estima que o valor do mercado de café de qualidade seja de US$ 101 bilhões, enquanto o valor do mercado de cafés prontos para beber seria de apenas US$ 3,1 bilhões, mas com perspectiva de crescer 22% até 2032. A América do Norte seria responsável pela maior parte deste crescimento.

Segundo a gigante do setor, Sucafina, a pandemia poderia ter desferido um golpe importante neste tipo de consumo. Mas o que aconteceu foi o contrário:  a empresa identificou um aumento significativo neste tipo de consumo durante os anos de 2020 até 2022. A explicação poderia ser de que cafés RTD reproduzem em casa o estilo de bebida consumidos nas cafeterias, que estiveram fechadas ou com capacidade reduzida durante o lockdown. 

Este aumento expressivo no consumo também é corroborado pela consultoria Nielsen, que identificou um aumento de 61% no consumo de bebidas prontas de café no Reino Unido desde 2020. Por último, a Technavio chegou a conclusões parecidas com as demais pesquisas, porém, ainda mais otimista em relação ao valor de mercado de nicho em questão. Ela estima que as bebidas prontas já movimentem US$ 15 bilhões e prevê um crescimento de quase 9% nos próximos cinco anos, vindos principalmente da América do Norte.

Todos os mercados têm a necessidade e uma certa tentação natural de querer prever o futuro e enxergar o que vem pela frente. Existe uma particularidade no mundo do café: contar ondas para evidenciar alguns marcos nos hábitos de consumo. Mas eu não cairei nessa armadilha, e não ousarei contar as ondas desse mar misterioso. Mas podemos ter a certeza de que, em alguns lugares, existe uma onda bege se aproximando. E talvez seja uma onda gigante.

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra e é mestre em economia agroalimentar. Atualmente, é consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

A fria guerra do cold brew

Por Gustavo Paiva

Em meu último artigo, me referi à guerra tarifária entre Estados Unidos e China e como isso poderia implicar o produtor de café no Brasil. Enquanto a situação parece desescalar e decisões mais racionais estão sendo tomadas, o mercado do café parece continuar, ainda, em uma guerra fria de estratégias entre as maiores economias do planeta. Em menos de um mês, tivemos dois anúncios que carregam muito simbolismo nas estratégias de duas gigantes do mercado do grão.

Após dois anos de revisão, a Starbucks finalizou o processo de atualização de suas normas C.A.F.E. Practices. Com a atualização, a empresa busca ter um melhor controle dos cafés que vêm sendo prospectados em países produtores, como o Brasil. Este controle se dará através de uma demanda maior por informações dos fornecedores, controles de campo para verificar e validar as informações fornecidas em todas as regiões fornecedoras de café e, ainda, uma avaliação das práticas correntes da indústria. 

A verificação será escalonada e implementada nos próximos anos. A fase inicial consiste na eliminação de produtores que infringem as práticas básicas, o que representa uma série de indicadores mais urgentes e inegociáveis, chamados de ‘‘Tolerância Zero”. A segunda fase, de transição para uma quantidade maior de novas práticas, verificará o cumprimento de indicadores principais, mas que não são eliminatórios e serão exigidos ainda este ano. As novas normas passam a ser obrigatórias para os produtores e, caso alguma não conformidade ocorra, ela deve ser reparada até o próximo controle agendado com o produtor. A terceira e última fase avalia a implementação e o cumprimento efetivo de todo o programa.  

O conjunto de normas da Starbucks completa dez anos em 2025, e desde o seu lançamento, muita coisa mudou. O consumidor ficou mais exigente e os casos de violações de normas trabalhistas no campo passaram a ganhar maior repercussão e menor tolerância por parte da sociedade. 

Por outro lado, uma de suas maiores concorrentes no mercado parece também estar agindo com muita atenção com o produtor brasileiro, porém, com uma estratégia diametralmente oposta. A empresa chinesa Luckin Coffee anunciou, durante uma missão diplomática brasileira à China, uma parceria para promover o café brasileiro no gigantesco mercado asiático. Os detalhes da parceria ainda precisam ser esclarecidos, mas um café temático em homenagem ao Brasil já foi aberto em Pequim em maio. 

É importante lembrar que, durante a cúpula do G20 de 2024, realizada no Rio de Janeiro, representantes da Apex haviam anunciado a compra de US$ 2,5 bilhões em café brasileiro pelos chineses da Luckin Coffee, o equivalente a algo em torno de 4 milhões de sacas ou 66% do consumo anual local.

Fica claro que uma parte significativa das relações comerciais da Luckin Coffee com o Brasil prospera, principalmente, com o apoio do enorme fluxo comercial entre os países, com um mercado  crescendo exponencialmente e com a boa relação entre agentes públicos dos governos nacionais. A Luckin Coffee ainda não entende o mercado interno brasileiro como central na sua estratégia comercial. Pois, apesar dos acordos firmados, a rede de cafeterias ainda não tem nenhuma loja física no Brasil e nem anunciou se abrirá alguma. 

Por outro lado, a Starbucks representa um mercado ocidental mais maduro. A empresa deixa claro seu desejo de estar integrada e próxima tanto do produtor como do consumidor e, portanto, mais sensível às críticas recebidas. Fica clara a vontade da empresa de Seattle de se distanciar dos casos de violações trabalhistas nos campos brasileiros e aumentar o nível de exigência aos seus fornecedores. Ela parece ter compreendido que mudanças são necessárias e que o nível de exigência anterior já não é suficiente. Foi delimitado um longo caminho a ser seguido, e esperamos que a cadeia estará melhor ao final dele.

No grande duelo entre duas potências econômicas, o café e o produtor brasileiros têm tudo para saírem vencedores. No entanto, o alinhamento automático às ideologias e governos parece ser mais do que contraprodutivo e, também, contraditório. Antes de mais nada, é preciso se perguntar que futuro queremos para a produção brasileira e que tipo de sociedade estamos construindo nos nossos campos. Além disso, é preciso que o consumidor esteja atento ao seu poder de transformação, longe de alinhamentos automáticos e da persistente demagogia.

O que anda em evidência é a disputa pelo consumidor dos cafés gelados, extremamente importante para as duas empresas. Mas, também, a frieza e competência na elaboração das estratégias, e claro, a disputa entre Estados Unidos e China, envolvendo todo o mundo em uma nova guerra fria.

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra e é mestre em economia agroalimentar. Atualmente, é consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Magalhães Paiva

Libertação de quem?

Por Gustavo Paiva

Nas últimas semanas testemunhamos uma inédita variação do mercado por conta do comportamento vacilante do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em meio a tantas tarifas, idas e vindas e tantas explicações de especialistas, seria normal ficar confuso neste cenário. Pertinente lembrar que a coluna está sendo escrita em um momento de recuo do presidente norte-americano, com o anúncio do congelamento das novas taxas e a perspectiva de um acordo com a China. Seria quase desrespeitoso com o leitor anunciar um prognóstico e tentar prever os próximos passos.

Sem entrar no mérito econômico ou patológico por trás de tais estratégias, é importante frisar que os argumentos de Donald Trump e de seus apoiadores, lá e aqui, são paradoxais e não se sustentam em qualquer período de tempo. A alegação básica é a de que os Estados Unidos vêm sendo explorados pela China e seus parceiros ideológicos e, ainda, pela Europa, que se aproveita da generosidade norte-americana para financiar a segurança do continente.

Aqueles que compram a ideia de que Trump está trabalhando pelos interesses do próprio povo, defendem que, em primeiro lugar, não haverá aumento de preços e inflação, já que os produtores internacionais serão obrigados a absorver os custos extras. Depois, que os consumidores norte-americanos irão passar a consumir mais produtos locais e, finalmente, que haverá aumento na arrecadação por conta das taxas.

São medidas que não acontecerão na prática por que elas não podem existir ao mesmo tempo. Se não houver aumento nos preços, por que os consumidores passarão automaticamente a comprar produtos locais? Se os consumidores comprarem mais produtos locais, as importações diminuirão. Então, como será possível arrecadar um valor extraordinário com taxas de importação? Impondo taxas a praticamente todos os países do mundo, qual seria o interesse de todos eles em aceitarem as taxas em vez de buscarem novos mercados? Portanto, são propostas contraditórias, que se anulam e não possuem nenhuma conexão com a realidade.

Uma das principais causas da queda de popularidade de Joe Biden e a consequente derrota nas eleições presidenciais de 2024 foi, justamente, o aumento da inflação e do custo de vida. Não existe a mínima coerência em taxar importações, reindustrializar os Estados Unidos e expulsar mão de obra imigrante. E pior, ainda esperar a queda no custo de vida e o controle da inflação local.

E o café no meio disso tudo? As medidas caíram como uma bomba no mercado, pressionando os preços e levando a uma queda que chegou a quase 20% em menos de dez dias nos contratos negociados em Nova York. Notícia ruim para o produtor e péssima para a indústria cafeeira norte-americana, que, em um cenário de preços altos e oferta apertada, terá que lidar com uma cadeia de suprimentos instável e consumidores com menor poder de compra.

Brasil e Colômbia, apesar de estarem em espectros ideológicos opostos ao presidente norte-americano, foram poupados. Cada um obteve uma taxa suplementar de 10% em todos os seus produtos comercializados. Mas o mais interessante neste caso, para o café, seriam as exorbitantes taxas aplicadas ao Vietnã, Indonésia e México.

Pelo lado mexicano, as tarifas aplicadas poderiam representar uma oportunidade para os produtos brasileiros no mercado americano. Apesar de o México produzir em torno de 4 milhões de sacas de café, o país é um dos maiores fornecedores de café descafeinado dos Estados Unidos.

Em relação aos países asiáticos citados, eles produzem juntos pouco mais de 40 milhões de sacas, principalmente robustas. Ambos estão entre os quatro maiores produtores de café. Se, por um lado, os baixistas do mercado sentiram alívio nos preços no curto prazo, por outro, esta medida pode representar um tiro no pé para quem aposta em uma queda no longo prazo. Acontece que Indonésia e Vietnã, além de produtores, são consumidores emergentes de café. Havendo um excesso de oferta e uma queda no preço do café no mercado local, a imensa população terá maior acesso ao grão e o consumo ficará mais acessível em países em que os salários e os padrões de consumo têm aumentado consistentemente. Os dois países já respondem por um consumo de algo em torno de 8 milhões de sacas para uma população combinada de quase 390 milhões de pessoas.

Apesar de todos os holofotes estarem na guerra comercial entre China e Estados Unidos, fica evidente a necessidade dos Estados Unidos forçarem os países vizinhos da China para a mesa de negociação. Isso se deve à considerável preocupação dos EUA em manter a zona de influência ao redor da China, e obrigar os vizinhos dos chineses a cumprirem com as vontades norte-americanas – em um comportamento de pressão política e comercial que, de certo modo, lembra o dispensado à Ucrânia na década passada. Portanto, é normal que todos os países do extremo oriente estejam preocupados e refletindo os próximos passos com a calculadora em mãos.

Não só os asiáticos, como todos os outros alvos das tarifas parecem estar cientes das perdas e ganhos em jogo. No “dia da libertação’’ anunciado por Donald Trump, o único que pareceu não entender dos riscos em jogo foi o próprio, já que pode ser o início de um isolamento histórico dos EUA. Ao final do processo, o planeta estaria livre de Trump.

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra e é mestre em economia agroalimentar. Atualmente, é consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva • FOTO Agência Ophelia

O café e os limites de uma economia dolarizada

Em pouco mais de uma semana, tivemos quatro fatos importantes em todos os países latino-americanos onde se debate ou já se implementa a economia dolarizada. A reeleição do empresário liberal Daniel Noboa no Equador, o anúncio do retorno da presença militar norte-americana no Canal do Panamá, o final do controle cambial de Javier Milei na Argentina e a recepção na Casa Branca de Nayib Bukele, presidente salvadorenho, alçado à categoria de grande aliado dos Estados Unidos. 

Na esteira da campanha pela dolarização da economia argentina com Javier Milei, das tarifas de importações de Donald Trump e do cenário econômico interno brasileiro, com desvalorização do real e alta da inflação, já há quem questione como seria o impacto, na economia do café, do aumento de países dolarizados. Seria esta uma alternativa para o descontrole inflacionário? Aumentaria a integração com a economia norte-americana? Seria viável no Brasil?

O governo do ultra-liberal Javier Milei na Argentina completou um ano. Eleito como um outsider, anti-sistema e representante da nova extrema direita sul-americana, ele declarou durante a campanha que uma das principais medidas, caso fosse eleito, seria a de dolarizar a economia argentina. 

A medida seria uma tentativa de colocar um freio na inflação galopante, ajudar no pagamento da altíssima dívida externa e trazer estabilidade econômica. Por outro lado, os críticos da dolarização apontam que esta seria uma medida desesperada e populista, onde os países perdem autonomia, delegando ao Banco Central dos Estados Unidos as próprias decisões de política econômica. 

Ainda, os países dolarizados perderiam o controle cambial e a capacidade de liquidez para, possivelmente, auxiliar instituições financeiras necessitadas de apoio. 

Com tal proposta na mesa da presidência do nosso maior vizinho, seria natural que algumas sugestões e divagações aparecessem do lado brasileiro. Como todo tema político e econômico recente, ainda mais envolvendo o presidente Javier Milei, o debate tem sido polarizado. Mas o que isso significaria, na prática, para a agricultura brasileira? Como o produtor seria afetado caso isso ocorresse? 

Por isso, aproveito a oportunidade de que, neste ano de 2025, dois produtores de café da América do Sul completam 25 anos de dolarização. Existe ainda um terceiro caso, o Panamá, passível de abordagem na cafeicultura, mas o país possui uma economia dolarizada desde sua independência, 121 anos atrás, e, portanto, não seria um exemplo representativo como os outros.

Começando pelo caso mais representativo, El Salvador já chegou a ser um dos maiores produtores de café do mundo no final do século XX, mas, nas últimas décadas, enfrentou uma queda acelerada na produção de café e perdeu protagonismo para seus vizinhos. No final do século, o país viveu crises inflacionárias, aumento da violência e instabilidade política. Depois da adoção da moeda estadunidense, a economia estabilizou-se, chegando até mesmo a um ponto de estagnação. A criação de empregos também emperrou e o país perdeu muita mão de obra jovem, rural e masculina, principalmente para os Estados Unidos. Além disso, as remessas de dólares provenientes dos imigrantes resultaram em menor efetividade, já que os destinatários das remessas também passaram a gastar em dólar. 

Do lado das contas públicas, o saldo não foi extremamente positivo: se por um lado, a dívida pública de El Salvador passou a ser melhor controlada, o país, que já possuía pouca competitividade e eficiência, tornou-se pouco atrativo e caro para o investimento estrangeiro. El Salvador perdeu protagonismo para seus vizinhos, produzindo hoje menos café do que todos eles. Segundo dados da Organização Internacional do Café (OIC), na última safra antes da aprovação da dolarização (1999-2000), o país colheu 3,5 milhões de sacos de café. Hoje, tem dificuldades em produzir 0,5 milhão. De lá para cá, a indústria cafeeira perdeu mais de 70 mil empregos e lembra, com nostalgia, da época em que o café era responsável pela metade do produto interno bruto do país. 

Enquanto isso, no Equador, a situação parece menos dramática, mas, ainda assim, desalentadora. Em um contexto similar, o país viveu, literalmente, uma erupção de problemas no final dos anos 1990, envolvendo crise econômica e política, além das consequências da erupção do vulcão Pichincha, situado a apenas alguns quilômetros do centro de Quito. A erupção forçou uma evacuação em massa da população e culminou com pedidos da sociedade por mudanças significativas e imediatas na política.

Uma das sugestões de mudança econômica foi o abandono da moeda e a adoção do dólar como divisa oficial. O que foi prontamente atendido por um governo que buscava uma resposta simples, fácil e rápida para todos os problemas econômicos. De lá para cá, a economia se estabilizou, bem como a inflação e a taxa de desemprego. 

Porém, no campo do café, o Equador ainda não decolou. Mesmo sendo o único país sul-americano que, ao lado do Brasil, consegue ter um fluxo de produção estável e operante tanto na produção de canéfora como de arábica, o país continua estagnado na casa das 400 mil sacas de cafés produzidas.

O caso panamenho é um pouco distinto, já que desde a sua independência da Colômbia, em 1903, o país possui uma moeda nacional automaticamente atrelada ao dólar: o balboa. Mas, mesmo assim, muitas das características econômicas encontradas nos outros países citados se encontram no território do canal: baixa inflação e dívida controlada, porém, pouca competitividade, ineficiência e falta de atrativos para investimentos estrangeiros.

O crescimento, nos três casos, é naturalmente baixo, e existe pouca margem de manobra para a criação de empregos. Tanto que, em todos estes países, a migração de população jovem, especialmente rural e masculina, ainda é preocupantemente alta, resultando em falta de mão de obra no campo. 

De todo modo, a transição para o dólar é sempre muito difícil, mesmo para economias pequenas. Ao contrário de todos eles, a Argentina é parte do G20, grupo das vinte maiores economias do mundo, e possui 54 milhões de habitantes, o que faria a conversão ao dólar uma tarefa muito mais complexa e demorada do que a dos outros casos citados. 

E, ainda, com um agravante: o país ser dependente da exportação de matérias-primas concorrentes dos Estados Unidos (trigo, carne, soja, petróleo etc.). Logo, a conversão, que já seria muito difícil de ser realizada, ganha ares absurdos, já que o país não possui dólares nem para pagar as próprias e, ainda, estaria concorrendo diretamente com os Estados Unidos, usando a moeda norte-americana em setores em que os estadunidenses são bastante eficientes. 

Dolarizar uma economia é simples de dizer, e muito difícil de fazer. Não à toa é sempre sugerida por populistas de propostas fáceis e superficiais. Em todos os casos, existiram ganhadores e perdedores, pontos positivos e negativos para a economia do país. No entanto, fica evidente que a produção de café, em todos os casos citados, esteve do lado perdedor. Não há evidências de que seria diferente por aqui. Lembrando ainda que, no caso salvadorenho, dada a atual decadência da produção local, podemos dizer que a dolarização pode ter sido ainda mais devastadora para a cafeicultura do que os treze anos de guerra civil. 

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra e é mestre em economia agroalimentar. Atualmente, é consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

Estaria o café seguindo os rumos do cacau e da baunilha?

Com preços em alta e avanço do café sintético, especialistas veem riscos do grão seguir o caminho da baunilha: popular no nome, raro na origem

Nos últimos dias, estive conversando com alguns especialistas no mercado de café e, invariavelmente, veio ao centro da discussão a situação do preço e da produção da próxima safra.

Um dos pontos interessantes dessas discussões foi a comparação de que o futuro do café tende a ser igual ao do chocolate ou da baunilha, já que os preços altos do café poderiam, em tese, inviabilizar o mercado do café biológico, assim como os preços altos impossibilitaram o acesso de grande parte dos consumidores ao cacau e à baunilha natural.

O resultado disso é que uma quantidade considerável de produtos comercializados hoje levam apenas produtos sintéticos, que substituem o cacau e a baunilha. Na prateleira, o resultado é uma série de produtos “sabor chocolate’’ ou “aroma baunilha’’. Como o caso da baunilha é ainda mais extremo e crítico do que o do cacau, nesta coluna me concentrarei apenas nele. O cacau fica para a próxima.

Podemos dizer que o futuro do cafezinho está nos laboratórios? Em uma busca simples na internet, podemos ver iniciativas animadoras para a produção de café sintético e agentes do mercado ansiosos para abocanhar uma parte do valor da cadeia de café que seria destinada aos produtores. 

Mas ocorre que o café não é simplesmente uma bebida. Menos ainda apenas uma substância psicoativa capaz de levar cafeína ao corpo e despertá-lo. Estima-se hoje que uma porcentagem mínima da baunilha consumida seja, de fato, biologicamente baunilha. As estimativas disponíveis de divisão do mercado alegam que algo entre 90% e 99% do mercado de baunilha seja dominado por algum tipo de ingrediente feito em laboratório que contém vanilina, um produto sintético derivado da orquídea que produz baunilha.

Até o século XVII, a baunilha era apenas um aditivo consumido pelos astecas na América Central. Em algum momento do final do século XVIII e início do século XIX, uma invenção dos próprios indígenas, chamada chocolatl, começou a se expandir pela Europa. E os aditivos usados na preparação deste passaram a ser testados separadamente. Logo, a baunilha deixou de ser um exótico complemento indígena de uma bebida rústica para acompanhar não só a bebida azteca como outras receitas da alta confeitaria europeia. Foi assim que começou o sucesso do chocolate e da baunilha.

O primeiro problema em termos de produção persiste até hoje: apenas uma abelha é capaz de polinizar a orquídea responsável pelos grãos de baunilha. Mesmo três séculos depois, ainda não foi possível replicar este processo de polinização – esta etapa da produção é executada à mão pelos produtores em outros continentes.

Hoje em dia, além do México, produtor original, Madagascar, Índia e Indonésia dominam o mercado produtor de baunilha. Esta limitação fez, portanto, o preço da baunilha ser alto desde o início, afetando o acesso aos grãos originais a partir dos primeiros momentos de consumo. 

E, de lá pra cá, a descoberta da vanilina e da sua produção em laboratório apenas democratizou o acesso a algo sintético. Portanto, seria o caminho inverso ao que o mercado do café estaria vivendo nos dias atuais, ou seja, um produto altamente popular nas mais diversas classes sociais da Europa e dos Estados Unidos caminha para ser, cada vez mais, exclusivo e restrito.

Mas isso seria apenas o início. Pois as diferenças no preço, no consumo e na produção são imensas e não apenas restritas à história. Repare que a baunilha, desde o início, sempre foi um aditivo, nunca o ator principal de algo. Basta a pergunta: quantas vezes você já viu os grãos de baunilha? Quantas vezes você convidou ou foi convidado para consumir baunilha ou, especificamente, um produto com baunilha?

Além disso, ao contrário do café, o consumo da baunilha esteve muito mais restrito ao território de produção e de consumo. Logicamente, quanto menos pessoas estão implicadas ou em contato com o produto original, menor é a capacidade dos indivíduos de distinguirem as diferenças e de valorizarem o produto que vem diretamente do pé. 

Enquanto a exportação de baunilha sempre foi monopólio de menos de dez países produtores, o café contou com exportações em três continentes diferentes, em algumas dezenas de nações. Mas a dispersão geográfica ocorre não só em relação à produção, como, também, ao perfil do consumidor.

Sabendo que o café carrega em si várias ideias de valores em relação ao estilo de vida, é natural que o consumo de café aumente em países onde, antes, não se consumia café e cujas economia e cultura não estivessem tão ligadas às economias consumidoras de café tradicionais. 

Porém, este cenário está mudando rapidamente desde os anos 1990. Na economia, temos o conceito de integração econômica, que é baseado em comércio, investimento estrangeiro direto e fluxo de capitais e pessoas entre dois países. De acordo com todos estes indicadores, os países denominados consumidores emergentes de café, que contam com grande população e que estão localizados no sul e sudeste da Ásia, aumentaram a sua integração econômica com as economias ocidentais e tradicionais consumidoras de café.

Muita gente está começando a tomar café agora. Logo, um consumidor recente e com baixo poder aquisitivo estaria mais predisposto a consumir café sintético, certo? Depende, pois além de o sul e o sudeste da Ásia serem consumidores emergentes, eles também são produtores de café, o que reduz o custo logístico e acaba gerando um contato direto com os produtores, as regiões de origem e o grão em si.

Existem mais diferenças do que semelhanças entre o café e a baunilha. Se por um lado, as poucas semelhanças são importantes e não podem ser negligenciadas, por outro, o café chegou a um patamar de preços altos até para o consumidor de classe média brasileira, o que facilitaria a aparição dos sintéticos. Ao que tudo indica, esse patamar não está tão alto para o consumidor médio dos mercados de países ricos, como não está tão alto para os consumidores muito ricos de mercados emergentes populosos. 

Apesar da grande empolgação e do amplo incentivo ao café sintético, me pergunto por que o mercado não investe nos próprios produtores de café? Uma das empresas líderes do mercado de café sintético se vangloria de ser altamente sustentável, sem dar provas desta reivindicação. Ao investir em startups de países ricos e se queixar do tempo necessário que os produtores necessitam para uma produção sustentável, o mercado faz mal a si mesmo e ao planeta. 

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra e é mestre em economia agroalimentar. Atualmente, é consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva • FOTO @regisblog