Café com História por Convidados Especiais

Itinerário literário do café

Por Moisés Stahl

Bebedor contumaz de café, o literato francês Honoré de Balzac gostava de sugeri-lo como um bom companheiro na revisão de textos. Reforçava o poder estimulante da bebida ao dizer: “Escreva com vinho, revise com café”. Não só apreciado por escritores, o café e seu ambiente foram representados na literatura, sobretudo brasileira, com personagens e relações cuja base é a fazenda de café. Desde a narrativa fundadora de sua origem, o café fez parte do dia a dia dos seus produtores, consumidores e dos que imaginam histórias sobre o grão.

Uma das marcas da cafeicultura é seu caráter itinerante: a produção se desloca, dentro de um país ou no cenário global. No fim do século XVIII, quando Saint-Domingue — então colônia francesa e maior produtora mundial — entrou em colapso com a Revolução do Haiti (1791-1804), o Brasil expandiu suas lavouras, superou o Haiti e consolidou-se como principal produtor ao longo do século XIX.

Outro exemplo: da Etiópia, o grão segue para o Iêmen, que se torna o primeiro polo de produção intensiva e exportação nos séculos XVI e XVII. Em sua rota global, chega ao Pará, em 1727. Do Vale do Paraíba — primeira grande região produtora — ao Oeste Paulista, que no fim do século XIX assumiu perfil capitalista, o café estruturou uma verdadeira sociedade cafeeira.

Mais que um fenômeno econômico, o café forjou um imaginário social e cultural. Mas é possível falar em uma literatura do café?

Na expansão dos cafezais, distinguem-se três áreas: zonas velhas, de baixa produtividade; intermediárias, de plena produção; e pioneiras, em plantio ou formação. Ao avançar, a cafeicultura transformou a paisagem e estruturou uma sociedade fundada nas relações de sua produção — base material de uma imaginação literária povoada por narrativas e personagens inscritos no ambiente do café.

Não foram poucos os literatos brasileiros que escreveram sobre o café. Embora seja longa a lista desses autores, alguns foram notáveis em transpor para a ficção o espírito de uma época.

Talvez Monteiro Lobato tenha sido quem mais galvanizou a literatura do grão. Nascido em Taubaté, no Vale do Paraíba, o escritor cresceu em uma realidade marcada pelo legado da cultura cafeeira. Pela fazenda desfilam personagens que mantêm vínculo com uma cultura já superada, em volume, pela produção pujante do Oeste Paulista no final do século XIX.

Com a cafeicultura do Vale em declínio, muitos produtores — como observou, em 1883, o cientista francês Louis Couty — seguiam presos a um modelo extensivo, monocultor e dependente da mão de obra escrava, já incompatível com as transformações econômicas do Oeste Paulista. Para Couty, os cafeicultores do Vale viviam o lado passado do futuro; no Oeste, o futuro acontecia.

No Vale de Lobato, um personagem sintetiza essa realidade presa a uma dinâmica colonial de produção: o major Mimbuia, do conto “Café! Café!”, publicado em 1900 no jornal O Povo de Caçapava e depois reunido em outras obras do autor. Preso à terra e à rotina da lavoura, à espera de incentivos oficiais e já em crise, Mimbuia profere as últimas palavras: “Há de subir, há de subir, há de chegar a sessenta mil réis em julho. Café, café, só café!”.

Em 1906, com o Convênio de Taubaté, seu desejo de amparo oficial seria, afinal, atendido. Para Lobato, Mimbuia encarnava o atraso nacional: “Na cabeça, já branca, habitavam ideias de pedra”. Pensava só no café, não admitia outros gêneros, não incrementava a produção com máquinas ou diversificação — queria lucro sem modernização.

Em crônica de 1924, Ribeiro do Couto, atento à linguagem e à cultura forjadas pela cafeicultura, permite ao leitor ver a confluência de tempos num “triangulozinho de terra” entre São Paulo, Rio e Minas — espaço onde se ergueram, com a força do café e de mãos negras, cidades como São José do Barreiro, vizinha à próspera Bananal, “herdeira de tradições e de riqueza cafeeira”. Esses tempos sobrepostos surgem na figura de Samuel, negro centenário: “Tinha mais, mais de cem anos / E teus olhos tão humanos / Eram cheios do Brasil”.

Ao descrever e refletir sobre o contexto e a figura de Samuel, o autor — atento ao falar local — registra que o velho tomava o café “acompanhado com duas mãos”: numa, a bebida; noutra, a batata-doce. A crônica evoca o Brasil do café antes vibrante, então esgotado, sem o ritmo do Oeste. Herdeiro de tradições, o velho Vale do Paraíba já não prosperava, mas preservava a cultura; o progresso seguia os trilhos rumo ao Oeste.

No Oeste paulista, no início do boom produtivo, José de Alencar publicou, em 1872, o romance Til. A trama se passa no cotidiano de uma fazenda de café em Campinas, então área de rápida expansão. Detalhista, o narrador descreve a terra coberta por crosta de argila roxa, “afamada na província por sua espantosa fertilidade”. Ao incorporá-la ao texto, Alencar reforça que a riqueza advinha dessa fecundidade — guardada na mata ou revelada pela derrubada da floresta.

Na confluência dos rios Atibaia e Piracicaba, a fazenda, diz o narrador, estava “no seio de uma bela floresta virgem, porventura a mais vasta e frondosa das que então contava a província de São Paulo, e [que] foram convertidas, a ferro e fogo, em campos de cultura”. A expansão da cafeicultura sistematizou esse desmatamento, feito, literalmente, a ferro e a fogo.

A cena da queima da mata derrubada é recorrente na literatura e em livros de memória. “Papai falava em aumentar os cafezais, pois que, atravessando a estrada de ferro, tinha mata e terras muito boas. Levaram a derrubar essa mata, deixaram secar e, quando menos esperávamos, papai nos disse que iria fazer a queimada, ia pôr fogo na derrubada”, relata Brazilia Oliveira de Lacerda em suas memórias Dias Ensolarados no Paraizo, das décadas de 1890 e 1900.

As queimadas eram mais frequentes nas áreas de plantio recente. Enquanto o Vale vivia a estagnação, o Oeste acelerava a expansão. Nesse cenário surge outro personagem de Lobato, o Jeca Tatu, símbolo da inércia atribuída ao Vale do Paraíba. No auge produtivo, entre as décadas de 1840 e 1870–80, o Oeste paulista afirmava-se como nova frente cafeeira.

Com as transformações e o passar dos anos, o Vale tornou-se menos produtivo, enquanto o Oeste avançava em busca de novas terras férteis. Embora a produção em Campinas e Ribeirão Preto mantivesse bom ritmo — ainda que sujeita a oscilações —, as mudanças político-econômicas nacionais e internacionais passaram a afetar diretamente o café brasileiro, sobretudo após a Crise de 1929 e a Grande Depressão.

Em Fazenda, romance de 1940, Luís Martins retrata a decadência do café e matiza a ascensão do algodão, insumo-chave da indústria têxtil já em crescimento. O narrador observa que “o pessoal que tinha colhido o algodão achava o café um serviço melhor”. A tradição cafeeira — e a preferência dos trabalhadores pelas roças de café — gerava resistência à novidade do algodão.

“O café é uma epopeia”, disse Monteiro Lobato, ao reafirmar o caráter épico do fruto. Para ele, quando a literatura brasileira tomasse consciência de sua missão, “a epopeia, a tragédia, o drama e a comédia do café serão os grandes temas de quantos sentiram em si a fagulha divina”.

Lobato propôs uma agenda literária do café, ancorada numa história de mudanças econômicas e sociais. A cafeicultura forjou uma cultura de narrativas literárias reveladoras do clima das relações sociais, tornando-se fonte de informação e entretenimento para uma sociedade que prosperou em ritmos distintos da produção cafeeira.

É possível, assim, responder afirmativamente à questão do uso da literatura na elaboração do conhecimento histórico: embora não seja relatório, carta ou jornal, ela inscreve-se na realidade histórica de seu tempo.

Moisés Stahl é doutor em história econômica pela USP e autor de Louis Couty e o Império do Brasil (Editora da Ufabc).

Texto originalmente publicado na edição #91 (março, abril e maio de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Moisés Stahl • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

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