Pelo Mundo por Gustavo Paiva

Uma copa, três cafés

Por Gustavo Paiva

É a primeira vez na história da Copa do Mundo da Fifa que três países sediam o evento. Também pela primeira vez, quarenta e oito países de todos os continentes disputam o título máximo do futebol. 

Praticamente todos os países têm alguma história em particular ligada ao café, seja no consumo, na história ou na produção. Salvo raríssimas exceções como Uzbequistão, muitas histórias podem ser contadas através de xícaras de cafés.

Falando apenas das sedes, México, Estados Unidos e Canadá são três perfis e influências bastante distintas no mercado. O México, com seus quase cinco milhões de sacas de café produzidas a cada ano, está entre os dez maiores produtores do grão. 

Mas o país não figura nem entre os classificados para uma eventual “oitavas de final’’ quando o assunto é consumo. Este ainda é baixo no país, e praticamente tudo o que é produzido é exportado para os vizinhos do norte, que também sediam esta Copa, assim como para Europa e Ásia. 

Por outro lado, a indústria e o consumo de café solúvel no México são avançados, sendo esta a modalidade de consumo mais comum no país. A indústria mexicana de solúvel é, ainda, referência mundial no processo. 

Os Estados Unidos dispensam comentários, sendo o maior consumidor, maior importador e líder em vários quesitos relativos à inovação em termos de consumo. Por ser um país frequentemente em evidência, as novidades dos Estados Unidos sempre causam certo impacto. 

O que talvez poucas pessoas saibam é que, com as tarifas aplicadas pelo presidente Donald Trump e o aumento de temperaturas ao redor do globo, a produção de cafés no próprio país, apesar de ínfima, recebeu muita atenção ultimamente. 

As origens consideradas exóticas – Havaí e Porto Ric0 – têm ganhado a companhia de experiências em baixa escala na Califórnia e na Flórida. Considerando o alto custo de implementação de um cafezal e da mão de obra, é pouco provável que o país deixe de ser consumidor e passe a ser produtor de café.

O Canadá ainda busca seu lugar ao sol no consumo de café, já que o cultivo é impensável no país devido às baixas temperaturas. Mas a indústria local tem se movimentado para trazer o café ao centro das atenções. Importante ressaltar que o Canadá ainda guarda laços profundos com o Reino Unido. Só em 1982 ele cortou totalmente sua relação de dependência com o país colonizador – até então, o parlamento britânico tinha poderes de alterar a constituição canadense. Mas, ainda hoje, o chefe da monarquia britânica é considerado rei do Canadá. Este papel é meramente simbólico, limitado a funções cerimoniais.

A consequência desta longa dependência do Reino Unido, implicou, entre os canadenses, no forte consumo de chá e no tímido consumo de café, que apenas recentemente tem decolado. Graças à terceira onda e aos grãos de qualidade, o Canadá ganha protagonismo e recupera o nível de consumo com certo atraso, se comparado a outros países de mesmo nível de renda. 

Porém, a associação do consumo de café a uma identidade estadunidense, a alta do custo de vida e a inflação nos preços do grão em um mercado imaturo podem frear a guinada do consumo do país nos próximos anos, e mantê-lo como um consumidor majoritariamente ligado ao chá.   

A diversidade em relação ao consumo, à produção e ao comércio das três sedes da Copa ilustra bem a diversidade do próprio mercado do café, e mostra como países vizinhos podem desempenhar papéis distintos e ocupar diferentes contextos ao longo da cadeia. 

Mas, o mais impressionante é analisar a tabela do mundial e constatar que praticamente todos os países participantes têm algo a dizer ou ocupam algum lugar de interesse em relação ao grão, desde o pequeno Curaçao, um entreposto comercial holandês, até o Japão e seu gigantesco mercado de consumo. Desde a pequena produção de cafés exóticos de Cabo Verde até a imensa produção brasileira, praticamente todos neste mundial têm algo a mostrar sobre futebol e café. 

Gustavo Magalhães Paiva é formado em relações internacionais pela Universidade de Genebra, é mestre em economia agroalimentar e foi consultor das Nações Unidas para o café.

TEXTO Gustavo Paiva

Deixe seu comentário