•
Quando a qualidade abre novas portas
Por Caio Fontes
Durante décadas, o setor de café no Brasil trabalhou para resolver um desafio fundamental – o de produzir e de consumir qualidade. Esse esforço coletivo envolveu um profundo conhecimento em pesquisa, tecnologia, capacitação, manejo pós-colheita, torra e preparo da bebida. O resultado é visível, pois nunca produzimos tantos cafés de alta qualidade nem tivemos tanto acesso à informação ou profissionais tão dedicados a aperfeiçoar cada aspecto do grão.
Essa transformação, que merece ser celebrada, também nos convida a outra reflexão. Quando a qualidade abre novas portas, para onde elas nos levam?
Em primeiro lugar, é importante deixar claro que esta análise não diminui a relevância da qualidade do café nem dos desafios que a cadeia enfrenta. Produzir cafés melhores, mais sustentáveis e resilientes e com eficiência continua sendo prioridade para o setor. A excelência agronômica, ambiental e operacional segue sendo a base sobre a qual todo o restante é construído.
Porém, a qualidade pode estar ganhando importância ainda maior e abrindo novas perspectivas. Para percebê-las, basta observar como os consumidores escolhem, compram e se relacionam com o café. Eles querem cafés com história, experiências gastronômicas, espaços de convivência e marcas com valor, identidade e propósito.
Uma das oportunidades mais interessantes está em modelos de negócio ancorados nos cafés especiais. Eles sugerem que a qualidade do grão já cumpriu sua função, transformando-se em requisito básico, a partir do qual surgem novas formas de criar valor, diferenciar marcas e desenvolver relacionamento com os consumidores.
Em uma visita recente a Londres para acompanhar o The London Coffee Festival, notei como muitas redes de cafeterias na cidade não se empenham mais em provar aos clientes que servem um bom café. Oferecer bebida de qualidade é uma premissa. A diferenciação entre essas empresas acontece em outros territórios, como hospitalidade, gastronomia, atendimento, velocidade de serviço, ambiente, curadoria e acessibilidade de preços. Propósitos que cada empresa escolhe em focar.
A brasileira The Coffee é um bom exemplo. Sua proposta não foi convencer o consumidor de que ela serve o melhor café do mercado. A empresa, que já tem mais de 300 unidades nos cinco continentes, combinou qualidade consistente de café a conveniência, tecnologia, design, localização e eficiência operacional. A boa bebida está lá, mas não é a única mensagem.
Talvez esta mudança de foco seja um dos sinais mais claros da maturidade do setor cafeeiro. Até pouco tempo, nosso desafio foi mostrar que o café do Brasil tem valor. Hoje em dia, em diferentes situações, a oportunidade está em ampliar as formas pelas quais esse valor pode ser percebido e capturado pelos clientes.
Isso exige uma mudança de perspectiva. Nem sempre os consumidores procuram cafés mais complexos, descrições mais técnicas ou novos vocabulários para adjetivar a bebida. Muitas vezes, eles buscam algo mais descomplicado, ou seja, conexão, descoberta, bem-estar, praticidade, pertencimento ou, simplesmente, um bom momento compartilhado, pois já entendem o que é qualidade básica em café.
Compreender essas motivações não significa, de modo algum, abandonar a busca pela excelência do grão, mas reconhecer que o seu valor não termina na apreciação sensorial, mas inclui, também, o modo como as pessoas o incorporam.
Quando entendermos melhor como os consumidores se relacionam com o café, seremos capazes de abrir espaço para novos serviços, experiências e formatos de varejo, assim como disponibilizar novas bebidas e desenvolver iniciativas atraentes em turismo, hospitalidade e educação. Em outras palavras, essa nova compreensão do mercado quanto ao consumo do café irá ampliar possibilidades em um ecossistema já construído sobre bases sólidas de qualidade.
Aproveitará quem tiver qualidade nessa visão.







Deixe seu comentário