Mercado

A aposta no cacau brasileiro

Cadeia prepara-se para dobrar a produção até o fim da década e lança marca para promover o produto no mercado internacional, com foco em sustentabilidade

Foto: Ana Lee / AIPC e CocoAction Brasil

O Brasil está na contracorrente do mundo. Enquanto os maiores países produtores de cacau vêem a produção despencar por problemas como falta de renovação das lavouras, aparecimento de doenças, mudanças climáticas e garimpo ilegal, em território nacional, a cadeia cacaueira planeja dobrar a produção e atingir 400 mil toneladas por ano, tornando-se autossuficiente até 2030.

Esta é a meta do Plano Inova Cacau, desenvolvido pela Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira, órgão ligado ao Ministério da Agricultura) e pelo CocoaAction Brasil, com o objetivo de acelerar o desenvolvimento do setor cacaueiro brasileiro. “Para isso acontecer, um dos caminhos é dobrar a produtividade média das lavouras”, diz Guilherme Salata, coordenador do CocoaAction Brasil. Atualmente, o país produz cerca de 350 quilos por hectare ao ano.

Pode parecer um salto grande, mas, na verdade, o projeto é retomar a produtividade que o Brasil já teve antes da chegada da vassoura-de-bruxa, doença fúngica que dizimou os cacauais nos anos 1980. Isso fez o país, que era o segundo maior produtor de cacau do mundo, cair para a atual sexta posição.

Mas como fazer isso? “Expandindo a assistência técnica e gerencial aos produtores de cacau e ampliando o acesso a crédito”, diz Salata, referindo-se às medidas que têm sido foco dos esforços do CocoaAction, iniciativa da Fundação Mundial do Cacau que chegou ao Brasil em 2018. Não por acaso, uma das metas do Plano Inova Cacau é aumentar em 30% o número de produtores que recebem assistência técnica e extensão rural (Ater). Hoje, a cadeia estima que cerca de 14 mil produtores, em um universo de 93 mil estabelecimentos rurais com cacau no Brasil, tenham Ater.

Foto: Ana Lee / AIPC e CocoAction Brasil

 

Segundo os agrônomos do CocoaAction e as entidades parceiras, é possível duplicar a produção com práticas agrícolas simples, que boa parte dos produtores ainda não realizam. São elas a análise de solo, para indicar a quantidade de fertilizante que a lavoura precisa, e o manejo de incidência de luz.

Embora o cacau cabruca, sombreado pelas árvores da Mata Atlântica, e o cacau agroflorestal necessitem de um pouco de sombra, as podas são fundamentais para que o fruto se desenvolva bem.

A força da assistência técnica

A prova de que a assistência técnica faz toda diferença é o Programa Cacau+, do Ciapra, um consórcio de 14 municípios do Sul da Bahia que representa 1/3 da produção cacaueira do estado e congrega 25,6 mil agricultores familiares, com uma área de 99,6 mil hectares destinadas ao cacau. A iniciativa já beneficiou 2,4 mil famílias com o aumento de produtividade das lavouras e, consequentemente, incremento da renda e da qualidade de vida.

Voltado à difusão de conhecimento através de assistência técnica, o programa aumentou a produtividade dos agricultores assistidos de 336 quilos por hectare em 2021, ano em que foi lançado, para 624 kg/ha em 2024. Isso graças às análises de solos, correção com calcário e gesso e distribuição do kit mudas para os participantes do Cacau+.

José Alberto Vilas Boas e Zulmira, produtores de cacau agroflorestal em 4,5 hectares no município de Igrapiúna (BA), são um exemplo. “O programa nos trouxe conhecimento e nossa renda aumentou 60%”, diz Vilas Boas. Antes do Cacau+, eles adubavam a roça uma vez ao ano, mas jogavam muito fertilizante e as plantas não o absorviam. Com a orientação do técnico agrícola, começaram a escalonar a adubação, e o resultado foi um aumento de produtividade na área de 2,7 mil quilos em 2021 para mais de 5 mil no ano passado.

Casal Vilas Boas – Foto: Ciapra

O programa também foi um divisor de águas na vida de Josenildo de Jesus Souza, produtor de cacau consorciado com seringueira em Ituberá (BA), na comunidade de Caboge. Em 2018, ele colhia 405 kg em 1,3 hectare, mas, com o acompanhamento do técnico agrícola do Cacau+, a colheita saltou para 2,4 mil quilos no ano passado. “A partir do programa, com o aumento da renda, consegui realizar meu sonho de criança e estou fazendo faculdade de agronomia”, comemora Souza.

De acordo com o Banco Central, o total de crédito rural acessado pela agropecuária em 2024 foi de R$ 374 bilhões, sendo R$ 253 bilhões destinados à agricultura. Deste montante, R$ 234 milhões foram para a cultura do cacau, sendo R$ 158 milhões direcionado ao Pronaf (via Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). “O total de crédito rural público para o cacau representa 0,06%. É inexpressivo, tem muito espaço para crescer”, diz Salata.

O produtor de cacau Josenildo de Jesus Souza – Foto: Ciapra

Um salto no crédito

Porém, a situação já melhorou. Em 2017, o volume de crédito do Pronaf concedido aos produtores de cacau foi de R$ 19,7 milhões – número que saltou para R$ 158 milhões no final de 2024. “Temos trabalhado com a cadeia para ampliar o acesso a crédito e impulsionar os agricultores a melhorar o manejo da lavoura, para aumento de produtividade e, consequentemente, expandir renda e qualidade de vida”, diz o coordenador do CocoaAction Brasil.

Segundo Salata, o grande gargalo para o acesso a crédito dos produtores de cacau é a falta de regularização fundiária, principalmente no Pará, e da regulamentação ambiental, na Bahia, além da falta de assistência técnica. Com estes entraves, diz ele, os agricultores não conseguem participar de políticas públicas.

De cada 100 produtores de cacau no Brasil, 85 estão à margem do sistema financeiro e 75 nunca receberam assistência técnica, de acordo com o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária). Ao mesmo tempo, cerca de 80% da produção de cacau no Brasil depende dos agricultores de pequenas propriedades. O resultado dessa combinação é baixa renda e baixa produtividade.

Não por acaso, os mecanismos de crédito alternativo têm crescido. Um deles é o Fundo de Impacto Kawá, no modelo de blended finance (financiamento misto, em inglês), que mescla recursos públicos, de fomento ou filantrópicos, ao capital privado.

Foto: Ciapra

Criado pelos Instituto Arapyaú, Violet, ONG Tabôa Fortalecimento Comunitário e MOV Investimentos, a iniciativa tem a meta de destinar R$ 1 bilhão para custeio de pequenos produtores em sistemas sustentáveis até 2030. “Identificamos que a baixa renda para as famílias continuarem a viver do cultivo é resultado da falta de recursos para fazer investimentos e da falta de uma assistência técnica”, analisa Vinicius Ahmar, gerente de Bioeconomia do Instituto Arapyaú. A Ater, inclusive, é fundamental para ajudar os produtores a resolver os problemas fundiários de regularização ambiental.

Por isso, o fundo acredita que o crédito tem que vir ao lado da assistência técnica. “Assim, o técnico agrícola ouve o produtor e pensa com ele o que pode ser feito na área para ter melhores resultados, como aumentar a renda, pagar o crédito e conseguir tomar outros, iniciando um círculo virtuoso”, diz Ahmar.

O Kawá seguirá o modelo dos dois Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) Sustentáveis para o Cacau emitidos pela Tabôa, que já beneficiaram mais de 2,8 mil pessoas. Na primeira fase, o fundo deve contemplar, com cerca de R$ 30 milhões, 1,2 mil produtores da Bahia e do Pará. Além disso, a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (Aipc) sinalizou que irá mobilizar seus associados para comprar as amêndoas dos produtores contemplados pelo Kawá.

Foto: Ana Lee / AIPC e CocoAction Brasil

Os ventos estão favoráveis ao setor. A procura por cacau, aliada aos problemas de fornecimento, fez o preço dele decolar. A tonelada da amêndoa chegou a ultrapassar US$ 12 mil em 2024 e, no fechamento desta reportagem, estava em torno de US$ 10 mil. “A hora de investir é agora, principalmente no aumento de produtividade, porque cacau é commodity. Não dá para saber até quando o preço vai ficar neste patamar”, diz Salata. “Mas, se o produtor tiver produtividade alta, quando o preço cair, ele continuará ganhando dinheiro”, acrescenta.

Holofotes para o cacau brasileiro sustentável

No final de março, foi lançada a marca Cacau Brasileiro – Gente, Floresta e Cultura. A iniciativa – feita pela Associação das Indústrias Processadoras de Cacau ao lado da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Cacau e Sistemas Agroflorestais, do Centro de Inovação do Cacau (CIC), do CocoaAction Brasil, da Federação da Agricultura do Estado da Bahia e do Instituto Arapyaú – quer promover a imagem do produto em mercados estratégicos, como Estados Unidos e países da Europa, e colocar o Brasil entre os maiores exportadores de cacau sustentável até 2030. “A marca é resultado de um movimento setorial, que visa fortalecer o cacau brasileiro, considerando aspectos que o diferenciam do restante do mundo”, diz Ricardo Gomes, gerente de Desenvolvimento Territorial do Instituto Arapyaú.

Para as entidades, o cacau brasileiro tem atributos únicos no cenário internacional. Um deles são as centenas de produtores e comunidades locais vinculadas à história do cacau, com tradição na produção do fruto. Outro atributo é a floresta, já que 80% da produção nacional vem de agroflorestas ou do sistema cabruca – modelos produtivos que preservam a biodiversidade, ajudam na resiliência climática e geram prosperidade aos agricultores. Por fim, há o elemento ligado à cultura: os cacauais fazem parte da identidade das regiões produtoras, que têm receitas e festivais atrelados ao fruto, que também é uma alavanca para o turismo.

A expansão recente do cacau também entra na conta. Nos últimos anos, as plantações de cacau têm alcançado Cerrado Baiano, Tocantins e São Paulo, regiões não tradicionais de cultivo e com projetos de larga escala, tecnologia e inovação. “Com a marca, queremos atrair, no curto prazo, investimentos para o Brasil de quem aposta no cacau com atributos de sustentabilidade e rastreabilidade para atender à demanda de abastecimento global”, explica Gomes, referindo-se à falta de amêndoas nos países africanos.

Foto: Ana Lee / AIPC e CocoAction Brasil

Hoje, o Brasil não é autossuficiente – produz cerca de 200 mil toneladas de amêndoas ao ano – e precisa importar para suprir a demanda interna. “A aposta da iniciativa é somar esforços com políticas públicas que contribuam para que o país retome o protagonismo da cadeia de valor e suprimento global do cacau”, diz Guilherme Salata, coordenador do CocoaAction Brasil.

A mobilização do setor com o Plano Inova Cacau e o lançamento da marca, entre outras ações, prepara o terreno para quando o Brasil tiver excedente de produção. Nos tempos áureos do cacau no país, o “cacau bahia superior” chegou a ter um preço diferenciado em bolsa por causa da qualidade. Mas, com o declínio a partir dos anos 1990, o Brasil perdeu o posto de produtor de cacau fino.

Desde 2019, porém, o CIC passou a organizar o Concurso Nacional de Qualidade de Cacau, com objetivo de promover a produção de cacau especial. Em 2023, o Brasil voltou a ser reconhecido pelo Conselho Internacional de Cacau (Icco) como país exportador de cacau com 100% de qualidade. “No ano passado, na 6ª edição do Cacao of Excellence (CoEx), o ‘Oscar do Cacau’, o Brasil ficou em 2o lugar, com dois produtores com medalha de ouro e um com medalha de prata”, lembra Cristiano Villela, diretor científico do CIC.

As estimativas, portanto, são animadoras. Até 2030, o Brasil tem potencial de participar com 13% do mercado global de cacau. Essa é a projeção de um relatório do Instituto AYA, que colaborou com o Plano de Transformação Ecológica do Governo Federal. Com isso, o país estaria entre os três maiores produtores do mundo, gerando US$ 2,3 bilhões em receita e ofertando até 300 mil empregos.

Texto originalmente publicado na edição #88 (junho, julho, agosto de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Lívia Andrade

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